O Quarto Cavaleiro

 Aimberê Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0095]
[Autor:
Aimberê Filho]
[Título: O Quarto Cavaleiro]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 2.300]

 
Na mesa, já estávamos eu e o Feioso. Feioso estava
daquele jeito dele, pastoso, mais calmo que monge Zen.
Eu, tenso, batia os dedos na mesa, suava pela jaqueta de
couro, fumava.

- Garoto... que adianta ficar assim... Já, já ele chega. -
disse-me o Feioso encostando com cuidado as costas na
parede do bar.

- Não é isso - falei irritado - É que não sei o que Gordo
quer da gente. Na certa é coisa pra se preocupar.

- Deixa o cara chegar... aí a gente vai saber.

O bar estava escuro, mas eu não demorei a divisar a
figura do Gordo vindo em nossa direção. Era um sujeito
enorme, com uns quase dois metros, e um diâmetro
considerável. Fazia para mais de dez anos que eu não o
via e, se não fossem as circunstâncias da reunião, eu era
capaz de lhe dar um abraço.

- Acorda, Feioso. Ele chegou.

Quando Gordo sentou-se e a cadeira fremiu, houve uma
expectativa. Depois tudo se acalmou e vimos que, ao menos
quanto à mobília, aquele quifofo prestava.

- Então? - falou Feioso dando aquele sorriso que o
acompanhava desde que começara a vagar pelo mundo - Como
vai essa gordura?

-  E essa cara feia? - respondeu-lhe Gordo sem sorrir.

- Ha-ha. - fez Feioso, e calou-se.

- Já estávamos achando que você não vinha - falei por fim.

- Se eu não viesse - disse Gordo ajeitando a camiseta
preta apertada que mal cobria a tatuagem no braço - Então
todos poderiamos dormir tranqüilos esta noite.

- Que é que está se passando? - indagou Feioso - E por
que você não convidou o Queixada?

Gordo sorriu. Era um escarninho.

- Acha que eu o devia ter convidado? O Queixada?

- E por que não? - insistiu Feioso - Ele ainda faz parte
do grupo... Ou não?

- Não. - sentenciou Gordo levantando-se.

Quando voltou a se sentar, trazia três cervejas

- Vocês não vão beber?

- Eu não. - disse Feioso.

- O que tem o Queixada, Gordo? - eu perguntei, a meia
voz, bebericando de leve - Ele aprontou mais uma? Está
precisando de nós?

- O Queixada? Precisando de nós? - fez Gordo, e riu-se na
minha cara, soltando um bafo etílico - Você continua o
mesmo, Garoto. Então ainda não está sabendo?

Dirigiu essa pergunta também para o Feioso. Mas ficamos
os dois sem saber se falávamos a verdade ou não.

Por fim, eu disse:

- Conte o que há, Gordo.

O Gordo contou.


O Gordo demorou exatas sete garrafas para nos
contar tudo. Quando acabou, seus olhos estavam vermelhos,
mas ele conservava um ar mais sóbrio que qualquer um de
nós.

- Então o Queixada subiu na vida... E agora quer nos
pegar... - murmurou do seu canto o Feioso. Tentava dar um
tom de graça à questão, mas saiu mau, muito mau.

- Quem esperaria por uma coisa dessas... - comentei
acendendo outro cigarro.

- Eu, eu esperava! - bradou o Gordo com os olhos
vermelhos - Mas que adiantava ficar dizendo? Talvez você
até concordasse comigo, Garoto, mas que podíamos fazer?

Eu assenti em silêncio. Feioso disse, enquanto se
levantava para ir ao banheiro:

- E tudo por que nós judiávamos do infeliz. Fazíamos umas
piadas, uma coisa sem importância.

- Sem importância para nós. - murmurou o Gordo, mais para
consigo. Depois para mim, sombriamente:

- Você está tremendo.

- É o frio. - falei. De fato, minhas mãos pareciam
pertencer a um doente de Parkinson.

- Não. - retrucou o Gordo - É o medo.

- E não é para estar? - eu explodi - Agora a pouco eu
pensei ver o Queixada nessa cadeira vazia, bem aqui,
nesta cadeira...! Veja se não é para estar com medo?

O Gordo assentiu. Coçou a barba. Ele tinha cultivado a
barba nesses dez últimos anos.

- Olha - disse depois de um tempo - A gente pode se
livrar dessa. Mas só se fizermos juntos. Os dois.

- Como assim? O Feioso...

- O Feioso - disse o Gordo - Vai morrer.


- E aí? Falando de mim? - disse o Feioso voltando a se
sentar. A braguilha e o sorriso entreabertos.

- Pode apostar. - disse o Gordo e calou-se.

- Que há com você? - indagou Feioso, o sorriso sumindo-se.

- É que eu estava reparando como você continua o mesmo.
De todos, é o que menos mudou.

- Você também não mudou nada, saco de banha. Só aumentou
o diâmetro da barriga.

- É. E você ainda com essa mesma cara mal-dormida.

- É no que dá trabalhar duro.

O Gordo riu. Mas era um riso triste.

- Você, dando duro? Me conte quem te empregou para esse
absurdo.

Pensei ver um sorriso de orgulho subindo no lábio
esquerdo do Feioso quando disse:

- Ninguém me emprega. Trabalho por conta própria. Tenho
uma pequena distribuidora...

- Ah, entendo... Escutem, vamos lá para fora, está bem? -
convidou o Gordo levantando-se.

- Mas está um frio danado lá fora - tremi eu.

- Já te disse que teu frio é medo, Garoto - disse o
Gordo. - E além do mais, lá fora não vai ter ninguém para
ouvir a gente.

- Está bem. - falei acompanhando-o. - Você vem, Feioso?

- Eu ainda não sei se quero pegar aquele frio todo, está
bem? Já você - ele apontou para o
Gordo - pode ficar até pelado que não sente nada, tem
essa capa de gordura toda te cobrindo. Parece um
presunto.

Mas levantou-se.


Lá fora estava frio e muito escuro. A rua estava vazia e,
longe, só muito longe, nós podíamos ouvir o pio agourento
das corujas.

- O que aconteceu com os postes? - indagou Feioso. Era a
primeira vez que o via abrir realmente os olhos e,
acreditem, ele sabia fazê-lo muito bem.

- Se abaixe, Garoto.

Eu ouvi o tiro e vi que Feioso desabava no chão frio como
um saco de ossos. Então o Gordo falou, alto, para um céu
sem lua e sem Deus:

- Quem é o presunto agora, seu verme?


De posse das chaves do carro de Feioso, partimos.

No caminho, Gordo explicou-me:

- Eu sabia que Feioso já havia conversado com o Queixada.
Isso aconteceu há cerca de uns dois meses. Foi depois
dessa conversa que ele conseguiu o dinheiro que precisava
para montar a sua distribuidora. Compreende?

Eu acenei que sim e Gordo continuou:

- Muito bem. Ora, era coincidência demais que o Feioso
tivesse conseguido esse dinheiro logo depois do encontro
com o Queixada. E também era ingenuidade demais de minha
parte acreditar que o Queixada não queria propor um
negócio ao Feioso quando o chamou. É claro que queria. E
o negócio eram as nossas cabeças.

Eu estremeci. O Gordo riu:

- É, mas não aconteceu, aí está. Fomos mais espertos que
ele, Garoto. Sabe, eu fico imaginando...

- O que, Gordo?

- Você se lembra de como nós nos autodenominávamos há dez
anos? De como gostávamos de ser conhecidos?

- Os Quatro Cavaleiros?

- Exatamente! - os olhos de Gordo brilharam e não era por
causa do álcool. - Os Quatro Cavaleiros! E você se
lembra... se lembra de quem era cada um?

- Naturalmente - disse eu entrando no tom que Gordo dava
à conversa - Você, naturalmente, era a Fome...

- E como poderia deixar de ser? - ele riu-se remexendo
todo o corpanzil. - Mas a Fome de Justiça, compreenda-me.
Já você era a...

- A Guerra.

- Sempre lutando consigo mesmo... Mas também sempre
indefinido quanto a quem atacar...

- Eu cresci, Gordo. - e completei: - Agora... agora há
uma garota...

- Eu compreendo... Sim... Compreendo... - aquiesceu
Gordo, olhando para a estrada.

- Já o Feioso era a Morte... - continuei.

- E que agora descanse no Inferno! - falou o Gordo
fazendo um sinal da cruz com o dedo médio.

Nós rimos até as lágrimas.

-  ... E o Queixada a Peste. - eu completei.

Gordo então ficou sério. Sem desviar os olhos da estrada,
disse:

- Sim... Mas até para a Peste há uma vacina.


Eu acho que o Gordo achava que nós éramos a tal vacina.
Eu confesso que aquilo me encheu de orgulho no momento,
mas depois senti um certo desconforto. Imaginei o que
deveria acontecer conosco dali a algumas horas e desejei
não ter entrado naquela história.

Nós paramos o carro de Feioso bem perto dum barranco.
Tiramos Feioso do porta-malas, colocamos ele no banco do
motorista, demos a partida e um último adeus. Feioso caiu
lá embaixo e depois pegou fogo. Havia chegado ao inferno,
afinal.

Quanto ao Gordo e a mim, limpamos nossas roupas como
pudemos e caminhamos um pouco pela estrada até
encontrarmos uma estalagenzinha que pudesse nos servir de
abrigo para a noite. O nome do estabelecimento era
acolhedor:

- "A Entrega"! É aqui que vamos nos entregar ao sono,
Garoto. Ou se você preferir, a Morfeu. - falou Gordo com
bom humor.

Coincidentemente, Morfeu era o nome do dono da
hospedaria, um velho de cabelo ralo na cabeça e dentes
podres na boca. Fazia questão que pagássemos adiantado.

- Sem problema, amizade. - fez o Gordo, tirando a
carteira de Feioso do bolso e pagando em dinheiro vivo.

Foi só lá em cima que Gordo demonstrou alguma coisa do
seu pesar. Na carteira de Feioso havia uma foto. Datava
de dez anos.

- Eu ficava melhor sem barba - disse Gordo para si, e
depois - Meu Deus, eu já era enorme naquela época.

- E Feioso extremamente feio! - completei.

- Você era um moleque - falou Gordo olhando com ternura
para o garoto tímido de camiseta, tênis e espinhas no
rosto.

- Mas onde está o Queixada? - eu indaguei.

- Aqui atrás, veja - Gordo mostrou-me uma figura que era
mais uma sombra Sempre foi assim, sempre por trás de
tudo, mediocremente.

- É, mas ele subiu...

- Subiu! - Gordo levantou-se da cama, olhou para as
estrelas pela única janelinha do quarto
- É um javali, um animal carnicento. Faz o que tem que
fazer, passa por cima de quem tiver que passar. Nunca nos
amou. E agora que tem a chance, quer nos matar. E por
que? Porque não o respeitávamos, é isso. Porque víamos
como ele realmente era, enquanto os outros - ele tomou
fôlego, inspirou o ar das estrelas: - ... Diziam que era
tímido, chamavam-no de pobrezinho, porque era gago. Gago!

Gordo arfava. Esperei que se acalmasse para dizer:

- E qual é o plano?

- O plano - respondeu o Gordo colocando a mão direita no
meu ombro esquerdo - É que você vai me trair.


Era mesmo um plano bom. No dia seguinte mesmo eu fui até
o Quartel-General do Queixada, que ficava umas boas duas
horas dali. A idéia era jurar lealdade ao Imperador e,
para prová-la, entregar a cabeça do Gordo.

Eu executei o plano ao pé da letra, exceto por um
detalhe. Logo à entrada eu perguntei, sem cerimônias:

- Eu quero falar com o Queixada.

Contei para o Queixada exatamente do lugar em que estava
hospedado o Gordo, da pensãozinha perdida numa estrada
deserta... tudo. Ele deu aquele sorriso horrendo, a
mandíbula protuberando sobre o resto do rosto, e foi dar
umas ordens. Logo que os homens do Queixada deixaram a
mansão do Senhor, eu entrei em contato com Gordo.

- Então?

- Estão indo para aí. Faça como o combinado que a casa
está desprotegida.

- Facilite minha entrada, Certo?

- Certo.

Eu facilitei a entrada do Gordo. Deixei deliberadamente o
portão dos fundos escancarado e, acredito, não havia
ninguém no hall de entrada quando ele chegou.

Creio também que subiu as escadas sem nenhuma dificuldade
e quando finalmente abriu a porta do único quarto em que
ouviu vozes...

- Ah, então você está aí...

Queixada estava sentado numa poltrona. Eu estava numa
cadeira próxima. Ambos levantamo-nos quando Gordo entrou.
Segurando o revólver, ele disse:

- Se abaixe, Garoto.

Mas dessa vez não foi preciso abaixar-me. Duas sombras
imensas surgiram da escuridão e agarraram Gordo, que
deixou cair a arma. Ele ainda teve tempo de chutá-la para
mim e gritar.

- Atire, Garoto! Não deixe de atirar!

Eu peguei lentamente a arma do chão e, palavra, senti
como se estivesse num daqueles filmes de ação em que as
coisas se desenvolvem em câmara lenta. Somente me lembro
do Queixada gaguejando:

- F-fa-ça o q-que-que ele d-diz, Garoto. A-a-tire.

Eu então mirei bem no coração, e atirei.

Gordo caiu estrebuchando muito no chão. Não sei que olhar
foi aquele que me lançou quando se deu conta. Um misto de
muitas coisas juntas e alguma saudade, também. Eu não
sei. Saí meio zonzo, mas o fato é que havia cumprido as
ordens que me haviam sido dadas. Nada mais. Eu agora
sabia quem era o inimigo e não vacilara. Eu cresci,
Gordo.

Quando já descia as escadas, ouvi o Queixada gaguejar, lá
de cima:

- P-parabéns, s-soldado. J-já é um Ho-homem.

Não sorri. A vida era mesmo uma merda. Era uma merda que
o Gordo tivesse morrido achando que o Feioso o tinha
traído, enquanto ele simplesmente se negara a entregar a
nossa cabeça e começara a trabalhar honestamente. Era uma
merda porque fazia garotos como eu se sujarem e se
sujeitarem só para ganhar uns trocados e não morrer sem
alcançar a puberdade e saber o que era a vida... e uma
mulher.

Não. A vida não era uma merda. Era uma guerra.

Minhas únicas duas compensações foram: primeiro, saber
que eu não menti quando disse que, em outras
circunstâncias, eu teria abraçado o Gordo quando o vi no
bar, aquela noite; segundo, foi pensar que Gordo jamais
deixaria os vermes passarem fome.
 

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