Destino

 Waldy Pereira Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0098]
[Autor:
Waldy Pereira Filho]
[Título: Destino]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 700]

 

Existem certas coisas que fazem parte de nossa realidade e das

quais muitas vezes não temos consciência. Um exemplo é o nosso

relógio biológico, que tem uma programação pré-definida, de acordo

com o meio ambiente em que estamos inseridos e ao qual de forma

consciente ou não devemos seguir.

 

Assim estamos presos a uma teia de inter-relacionamentos, onde

nossos caminhos estão traçados, embora sempre tenhamos opções a fazer.

Desvios e atalhos, que fazem parte da jornada e podem aumentar ou

diminuir as dificuldades.

 

---//---

 

Desde que me recordo, sempre estivéramos juntos e formávamos uma

família bastante unida. Nascemos e crescemos no mesmo ambiente,

com objetivos e anseios comuns. Pode-se dizer com toda certeza, que

foram os melhores momentos de nossas vidas. A natureza nos foi uma mãe

gentil e proveu abundantemente a todos com seus melhores recursos, em

contrapartida nos desenvolvemos fortes e saudáveis, sempre lhe sendo

gratos.

 

Em um lindo dia de sol, quando havíamos atingido nosso apogeu,

nosso maior grau de amadurecimento e onde a grande maioria imaginava

que detinha o conhecimento do meio ambiente, fomos acordados do sonho e

jogados em um pesadelo, onde nosso mundo transformou-se completamente.

Arrancados do convívio com a natureza e das coisas que amávamos, a

chuva, o sol, o vento e o solo que nos sustentava, tudo acabou. Os sons

harmoniosos que sempre fizeram parte de nossas vidas, foram

substituídos pelo ranger de engrenagens e poderosas mandíbulas

extirparam o protetor lar em que vivíamos. Permaneceríamos

juntos, mas também individualizados e já não éramos um só corpo. A

família, a comunidade, a nossa nação, tudo ficou no passado.

 

Toda segurança que demonstrávamos, tudo que conhecíamos fora

substituído e nos sentíamos perdidos. Joguete de deuses

poderosos, que em rápidos movimentos destruíram o mundo que

conhecíamos e nos jogaram em um novo meio totalmente diverso. O

Artificial substituiu tudo, inclusive nosso lar. Recebemos outro,

sintético, translúcido, impermeável, diferente do primeiro em que

nascêramos e que era parte de nossos corpos. A tranqüilidade

fora-se para sempre, perdida em algum lugar que já não existia.

 

O mundo exterior movia-se em constante mutação, ora estático, ora

puro movimento. Dia e noite já não mais existiam e a noção de tempo

desaparecera. Também a família que achávamos ser o tudo, o centro

do universo, encontrava-se para sempre diluída. Estávamos em meio a

muitos outros irmãos que desconhecíamos e que tinham a mesma

história a contar. Eram nossos iguais. Uma multidão sem

identidade.

 

Uma nova rotina criou-se e já nos habituávamos com a situação, onde

o limbo dominava nossos horizontes e nossas perspectivas. Mas as coisas

que pareciam não poder piorar, complicaram-se com um novo fato. Até

então formávamos um grande grupo, a união trás a força e o apoio. Foi

quando percebemos que de tempos em tempos, alguns eram separados dos

demais e desapareciam. O pavor tomou conta dos que ficam e a sensação

de perda torturava a todos, assim como o receio de ser o próximo.

 

O processo tornara-se irreversível, víamos nosso numero ser reduzido

mais e mais e já não tínhamos esperanças de reencontrar os que partiram.

Muitos já ansiavam pelo fim, seja lá qual fosse. Eu também desejava

isto, mesmo sabendo ser contra tudo que é natural. A espera tornara-se

uma tortura que nos oprimia e martirizava.

 

Aconteceu repentinamente, arrancado daquele que já sentia como um

Lar e junto a outros poucos, mudos de medo, vamos encontrar nosso

destino. Jogados em um novo mundo, onde somos untados com um liquido

pegajoso e empurrados de um lado para o outro. Na escuridão total, onde

ar está irrespirável, o chão a cada instante mais quente, só podemos

pensar no fim. Pois nem em nossos mais terríveis pesadelos imagináramos

algo assim.

 

Primeiro uma explosão, depois outra e mais outra e numa seqüência

louca nossos corpos são lançados ao espaço, explodindo, expandindo.

Tudo gira num movimento frenético, numa metamorfose bizarra, um sonho

louco onde somos virados do avesso. Assim como começou, Tudo cessou.

 

Ar fresco, luz e somos jogados novamente em outro lugar. Já não nos

reconhecemos mais, somos estranhos a nós mesmos, transformados,

deformados pelo calor. Em um golpe final a realidade é atirada a nossa

cara e por fim temos consciência de nosso destino final.

 

- Crianças, Pipocas...

   

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