O Homem que Descobriu Nietzsche

 Mário Fernando Lins

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0101]
[Autor:
Mário Fernando Lins]
[Título: O Homem que Descobriu Nietzsche]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 13.140]

(1)

O ar estava gelado. Aquilo resumia bem a situação: gelado como rabo de
foca, mesmo estando ele coberto da cabeça aos pés. Um casaco de lhama,
segundo dissera o vendedor, era leve e quente como nenhum outro.
Porém, naquele momento, ele preferia dez quilos a mais de roupa,
contanto que deixasse o maldito frio do lado de fora, longe de sua
pele arrepiada.

Haviam previsto uma nevasca para logo mais, não era verdade? Logo no
dia em que ele finalmente subira naquela porcaria de prédio, o tempo
lhe pregara uma peça. Mais uma. Pela manhã, tudo limpo, o sol
brilhando, ele programara a pequena excursão pela ilha mais filmada de
todos os tempos: Manhattan. Não que fosse muito fã dos americanos,
achava todos de um patriotismo publicitário que dava nojo. Na noite
anterior, ao retornar para o pequeno hotel em que se hospedara,
resolvera ligar a TV só para descontrair e quebrar um pouco a solidão.
No mesmo instante, uma imagem da bandeira americana tremulando ao
vento, acompanhada do insosso hino americano, fizera-o sentir um soco
na altura do estômago. Caíra sentado na cama, que por pura sorte
estivera estrategicamente posicionada de modo a apará-lo, aturdido com
a falta de gosto daquele povo.

Ele tinha orgulho de ser brasileiro, pois nenhum brasileiro poderia
ser estúpido o suficiente para ser patriota. E, de uma forma meio
estranha, achava que aquilo era uma espécie de patriotismo para com o
povo. Que se danassem os políticos, que se danassem os poderosos,
"nóis sofre mas nóis goza". E não importava o quão mal das pernas
andassem o Congresso , a balança comercial e as políticas cambiais,
era só ter clássico no fim de semana que todo mundo entrava em festa.
Afinal de contas, ninguém mais no mundo era tetra-campeão...

Era aquilo que o fazia feliz em ser brasileiro: o carisma do povo,
mesmo atolado em merda até o pescoço; sua capacidade em fazer de tudo
uma animação geral, ainda que, ao chegar em casa, não houvesse muito
para comer. Na verdade, não era exatamente um orgulho que sentia, mas
uma profunda inveja, embora não fosse muito consciente disso:
procurava mascarar esse sentimento através de uma falsa admiração pela
alegria do povo com o velho panis et circensis...

Uma rajada de vento o desequilibrou, e ele teve que se segurar nas
grades de proteção para não cair. Haviam fechado o último andar,
proibindo o acesso para visitação devido às condições climáticas. Mas
tudo bem, ele dera um jeito de enganar os bobos fantasiados de guarda,
e conseguira se esconder: o jeitinho brasileiro. O céu era de um cinza
chumbo tão pesado que ele finalmente compreendeu porque os antigos
temiam que ele caísse sobre suas cabeças. O sol se punha e o dia
escurecia rapidamente, devido à ameaçadora cobertura acinzentada. Em
pouco tempo, a fraca luz permitia discernir apenas os arranha-céus
mais próximos ao Empire State Building. Pensara em subir nas Twin
Towers, o novo World Trade Center, que havia tomado o título de mais
alto prédio do mundo, mas seu coração quisera conhecer as intimidades
do Empire State primeiro. Aquele estilo art déco tinha um apelo muito
mais forte que a forma sem graça do rival mais moderno.

Então ele vestira seu casaco de lhama de merda, que não esquentava
bosta nenhuma, e saíra pela manhã nova-iorquina. Comprara um copo de
café aguado na esquina do hotel e tomara um táxi para o aglomerado de
prédios reluzentes, chegando lá quase meia hora depois. Ele pensara em
pegar o metrô, mas a imagem da multidão de trabalhadores engravatados
se espremendo em túneis profundamente cravados na terra não lhe
agradara nem um pouco.

Gostava de ar, de espaço, e talvez por aquele motivo tivesse tido a
idéia de viajar tantos quilômetros só para ficar ali, de pé, no topo
do mais famoso arranha-céu do mundo. Aquilo e um propósito maior, o de
tentar algo novo, diferente. Dar um tiro na cabeça, todo mundo dava.
Agora, pular do Empire State Building, isso era coisa para poucos, uns
privilegiados. Podia contar nos dedos de uma mão os sujeitos que
conseguiram tal proeza; dentro em pouco, se juntaria a eles.

O dia foi cedendo aos poucos, dando lugar à escuridão ainda mais fria
da noite. Ele se recolhera a um canto, sentado de costas para o
parapeito, buscando se proteger do vento. Por volta das oito horas,
começou a nevar. No início, apenas uns flocos incertos bailavam
lentamente pelo céu, caindo aqui e ali, indo derreter na sujeira das
ruas. Depois, uma verdadeira tempestade de neve caiu sobre a cidade.
As ruas ficaram desertas, e logo foram cobertas pelo tapete frio e
branco do inverno.

Para ele, tanto melhor. Planejara ficar esperando até depois da
meia-noite, para ter certeza de que não pousaria na cabeça de nenhum
desavisado que poderia, por azar, estar no lugar errado, na hora
errada. No final das contas, o tempo não tinha sido de todo mal.
Ninguém em sã consciência estaria lá embaixo naquele gelo. Caso
estivesse, só poderia ser por destino, e quem era ele para discutir
sobre destino? Ele era a prova viva de que coisas como destino e karma
tinham seu lugar no mundo. Se algum bêbado infeliz estivesse passando
por lá justo no momento em que ele se espatifasse na calçada, aquele
miserável teria mais é que morrer mesmo! "Vá ser azarado assim no
inferno!"

Levantou-se, a neve que cobria suas pernas dormentes cedendo passagem,
e protegeu a face do vento cortante. Seu cachecol voou longe, mas
aquilo já não importava: era chegada a hora da verdade. Será que ele
finalmente conseguiria? Apesar do frio letárgico, seu coração batia
acelerado, como das outras vezes em que se programara para tirar a
própria vida. Mas algo dizia que esta noite ele finalmente
conseguiria, que tudo daria certo.

Se aproximou da grade, subindo nela com facilidade, até que a sensação
de vertigem o tomou de assalto. Estava quase passando para o outro
lado quando olhou, através dela, para o abismo que o aguardava. Apesar
de todo o frio daquela noite, foi apenas naquele preciso instante que
seu coração gelou. E os músculos não respondiam mais: o corpo todo
parecia ter aderido a um motim comandado pelo antigo instinto de
autopreservação, aquele miserável.

O que o deixava mais irado era o fato de ter consciência da patética
imagem que deveria ter: um homem magro, alto, de pele clara e nariz
grande, beirando os quarenta anos, com os cabelos escuros escondidos
debaixo de um gorro preto de lã, pendurado na grade de proteção do
centésimo-porradésimo andar de um dos maiores prédios do mundo, duro
de medo, com um casaco pardo que não esquentava nada, no meio de uma
tempestade de neve. Hilário.

Deve ter sido a raiva a providenciar a coragem que faltava, pois
alguns instantes depois ele se mexia de novo, rumo à queda.
Conseguiria dessa vez. Tudo daria certo, e ele poderia finalmente se
encontrar com... Débora... Pare. Não pense nisso. Não pense nela. E
uma das pernas passou por cima da cerca. Não chore agora, apenas
continue! Você vai conseguir, você vai conseguir desta vez! A outra
perna também passava para o outro lado. Você vai conseguir você vai
conseguir você vai conseguir você vai conseguir você vai conseguir
você vai conseguir você vai... Ficou de costas para o local onde
passara as últimas horas, olhando o precipício de frente, os braços
abertos, segurando a cerca com os dedos, o corpo pendendo para a
frente.

Você vai conseguir! E pulou. As luzes da cidade se tornaram um borrão
sem sentido, e a sensação de queda foi tão ruim que seu coração parou
de bater antes mesmo de chegar ao chão. Caso alguém estivesse olhando,
veria apenas um corpo inerte caindo, tal qual os bonecos dos velhos
filmes hollywoodianos. Seu corpo atingiu a calçada com um baque surdo,
a neve ao redor vermelha de sangue, igual a gelo moído com xarope de
morango. Após alguns minutos, o corpo já estava totalmente coberto; só
seria achado no dia seguinte, quando as calçadas fossem desobstruídas.

(2)


Click. Uma pequena chama surgiu, trêmula, saída da escuridão. Na noite
seca de Brasília ela oscilou, findando por acender um cigarro Gudan
Garan. O característico odor de cravo encheu a pequena sala escura, um
cheiro adocicado. Na ponta oposta à pequena brasa estava um homem na
casa dos trinta. Seus lábios seguravam frouxamente o cigarro, que
pendia num ângulo acentuado, no canto direito da boca. Seus olhos
estavam completamente alertas. Os cabelos, lisos e longos, estavam
presos para trás por um diadema preto, de modo a não atrapalhar a
vista. Quando tragava, a brasa acendia um pouco mais e podia-se ver
suas feições: um queixo forte, dividido; mandíbulas largas; rosto
magro, quadrado; sobrancelhas grossas e bem definidas. O toque final
era dado pelo nariz reto, aristocrático, que completava a beleza do
rosto.

Poderia ter sido modelo, não fosse a cicatriz em seu lábio inferior,
fruto de um descuido, há muitos anos atrás. Descuido aquele que quase
lhe custara a vida. Como lembrança, o canto esquerdo da boca havia
ficado marcado para sempre, a memória da facada ainda viva, mesmo
passado tanto tempo. Ele encarava aquela cicatriz como um lembrete,
sempre alertando-o a nunca baixar a guarda. Não hesitar. Talvez aquilo
fosse uma prova de que não estava sozinho na sua árdua tarefa, havia
de fato um Deus lá em cima advertindo-o, deixando sua marca para que
nunca esquecesse.

Ele não esquecia. Ninguém conseguiria chegar onde ele chegara com uma
memória fraca, principalmente em relação às obras de Deus. Mas havia
recebido um dom, um poder que só poderia ter vindo direto da santa
vontade do Senhor, e pretendia fazer bom uso dele. Se fosse Sua
vontade que ele se transformasse num anjo vingador, assim seria. Não
restavam dúvidas. Não hesitava.

Uma luz se acendeu na sala diretamente oposta à que ele ocupava, no
edifício em frente, e a porta se abriu. As persianas, que bloqueavam a
luminosidade excessiva durante o dia, estavam abertas, apesar de terem
sido baixadas. Ele providenciara isso alguns minutos antes de subir
até ali. A distância entre um prédio e outro beirava os sessenta
metros, tornando aquela saleta escura e quente o local perfeito para
aguardar seu alvo. Esperara pouco mais de uma hora, sabendo que às
quintas-feiras o alvo sempre retornava ao escritório depois do
expediente, deixando tudo em ordem para poder voltar para casa nas
sextas pela manhã.

"Não dessa vez", pensava ele, e sorriu ao imaginar o assento vazio no
avião, reservado para o importante parlamentar. Apagou o cigarro
dentro do copo plástico descartável que trouxera consigo, logo cedo.
Trouxera o copo para poder tomar alguns goles de suco de maçã,
enquanto esperava. Suco de maçã com soja, pensava ele, enquanto uma
débil fumaça subia do copo, a brasa apagada por um pouco de líquido
que ainda restara no fundo.


(2.1)


Do outro lado da rua, quinze andares acima do chão, o Senador colocou
sua pasta sobre a mesa. Sentou-se na confortável poltrona, movendo o
gordo pescoço de um lado a outro, estalando alguns ossos, e ligou o
laptop. O agradável zumbido encheu o lugar, enquanto a tela de cristal
líquido jogava uma luz azulada em seu rosto. Tudo dera certo, ele
estava contente. Cansado, mas contente. Na próxima semana, seus
adversários levariam o golpe fatal. Touché. Mas as declarações só
seriam dadas na segunda-feira, e até lá ele teria tempo de terminar o
dossiê com todos os nomes... Se houvesse avisado aos outros membros do
partido, eles provavelmente teriam tentado dissuadi-lo da arriscada
manobra, mas um lobo velho como ele sabia se mover sem atrair a
atenção de ninguém.

Seus dedos digitavam rapidamente no pequeno teclado, apenas um pouco
doloridos por causa da artrite, a nova doença que vinha lhe
aborrecendo nos últimos dias. Dentro em pouco, ele não conseguiria
sequer digitar os próprios textos, e teria que contratar uma
secretária em tempo integral. Diabos, que fosse pelo menos uma mulher
atraente, para que pudesse acuá-la, assustá-la e, com o tempo,
dobrá-la. Sim, depois de algum tempo, ela comeria em sua mão.

Um sorriso fez com que os dentes amarelados do Senador refletissem na
tela azul brilhante do monitor. Ele, contudo, sequer percebeu como
aquilo lembrava Alice no País das Maravilhas, e os dentes do gato
invisível...


(2.2)


Quinze andares abaixo, atravessando a rua e subindo-os de novo, ele
espreitava o alvo através de uma mira telescópica. Seu rifle de
precisão havia sido montado logo no momento em que chegara à sala, e
uma pequena abertura no vidro da janela havia sido feita com um
cortador de diamante. Um buraco perfeitamente circular, como que feito
por um compasso. Mas fora feito com uma espécie de compasso, não fora?

A nuca gorda e suada do alvo estava dividida em quatro partes iguais
pela marca da mira, e um único tiro certamente seria o suficiente para
que o contrato fosse cumprido. Ele se concentrava nas batidas de seu
coração, acalmando-se, pois o mínimo tremor poderia fazer com que o
projétil se desviasse mais de trinta centímetros.
Tu-tun, tu-tun,
tu-tun, tu-tun...
As batidas iam ficando mais espaçadas, e quando o
lapso entre um batimento e outro fosse grande o suficiente, ele teria
apenas que espremer o gatilho para que o alvo fosse eliminado. Não
puxá-lo de vez, mas espremê-lo gentilmente. A oração à Mikael, o anjo
exterminador de demônios, estava na ponta da língua. Começara.


(2.3)


Em sua sala particular, no alto do imponente prédio comercial, o
Senador teclava furiosamente, como que possuído. Caso estivesse em
casa, sua esposa certamente iria emitir algum comentário reprovador,
dizendo que não podia se concentrar no que quer que ela estivesse
fazendo, e eles começariam a mesma discussão ensaiada. Seus dedos
doíam, e ele resolveu fazer uma pausa. Levantou-se, foi até um canto
da sala e abriu um armário que escondia um pequeno frigobar. Pegou uma
garrafa plástica de suco de laranja e bebeu um grande gole direto do
gargalo. Se estivesse em casa, sua esposa diria que aquilo era uma
falta de estilo, passar os micróbios daquela boca imunda para dentro
do suco, sem falar na acidez do suco de laranja, que certamente
pioraria sua gastrite.

Foi então que o Senador percebeu que as persianas que fechavam a
grande parede de vidro do seu escritório estavam abertas. Aquilo era
estranho, pois não lembrava de tê-las aberto durante a tarde.
Provavelmente fora alguém do serviço de limpeza; aqueles imundos saíam
mexendo em tudo, deixando todos os papéis fora do lugar, um horror.
Então foi em direção à mesa, pegou o controle remoto e apertou o botão
"persianas". Com um barulho abafado, elas giraram, deixando-o isolado
da noite.


(2.4)


Ele esperava que o alvo retomasse sua posição anterior, de costas para
a rua, quando as persianas se fecharam. De onde estava, podia apenas
distinguir um vulto andando pela sala, mas ele poderia estar em
qualquer lugar do aposento. A sombra projetada nas persianas não era
suficiente para que ele pudesse dar um tiro certeiro. Ele só poderia
esperar que o maldito homem sentasse na cadeira novamente, onde ele
teria uma estimativa melhor de sua posição. Mesmo assim, seria
arriscado, e ele não poderia se dar ao luxo de falhar. O alvo não
poderia embarcar naquele avião, ou seu contrato seria descumprido.
Após analisar toda a rotina daquele gordo suado, ele escolhera atacar
no momento mais propício. Porém, naquela hora, toda a missão estava em
risco, e ele não poderia deixar de matar aquele homem. Teria que
arriscar um tiro.

Já estivera em situações piores, muito piores. Quando entrara num
presídio de segurança máxima para executar um antigo alvo, armado
apenas com uma caneta esferográfica, jamais poderia prever que o
miserável estivesse armado. Ao avistá-lo, o preso condenado à morte
sacara um revolver e apertara o gatilho seis vezes. Como que por
intervenção do destino, nenhuma das balas destinadas a ele disparou. O
revolver fora carregado com seis balas, e todas falharam. Enquanto
terminava o serviço, cravando ainda mais a caneta através de um dos
globos oculares do sujeito, ele imaginava se tinha sido poupado por
misericórdia divina, ou se havia sido apenas uma coincidência. Seis
coincidências não acontecem seguidamente, pensara. Talvez Deus
houvesse intervido, ou talvez o morto tivesse escondido a arma num
saco plástico dentro da privada repleta de fezes, e o saco estivesse
furado. O fato é que ele fora poupado não só aquela vez, mas muitas
outras.

Lembrou-se da vez em que matara um rapaz, um garoto muito rápido, logo
no início de sua carreira: havia ficado sem munição, e o dito cujo se
pusera a correr morro abaixo, como um raio. Ele pegou um pedaço de
tijolo que estava próximo e o arremessou com todas as forças. Alguns
segundos depois, o corredor tombava com traumatismo craniano.

Naquela época ele já era devoto do anjo Miguel, também chamado de
Mikael, Michael, entre outros. Tomou aquilo como um sinal, e daquele
dia em diante não havia poupado ninguém. Todos os seus contratos eram
fielmente cumpridos, sempre dentro do prazo. Era conhecido como o
"Matador" pelas centenas de pessoas que haviam pago o preço exigido.
Algumas mais de uma vez.

Contudo, não gostava de se aproximar demais de seus contratantes.
Algumas palavras eram trocadas, uma maleta mudava de mãos e ele ia
embora. Não gostava daquele tipo de gente, que poderia decidir
eliminá-lo também, por saber demais. Algumas vezes tivera que eliminar
pessoas que vieram em seu encalço, e depois fora atrás dos mandantes.
Afinal de contas, sua clientela era vasta e seleta, e ele poderia se
dar ao luxo de "dispensar" um ou outro contratante. Em geral, era
deixado em paz: enquanto sua fama e reputação cresciam, aquelas
tentativas iam perdendo a constância.

Ele olhava pela mira telescópica, buscando o melhor momento. O alvo se
sentou na cadeira, seu vulto indo de encontro às persianas. Sabendo
que não haveria uma outra oportunidade, resolveu arriscar. Quando o
gatilho fora espremido até quase o momento do tiro, as luzes se
apagaram. O vulto sumiu, mas ele sabia que aquele ser desprezível
ainda estaria sentado no mesmo lugar, as pernas apoiadas sobre a mesa.
Não era a primeira vez que o alvo se portava daquela maneira, mas as
luzes sempre ficavam acesas até tarde da noite. Aquela antecipação o
deixou nervoso.

O Matador sabia que as luzes não mais seriam acesas, e que o alvo
estaria sentado no lugar de sempre, de onde só sairia para ir embora.
Porém, o ângulo não era propício a um disparo em direção à porta, e
uma vez que o gordo houvesse se levantado, tudo estaria perdido.
Abandonar aquela posição e tentar se infiltrar no prédio da frente era
praticamente impossível, não havia feito os preparativos necessários.
Não havia tempo.

Ele respirou fundo, olhou mais uma vez pela mira e se ajoelhou,
colocando o rifle cuidadosamente sobre a cadeira. Era hora de recorrer
aos poderes superiores. Rezava ao anjo protetor, pedindo força para
realizar mais uma tarefa. Suplicava que suas mãos fossem imóveis como
rochas, que seus olhos penetrassem a escuridão, que seu coração
mostrasse o lugar e que sua bala santa atravessasse o coração
condenado de lado a lado.


(2.5)


O Senador descansava, recostado na poltrona de couro. A temperatura
controlada fora programada para vinte graus, e toda a sala estava
escura. Uma leve melodia preenchia o ambiente, saída de caixas
acústicas escondidas em reentrâncias do teto. Cantos gregorianos,
gravados por freiras de vozes angelicais, numa igreja do outro lado do
Atlântico, faziam-no relaxar. Pensava em toda a agitação da semana
seguinte, com entrevistas, declarações de impacto e ataques de todos
os lados. Estava até um pouco empolgado com a perspectiva de ter que
desviar de ofensivas do próprio partido, reconciliando as bases e
aniquilando a oposição. Se fizesse todos os movimentos conforme
planejara, poderia ser eleito presidente nas próximas eleições. A
vitória seria esmagadora.

Pensava em tudo aquilo quando o monitor do laptop, que estava em
standby, explodiu à sua frente. Uma chuva de faíscas saltou em sua
direção, e ele caiu para trás, cadeira para um lado, ele para o outro.
Com o impacto, a parede transparente quebrou, lançando todo aquele
vidro, juntamente com a poltrona, quinze andares para baixo. O Senador
quase caiu também, não houvesse se segurado nas persianas, que
balançavam loucamente ao sabor do vento. Não sabia ele que, em outras
circunstâncias, aquele vidro sequer racharia. O disparo abafado por um
silenciador, vindo do prédio em frente, havia perfurado a imensa
janela e fragilizado toda a estrutura.

O Senador se sentou, ofegante, próximo à beirada. Tinha a certeza de
que a morte havia lhe falado naquele exato instante, decidindo adiar
sua passagem de última hora. Nunca houvera sentido tanto medo na vida,
e nunca havia pensado que podia realmente morrer. Havia escapado, mas
seu cérebro parecia não ter registrado aquela parte corretamente. Meu
Deus, tinha quase morrido. Quase. Mas estava vivo, não era mesmo? Vivo
e pronto para outra. Triste ilusão.

Momentos depois, enquanto seus seguranças arrombavam a porta da sala,
sentiu uma forte dor no braço, que foi se irradiando até ocupar todo o
lado do peito, e soube que estava enfartando. A dor era tão forte que
lágrimas escorreram de seus olhos, e ele chorou como uma criança.
Segundos depois, estava morto, e os jornais noticiariam ter tido um
enfarte fulminante. O laptop, juntamente com a bala de fuzil, foram
abandonados na sala, e depois de algumas horas não estavam mais lá.
Todos os traços do tiro foram devidamente apagados. A causa do enfarte
do Senador se tornou um mistério não resolvido, e a família chegou a
abrir um processo contra a empresa que produziu seu laptop. Tudo em
vão.


(2.6)


Após outro "serviço" rápido, o Matador passara um mês em penitência,
pagando as promessas que fizera ao anjo Mikael. Não acompanhara o caso
na televisão, nem nos jornais. Para ele, tudo terminara no momento em
que deixara a sala do alvo com as pistas incriminadoras. Contudo,
sentira que, na realidade, o final fora escrito tão logo se pusera a
rezar.


(3)


Joanne era uma pessoa simpática. Talvez essa fosse a sina de todos os
gordos do mundo: serem gordos e simpáticos. Ela gostava de pensar que,
caso fosse macérrima como as modelos de lingerie da Victoria's Secret,
viveria com o nariz empinado e torcido, eternamente cheirando cocô de
cachorro... Mas ela não poderia jamais viver daquele modo, aquilo ia
de encontro à sua própria natureza.

Era bonita, não se podia negar. Era uma gorda bonita. E quando andava
a passos largos pelos corredores do Hospital Saint-Michael, com seus
longos cabelos louros ondulando no mesmo compasso, toda a atenção era
desviada do excesso de gordura para seus olhos claros e decididos.
Aqueles olhos verdes viviam eternamente marejados, o que lhes conferia
uma beleza acima do comum, mas não por ela viver triste, muito pelo
contrário, se considerava uma pessoa feliz. O problema é que eles eram
muito sensíveis, aqueles olhos, e era necessário que ela estivesse
constantemente a aplicar-lhes generosas gotas de colírio. Porém,
jamais faria tal coisa em público, era extremamente vaidosa.

Fora promovida a chefe das enfermeiras havia alguns anos, pois era de
longe a mais dedicada e competente. Vinte anos de serviço ao menos
serviram para ensiná-la como realizar suas tarefas com eficiência. Mas
o que fazia com que ela percorresse aqueles corredores, todos os dias,
como uma locomotiva enfurecida, sem nunca se atrasar, era seu grande
coração: sentia uma necessidade imensa de ajudar aos menos
afortunados.

Naquela manhã ela estava especialmente atenta, pois sempre que
pacientes mais graves eram transferidos aos seus cuidados, uma espécie
de senso de maternidade a possuía. Nenhum trabalho parecia cansativo
demais ou repetitivo demais para Joanne naquelas horas. Na noite
anterior, um homem, vítima de horríveis queimaduras, houvera sido
colocado em sua emergência, ainda vivo por obra de um milagre. Ela se
desdobrara em cuidados, exigindo o máximo de atenção tanto dos
enfermeiros quanto dos próprios médicos. A velha rixa entre as classes
não parecia atingir Joanne, que era querida por todos. Afinal, era uma
gorda simpática e dedicada, e tinha um grande coração.

Com uma prancheta na mão, entrou no quarto em que o novo paciente se
encontrava. O cômodo era pequeno, e comportava dois leitos. No mais
próximo da entrada estava o pobre infeliz, todo enfaixado com gaze
branca, dormindo profundamente. No pé da cama uma prancheta com seu
nome e histórico médico: William Sanders. Após conferir se todos os
medicamentos haviam sido corretamente administrados, ficou apenas de
pé, ali, olhando aquela alma sofrida, absorta em algum tipo de
pensamento misterioso, ou talvez sentisse apenas uma profunda
compaixão.

Saiu do transe ao perceber que o paciente da cama ao lado a encarava
com uma expressão enigmática. Mal podia se mexer, devido ao gesso que
imobilizava seu corpo inteiro, os membros suspensos por um complexo
jogo de cabos. Parecia um daqueles mamulengos, um estranho "puppet"
que ganhara vida e movimento através das cordas. Chegara três semanas
atrás, em estado crítico, vítima de um atropelamento. Se o Sr.
Sanders, com suas queimaduras em todos os graus existentes, escapara
da morte por obra de um milagre, Joanne imaginava ter sido a própria
mão de Deus a impedir a morte daquele outro.

Desde que colocara seus olhos nele, ao chegar, alguma coisa a
desagradara profundamente. Tinha a impressão de que seus cuidados não
eram bem-vindos e de que, se pudesse, ele sairia dali o mais rápido
possível. Escrito em sua ficha, podia ver, em letras graúdas: Romero
U. Dantas. Até seu nome era desagradável de pronunciar, com todos
aqueles "erres" que faziam sua língua se contorcer numa posição
incômoda.

Ao invés de demonstrar sua inquietação, ela se limitou a esboçar um
sorriso e emitir um suave " hi ", temendo perturbar o sono do outro
paciente. Com um nome daqueles, o sujeito deveria ser descendente de
mexicanos, ou talvez um imigrante ilegal. Quando fora encontrado, não
estava com nenhum documento de identificação, disso ela sabia, e seu
inglês possuía um sotaque horrível.

Sujeito estranho, pensava Joanne, enquanto tentava sentir um mínimo de
ternura pela figura imobilizada. Ele apenas olhava de volta, a mesma
expressão sombria, sem esboçar qualquer reação. Um calafrio percorreu
o corpo da gorda enfermeira, começando na base da espinha e subindo
rapidamente até eriçar os pêlos de sua nuca. Ela girou nos
calcanhares, mostrando o porte eficiente que houvera adquirido ao
longo dos anos, e saiu do quarto. Afinal, tinha muitas coisas para
fazer, e mais pessoas para cuidar.


(4)


Falhara. A angústia que sentia deixava seus lábios secos e seu
estômago embrulhado. Falhara de novo. Será que nunca conseguiria fazer
algo certo? Que merda de vida era aquela, em que sequer conseguia
fazer o que queria? E o pior: suas esperanças diminuíram
consideravelmente. Naquele momento, imaginava que jamais seria capaz
de se matar.

Havia feito uma promessa: nunca mais tomaria qualquer tipo de veneno.
Alguns anos antes, passara duas semanas rolando de dor dentro de uma
pequena casa de praia, sem forças sequer para se levantar. Decidira
ingerir duas cápsulas de cianureto, e os resultados foram iguais a uma
temporada no inferno. O veneno agira rapidamente, nocauteando-o em uma
questão de segundos. Quando voltara a si, estivera tremendo
incontrolavelmente, e as convulsões duraram vários dias.

Nas primeiras vinte e quatro horas, se contorcera como uma minhoca num
anzol. Houvera vomitado, urinado e defecado por toda a sala, e os
espasmos o obrigaram a chafurdar naquele ambiente como um porco
enlouquecido. Gritara e chorara durante todo o tempo, sentindo todo o
corpo queimar enquanto sua boca espumava.

Ninguém viera em seu socorro, pois a praia estivera deserta àquela
época do ano. As chuvas afastaram os veranistas, que passavam vários
meses sem sequer pisar naquele lugar, ocupados demais com suas casas
de campo. No verão, aquele lugar ficava repleto de famílias e
turistas, até que a temporada acabasse novamente.

Fora exatamente por aquele motivo que ele escolhera o inverno para
realizar seu plano, e depois, enquanto se debatia por sobre a própria
imundice, chegara a quase se arrepender. Mas, passados quatro dias,
entrara numa espécie de coma, e não tivera mais noção da passagem do
tempo até ter sido encontrado pelo caseiro, que resolvera finalmente
limpar a casa vazia.

Alguns meses antes, comprara uma pistola .45 de traficantes, numa
favela próxima à sua casa. Por três mil reais comprara uma arma
enorme, com resfriamento e mira a laser. O rapazote que lhe vendera a
arma passara vários minutos explicando todas as funções daquela coisa,
mas ele mal escutava. Fora instruído a dizer que herdara a arma de seu
avô, caso a polícia a apreendesse. No dia seguinte à compra, um médico
sorridente o informara que era um homem de sorte, pois, caso a bala
houvesse se desviado apenas alguns milímetros, acertaria em cheio seu
coração. Pouco tempo depois, colocara o cano de um rifle de encontro
ao céu da boca, sentado na poltrona do escritório, e apertara o
gatilho com o dedão do pé. Daquele modo, tivera certeza de que não
erraria o alvo, mas achara toda a operação visualmente repugnante. No
final daquela tarde, acordara com um buraco do tamanho de uma bola de
tênis em sua cabeça, e desmaiara ao colocar a mão naquele vazio e
sentir pedaços do próprio cérebro pendendo para fora.

Cortar os pulsos também não fizera resultados. Seguira à risca todos
os requisitos: água bem quente na banheira, para evitar que o sangue
coagulasse; cápsulas de vaso-dilatadores, que o deixaram com uma
incômoda ereção; analgésicos e anestésicos para diminuir a dor,
ingeridos com uma grande quantidade de álcool e, finalmente, cortes de
gilete feitos em diagonal, e não perpendicularmente às veias, para
evitar que conseguissem costurá-las, em caso de salvamento. Toda
aquela informação estivera disponível na internet, e de nada
adiantara. Acordara com o telefone tocando, após dormir por dois dias
seguidos, imerso numa banheira totalmente vermelha. Levantara a custo,
muito tonto devido à anemia, para descobrir que a ligação fora um
engano.

Asfixia, afogamento, choques de alta e baixa voltagens, nada surtira o
efeito desejado: não conseguia morrer. Deitado ali, naquele leito
americano, todo engessado devido à queda, ele se perguntava se Deus
houvera pregado uma peça nele. Talvez ele estivesse rindo, lá do alto,
divertindo-se com as peripécias daquela criatura interessante, que
jamais conseguiria se matar. Se fosse aquele o caso, ele queria que
Deus fosse enfiar o universo em Seu Sagrado Rabo. E os anjos deviam
ser um bando de veados de cachinhos dourados, aqueles putos.

Queria morrer, pelo amor de Deus! Alguns instantes depois, ria tanto
que seu corpo doía por inteiro. Lembrara de uma piada infame, onde
alguém dizia: "Sou ateu, graças a Deus". E se pôs a rir mais alto, até
que lágrimas escorreram de seus olhos. Seu vizinho de quarto, a quem
apelidara jocosamente de "Bill Múmia" por razões óbvias, olhava de
soslaio para aquele estrangeiro maluco, que escapara da morte como que
por milagre.


(4.1)


Bill, que apresentara melhoras consideráveis nas últimas semanas,
tentava, com sua mente matemática, estimar quantos quilos de gesso
foram necessários para cobrir aquele sujeito por inteiro. Estudara
engenharia antes de ingressar no combate ao crime, e estava sempre se
exercitando. Não fosse o gesso a ser analisado, seria o número de
tijolos necessários para construir aquela ala do hospital; as medidas
das paredes do quarto, baseando-se no tamanho e quantidade dos
azulejos; a força exercida nas correias que sustentavam a perna
direita do companheiro. Assim passava o tempo, sempre a calcular, o
cérebro ocupado demais para pensar nas terríveis conseqüências do
acidente que sofrera.

Quando imaginava o dia em que teria de retirar as ataduras e olhar o
que restara de seu rosto, suas pernas tremiam. Ao lembrar do acidente,
ficava dormente. Mas, na verdade, sabia que não tinha se tratado de um
acidente. Sabia demais. E esse era outro motivo para ficar eternamente
preocupado, sempre prendendo a respiração quando um estranho entrava
por engano no quarto: ele sabia que não sofrera um acidente; não
inteiramente. O fato de ter sido atingido fora um acidente, ou então
uma terrível traição. Talvez os outros estivessem querendo se livrar
dele, afinal; queriam pegar dois coelhos com uma cajadada só.

O plano original fora contratar um assassino para eliminar o Diretor
do Bureau. Os grandes pesos do narcotráfico não gostaram da política
rígida adotada pelos federais, e utilizaram todos os seus contatos de
dentro do FBI para planejar o "pacote" do Diretor idiota. As
referências do homem escolhido para eliminá-lo se mostraram
impecáveis, e a informação que correra à época atestava que ele jamais
havia falhado. Matava suas vítimas dos mais diversos modos, não
possuindo um modus operandi definido.

William ficara encarregado de disponibilizar toda a informação de que
o assassino precisasse, era aquela a sua especialidade, mas eles
apenas se encontraram uma vez, num edifício-garagem. Aquele
"rendez-vous" fora arranjado uma semana antes do atentado ao edifício
central do FBI por colegas do detetive William Sanders, também na
folha de pagamento dos Cartéis. Eles foram lhe fazer uma visita no
hospital, após o acidente, e ele teve a impressão de que sua paranóia
estava prestes a ser confirmada. Quando todos saíram, ele soube que o
enviariam. O assassino.

Bill chegara cedo, como de costume, ao encontro com o assassino
contratado para eliminar o Diretor do FBI. Dirigira lentamente,
sondando a área para se prevenir de uma possível armadilha, mas tudo
correra bem. Estacionara seu carro numa vaga mais afastada do
movimento, e não teve que esperar muito: seu encontro fora pontual. O
homem tinha feições latinas, cabelos longos e lisos, castanho-escuros,
e usava um diadema preto para prendê-los. Trajava roupas comuns para
aquela época do ano, e fumava um fedorento cigarro importado. Dono de
um rosto distinto, seria facilmente identificado por eventuais
testemunhas, ainda mais por possuir uma cicatriz profunda no canto
esquerdo do lábio inferior.

Seu sotaque era carregado, e sua voz, grave. Seu nome tinha o peso de
um milhão de almas, e Sanders ainda ouvia aqueles lábios emitindo o
som que tirava-lhe o sono: Merecido.

Em breve.


(4.2)


A múmia estremeceu, e soltou um gemido que teria feito a alegria de
qualquer aspirante a diretor de cinema. Ele olhou para Bill Gaze com
um ar divertido, ainda sentindo as dores abdominais resultantes de seu
acesso de risos. Ouvira dizer que os olhos eram as janelas para a
alma, mas, no caso do colega enfaixado, os olhos eram as janelas para
qualquer coisa; nada mais aparecia por debaixo daqueles quilômetros de
faixas macias.

Uma enfermeira entrou rapidamente no quarto, lançou-lhe um olhar
reprovador, e foi-se. Ele não sabia o que era pior: acordar para
descobrir que não conseguira se matar novamente, ou passar as semanas
seguintes se recuperando da tentativa. Era sempre a mesma coisa: uma
cama num hospital qualquer, e médicos tagarelas comunicando o quão
sortudo fora em escapar do que quer que houvesse inventado, sem
qualquer seqüela grave. Sim, porque suas falhas nunca produziam o
mesmo efeito que em pessoas comuns. Ao usar o rifle para estourar a
cabeça, ele ganhara uma afta gigante, no céu da boca, que nunca ficava
boa. Sem falar que um pedaço do seu crânio não fechara totalmente, e
ele teve que aprender a conviver com uma espécie de moleira, como um
recém-nascido.

Tocava o ponto mole na parte de trás da cabeça, sentindo a pele ceder
um pouco à pressão. Olhava para baixo, para a perna esquerda,
completamente perfurada por pinos de metal. Parecia-lhe um
porco-espinho futurista saído dos desenhos animados. A médica o
informara que aquilo servia para manter seus ossos no lugar enquanto
eles se colavam novamente. Ele teve vontade de dizer a ela que não
precisava, sua perna iria se consertar sozinha, com ou sem pinos de
metal, mesmo sabendo que provavelmente mancaria pelo resto da vida.
Não o fez por medo de que descobrissem toda a verdade. Um fêmur
fraturado em trinta e sete lugares não se reconstituía de uma hora
para a outra...

Morria de pavor de que, um dia, fosse parar nas mãos de cientistas
malucos. Eles certamente o fariam de cobaia para todo tipo de
descoberta nociva dos últimos cinqüenta anos, e o separariam em
pedaços bem pequenos, para ver qual parte tornaria a crescer e se
transformar de volta em homem. Talvez descobrissem o que impedia que
ele morresse, e disseminariam o mal para toda a humanidade. Ele tinha
pesadelos com isso de tempos em tempos, normalmente durante uma
temporada num hospital.

"Hey"

Ele olhou para a cama vizinha, onde o churrasco americano repousava.
"Papel Higiênico" o olhava com grandes olhos reluzentes, como um
cordeiro aos pés do altar romano. Em seu inglês enjoado, perguntou se
ele conhecia um tal de "Merecido", e pareceu se animar um pouco quando
lhe disse que não. Começou a contar uma história estranha, mas a
barreira lingüística que os separava dificultava a compreensão;
contudo, ele conseguiu entender alguns pontos-chave.

Bill Maluco disparava uma saraivada de nomes, lugares e datas, bem
como coisas que não faziam o menor sentido. Por fim, falou de um
brasileiro que era assassino de aluguel, um matador de fama
internacional. Isso chamou sua atenção e ele se esforçou para entender
o resto. Pelo visto, esse Merecido nunca falhara na vida, e já matara
centenas de pessoas. Nunca fora pego, e cobrava um preço altíssimo por
seus serviços. Uma vez, ao perseguir uma vítima, se embolara com ela
pelo chão e matara-a com uma mordida no pescoço. Em outro contrato,
fora preciso aniquilar toda uma família, e ele envenenara a água da
casa durante a noite.

Após alguns instantes, ele não mais ouvia o que o outro falava. Seus
pensamentos se desviaram para um assunto mais pessoal, particular, e
ele percebeu o que fizera de errado durante todo aquele tempo: ele
tentara se matar. Ninguém nunca chegara para ele com uma faca,
dizendo: "Passa a grana ou eu te furo". Ele sempre tentava fazer
aquilo sozinho, e talvez fosse aquele o motivo de nunca conseguir pôr
fim à própria vida. Precisava de alguém que pudesse ajudá-lo a
terminar com tudo, a acabar com a existência miserável naquela
realidade medíocre: precisava de um assistente.


(5)


Cinco e quinze da manhã. Merecido abriu a porta do pequeno apartamento
com cuidado, não queria fazer muito barulho. Alugara aquele refúgio
havia dois anos, e nunca o utilizara mais que duas vezes. Possuía
diversos locais como aquele espalhados pela cidade, todos registrados
sob nomes falsos, todos pertencentes a senhorios que davam valor
demais ao dinheiro. Bastava um aluguel bem acima da média para
mantê-los felizes e afastados.

Era bom estar de volta ao Brasil; não gostava de trabalhos fora do
país. Havia muitas coisas que poderiam dar errado, e ele não queria
sobrecarregar seu anjo protetor. Mas aquele trabalho compensara, os
americanos sempre pagavam bem, e ele poderia finalmente tirar férias.
Depois de testemunharem suas habilidades eliminando o Diretor do FBI,
eles se entusiasmaram e o contrataram para mais um serviço: eliminara
o presidente chinês Jiang Zemin, quando estava de visita aos Estados
Unidos.

Conseguira juntar uma dezena de milhões de dólares, e arranjara com um
antigo contratante a lavagem de todo o dinheiro. Bem aventuradas as
Ilhas Cayman. Próxima parada: Bahamas. Também um paraíso, mas de cunho
não-fiscal. Após o descanso, faria uma peregrinação pela Espanha, e
depois retomaria suas atividades. Naquele momento, estava farto de
sangue.

Trancou a porta e jogou a pesada mala numa canto. O apartamento quase
não estava mobiliado: na sala havia apenas uma pequena televisão
portátil sobre uma prancha de madeira suspensa na parede, e várias
almofadas jogadas pelo chão. Num dos quartos, um colchão coberto de
poeira estava encostado na parede, e a cozinha continha unicamente uma
pia e alguns armários vazios. No outro quarto, um crucifixo fora
pregado na parede, e havia um pequeno altar com a imagem de um anjo e
algumas velas queimadas pela metade.

Entrando no único banheiro, reparou que uma infiltração, vinda do
andar de cima, derrubara quase todo o teto de gesso, transformando-o
numa espécie de papa branca sobre o piso. Observou algumas gotas
caindo sobre a pia, sobre a privada: o lugar estava destruído. Isso
era ruim, as infiltrações poderiam levar alguém a procurá-lo. Teria
que entregar o apartamento: daria uma bela quantia ao proprietário e
inventaria uma viagem, deixando o homem tranqüilo.

Tirou a roupa e entrou no box de acrílico, abrindo o registro. Uma
ducha fria caiu sobre seu corpo, fazendo com que um calafrio lhe
eriçasse os pêlos dos braços. Tirou o diadema de plástico e enfiou a
cabeça debaixo do jato d'água. Seus cabelos cobriram o rosto,
escurecendo-lhe a visão, e ele apoiou ambas as mãos contra os frios
azulejos que formavam as duas outras paredes. Apenas quando estava
daquele jeito, com o barulho da água isolando-o do mundo, é que ele
parava de ouvir os gritos agonizantes de todos os que já matara.

Mas aquele era seu fardo; ele era uma ferramenta de Deus em ação. Não
fosse por isso, qual seriam os motivos Dele ao lhe conceder aquela
benção? Passara boa parte da juventude estudando num colégio católico,
e participara ativamente das discussões filosófico-religiosas. Nunca,
porém, ousara questionar a vontade divina. Certa vez, durante o
intervalo, um colega de sala resolvera brincar com seu afinco
religioso, fazendo uma citação de Nietzsche: "Será possível que este
homem santo não saiba que deus morreu?". Logo em seguida, o debochado
levantara-se e escrevera no quadro-negro, em letras garrafais: "Deus
está morto - Nietzsche". Para sua própria surpresa, Merecido se
levantara calmamente e fora em direção ao quadro, pegando um pedaço de
giz e escrevendo, logo abaixo da contundente frase: "Nietzsche está
morto - Deus". A sala inteira explodira em gargalhadas enquanto ele
fuzilava o colega de classe com um olhar enfurecido, passando uma
mensagem silenciosa para todos os presentes. Nunca mais nenhum outro
aluno ousara fazer pouco de suas convicções. Mal soubera ele que,
alguns anos depois, sua frase estaria estampada no mais famoso muro do
mundo; Deus morreria de rir.


(5.1)


Seis e cinqüenta da manhã. Romero descansava o corpo, deitado na
poltrona de couro da sala, assistindo ao jornal da manhã. O
apresentador falava naquele português característico dos programas
jornalísticos, sem qualquer sotaque. Ele imaginava que tais sujeitos
deveriam ser obrigados a treinar, talvez com uma equipe de
fonoaudiólogos, aquela intonação perfeita. O mais interessante era
tentar perceber que o apresentador não olhava diretamente para a
câmera, mas para alguma espécie de monitor que ficava bem ao lado
dela, dando a impressão de que ele houvera decorado todo o texto.
Aquele negócio se chamava teleprompt, ou algo parecido, se sua memória
não estivesse enganada. Ele percebera o truque observando as
propagandas de partidos políticos: ali ficava mais fácil perceber o
truque, pois os candidatos não tinham muita experiência em disfarçar e
acabavam facilitando para ele.

Seu corpo doía, ainda devido às múltiplas fraturas, mas nada que duas
ou três semanas não resolvessem. O mais difícil fora escapar do
hospital, pois haviam dobrado a segurança após o assassinato de seu
companheiro de quarto. Ele dormia quando o assassino entrara,
empunhando uma pistola equipada com silenciador, segundo disseram os
guardas. Romero nada vira, mas o assassino disparara seis vezes contra
o corpo do agente William Sanders: quatro tiros no peito e dois na
cabeça. Ele mesmo fora vítima de alguns disparos, não tendo morrido
por motivos óbvios. O assassino fora pego logo em seguida, por vigias
que faziam a ronda noturna: fora um peruano chamado Ramón, de fala
mansa e olhos grandes, que entrara ilegalmente nos Estados Unidos e
estivera prestes a ser deportado. Escapara do cárcere apenas alguns
dias antes do assassinato, e a polícia encontrara vários quilos de
heroína, juntamente com uma passagem aérea para o Equador, no
apartamento em que se escondera.

Uma investigação fora instaurada pela Corregedoria do Bureau, agentes
do Internal Affairs, como eles diziam, e ele prestara depoimento
várias vezes. Certa noite, quando tivera a certeza de que podia andar,
Romero aguardara a troca das enfermeiras e saíra andando calmamente
para fora do hospital. Ninguém prestara atenção naquela figura alta,
um roupão verde cobrindo a armadura de gesso, mancando
desajeitadamente rumo ao estacionamento. Praticamente um milagre. Ele
fechou os olhos, que ardiam ligeiramente. Lágrimas rolaram pelos
cantos, não de tristeza, apenas lubrificação. Estava cansado.

Adormeceu de súbito, um sono leve e repentino. Seus olhos se moviam
por debaixo das pálpebras, e ele sonhava. Mas acordou logo em seguida,
assustado, de sobressalto. Sonhara com um quarto de hospital muito
branco. O jornalista continuava a dar as notícias naquele tom
monótono.

Pela varanda entrava uma brisa matutina, trazendo o aroma de pão
assado e ovos fritos num apartamento vizinho. Aquele cheiro o fazia
lembrar dos cafés da manhã que tomara no interior, em Garanhuns.
Chocolate quente, pão francês saído do forno, queijo de coalho assado
na brasa e ovos fritos, tudo no melhor clima de Pernambuco. E Débora
sorrindo para ele, com aqueles dentes brancos a refletir a luz da
manhã.

Daquela vez as lágrimas eram verdadeiras, e lhe queimavam o rosto.
Lembrar dela era sempre tão difícil, tão doloroso, que ele às vezes
imaginava ser aquele o único modo de morrer, pensando na amada esposa
durante uma semana inteira, ininterruptamente. A dor cresceria tanto
que, de repente, ele explodiria em mil pedaços, deixando aquele plano
material de merda para finalmente encontrá-la.

Soluços irromperam de sua garganta, incontroláveis, dificultando a
respiração. As lágrimas tinham um sabor amargo, salgado. Seu nariz
escorria, e ele se pôs a repetir o nome que sempre povoava suas
lembranças, lembranças queridas de tempos melhores. Débora.


(6)


O monótono ritmo que impregnava suas passadas se estendera por todo o
dia; era o único ruído a acompanhá-lo por todo o percurso, desde que
deixara Roncesvalles aquela manhã. O calor era intenso, e gotas de
suor escorriam por suas coxas, sendo absorvidas ora pelas extremidades
da bermuda cáqui, ora pelas grossas meias de algodão. Levava consigo
uma mochila, um chapéu e um cajado: tudo o que precisaria usar nos
dias seguintes deveria, em tese, estar ali. De um ponto mais elevado,
observava a estrada em meio às passadas, e aquela se estendia por
longos e tortuosos quilômetros. Pamplona ainda era apenas um
referencial, um nome a mais no detalhado mapa que carregava. Poderia
ter parado em Zubiri, um povoado no meio do caminho, mas decidira
continuar até o pueblo seguinte de uma vez. Saíra muito cedo, e
mantivera um ritmo bastante puxado. Venceria os quarenta e dois
quilômetros pouco depois do entardecer.

Em sua cabeça, analisava uma palavra antiga, que há pouco tempo tomara
um significado novo. Peregrino. Experimentou verbalizar a palavra
novamente, e ficou contente com o som produzido. Era algo forte,
dotado de sentido e peso; era ele.

Buscando distração, passeou pela centésima vez pela história do
caminho espanhol, o Caminho de Santiago de Compostela: rezava a lenda
que Santiago, na verdade uma mistura dos termos "santo" e de "Iago",
Iacob, Jacob, Jacó, houvera sido enterrado e que, tempos depois, no
lugar onde estiveram seus ossos acontecera uma chuva de estrelas,
marcando o local. Compostela derivava do latim "campus stellae", o
campo das estrelas. A rota era conhecida desde os tempos antigos, e
até mesmo grandes reis passaram pelas mesmas encruzilhadas e montes.
Era um caminho de purificação espiritual, uma rota mística, e era
daquilo que ele precisava naquele momento. Parou por um instante,
respirou fundo e acendeu um cigarro. O odor de cravo e canela se
perdeu em meio à paisagem por alguns minutos. A cena lembrava-o dos
anúncios de televisão: uma bela vista, a fumaça adocicada e um caminho
a seguir, um sentido. Tragou com vontade, terminando o cigarro
rapidamente, e jogou o pequeno toco longe, ainda aceso. Observou
curioso às faíscas que surgiram quando a brasa atingiu o chão.
Enquanto exalava a última tragada pelo nariz, fez o sinal da cruz,
recitando a oração querida num murmúrio:

"São Miguel Arcanjo, protegei-me no combate. Cobri-me com o vosso
escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, o
peço a vós, príncipe da milícia celeste. Pelos divinos poderes
operando através de mim, precipitai no inferno a satanás e a outros
espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas."Em
seguida, a consagração que aprendera no colégio:"Príncipe nobilíssimo
da hierarquia angélica, valoroso guerreiro do Altíssimo, terror dos
anjos rebeldes, meu diletíssimo Arcanjo São Miguel. Pertencendo ao
número dos vossos devotos e servos, me dou todo à vós, e dedico-me,
colocando o meu ser, todos os meus interesses, minha missão, e quanto
possuo sob a vossa proteção. Grande pode parecer a oferta da minha
servidão, posto ser minha mão um instrumento da vingança divina, mas
também grande é o ofício, e rogo a vós por auxílio nessa árdua tarefa.
Lembrai-vos de que estou sob a vossa proteção e vós deveis em toda a
minha vida conseguir-me o que for necessário para cumprir os trabalhos
que o Senhor designar. Travai sempre uma batalha com os inimigos de
minha alma, particularmente na hora de minha morte. Vinde então, amado
Arcanjo do Senhor, rogar por mim na hora do combate e, com vossa arma
poderosa, lutai e expulsai para longe, nas profundezas do inferno,
aquele anjo maldito e desobediente que prostrastes um dia em uma
batalha lá no alto dos céus, e todos os seus seguidores. Amém."

Fez mais uma vez o sinal da cruz, beijando os dedos ao final, e
retomou a caminhada. O cajado servia de suporte nos trechos mais
íngremes, e era uma proteção contra cães raivosos e outros seres
hostis. Muito chão ainda separava-o do descanso, e o dia esmorecia
rapidamente. Apressou-se.


(6.1)


Não possuía mais um centavo sequer. Todo o dinheiro fora gasto com a
porcaria da passagem aérea e os apetrechos de caminhada. Jamais
imaginara ser tão caro viajar para a maldita Espanha, mas decidira
arcar com o preço. Afinal, pagava muito mais caro a cada dia, a cada
minuto longe dela. Daquela vez iria até o fim, tinha certeza. Quanto
mais descobria sobre o homem, mais suas expectativas cresciam: se
houvesse um meio de se desvincular do mundo, seria certamente através
dele. Merecido: o assassino, o santo, o cruzado, a ira de Deus. Sua
fama o precedia em qualquer lugar, e as pessoas comentavam sobre ele
com um misto de medo e admiração. Ouvira muitas histórias.

Ele não se espantou quando pessoas da polícia se mostraram
benevolentes em relação ao assassino, nem com as fotos que vira. O que
o assombrava era o fato de que aquele matador conseguia acabar com a
vida de qualquer um, não importando o método utilizado. Um velho
mulato, dono de um bar imundo aos pés do Alto Santa Terezinha, jurara
de pés juntos que vira Merecido despachar três elementos com as mãos
nuas, um golpe para cada um. Outro homem, que trabalhava como gari,
dissera tê-lo visto acertar um tiro num assaltante, que roubava uma
velhinha, a quase quinhentos metros de distância. Sem mirar.

Para Romero, claro estava que aquele era um ser especial, talvez sua
própria antítese, e que a solução para seu martírio estava
exclusivamente nas mãos do outro. Ponderara muito sobre como deveria
abordá-lo, mas nunca chegava a conclusão alguma. Se o contratasse para
acabar com a própria vida, ele poderia se negar. Soubera que o sujeito
era bastante religioso, estudara em colégio católico e tudo, e os
católicos não suportavam aquele negócio de suicídio e morte assistida.
Bando de babacas. Mas Merecido era diferente. Embora pudesse recusar o
trabalho, não hesitava em aceitar contratos para acabar com vidas
alheias. Se, ao menos, pudesse usar alguém para tratar com o
assassino, mandando-o tirar-lhe a vida... Mas não conhecia ninguém com
quem pudesse contar, e não tinha mais dinheiro nenhum.

A solução seria confrontá-lo diretamente, não oferecendo chance para
que se escusasse. Criaria uma situação em que Merecido fosse obrigado
a eliminá-lo, talvez até mesmo um duelo! Sim, iria ofendê-lo
mortalmente, não permitiria uma outra solução que não o derramamento
de sangue, seu sangue. E, no momento oportuno, faria com que ele
acreditasse realmente estar correndo risco de vida, muito embora
aquela fosse a última coisa a passar na cabeça de Romero. Encenaria a
coisa toda, e o sagrado imbecil acabaria por executá-lo, libertando-o
de uma vez por todas do sofrimento terreno de tanto tempo!

Deveria planejar tudo cuidadosamente, arquitetar um plano infalível, e
preparar o terreno para a chegada do matador. Ainda tinha seis dias,
pelos seus cálculos, antes que ele chegasse àquele vilarejo.
Conseguira informações do seu paradeiro a muito custo, pois chegara à
Espanha quase duas semanas depois. Graças a um carro e a alguns pesos
bem distribuídos, sabia que Merecido deveria estar em algum lugar
entre Población de Campos e Carrión de Los Condes. Talvez mais
próximo, em Terradillos de Templarios, se mantivesse um bom ritmo.
Cinco ou seis dias para o confronto. Um duelo.


(6.2)


No prato de vidro, a sopa fumegava, transbordando calor numa
espiralante nuvem branca. O refeitório era composto de duas mesas de
madeira bastante compridas, cercadas por longas pranchas do mesmo
material, que serviam de bancos. Nelas os peregrinos se apertavam, de
modo que todos comiam sentados ao mesmo tempo.

Merecido tomava a sopa com calma, sorvendo cada colherada lentamente.
O clima era de descontração, e a confusão de idiomas só contribuía com
a alegria dos presentes. Ele molhava pedaços do pão no copo de café, e
era observado com curiosidade por uma garota muito alva que se sentara
diretamente à sua frente. Ela deveria ter algo em torno dos dezessete
anos, os cabelos loiros presos numa longa trança, e olhava avidamente
em sua direção. O que estaria aquela menina fazendo ali, numa rota de
peregrinação? Que pecados teria ela a espiar? O modismo não perdoava
nada, nem mesmo o Caminho. Todos os anos, milhares de jovens
percorriam a rota que terminava em Santiago, mas a grande maioria não
buscava a purificação espiritual. Para eles, aquilo era apenas uma
brincadeira, um concurso, uma prova de status.

A garota ainda olhava para ele, e só então ele percebeu que ela não
havia recebido um prato de sopa. Devia ter chegado atrasada, e os
atrasados ficavam sem comida; o horário era rigoroso. Merecido pegou
seu pão, ainda havia mais da metade, e o entregou à menina, que
prontamente se pôs a comê-lo. Enquanto mastigava, lançou um olhar
grato em sua direção, e ele ficou ruborizado. Não queria oferecer-lhe
os restos da sopa, ela poderia ficar ofendida, então resolveu se
levantar e deixar que ela mesma decidisse. Enquanto saía do
refeitório, olhou casualmente na direção da refeição abandonada,
descobrindo que ela já havia encontrado uma dona mais faminta. A
garota raspava o prato.

As acomodações do albergue eram modestas, porém confortáveis. No
dormitório havia mais de uma dúzia de beliches, os colchões novos e
bem conservados. Era uma exceção à regra: normalmente, era obrigado a
colocar seu saco de dormir sobre a cama, devido ao estado lastimável
dos colchões. Deitou-se na cama de cima do beliche, onde houvera
colocado suas coisas ao chegar.

Dois americanos entraram logo em seguida, conversando em voz alta,
vindos também do refeitório. Seu inglês era carregado de um sotaque
interiorano, mas ele ainda podia entender alguns trechos. Eles se
acomodaram logo na entrada do recinto, ignorando a presença de
Merecido. Falavam animadamente, e ele os teria ignorado completamente,
não fosse o assunto que discutiam: "...e o sujeito me assegurou que
iria encontrá-lo aqui no caminho. É um assassino de aluguel, veio para
acabar com um brasileiro, outro assassino, você acredita? Acerto de
contas ou queima de arquivo, não sei. Mas ele me metia medo. Disse que
o outro se chamava Mercido, ou algo assim. Melhor tomarmos cuidado, ou
pode sobrar pra gente..."

Alguém estava atrás dele? Virou-se para o outro lado, escondendo o
rosto dos dois intrusos, e pôs-se a pensar num meio de encontrar o tal
homem antes que ele o encontrasse. O americano saberia identificar
aquela nova ameaça... Do alto do beliche, falou: "Vocês, por acaso,
são americanos? Eu estava ouvindo seus sotaques, e não consegui
identificar de onde são." O falador prontamente respondeu: "Somos de
Derry, Maine. E você, peregrino, de onde vem?" Equador, replicou ele.
Disse que vivia em Quito, e os americanos fizeram um "oh" com as
bocas, acenando as cabeças, mas não sabiam do que ele estava falando.
Não tinham idéia. George e Mike eram seus nomes, mas apenas o segundo
realmente interessava Merecido. Seu nome? Miguel Celestino, dissera, e
não mentira; não por inteiro.


(6.3)


Mike e George se mostraram terríveis companheiros de viagem: enquanto
o primeiro andava cantarolando músicas desafinadas e não conseguia
ficar dois minutos calado, o outro era muito gordo e lento, sem falar
no seu estranho senso de humor. Ele andava com os dois apenas porque
precisava ganhar a confiança de Mike, para depois obter mais
informações sobre o homem que o procurava, mas quando o americano
começou a se vangloriar de suas botas especiais de caminhada, Merecido
pensou duas vezes.

Eles se afastavam do pequeno povoado de Burgo Ranero a passos lentos,
e aquilo o impacientava mais do que o fato de estar sendo perseguido.
Talvez fosse alguém enviado pelos americanos, ou até mesmo os
chineses... O homem mandado para matá-lo poderia estar esperando sua
chegada em León, ou em algum trecho da autopista que levava à cidade.
Decidira interrogar Mike de forma sutil, comentando que passara suas
férias no Rio, e que o lugar era um paraíso. O americano gostava de
contar vantagem, e logo emendou a história do assassino brasileiro, e
do outro que viera em seu encalço.

Mike cruzara com o sujeito em Terradillos de Templarios, uma pequena
vila que ficava fora do Caminho, próximo a Ledigos, onde beberam
juntos, e ele acabara confessando tudo. Até o FBI estava envolvido, e
haviam-no contratado porque ele era o melhor, segundo dissera. O outro
assassino, um tal de "Marcido", estava com seus dias contados. O
sujeito dissera que estaria aguardando por ele num povoado abandonado,
Foncebadón, e que lá acabaria com a raça do homem de nome estranho.
George ria do amigo, não acreditando numa só palavra daquela história
fantástica. "No way", dizia ele, abanando a cabeça e tremendo as
banhas suadas.

Merecido também sorriu, mas seus olhos adquiriram um brilho estranho.
Então o homem o esperava depois de León... Mais de cem quilômetros os
separavam. Dois dias de caminhada rápida, se desse sorte. Talvez três,
se não quisesse chegar lá esgotado. Foncebadón, sabia ele, era uma
vila amaldiçoada. Ouvira aquele nome inúmeras vezes ao longo do
Caminho, saindo da boca de peregrinos de todas as idades e
nacionalidades. Rezava a lenda que, durante a Inquisição, um cigano
chegara ao pueblo numa noite muito fria, pedindo abrigo aos aldeões.
Como ninguém o recebera em suas casas, o cigano fora se proteger do
vento na porta da igreja local. O padre, buscando tirá-lo dali,
convencera todos os moradores a expulsá-lo. A expulsão, porém,
terminara num linchamento e na morte do cigano numa fogueira, no
centro do povoado. Momentos antes de morrer, o cigano lançara uma
maldição sobre todo o local, condenando toda a população à
esterilidade; a vila caducaria lentamente, acompanhando a velhice de
cada morador, e o diabo vagaria pelas ruínas do lugar.

Séculos depois, Foncebadón era apenas uma vila abandonada, ocupada por
enormes cães ferozes que atacavam os rebanhos da região. Para
Merecido, a ruína da cidade só podia ser explicada pela antiga lenda,
e ele não deixava de pensar no diabo vagando pelas ruas desertas. O
fato do assassino o esperar naquele local não o surpreendera nem um
pouco: talvez fosse mais uma tarefa, mais um sagrado ofício a
realizar. Ocorreria um choque entre as forças celestes e o diabo em
pessoa, e ele seria o instrumento divino da expurgação do mal. Para
Foncebadón ele iria, de encontro ao que quer que o destino o
reservasse. Não hesitava.


(7)


A maldita mochila pesava. Romero deixara a pequena Rabanal del Camino
quando ainda estava escuro, e avançava rapidamente para o local onde
esperaria pelo matador. Segundo descobrira, era uma vila abandonada
havia muito, e os peregrinos evitavam-na a todo custo. Algumas lendas
estúpidas contribuíam para afastar os tolos, e não haveria lugar
melhor para promover o encontro. Após uma hora e meia de caminhada,
ele avistou o pueblo abandonado sob a fraca luz matutina: eram sete e
quarenta, e as casas se destacavam no topo do morro, sentinelas de
pedra abandonadas às intempéries. Ao avistar suas silhuetas, ele se
sentiu no meio de um filme de terror: o clichê sempre falava mais
forte que a razão. Era por isso que os supersticiosos tapados da
região não arriscavam pôr os pés em Foncebadón. Até o nome era
ridículo!

Após uma forte subida, chegava ao destino final de sua viagem, e suas
mãos suavam de ansiedade. Fazia frio, pois o sol ainda tardaria a
elevar a temperatura, e ele parou para colocar sua jaqueta jeans,
velha e surrada. A rua principal da cidade estava cheia de pedras
soltas, algumas bastante pontiagudas, e seria um perigo correr por
ali. Das antigas casas, apenas algumas ruínas: buracos nas paredes,
telhados caídos, portas e janelas destruídas. Era um milagre que
aquelas estruturas ainda estivessem de pé. Mato e pequenas árvores
cresciam onde famílias outrora jantavam, e anos de musgo borbulhavam
por debaixo dos entulhos.

Exatamente como previra: o local não tinha nada de mais, só que
ninguém apareceria para estragar seus planos. Com exceção de Merecido,
que já deveria estar a caminho. Nada como um pequeno suborno, ou
melhor, um pequeno presente. Como não tinha dinheiro, oferecera ao
americano suas botas recém-compradas em troca do velho tênis do outro,
que concordou alegremente com o negócio. Tudo o que tinha que fazer
era esperar.

Encontrou um bom lugar para ficar numa das últimas casas da rua, cujas
paredes ainda permaneciam bastante sólidas, e de onde poderia vigiar a
entrada da vila. Alguns arbustos forneciam um esconderijo eficiente, e
ele não tardou em se instalar confortavelmente à sombra da vegetação.
Sentou no chão de terra batido, livre de plantas talvez pela fraca
iluminação, ou talvez por algum outro andarilho ter tido a audácia de
dormir naquele lugar, recostou-se na parede da casa e colocou a
mochila junto a si.

Naquela mochila ele levava a mesma pistola .45 com a qual tentara
tirar a vida anteriormente. Após considerar os riscos de embarcar num
vôo internacional portando uma arma, Romero se lembrara que talvez
precisasse provocar o assassino, ou até mesmo fornecer os meios para
que ele lhe matasse. Portanto, decidira que a arma seria essencial, e
escondera-a no fundo falso de uma velha maleta. Bagagem de mão. Passar
pelo detector de metais não fora problema algum, visto que a arma era
feita de uma cerâmica especial, e não de ligas metálicas. Sem metal,
adeus detector; "terrorista a bordo, seus idiotas."

Pegou a arma nas mãos e tirou desajeitadamente o pente de munição. Não
pudera embarcar com uma arma carregada, não sabia se as balas
disparariam o detector ou não. Deixara para comprá-las na Espanha, e
não fora muito difícil. Vasculhou a mochila em busca do embrulho
pardo, e o desfez rapidamente: duas caixas de munição com ponta oca,
as chamadas "hollow point", surgiram num amarelo berrante. Ele abriu
uma e começou a carregar o pente. Enquanto o fazia, lembrou-se da
piada do idiota que fez roleta russa com uma pistola. Começou a rir
baixinho, recolocando o pente com dificuldade. Click.


(7.1)


Uma pequena chama surgiu, saltando de um isqueiro barato adornado pelo
desenho de uma estrela-do-mar. Merecido acendeu seu cigarro Gudan
Garan, a única marca que fumava, e pôs-se a analisar a colina à
frente. No topo, podia avistar algumas edificações bastante
deterioradas, sinal de que a vila amaldiçoada estava próxima. Sentia
uma estranha vibração emanando do lugar, e quase podia ver uma aura
negra envolvendo todo o morro. Seu inimigo estava ali, sem sombra de
dúvida. Seus inimigos.

Mas confiava no anjo protetor, e seguia sem medo pelos caminhos
tortuosos da vida. O sol estava forte, ele estimava que deveriam ser
duas da tarde, mas uma grande nuvem cinzenta se aproximava,
ameaçadora. Queria chegar à vila com bastante claridade, pois a luz
enfraquecia o demônio e seus truques, e o mau tempo seria uma péssima
coisa. Talvez não fosse coincidência, afinal. Aquele encontro com o
homem que o caçava, em solo diabólico, talvez estivesse escrito desde
o início dos tempos. Lúcifer devia ter se cansado de perder tantos
seguidores por suas mãos, e arranjara um meio de dar o troco. Aquele
lugar amaldiçoado seria o palco de mais um embate entre as forças do
bem e do mal, e ele rezava para que Deus o desse forças para sair
vencedor.

O cigarro acabou, e ele levantou-se. Apanhou o cajado, suspendeu-o e
cravou-o no chão, fincando a ponta de metal fundo na terra. Tirou o
chapéu de tecido bege da cabeça, sentindo todo o calor do sol no topo
de seu crânio, e o substituiu pelo diadema preto. O vento começou a
aumentar, anunciando a chegada de uma forte tempestade, e o chapéu
voou longe. Ele não se incomodou.

Começou a subir a colina, passos curtos e decididos, deixando a
mochila para trás. Levava consigo apenas seu cajado, para auxiliar no
íngreme percurso, e suas orações. O arcanjo haveria de estar olhando
naquele momento, observando seu fiel seguidor se aproximar cada vez
mais do maior perigo de sua vida.


(7.2)


Adormecera ali, naquele silêncio, embalando-se ao som dos grilos.
Sonhava uma vez mais com a esposa morta, seus últimos dias de vida
sobre uma cama de hospital. O sonho era sempre o mesmo: um quarto tão
branco que doía na vista, de modo que ele não podia abrir inteiramente
os olhos. Ele estava sentado na poltrona dos acompanhantes, como de
fato estivera, e ela estava deitada na cama. Não era o farrapo humano
dos dias finais, mas a mulher com a qual se casara. Seus cabelos
cacheados se espalhavam no travesseiro, e seu sorriso aquecia a alma
de qualquer um. Mas ele não podia vê-la direito, tudo era muito claro,
apenas sentia sua mão apertando a mão dela, com força, para nunca mais
soltar. Ela falava coisas baixinho, e ele não conseguia ouvi-la.
Então, como sempre ocorria, sua mão começava a queimar a mão dela,
transformando a pele suave num tapete áspero e cinza. Aquilo ia se
espalhando da mão para todo o braço, e em segundos o corpo da mulher
estava todo coberto por aquela cor doentia. Ele não enxergava bem, mas
sabia que ela definhava rapidamente. Em segundos, sua esposa se
transformara no ser magro, ressequido e sem cabelos que resultara das
inúmeras sessões de quimioterapia. Ela olhava para ele, os olhos
lacrimejando, e sussurrava: "Eu vou te esperar, querido. Eu vou te
esperar...". Logo depois, estava morta, numa repetição precisa dos
seus últimos momentos na terra.

Foi a chuva que o acordou, as grandes gotas caindo pesadamente dentro
de sua boca aberta. Débora se foi com o sonho, mas a tristeza
permanecia. Ele se levantou assustado, a chuva forte se transformando
numa verdadeira tempestade. O vento uivava por entre os casebres
abandonados, e a parede na qual se encostara veio abaixo, caindo sobre
suas coisas. Do outro lado da rua podia ver, por entre os arbustos, o
famoso Merecido se aproximando, também apanhado de surpresa pela
tempestade.

Um pânico tomou conta de Romero, pois a arma estava presa debaixo dos
entulhos. Não havia como ameaçar o matador, ele não tinha mais nada.
Foi então que percebeu, na parede oposta, um grande cajado de
andarilho apoiado a um dos cantos. Aquilo poderia servir, mas ele
deveria esperar pelo momento certo. Caso fosse desarmado, tudo estaria
perdido. Ele tinha que morrer, não podia permitir que o outro lhe
poupasse a vida.

Uma rajada de vento quase o derrubou, lançando a outra parede ao chão.
O cajado caiu próximo a seus pés, sob o novo amontoado de pedras, e
ele conseguiu libertá-lo a custo. Por todo o lugar, as ruínas
desmoronavam ante a força do vento. Merecido não havia percebido a sua
presença, e ele resolveu esperar até que estivesse perto, para então
se lançar ao ataque. Logo.


(7.3)


O lugar cheirava à morte, mesmo sob a pesada tempestade. Ele galgava
os últimos passos até a entrada da cidade diabólica, o corpo
completamente ensopado. O diadema mal prendia seus cabelos no lugar.
Mal deu o primeiro passo pela rua de pedras soltas, quando avistou um
enorme cão sair de uma das casas. Seu corpo era negro, com uma única
mancha branca subindo do focinho até o meio dos olhos. Todos os
peregrinos falavam daqueles animais, os temíveis cães de Foncebadón.
Alguns diziam que eles haviam provado carne humana, e atacavam
qualquer incauto que adentrasse o lugar.

Merecido sabia mais: aqueles cães eram a manifestação do diabo em
pessoa, e agora ele estava ali, frente a frente com a fera. A chuva
caia, impiedosa, escorrendo por entre seus olhos. Ele empunhou o
cajado com as duas mãos, pronto para enfrentá-lo, quando mais dois
cachorros se aproximaram do primeiro. Tanto melhor, pensou ele. Um
verdadeiro desafio. Os bichos eram grandes, deviam ser quase do seu
tamanho quando de pé. O cão negro arreganhou o focinho, mostrando os
dentes e rosnando. Cerca de quatrocentos metros os separavam, o
enviado da fúria celeste de um lado, os monstros do inferno de outro.

Então os cães dispararam em sua direção, numa perfeita sincronia. A
saliva balançava de suas bocas escancaradas, misturando-se à chuva,
produzindo longos fios reluzentes. Suas patas pisavam nas poças,
jogando água para todos os lados. Era uma cena e tanto, aqueles três
seres enormes avançando em sua direção. Então, soltando toda a raiva
que tinha dentro de si, Merecido deu um grito com toda a força de seus
pulmões, e também se lançou em direção às feras.


(7.4)


A água que caia dos céus subia de volta quase na mesma velocidade,
devido às passadas do matador e das três feras. Romero olhava
aterrorizado à louca corrida, esperando ver o homem ser dilacerado a
qualquer instante. Não iria permitir que ele morresse, precisava dele.
Ele pretendia ajudar o outro a se desvencilhar dos cães, pois um
assassino morto não possuiria muita serventia. Foi então que viu,
saído das ruínas opostas à que se escondia, um cachorro tão grande que
mais parecia um pequeno potro. O ser observava os outros três
avançando contra Merecido, como que aguardando sua vez. Possuía um
pêlo completamente preto, e o único branco surgiu quando o monstro
virou sua cabeça e rosnou para ele, mostrando os dentes. Romero ficou
imóvel, temendo que a besta o atacasse, arruinando seus planos. Mas o
cão simplesmente tornou a olhar na outra direção, ignorando-o.


(7.5)


O primeiro, da marca branca no focinho, saltou em sua direção.
Imediatamente, ele rodopiou o cajado. Sentiu a pancada atingir o lado
direito da cabeça do animal, arremessando-o longe. Água e sangue
saltaram para cima. Ao mesmo tempo, os outros dois cães atacaram pelos
flancos: um mordeu sua perna, e o outro, o cajado. Merecido largou sua
arma, desferindo um soco potente nas costelas do animal que o mordia.
Sentiu os dentes do bicho entrando na sua carne, e desferiu um segundo
golpe contra o olho da fera. Seu polegar afundou naquela parte macia,
e o cão largou sua perna num urro de dor. O terceiro largou o cajado e
lançou-se sobre suas costas, tentando morder-lhe o pescoço, mas ele
foi mais rápido e puxou o cachorro pelas patas, enquanto se agachava,
derrubando-o de costas no chão. Pegou o cajado rapidamente, e
desferiu-lhe um golpe com a ponta de metal. O cão se contorceu e
morreu. Os outros dois se reagruparam, feridos, reavaliando a presa.
Merecido sorria, a face salpicada de sangue.


(7.6)


Ele não achava que o matador iria agüentar muito mais tempo,
principalmente depois de ver a surpresa reservada para ele. Deu um
passo em direção à rua, não mais temendo um ataque daquele animal
enorme. De alguma forma, ele sabia que os propósitos do cachorro eram
outros, e decidiu fazer sua jogada. Saindo do esconderijo com o grande
cajado nas mãos, iniciou uma corrida em direção à luta, sabendo que
talvez encontrasse tudo terminado. Já estava na metade do caminho
quando viu que só dois cães restavam. Olhou para trás, e o enorme
bicho o seguia, correndo um pouco afastado, os dentes cintilando
através da chuva. Não olhava para ele, mas para Merecido. Romero se
apressou, imaginando que, caso o monstro chegasse antes dele, suas
chances chegariam ao fim.


(7.7)


O demônio da esquerda estava muito ferido, a pancada na cabeça afetara
seu senso de equilíbrio. Balançava de um lado para o outro, até que
começou a ganir. Deitou-se no chão e tombou para o lado, morto.
Restava apenas um, cego de um olho. Ele investiu contra Merecido com
fúria, saltando. O cajado passou a milímetros da cabeça da fera, mas
errou o alvo. A boca buscava o seu pescoço, e quase conseguiu. Errara
o golpe, mas o bastão ainda estava em posição de repelir o ataque. O
peso do animal derrubou-o no chão, dentro de uma grande poça d'água, e
ele aproveitou para girar para cima do bicho, empurrando-o para dentro
da água com o cajado. Após alguns instantes, o cão começou a se
afogar.

Merecido levantou-se a tempo de ver um homem correndo em sua direção,
armado com um grande cajado, seguido por um monstro muito maior do que
os que houvera exterminado. Era chegada a hora da verdade. O homem
seria presumivelmente aquele que fora enviado pelo FBI, ou quem sabe
tudo fora obra do demônio que vinha logo atrás, mas ele não iria
perder tempo com ele: o verdadeiro inimigo vinha em seguida. Começou a
correr em seu encontro e, quando já estavam bastante próximos, saltou
e desferiu um golpe tão forte contra a cabeça do miserável que o
cajado se partiu em dois. A cabeça do assassino incompetente também se
partira, e um trovão ecoou no mesmo instante do golpe.

O demônio investiu contra ele, derrubando-o no chão novamente,
praticamente indefeso. Mas Merecido ainda segurava um pedaço do cajado
partido, e aproveitou o peso do cão para enfiá-lo até seu coração
negro. O monstro gritou tão alto que, por um momento, nada mais se
ouvia, e então desabou morto sobre ele. Empurrando aquela carcaça com
dificuldade, Merecido conseguiu se erguer novamente. A tempestade
continuava, molhando os cinco cadáveres impunemente, lavando o mal
daquele lugar.

Olhou para o corpo que repousava na lama, a cabeça aberta. Quem era
aquele homem, qual seus propósitos? Seria ele apenas um instrumento do
mal, o oposto do que ele era? Talvez uma antítese escura de sua
própria tarefa... O fato é que não importava; jamais saberia ao certo
os motivos que o levaram a matar aquele homem. Poderia enumerar
vários, como o fato dele querer matá-lo, de ter sido enviado pelo FBI,
mas aqueles não eram os motivos reais. Havia algo por debaixo de tudo
aquilo, algo que cheirava a mentira, mas o cheiro diminuía
rapidamente.

Triunfara, afinal. Podia seguir seu rumo, Deus ainda possuía uma
serventia para ele. Dos corpos que deixava ali, apenas números a se
somar a uma interminável lista que pesava sobre seus ombros. A forte
chuva ajudava a abafar os gritos agonizantes, as vozes dos que já
matara, mas um grito alto como o daquela besta ficaria zunindo por
muito tempo em seus ouvidos. Era hora de abandonar o Caminho, o ofício
continuava.


(...99)


Podia prender o fôlego por quase cinco minutos. Na verdade, cinco
minutos era o tempo máximo que agüentava lúcido antes de desfalecer, e
os segundos passavam. Seus cabelos formavam uma gigantesca massa ao
redor da cabeça, congelados, e apenas o grande nariz se destacava por
entre a barba comprida. Sempre que acordava, se encolhia na posição
fetal, agüentando os cinco minutos de inferno antes de apagar
novamente.

Não morrera em seu encontro com Merecido, devia ter sido o único a
escapar com vida de um encontro com o matador. Não morrera na Guerra
Global que se seguiu à morte do presidente chinês, não morrera de
radiação como toda a humanidade. Não morrera sequer nas muitas guerras
de mutantes, nem quando o planeta congelara. Milhões de anos passaram,
e ele não morrera.

Diabos, não morrera sequer quando a Terra explodiu num choque com
outro corpo celeste! Não sabia exatamente o que ocorrera com o
planeta, pois naquela época não haviam meios de prever nada, mas ele
cogitava que talvez tivesse sido um asteróide. Sim, um asteróide.
Podia ser...

Seus pulmões queimavam, novamente exigindo o oxigênio necessário, mas
ele flutuava no vácuo. Onde conseguiria oxigênio? Vagara durante tanto
tempo pelo espaço que as lembranças do passado eram apenas algumas
imagens gastas, que persistiam apenas porque ele estava constantemente
a repassá-las, na falta do que fazer.

A asfixia piorava a cada instante, e seus músculos se retesavam
involuntariamente. Espasmos tentavam sugar um pouco de ar pela
garganta, e ele chorava vez por outra, até perder a consciência. Não
tinha meios de saber quanto tempo ficava desacordado, para ele tudo
acontecia em poucos instantes, mas imaginava que deveria demorar
bastante para que recobrasse a consciência. Sempre que acordava,
percebia um aumento na crosta de gelo que recobria uma parte do seu
corpo, e imaginava que ele atraía pequenas partículas de água com sua
gravidade mínima.

O pior era que percebia estar sendo atraído por um planeta, a cada
momento que acordava se encontrava mais próximo dele, um gigante
verde. Pelo pouco que lembrava, sabia que o planeta deveria ter gases
tóxicos e até mesmo ácido na atmosfera, e a perspectiva de passar o
resto da eternidade naquele local o desesperava além do desespero.

Quem sabe um dia, quando Deus finalmente se cansasse da criação e
estivesse prestes a apagar a luz, Ele se lembrasse de uma criatura
Sua, ainda vagando e sofrendo pelo cosmo. Então tudo terminaria. Os
espasmos pioraram, e todo o seu corpo doía. Mas nada podia ser ouvido
ali, e ele perdeu a consciência mais uma vez.


(0)


Acordou caindo no planeta verde, seu corpo queimando na atmosfera. Mas
tinha uma pequena esperança, talvez Deus lhe concedesse um último
pedido, e ele rezava para que aquele lugar tivesse uma atmosfera
respirável. A dor da reentrada era grande, uma coisa tão antiga que
era quase nova. Não era boa, mas diferente da eternidade de asfixias.

"Deus, não permita que eu sofra mais, Deus, por favor, Senhor, Deus,
Pai, me ajude! Socorro... aaaahh... por favor... Deus..."


(...)


Foi apenas na superfície do planeta, enquanto seu corpo era lentamente
corroído pelo ácido, enquanto seus pulmões sugavam fogo para dentro
dele e enquanto seus olhos ardiam insanamente, que ele finalmente
compreendeu uma antiga máxima, um ensinamento de um planeta destruído,
de uma raça extinta: Deus está morto.

 

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