|
Existem certas coisas
que fazem parte de nossa realidade e das
quais muitas vezes não
temos consciência. Um exemplo é o nosso
relógio biológico,
que tem uma programação pré-definida, de acordo
com o meio ambiente em
que estamos inseridos e ao qual de forma
consciente ou não
devemos seguir.
Assim estamos presos a
uma teia de inter-relacionamentos, onde
nossos caminhos estão
traçados, embora sempre tenhamos opções a fazer.
Desvios e atalhos, que
fazem parte da jornada e podem aumentar ou
diminuir as
dificuldades.
---//---
Desde que me recordo,
sempre estivéramos juntos e formávamos uma
família bastante
unida. Nascemos e crescemos no mesmo ambiente,
com objetivos e anseios
comuns. Pode-se dizer com toda certeza, que
foram os melhores
momentos de nossas vidas. A natureza nos foi uma mãe
gentil e proveu
abundantemente a todos com seus melhores recursos, em
contrapartida nos
desenvolvemos fortes e saudáveis, sempre lhe sendo
gratos.
Em um lindo dia de sol,
quando havíamos atingido nosso apogeu,
nosso maior grau de
amadurecimento e onde a grande maioria imaginava
que detinha o
conhecimento do meio ambiente, fomos acordados do sonho e
jogados em um pesadelo,
onde nosso mundo transformou-se completamente.
Arrancados do convívio
com a natureza e das coisas que amávamos, a
chuva, o sol, o vento e
o solo que nos sustentava, tudo acabou. Os sons
harmoniosos que sempre
fizeram parte de nossas vidas, foram
substituídos pelo
ranger de engrenagens e poderosas mandíbulas
extirparam o protetor
lar em que vivíamos. Permaneceríamos
juntos, mas também
individualizados e já não éramos um só corpo. A
família, a comunidade,
a nossa nação, tudo ficou no passado.
Toda segurança que
demonstrávamos, tudo que conhecíamos fora
substituído e nos sentíamos
perdidos. Joguete de deuses
poderosos, que em rápidos
movimentos destruíram o mundo que
conhecíamos e nos
jogaram em um novo meio totalmente diverso. O
Artificial substituiu
tudo, inclusive nosso lar. Recebemos outro,
sintético, translúcido,
impermeável, diferente do primeiro em que
nascêramos e que era
parte de nossos corpos. A tranqüilidade
fora-se para sempre,
perdida em algum lugar que já não existia.
O mundo exterior
movia-se em constante mutação, ora estático, ora
puro movimento. Dia e
noite já não mais existiam e a noção de tempo
desaparecera. Também a
família que achávamos ser o tudo, o centro
do universo,
encontrava-se para sempre diluída. Estávamos em meio a
muitos outros irmãos
que desconhecíamos e que tinham a mesma
história a contar.
Eram nossos iguais. Uma multidão sem
identidade.
Uma nova rotina
criou-se e já nos habituávamos com a situação, onde
o limbo dominava nossos
horizontes e nossas perspectivas. Mas as coisas
que pareciam não poder
piorar, complicaram-se com um novo fato. Até
então formávamos um
grande grupo, a união trás a força e o apoio. Foi
quando percebemos que
de tempos em tempos, alguns eram separados dos
demais e desapareciam.
O pavor tomou conta dos que ficam e a sensação
de perda torturava a
todos, assim como o receio de ser o próximo.
O processo tornara-se
irreversível, víamos nosso numero ser reduzido
mais e mais e já não
tínhamos esperanças de reencontrar os que partiram.
Muitos já ansiavam
pelo fim, seja lá qual fosse. Eu também desejava
isto, mesmo sabendo ser
contra tudo que é natural. A espera tornara-se
uma tortura que nos
oprimia e martirizava.
Aconteceu
repentinamente, arrancado daquele que já sentia como um
Lar e junto a outros
poucos, mudos de medo, vamos encontrar nosso
destino. Jogados em um
novo mundo, onde somos untados com um liquido
pegajoso e empurrados
de um lado para o outro. Na escuridão total, onde
ar está irrespirável,
o chão a cada instante mais quente, só podemos
pensar no fim. Pois nem
em nossos mais terríveis pesadelos imagináramos
algo assim.
Primeiro uma explosão,
depois outra e mais outra e numa seqüência
louca nossos corpos são
lançados ao espaço, explodindo, expandindo.
Tudo gira num movimento
frenético, numa metamorfose bizarra, um sonho
louco onde somos
virados do avesso. Assim como começou, Tudo cessou.
Ar fresco, luz e somos
jogados novamente em outro lugar. Já não nos
reconhecemos mais,
somos estranhos a nós mesmos, transformados,
deformados pelo calor.
Em um golpe final a realidade é atirada a nossa
cara e por fim temos
consciência de nosso destino final.
-
Crianças, Pipocas...
|