Mar de Vulcano

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0096]
[Autor:
Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título: Mar de Vulcano]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 13.480]

 

Introdução

 

Em 1956 eu visitei Marte.

Afirmo-o com convicção: Estive lá!!

As imagens estão tão claras em minha mente ainda hoje (se vão praticamente meio século daquela quase trágica epopéia solitária), levando-me, muitas vezes, a perder-me naqueles grandes desertos gelados da recordação, os labirintos de sua teia de cavernas ocultas que ainda trago emaranhadas em meu ser.

Este testamento virtual {anexo 2}, firmo-o na presença do Tabelião do 9º Ofício de Notas da União, Ilmº. Sr. Ranufro Pontes Filho, no gozo total de minhas faculdades mentais e motoras, como atestam os diversos laudos e exames {anexo 3 e 4/a-b-c}, etecétera, etecétera.

Mas, sinto não me restar grande vida nessa carcaça de pau-à-pique. Por opção. É chegado o momento de ruir o silêncio guardado por todo esse tempo, rompendo seu lacre até então inviolável, e ganhar forma enquanto tenho voz e recursos técnicos para narrar.

Para você, o mais curioso de meus netos, deixo também esse legado em forma de CD-ROM {anexo 5} e junto a isso vão minhas impressões de viagem e todo material de apoio que salvei das traças físicas e as outras, invisíveis e imateriais, que nos infestam por dentro e corroem além das entranhas. Essa introdução faço-a por escrito de modo arcaico, servindo de preâmbulo à cópia digital pormenorizada. Leia-me, ouça-me e veja-me, pois, com atenção invulgar: Devo estar morto e servindo de banquete aos vermes quando isto puder chegar em seus ouvidos, olhos e mente, sempre tão corretos em decifrar o certo da fraude. O vovô-tolo era como me chamavam com a simpatia comum aos idiotas para com os idosos lapidados pelo atrito dos anos. Nunca pude expressar-lhe em vida o quanto você significa para esse velho assaltado pela nostalgia, que agora, infelizmente talvez, vêm assombrá-lo por meio de seu kit multimídia: Se algo servir de consolo, pode-se dizer que nem antes, muito menos agora, essa coisa de ser apontado como um velho cheio de manias me afetou. Deixe-os me chamar do que quiserem! O morto é imune aos prazeres da carne, mas também o é em relação aos dissabores da vida. Uma forma de compensação. Venço-os com meu cadáver convertido em cinzas e dispersado ao vento nesse cemitério-parque para onde tenham-me destinado, na certeza de estar oco de todo órgão que pude doar em vida, reservando-lhe meu coração que, se calculei direito e o destino conspirou a meu favor, já bate forte em seu peito, o qual, isso tenho certeza, muito apreciará.

Tudo mais que a partir deste momento se revelar será todo seu para acreditar ou duvidar... Faça bom proveito. Se possível, divirta-se!!

De seu Avô, que muito lhe preza e ama,

Markus Adorinã Galhardo

(código de barras)

P.S.: Sem liberdade não somos nada além de uma cela biológica.

I

28 de Outubro de 2018...

Robinson virou a poltrona na direção do espelho da cômoda e encarou sua imagem ali refletida: os olhos fundos, o cabelo começando a rarear no topo da testa franzida, o tom antes doentio de sua pele desfeito num perfeito bronzeado; as novas técnicas de sutura deixaram somente um fino vestígio de cicatriz em seu torso nu, que breve seus sempre fartos pêlos fariam por ocultar, tão logo atingissem sua capilosidade natural.

Obrigado, pensou, repensou, tornou a pensar. Um eco que sua mente não cansava de reprisar.

O velho tivera razão. O pós-operatório transcorrera sem alarde de qualquer tipo de rejeição, mesmo as mais comuns. O coração daquele velho era extremamente forte, para não dizer impossivelmente eficaz, o que extrapolava qualquer dos muitos veredictos em contrário, das aves agourentas que palraram em seus ouvidos para que ele não fizesse tal coisa, como aceitar um órgão em final de carreira? Enfim, sua opinião prevalecera. Aceitou aquilo como uma dádiva; sobretudo uma parte dele, que bombeava em seu corpo um fluido constante de energia redobrada que fazia-o impacientar-se com coisas que antes achara laboriosas, simplesmente aguardando a morte chegar.

E lá se foram dois meses, escoados com notável rapidez, desde o enterro que transcorrera sem sua presença, removido às pressas pela UTI móvel, levado de jatocóptero para o Hospital do Coração no polo de bioengenharia da Cidade Universitária do Fundão, onde recebera o implante cardíaco. Seis horas com o peito aberto, as costelas contemplando o serviço minucioso do bisturi laser.

Até na hora da morte o Az soube sucumbir de forma heróica!

Mas em sua opinião fora cedo demais. Terrivelmente cedo... Colocaria mais de dez marcapassos ou qualquer válvula experimental de tecido caprino para ter Voador de volta e não uma parte dele batendo em seu peito. Uma perda não justificava outra. Não se julgava hipócrita ao ponto de achar tal coisa.

Iluminado por um lampejo de recordação, mergulhou mais fundo ainda em suas memórias. Levantou-se com um vagar algo atordoado, indo até o armário embutido. A medida que a procura se delongava e a idéia ficava menos obscura em sua mente, tornando-o frenético em sua busca, afastava tudo em seu caminho, soterrando-se praticamente sob roupas de cama e sacolas até então ainda não violadas de seu conteúdo. Finalmente achou uma pasta com alça frouxa, de aparência pra lá de gasta, dentro da qual, trazendo-a para próximo ao CompuTV, tirou antigos diskettes de 3.5’’ e implante de memória; ali também estavam alguns papéis encardidos, pinçando um determinado maço de folhas laboriosamente datilografado, anterior ao seu 1º Editor de Texto, lá pelos idos da Idade do Grafite:

"Notícia: Homem manda rato adestrado ao solo marciano", - encabeçava o topo da folha, trêmula em suas mãos.

(A menor nave discóide então construída, 120 quilogramas de peso, têm um pai. O aluno de física experimental aplicada que se proclamava LUVAC)

(Extrapolando de sua prancheta de desenho, famoso por sua larga capacidade inventiva, LUVAC leva avante seu projeto mais ambicioso e precoce: a construção duma miniatura funcional de nave para ...num só golpe, colocar em solo marciano, um tripulante da velha Terra, no comando de sua menor e melhor nave, a Disneyland)

(LUVAC conta com a ajuda de sua inseparável namorada que, na função de bióloga, fez a seleção dos espécimes e solicitou a cobaia conhecido como Rato56 - aos mais exaustivos exercícios e testes que um ser desta ou outra natureza jamais fora submetido)

(Conta ela)

Nunca duvidei do projeto LUVAC. Para isso temos agora um tripulante exemplar, capaz de levar ao nosso vizinho planetário nossas mais gratas lembranças...

(Voltamos e, com a palavra, LUVAC)

A nave apresenta uma tecnologia de ponta, com moldes em escala infinitesimal. O maior problema, por mais extraordinário que pareça, não foi o dinheiro (tenho o patrocínio de 4.2 bilhões de terrestres que torcem por nosso sucesso e mais de $1,000,000 doados pelos Estúdios Disney, creio que antecipando um provável remake com Mickey Mouse em órbita), mas residia em encontrar o tripulante ideal para, sem termos condições de controleremotar, sem torres de retransmissão e sistema de satélites de acompanhamento (a NASA, sabe-se lá movida por ciúmes ou interesses ocultos, não nos dá qualquer apoio logístico ou mesmo interjeições coloquiais de reconhecimentos de nossa insignificância), acionar as chaves táteis-digitalizadas para a órbita de Marte e o pouso propriamente dito.

(O dia da decolagem...)

(Lá está LUVAC na eufemística torre de comando, montada num descampado, de Quintino Bocaiúva para o mundo, correndo com o resto dos 3º-anistas de Física, nos preparativos finais do lançamento tão aguardado por todos nós)

(Archibald, Arch, o Rato56, vem pedalando sua gaiola cíclica, mostrando-se em plena forma e nem um pouco receoso de sua futura e inédita missão)

(Diz LUVAC, para todos os nossos colegas de imprensa, representando os principais periódicos, e os microfones abertos de nossa exclusiva emissora)

Distante 60 milhões de quilômetros, Marte nos espera para uma aterrissagem balística em seu hemisfério norte. Somente não posso arriscar prever onde Arch irá descer especificamente. Contamos com o poder planador da nave e o seu pequeno porte para que lá chegue intacta, emitindo suas primeiras imagens, adotando o transformer II para se locomover e iniciar o reconhecimento.

E quanto ao combustível? - indaguei, na seção seguinte de perguntas & respostas que antecede o que os céticos e divertidos profissionais de cinismo de todo mundo chamam de um pequeno passeio para um rato mas um grande salto para à ratoeira!.

Como já lhes disse, nobres ouvintes, o problema pessoal foi o que acarretou maiores obstáculos, enquanto não resolvido com a seleção de Arch pela mui competente especialista, Drª Márcia Bonfrates. Nosso combustível (essa palavra tão arcaica) foi sintetizado a partir de 1/3 de silício, 1/3 de hidrogênio e 1/3 de carvorita...

Carvorita? - estranhei, perante a palavra tão familiar.

Perfeitamente. Sintetizando um componente mineral, induzindo um forte campo gravitacional retrógrado, baseamos nas derivadas de três das fórmulas básicas do mundo, isolando o que nos interessava. O resultado demos o nome da matéria que possibilitou à H.G. Wells chegar na Lua em um de seus contos visionários: Carvorita.

Isso tudo não é muito teórico para ver se enrola o repórter aqui?

(Risos, no apertado mas bem aparelhado e refrigerado trailer que também traduzia-se como sala de lançamento)

Pode até parecer que sim. No entanto, não gostaríamos de mistificar essa grande experiência. Pelo contrário, nossas anotações e cálculos balísticos estão a disposição da humanidade como um todo, principalmente àqueles que nos atribuem à charlatanice e o descalabro como principal ferramenta de trabalho. Perante isso, senhoras e senhores colegas, tenho uma máxima Física dos tempos aristotélicos: Dê-me um ponto de apoio, eu entro com a alavanca e nós deslocamos o mundo!!

(Alguns entre nós pigarrearam, enquanto eu, Valfrido Jr., voltava à carga)

Mudando de assunto: já pensou num possível fracasso nessa empreitada milionária?

É claro que o pensamento existe, mas, devo acrescentar, devidamente amortecido por nossa perseguição pelo sucesso. Paradigmas à parte, não estou sozinho nisso. Com certeza que a resposta é sim. Mas devo também ressaltar que isso ficou para trás, no início de nossa jornada, pois não há tempo para o fracasso agora, somente para o trabalho. Depois veremos o resto...

E por falar em tempo... - quis saber um jornalista da revista Time, exibindo um sotaque inglês característico, ao incluir seu chiste, no que LUVAC interrompeu, parecendo perceber muito bem o detalhe risível na pergunta.

Depois. Não tenho tempo para desperdiçar agora!

(As caixas-de-som improvisadas nas traves altas de alguns postes plantados à margem do pequeno descampado berraram os acordes finais daquela música que Kubric tão engenhosamente maestrou sua criação em 2001, sendo substituída por uma dissonante e estrondosa sirene de raid aéreo, presente no filme A Máquina do Tempo. Ainda tivemos tempo de gritar para LUVAC a respeito da última pergunta não respondida e colhemos o seguinte fragmento de resposta antes da balbúrdia tomar conta de tudo)

...se querem saber: Se isolamos a gravidade como exemplo de variável, o que os senhores acham que faremos com o tempo?...

Fora assim que parte de seu arremedo destrambelhado de estória saíra num obscuro e mimeografado jornal do colégio, cujo o título Garganta Profunda não ajudara em nada para aumentar sua respeitabilidade nos meios literários. Meio brincando, pouco mais que um menino de poucos amigos, na verdade nada popular, Robinson elegera Marte como objetivo de seus sonhos e que, via de regra para basicamente todas as coisas, nunca conseguira vingar como realidade. Quer escrevendo ou lendo obras escolhidas, ali embarcava seu devaneio; era o deus de si mesmo, o próprio ponto fulcral da criação, a máquina capaz de elevá-lo à condição de principal protagonista, isento de qualquer má atuação, dissabores da crítica, qualquer vislumbre de fracasso também, distante da realidade... Para um jovem, acordar no dia seguinte já é uma pequena eternidade, o que não dizer de um pirralho de 13 anos, imaginação fértil, língua solta e destemida, com um avô ex-piloto da Esquadrilha da Fumaça, em tudo um herói para aquele menino? Acrescente a isso sua enfermidade e o menino seria como um trator tentando por toda força mover um palito de fósforo em seu caminho, sem nada conseguir...

Mas eis que passaram-se muitos anos, cometera a contestável façanha de contrair matrimônio, ter filhos, lutar por não sucumbir a tantos a tantos reveses econômicos e enxurradas de moedas podres; tornou-se enfim um responsável e quadrado Engenheiro Eletrônico, desde cedo pouco afeito aos esportes, e estes nem de longe radicais, com sua paixão espacial refreada por uma série de fobias que psicólogos, religiosos ou terapeutas de vidas passadas saberiam precisar a origem de tantos medos; sobreveio então uma pista, num exame de ressonância magnética, no mapeamento torácico, e seu mal congênito foi detectado por um cardiologista lamentoso de não ter sido consultado há tempos, de preferência durante o curso da própria gestação daquele paciente problemático. Patente estava que apelara para tudo em sua ânsia de ser um astronauta, um aviador ou algo similar. Colecionara notas altas, o 1o nos ciclos de palestras sobre vôo simulado e coordenadas ortogonais no hiperespaço, lera tudo que pudera, do concreto ao abstrato, sobre a esfera de tais assuntos. De nada aquilo valera, a não ser uma certa miopia, um bom emprego e um melhor ainda salário, o que de certa forma trazia sua própria compensação, mas restava sempre alguma coisa, um vazio a ser preenchido. Em troca de seu esforço, contido devido a um coração de fabricação defeituosa, duas agressivas intervenções cirúrgicas e alguns cateterismos, aos trinta e poucos anos de idade somente restava o fato de continuar a ser um fã ardoroso de ficção científica, onde um inválido cardíaco podia ser ou fazer qualquer coisa, até mesmo salvar o universo!

O papel com rebordo ligeiramente amarelado que tinha nas mãos fora sepultado pelo tempo e teria se decomposto pela idade, pela umidade ou o lamentável desleixo se o seu avô não fosse tão irreverente, mesmo em sua morte, ao lavrar tal insólito testamento; soubera usar e abusar da máquina administrativa, notoriamente emperrada (mas para ele não), cobrando formidáveis favores insuspeitos a toda uma Junta Médica, dando-lhe a vida com uma mão e mostrando-lhe o caminho com a outra; por outro lado, uma faceta não tão imaculada, fazendo também retornar suas lembranças, a angustia por nenhum de seus sonhos emplacarem mais que a fé quase inabalável, sem montanha alguma que pudesse ser removida: Nenhuma montanha mas um planeta inteiro que recebia levas constantes de colonos e achava-se apto a uma assanhada requisição de soberania nas Nações Unidas; um Marte sob um coquetel de bactérias e microorganismos vivificadores, fixadores, pântanos de lodo, espelhos orbitais e o aparato tecnológico de doze grandes indústrias do consórcio que o explorava, já favorecidas, mesmo nesse exíguo tempo de prospeção, por containeres cheios de diamantes, novos tipo de compostos minerais essenciais à crescente indústria espacial (para se ater unicamente na milionésima parte de um todo acenado como um filé para um cão esfaimado). Um planeta que seu avô garantia ter sido pisado por ele em 1956 e que em breve, com humanos nele ou sem, sofreria uma transformação fulminante e avassaladora, destruindo o que lá existia, construindo um novo mundo sobre a escória do antigo...

Puta vida!, pensou com receio de continuar a descobrir os outros segredos que seu avô lhe reservara como legado, e essa agora...

Parecia um dia típico de Domingo, o sol massacrante, as pessoas se divertindo nas praias do outro lado da quadra do Canal, enquanto alto-falantes e carros tilintavam suas buzinas musicais, apregoando a venda de refrigerantes, sorvetes, frutas, e o que mais houvesse, desfilando os furgões elétricos, multicoloridos, por aquele que já fora um balneário tranqüilo. Um trio-elétrico distante ensaiava uma intermitente fuzarca, espantando ainda mais aquele bucolismo típico, de localidade perdida no passado. Paz nunca mais!! Todavia, era como se aquilo acontecesse milhões de anos-luz dali.

Merda...

Voltou a perceber o ambiente quanto passou a ouvir passos no corredor de tábuas corridas que desprendiam um pungente cheiro de pinho; passos que eram ligeiramente abafados pela passadeira de vime, a porta se abrindo após um tok-tok de suaves dedos sobre a envernizada e vetusta madeira, seguido de um Oi! especulativo:

Querido! - ralhou a mulher, chapéu de palha lançado certeiro sobre a cama, metida num sarongue jamaicano que em nada deixava esconder do seu muito apetitoso conteúdo, mesmo após dois partos rigorosamente monitorados, o que não impedira de acusar um óbito entre eles: A convalescença já acabou. Estamos de férias, lembra? Sei que gostava imenso de Vô Ador, mas esse quarto escuro, o Virtual-Book ligado e esse mundão de papel velho não o trarão de volta...

Como sempre ela parecia ter uma P.E.S. apurada, escondida em algum lugar. E, como sempre, tão logo acabara de falar, Alinne se arrependera. Os olhos contritos de seu marido se fecharam, uma lágrima escorrendo como batedora solitária de sua mágoa represada. Um Lázaro devolvido à vida e que, mesmo sem contrato de casamento algum, lhe era tão caro quanto o único filho sobrevivente.

Robinson se sentia um tolo, uma vítima da impertinência impossível e irreverente de Voador (Vô Ador) - como o antigo Az da Esquadrilha era conhecido entre seus poucos pares ainda vivos e membros de sua própria família. Suspirou, esvaziando-se como um balão sem ar, porém começando a corresponder aos afagos localizados que recebia da envolvente esposa, usando um dos pés para tal tarefa, tornando-o latente, enchendo-se novamente, desta feita não só os pulmões.

Em breve a cama ajudou-os a compor aquela sinfonia feita de gemidos e rangidos.

II

1971

O planeta vermelho nunca parecera tanto com o Martelo de Vulcano quanto naquele ano, praticamente invisível sob uma grande tempestade de poeira que, como proveniente de uma forja divina, escondia os exércitos envergando seus mantos rubra-coral, transfigurados em remoinhos de areia a marcharem inflexivelmente sobre si mesmos.

Ano e meses antes o homem mal acabara de pousar na Lua e ensaiara um "Grande Salto para a Humanidade..." que por longa data assim permaneceria, repercutindo uma série de pequenos pulinhos pouco proféticos. Parecia verdadeira a velha premissa de que o destino, uma vez alcançado, perdia qualquer significado.

1971. O ano em que Voador sentiu a geada quebradiça sob o marchar de seus pés calçados e achou que nunca mais veria a Terra novamente, ressalvo aquele familiar lápis-làzuli que espreitava-o a meros, em termos galácticos, 57 milhões de quilômetros, em mais uma oposição; estivera no lugar por ele determinado de seu terrário: uma plataforma suspensa sobre o mais próximo dos canais descoberto pelo piemontês Giovanni Schiaparelli.

Quinze anos em Marte! Nem Colombo despendera tanto tempo e energia em suas quatro viagens ao continente americano, sendo mais da metade do período computado das incursões de Marco Polo pelo Oriente. Guardada as proporções, quinze anos ali significava o mesmo que quinze formas diferentes de dizer adeus, uma eternidade de chances mancomunadas com a inclinação ao suicídio...

Encapsulado em sua indumentária isoladora e recicladora, iniciou o ritual de todas as manhãs, modificado somente durante essa última e atípica semana, após a detonação do Artefato. Nunca imaginara pensar (pior ainda em executar) em algo tão drástico, sinistro e de resultados imprevisíveis quanto detonar a ogiva que encontrara em uma das muitas andanças pelas cercanias da Velha Cidade; acabara por proceder, de fato, a conclusão daquela tarefa, pois estava desesperado e confuso, além de arrependido. Agora tarde demais para voltar atrás.

Relutara por algum tempo, porém tinha acabado por sucumbir ao impulso inelutável que derruíra toda sua resistência como se nada fosse. Depois do mal feito restou-lhe unicamente proteger-se nos largos e profundos túneis acima do permafrost, sob a cordilheira Alasca, pensando se o que fizera, obrigado pelas cacarejantes Vozes em sua mente, era uma parte fundamental da profecia ou mais um engodo em sua vida...

Que se dane!!

A rotina dos passeios ao ar livre fora-lhe tomada por ele próprio, não havia como refutar. Mesmo com todo o aparato que o mantinha vivo, se configurava humanamente impossível resistir a ventos de mais de 500 quilômetros horários, o metralhar incessante do pó transfigurado em açoite mortal. Restava caminhar sob a terra tal qual os anelídeos vermes carolíngeos(1), batizados também por ele de TOPs (tapados-ovíparos-popozudos), bem como o sussurrar aleatório e pouco racional do Povo Oculto, criadores-escravos do labirinto de cavernas marcianas.

Desde o início adotara a contagem de tempo humana. Todo o recorrente de sua desventura residia em unicamente sobreviver e finalmente montar o quebra-cabeça de sua estadia naquele que para muitos felizardos na Terra, coitados, era um mundo destituído de vida própria.

Após 3 horas de marcha forçada atingiu às Termas, um conjunto de vinte e duas cavernas de pedra predominantemente azulada e água agradavelmente morna, mantida aquecida pelo extravazor e um reator Bicônico ligado diretamente ao manto quente do planeta. O ar, ainda que rarefeito, podia ser respirado sem o auxílio de qualquer incômodo aditivo preênsil em suas narinas, estava saturadamente umedecido de partículas suspensas de água, fazendo sua pele exposta se descontrair, trazendo-lhe uma grata sensação térmica que ficou maior a medida que se desfez de seu complicado traje andarilho e meteu-se (nu) no lago Vitória, flutuando facilmente no supersaturado de suas águas salobras.

Enquanto boiava, seu corpo era massageado pelo turbilhão das bicas quânticas que brotavam ao redor do pequeno lago; este, embora impotável, era garantia de isenção de TOPs e outra qualquer forma de vida residual. Ficou hipnoticamente observando o reflexo das cascatas no teto da imensa galeria, o marulhar do mar fantástico situado num outro complexo de cavernas, ecoando ao longe, trazendo e levando velhas conchas abandonadas, que as lembranças, como algemas trinchadas nos pulsos memoriais, acabar por tomá-lo de assalto...

*

Tenente-aviador aos 25 anos, em 1956, um novato na Esquadrilha da Fumaça, mas já um líder esboçado, Markus Galhardo trazia uma folha de serviço exemplar, ressalvo os eventuais distúrbios de uma mente curiosa, externados de forma criativa. Ele e os demais nove pilotos graduados faziam exibições aéreas no céu de Uberlândia, quando o rádio crepitou em meio a uma delicada folha-seca, perturbando a concentração do comandante da Esquadrilha, Major-aviador Bastos di Alfredi. Este, antes de tentar auferir voz de comando supremo a sua correta indignação, foi contido pelo teor brusco e inopinado da mensagem:

Obtusa1! Obtusa1! Hipotenusa chama, repito, hipotenusa reportando Objeto Voador Não Identificado em sua direção, coordenadas Alfa-Silva-Bravo...

Di Alfredi mal teve tempo de se estarrecer; fez sinal para o novíssimo bimotor monocele Tijuquinha que emparelhara-se com ele no ar, avisando o piloto com um gesto que significava o aborto da exibição de treino. Os pequenos aviões desarmados, feitos de madeira-balsa, resinados, trabalhados com muitas ligas leves, não perderam tempo em entrar em formação sobre o morro e suas torres de força da Cemig(2); a caixa-preta do bimotor registrando para sempre aquele impressionante momento de tensão.

VI COMAR(3) avisa da chegada de seus caças para somente Uno-Zero-Zulu...- continuou o rádio, emudecendo de forma súbita e definitiva.

O sol ainda enviava seus últimos pálidos raios avermelhados através da carlinga de Bastos naquela altitude de perto de 8 mil pés. Vislumbrava quando a expansiva cidade abaixo dele, margeada pelos enormes e amarronzados campos de café, que normalmente deveria estar iluminada pelas luzes noturnas, apresentava mais da metade de seu campo de visão tomado por um black-out inusitado.

Ten. Hubert Zanit, Ten. Alonzo Fortunato... - chamou ao microfone pelos alas, ensaiando uma guinada em que a esquadrilha bem treinada adotou imediatamente, devido ao hábito passariforme de seguir o líder.

O único a responder por rádio, embebido em forte estática, foi o novato Galhardo, de sua posição na calda da formação:

Há algo em meu encalço... enorme... - sua voz sumiu, fragmentou-se e após vários segundos voltou mais forte: ...é circular. Não, elíptico com certeza! Talvez uns 80 metros em seu maior diâmetro. Nada é tão veloz... Está empare...

Calda10!!? - gritou o comandante para o único que privilegiara seu microfone, sem saber se sua voz seria ouvida: Markus, confirme o avistamento...

Bem acabara de falar, ofuscado por uma torrente de luz tubular que cegou-o, mesmo com os óculos de aviador baixados, ouviu nas proximidades um entrechocar de fuselagens e uma única explosão. Quando passou a enxergar quase normalmente, com luzes piscando ao seu redor (sem saber se por seus bastonetes irritados ou outro qualquer fenômeno), ainda reparou quando dois aviões de sua formação caiam num não ensaiado parafuso mortal (pois era real), de onde, felizmente, viu surgir os domos simétricos de dois pára-quedas já próximos ao solo, carregados pelo vento para longe dos fios de alta-voltagem, enquanto seus veículos se embatiam contra e encosta do morro, sem causar danos a não ser à Força Aérea.

III

Ainda 1971

Como quando a febre se apresenta, vinha um murmurinho de vozes falando rápidas, em rajadas, por isso quase sempre incompreensíveis, ricocheteando dentro de sua cabeça, surgindo quando menos esperava. O processo detonado, quer no exterior, nos leitos secos dos rios, ou caminhando sob os canyons, mergulhado nas cavernas: onde fosse caia prostrado, apertando seu crânio no intuito de espremer, talvez exumar dele toda aquela cantoria.

Inútil.

A experiência embasada na dor lhe ensinara a lutar menos, prestar atenção mais e intuir muito com relação aos sinais diversos que se projetavam em qualquer canto disponível. Fazendo-o, seu vocabulário já permitia o reconhecimento de muitas frases entrecortadas...

Provinha de uma daquelas aulas com ícones e projetores invisíveis de imagens algumas de suas informações mais essenciais, como a localização exata da Velha Cidade, onde encontrar o observatório estelar (um conjunto de três prédios em formato de pirâmide, situado além da bacia de Hellas); também fizera parte de seu acervo informações sobre o Artefato (como detoná-lo e alguns de seus benefícios primários), onde conseguir material modular para confeccionar o traje andarilho, substituindo-o periodicamente, além de outros dados mais insofismáveis, como os que diziam respeito à Sagut e Mbara (Fobos e Deimos, respectivamente) e o Plano Krantor...

*

Krantor, o bom e velho patife, acreditava ter sido o último dos engenheiros-escravos (zeladores deixados para trás pelos imemoriais habitantes do sistema solar) a migrar para o Fogo-Fátuo, há mais de meio milhão de anos marcianos. Markus nunca soubera exatamente o que depreender por aquelas duas palavras migrar e fogo-fátuo, como também não queria se prender aos conceitos de céu e dimensões paralelas tão em voga nos almanaques místicos. Seus esforços baseavam-se mais no entendimento da mensagem como um fragmento, legando aos estudiosos (quiçá um dia pudesse encontrar um!) o entendimento específico de cada conotação e o global, numa dessas crônicas do delírio, falando dos companheiros mitológicos do deus romano da guerra, Marte. Daqueles excertos, talvez fruto do delírio, certamente dissociado da realidade convencional, obtivera a seguinte compreensão:

Sagut e Mbara tinham sido artificialmente desviados de sua anterior localização solitária, além do cinturão de Asteróides, quase vagando ilesos como núcleos cometários descartáveis. Primeiro, alojando-os em gaiolas energéticas, Krantor organizara o translado, fazendo a transição dos mesmos para bem próximos de Hakk-Mür (Marte), onde foram delicadamente programados e trabalhados, inseridos em órbitas específicas, vítimas não de um capricho da natureza, porém duma infindade de cálculos formidáveis.

A Escola de Pilotos onde Markus se formara não previra um curso de astronomia muito avançado em mil novecentos e cinqüenta, exceto no que tangia a orientação de vôo; nem os astrônomos da época de seu desaparecimento sabiam grande coisa sobre o 4º planeta, principalmente sobre suas luas díspares; mas ficara claro, em todos aqueles anos, que Fobos estava fadado, devido a sua extraordinária proximidade, a se chocar com Marte em algum momento, órbita esta que a cada ano se reduzia mais. O conhecimento que as Vozes lhe passaram nutria-o, confirmando tal teoria e esclarecendo o motivo: como um mecanismo de precisão absoluta, um relógio orbital, sendo a melhor analogia, os satélites enegrecidos de Marte seriam os responsáveis finais pela mudança climática definitiva no Velho Vermelho!

De seus núcleos de densidade, constituídos de material rico em elementos leves faltantes no planeta original (abundando em especial no escavado Fobos), o Plano Krantor previa que Sagut se chocaria com a região do Olympus Mars, o maior vulcão conhecido pelo homem, distante meio hemisfério de onde Markus se encontrava naquele instante, metido em suas muitas reflexões. Fobos (o pêndulo), oscilando e caindo sobre seu fosso (Marte), somente não provocaria uma explosão de muitos milhões de megatons - levando-se em conta seu momento de inércia no instante do impacto, devido ao acúmulo cinético -, exclusivamente por intervenção diferente da providência divina. Grandes retratores instalados em suas muitas crateras, sulcos e cavidades paralelas fariam a tarefa. A frenagem satélitica, longe de fazer a aportagem segura da lua, só reduziria a um doze avos, menos de 8 centésimos, da enorme repercussão do impacto contra o solo.

A maioria dos canali, um outro aspecto do plano de Krantor, não tinham se originado num passado remoto, quando o planeta vermelho fora cortado por imensos rios de superfície, mas eram obras de engenharia PARA O FUTURO, visando o escoamento da lava dos muitos vulcões novamente ativos e a ruptura natural do solo congelado sucumbido perante a colisão. A inobservância de placas tectônicas, decorrente de uma litosfera estável e espessa, conferia mais um tento para os Imemoriais.

Ao mesmo tempo que Fobos se chocaria contra seu enorme vizinho avermelhado, seu irmão liliputiano, o previsível Deimos, em sua rotação sincrônica, se despiria de sua crosta voltada sempre para o planeta primário, catapultando ou ejaculando parte de seus 11 quilômetros e meio de diâmetro de calota corrugada para o vácuo, revelando sob seu atual e impreciso corpo negro uma superfície espelhada e bicôncava, de um albedo dezenas de vezes maior que a própria Lua em sua mais clara aparição sobre a Terra.

Aplicando Kepler, que dizia ser os quadrados dos tempos de revolução proporcionais aos cubos dos semi-eixos maiores das órbitas, estava previsto para um ano marciano bem próximo sua Gênese em forma de cataclismo, provocando erupções, elevando sua temperatura, criando um efeito estufa, derretendo parte de suas imensas geleiras, retendo uma atmosfera mais espessa e, consequentemente, elegendo-o à vida novamente.

*

Markus nascera em São Cri-Cri do Pau-Oco, uma vila perdida pelos Bandeirantes numa rota adjacente a das esmeraldas e por qualquer motivo nunca mais achada, encravada no mais ermo da Chapada Diamantina. Da infância, com seu cão Montezuma, trazia vívidas lembranças e podia-se dizer que, apesar da mediocridade dela, fora bastante feliz. Era normal aos pau-oquençes avistarem coisas incomuns naquelas montanhas azuladas, por isso fora normal para ele, numa tarde de chuva, encontrar um estranho junto ao Regato das Carpas pescando com um caniço bizarro, sem linha, anzol ou sequer isca. Ficara plantado ali, vendo aquele rosto pálido como cera, tirar da água vários pintados que devolvia-os logo em seguida, depois de submetê-los a um luminoso aparelho. Foi aquele mesmo estranho, em seu primeiro encontro, que falara da existência de mundos mágicos além daquele, dum Portal situado nas montanhas do Vale Seco, por onde viajava-se distâncias incomensuráveis sem praticamente mover-se mais que poucas centenas de metros!! Fora também por causa daquele forasteiro vestido de negro, acentuando ainda mais sua palidez, que o menino Markus, trouxa sobre o ombro e nenhum olhar para trás, embrenhou-se por uma ravina e deixou a roça, tornando-se um piloto, um náufrago e, principalmente, o mais triste recorde, o 1o esqueleto humano em solo marciano...

*

Já ficara tempo suficiente boiando, muito além do que das outras vezes; por mais que tentasse desviar seus pensamentos do curso imposto por suas memórias norteadas na longínqua Terra; a saudade da noiva grávida então, do filho que deveria ter tido sozinha num mundo cheio de preconceitos, num lar patriarcal tipicamente mineiro, tudo acentuava a incerteza de como aquilo teria se resolvido em sua ausência forçada pelas circunstâncias. Não entrava na equação da desgraça o fator de talvez não gostar da noiva emprenhada e suas repetidas promessas de levá-la ao altar, seguido de uma longa viagem para salvar as aparências, tão logo acabasse seu estágio obrigatório naquela esquadrilha da Força Aérea. Também não fora por ter sido informado em carta de que seria pai em seis ou sete meses, pegando-o de surpresa mas inclinado a deixar a boemia de lado em troca de uma família, sua própria família. Nada daquilo influíram tanto quanto saber que, quinze anos passados, com um filho ou filha adolescente, ela devia nutrir um ódio muito exacerbado dele, o que não era de se estranhar, pois abandonara-a e ao filho, filha (ambos?), fruto de um único e muito irrefletido momento de paixão, justo quando mais precisavam dele...

Lizandra, - pensou em voz alta não dependeu de mim somente!!!

Mas dependera.

Nadou até a margem e procurou um lugar para defecar. Entre outros atributos dos TOPs, o papel de lixeiros sobressaía, assegurando que as fezes de Markus se degradariam naqueles organismos conversores como quitutes muito apreciados e um dos motivos deles sempre o seguirem em suas andanças onde quer que fosse.

Sua idéia era vestir-se e tomar o rumo da Velha Cidade pela trilha da Cabeça: Há muito elaborara um mapa e, estarrecido, descobrira que as principais construções, sendo desenhadas num plano, conferiam contornos de um Homem Deitado (como se tratavam na maioria de cavernas, o termo mais apropriado seria Homem Sepultado); estando as Termas e o mar interior localizados na altura do quadril do Homem de Pedra, a Floresta de Pinhas diretamente no estômago, e assim por diante.

Contudo, perturbando-o na tarefa de juntar suas tralhas, a luz pálida a sua volta, emitida por colunas regulares, piscou cinco vezes antes de se apagar. Seria mais uma intervenção das Vozes ou teria acontecido alguma coisa provocada pelo Artefato??

Não...

Eram as Vozes.

Não, veio novamente o mesmo som ciciante, desta feita emitido das proximidades, deixando-o atordoado por vir acompanho dum vulto luminoso; contrastado contra à escuridão este tomou-lhe a mão e o arrastou por caminhos que não conseguia ver, exceto o delineado corpo para-etéreo que o rebocava.

Não Temer Mal. Vêm Fora Agora. Tempo Terminou, finalizou o ser-luz.

Incrível! A 1ª aparição que chegara tão próxima a ele e se expressava quase de forma lúcida, doutra forma desejando que saísse das cavernas, o que seria a morte sem seu traje e com, também, pois segundo constava a tempestade não cessara ainda!

Um formigar tomou conta dele. Tentou se debater mas a coisa era indiscutivelmente mais forte, deslizando tão rápida que pareciam voar.

*

Markus foi ofuscado pela luz do sol, mas uma luz sem par em Marte, uma radiação dourada e quente!! Um Marte que não fez seu sangue ebulir nas veias, os vasos dilatarem ao ponto de ruptura, os olhos saltando, simplesmente porque não era de Marte o sol que nascia atrás daquelas arborizadas montanhas da Chapada Diamantina...

IV

Fins de 2018...

As valas se enchiam rapidamente à vazante do córrego que abrira suas comportas obedecendo a uma precisão maquinal. Inúmeras escotilhas ocultas, oclusando e descerrando-se, numa espécie de múltipla mastigação letárgica, hidraulicamente dirigiam o refluxo de nutriente pelos vários canais de irrigação, trazendo um cheiro de leveduras em processo de maturação e outros tantos odores que seriam difíceis de precisar para quem não convivesse com aquilo diariamente, impregnado com o anomalíssimo ecossistema local.

O tom amarelado do céu à oeste, enquanto via-se a tonalidade cinza-avermelhada estampada no horizonte oposto (indicativo de uma tempestade de areia), numa faceta da diversificada palheta celeste, prenunciavam um meio-dia assolado por ventos de quase 300 km horários, protelando, e por fim abortando a expedição para Queops Mariner.

Para minimizar em alguns graus a depressão generalizada dos cento e sessenta e tantos colonos, além do exíguo contingente de 8 Fuzileiros-mercenários, uma mensagem vermelho-escarlate anunciava e lembrava, no grande monitor coletivo instalado no celeiro, que a Maleita Marciana fora debelada com sucesso: nenhum outro caso da enfermidade definhadora fora detectado durante a quarentena auto-imposta, enquanto os casos antigos regrediam a quase normalidade de uma febre convencional, sendo tratados por antibióticos regulares, soro linfócito e coquetéis vitamínicos. Mais que boa, aquela era uma excelente notícia! Abrir fronteiras novamente, disponibilizar o porto da base para pouso e decolagem poderia ter seu lado danoso, na promiscuidade resultante da confraternização carnavalesca que seguia à chegada dos abastados terrestres, mas também trazia sangue novo, víveres, maquinário e miudezas que de outra forma ficariam apodrecendo nas Alfândegas.  

Já se tornara piada corrente o slogan do pool de empresas responsáveis pelas duas gerações de colonos após o início da Planetanogênese no Velho Vermelho, em 2003: ‘MARTE EM 10 ANOS! VOCÊ, O ÚNICO DESAFIO!!’

Como sempre balelas! Mistificação e redução da realidade sob o embrulho pragmático da ganância desenfreada. Por quê nunca aprendiam (os homens, enquanto indivíduos e grupos também) que eram meros joguetes dos interesses de um grupo mais reservado de privilegiados, aqueles que nunca enfrentaram um coquetel de novas bactérias circulando em suas vias respiratórias, esgueirando-se através da própria pele, expostos ao sangramento de suas mucosas, aos grandes pântanos viçosos dos malogrados enxertos iniciais de engenharia genética e o resultado final da fórmula, na criação duma atmosfera respirável, embora venal se inalada levianamente?

*

No espaço quase de duas míseras décadas, desde o final do último século, muita coisa mudara na Terra.

O mundo vira mais uma Grande Guerra que durara menos de duas semanas em solo sagrado americano, que a partir daí, apesar de vencedores em seu próprio território, nunca mais se recuperaram de tamanho golpe contra o orgulho coletivo dos EUA, dando partida ao efeito dominó rumo ao precipício; o Japão perdera Tokyo (e novamente a reconstruíram melhor do que antes) sob um terremoto devastador que matara milhares; a Comunidade Européia, o novo gigante mundial, atingira a maioridade e se tornara uma força inconteste; no princípio do século o 1º bebê de corveta(4) alterado geneticamente foi gerado sob a cúpula blindada na estação marciana de Terraformação e o igualmente primeiro Papa da nova era sofrera um impeachment devido a sua loucura revelada tarde demais, enquanto vários Cardeais caíam, afastados por outros motivos mais locupletantes, pra variar levando o Vaticano e o clero a um novo escândalo...

Um olhar para trás e foi isso que a Terra legara ao homem, pois também aprendera com os mestre da destruição gratuita. Reciprocidade não se aprendia na escola, era inato de qualquer entidade minimamente inteligente.

Para fugir um pouco ao cenário de tantos massacres e outras tantas maravilhas, o Intruso, como às vezes chamavam Fobos, aparecia novamente no espaço de menos de 16 horas, recortado e embaçado pelas nuvens de areia, além da superfície da abóbada, quando Pietersen Wollaffkristoferson, sobrinho do ainda acamado presidente do Conselho de Colonos, um jakota (como eram conhecidos os Desbravadores de Marte, derivado da palavra em inglês que significava curinga), uniu seus dedos de forma pensativa, tendo uma sempre pouco prazerosa reunião virtual com o Conselho Diretor por meio do satélite de conferências e telepresenças interplanetárias.

Estamos sendo pressionados. Há um fulano, de um país medíocre do leste metido à grande, bradando na mídia, infernizando nossas vidas por aqui - disse Könrad Maynnard, o diretor supremo, o vermelho de seu terno de cashmere numa luta perdida contra o tom rubro da cólera exibida na face afogueada.

Olhava em torno da mesa para a meia dúzia de projeções holográficas, encarando Pietersen como se o visse pela primeira vez, furioso, não perdoando o calhorda por tramar justamente contra a mão que o alimentava, os Diretores do Consórcio, dando ouvidos àquele brasileiro imbecil, aquele apocalíptico!! Que sabiam eles do grande sacrifício, um mar de privações, que é montar um negócio de bilhões de euro-dólares sobre o escombro da malograda expedição marciana do apático e distanciado governo americano? Empregavam milhares de trabalhadores, treinavam centenas e centenas de Técnicos como mão-de-obra qualificada, pagavam regiamente pelos resultados positivos, no entanto, que mais esperavam deles, caridade? Como se dizia antigamente, o suprassumo da gerência, Business is Business, o resto se situava no mesmo patamar das lamúrias dos perdedores. Não entregariam de mão-beijada um mega-investimento daquele porte que prometia trilhões de retorno, que fariam as ações subirem a índices tão altos que ultrapassariam as estrelas!!

E continuou, um pouco menos irado, tom neutro no rosto, mas ainda nem mesmo um milímetro menos inflexível, olhando exclusivamente para o imediato da base em Bar Habor, deixando transparecer um certo desdém:

Marte é nosso pelo prazo contratual de três décadas. O tempo é curto para grandes realizações arquitetônicas, sociais ou quaisquer outras, mas não se diga que não estamos fazendo o impossível para torná-lo um mundo menos agreste...

Há que preço? - interrompeu Pietersen, calmo mas resoluto em sua indignação: Daqui a menos de quinze anos vocês irão embora e nós ficaremos com o que sobrar. Se sobrar. Risco nosso, não há dúvida e ponto pacífico a nosso ver. Deve-se lembrar que éramos muitos quando aportamos nessas terras, porém no espaço de poucos meses perdemos quarenta de nosso grupo exploratório. Cada um de nós perdeu, ou esteve perto de perder, ao menos um indivíduo de seu esteio familiar, e não eram mortes bonitas de testemunhar, se é que existe alguma beleza nisso, fora o inflexível sentido de fatalidade que nos é peculiar. Portanto, não me venha com pregações unilaterais; somos seus braços, pernas e sangue aqui em Lucifer. Nós, mais que quaisquer outros, desejamos que o Projeto dê certo como investimento e benefícios à humanidade, sem contudo esquecer que somos mortais, que somente podemos gozar do prazer incomensurável que tanto ufanam, se estivermos vivos.

Em volta da mesa o silêncio era constrangedor. Contra aquele argumento e discurso nenhum interesse comercial podia se manter absoluto, restando à Maynnard, como principal acionista e agressivo porta-voz do grupo, um último recurso de coerção, na falha de todo seu arsenal de gratificações, promessas e ameaças veladas.

Cartas na mesa era o nome do jogo, cartas marcadas de preferência!

V

2019

A mentira estava ali para quem quisesse enxergar a verdade!

Com esse pensamento, recordou mais que um semestre inteiro de exercício constante para desmantelar o falso propositadamente agregado àquele testamento, como craca teimosa no casco dum navio.

Sua vida se tornara tão frenética quanto o resto dela, antes, tinha sido vivida próxima à estagnação. Extremos pareciam ser a razão de sua existência. Mas acabara por se tornar um novo homem, e não parecia haver qualquer contestação nisso: seu 2º filho já podia ser acompanhado pelo ultra-som, dando aquilo que apelidaram de pequenos loops, no ventre de Alinne, que não cabia em felicidade ao exibir com orgulho o disco de cópia digital retratando a façanha gestacional; fazia-o como um troféu erguido sobre a cabeça, tal como a capitã dum time após uma conquista há muito aguardada. O sorriso voltara aos lábios daquela família, revertendo o quase naufrágio matrimonial após a turbulência dos últimos três anos, com a perda do neném, o remanejamento de Robinson no emprego e um somatório de outras instabilidades domésticas. Alguma tolerância operara parte do milagre, daí o marido ainda continuar o mesmo interpelador de sempre e sua esposa, num fantástico exercício de conivência, compreendesse a necessidade dele em se ausentar para resolver aqueles mistérios de uma vez por todas, antes que aquilo o consumisse por inteiro.

*

Netscape, Underwoods, Refrim, Ciberia, Travessus, entre outros rastreadores poderosos, muitas vezes em associação, usara-os para navegar em meio a uma enxurrada de dados e tropeçara em várias contradições, pois ao cruzá-los não resistiam a confrontação. O próprio documento em si (o Testamento) acabou se tornando a única chave de toda aquela confusão. A necessidade dum Tabelião Juramentado, a menção de seu nome, a citação dele ser o mais curioso de meus netos quando Markus Galhardo só tivera um único, sendo também de seu inteiro conhecimento que este fosse patologicamente avesso à classificação curioso...

A própria escolha de palavras do testamento fora elaborada de forma a mostrar suas armadilhas para um leitor atento: ...decifrar o correto da fraude estava textualmente citado.

Olhou em torno e ainda não acreditava que seu sonho perderia aquele status onírico para se tornar a pura realidade!

Consultou seu multicronus, que pelo modismo da época pendia de seu pescoço preso numa corrente do tempo. Ainda tinha uma hora.

O notebook-impressora, acondicionado em sua maleta de viagem multimídia, pronto a gerar memorandos quando solicitados; ou deflagrar seus mais sólidos argumentos, se tornava a garantia de que seus apontamentos mentais não seriam vilipendiados como totalmente vagos e destituídos de consistência, como já fora formalmente acusado por um batalhão de advogados, superintendentes, cientistas e inúmeros ministros. Quanto ao parecer favorável de ao menos 1 Astrônomo de renome, atestando sua teoria, isso era uma outra história e nem podia-se dizer que prometia um final feliz.

Sua cabeça apoiou-se de forma confortável no encosto pneumático da poltrona anti-G, quando repassou sua via-crucis pela senda do inaudito e oculto; enumerou os principais contrastes encontrados no legado de seu avô:

1.      sondara vários bancos de dados reservados e enciclopédias virtuais, mapas demográficos, geológicos, invadindo até mesmo o acervo digitalizado - zipado e bloqueado por senha - da Biblioteca Municipal do Rio de Janeiro, em busca de textos, iconografias e esboços de mapas de sertanistas na época do Brasil-Império, não encontrando o mais tênue vestígio, nem nos tempos atuais nem nunca, da Vila de São Cri-Cri do Pau-Oco, onde seu avô afirmava ter nascido;

  1. em 1956 o VI COMAR ainda não existia, sendo criado a partir do estabelecimento de Brasília, alguns anos mais tarde, em 1960;
  2. a Esquadrilha da Fumaça, pelo que pesquisara à exaustão, não registrara em seus quadros hierárquicos aqueles nomes e patentes citados no anexo 5 (revelou-se a melhor aproximação como corruptelas de nomes de ex-pracinhas desaparecidos na campanha da FEB na Itália); muito menos os aviões correspondiam, mesmo remotamente, a qualquer aeronave que a FAB tenha posto no ar, inclusive na Esquadrilha da Fumaça. O diálogo e impressões do major-aviador Bastos Di Alfredi, registrados na ‘caixa-preta’ do Tijuquinha imaginário(...) eram falsas, principalmente porque o circuito eletrônico estanque (a caixa-preta) só fora criado anos depois, seu uso restrito à veículos espaciais, experimentais ou aviões comerciais de muitos passageiros, nunca em pequenos veículos regulares e aeronaves de reduzido porte;
  3. seu avô fora comissionado como tenente-coronel pela Força Aérea Brasileira, condecorado por valorosos feitos em seu voluntariado numa muito nebulosa operação secreta nos céus de Hanói, no então Vietnã do Norte. Não havia qualquer registro documental que corroborasse tal aventura surreal no que concernia o significado de ‘valoroso’ e a melhor tradução de ‘voluntariado’. E não ficava só nessa provável falácia: consoante a isso constava um hiato, na verdade um impressionante vazio em sua folha de serviço que contabilizavam 15 ANOS (!) de ausência, supostamente em ‘missão confidencial’, a se acreditar nos carimbos vermelhos que se acumulavam em seu histórico militar. Sua própria Folha de Serviço era um preciosismo em termo de contra-sensos, revogando até algumas leis físicas, mostrando-o lotado em lugares distantes, porém num mesmo intervalo de tempo; com a aeronáutica tornando-se proporcionalmente esquiva, toda desconfortável pela interpelação vir de dentro, dum Brigadeiro-do-Ar simpatizante e um Comitê do Senado, ambos martelando e ameaçando de inquérito, contudo sem vergastar um milímetro que fosse da mortalha que ocultava aquelas informações aos olhos do restante da raça humana;
  4. (...)

A lista fora uma avalanche de mistérios intransponíveis, cada item sendo engolfado pelo seguinte até tudo desaparecer num todo indecifrável e macarrônico, compartimentada por algum motivo inexpugnável. Um mistério levava à multiplicação de outras ocorrências inexplicáveis, parecendo condenar a verdade a uma sepultura na eternidade! Somente começara a vislumbrar algo quando registraram suas muitas consultas pela GlobalNet, através de cookies rastreadores, recebendo certa madrugada um e-mail promissor de um milico estrangeiro, mais precisamente o lugar-tenente do Adido Militar da Embaixada Francesa; sem maiores delongas marcou-se um encontro, 113 horas antes, no foyer do Centro Cultural Banco do Brasil, próximo ao Arsenal da Marinha no Rio de Janeiro. Após circular por exposições de Numismática, uma Mostra de Curta-Metragens e Cinema de Animação Gráfica, gastando o tempo ao seu dispor, Robinson se posicionara na cafeteria e o encontro tão esperado ocorreu sem que mais de meia dúzia de palavras fossem trocadas, sendo-lhe entregue um vasto dossiê de aparência e conteúdo explosivos.

Partindo daí, a história, a se acreditar no dossiê, enveredara por caminhos nunca trilhados. O que primeiro julgara por verdadeiro, depois por fraude total, se complexou em meias-verdades ou meio-mentiras. Um pequeno extrato daquilo dizia que Getúlio Dornelles Vargas fora o pivot de tudo, meses antes de sua morte-suicídio(5), instruído (por quem?) para encomendar ao Estado Maior das Forcas Armadas, o EMFA, um intercâmbio sigiloso com um vulgo ESQUADRÃO CONTATO, órgão para-governamental constituído de dissidentes do III Reich nazista. Era ou não uma informação explosiva? Ali estava, na frente dele, fotos que denotavam idade avançada, assinalando grupos de sisudos caucasianos, trajes civis parecendo com fardas, cuja legenda nomeava-os como pensadores independentes, companheiros de Werner von Braun e Helmut Gottrup em Peenemünde, na ilha de Usedom; uma seqüência de fotos p&b mostravam Einstein em Estocolmo e outros personagens um pouco menos populares, porém em atitudes muito reveladoras, em locações espalhadas por todo mundo.

E não terminava aí: CONTATO precisava de um brasileiro(?) qualificado, de preferência um oficial em início de carreira e sem família constituída. Markus Adorinã Galhardo fora tal homem, submetido a eles e aceito de imediato (?). Sua incumbência seria levar aos inespecíficos Outros, habitantes das estrelas (que fizeram a exigência de um biotipo brasileiro e em tudo parecido com o dele, e dá-lhe interrogações), uma voz de Amizade Intercósmica...

Sim, não havia como duvidar agora que seu avô tinha estado em Marte! Sim, por mais louco que fosse o descalabro, era possível que tivesse ficado por lá seus afirmados quinze anos!! Abdução sim, mas abdução consentida...

Até aquela parte o oficioso fora confirmado. Somente até aí. Robinson, pela primeira vez de posse de tantos fatos documentais, apesar do prazo exíguo, soube usá-los como força de coação, ainda que com o cu na mão, para garimpar o restante em sua peregrinação nos muitos Ministérios e redutos do Distrito Federal. Só conseguia pensar que Esquadrilha da Fumaça fora um nome danado de bom para toda aquela cortina de fumo!

Também pudera, o misterioso Esquadrão Contato desaparecera na fumaça e nunca mais se pronunciara; o governo brasileiro se calara e os longos interrogatórios que seu avô fora submetido após o seu retorno (de parte alguma?), sepultados e incinerados nalgum prédio misteriosamente consumido pelas chamas, em Porto Alegre.

*

Olhou o relógio e ainda tinha uns poucos momentos.

Estivera pessoalmente na Chapada Diamantina; fora azucrinado pelos borrachudos junto ao vulgo Riacho das Carpas, no Vale Seco, cujo o nome verdadeiro agora lhe fugia da memória, e conseguira também a façanha de ser abordado por um estranho que em tudo se parecera com o relatado por Voador. Um albino, o mais pálido que já vira na vida, como se o sol nunca houvesse ousado penetrar naquela cútis branquicenta, com características de imobilidade próprias a um boneco, e que não parecia estar longe daquilo que a ele se apresentara. Lembrou-se de ter associado aquela transparência toda a um raid bem sucedido de todos borrachudos do planeta sobre um só doador humano, mas toda jocosidade se desfizera ao avistar aqueles olhos que de humanos não tinham nada. Robinson, vencido o pasmo inicial, ainda imobilizado onde estava, pelo canto do olho vira o estranho cercando-o, dando algumas voltas ao seu redor antes de parar e apontar para um trecho nas brumas que envolviam as montanhas no entardecer, desenhando-se ali uma fenda, uma vagina de luz de tonalidade azulada, expelindo um feto-fátuo que riscou o céu e pairou sobre eles, tragando o fantasma vestido de negro, sumindo no horizonte com um zig-zag impróprio para seres racionais.

Foi mais fácil aceitar que aquilo acontecera de fato que partir para conjecturas entrincheiradas na mesmice da negação.

Supunha, que por aquele exato motivo, decidido do valor de suas conclusões na hipótese contrária de largar tudo e encarar sua mulher com um olhar de peixe morto e confessar que estava errado; que perseguira Papai Noel na zona, portanto resolveu peitar o desafio. E tinha dado mais certo que a melhor de suas suposições: Através dum correio eletrônico enviado à Bancada Espacial dos colonos (tratando-se já duma figura conhecida nos noticiários, ainda que toda carga inicial de curiosidade tivesse esvanecido no contra-ataque de um batalhão de liminares obstativas, impetradas pelo pool MECO), resultara no envio daquele shutle particular que há uma hora taxiara entre os aviões estacionados no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Como uma orca em meio a um cardume de delgados peixinhos prateados.

A operação nada tivera de discreta, com honras de Chefe de Estado ou pessoa VIP, sendo Robinson escoltado ante os passageiros boquiabertos com o aparato de bandeiras, kilts e gaitas escocesas, além dos uniformes azul e branco dos Anjos da Fronteira, uma cisão da Força Internacional da Paz, que ao lado da ONU trazia pra si a pretensão de policiar o universo.

Do pouso à decolagem menos de dez minutos se passaram. Prioridade absoluta. Nada de passaportes ou Alfândega. Um feito e tanto! Fora entrar num veículo blindado, numa rápida e louca carreira entre os hangares, e o Rio de Janeiro, o Brasil e a Terra ficaram para trás. Com precisão absoluta fez o transbordo para um Clíster Lunar, na Estação Intermediária, sendo lançado pela catapulta com destino ao 4º Planeta, sua última escala. Com isso o universo ficcional esfacelou-se perdendo aquele caráter utópico, tornando-se próximo e exeqüível! Estava cercado de vácuo por todos os lados, e Marte não era apenas mais um título brilhando na tela do cinema...

Em seu entender tudo parecia se encaminhar para algo inflexível que muitos, ao longo da vida, nomearam de Destino, e outros poucos, como Issac Asimov, em Fundação, achou ter encontrado a fórmula para, tal qual um Nostradamus futurista, servir de base probabilística na criação de uma psico-história que, por eventos-chave, desvela as encruzilhadas da incerteza e faz da humanidade um grande Teatro de Marionetes sob julgo alheio.

Robinson, sem vergonha alguma de dissociar-se da analogia, por tudo que lera, ouvira e fizera em tão escasso tempo, tinha a nítida impressão de ser um instrumento de um povo mais antigo e sábio que os neanderthais humanos; uma impressão que não era fruto exclusivo de sua imaginação exacerbada, mas encontrava adeptos e respaldo em alguns setores influentes, pois de outra forma suas profecias teriam passado desapercebidas em meio ao clamor mundial de muitos fatalistas, como uma boca a mais a apregoar que Marte viveria um súbito Inferno Astral...

Bar Harbor Marineris - disse a voz musicalmente agradável do servo-comissário num dos dois idiomas que ele selecionara como fluente: Doze minutos para Port Lucifer. Acompanhamento frontal ao seu dispor, senhor.

Voador cumprira a missão dele. Seu neto, com o coração doado batucando no peito como um incansável tamborim man de bateria de Escola de Samba, estava perante o planeta que desenhava-se na tela, prestes de cumprir a sua.

VI

O dia de Robinson começara mais cedo que o normal e prometia prolongar-se da forma menos desejada possível...

Quando soou a campainha de seu quarto, já desperto, sem conseguir pregar mais do que um par de horas de sono, pressupunha que seus zelosos anfitriões tinham madrugado para prepará-lo para o que estava prestes a acontecer. Engano seu. Quando acorreu à porta, sem nem mesmo consultar o visor, deu de cara com a última pessoa que esperava ter pela frente: o próprio chefe da MECO, num terno que denotava sua procedência nos píncaros da moda, um sorriso travado no rosto bem maquiado, uma garrafa de vinho verde num balde de gelo numa mão, tendo na outra um delicado embrulho semi-transparente, não ocultando caixas de cigarrilhas Ella, as preferidas de sua mulher, um dos artigos mais difíceis de se encontrar no universo!

Mas, as surpresas não pararam por aí...

Puxando com a mão que segurava o pacote de cigarrilhas, prova ostensiva que tivera acesso ao seu banco de dados da vara de família, perante a falta de ação de Robinson, o visitante inseriu porta adentro um carrinho de bebê último tipo, totalmente apetrechado com o que havia de mais moderno para a segurança e conforto do recém-nascido, com direito a plugs anatômicos e tudo mais, trazendo dentro dele, além disso, diversos pacotes que o brasileiro previu serem gêneros de toalete e enxoval, tudo no estranho tom mostarda que sua mulher escolhera para decorar o quarto da menina que nasceria em breve.

- Com meus cumprimentos, prova de nossa(minha) estima e apreço ensejou Könrad Maynnard, livrando-se dos presentes que, a despeito de sua aparente cortesia, era como se fizesse agrado a um leproso. Posso sentar?

Robinson fez uma linha branca surgir no lugar dos lábios, contudo obrigou-se a ser gentil, com o mínimo da reserva que se permitiu, por sua vez desfazendo-se do presente de grego e encarando o enviado do caos.

- A que devo a honra dessa visita inesperada? falou ao homem que, em rede mundial, vinha tecendo os mais ácidos e pessoais comentários a seu respeito. Pensava que esse piso fosse reservado à comitiva terrestre...

- E é! apontou os presentes, - Sou ou não sou uma comitiva terrestre?

Nenhum dos dois riu, pois sabiam o que se escondia atrás daquilo, preparando-se para o verdadeiro motivo da abordagem.

E o diretor cruzou as pernas, deixando transpirar nos gestos uma certa afetação e um olhar concupiscente, embora fixo, talvez o tipo de coisa encontrado numa víbora antes do golpe em sua presa:

- Já percebeu que meu trânsito é livre. Você veio de longe e teve o privilégio dado a poucos de conhecer nosso maravilhoso mundo novo. Quero que tenha a melhor das impressões a nosso respeito, afinal, em breve estará voltando pra casa, para sua linda mulher e filhos, com uma baita aventura na bagagem, fora outras possíveis compensações.

- Pode ser. Mas preciso antes resolver um problema por aqui, e tenho certeza de que o senhor sabe perfeitamente do que estou me referindo.

No descruzar das pernas do interpelado, perpassou o primeiro sinal de animosidade naquele olhar.

- Problema, você disse? Se me permite, não vejo a coisa dessa forma, a não ser que esteja se referindo a todo transtorno que essa sua cruzada me custou e antes do brasileiro dedargüir, prosseguiu: - Concordo que devemos esquecer o passado. No calor do momento muitas coisas foram ditas da forma errada e esta é a hora de removermos qualquer fiapo remanescente...

Provando que os presentes não tinham cessado, tirou de dentro dum bolso interno do paletó um envelope elástico azul de aparência totalmente vulgar, no que certamente seu conteúdo não deveria ser assim.

- O que é isso?

- Os índios chamavam muito apropriadamente de cachimbo da paz.

- E como você o chamaria? cortou secamente, sem tocar no envelope ainda estendido.

- Uma forma de nos tornarmos amigos e minha promessa pessoal que doravante não medirei esforços para dar aos colonos um pouco mais de... representatividade, não é essa a palavra? - Como o outro não se entusiasmara com aquilo, deu de ombros e prosseguiu, largando o envelope ostensivamente na mesa de centro, em frente do confortável sofá, indicando-o com o queixo Aí está sua aposentadoria; um bloco de ações da MECO, a empresa que mais cresce no mundo, algo que, se convertido em sua moeda, garante bem mais que a subsistência de sua família pelo resto de suas vidas, no que abrange, no mínimo, três gerações.

Num instante o envelope estava ali e no outro parecia com restos duma festa de reveillon, todo convertido em papel picado! A coisa acontecera até rápido demais para o autor se arrepender da própria proeza.

Levantando-se de um salto, o diretor não soube ocultar o inesperado revés, subitamente atiçado pela afronta do brasileiro.

- Agora que sei que estou lidando com um boyscot, fica mais fácil pressagiar que seus dias de caminhada na floresta estão no fim, pois há um fosso direto em seu caminho e falta pouco para você cair dentro dele!

- Primeiro o presente, depois a ameaça. Por acaso seu professor foi o velho Al Pacino? o riso de escárnio também saiu sem que pudesse deter.

- Muito engraçado, mas não vejo como continuará sorrindo quando o assunto do dossiê vier à pauta.

- Que dossiê?

- Desculpe. Sei que fui otimista demais. Aquilo mal serviria para ser usado como papel sanitário de 3a linha por seus favelados desfechou, recobrando um pouco da pose, decidido a humilhar: - É melhor voltar pra casa se pensa apresentar aquele conjunto de lendas urbanas que historiador nenhum daria o menor crédito.

"As aventuras do Barão de Munshaussem, perto das estrepolias de seu avô maluco, digo, pouco provido de sanidade, quando muito seriam um insosso conto da carochinha. Fazer uso desse material, é até um favor dizer-lhe isso, só servirá para atrair moscas interessadas em merda e toda sorte dos que também habitam o esterco; falo da mídia sensacionalista, especializada em shows de variedades, pois palhaçadas dessa natureza é prato cheio para comediantes e vigaristas.

"Todavia, se insistir nisso, a canoa furada é toda sua e o oceano também. Tenho liminares e batalhões de advogados com uma veia extraordinária para o humor escatológico; só não sei se o juiz partilhará desse pastelão..."

Maynnard, em seu caminho em direção à porta, ensejando aquilo que no teatro seria chamado de uma saída triunfal mas Robinson tinha outro nome praquilo -, sentiu os maços das cigarrilhas atingirem a parte de trás de sua cabeça. Mesmo sendo um fardo leve, assustou bastante o diretor, levando-o a se chocar, infelizmente sem contusão alguma, contra a parede, quando a voz do brasileiro soou bem próxima à ele:

- Escute aqui, ô babaca posudo, sua sorte foi ter usado apenas suas cigarrilhas de merda em vez disso aqui...

O carrinho não precisou nem ser tocado para se tornar numa ameaça de aríete, pois o outro saiu gritando corredor afora. Uma vozinha fina que qualquer um rotularia de efeminada.

Lacrando a porta e pegando na garrafa de vinho, que esperava não ter veneno algum para o que tinha em mente, Robinson murmurou, largando-se sobre a poltrona:

- Como será um porre de vinho verde em Marte às 5 da manhã?

*

No Planalto de Tharsis, bem próximas aos grandes e silenciosos vulcões limítrofes à Port Lucifer e Stella Maris, naquelas horas vespertinas havia um acúmulo quase constante, de caráter sazonal, na forma de brancas e delgadas nuvens orográficas. A trégua esperada no turbilhão das tempestades de areia decorrentes da decomposição do gás sólido(6), finalmente fazia-se presente; era a manhã subseqüente a sua chegada e aclimatação, a cabeça meio pesada, muito menos devido o efeito da bebida que o Efeito Maynnad, quando Robinson encontrou-se finalmente com a junta de colonos-livres e os já alojados plenipotenciários da ONU, contrários a permanência dos colonos em Marte; todos desse último grupo devidamente escoltados por um imponente pelotão de marines, em contrapartida antagonizados por Fuzileiros mercenários que agrupavam-se atrás do Comitê Executivo do pool MECO (Mars Enterprises Company), inclinados à manutenção do modus operandi original.

"Dá pra sentir a testosterona no ar", foi o comentário preciso, mas pouco feliz, de um dos raros repórteres não-virtuais a presenciarem in situ a troca de amabilidades que antecederam a conferência propriamente dita. Adiada para o começo de tarde, após um pouco de turismo obrigatório, o almoço demorado, atípico, preenchendo espaço perante o súbito interesse do público, no qual aproveitaram para negociar novos direitos de transmissão já que havia conivência entre as partes em fazê-lo; finda a embromação, o mundo presenciou uma tentativa de aproximação que acabou por não existir.

As discussões começaram como todas começam, chatas e confusas. O local inédito, o fórum da colônia marciana, não contribuiu em nada para a mudança de protocolo, e da mesma forma as premissas se alongaram e a noite já se ia bem avançada do lado de lá da cúpula. Todos estavam exaustos, sem exceção, e, pior que tudo, ainda irredutíveis. Os satélites de microondas corriam em órbita baixa, enviando os dados da conferência do século para todo sistema solar, para qualquer parte onde existisse um ser humano e tecnologia bastante para poder converter pulsos em imagens digitalizadas estáveis ou quase isso. A clássica contenda, registrada nos calendários no mês de fevereiro de 2019, suscitava muito desacordo entre as facções rivais; podia mesmo, asseveravam os especialistas menos otimistas, cessar o bendito jejum de três anos sem guerras...

Ordem, senhores! - asseverou o interlocutor neutro, brincando com seu 3º copo daquele café de gosto duvidoso mas com o anfetamínico necessário para mantê-lo desperto, ansiando por um drink etílico verdadeiro.

E continuou:

Ameaça de falácias e ofensas como Empresários do Extermínio e Apocalípticos, de uma parte contra outra, não serão mais tolerados. Fatos têm primazia nesta que ainda é uma mesa de conferências respeitável - sabendo-se enquadrado pelas teleobjetivas, o mediador bateu novamente o seu martelo obsoleto e absolutamente protocolar, esperando que não descobrissem seu passado como leiloeiro, acrescentando o único provérbio em latim que sabia e que parecia caber como uma luva na atual situação: Leonen mortuum etiam catuli morsicant ou seja, No leão morto até os cãezinhos dão dentadas. O Leão (nosso problema) ainda vive e ruge. Sejamos práticos e mais objetivos em domarmos esse animal que há em nós, senhores.

"Recapitularei com vagar e qualquer distúrbio será registrado pelo meirinho-robô como desagravo a esta neutralidade e punido com rigor, usando dos poderes a mim investidos..."

*

Os envolvidos permaneceram silentes enquanto o Direito Espacial era discorrido de fio à pavio. O misancene era tudo que não queriam mas foi impossível evitar sua ocorrência. Pernas se moveram nervosas sob a mesa de granito nativo, enquanto o mediador prosseguia em suas considerações finais, proverbial, erudito demais para o gosto de ambas as amuadas partes, notando-se vez por outra expressões licenciosas, politicamente duvidosas, talvez originadas pelo desgaste físico e mental, combinado com um ou outro stress tipicamente marciano (era ou não aquele o Deus da Guerra?):

... é fato que a vida não bate palmas para maluco algum dançar. Se o demente o faz, é movido pelas palmas de seu próprio distúrbio de personalidade, ora lúcido, ora lisérgico. Vimos aqui colocadas duas vertentes: A dos Colonos, representados pelo Sr. Robinson Ferraz, brasileiro, casado, cidadão da Terra, e de uma facção da ONU, já qualificada antes, unânimes numa debandada organizada do solo marciano, pois, pelas teorias até aqui submetidas e, favor destacarem partindo deste ponto, ainda não conclusivas pela falta de respaldo científico do mínimo necessário, cessar o destaque meirinho, dizem que uma longa relação de efemérides locais está ocorrendo com precisão absoluta, (lendo o último item) ...asseverando que a lua Fobos cairá entre o mês de maio e agosto de 2020, chocando-se com a exata localização de Bar Habor... (fim da citação)

"Por outro lado apreciamos todas as datas fornecidas pelos senhores da acusação e vimos, consternados, pouco mais que coincidências nas chuvas de meteoróides de novembro último, na fragmentação isolada de parte da crosta de Deimos em janeiro e, mais recentemente, os distúrbios de órbita verificados em Fobos. Afirmo ainda que nenhum astrônomo - de uma longa lista de indicados - ousou (espero ter usado o termo correto) validar tal conclusão, ao menos até o momento, com nossa Rede conectada aos principais observatórios.

"Por isso apreciamos também o lado do investidor, igualmente já qualificado, sua área de litígio e a cláusula de sua principal Seguradora que prevê cessão de responsabilidade no item Acidentes de Causas Naturais, balizando sua defesa na exigüidade das provas ditas cabais, da parte do Queixoso.

"Não há dúvida que esta é uma situação desconfortável para qualquer Mediador Juramentado. Pessoalmente, estaria inclinado à liberação dos colonos de Marte, o pagamento de suas Apólices proporcionais, por Abandono Involuntário. Mas meirinho, destaque a próxima palavra - pessoalmente não é um critério válido para interesses tão vastos quanto a conquista de novas fronteiras, o que, sabemos, nunca é destituída de certos perigos inerentes..."

O resto se perdeu numa explosão de gritos inflamados, clamando contra tal despotismo, além duma enorme enxurrada de palavrões, indignações do léxico televisivo, e principalmente por esse motivo devidamente registrados. Ficara claro desde o início que suas posições, enquanto Acusação, seriam ouvidas, toleradas, mas totalmente ignoradas. Muitas coisas aconteceram naquele breve espaço de tempo, quando o tumulto tomou conta do anfiteatro, num microcosmo bombástico do que se viria esboçado na Terra e cercanias.

*

Com um brilho de contentamento indisfarçável no olhar, todo tempo contemplando o brasileiro, Könrad Maynnard acendeu um comprido Havana, em desrespeito claro às normas anti-fumo em voga na colônia e em boa parte do mundo civilizado.

Por ser uma mesa de conferências com poderes ad judce, a defesa tinha ganho em 1ª Instância, o que eqüivalia a muitos rounds de força-bruta. E o que era melhor, não tinha gasto um único centavo de propina!! Seus advogados arrolariam listas e mais listas de obstáculos e entraves legais legítimos que levariam meses de nós burocráticos antes que qualquer Tribunal regular na Terra, ou Fórum Espacial assim constituído, se dignasse a aviar novo pleito, com a gama de superstição que os colonos chamavam de Provas Irrefutáveis! Tinham ainda 3 anos pela frente e não deixaria que os colonos se esquecessem um só segundo do que estava por vir...

Outra coisa certa pôr acontecer seria o gênero de castigo do qual o brasileiro seria alvo, se possível levando-o além da bancarrota. Iria apreciar isso, vendo-o humilhado, implorando seu perdão, quiçá com um penico na mão à cata de esmola!

O grupo de mercenários, apesar de desarmados (uma exigência legal para a realização do Plenário) fizeram um círculo apertado em torno de seus contratantes; somente alguns deles eram veteranos da Última Grande Guerra, travada principalmente no solo americano de Washington e Louisiana, mas todos devidamente competentes e ávidas máquinas de matar, se acionados para aquele específico fim.

Tudo aquilo tinha um motivo.

*

O ajuntamento menos exasperado dos jakotas estava encontrando certa dificuldade em conter seus semelhantes mais exaltados, visto os mesmos asseverarem, não sem certa lógica torta, que morreriam de qualquer forma, ao menos padeceriam em paz com suas consciências, levando os assassinos para junto deles no caixão!!

Robinson, o jovem Pietersen, dentre outros, desdobravam-se no caos de cadeiras quebradas, transformadas em clavas, escudos e objetos de arremesso, enquanto o pessoal da ONU se retirava do recinto sob a escolta de seus marines espaciais, os últimos desanimados com a perda de uma boa briga.

Claro estava que o que se seguiria já acontecera antes. A catástrofe de Marte residia nas mãos do próprio homem. Porém, a história escreveu-se de outra maneira, sob a forma de um ensurdecedor grito de SALVEM NOSSAS CRIANÇAS!

*

Através da imensa abóbada transparente da seção 45º dos fundos do anfiteatro, as muitas mulheres menos aguerridas, ou mais pacatas (mães em sua grande parte), afastadas do tumulto, apontavam para a região limítrofe da base que recebia os primeiros raios do fraco sol da manhã, onde quase trinta crianças se dirigiam numa singular formação militar. Fugitivas da creche comunitária, idades variadas, a maioria com menos de 8 anos, marchavam resolutas para a principal eclusa de saída de Port Lucifer...

Por alguns segundos o silêncio tumular tomou lugar onde antes reinava a altercação. Robinson foi o primeiro a reagir ao inesperado, saltando os restos de mobília juncada pelo chão, favorecido pela baixa gravidade e sua constituição privilegiada com o notável coração de seu avô, logo seguido por uma quantidade indiscriminada de colonos, empresários e mercenários.

VII

A nave pousou na periferia da grande planície vitrificada, muitos metros além de alguns veículos que perto dela mal se viam, dada a pequenez extrema em relação àquele gigantesco encouraçado alienígena.

Space Quest, a belonave de quase novecentas toneladas do Marte Co., o mais próximo e maior dos veículos espaciais terrestres, foi avariada por um disparo de aviso do intruso, varrida de encontro a uma das Torres de Aportagem, que vergou-se sobre si mesma, tombando, destruída. Num ponto além da fuselagem rompida e fumegante da Quest era possível ver, se você tivesse um binóculo e soubesse onde procurar, o hangar de carga sendo ejetado e os tripulantes saírem em alguns veículos ou envergando vários trajes leves de superfície, aparentemente incólumes, embora nem um pouco tranqüilos na eventualidade de um disparo à queima-roupa contra eles.

Não houve novos ataques como também, daquelas pessoas espremidas por trás das crianças agachadas junto a saída da base, não partiu qualquer voz de indignação. Estavam todos devidamente avisados do poderio imensurável do intruso e, porque não dizer, maravilhados com a expectativa de algo inédito vir a acontecer.

E tal realmente ocorreu: Uma forma materializou-se junto ao chafariz sobre o lençol freático 12-B, atrás deles mais de cento e cinqüenta metros. O movimento organizado das crianças, correndo naquela direção e gritando EEEHHhhh!!!, esgueirando-se pelos pais atoleimados, driblando-os, foi que tornou a aparição perfeitamente observável para os demais.

Vinde a mim as criancinhas - disse o vulto, em perfeito domínio do pidgin Inglês-Castelhãno que se tornara a forma de expressão coloquial mais usada entre os vários colonizadores: Paz na terra aos homens de boa-vontade...

Robinson adiantou-se vários passos aos demais, andando no início e correndo os metros finais, antes de imobilizar-se junto ao, até ali, suposto desconhecido, dirigindo-lhe um comentário explosivo:

Esta foi sua entrada mais espetacular, seu filho-da-puta!!!!

No que seu avô respondeu, adiantando-lhe a mão, mas apertando seu neto num saudoso abraço, ante a platéia de olhos confusos, buscando explicações no imaginário.

*

Markus foi envolvido por todas aquelas crianças gritantes, encontrando certa dificuldade no prazer de distribuir, qual um grande e único Cosme & Damião(7), de um saco prateado repleto de balas de procedência desconhecida, contudo agradável aos olhos, e pela avidez das crianças, também deliciosas ao paladar.

Tome este repositor vitamínico e me ouça. Sinto tê-lo deixado sem maiores esclarecimentos, mas tive uma proposta irrecusável daqueles caras ali fora - comentou, dando por encerrada a farta distribuição de guloseimas, apoiando o braço nos ombros de seu neto, enquanto se encaminhavam com vagar de encontro aos demais: Reluto chamá-lo de alienígenas, contudo se fica mais fácil se referir a eles dessa forma tacanha, que seja; os aliens possuem o domínio do espaço e determinadas variações do tempo também, além de conhecimentos vastíssimos sobre o corpo humano. Como vê, seu velho Voador não envelheceu tanto assim. Em contrapartida, garoto, você cresceu à beça e já está até quase careca! Vamos ter que remediar isso, digo, em relação ao aeroporto de mosquito.

Robinson sorriu. Não parecia saber fazer outra coisa. Por longo tempo suspeitara secretamente que algo assim pudesse acontecer; o gênero de negação que se têm com alguém próximo e que se espera viva eternamente; era típico de vô Adorinã, ou somente voador, gracejar diante do inconcebível, ainda mais quando ele próprio era o centro das atenções. Mas fazê-lo ir à Marte e armar todo aquele banzé foi algo atípico, mesmo para o morto ressuscitado...

Sei de todas suas dúvidas e anseios - continuou Markus, falando mais depressa a medida que o sussurro da multidão se tornava audível, puxando o neto para mais próximo dele: Os Outros, os aliens, providenciaram um clone (na verdade uma penca deles) em meus últimos anos na Terra. Estava tudo preparado; foi o coração desse superclone que você herdou. Quando me fizeram a proposta de visitar a Galáxia que chamamos de Cygni, além dos arredores de outras tantas, não pude recusar, já que me prometiam retornar com novidades para a humanidade, além de ser um puto passeio e tanto! Foi um grande embuste dizer que Fobos despenharia do céu como anjo caído, eu sei!! Que desgraçado que sou, não é mesmo?

"A verdade está onde não a procuramos, como diz o filósofo circense de plantão em cada um de nós, bebendo todas, sem medo de ser politicamente incorreto. O óbvio é criar obstáculos complicados no lugar da simplificação. Assimilei isso na fração do tempo em que permaneci em Marte, antes de minha jornada intermitente, indo e voltando nesse negócio parado lá fora, que é somente uma nave auxiliar dos Imemoriais, mas com poder de fogo bastante para arruinar todo um sistema solar e ½ dúzia de outros ainda maiores.

"Como disse, toda aquela confusão para trazê-lo, convergir a mídia para esse ponto e sensibilizar a opinião pública não foi em vão, creia-me. Os Outros, nossos antigos colonos, querem reatar conosco. Viram como quase nos matamos ainda há pouco, como somos aguerridos na defesa de nossos ideais, mesmo os mais ridículos e infinitesimais. Tão primitivos!!

"Expliquei para eles que é uma luta diária nos manter em ordem, que apesar dos muitos fracassos os sucessos são compensadores. Não acreditaram nesse velho cretino; quiseram experimentar os nossos limites e motivações e chegaram a um veredicto: Poderiam nos exterminar mas não querem. Precisam de nós para fazer algo que eles próprios deixaram de lado há milhões de anos. Estão cansados, desmotivados. Precisam de sangue novo e nós, os imbecilóides, de desafios maiores..."

FINAL

...sei que agora deve ser virtualmente impossível acreditar em mim, Robin - Markus refestelava-se num grande divã, massageando um dos pés numa posição até incômoda para qualquer um que não fosse contorcionista, enquanto lá fora uma multidão de correspondentes, recém-chegados à Marte pelo Expresso Sol da Madrugada, se aglutinavam por cada palmo de terreno disponível: Mas, de fato, paguei meus pecados neste planeta frio e miserável.

"Fiquei quase três anos pelejando naqueles fossos da cidadela subterrânea, posto que tudo aquilo, da minha peregrinação nas cavernas às descobertas do Observatório e o Mar Interior, tudo foi rigorosamente verídico, tão real quanto a palavra realidade faz supor.

"Daí a ter permanecido 15 anos no Velho Vermelho, é uma catarse jogada aos porcos (desculpe-me!), incluindo a dramaticidade da detonação do Artefato Modificador Topológico. Tudo um tributo à você, já que partiu de seus livros escolares, seus cadernos de redação e, em menor escala, um livro chamado, se não me engano, de Crônicas Marcianas."

Exato. Ray Bradbury elucidou, andando de um lado para o outro no aposento que não deveria possuir mais do que 8m2, todavia considerada uma suite presidencial. - Então, vejamos se entendi, não foi nenhum clone que foi à minha formatura no Liceu, nem outro clone que batizou meu 1º filho?

Não.

Isso é um alívio! o sarcasmo ficou aparente.

Porém, - voltou o outro à carga, constrangido, mas muito passageiramente, sendo que transparecia um certo ar de divertimento. foi um clone doutrinado especificamente por mim que deu-lhe as primeiras revistinhas do Carlos Zéfiro, emprestou dinheiro e essenciais camisinhas e conselhos pra suas primeiras noitadas nos Motéis do Rio...

*

O chamado vindo da eclusa da ante-sala revelou - pelo monitor - o rosto sardento do Senador Wainwright, do comitê da ONU; atrás dele, identificado pelo holocrachá estava um Produtor de computv, todo sorrisos para o indicador portátil de algo equivalente ao IBOPE, anunciando 2 minutos com os dedos para a transmissão em rede espacial.

Seu lugar já está cativo, Flash Gordon - finalizou Markus, levantando-se, lançando uma última espiadela no relógio e a holofoto que seu neto recolocava na carteira. Espero que sua esposa e os pestinhas adorem viajar! É provável, se tudo der certo hoje, que meu 2o bisneto seja o primeiro cidadão humano nascido em Andrômeda...

*

O momento chegara. O documentário especial sobre aquele que em breve daria a Coletiva terminara. Todas as câmeras se convergiram para aquele lugar, no palanque improvisado. Desde o mais reduzido monitor nalguma colônia mineira nos Asteróides até o maior telão de 800 polegadas, no Novo Japão, a imagem reconstituída de Markus aparecia com igual nitidez, a voz talvez algo distorcida por Ventos Solares.

Quando este falou, com tradução simultânea, por meio de vinheta eletrônica interativa, eles escutaram:

Amigos Humanos, preciso de voluntários... Uma ninharia... Um milhão de voluntários pra começar!!!!!!!!!!!!!!

-0-

1.      Homenagem à Charles ‘Lewis Carroll’ Dodgson, criador de ‘Alice no País das Maravilhas’, um professor de Oxford, também um adorador da matemática lúdica;

  1. CEMIG = Centrais Elétricas de Minas Gerais;
  2. COMAR = Comando Aéreo Regional;
  3. Ave marinha muito comum na costa brasileira, onde costuma nidificar em inúmeras ilhas;
  4. Óbito registrado em 24 de Agosto de 1954;
  5. Na verdade um composto cristalino de água em suspensão e gás, formado a partir de determinadas condições de temperatura e pressão;
  6. Entidade gêmea canonizada pela Igreja Católica, significando respeito e amor às crianças.

 

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