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Introdução
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Em
1956 eu visitei Marte.
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Afirmo-o
com convicção: Estive lá!!
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As
imagens estão tão claras em minha mente ainda hoje (se vão
praticamente meio século daquela quase trágica epopéia
solitária), levando-me, muitas vezes, a perder-me naqueles
grandes desertos gelados da recordação, os labirintos de
sua teia de cavernas ocultas que ainda trago emaranhadas em
meu ser.
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Este
testamento virtual {anexo 2}, firmo-o na presença do Tabelião
do 9º
Ofício de Notas da União, Ilmº.
Sr. Ranufro Pontes Filho, no gozo total de minhas faculdades
mentais e motoras, como atestam os diversos laudos e exames
{anexo 3 e 4/a-b-c}, etecétera, etecétera.
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Mas,
sinto não me restar grande vida nessa carcaça de pau-à-pique.
Por opção. É chegado o momento de ruir o silêncio
guardado por todo esse tempo, rompendo seu lacre até então
inviolável, e ganhar forma enquanto tenho voz e recursos técnicos
para narrar.
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Para
você, o mais curioso de meus netos, deixo também esse
legado em forma de CD-ROM {anexo 5} e junto a isso vão
minhas ‘impressões de viagem’
e todo material de apoio que salvei das traças físicas e
as outras, invisíveis e imateriais, que nos infestam por
dentro e corroem além das entranhas. Essa introdução faço-a
por escrito de modo arcaico, servindo de preâmbulo à cópia
digital pormenorizada. Leia-me, ouça-me e veja-me, pois,
com atenção invulgar: Devo estar morto e servindo de
banquete aos vermes quando isto puder chegar em seus
ouvidos, olhos e mente, sempre tão corretos em decifrar o
certo da fraude. O ‘vovô-tolo’
era como me chamavam com a simpatia comum aos idiotas para
com os idosos lapidados pelo atrito dos anos. Nunca pude
expressar-lhe em vida o quanto você significa para esse
velho assaltado pela nostalgia, que agora, infelizmente
talvez, vêm assombrá-lo por meio de seu kit multimídia:
Se algo servir de consolo, pode-se dizer que nem antes,
muito menos agora, essa coisa de ser apontado como ‘um
velho cheio de manias’
me afetou. Deixe-os me chamar do que quiserem! O morto é
imune aos prazeres da carne, mas também o é em relação
aos dissabores da vida. Uma forma de compensação. Venço-os
com meu cadáver convertido em cinzas e dispersado ao vento
nesse cemitério-parque para onde tenham-me destinado, na
certeza de estar oco de todo órgão que pude doar em vida,
reservando-lhe meu coração que, se calculei direito e o
destino conspirou a meu favor, já bate forte em seu peito,
o qual, isso tenho certeza, muito apreciará.
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Tudo
mais que a partir deste momento se revelar será todo seu
para acreditar ou duvidar... Faça bom proveito. Se possível,
divirta-se!!
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De
seu Avô, que muito lhe preza e ama,
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Markus Adorinã Galhardo
(código
de barras)
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P.S.:
Sem liberdade não somos nada além de uma cela biológica.
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I
28 de Outubro de
2018...
Robinson virou a poltrona na direção do
espelho da cômoda e encarou sua imagem ali refletida: os olhos
fundos, o cabelo começando a rarear no topo da testa franzida, o
tom antes doentio de sua pele desfeito num perfeito bronzeado; as
novas técnicas de sutura deixaram somente um fino vestígio de
cicatriz em seu torso nu, que breve seus sempre fartos pêlos fariam
por ocultar, tão logo atingissem sua capilosidade natural.
Obrigado,
pensou, repensou, tornou a pensar. Um eco que sua mente não cansava
de reprisar.
O velho tivera razão. O pós-operatório
transcorrera sem alarde de qualquer tipo de rejeição, mesmo as
mais comuns. O coração daquele ‘velho’ era extremamente forte, para não dizer impossivelmente eficaz, o
que extrapolava qualquer dos muitos veredictos em contrário, das
aves agourentas que palraram em seus ouvidos para que ele não
fizesse tal coisa, como aceitar um órgão em final de carreira?
Enfim, sua opinião prevalecera. Aceitou aquilo como uma dádiva;
sobretudo uma parte dele, que bombeava em seu corpo um fluido constante de
energia redobrada que fazia-o impacientar-se com coisas que antes
achara laboriosas, simplesmente aguardando a morte chegar.
E lá se foram dois meses, escoados com notável
rapidez, desde o enterro que transcorrera sem sua presença,
removido às pressas pela UTI móvel, levado de jatocóptero para o
Hospital do Coração no polo de bioengenharia da Cidade Universitária
do Fundão, onde recebera o implante cardíaco. Seis horas com o
peito aberto, as costelas contemplando o serviço minucioso do
bisturi laser.
Até na hora da morte
o Az soube sucumbir de forma heróica!
Mas em sua opinião fora cedo demais.
Terrivelmente cedo... Colocaria mais de dez marcapassos ou qualquer
válvula experimental de tecido caprino para ter Voador de volta e não
uma parte dele batendo em seu peito. Uma perda não justificava
outra. Não se julgava hipócrita ao ponto de achar tal coisa.
Iluminado por um lampejo de recordação,
mergulhou mais fundo ainda em suas memórias. Levantou-se com um
vagar algo atordoado, indo até o armário embutido. A medida que a
procura se delongava e a idéia ficava menos obscura em sua mente,
tornando-o frenético em sua busca, afastava tudo em seu caminho,
soterrando-se praticamente sob roupas de cama e sacolas até então
ainda não violadas de seu conteúdo. Finalmente achou uma pasta com
alça frouxa, de aparência pra lá de gasta, dentro da qual,
trazendo-a para próximo ao CompuTV, tirou antigos diskettes de 3.5’’ e implante de memória; ali também estavam alguns papéis
encardidos, pinçando um determinado maço de folhas laboriosamente
datilografado, anterior ao seu 1º
Editor de Texto, lá pelos idos da Idade do Grafite:
"Notícia: Homem manda rato adestrado ao
solo marciano", - encabeçava o topo da folha, trêmula em suas
mãos.
(A menor nave discóide então construída, 120
quilogramas de peso, têm um pai. O aluno de física experimental
aplicada que se proclamava LUVAC)
(Extrapolando de sua prancheta de desenho,
famoso por sua larga capacidade inventiva, LUVAC leva avante seu
projeto mais ambicioso e precoce: a construção duma miniatura
funcional de nave para ‘...num só golpe, colocar em solo marciano, um tripulante da velha
Terra, no comando de sua menor e melhor nave, a Disneyland’)
(LUVAC conta com a ajuda de sua inseparável
namorada que, na função de bióloga, fez a seleção dos espécimes
e solicitou a cobaia – conhecido como Rato56 - aos mais exaustivos
exercícios e testes que um ser desta ou outra natureza jamais fora
submetido)
(Conta ela)
—
Nunca duvidei do projeto LUVAC. Para isso temos agora um tripulante
exemplar, capaz de levar ao nosso vizinho planetário nossas mais
gratas lembranças...
(Voltamos e, com a palavra, LUVAC)
—
A nave apresenta uma tecnologia de ponta, com moldes em escala
infinitesimal. O maior problema, por mais extraordinário que pareça,
não foi o dinheiro (tenho o patrocínio de 4.2 bilhões de
terrestres que torcem por nosso sucesso e mais de $1,000,000 ‘doados’
pelos Estúdios Disney, creio que antecipando um provável remake
com ‘Mickey
Mouse em órbita’), mas residia em encontrar o tripulante ideal para, sem termos
condições de controleremotar, sem torres de retransmissão e
sistema de satélites de acompanhamento (a NASA, sabe-se lá movida
por ciúmes ou interesses ocultos, não nos dá qualquer apoio logístico
ou mesmo interjeições coloquiais de reconhecimentos de nossa
insignificância), acionar as chaves táteis-digitalizadas para a órbita
de Marte e o pouso propriamente dito.
(O dia da decolagem...)
(Lá está LUVAC na eufemística torre de
comando, montada num descampado, de Quintino Bocaiúva para o mundo,
correndo com o resto dos 3º-anistas de Física, nos preparativos finais do
lançamento tão aguardado por todos nós)
(Archibald, Arch, o Rato56, vem pedalando sua
gaiola cíclica, mostrando-se em plena forma e nem um pouco receoso
de sua futura e inédita missão)
(Diz LUVAC, para todos os nossos colegas de
imprensa, representando os principais periódicos, e os microfones
abertos de nossa exclusiva emissora)
—
Distante 60 milhões de quilômetros, Marte nos espera para uma
aterrissagem balística em seu hemisfério norte. Somente não posso
arriscar prever onde Arch irá descer especificamente. Contamos com
o poder planador da nave e o seu pequeno porte para que lá chegue
intacta, emitindo suas primeiras imagens, adotando o transformer II
para se locomover e iniciar o reconhecimento.
—
E quanto ao combustível? - indaguei, na seção seguinte de
perguntas & respostas que antecede o que os céticos e
divertidos profissionais de cinismo de todo mundo chamam de ‘um pequeno passeio para um rato mas um grande
salto para à ratoeira!’.
—
Como já lhes disse, nobres ouvintes, o ‘problema
pessoal’ foi o que acarretou maiores obstáculos, enquanto não resolvido
com a seleção de Arch pela mui competente especialista, Drª Márcia Bonfrates. Nosso combustível (essa palavra tão arcaica)
foi sintetizado a partir de 1/3 de silício, 1/3 de hidrogênio e
1/3 de carvorita...
—
Carvorita? - estranhei, perante a palavra tão familiar.
—
Perfeitamente. Sintetizando um componente mineral, induzindo um
forte campo gravitacional retrógrado, baseamos nas derivadas de três
das fórmulas básicas do mundo, isolando o que nos interessava. O
resultado demos o nome da matéria que possibilitou à H.G. Wells
chegar na Lua em um de seus contos visionários: Carvorita.
—
Isso tudo não é muito teórico para ver se enrola o repórter
aqui?
(Risos, no apertado mas bem aparelhado e
refrigerado trailer que também traduzia-se como ‘sala
de lançamento’)
—
Pode até parecer que sim. No entanto, não gostaríamos de
mistificar essa grande experiência. Pelo contrário, nossas anotações
e cálculos balísticos estão a disposição da humanidade como um
todo, principalmente àqueles que nos atribuem à charlatanice e o
descalabro como principal ferramenta de trabalho. Perante isso,
senhoras e senhores ‘colegas’,
tenho uma máxima Física dos tempos aristotélicos: Dê-me um ponto
de apoio, eu entro com a alavanca e nós deslocamos o mundo!!
(Alguns entre nós pigarrearam, enquanto eu,
Valfrido Jr., voltava à carga)
—
Mudando de assunto: já pensou num possível fracasso nessa
empreitada milionária?
—
É claro que o pensamento existe, mas, devo acrescentar, devidamente
amortecido por nossa perseguição pelo sucesso. Paradigmas à
parte, não estou sozinho nisso. Com certeza que a resposta é sim.
Mas devo também ressaltar que isso ficou para trás, no início de
nossa jornada, pois não há tempo para o fracasso agora, somente
para o trabalho. Depois veremos o resto...
—
E por falar em tempo... - quis saber um jornalista da revista Time, exibindo um sotaque inglês característico, ao incluir seu
chiste, no que LUVAC interrompeu, parecendo perceber muito bem o
detalhe risível na pergunta.
—
Depois. Não tenho tempo
para desperdiçar agora!
(As caixas-de-som improvisadas nas traves altas
de alguns postes plantados à margem do pequeno descampado berraram
os acordes finais daquela música que Kubric tão engenhosamente
maestrou sua criação em ‘2001’,
sendo substituída por uma dissonante e estrondosa sirene de raid aéreo,
presente no filme ‘A Máquina do Tempo’.
Ainda tivemos tempo de gritar para LUVAC a respeito da última
pergunta não respondida e colhemos o seguinte fragmento de resposta
antes da balbúrdia tomar conta de tudo)
—
...se querem saber: Se isolamos a gravidade como exemplo de variável,
o que os senhores acham que faremos com o tempo?...
Fora assim que parte de seu arremedo
destrambelhado de estória saíra num obscuro e mimeografado jornal
do colégio, cujo o título Garganta
Profunda não ajudara em nada para aumentar sua
respeitabilidade nos meios literários. Meio brincando, pouco mais
que um menino de poucos amigos, na verdade nada popular, Robinson
elegera Marte como objetivo de seus sonhos e que, via de regra para
basicamente todas as coisas, nunca conseguira vingar como realidade.
Quer escrevendo ou lendo obras escolhidas, ali embarcava seu
devaneio; era o deus de si mesmo, o próprio ponto fulcral da criação,
a máquina capaz de elevá-lo à condição de principal
protagonista, isento de qualquer má atuação, dissabores da crítica,
qualquer vislumbre de fracasso também, distante da realidade...
Para um jovem, acordar no dia seguinte já é uma pequena
eternidade, o que não dizer de um pirralho de 13 anos, imaginação
fértil, língua solta e destemida, com um avô ex-piloto da
Esquadrilha da Fumaça, em tudo um herói para aquele menino?
Acrescente a isso sua enfermidade e o menino seria como um trator
tentando por toda força mover um palito de fósforo em seu caminho,
sem nada conseguir...
Mas eis que passaram-se muitos anos, cometera a
contestável façanha de contrair matrimônio, ter filhos, lutar por
não sucumbir a tantos a tantos reveses econômicos e enxurradas de ‘moedas podres’;
tornou-se enfim um responsável e ‘quadrado’
Engenheiro Eletrônico, desde cedo pouco afeito aos esportes, e
estes nem de longe radicais, com sua ‘paixão espacial’
refreada por uma série de fobias que psicólogos, religiosos ou
terapeutas de vidas passadas saberiam precisar a origem de tantos
medos; sobreveio então uma pista, num exame de ressonância magnética,
no mapeamento torácico, e seu mal congênito foi detectado por um
cardiologista lamentoso de não ter sido consultado há tempos, de
preferência durante o curso da própria gestação daquele paciente
problemático. Patente estava que apelara para tudo em sua ânsia de
ser um astronauta, um aviador ou algo similar. Colecionara notas
altas, o 1o nos ciclos de palestras sobre vôo simulado e
coordenadas ortogonais no hiperespaço, lera tudo que pudera, do
concreto ao abstrato, sobre a esfera de tais assuntos. De nada
aquilo valera, a não ser uma certa miopia, um bom emprego e um
melhor ainda salário, o que de certa forma trazia sua própria
compensação, mas restava sempre alguma coisa, um vazio a ser
preenchido. Em troca de seu esforço, contido devido a um coração
de fabricação defeituosa, duas agressivas intervenções cirúrgicas
e alguns cateterismos, aos trinta e poucos anos de idade somente
restava o fato de continuar a ser um fã ardoroso de ficção científica,
onde um inválido cardíaco podia ser ou fazer qualquer coisa, até
mesmo salvar o universo!
O papel com rebordo ligeiramente amarelado que
tinha nas mãos fora sepultado pelo tempo e teria se decomposto pela
idade, pela umidade ou o lamentável desleixo se o seu avô não
fosse tão irreverente, mesmo em sua morte, ao lavrar tal insólito
testamento; soubera usar e abusar da máquina administrativa,
notoriamente emperrada (mas para ele não), cobrando formidáveis
favores insuspeitos a toda uma Junta Médica, dando-lhe a vida com
uma mão e mostrando-lhe o caminho com a outra; por outro lado, uma
faceta não tão imaculada, fazendo também retornar suas lembranças,
a angustia por nenhum de seus sonhos emplacarem mais que a fé quase
inabalável, sem montanha alguma que pudesse ser removida: Nenhuma
montanha mas um planeta inteiro que recebia levas constantes de colonos e
achava-se apto a uma assanhada requisição de soberania nas Nações
Unidas; um Marte sob um coquetel de bactérias e microorganismos
vivificadores, fixadores, pântanos de lodo, espelhos orbitais e o
aparato tecnológico de doze grandes indústrias do consórcio que o
explorava, já favorecidas, mesmo nesse exíguo tempo de prospeção,
por containeres cheios de diamantes, novos tipo de compostos
minerais essenciais à crescente indústria espacial (para se ater
unicamente na milionésima parte de um todo acenado como um filé
para um cão esfaimado). Um
planeta que seu avô garantia ter sido pisado por ele em 1956
e que em breve, com humanos nele ou sem, sofreria uma transformação
fulminante e avassaladora, destruindo o que lá existia, construindo
um novo mundo sobre a escória do antigo...
Puta vida!,
pensou com receio de continuar a descobrir os outros segredos que
seu avô lhe reservara como legado, e
essa agora...
Parecia um dia típico de Domingo, o sol
massacrante, as pessoas se divertindo nas praias do outro lado da
quadra do Canal, enquanto alto-falantes e carros tilintavam suas
buzinas musicais, apregoando a venda de refrigerantes, sorvetes,
frutas, e o que mais houvesse, desfilando os furgões elétricos,
multicoloridos, por aquele que já fora um balneário tranqüilo. Um
trio-elétrico distante ensaiava uma intermitente fuzarca,
espantando ainda mais aquele bucolismo típico, de localidade
perdida no passado. Paz nunca mais!! Todavia, era como se aquilo
acontecesse milhões de anos-luz dali.
Merda...
Voltou a perceber o ambiente quanto passou a
ouvir passos no corredor de tábuas corridas que desprendiam um
pungente cheiro de pinho; passos que eram ligeiramente abafados pela
passadeira de vime, a porta se abrindo após um ‘tok-tok’ de suaves dedos sobre a envernizada e vetusta madeira, seguido de
um ‘Oi!’
especulativo:
—
Querido! - ralhou a mulher, chapéu de palha lançado certeiro sobre
a cama, metida num sarongue jamaicano que em nada deixava esconder
do seu muito apetitoso conteúdo, mesmo após dois partos
rigorosamente monitorados, o que não impedira de acusar um óbito
entre eles: —
A convalescença já acabou. Estamos de férias, lembra? Sei que
gostava imenso de Vô Ador, mas esse quarto escuro, o Virtual-Book
ligado e esse mundão de papel velho não o trarão de volta...
Como sempre ela parecia ter uma P.E.S. apurada,
escondida em algum lugar. E, como sempre, tão logo acabara de
falar, Alinne se arrependera. Os olhos contritos de seu marido se
fecharam, uma lágrima escorrendo como batedora solitária de sua mágoa
represada. Um Lázaro devolvido à vida e que, mesmo sem contrato de
casamento algum, lhe era tão caro quanto o único filho
sobrevivente.
Robinson se sentia um tolo, uma vítima da
impertinência impossível e irreverente de Voador (Vô Ador) - como o antigo Az da Esquadrilha era conhecido
entre seus poucos pares ainda vivos e membros de sua própria família.
Suspirou, esvaziando-se como um balão sem ar, porém começando a
corresponder aos afagos localizados que recebia da envolvente
esposa, usando um dos pés para tal tarefa, tornando-o latente, ‘enchendo-se’ novamente, desta feita não só os pulmões.
Em breve a cama ajudou-os a compor aquela
sinfonia feita de gemidos e rangidos.
II
1971
O planeta vermelho nunca parecera tanto com o
Martelo de Vulcano quanto naquele ano, praticamente invisível sob
uma grande tempestade de poeira que, como proveniente de uma forja
divina, escondia os exércitos envergando seus mantos rubra-coral,
transfigurados em remoinhos de areia a marcharem inflexivelmente
sobre si mesmos.
Ano e meses antes o homem mal acabara de pousar
na Lua e ensaiara um "Grande Salto para a Humanidade..."
que por longa data assim permaneceria, repercutindo uma série de
pequenos pulinhos pouco proféticos. Parecia verdadeira a velha
premissa de que o destino, uma vez alcançado, perdia qualquer
significado.
1971. O ano em que Voador sentiu a geada quebradiça sob o marchar de seus pés calçados
e achou que nunca mais veria a Terra novamente, ressalvo aquele
familiar lápis-làzuli que espreitava-o a meros, em termos galácticos,
57 milhões de quilômetros, em mais uma oposição; estivera no
lugar por ele determinado de ‘seu terrário’:
uma plataforma suspensa sobre o mais próximo dos canais ‘descoberto’ pelo piemontês Giovanni Schiaparelli.
Quinze anos em Marte!
Nem Colombo despendera tanto tempo e energia em suas quatro viagens
ao continente americano, sendo mais da metade do período computado
das incursões de Marco Polo pelo Oriente. Guardada as proporções,
quinze anos ali significava o mesmo que quinze formas diferentes de
dizer adeus, uma eternidade de chances mancomunadas com a inclinação
ao suicídio...
Encapsulado em sua indumentária isoladora e
recicladora, iniciou o ritual de todas as manhãs, modificado
somente durante essa última e atípica semana, após a detonação
do Artefato. Nunca imaginara pensar (pior ainda em executar) em algo
tão drástico, sinistro e de resultados imprevisíveis quanto
detonar a ogiva que encontrara em uma das muitas andanças pelas
cercanias da Velha Cidade; acabara por proceder, de fato, a conclusão
daquela tarefa, pois estava desesperado e confuso, além de
arrependido. Agora tarde demais para voltar atrás.
Relutara por algum tempo, porém tinha acabado
por sucumbir ao impulso inelutável que derruíra toda sua resistência
como se nada fosse. Depois do mal feito restou-lhe unicamente
proteger-se nos largos e profundos túneis acima do permafrost,
sob a cordilheira Alasca, pensando se o que fizera, obrigado pelas
cacarejantes Vozes em sua mente, era uma parte fundamental da
profecia ou mais um engodo em sua vida...
Que se dane!!
A rotina dos passeios ‘ao ar livre’
fora-lhe tomada por ele próprio, não havia como refutar. Mesmo com
todo o aparato que o mantinha vivo, se configurava humanamente
impossível resistir a ventos de mais de 500 quilômetros horários,
o metralhar incessante do pó transfigurado em açoite mortal.
Restava caminhar sob a terra tal qual os anelídeos vermes carolíngeos(1),
batizados também por ele de TOP’s
(tapados-ovíparos-popozudos), bem como o sussurrar aleatório e
pouco racional do Povo Oculto, criadores-escravos do labirinto de
cavernas marcianas.
Desde o início adotara a contagem de tempo
humana. Todo o recorrente de sua desventura residia em unicamente
sobreviver e finalmente montar o quebra-cabeça de sua estadia
naquele que para muitos felizardos na Terra, coitados, era um mundo
destituído de vida própria.
Após 3 horas de marcha forçada atingiu às
Termas, um conjunto de vinte e duas cavernas de pedra
predominantemente azulada e água agradavelmente morna, mantida
aquecida pelo extravazor e um reator Bicônico ligado diretamente ao
manto quente do planeta. O ar, ainda que rarefeito, podia ser
respirado sem o auxílio de qualquer incômodo aditivo preênsil em
suas narinas, estava saturadamente umedecido de partículas
suspensas de água, fazendo sua pele exposta se descontrair,
trazendo-lhe uma grata sensação térmica que ficou maior a medida
que se desfez de seu complicado traje andarilho e meteu-se (nu) no
lago Vitória, flutuando facilmente no supersaturado de suas águas
salobras.
Enquanto boiava, seu corpo era massageado pelo
turbilhão das bicas quânticas que brotavam ao redor do pequeno
lago; este, embora impotável, era garantia de isenção de TOP’s
e outra qualquer forma de vida residual. Ficou hipnoticamente
observando o reflexo das cascatas no teto da imensa galeria, o
marulhar do mar fantástico situado num outro complexo de cavernas,
ecoando ao longe, trazendo e levando velhas conchas abandonadas, que
as lembranças, como algemas trinchadas nos pulsos memoriais, acabar
por tomá-lo de assalto...
*
Tenente-aviador aos 25 anos, em 1956, um novato
na Esquadrilha da Fumaça, mas já um líder esboçado, Markus
Galhardo trazia uma folha de serviço exemplar, ressalvo os
eventuais distúrbios de uma mente curiosa, externados de forma
criativa. Ele e os demais nove pilotos graduados faziam exibições
aéreas no céu de Uberlândia, quando o rádio crepitou em meio a
uma delicada ‘folha-seca’,
perturbando a concentração do comandante da Esquadrilha,
Major-aviador Bastos di Alfredi. Este, antes de tentar auferir voz
de comando supremo a sua correta indignação, foi contido pelo teor
brusco e inopinado da mensagem:
—
Obtusa1! Obtusa1! Hipotenusa chama, repito, hipotenusa reportando
Objeto Voador Não Identificado em sua direção, coordenadas
Alfa-Silva-Bravo...
Di Alfredi mal teve tempo de se estarrecer; fez
sinal para o novíssimo bimotor monocele Tijuquinha que
emparelhara-se com ele no ar, avisando o piloto com um gesto que
significava o aborto da exibição de treino. Os pequenos aviões
desarmados, feitos de madeira-balsa, resinados, trabalhados com
muitas ligas leves, não perderam tempo em entrar em formação
sobre o morro e suas torres de força da Cemig(2); a caixa-preta do
bimotor registrando para sempre aquele impressionante momento de
tensão.
—
VI COMAR(3) avisa da chegada de seus caças para somente
Uno-Zero-Zulu...- continuou o rádio, emudecendo de forma súbita e
definitiva.
O sol ainda enviava seus últimos pálidos raios
avermelhados através da carlinga de Bastos naquela altitude de
perto de 8 mil pés. Vislumbrava quando a expansiva cidade abaixo
dele, margeada pelos enormes e amarronzados campos de café, que
normalmente deveria estar iluminada pelas luzes noturnas,
apresentava mais da metade de seu campo de visão tomado por um
black-out inusitado.
— Ten. Hubert Zanit, Ten.
Alonzo
Fortunato... - chamou ao microfone pelos alas, ensaiando uma guinada
em que a esquadrilha bem treinada adotou imediatamente, devido ao hábito
passariforme de seguir o líder.
O único a responder por rádio, embebido em
forte estática, foi o novato Galhardo, de sua posição na calda da
formação:
—
Há algo em meu encalço... enorme... - sua voz sumiu, fragmentou-se
e após vários segundos voltou mais forte:—
...é circular. Não, elíptico com certeza! Talvez uns 80 metros em
seu maior diâmetro. Nada é tão veloz... Está empare...
—
Calda10!!? - gritou o comandante para o único que privilegiara seu
microfone, sem saber se sua voz seria ouvida: — Markus, confirme o avistamento...
Bem acabara de falar, ofuscado por uma torrente
de luz tubular que cegou-o, mesmo com os óculos de aviador
baixados, ouviu nas proximidades um entrechocar de fuselagens e uma
única explosão. Quando passou a enxergar quase normalmente, com
luzes piscando ao seu redor (sem saber se por seus bastonetes
irritados ou outro qualquer fenômeno), ainda reparou quando dois
aviões de sua formação caiam num não ensaiado parafuso mortal
(pois era real), de onde, felizmente, viu surgir os domos simétricos
de dois pára-quedas já próximos ao solo, carregados pelo vento
para longe dos fios de alta-voltagem, enquanto seus veículos se
embatiam contra e encosta do morro, sem causar danos a não ser à
Força Aérea.
III
Ainda 1971
Como quando a febre se apresenta, vinha um
murmurinho de vozes falando rápidas, em rajadas, por isso quase
sempre incompreensíveis, ricocheteando dentro de sua cabeça,
surgindo quando menos esperava. O processo detonado, quer no
exterior, nos leitos secos dos rios, ou caminhando sob os canyons,
mergulhado nas cavernas: onde fosse caia prostrado, apertando seu crânio
no intuito de espremer, talvez exumar dele toda aquela ‘cantoria’.
Inútil.
A experiência embasada na dor lhe ensinara a
lutar menos, prestar atenção mais e intuir muito com relação aos
sinais diversos que se projetavam em qualquer canto disponível.
Fazendo-o, seu ‘vocabulário’
já permitia o reconhecimento de muitas frases entrecortadas...
Provinha de uma daquelas ‘aulas’
com ícones e projetores invisíveis de imagens algumas de suas
informações mais essenciais, como a localização exata da Velha
Cidade, onde encontrar o observatório estelar (um conjunto de três
prédios em formato de pirâmide, situado além da bacia de Hellas);
também fizera parte de seu acervo informações sobre o Artefato
(como detoná-lo e alguns de seus benefícios primários), onde
conseguir material modular para confeccionar o traje andarilho,
substituindo-o periodicamente, além de outros dados mais insofismáveis,
como os que diziam respeito à Sagut e Mbara (Fobos e Deimos,
respectivamente) e o Plano Krantor...
*
Krantor, o bom e velho patife, acreditava ter
sido o último dos engenheiros-escravos (zeladores deixados para trás
pelos imemoriais habitantes do sistema solar) a migrar para o Fogo-Fátuo,
há mais de meio milhão de anos marcianos. Markus nunca soubera
exatamente o que depreender por aquelas duas palavras ‘migrar’ e ‘fogo-fátuo’,
como também não queria se prender aos conceitos de céu e dimensões
paralelas tão em voga nos almanaques místicos. Seus esforços
baseavam-se mais no entendimento da mensagem como um fragmento,
legando aos estudiosos (quiçá um dia pudesse encontrar um!) o
entendimento específico de cada conotação e o global, numa dessas
‘crônicas do delírio’,
falando dos companheiros mitológicos do deus romano da guerra,
Marte. Daqueles excertos, talvez fruto do delírio, certamente
dissociado da realidade convencional, obtivera a seguinte compreensão:
Sagut e Mbara tinham sido artificialmente
desviados de sua anterior localização solitária, além do cinturão
de Asteróides, quase vagando ilesos como núcleos cometários
descartáveis. Primeiro, alojando-os em gaiolas energéticas,
Krantor organizara o translado, fazendo a transição dos mesmos
para bem próximos de Hakk-Mür (Marte), onde foram delicadamente ‘programados
e trabalhados’, inseridos em órbitas específicas, vítimas não
de um capricho da natureza, porém duma infindade de cálculos
formidáveis.
A Escola de Pilotos onde Markus se formara não
previra um curso de astronomia muito avançado em mil novecentos e
cinqüenta, exceto no que tangia a orientação de vôo; nem os astrônomos
da época de seu desaparecimento sabiam grande coisa sobre o 4º
planeta, principalmente sobre suas luas díspares; mas ficara claro,
em todos aqueles anos, que Fobos estava fadado, devido a sua
extraordinária proximidade, a se chocar com Marte em algum momento,
órbita esta que a cada ano se reduzia mais. O conhecimento que as
Vozes lhe passaram nutria-o, confirmando tal teoria e esclarecendo o
motivo: como um mecanismo de precisão absoluta, um ‘relógio orbital’,
sendo a melhor analogia, os satélites enegrecidos de Marte seriam
os responsáveis finais pela mudança climática definitiva no Velho
Vermelho!
De seus núcleos de densidade, constituídos de
material rico em elementos leves faltantes no planeta original
(abundando em especial no escavado Fobos), o Plano Krantor previa
que Sagut se chocaria com a região do Olympus Mars, o maior vulcão
conhecido pelo homem, distante meio hemisfério de onde Markus se
encontrava naquele instante, metido em suas muitas reflexões. Fobos
(o pêndulo), oscilando e caindo sobre seu fosso (Marte), somente não
provocaria uma explosão de muitos milhões de megatons - levando-se
em conta seu momento de inércia no instante do impacto, devido ao
acúmulo cinético -, exclusivamente por intervenção diferente da
providência divina. Grandes retratores instalados em suas muitas
crateras, sulcos e cavidades paralelas fariam a tarefa. A frenagem
satélitica, longe de fazer a ‘aportagem’
segura da lua, só reduziria a um doze avos, menos de 8 centésimos,
da enorme repercussão do impacto contra o solo.
A maioria dos canali, um outro
aspecto do plano de Krantor,
não tinham se originado num passado remoto, quando o planeta
vermelho fora cortado por imensos rios de superfície, mas eram
obras de engenharia PARA O FUTURO, visando o escoamento da lava dos
muitos vulcões novamente ativos e a ruptura natural do solo
congelado sucumbido perante a colisão. A inobservância de placas
tectônicas, decorrente de uma litosfera estável e espessa,
conferia mais um tento para os Imemoriais.
Ao mesmo tempo que Fobos se chocaria contra seu
enorme vizinho avermelhado, seu irmão liliputiano, o previsível
Deimos, em sua rotação sincrônica, se despiria de sua crosta
voltada sempre para o planeta primário, catapultando ou ‘ejaculando’ parte de seus 11 quilômetros e meio de diâmetro de calota
corrugada para o vácuo, revelando sob seu atual e impreciso corpo
negro uma superfície espelhada e bicôncava, de um albedo dezenas
de vezes maior que a própria Lua em sua mais clara aparição sobre
a Terra.
Aplicando Kepler, que dizia ser os quadrados dos
tempos de revolução proporcionais aos cubos dos semi-eixos maiores
das órbitas, estava previsto para um ano marciano bem próximo sua
Gênese em forma de cataclismo, provocando erupções, elevando sua
temperatura, criando um efeito estufa, derretendo parte de suas
imensas geleiras, retendo uma atmosfera mais espessa e,
consequentemente, elegendo-o à vida novamente.
*
Markus nascera em São Cri-Cri do Pau-Oco, uma
vila perdida pelos Bandeirantes numa rota adjacente a das esmeraldas
e por qualquer motivo nunca mais achada, encravada no mais ermo da
Chapada Diamantina. Da infância, com seu cão Montezuma, trazia vívidas
lembranças e podia-se dizer que, apesar da mediocridade dela, fora
bastante feliz. Era normal aos pau-oquençes avistarem coisas
incomuns naquelas montanhas azuladas, por isso fora normal para ele,
numa tarde de chuva, encontrar um estranho junto ao Regato das
Carpas pescando com um caniço bizarro, sem linha, anzol ou sequer
isca. Ficara plantado ali, vendo aquele rosto pálido como cera,
tirar da água vários pintados que devolvia-os logo em seguida,
depois de submetê-los a um luminoso aparelho. Foi aquele mesmo
estranho, em seu primeiro encontro, que falara da existência de
mundos mágicos além daquele, dum Portal situado nas montanhas do
Vale Seco, por onde viajava-se distâncias incomensuráveis sem
praticamente mover-se mais que poucas centenas de metros!! Fora também
por causa daquele forasteiro vestido de negro, acentuando ainda mais
sua palidez, que o menino Markus, trouxa sobre o ombro e nenhum
olhar para trás, embrenhou-se por uma ravina e deixou a roça,
tornando-se um piloto, um náufrago e, principalmente, o mais triste
recorde, o 1o esqueleto humano em solo marciano...
*
Já ficara tempo suficiente boiando, muito além
do que das outras vezes; por mais que tentasse desviar seus
pensamentos do curso imposto por suas memórias norteadas na longínqua
Terra; a saudade da noiva grávida então, do filho que deveria ter
tido sozinha num mundo cheio de preconceitos, num lar patriarcal
tipicamente mineiro, tudo acentuava a incerteza de como aquilo teria
se resolvido em sua ausência forçada pelas circunstâncias. Não
entrava na equação da desgraça o fator de talvez não gostar da
noiva emprenhada e suas repetidas promessas de levá-la ao altar,
seguido de uma longa viagem para salvar as aparências, tão logo
acabasse seu estágio obrigatório naquela esquadrilha da Força Aérea.
Também não fora por ter sido informado em carta de que seria pai
em seis ou sete meses, pegando-o de surpresa mas inclinado a deixar
a boemia de lado em troca de uma família, sua própria família.
Nada daquilo influíram tanto quanto saber que, quinze anos
passados, com um filho ou filha adolescente, ela devia nutrir um ódio
muito exacerbado dele, o que não era de se estranhar, pois
abandonara-a e ao filho, filha (ambos?), fruto de um único e muito
irrefletido momento de paixão, justo quando mais precisavam dele...
—
Lizandra, - pensou em voz alta — não dependeu de mim somente!!!
Mas dependera.
Nadou até a margem e procurou um lugar para
defecar. Entre outros atributos dos TOP’s,
o papel de lixeiros sobressaía, assegurando que as fezes de Markus
se degradariam naqueles organismos conversores como quitutes muito
apreciados e um dos motivos deles sempre o seguirem em suas andanças
onde quer que fosse.
Sua idéia era vestir-se e tomar o rumo da Velha
Cidade pela trilha da Cabeça: Há muito elaborara um mapa e,
estarrecido, descobrira que as principais construções, sendo
desenhadas num plano, conferiam contornos de um Homem Deitado (como
se tratavam na maioria de cavernas, o termo mais apropriado seria
Homem Sepultado); estando as Termas e o mar interior localizados na
altura do quadril do ‘Homem
de Pedra’, a Floresta de Pinhas diretamente no ‘estômago’,
e assim por diante.
Contudo, perturbando-o na tarefa de juntar suas
tralhas, a luz pálida a sua volta, emitida por colunas regulares,
piscou cinco vezes antes de se apagar. Seria mais uma intervenção
das Vozes ou teria acontecido alguma coisa provocada pelo Artefato??
Não...
Eram as Vozes.
Não,
veio novamente o mesmo som ciciante, desta feita emitido das
proximidades, deixando-o atordoado por vir acompanho dum vulto
luminoso; contrastado contra à escuridão este tomou-lhe a mão e o
arrastou por caminhos que não conseguia ver, exceto o delineado
corpo para-etéreo que o rebocava.
Não Temer Mal. Vêm
Fora Agora. Tempo Terminou, finalizou o ser-luz.
Incrível! A 1ª
aparição que chegara tão próxima a ele e se expressava quase de
forma lúcida, doutra forma desejando que saísse das cavernas, o
que seria a morte sem seu traje e com,
também, pois segundo constava a tempestade não cessara ainda!
Um formigar tomou conta dele. Tentou se debater
mas a coisa era indiscutivelmente mais forte, deslizando tão rápida
que pareciam voar.
*
Markus foi ofuscado pela luz do sol, mas uma luz
sem par em Marte, uma radiação dourada e quente!! Um Marte que não fez seu sangue ebulir nas veias, os
vasos dilatarem ao ponto de ruptura, os olhos saltando, simplesmente
porque não era de Marte o sol que nascia atrás daquelas
arborizadas montanhas da Chapada Diamantina...
IV
Fins de 2018...
As valas se enchiam rapidamente à vazante do córrego
que abrira suas comportas obedecendo a uma precisão maquinal. Inúmeras
escotilhas ocultas, oclusando e descerrando-se, numa espécie de múltipla
‘mastigação’
letárgica, hidraulicamente dirigiam o refluxo de nutriente pelos vários
canais de irrigação, trazendo um cheiro de leveduras em processo
de maturação e outros tantos odores que seriam difíceis de
precisar para quem não convivesse com aquilo diariamente,
impregnado com o anomalíssimo ecossistema local.
O tom amarelado do céu à oeste, enquanto
via-se a tonalidade cinza-avermelhada estampada no horizonte oposto
(indicativo de uma tempestade de areia), numa faceta da
diversificada palheta celeste, prenunciavam um meio-dia assolado por
ventos de quase 300 km horários, protelando, e por fim abortando a
expedição para Queops Mariner.
Para minimizar em alguns graus a depressão
generalizada dos cento e sessenta e tantos colonos, além do exíguo
contingente de 8 Fuzileiros-mercenários, uma mensagem
vermelho-escarlate anunciava e lembrava, no grande monitor coletivo
instalado no celeiro, que a Maleita Marciana fora debelada com
sucesso: nenhum outro caso da enfermidade definhadora fora detectado
durante a quarentena auto-imposta, enquanto os casos antigos
regrediam a quase normalidade de uma febre convencional, sendo
tratados por antibióticos regulares, soro linfócito e coquetéis
vitamínicos. Mais que boa, aquela era uma excelente notícia! Abrir
fronteiras novamente, disponibilizar o porto da base para pouso e
decolagem poderia ter seu lado danoso, na promiscuidade resultante
da confraternização carnavalesca que seguia à chegada dos
abastados terrestres, mas também trazia sangue novo, víveres,
maquinário e miudezas que de outra forma ficariam apodrecendo nas
Alfândegas.
Já se tornara piada
corrente o slogan do pool de empresas responsáveis pelas duas gerações
de colonos após o início da Planetanogênese no Velho Vermelho, em
2003: ‘MARTE EM 10 ANOS! VOCÊ, O ÚNICO DESAFIO!!’
Como sempre balelas! Mistificação e redução
da realidade sob o embrulho pragmático da ganância desenfreada.
Por quê nunca aprendiam (os homens, enquanto indivíduos e grupos
também) que eram meros joguetes dos interesses de um grupo mais
reservado de privilegiados, aqueles que nunca enfrentaram um
coquetel de novas bactérias circulando em suas vias respiratórias,
esgueirando-se através da própria pele, expostos ao sangramento de
suas mucosas, aos grandes pântanos viçosos dos malogrados enxertos
iniciais de engenharia genética e o resultado final da fórmula, na
criação duma atmosfera respirável, embora venal se inalada
levianamente?
*
No espaço quase de duas míseras décadas,
desde o final do último século, muita coisa mudara na Terra.
O mundo vira mais uma Grande Guerra que durara
menos de duas semanas em ‘solo
sagrado’ americano, que a partir daí, apesar de vencedores em seu próprio
território, nunca mais se recuperaram de tamanho golpe contra o
orgulho coletivo dos EUA, dando partida ao efeito dominó rumo ao
precipício; o Japão perdera Tokyo (e novamente a reconstruíram
melhor do que antes) sob um terremoto devastador que matara
milhares; a Comunidade Européia, o novo gigante mundial, atingira a
maioridade e se tornara uma força inconteste; no princípio do século
o 1º bebê de corveta(4) alterado geneticamente foi
gerado sob a cúpula blindada na estação marciana de Terraformação
e o igualmente primeiro Papa da nova era sofrera um impeachment devido a sua loucura revelada tarde demais, enquanto
vários Cardeais caíam, afastados por outros motivos mais
locupletantes, pra variar levando o Vaticano e o clero a um novo escândalo...
Um olhar para trás e foi isso que a Terra
legara ao homem, pois também aprendera com os mestre da destruição
gratuita. Reciprocidade não se aprendia na escola, era inato de
qualquer entidade minimamente inteligente.
Para fugir um pouco ao cenário de tantos
massacres e outras tantas maravilhas, o Intruso,
como às vezes chamavam Fobos, aparecia novamente no espaço de
menos de 16 horas, recortado e embaçado pelas nuvens de areia, além
da superfície da abóbada, quando Pietersen Wollaffkristoferson,
sobrinho do ainda acamado presidente do Conselho de Colonos, um jakota
(como eram conhecidos os Desbravadores de Marte, derivado da palavra
em inglês que significava ‘curinga’), uniu seus dedos de forma pensativa, tendo uma sempre pouco
prazerosa reunião virtual com o Conselho Diretor por meio do satélite
de conferências e telepresenças interplanetárias.
—
Estamos sendo pressionados. Há um fulano, de um país medíocre do
leste metido à grande, bradando na mídia, infernizando nossas
vidas por aqui - disse Könrad Maynnard, o diretor supremo, o
vermelho de seu terno de cashmere numa luta perdida contra o tom
rubro da cólera exibida na face afogueada.
Olhava em torno da ‘mesa’
para a meia dúzia de projeções holográficas, encarando Pietersen
como se o visse pela primeira vez, furioso, não perdoando o
calhorda por tramar justamente contra a mão que o alimentava, os
Diretores do Consórcio, dando ouvidos àquele brasileiro imbecil, aquele
apocalíptico!! Que sabiam eles do grande sacrifício, um mar
de privações, que é montar um negócio de bilhões de euro-dólares
sobre o escombro da malograda expedição marciana do apático e
distanciado governo americano? Empregavam milhares de trabalhadores,
treinavam centenas e centenas de Técnicos como mão-de-obra
qualificada, pagavam regiamente pelos resultados positivos, no
entanto, que mais esperavam deles, caridade? Como se dizia
antigamente, o suprassumo da gerência, Business
is Business, o resto se situava no mesmo patamar das lamúrias
dos perdedores. Não entregariam de mão-beijada um
mega-investimento daquele porte que prometia trilhões de retorno,
que fariam as ações subirem a índices tão altos que
ultrapassariam as estrelas!!
E continuou, um pouco menos irado, tom neutro no
rosto, mas ainda nem mesmo um milímetro menos inflexível, olhando
exclusivamente para o imediato da base em Bar Habor, deixando
transparecer um certo desdém:
—
Marte é nosso pelo prazo contratual de três décadas. O tempo é
curto para grandes realizações arquitetônicas, sociais ou
quaisquer outras, mas não se diga que não estamos fazendo o impossível
para torná-lo um mundo menos agreste...
—
Há que preço? - interrompeu Pietersen, calmo mas resoluto em sua
indignação:— Daqui a menos de quinze anos vocês irão embora e nós ficaremos
com o que sobrar. Se sobrar. Risco nosso, não há dúvida e ponto
pacífico a nosso ver. Deve-se lembrar que éramos muitos quando
aportamos nessas terras, porém no espaço de poucos meses perdemos
quarenta de nosso grupo exploratório. Cada um de nós perdeu, ou
esteve perto de perder, ao menos um indivíduo de seu esteio
familiar, e não eram mortes bonitas de testemunhar, se é que
existe alguma beleza nisso, fora o inflexível sentido de fatalidade
que nos é peculiar. Portanto, não me venha com pregações
unilaterais; somos seus braços, pernas e sangue aqui em Lucifer.
Nós, mais que quaisquer outros, desejamos que o Projeto dê certo
como investimento e benefícios à humanidade, sem contudo esquecer
que somos mortais, que somente podemos gozar do prazer incomensurável
que tanto ufanam, se estivermos vivos.
Em volta da mesa o silêncio era constrangedor.
Contra aquele argumento e discurso nenhum interesse comercial podia
se manter absoluto, restando à Maynnard, como principal acionista e
agressivo porta-voz do grupo, um último recurso de coerção, na
falha de todo seu arsenal de gratificações, promessas e ameaças
veladas.
Cartas na mesa era o nome do jogo, cartas
marcadas de preferência!
V
2019
A mentira estava ali
para quem quisesse enxergar a verdade!
Com esse pensamento, recordou mais que um
semestre inteiro de exercício constante para desmantelar o falso
propositadamente agregado àquele testamento, como craca teimosa no
casco dum navio.
Sua vida se tornara tão frenética quanto o
resto dela, antes, tinha sido vivida próxima à estagnação.
Extremos pareciam ser a razão de sua existência. Mas acabara por
se tornar um novo homem, e não parecia haver qualquer contestação
nisso: seu 2º
filho já podia ser acompanhado pelo ultra-som, dando aquilo que
apelidaram de pequenos
loops, no ventre de Alinne, que não cabia em felicidade ao
exibir com orgulho o disco de cópia digital retratando a façanha
gestacional; fazia-o como um troféu erguido sobre a cabeça, tal
como a capitã dum time após uma conquista há muito aguardada. O
sorriso voltara aos lábios daquela família, revertendo o quase
naufrágio matrimonial após a turbulência dos últimos três anos,
com a perda do neném, o remanejamento de Robinson no emprego e um
somatório de outras ‘instabilidades domésticas’.
Alguma tolerância operara parte do ‘milagre’,
daí o marido ainda continuar o mesmo interpelador de sempre e sua
esposa, num fantástico exercício de conivência, compreendesse a
necessidade dele em se ausentar para resolver aqueles mistérios de
uma vez por todas, antes que aquilo o consumisse por inteiro.
*
Netscape, Underwoods, Refrim, Ciberia, Travessus,
entre outros rastreadores poderosos, muitas vezes em associação,
usara-os para navegar em meio a uma enxurrada de dados e tropeçara
em várias contradições, pois ao cruzá-los não resistiam a
confrontação. O próprio documento em si (o Testamento) acabou se
tornando a única chave de toda aquela confusão. A necessidade dum
Tabelião Juramentado, a menção de seu nome, a citação dele ser ‘o
mais curioso de meus netos’ quando Markus Galhardo só tivera um único,
sendo também de seu inteiro conhecimento que este fosse
patologicamente avesso à classificação ‘curioso’...
A própria escolha de palavras do testamento
fora elaborada de forma a mostrar suas armadilhas para um leitor
atento: ‘...decifrar o correto da fraude’
estava textualmente citado.
Olhou em torno e ainda não acreditava que seu
sonho perderia aquele status onírico para se tornar a pura
realidade!
Consultou seu multicronus, que pelo modismo da
época pendia de seu pescoço preso numa ‘corrente
do tempo’. Ainda tinha uma hora.
O notebook-impressora, acondicionado em sua
maleta de viagem multimídia, pronto a gerar memorandos quando
solicitados; ou deflagrar seus mais sólidos argumentos, se tornava
a garantia de que seus apontamentos mentais não seriam
vilipendiados como totalmente vagos e destituídos de consistência,
como já fora formalmente acusado por um batalhão de advogados,
superintendentes, cientistas e inúmeros ministros. Quanto ao
parecer favorável de ao menos 1 Astrônomo de renome, atestando ’sua teoria’,
isso era uma outra história e nem podia-se dizer que prometia um
final feliz.
Sua cabeça apoiou-se de forma confortável no
encosto pneumático da poltrona anti-G, quando repassou sua
via-crucis pela senda do inaudito e oculto; enumerou os principais
contrastes encontrados no legado de seu avô:
1.
sondara vários bancos de dados reservados e enciclopédias
virtuais, mapas demográficos, geológicos, invadindo até mesmo o
acervo digitalizado - zipado e bloqueado por senha - da Biblioteca
Municipal do Rio de Janeiro, em busca de textos, iconografias e esboços
de mapas de sertanistas na época do Brasil-Império, não
encontrando o mais tênue vestígio, nem nos tempos atuais nem
nunca, da Vila de São Cri-Cri do Pau-Oco, onde seu avô afirmava
ter nascido;
- em
1956 o VI COMAR ainda não existia, sendo criado a partir do
estabelecimento de Brasília, alguns anos mais tarde, em 1960;
- a
Esquadrilha da Fumaça, pelo que pesquisara à exaustão, não
registrara em seus quadros hierárquicos aqueles nomes e
patentes citados no anexo 5 (revelou-se a melhor aproximação
como corruptelas de nomes de ex-pracinhas desaparecidos na
campanha da FEB na Itália); muito menos os aviões
correspondiam, mesmo remotamente, a qualquer aeronave que a FAB
tenha posto no ar, inclusive na Esquadrilha da Fumaça. O diálogo
e impressões do major-aviador Bastos Di Alfredi, registrados na
‘caixa-preta’ do Tijuquinha imaginário(...) eram falsas,
principalmente porque o circuito eletrônico estanque (a
caixa-preta) só fora criado anos depois, seu uso restrito à veículos
espaciais, experimentais ou aviões comerciais de muitos
passageiros, nunca em pequenos veículos regulares e aeronaves
de reduzido porte;
- seu
avô fora comissionado como tenente-coronel pela Força Aérea
Brasileira, condecorado por valorosos feitos em seu voluntariado
numa muito nebulosa operação secreta nos céus de Hanói, no
então Vietnã do Norte. Não havia qualquer registro documental
que corroborasse tal aventura surreal no que concernia o
significado de ‘valoroso’ e a melhor tradução de
‘voluntariado’. E não ficava só nessa provável falácia:
consoante a isso constava um hiato, na verdade um impressionante
vazio em sua folha de serviço que contabilizavam 15 ANOS (!) de
ausência, supostamente em ‘missão confidencial’, a se
acreditar nos carimbos vermelhos que se acumulavam em seu histórico
militar. Sua própria Folha de Serviço era um preciosismo em
termo de contra-sensos, revogando até algumas leis físicas,
mostrando-o lotado em lugares distantes, porém num mesmo
intervalo de tempo; com a aeronáutica tornando-se
proporcionalmente esquiva, toda desconfortável pela interpelação
vir de dentro, dum Brigadeiro-do-Ar simpatizante e um Comitê do
Senado, ambos martelando e ameaçando de inquérito, contudo sem
vergastar um milímetro que fosse da mortalha que ocultava
aquelas informações aos olhos do restante da raça humana;
- (...)
A
lista fora uma avalanche de mistérios intransponíveis, cada item
sendo engolfado pelo seguinte até tudo desaparecer num todo
indecifrável e macarrônico, compartimentada por algum motivo
inexpugnável. Um mistério levava à multiplicação de outras
ocorrências inexplicáveis, parecendo condenar a verdade a uma
sepultura na eternidade! Somente começara a vislumbrar algo quando
registraram suas muitas consultas pela GlobalNet, através de
cookies rastreadores, recebendo certa madrugada um e-mail promissor
de um milico estrangeiro, mais precisamente o ‘lugar-tenente’
do Adido Militar da Embaixada Francesa; sem maiores delongas
marcou-se um encontro, 113 horas antes, no foyer do Centro Cultural
Banco do Brasil, próximo ao Arsenal da Marinha no Rio de Janeiro.
Após circular por exposições de Numismática, uma Mostra de
Curta-Metragens e Cinema de Animação Gráfica, gastando o tempo ao
seu dispor, Robinson se posicionara na cafeteria e o encontro tão
esperado ocorreu sem que mais de meia dúzia de palavras fossem
trocadas, sendo-lhe entregue um vasto dossiê de aparência e conteúdo
explosivos.
Partindo
daí, a história, a se acreditar no dossiê, enveredara por
caminhos nunca trilhados. O que primeiro julgara por verdadeiro,
depois por fraude total, se complexou em meias-verdades ou
meio-mentiras. Um pequeno extrato daquilo dizia que Getúlio
Dornelles Vargas fora o pivot de tudo, meses antes de sua morte-suicídio(5),
instruído (por quem?) para encomendar ao Estado Maior das Forcas
Armadas, o EMFA, um intercâmbio sigiloso com um vulgo ESQUADRÃO
CONTATO, órgão para-governamental constituído de dissidentes do
III Reich nazista. Era ou não uma informação explosiva? Ali
estava, na frente dele, fotos que denotavam idade avançada,
assinalando grupos de sisudos caucasianos, trajes civis parecendo
com fardas, cuja legenda nomeava-os como pensadores independentes,
companheiros de Werner von Braun e Helmut Gottrup em Peenemünde, na
ilha de Usedom; uma seqüência de fotos p&b mostravam Einstein
em Estocolmo e outros personagens um pouco menos populares, porém
em atitudes muito reveladoras, em locações espalhadas por todo
mundo.
E
não terminava aí: CONTATO precisava de um brasileiro(?)
qualificado, de preferência um oficial em início de carreira e sem
família constituída. Markus Adorinã Galhardo fora tal homem,
submetido a eles e aceito de imediato (?). Sua incumbência seria
levar aos inespecíficos Outros,
habitantes das estrelas (que fizeram a exigência de um biotipo
brasileiro e em tudo parecido com o dele, e dá-lhe interrogações),
uma voz de Amizade Intercósmica...
Sim,
não havia como duvidar agora que seu avô tinha estado em Marte!
Sim, por mais louco que fosse o descalabro, era possível que
tivesse ficado por lá seus afirmados quinze anos!! Abdução sim,
mas ‘abdução’ consentida...
Até
aquela parte o oficioso fora confirmado. Somente até aí. Robinson,
pela primeira vez de posse de tantos fatos documentais, apesar do
prazo exíguo, soube usá-los como força de coação, ainda que com
o cu na mão, para garimpar o restante em sua peregrinação nos
muitos Ministérios e redutos do Distrito Federal. Só conseguia
pensar que Esquadrilha da
Fumaça fora um nome danado de bom para toda aquela cortina
de fumo!
Também
pudera, o misterioso Esquadrão
Contato desaparecera na fumaça e nunca mais se pronunciara;
o governo brasileiro se calara e os longos interrogatórios que seu
avô fora submetido após o seu retorno (de parte alguma?),
sepultados e incinerados nalgum prédio misteriosamente consumido
pelas chamas, em Porto Alegre.
*
Olhou
o relógio e ainda tinha uns poucos momentos.
Estivera
pessoalmente na Chapada Diamantina; fora azucrinado pelos
borrachudos junto ao vulgo Riacho das Carpas, no Vale Seco, cujo o
nome verdadeiro agora lhe fugia da memória, e conseguira também a
façanha de ser abordado por um estranho que em tudo se parecera com
o relatado por Voador. Um albino, o mais pálido que já vira na
vida, como se o sol nunca houvesse ousado penetrar naquela cútis
branquicenta, com características de imobilidade próprias a um
boneco, e que não parecia estar longe daquilo que a ele se
apresentara. Lembrou-se de ter associado ‘aquela transparência toda’
a um raid bem sucedido de todos borrachudos do planeta sobre um só
doador humano, mas toda jocosidade se desfizera ao avistar aqueles
olhos que de humanos não tinham nada. Robinson, vencido o pasmo
inicial, ainda imobilizado onde estava, pelo canto do olho vira o
estranho cercando-o, dando algumas voltas ao seu redor antes de
parar e apontar para um trecho nas brumas que envolviam as montanhas
no entardecer, desenhando-se ali uma fenda, uma vagina de luz de
tonalidade azulada, expelindo um feto-fátuo que riscou o céu e
pairou sobre eles, tragando o fantasma vestido de negro, sumindo no
horizonte com um zig-zag impróprio para seres racionais.
Foi
mais fácil aceitar que aquilo acontecera de fato que partir para
conjecturas entrincheiradas na mesmice da negação.
Supunha,
que por aquele exato motivo, decidido do valor de suas conclusões
na hipótese contrária de largar tudo e encarar sua mulher com um
olhar de peixe morto e confessar que estava errado; que perseguira
Papai Noel na zona, portanto resolveu peitar o desafio. E tinha dado
mais certo que a melhor de suas suposições: Através dum correio
eletrônico enviado à Bancada Espacial dos colonos (tratando-se já
duma figura conhecida nos noticiários, ainda que toda carga inicial
de curiosidade tivesse esvanecido no contra-ataque de um batalhão
de liminares obstativas, impetradas pelo pool MECO), resultara no
envio daquele shutle particular que há uma hora taxiara entre os aviões
estacionados no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Como uma
orca em meio a um cardume de delgados peixinhos prateados.
A
operação nada tivera de discreta, com honras de Chefe de Estado ou
pessoa VIP, sendo Robinson escoltado ante os passageiros
boquiabertos com o aparato de bandeiras, kilts e gaitas escocesas,
além dos uniformes azul e branco dos Anjos da Fronteira, uma cisão
da Força Internacional da Paz, que ao lado da ONU trazia pra si a
pretensão de policiar o universo.
Do
pouso à decolagem menos de dez minutos se passaram. Prioridade
absoluta. Nada de passaportes ou Alfândega. Um feito e tanto! Fora
entrar num veículo blindado, numa rápida e louca carreira entre os
hangares, e o Rio de Janeiro, o Brasil e a Terra ficaram para trás.
Com precisão absoluta fez o transbordo para um Clíster Lunar, na
Estação Intermediária, sendo lançado pela catapulta com destino
ao 4º Planeta, sua última escala. Com isso o universo ficcional
esfacelou-se perdendo aquele caráter utópico, tornando-se próximo
e exeqüível! Estava cercado de vácuo por todos os lados, e Marte
não era apenas mais um título brilhando na tela do cinema...
Em
seu entender tudo parecia se encaminhar para algo inflexível que
muitos, ao longo da vida, nomearam de Destino, e outros poucos, como
Issac Asimov, em ‘Fundação’,
achou ter encontrado a fórmula para, tal qual um Nostradamus
futurista, servir de base probabilística na criação de uma
psico-história que, por eventos-chave, desvela as encruzilhadas da
incerteza e faz da humanidade um grande Teatro de Marionetes sob
julgo alheio.
Robinson,
sem vergonha alguma de dissociar-se da analogia, por tudo que lera,
ouvira e fizera em tão escasso tempo, tinha a nítida impressão de
ser um instrumento de um povo mais antigo e sábio que os
neanderthais humanos; uma impressão que não era fruto exclusivo de
sua imaginação exacerbada, mas encontrava adeptos e respaldo em
alguns setores influentes, pois de outra forma suas ‘profecias’
teriam passado desapercebidas em meio ao clamor mundial de muitos
fatalistas, como uma boca a mais a apregoar que Marte viveria um súbito
‘Inferno
Astral’...
— Bar Harbor Marineris - disse a voz musicalmente agradável do
servo-comissário num dos dois idiomas que ele selecionara como
fluente: — Doze minutos para Port Lucifer. Acompanhamento frontal ao seu
dispor, senhor.
Voador cumprira a missão dele. Seu neto, com o coração doado batucando
no peito como um incansável tamborim
man de bateria de Escola de Samba, estava perante o planeta
que desenhava-se na tela, prestes de cumprir a sua.
VI
O
dia de Robinson começara mais cedo que o normal e prometia
prolongar-se da forma menos desejada possível...
Quando
soou a campainha de seu quarto, já desperto, sem conseguir pregar
mais do que um par de horas de sono, pressupunha que seus zelosos
anfitriões tinham madrugado para prepará-lo para o que estava
prestes a acontecer. Engano seu. Quando acorreu à porta, sem nem
mesmo consultar o visor, deu de cara com a última pessoa que
esperava ter pela frente: o próprio ‘chefe’ da MECO, num terno que denotava sua procedência nos píncaros da
moda, um sorriso travado no rosto bem maquiado, uma garrafa de vinho
verde num balde de gelo numa mão, tendo na outra um delicado
embrulho semi-transparente, não ocultando caixas de cigarrilhas
Ella, as preferidas de sua mulher, um dos artigos mais difíceis de
se encontrar no universo!
Mas,
as surpresas não pararam por aí...
Puxando
com a mão que segurava o pacote de cigarrilhas, prova ostensiva que
tivera acesso ao seu banco de dados da vara de família, perante a
falta de ação de Robinson, o visitante inseriu porta adentro um
carrinho de bebê último tipo, totalmente apetrechado com o que
havia de mais moderno para a segurança e conforto do recém-nascido,
com direito a plugs anatômicos e tudo mais, trazendo dentro dele,
além disso, diversos pacotes que o brasileiro previu serem gêneros
de toalete e enxoval, tudo no estranho tom mostarda que sua mulher
escolhera para decorar o quarto da menina que nasceria em breve.
-
Com meus cumprimentos, prova de nossa(minha) estima e apreço – ensejou Könrad Maynnard, livrando-se dos presentes que, a despeito
de sua aparente cortesia, era como se fizesse agrado a um leproso. – Posso sentar?
Robinson
fez uma linha branca surgir no lugar dos lábios, contudo obrigou-se
a ser gentil, com o mínimo da reserva que se permitiu, por sua vez
desfazendo-se do presente de grego e encarando o enviado do caos.
-
A que devo a honra dessa visita inesperada? –
falou ao homem que, em rede mundial, vinha tecendo os mais ácidos e
pessoais comentários a seu respeito. – Pensava que esse piso fosse reservado à
comitiva terrestre...
-
E é! – apontou os presentes, - Sou ou não sou uma comitiva terrestre?
Nenhum
dos dois riu, pois sabiam o que se escondia atrás daquilo,
preparando-se para o verdadeiro motivo da abordagem.
E
o diretor cruzou as pernas, deixando transpirar nos gestos uma certa
afetação e um olhar concupiscente, embora fixo, talvez o tipo de
coisa encontrado numa víbora antes do golpe em sua presa:
-
Já percebeu que meu trânsito é livre. Você veio de longe e teve
o privilégio dado a poucos de conhecer nosso maravilhoso mundo
novo. Quero que tenha a melhor das impressões a nosso respeito,
afinal, em breve estará voltando pra casa, para sua linda mulher e
filhos, com uma baita aventura na bagagem, fora outras possíveis
compensações.
-
Pode ser. Mas preciso antes resolver um problema por aqui, e tenho
certeza de que o senhor sabe perfeitamente do que estou me
referindo.
No
descruzar das pernas do interpelado, perpassou o primeiro sinal de
animosidade naquele olhar.
-
Problema, você disse? Se me permite, não vejo a coisa dessa forma,
a não ser que esteja se referindo a todo transtorno que essa sua
cruzada me custou –
e antes do brasileiro dedargüir, prosseguiu: - Concordo que devemos
esquecer o passado. No calor do momento muitas coisas foram ditas da
forma errada e esta é a hora de removermos qualquer fiapo
remanescente...
Provando
que os presentes não tinham cessado, tirou de dentro dum bolso
interno do paletó um envelope elástico azul de aparência
totalmente vulgar, no que certamente seu conteúdo não deveria ser
assim.
-
O que é isso?
-
Os índios chamavam muito apropriadamente de ‘cachimbo
da paz’.
-
E como você o chamaria? – cortou secamente, sem tocar no envelope ainda
estendido.
-
Uma forma de nos tornarmos amigos e minha promessa pessoal que
doravante não medirei esforços para dar aos colonos um pouco mais
de... representatividade, não é essa a palavra? - Como o outro não se
entusiasmara com aquilo, deu de ombros e prosseguiu, largando o
envelope ostensivamente na mesa de centro, em frente do confortável
sofá, indicando-o com o queixo – Aí está sua aposentadoria; um bloco de ações
da MECO, a empresa que mais cresce no mundo, algo que, se convertido
em sua moeda, garante bem mais que a subsistência de sua família
pelo resto de suas vidas, no que abrange, no mínimo, três gerações.
Num
instante o envelope estava ali e no outro parecia com restos duma
festa de reveillon, todo convertido em papel picado! A coisa
acontecera até rápido demais para o autor se arrepender da própria
proeza.
Levantando-se
de um salto, o diretor não soube ocultar o inesperado revés,
subitamente atiçado pela afronta do brasileiro.
-
Agora que sei que estou lidando com um boyscot,
fica mais fácil pressagiar que seus dias de caminhada na floresta
estão no fim, pois há um fosso direto em seu caminho e falta pouco
para você cair dentro dele!
-
Primeiro o presente, depois a ameaça. Por acaso seu professor foi o
velho Al Pacino? – o riso de escárnio também saiu sem que pudesse deter.
-
Muito engraçado, mas não vejo como continuará sorrindo quando o
assunto do dossiê vier à pauta.
-
Que dossiê?
-
Desculpe. Sei que fui otimista demais. Aquilo mal serviria para ser
usado como papel sanitário de 3a linha por seus
favelados –
desfechou, recobrando um pouco da pose, decidido a humilhar: - É
melhor voltar pra casa se pensa apresentar aquele conjunto de lendas
urbanas que historiador nenhum daria o menor crédito.
"As
aventuras do Barão de Munshaussem, perto das estrepolias de seu avô
maluco, digo, pouco provido de sanidade, quando muito seriam um
insosso conto da carochinha. Fazer uso desse material, é até um
favor dizer-lhe isso, só servirá para atrair moscas interessadas
em merda e toda sorte dos que também habitam o esterco; falo da mídia
sensacionalista, especializada em shows de variedades, pois palhaçadas
dessa natureza é prato cheio para comediantes e vigaristas.
"Todavia,
se insistir nisso, a canoa furada é toda sua e o oceano também.
Tenho liminares e batalhões de advogados com uma ‘veia’ extraordinária para o humor escatológico; só não sei se o juiz
partilhará desse pastelão..."
Maynnard,
em seu caminho em direção à porta, ensejando aquilo que no teatro
seria chamado de ‘uma saída triunfal’
– mas Robinson tinha outro nome pr’aquilo
-, sentiu os maços das cigarrilhas atingirem a parte de trás de
sua cabeça. Mesmo sendo um fardo leve, assustou bastante o diretor,
levando-o a se chocar, infelizmente sem contusão alguma, contra a
parede, quando a voz do brasileiro soou bem próxima à ele:
-
Escute aqui, ô babaca posudo, sua sorte foi ter usado apenas suas
cigarrilhas de merda em vez disso aqui...
O
carrinho não precisou nem ser tocado para se tornar numa ameaça de
aríete, pois o outro saiu gritando corredor afora. Uma vozinha fina
que qualquer um rotularia de efeminada.
Lacrando
a porta e pegando na garrafa de vinho, que esperava não ter veneno
algum para o que tinha em mente, Robinson murmurou, largando-se
sobre a poltrona:
-
Como será um porre de vinho verde em Marte às 5 da manhã?
*
No
Planalto de Tharsis, bem próximas aos grandes e silenciosos vulcões
limítrofes à Port Lucifer
e Stella Maris,
naquelas horas vespertinas havia um acúmulo quase constante, de caráter
sazonal, na forma de brancas e delgadas nuvens orográficas. A trégua
esperada no turbilhão das tempestades de areia decorrentes da
decomposição do gás sólido(6), finalmente fazia-se presente; era
a manhã subseqüente a sua chegada e ‘aclimatação’,
a cabeça meio pesada, muito menos devido o efeito da bebida que o Efeito Maynnad, quando Robinson encontrou-se finalmente com a
junta de colonos-livres e os já alojados plenipotenciários da ONU,
contrários a permanência dos colonos em Marte; todos desse último
grupo devidamente escoltados por um imponente pelotão de marines,
em contrapartida ‘antagonizados’
por Fuzileiros mercenários que agrupavam-se atrás do Comitê
Executivo do pool MECO
(Mars Enterprises Company), inclinados à manutenção do modus
operandi original.
"Dá
pra sentir a testosterona no ar", foi o comentário preciso,
mas pouco feliz, de um dos raros repórteres não-virtuais a
presenciarem in situ a ‘troca de amabilidades’
que antecederam a conferência propriamente dita. Adiada para o começo
de tarde, após um pouco de turismo obrigatório, o almoço
demorado, atípico, preenchendo espaço perante o súbito interesse
do público, no qual aproveitaram para negociar novos direitos de
transmissão já que havia conivência entre as partes em fazê-lo;
finda a embromação, o mundo presenciou uma tentativa de aproximação
que acabou por não existir.
As
discussões começaram como todas começam, chatas e confusas. O
local inédito, o fórum da colônia marciana, não contribuiu em
nada para a mudança de protocolo, e da mesma forma as premissas se
alongaram e a noite já se ia bem avançada do lado de lá da cúpula.
Todos estavam exaustos, sem exceção, e, pior que tudo, ainda
irredutíveis. Os satélites de microondas corriam em órbita baixa,
enviando os dados da ‘conferência do século’ para todo sistema solar, para qualquer parte onde existisse um ser
humano e tecnologia bastante para poder converter pulsos em imagens
digitalizadas estáveis ou quase isso. A clássica contenda,
registrada nos calendários no mês de fevereiro de 2019, suscitava
muito desacordo entre as facções rivais; podia mesmo, asseveravam
os especialistas menos otimistas, cessar o bendito jejum de três
anos sem guerras...
— Ordem, senhores! - asseverou o interlocutor neutro, brincando com
seu 3º copo daquele café de gosto duvidoso mas com o
anfetamínico necessário para mantê-lo desperto, ansiando por um
drink etílico verdadeiro.
E
continuou:
— Ameaça de falácias e ofensas como ‘Empresários
do Extermínio’ e ‘Apocalípticos’, de uma parte contra outra, não serão mais tolerados. Fatos têm
primazia nesta que ainda é uma mesa de conferências respeitável -
sabendo-se enquadrado pelas teleobjetivas, o mediador bateu
novamente o seu martelo obsoleto e absolutamente protocolar,
esperando que não descobrissem seu passado como leiloeiro,
acrescentando o único provérbio em latim que sabia e que parecia
caber como uma luva na atual situação: —
Leonen mortuum etiam catuli
morsicant ou seja, ‘No leão morto até os cãezinhos dão dentadas’. O Leão (nosso problema) ainda vive e ruge. Sejamos práticos e
mais objetivos em domarmos esse animal que há em nós, senhores.
"Recapitularei
com vagar e qualquer distúrbio será registrado pelo meirinho-robô
como desagravo a esta neutralidade e punido com rigor, usando dos
poderes a mim investidos..."
*
Os
envolvidos permaneceram silentes enquanto o Direito Espacial era
discorrido de fio à pavio. O misancene era tudo que não queriam
mas foi impossível evitar sua ocorrência. Pernas se moveram
nervosas sob a mesa de granito nativo, enquanto o mediador
prosseguia em suas considerações finais, proverbial, erudito
demais para o gosto de ambas as amuadas partes, notando-se vez por
outra expressões licenciosas, politicamente duvidosas, talvez
originadas pelo desgaste físico e mental, combinado com um ou outro
stress tipicamente marciano (era ou não aquele o Deus da Guerra?):
— ... é fato que a vida não bate palmas para maluco algum dançar.
Se o demente o faz, é movido pelas palmas de seu próprio distúrbio
de personalidade, ora lúcido, ora lisérgico. Vimos aqui colocadas
duas vertentes: A dos Colonos, representados pelo Sr. Robinson
Ferraz, brasileiro, casado, cidadão da Terra, e de uma facção da
ONU, já qualificada antes, unânimes numa debandada organizada do
solo marciano, pois, pelas teorias até aqui submetidas e, favor
destacarem partindo deste ponto, ainda
não conclusivas pela falta de respaldo científico do mínimo
necessário, cessar
o destaque meirinho, dizem que uma longa relação de efemérides
locais está ocorrendo com precisão absoluta, (lendo o último
item) ‘...asseverando
que a lua Fobos cairá entre o mês de maio e agosto de 2020,
chocando-se com a exata localização de Bar Habor...’
(fim da citação)
"Por
outro lado apreciamos todas as datas fornecidas pelos senhores da
acusação e vimos, consternados, pouco mais que coincidências nas
chuvas de meteoróides de novembro último, na fragmentação
isolada de parte da crosta de Deimos em janeiro e, mais
recentemente, os distúrbios de órbita verificados em Fobos. Afirmo
ainda que nenhum astrônomo - de uma longa lista de indicados -
ousou (espero ter usado o termo correto) validar tal conclusão, ao
menos até o momento, com nossa Rede conectada aos principais
observatórios.
"Por
isso apreciamos também o lado do investidor, igualmente já
qualificado, sua área de litígio e a cláusula de sua principal
Seguradora que prevê cessão de responsabilidade no item Acidentes
de Causas Naturais, balizando sua defesa na exigüidade das provas
ditas cabais, da parte do Queixoso.
"Não
há dúvida que esta é uma situação desconfortável para qualquer
Mediador Juramentado. Pessoalmente, estaria inclinado à liberação
dos colonos de Marte, o pagamento de suas Apólices proporcionais,
por Abandono Involuntário. Mas – meirinho, destaque a próxima palavra - ‘pessoalmente’
não é um critério válido para interesses tão vastos quanto a
conquista de novas fronteiras, o que, sabemos, nunca é destituída
de certos perigos inerentes..."
O
resto se perdeu numa explosão de gritos inflamados, clamando contra
tal despotismo, além duma enorme enxurrada de palavrões, indignações
do léxico televisivo, e principalmente por esse motivo devidamente
registrados. Ficara claro desde o início que suas posições,
enquanto Acusação, seriam ouvidas, toleradas, mas totalmente
ignoradas. Muitas coisas aconteceram naquele breve espaço de tempo,
quando o tumulto tomou conta do anfiteatro, num microcosmo bombástico
do que se viria esboçado na Terra e cercanias.
*
Com
um brilho de contentamento indisfarçável no olhar, todo tempo
contemplando o brasileiro, Könrad Maynnard acendeu um comprido
Havana, em desrespeito claro às normas anti-fumo em voga na colônia
e em boa parte do mundo civilizado.
Por
ser uma mesa de conferências com poderes ad
judce, a defesa tinha ganho em 1ª
Instância, o que eqüivalia a muitos rounds de força-bruta. E o
que era melhor, não tinha gasto um único centavo de propina!! Seus
advogados arrolariam listas e mais listas de obstáculos e entraves
legais legítimos que levariam meses de nós burocráticos antes que
qualquer Tribunal regular na Terra, ou Fórum Espacial assim
constituído, se dignasse a aviar novo pleito, com a gama de
superstição que os colonos chamavam de Provas
Irrefutáveis! Tinham ainda 3 anos pela frente e não
deixaria que os colonos se esquecessem um só segundo do que estava
por vir...
Outra
coisa certa pôr acontecer seria o gênero de castigo do qual o
brasileiro seria alvo, se possível levando-o além da bancarrota.
Iria apreciar isso, vendo-o humilhado, implorando seu perdão, quiçá
com um penico na mão à cata de esmola!
O
grupo de mercenários, apesar de desarmados (uma exigência legal
para a realização do Plenário) fizeram um círculo apertado em
torno de seus contratantes; somente alguns deles eram veteranos da
Última Grande Guerra, travada principalmente no solo americano de
Washington e Louisiana, mas todos devidamente competentes e ávidas
máquinas de matar, se acionados para aquele específico fim.
Tudo
aquilo tinha um motivo.
*
O
ajuntamento menos exasperado dos jakotas
estava encontrando certa dificuldade em conter seus semelhantes mais
exaltados, visto os mesmos asseverarem, não sem certa lógica
torta, que morreriam de qualquer forma, ao menos padeceriam em paz com suas consciências,
levando os assassinos para junto deles no caixão!!
Robinson,
o jovem Pietersen, dentre outros, desdobravam-se no caos de cadeiras
quebradas, transformadas em clavas, escudos e objetos de arremesso,
enquanto o pessoal da ONU se retirava do recinto sob a escolta de
seus marines espaciais, os últimos desanimados com a perda de uma
boa briga.
Claro
estava que o que se seguiria já acontecera antes. A catástrofe de
Marte residia nas mãos do próprio homem. Porém, a história
escreveu-se de outra maneira, sob a forma de um ensurdecedor grito
de SALVEM NOSSAS CRIANÇAS!
*
Através
da imensa abóbada transparente da seção 45º
dos fundos do anfiteatro, as muitas mulheres menos aguerridas, ou
mais pacatas (mães em sua grande parte), afastadas do tumulto,
apontavam para a região limítrofe da base que recebia os primeiros
raios do fraco sol da manhã, onde quase trinta crianças se
dirigiam numa singular formação militar. Fugitivas da creche
comunitária, idades variadas, a maioria com menos de 8 anos,
marchavam resolutas para a principal eclusa de saída de Port Lucifer...
Por
alguns segundos o silêncio tumular tomou lugar onde antes reinava a
altercação. Robinson foi o primeiro a reagir ao inesperado,
saltando os restos de mobília juncada pelo chão, favorecido pela
baixa gravidade e sua constituição privilegiada com o notável
coração de seu avô, logo seguido por uma quantidade
indiscriminada de colonos, empresários e mercenários.
VII
A
nave pousou na periferia da grande planície vitrificada, muitos
metros além de alguns veículos que perto dela mal se viam, dada a
pequenez extrema em relação àquele gigantesco encouraçado alienígena.
Space Quest, a belonave de quase novecentas toneladas do Marte Co., o mais próximo
e maior dos veículos espaciais terrestres, foi avariada ‘por um disparo de aviso’
do intruso, varrida de encontro a uma das Torres de Aportagem, que
vergou-se sobre si mesma, tombando, destruída. Num ponto além da
fuselagem rompida e fumegante da Quest
era possível ver, se você tivesse um binóculo e soubesse
onde procurar, o hangar de carga sendo ejetado e os tripulantes saírem
em alguns veículos ou envergando vários trajes leves de superfície,
aparentemente incólumes, embora nem um pouco tranqüilos na
eventualidade de um disparo à queima-roupa contra eles.
Não
houve novos ataques como também, daquelas pessoas espremidas por trás
das crianças agachadas junto a saída da base, não partiu qualquer
voz de indignação. Estavam todos devidamente avisados do poderio
imensurável do intruso e, porque não dizer, maravilhados com a
expectativa de algo inédito vir a acontecer.
E
tal realmente ocorreu: Uma forma materializou-se junto ao chafariz
sobre o lençol freático 12-B, atrás deles mais de cento e cinqüenta
metros. O movimento organizado das crianças, correndo naquela direção
e gritando ‘EEEHHhhh!!!’, esgueirando-se pelos pais atoleimados, driblando-os, foi que
tornou a aparição perfeitamente observável para os demais.
— Vinde a mim as criancinhas - disse o vulto, em perfeito domínio do
pidgin Inglês-Castelhãno que se tornara a forma de expressão
coloquial mais usada entre os vários colonizadores: —
Paz na terra aos homens de boa-vontade...
Robinson
adiantou-se vários passos aos demais, andando no início e correndo
os metros finais, antes de imobilizar-se junto ao, até ali, suposto
desconhecido, dirigindo-lhe um comentário explosivo:
— Esta foi sua entrada mais espetacular, seu filho-da-puta!!!!
No
que seu avô respondeu, adiantando-lhe a mão, mas apertando seu
neto num saudoso abraço, ante a platéia de olhos confusos,
buscando explicações no imaginário.
*
Markus
foi envolvido por todas aquelas crianças gritantes, encontrando
certa dificuldade no prazer de distribuir, qual um grande e único
Cosme & Damião(7), de um saco prateado repleto de balas de
procedência desconhecida, contudo agradável aos olhos, e pela
avidez das crianças, também deliciosas ao paladar.
— Tome este repositor vitamínico e me ouça. Sinto tê-lo deixado
sem maiores esclarecimentos, mas tive uma proposta irrecusável
daqueles caras ali fora - comentou, dando por encerrada a farta
distribuição de guloseimas, apoiando o braço nos ombros de seu
neto, enquanto se encaminhavam com vagar de encontro aos demais: —
Reluto chamá-lo de alienígenas, contudo se fica mais fácil se
referir a eles dessa forma tacanha, que seja; os aliens possuem o
domínio do espaço e determinadas variações do tempo também, além
de conhecimentos vastíssimos sobre o corpo humano. Como vê, seu
velho ‘Voador’
não envelheceu tanto assim. Em contrapartida, garoto, você cresceu
à beça e já está até quase careca! Vamos ter que remediar isso,
digo, em relação ao aeroporto de mosquito.
Robinson
sorriu. Não parecia saber fazer outra coisa. Por longo tempo
suspeitara secretamente que algo assim pudesse acontecer; o gênero
de negação que se têm com alguém próximo e que se espera viva
eternamente; era típico de vô Adorinã, ou somente voador,
gracejar diante do inconcebível, ainda mais quando ele próprio era
o centro das atenções. Mas fazê-lo ir à Marte e armar todo
aquele banzé foi algo atípico, mesmo para o morto ressuscitado...
— Sei de todas suas dúvidas e anseios - continuou Markus, falando
mais depressa a medida que o sussurro da multidão se tornava audível,
puxando o neto para mais próximo dele: —
Os Outros, os aliens, providenciaram um clone (na verdade uma penca
deles) em meus últimos anos na Terra. Estava tudo preparado; foi o
coração desse superclone que você herdou. Quando me fizeram a
proposta de visitar a Galáxia que chamamos de Cygni, além dos
arredores de outras tantas, não pude recusar, já que me prometiam
retornar com novidades para a humanidade, além de ser um puto
passeio e tanto! Foi um grande embuste dizer que Fobos despenharia
do céu como anjo caído, eu sei!! Que desgraçado que sou, não é
mesmo?
"A
verdade está onde não a procuramos, como diz o filósofo
circense de plantão em cada um de nós, bebendo todas, sem medo de
ser politicamente incorreto. O óbvio é criar obstáculos
complicados no lugar da simplificação. Assimilei isso na fração
do tempo em que permaneci em Marte, antes de minha jornada
intermitente, indo e voltando nesse negócio parado lá fora, que é
somente uma nave auxiliar dos Imemoriais, mas com ‘poder de fogo’
bastante para arruinar todo um sistema solar e ½
dúzia de outros ainda maiores.
"Como
disse, toda aquela confusão para trazê-lo, convergir a mídia para
esse ponto e ‘sensibilizar’
a opinião pública não foi em vão, creia-me. Os Outros, nossos
antigos colonos, querem reatar conosco. Viram como quase nos matamos
ainda há pouco, como somos aguerridos na defesa de nossos ideais,
mesmo os mais ridículos e infinitesimais. Tão primitivos!!
"Expliquei
para eles que é uma luta diária nos manter em ordem, que apesar
dos muitos fracassos os sucessos são compensadores. Não
acreditaram nesse velho cretino; quiseram experimentar os nossos
limites e motivações e chegaram a um veredicto: Poderiam nos
exterminar mas não querem. Precisam de nós para fazer algo que
eles próprios deixaram de lado há milhões de anos. Estão
cansados, desmotivados. Precisam de sangue novo e nós, os imbecilóides,
de desafios maiores..."
FINAL
— ...sei que agora deve ser virtualmente impossível acreditar em
mim, Robin - Markus refestelava-se num grande divã, massageando um
dos pés numa posição até incômoda para qualquer um que não
fosse contorcionista, enquanto lá fora uma multidão de
correspondentes, recém-chegados à Marte pelo Expresso Sol da
Madrugada, se aglutinavam por cada palmo de terreno disponível: — Mas, de fato, paguei meus pecados neste planeta frio e miserável.
"Fiquei
quase três anos pelejando naqueles fossos da cidadela subterrânea,
posto que tudo aquilo, da minha peregrinação nas cavernas às
descobertas do Observatório e o Mar Interior, tudo foi
rigorosamente verídico, tão real quanto a palavra realidade faz
supor.
"Daí
a ter permanecido 15 anos no Velho Vermelho, é uma catarse jogada
aos porcos (desculpe-me!), incluindo a dramaticidade da detonação
do Artefato Modificador Topológico. Tudo um tributo à você, já
que partiu de seus livros escolares, seus cadernos de redação e,
em menor escala, um livro chamado, se não me engano, de Crônicas
Marcianas."
— Exato. Ray Bradbury –
elucidou, andando de um lado para o outro no aposento que não
deveria possuir mais do que 8m2, todavia considerada uma
suite presidencial. - Então, vejamos se entendi, não foi nenhum
clone que foi à minha formatura no Liceu, nem outro clone que
batizou meu 1º filho?
— Não.
— Isso é um alívio! –
o sarcasmo ficou aparente.
— Porém, - voltou o outro à carga, constrangido, mas muito
passageiramente, sendo que transparecia um certo ar de divertimento.
— foi um clone doutrinado especificamente por mim que deu-lhe as
primeiras revistinhas do Carlos Zéfiro, ‘emprestou’ dinheiro e essenciais camisinhas e conselhos pra suas primeiras
noitadas nos Motéis do Rio...
*
O
chamado vindo da eclusa da ante-sala revelou - pelo monitor - o
rosto sardento do Senador Wainwright, do comitê da ONU; atrás
dele, identificado pelo holocrachá estava um Produtor de computv,
todo sorrisos para o indicador portátil de algo equivalente ao
IBOPE, anunciando 2 minutos com os dedos para a transmissão em rede
espacial.
— Seu lugar já está cativo, Flash
Gordon - finalizou Markus, levantando-se, lançando uma última
espiadela no relógio e a holofoto que seu neto recolocava na
carteira. — Espero que sua esposa e os ‘pestinhas’ adorem viajar! É provável, se tudo der certo hoje, que meu 2o
bisneto seja o primeiro cidadão humano nascido em Andrômeda...
*
O
momento chegara. O documentário especial sobre aquele que em breve
daria a Coletiva terminara. Todas as câmeras se convergiram para
aquele lugar, no palanque improvisado. Desde o mais reduzido monitor
nalguma colônia mineira nos Asteróides até o maior telão de 800
polegadas, no Novo Japão, a imagem reconstituída de Markus
aparecia com igual nitidez, a voz talvez algo distorcida por Ventos
Solares.
Quando
este falou, com tradução simultânea, por meio de vinheta eletrônica
interativa, eles escutaram:
— Amigos Humanos, preciso de voluntários... Uma ninharia... Um milhão
de voluntários pra começar!!!!!!!!!!!!!!
-0-
1.
Homenagem à Charles ‘Lewis Carroll’
Dodgson, criador de ‘Alice no País das Maravilhas’, um
professor de Oxford, também um adorador da matemática lúdica;
- CEMIG = Centrais Elétricas de Minas Gerais;
- COMAR = Comando Aéreo Regional;
- Ave marinha muito comum na costa brasileira,
onde costuma nidificar em inúmeras ilhas;
- Óbito registrado em 24 de Agosto de 1954;
- Na verdade um composto cristalino de água em
suspensão e gás, formado a partir de determinadas condições
de temperatura e pressão;
- Entidade gêmea canonizada pela Igreja Católica,
significando respeito e amor às crianças.
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