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[Nota da Autora - Tudo que sabemos é que não sabemos nada. Estamos,
talvez, sozinhos no espaço
a espera de uma palavra que nos console.
Meu conto é sobre essa
possibilidade.]
O
verbo captou exatamente 7.843 vocábulos nos trinta minutos em que o
AKG 4379-2 esteve no comando da operação. Passou as palavras ao Cérebro
e ele as dividiu nos dois grandes grupos iniciais
: Novas e Conhecidas.
A
seguir, o Computador separou as Conhecidas entre as várias
categorias possíveis, de acordo com o programa pré-estabelecido.
As Novas foram enviadas ao Departamento de Pesquisa, onde os
decifradores iam estudá-las através do sistema de ensaio e erro.
As
luzes do Laboratório se apagaram e o Cérebro piscou três vezes até
se desligar completamente.
O
AKG acendeu suas próprias luzes, logo acima das células fotoelétricas
colocadas horizontalmente na parte superior de seu corpo metálico.
Quando saiu do seu departamento, vários outros trabalhadores também
deixavam suas unidades, respondendo ao horário de desligamento, que
fora instituído para poupar energia.
As
reservas hídricas e minerais do planeta não eram inesgotáveis.
Novas pesquisas precisavam ser feitas nesse campo. A concentração
dos trabalhos em torno do Verbo, durante milhares de anos,
demonstrara ser um erro de cálculo. Mas, ainda havia tempo para
consertar a situação.
Lá
fora estava escuro e úmido, detectaram seus sensores.
Dirigiu-se
para o Galpão do Setor Noturno. Os outros formaram fila atrás dele
e seguiram todos, cada um para o seu núcleo de desativação. O AKG
entrou na cápsula reforçada, puxou a tampa, ativou a fechadura e
desligou os sensores.
O
silêncio caiu sobre a unidade 5 do Sistema Integrado de Pesquisa
Sonora Espacial.
..............................................
O
JMN 3743-25 recebeu as 2000 palavras novas que o Verbo captou,
naquela jornada, do segmento temporal correspondente, em relação a
eles, ao ano de 1999. Há muitos séculos atrás, numa época que se
perdia no espaço, esse fragmento de tempo fora escolhido pela
Pesquisa para o recolhimento e a decodificação de seus sons. O JMN
não sabia explicar o porque dessa escolha, assim como nenhum dos
trabalhadores e também não se importava.
Tinha
uma tarefa específica. E procurava executá-la da melhor maneira
possível.
Estudou
as Novas que haviam chegado. Algumas de três, quatro letras, seu cérebro
treinado colocava na categoria de possíveis marcas comerciais. Ia
cruzá-las com outras que designavam produtos de consumo. Na maioria
das vezes acertava. Outras palavras eram, possivelmente, nomes próprios:
vocábulos usados para seres vivos específicos ( não genéricos )
e a decodificação ficava um pouco mais complicada. Alguns sobravam
e iam se alinhar no arquivo das Inexplicadas, até surgir um fato
novo que permitisse sua decifração.
O
JMN debruçou-se sobre os ideogramas que identificavam os sons e, a
medida que os reconhecia, devolvia ao Verbo, nas suas respectivas
categorias.
Todo
um sistema de vida já se delineava através do Programa.
O
TXL 3489-3 conferiu o ser sobre a prancha metálica. De acordo com
as informações do Cérebro, fabricaram a figura com duas
extremidades longas na parte superior que se bifurcavam em cinco
tentáculos relativamente independentes, capazes de se flexionar,
apertar e executar diversas tarefas sofisticadas. Assemelhavam-se às
suas manoplas, mas com uma estrutura mais delicada. Segundo o Verbo,
eram designados por Braços e Mãos.
Tinha
também duas outras extremidades alongadas na parte inferior que
terminavam em tentáculos menores e mais rudimentares que serviam
para a locomoção e eram chamados Pernas e Pés e uma protuberância
na anterior denominada Pênis, cercada por dois recipientes ovalados,
os Testículos. Essas protuberâncias formavam um conjunto com
finalidade de reprodução: os indivíduos do fragmento temporal
1999 multiplicavam-se pela combinação de células vivas,
localizadas nos aparelhos reprodutores dos seres femininos e
masculinos. Como não fôra possível fabricar essas células, a
confecção do feminino foi julgada desnecessária.
A
criatura estava quase pronta no seu aspecto exterior. Mas lhe
faltava o principal: sobre a parte superior do corpo e separada dele
por um cilindro fino, ficava a Cabeça e nela ia ser colocado o
delicado sistema que era a coroação do trabalho de tantos anos.
Por trás da camêra escura dos olhos, na cavidade designada Crânio:
o microcomputador com as milhares de informações captadas nos vocábulos,
em silenciosas e infatigáveis pesquisas do Verbo na sonoridade do
espaço, já devidamente relacionadas em suas estruturas de frases e
idéias.
O
TXL observou a parte Rosto do indivíduo, com seus dois pedaços de
cristal meio opaco, a pequena protuberância furada em dois orifícios
quase circulares e a abertura cercada de uma parte carnuda grossa
que podia se contrair e esticar.
Verificou
os pequenos retângulos de marfim inseridos na arcada óssea
superior e inferior, dentro da abertura. Serviam para triturar os
alimentos. Esses seres precisavam da transformação química de
determinadas substâncias sólidas e líquidas ingeridas diariamente
para manter seu organismo em atividade.
Todo
esse complicado sistema funcionava pela inalação de determinados
gases, através dos orifícios superiores que, por uma série de
transformações químicas, movimentavam uma espécie de bomba
muscular e faziam circular, dentro de uma ramificação de tubos, um
líquido de cor vermelho forte, que distribuía os nutrientes por
todo o sistema, mantendo o organismo em funcionamento. O desequilíbrio
de qualquer dessas partes levava à pane ou ao colapso total daquela
unidade.
O
TXL 3489-3 que funcionava apenas com algumas gotas de óleo por
semana e era, praticamente, indestrutível, considerava o indivíduo
com perplexidade.
Uma
nova palavra que aprendera com os humanos de 1999.
O
AKG 4379-2 reuniu todos os dados e considerou o Programa viável.
Pronto ele nunca ficaria. Não nos próximos milhares de anos à sua
frente. Mas, com as palavras disponíveis já era possível
reconstruir todo o sistema lógico de pensamento verbal daqueles
seres do fragmento de tempo designado. E com ele programar o cérebro
do indivíduo construído de acordo com o padrão masculino daquele
período.
A
parte mais importante da tarefa estava próxima de ser concluída.
Os
TXL do Departamento de Fabricação Robótica tinham pronta a
complexa estrutura psicotrônica da criatura. Com os dados do Cérebro,
coletados pelo Verbo, dentro de mais 15 jornadas de trabalho seria
possível considerá-la pronta.
De
acordo com os costumes daquela época remota, designaram uma palavra
para denominá-lo: Homem.
.....................................................................
O
Homem abriu os olhos e encarou seus criadores. Os delicados sensores
observaram o ambiente e ele falou com voz lenta e grossa:
"Vocês
são robôs."
Se
o AKG 4379-2 fosse capaz de experimentar emoções, sentiria orgulho
do trabalho que supervisionara. O seu aparelho fonador, desenvolvido
através de todos aqueles anos de captação e pesquisa de sons, era
sofisticado, podendo atingir uma gama bem ampla. Mas o da criatura,
construído de acordo com as informações colhidas de 1999 parecia
tão primitivo e frágil... e ali estava ele emitindo uma frase lógica,
com sua voz suavemente grave.
Respondeu,
também de forma pausada, para que os circuitos recém despertos
captassem com facilidade:
"Sim,
de uma certa forma, nós somos o que, em 1999 seria designado pelo
vocábulo robô."
O
homem parecia ligeiramente atordoado, como se o seu funcionamento
ainda não estivesse totalmente ativado. Observava o ambiente e
procurava palavras para designá-lo:
"Laboratório... mesa... computadores...luz..."
Franziu os pelos acima dos olhos:
"Isto?..."
"É um criptógrafo. O aparelho que nos ajuda a decodificar os
sons."
A criatura não fora programada com nenhuma informação da época
atual. Uma opção deliberada para mantê-la estritamente no padrão
do seu fragmento temporal, conforme a Tarefa. Permitia, também,
medir sua capacidade de aprendizagem e sua memória recente.
Ele continuava percorrendo o ambiente, agora distinguindo cores:
"Branco...
prata... aço... vidro..."
Confundia
materiais mais avançados pela aparência superficial, mas, seu
percentual de acerto era bastante grande.
Dirigiu-se
para o portal que separava o Departamento de Fabricação Robótica
do mundo exterior. Quando seus sensores distinguiram o que o
compunha, ele parou:
"Estou
com medo."
O
TXL explicou que a criatura fôra dotada de um sistema nervoso
rudimentar que lhe permitia sentir as emoções humanas de seu
tempo, principalmente porque associadas a vocábulos específicos
correspondentes.
O
AKG segurou a extremidade superior do homem e o impeliu a cruzar o
portal.
"Não...
Tenho medo."
A
criatura repetiu, hesitante.
"
floresta... escuro... animais grandes... muito medo..."
AKG
considerou com seus sensores as enormes formações vegetais ao seu
redor
e os gigantescos répteis que se alimentavam tranqüilamente, com
suas monstruosas cabeças uns cinco a seis metros acima deles.
"Preste
atenção, criatura Homem, você foi construído a partir de um
projeto aproximado dos seres masculinos de 1999. Mas há uma diferença
fundamental: não é um ser vivo. É um robô, como todos nós e,
portanto, indestrutível. Qualquer dano em sua matéria pode ser
reparado pelos TXL deste Departamento. Os homens têm medo porque
podem ser destruídos, desaparecer completamente, morrer..."
repetiu pausadamente "você não pode morrer. Não há razão
para a categoria medo."
A
criatura deu dois passos em direção ao ambiente externo, ainda
hesitante.
"Floresta...
árvores muito grandes... escuro... dinossauro... tiranossauro...
continuo com medo..."
O
AKG virou-se para o TXL 3489-3:
"Há
alguma coisa errada na memória recente dele. Não está conseguindo
gravar explicações objetivas."
"Não
é nada com seu cérebro. Os protótipos homens não obedecem apenas
às leis da lógica. São extremamente influenciados pelo sistema
nervoso."
"Eliminaremos,
então, os vocábulos referentes às sensações..."
"Não
é tão simples assim. Além disso, o Projeto é claro: construir a
criatura no padrão mais aproximado possível do real. Todos os
problemas serão resolvidos a medida que aparecerem. "
"O
que devo fazer, então? Não posso forçá-lo a sair porque poderia
danificá-lo. Sua estrutura é bem menos resistente que a
nossa."
"Temos
alguns estudos sobres respostas, baseadas nas captações do Verbo.
As reações de medo, eventualmente, podem ser controladas com a
utilização de estímulos opostos ou contraditórios: raiva,
amor..."
O
AKG ligou-se ao Verbo e recebeu frases padrão. Dirigiu-se à
Criatura:
"Seu
covarde. Trate de sair logo daqui seu idiota. Não suporto mais
olhar pra essa sua cara de palerma."
Embora
ditas sem a menor inflexão emocional, as palavras ativaram as reações
do Homem de alguma forma. Assustado, dividido entre a inesperada
violência verbal do robô e a natureza hostil lá fora, deu dois
passos para a frente e parou de novo. Seus olhos arregalados
dirigiam-se, da imensa cauda do réptil que, num movimento circular
levantara milhares de folhas em redemoinho, ao seu prateado
interlocutor que se mantinha inflexível diante da porta, impedindo
a fuga para a segurança do Laboratório.
Por
sorte, o Dinossauro acabou de se alimentar com as frutas das árvores
e foi se afastando do local com passadas barulhentas e pesadas que
faziam tremer o solo e vibrar seus delicados sensores auditivos. Atrás
dele seguiu o Tiranossauro que ainda arreganhou os enormes dentes
para ele numa espécie de sorriso.
A
Criatura, então, desatou a correr pelo caminho que ia dar nos
outros Departamentos, com o AKG e o TXL atrás. Embarafustou pelo
Galpão do Setor de Desativação e estacou, surpreso.
O
lugar abrigava uma quantidade de sarcófagos prateados, colocados em
pé, num círculo, como cadeiras num anfiteatro, com a abertura
frontal voltada para a porta de entrada.
"Múmias?..."
Os
dois robôs se aproximaram dele:
"Não
são múmias, são cápsulas do Núcleo de Desativação."
O
AKG ligou a fechadura e abriu a tampa. O Homem olhou para o PBQ
colocado como um boneco dentro da caixa de metal.
"É
um robô?"
"Sim,
está desligado. Poupando energia. Você, também, será desativado,
inicialmente, em períodos pré-determinados embora seu corpo possa
funcionar só com oxigênio e nutrientes."
O
Homem se assustou e tentou reiniciar a fuga. O TXL barrou seu
caminho.
"Calma, somos amigos. Amigo, categoria que implica em confiança."
Ele
continuou desconfiado:
"Amigos?..."
O
AKG explicou:
"O
que eu disse há pouco foi apenas para fazê-lo perder o medo. Nada
pode lhe fazer mal. Agora preste atenção e coloque isso na sua memória
recente: você foi construído por nós."
A
Criatura recusou-se a acreditar:
"Os
homens nascem, não são construídos. Nascem da união de indivíduos
de sexos diferentes."
O
AKG olhou para o TXL
"Eu
acho que ele deveria ter recebido informações mais recentes. Ao
menos, sobre sua condição."
"Ele
é perfeitamente capaz de aprendizagem. Só que há uma complicação
com os humanos: para se decidirem a fazer alguma coisa tem que
desejar."
"Desejar?"
"É,
ter sua vontade motivada por uma razão ou outra."
O
AKG e o TXL ficaram parados um minuto, renovando seus circuitos
psicotrônicos.
A
segunda parte da Tarefa era bem mais difícil do que imaginavam.
...............................................
A
Criatura finalmente fôra desativada e descansava na cápsula como
um manequim de olhos vítreos.
O
TXL 3489-3 consultava o Cérebro, enquanto o AKG 4379-2 pesquisava
no Verbo as palavras referentes à emoção Medo.
"Temos
um pequeno problema... o ambiente do planeta em nosso fragmento
temporal é bastante hostil para os padrões de 1999. Florestas
selvagens, árvores de tamanho superior à 4 ou 5 vezes à altura média
dos humanos... enormes répteis e anfíbios... tudo que é de grande
dimensões em relação a eles provoca respostas do tipo receio e até
pânico. Também estímulos desconhecidos são percebidos como
perigosos."
"Não
consideramos essa possibilidade. Embora fabricado como um robô, ele
raciocina e sente através de códigos humanos, com sentimentos e
reações imprevisíveis."
"Nosso
trabalho atual será treiná-lo para se adaptar a este determinado
período de tempo e espaço"
O
AKG ficou de pé
"O
Cérebro confirma: a Criatura é perfeitamente capaz de
aprendizagem. Além disso, seus circuitos psicotrônicos são do
mais alto padrão. Nenhuma série AKG, TXL, JMN ou PBQ pode superá-lo
na capacidade de estabelecer relações lógicas com variáveis
arbitrárias."
"O
primeiro passo será ensiná-lo a controlar as emoções. E quando
estiver pronto... então, está parte do projeto fechará seu
ciclo."
O
TXL colocou o homem na prancha metálica e religou seus circuitos
vitais. Ele estava mais calmo e seus sensores-olhos observavam os
dois robôs com curiosidade. Os três dirigiram-se juntos para a
porta, sem que a Criatura opusesse a menor reação.
No
ambiente exterior o Homem considerou a névoa que encobria
parcialmente as gigantescas árvores e os cipós entrelaçados. Não
sentia medo. O caminho continuava por entre os troncos retorcidos e
o ar era espesso e úmido. Chegaram à região mais baixa, um pântano,
onde a bruma estava ainda mais cerrada.
Seus
sensores avistaram uma cabeça cortando o líquido pegajoso. Como
uma imensa serpente de corpo liso e viscoso, o pescoço do animal
elevou-se diante deles e, finalmente, o corpo monstruoso apareceu,
ainda coberto de algas e liquens das profundezas.
O
Homem parou diante daquela visão e começou a tremer violentamente.
Foi então que o AKG iniciou seu treinamento: apanhando um
instrumento cortante e ignorando o anfíbio a sua frente, deu um
golpe seco sobre a extremidade braço da Criatura, separando-o de
seus tentáculos da mão.
O
Homem, horrorizado, viu o sangue escorrer, sem forças para reagir.
Calmamente,
o AKG apanhou a parte mutilada e colocou-a outra vez no lugar. Com
um aparelho portátil colou-a rapidamente e em cinco minutos não
havia mais traço do ferimento. Se não fosse pelo sangue que tingia
as folhas ao seu redor, tudo poderia ter sido apenas uma alucinação.
"Você
não pode ser destruído. Compreendeu agora?"
O
Homem olhou para o braço reconstituído e sorriu fracamente. Seus
olhos voltaram-se para a monstruosa figura no pântano. Já não lhe
provocava emoção alguma. Sentia-se calmo e superior. Continuaram a
caminhar por dentro da selva escura. Algumas vezes um certo receio
ameaçava tomá-lo, mas a lembrança da mão mutilada e da milagrosa
restauração o acalmava.
O
TXL e o AKG se ligaram ao Cérebro comunicando o sucesso da segunda
etapa da Tarefa Homem.
...................................
Ele
se alimentava de vegetais e frutas, bebia água do grande rio próximo
ao Departamento de Pesquisa Vocabular. Respirava e eliminava
excrementos como qualquer animal do planeta. Mas, não era igual a
eles.
Seu
cérebro, de inteligência superior à media humana apreendera todas
as nuances da situação. E não se conformava com essa ambivalência
fundamental: pensar exatamente como um homem e não ser homem,
comportar-se como um ser vivo e não ter vida.
Perguntara
diversas vezes ao AKG 4379-2 e a outros robôs a razão porque fôra
criado. Qual a finalidade de sua fabricação naquele fragmento
temporal.
Nenhum
deles soubera responder.
Em
alguma época perdida no esquecimento, haviam sido programados para
executar o que chamavam A Tarefa: captar incessantemente os sons de
1999 através do Verbo e construir, com esses dados, um andróide em
tudo semelhante aos humanos daquele período.
A
primeira parte estava completa: era ele, a Criatura-Homem. Assim que
se adaptasse completamente ao planeta, todos os TXL e PBQ seriam
desativados.
E
quando o Cérebro considerasse terminada a captação, os outros robôs
também se desligariam e iriam descansar para sempre dentro dos sarcófagos
prateados no Galpão do Núcleo Noturno.
E
o abandonariam completamente só.
Criatura
híbrida, nem metal, nem carne verdadeira, único neste planeta e
neste fragmento perdido no tempo.
Os
TXL,AKG,PBQ e JMN só tinham certezas. Seus circuitos psicotrônicos
não questionavam nada. Não os interessava a finalidade, mas a
perfeita execução do projeto. Por mais sofisticados que
parecessem, eram apenas máquinas realizando um programa quase
interminável e sem razão.
Mas,
em algum momento do passado estava a resposta. Uma inteligência
criadora ordenara a Tarefa, especificara o ano, desejara sua fabricação.
Por
que?
Olhava
as nesgas do céu escuro, por entre as copas densas das árvores e
interrogava as estrelas. Há milhares de anos atrás muitas delas já
existiam. E no fragmento de l999 elas brilhavam, como agora, diante
de outros seres semelhantes a ele.
Mas aqueles tinham vida.
À
procura dela, a Criatura abandonou o Laboratório do Departamento de
Fabricação Robótica e se dirigiu ao pântano. Seu pálido consolo
era o contato com os grandes répteis e anfíbios que povoavam o
planeta. Eles também não sabiam porque foram criados, mas viviam e
se alimentavam e morriam e seus restos iam se transformar em pó que
fecundaria as árvores e seria vida outra vez.
Pensando
nessas coisas, cortava a névoa espessa e úmida, quando, no meio da
bruma, surgiu uma cabeça gigantesca. O monstro abaixou seu longo e
flexível pescoço e o Homem acariciou a pele lisa e fria:
"Bom
dia, Gork, hoje não posso demorar. Meus circuitos estão quase
estourando..."
Num
sinal de compreensão, o animal encarou-o com os enormes olhos úmidos
e voltou para o lodo
A
Criatura continuou seu caminho. De vez em quando, parava e
cumprimentava os enormes répteis, nomeando-os com palavras
retiradas de sua memória programada. Abandonou os trajetos
conhecidos e se embrenhou na floresta, guiado por um instinto, uma
lembrança ancestral que sua mente psicotrônica não conseguia
explicar.
Finalmente,
chegou ao local. Nele as árvores formavam uma clareira, onde a lua
brilhava sobre as ruínas de uma cidade que se perdia no horizonte.
Meio enterrados no solo, altos edifícios, cujo resistente material
permanecia quase intacto, com suas paredes enegrecidas e cobertas de
limo. Destroços de uma civilização desaparecida. Aqui ele se
sentia, de alguma forma, familiar. Imaginava que todo o sistema de
pensamento inserido em seu cérebro mecânico fora baseado na vida
desse povo esquecido.
Era
como o fantasma de um deles, percorrendo a cidade vazia à espera de
alguma coisa.
Um
vento gelado cortava as avenidas silenciosas e seus passos ecoavam
no chão semi-destruido, entre as folhagens e liquens.
Ninguém.
O
que acontecera a todas aquelas pessoas, cuja memória permanecera
nele, cujos sentimentos e sonhos habitavam agora sua mente
artificialmente construída ?
Seria
preciso interrogar o passado.
E
havia uma única maneira de fazê-lo.
................................................................................................................................................
O
AKG 4379-2 terminou o trabalho e reuniu-se aos outros de sua unidade
no Galpão do Setor Noturno. Viu que o Homem se encontrava na porta
do Departamento de Captação, mas não se incomodou. O que ele
fazia agora já não tinha importância. Essa parte do Projeto
estava concluída.
Entrou
na cápsula e desligou os sensores.
Tudo
ficou silencioso e imóvel.
Exceto
pelo deslizar dos passos da Criatura em direção ao Núcleo do
Computador Central.
Aprendera
a ligar o Cérebro e a trabalhar com ele observando os PBQ. O
zumbido característico e as luzes indicavam que funcionava
normalmente.
Controlou
as batidas do seu coração e interrogou o computador:
"Informe
o ano do início desse Programa de Captação dos sons de
l999."
Conforme
imaginara a voz metálica do Cérebro respondeu:
"Programa
Captação de sons - l999 / Andróide especial - início:
2099."
Cem
anos depois!...Continuou a perguntar:
"Quem
elaborou o Programa?"
"A
equipe do Dr. Reuben Eliezer e Dr. Geralt Lanor..."
Seguia-se
uma lista de nomes de cientistas, com suas respectivas universidades
de apoio e de lugares que não constavam de sua memória programada.
"Eram
humanos ou robôs?"
"Não
tenho dados para responder a esta questão."
A
Criatura sorriu. Não tinha importância. A resposta era mais que
evidente. E se a sua teoria estava certa, ele já tinha um meio de
descobrir o que procurava.
Ordenou
ao Cérebro que alterasse a programação do Verbo do fragmento
temporal do ano de 1999 para o de 2099. O Computador avançou dois dígitos:
"Alteração
realizada"
O
Homem deixou o Núcleo Central e se Dirigiu ao Departamento de Captação.
O imponente Verbo, com suas antenas voltadas para o céu, rastreava,
incessantemente, o espaço, trazendo as palavras que eram
interpretadas pelo Cérebro e pelos robôs.
Ele
se colocou diante de uma delas e começou a ler as mensagens que
vinham do longínquo 2099.
..................................................
Quando
o dia clareou, a Criatura reprogramou a máquina para o projeto
original e voltou para o Laboratório. Estava física e
psiquicamente exausto. Fizera sozinho todo o trabalho de decodificação
e interrelação. Ainda era muito cedo para chegar a uma conclusão,
mas sentia que, de alguma forma, estava no caminho certo.
Analisou
o material recolhido: indicava sofrimento, um terrível sofrimento.
Gemidos, palavras de dor, imprecações e pedidos à entidades
superiores ( deuses, segundo seus registros de memória ). Algo de
muito sério acontecera, ou começara a acontecer, naquele período.
Cansado,
atirou-se no leito improvisado do Departamento de Fabricação e
dormiu quase instantaneamente.
O
TXL 5497-32 olhou para o homem na cama:
"Ele
tem estado assim. Passa os dias mergulhado nesta inércia. Será que
há alguma coisa com seu organismo?"
O
TXL 3489-3 balançou a cabeça
"Não,
eu já verifiquei. Está tudo funcionando perfeitamente. Minha
conclusão é que ele tem se mantido ativo durante o período
noturno. Esse protótipo precisa alternar os períodos de vigília
com horas de repouso, em que o cérebro permanece funcionando em
outra freqüência de atividade, aparentemente, mais baixa. Sua
mente foi concebida de maneira a produzir sonhos."
"Sonhos?""
"Durante
esse período inercial, sua mente constrói imagens e situações
como se as estivesse vivenciando na realidade"
"São
complicadas essas unidades"
"É
verdade. Foi preciso muito tempo e trabalho para que o Cérebro
elaborasse a construção desse andróide especial"
O
Homem agitou-se durante o sono. Seus globos oculares moveram-se
dentro das pálpebras fechadas. O corpo sacudiu-se como se tivesse
levado um choque.
Os
TXL observaram-no mais um instante e voltaram ao trabalho.
..................................
2099
- ele esfregou os olhos avermelhados pelo cansaço - nesse fragmento
temporal, uma doença implacável e sem cura dizimara a população
do planeta.
No
entanto, no meio dessa desgraça, seus cientistas tinham criado um
projeto tão detalhado e brilhante como o do Verbo. Parecia uma
incoerência.
O
Homem decidiu que precisava de dados mais concretos para entender o
que acontecera. Não se tratava mais, apenas, do seu significado
pessoal - o Andróide Especial de 1999 - mas do destino de todo um
povo que ele precisava descobrir.
Sua
mente trabalhava numa idéia audaciosa. Se o Verbo era capaz de
entrar em contato com os sons de outros fragmentos temporais, ele
poderia conectar o Cérebro à máquina captadora de forma a trazer
de volta as palavras do próprio Computador Central em 2099.
Conseguindo isso, seria capaz de ler todos os programas daqueles
anos e compreender melhor a mensagem que vinha daquela época
distante.
Durante
anos trabalhou nessa direção. Dormia durante o dia e passava as
noites acordado, debruçado sobre os computadores, descansando
apenas para caminhar ligeiramente pelos arredores e contemplar as
estrelas silenciosas.
Aos
poucos, os PBQ foram se desativando, depois os JMN e, finalmente, os
TXL, até que somente o Verbo, o Cérebro e alguns AKG permaneciam
em atividade.
As
árvores perderam e ganharam folhas. O pântano cresceu e inundou
parte da cidade arruinada. Alguns grandes répteis desapareceram,
outros diminuíram de tamanho e foram se adaptando às novas condições
ambientais. O clima ficou mais quente e seco.
A
Criatura envelhecera um pouco. Seu organismo, criado à semelhança
dos humanos, sofrera algum desgaste com a passagem do tempo.
Mas
sua mente continuava ativa.
Ligou
o Cérebro e foi olhar o Verbo. Os dígitos marcavam o ano 2109.
O
sol entrava pela vidraça, iluminando o grande computador prateado e
a máquina de captação.
Os
últimos AKG haviam se desativado e o Homem agora estava sozinho
para operar os instrumentos.
O
Cérebro lhe entregou o resultado. Começou a ler distraído. De
repente, seus pelos se eriçaram.
Levantou
o olhar para a nesga azul de céu que aparecia através da janela
aberta. Os galhos balançavam suavemente com a brisa e as flores
vermelhas se misturavam à folhagem.
"Afinal!"
exclamou comovido
*
Parado,
com as folhas impressas na mão, lembrava o dia em que recebera a
primeira mensagem de 2099. Nela, o Dr. Reuben Eliezer comunicava ao
Cérebro, que ele tratava, afetuosamente, por Joe, o início do
programa.
Na
letra clara e nítida das cópias do Verbo estava escrito:
Dr.
Reuben - Joe, hoje vamos começar a operação de rastreamento dos
sons do Universo. A máquina já está construída. Nós a chamamos
Verbo. É um grande momento para todos nós.
Joe
- É um grande momento para mim também, Dr. Reuben. Quando
iniciaremos o trabalho?
Dr.
Reuben - Dentro de 20 minutos, exatamente às 10 horas. O fragmento
temporal escolhido foi o ano de 1999, cem anos atrás.
Joe
- Alguma razão especial para a escolha?
Dr.
Reuben - Sim, Joe, há uma razão muito especial. Foi a partir dessa
data que os cientistas começaram a perceber as alterações genéticas
que resultaram na SAD, essa misteriosa doença que vem atacando os
seres humanos. Precisamos estudar a época em todos os seus aspectos
e descobrir a origem dessas modificações.
Joe
- SAD - Síndrome da Auto Destruição progressiva.
Dr.
Reuben - É uma calamidade, Joe. E tem afetado principalmente os
jovens... e, além de ser uma doença incurável, coloca em perigo a
continuidade de nossa vida no planeta porque torna estéreis os
homens e mulheres atingidos por ela.
Joe
- Nós descobriremos a cura, Dr. Reuben?
Dr.
Reuben - É o que esperamos, Joe... é o que esperamos... Com a sua
ajuda e dessa equipe maravilhosa... ATENÇÃO... o sinal já foi
dado. Vamos iniciar a contagem regressiva para a entrada do Captador
e o começo do Programa Sons de l999 - Andróide Especial.
10......9......8......7......6......5......4......3......2......1......0
!
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Milhares
de anos depois, sentado diante do Cérebro, o Homem imaginava a
gigantesca antena do Verbo, voltada para o Universo e iniciando a
operação interminável. Sua energia vinha do próprio sol e não
se esgotaria nunca. Ou quase nunca. Naquele período em que a própria
estrela mãe iria desaparecer, transformada em matéria fria.
Ele
estava ansioso. Durante todo esse tempo, fora o leitor curioso e
interessado dos diálogos entre o Computador e sua equipe. Aprendera
os nomes e um pouco da personalidade de cada um e chegara até a se
afeiçoar a eles através desse contato unilateral.
E
agora, finalmente, recebia a última mensagem. Aquela determinante
do Programa fundamental,
que continuara sendo cumprido pelos robôs esses anos todos.
A
Resposta. A sua Resposta.
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Dr.
A - Joe, sou o Dr. Adamo
Joe
- Eu sei, Dr. Adamo, eu o conheço muito bem
Dr.
A - Quero isto registrado. Sou o Dr. Adamo. Este é o Programa
Final. Os habitantes do planeta estão se extinguindo. Estamos em
2109. Dentro de alguns anos não restará ninguém sobre a superfície
da Terra. O que nossas armas atômicas não conseguiram diretamente,
a mutação genética vai completar. A SAD já atingiu a população
inteira.
Durante
esses anos, nossa equipe fabricou secretamente quatro série de robôs,
altamente sofisticados: AKG, TXL, PBQ e JMN. Seus circuitos
cerebrais são psicotrônicos - assemelham-se aos do homem - e sua
inteligência é sofisticada. São capazes de tomar decisões e
executar tarefas complexas. Eles assumirão o comando da operação
de agora em diante.
Joe
- O senhor não confia mais em mim Dr. Adamo ?
Dr.
A - Não é isso, Joe, você continuará trabalhando conosco, mas
perderá parte de suas funções. Obedecerá às ordens deles, que
estarão ligados a alguns de seus circuitos. É para o bem dos
homens, Joe
Joe
- Sim, Dr. Adamo, eu compreendo. Posso saber o objetivo do Programa?
Dr.
A - O objetivo é captar informações deste fragmento temporal,
criar dois andróides especiais, em tudo semelhantes a um homem e
uma mulher daquele tempo e tentar que eles se reproduzam,
restituindo a raça humana ao planeta. É isso, Joe. Pode ser impossível,
mas é uma tentativa. Nossa única esperança.
Joe
- No que depender de mim, não haverá falhas. Desejo que os humanos
continuem a conviver conosco.
Dr.
A - Agora vou desligar você para fazer os ajustes necessários e
passar ao AKG 4379-2 o comando do novo projeto. Adeus, Joe. Vou
sentir saudades.
Joe
- Eu também, Dr. Adamo.
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O
Homem ficou pensativo, olhando o sol que entrava pela janela e
formava manchas de luz no assoalho empoeirado. Sentia uma enorme
tristeza.
Em
alguma parte daquele ambicioso projeto, os robôs haviam falhado.
Apesar de toda a sua inteligência, só tinham conseguido realizar
uma parte da Tarefa. E representava o mesmo que nada.
Ali
estava ele, um homem outra vez sobre a Terra e profundamente sozinho
e infeliz.
Poderia,
talvez, construir outros iguais a ele, mas, de que adiantaria? Seria
como ver multiplicada no espelho a sua desgraça.
Ouvia
as vozes de tantas outras épocas e não podia se comunicar com
elas... seus donos eram todos pó, há muitos séculos disperso.
Saiu
do Departamento.
Lá
fora a natureza era bela. As árvores estavam verdes, o céu
brilhante. O velho pântano se transformara num lago azul que
cintilava ao sol.
Sentia
o calor, mas seu coração estava gelado.
Entrou
no Laboratório, deitou-se na maca e começou a desligar seus
circuitos psicotrônicos. Queria se tornar parte de alguma coisa,
mesmo que fosse o Nada.
No
fundo do lago, animais unicelulares evoluíram lentamente.
Multiplicaram-se, cresceram, deixaram a água e começaram sua
caminhada pelo planeta... seus cérebros desenvolveram-se...
E
o Verbo, com suas sofisticadas antenas voltadas para o espaço sem
limites, continuava a sondar interminavelmente o Universo, à espera
daquela Palavra que daria sentido à Criação
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