|
Nota:
Algumas coisas são exatamente o que
parecem...
Toda manhã, no mesmo horário, sendo possível até acertar o relógio
com sua chegada, Marília descia as escadarias da estação Paraíso
do metro... Já nem precisava olhar por onde ia...o percurso lhe era
tão familiar que até já o fizera de olhos fechados... (riu quando
lembrou do dia em que fizera essa brincadeira com ela mesma). Era
uma sonhadora... A viagem não era longa o bastante para
incomodar... e nem que fosse... não se importava... quase sempre
despertava de seus sonhos e devaneios em cima da estação em que
descia. A noite, o mesmo percurso...., a mesma rotina..., e mais
sonho, em que ela normalmente atuava como protagonista e não
recebia cachê algum por isso. Pequena, sem parecer infantil, os
olhos e os cabelos faziam a moldura de seu rosto singular...
Olhos negros, iluminados, aveludados,
duros e suaves. Os cabelos, ah os cabelos, caíam em cascata até a
cintura, que ela, quase sempre, num gesto sutil, cacoete adquirido,
colocava atrás das orelhas quando estava lendo ou observando algo
num ponto infinito através da janela do trem ou da alma...
Aquela foi uma noite especial para Marília...
De novo, porém diferente, por alguns instantes acreditou que estava
imaginando coisa!
Mas não! Apesar de saber ser impossível ver alguém naquele lugar,
assim como
o filme Ghost, sabia que a vida continuava no Outro Lado, só não
sabia que
esse 'outro lado' era tão fecundo ao ponto de se multiplicar ao
infinito.
Sentiu que não era mais um de seus devaneios de hábito... Aquele
homem
maravilhoso estava mesmo encostado no pilar que dividia um corredor
do outro
na linha do metrô. A estação, depois do Paraíso, só podia ser a
da Luxúria e
do Prazer. Que bom que seu corpo, sobre os trilhos de certa
racionalidade,
pudesse entrar nessas estações!
Fechou os olhos, balançando a cabeça, como para apagar a
imagem...quando
abriu, o trem já chegava a próxima estação. Era infelizmente a
consolação.
E ela perdeu a oportunidade de ver por mais alguns segundos o Adônis
encostado no pilar que olhou diretamente para seus olhos...
Ela sabia. Ele era real e havia notado sua presença nesse vasto
mundo
fervilhado de pessoas como ela... apenas mais uma na multidão.
Não dormiu naquela noite... Ansiava pelo novo dia... e a esperança
de vê-lo
novamente deixava seu coração tolamente descontrolado... em alta
rotatividade, próximo de um ataque cardíaco.
"Besteira", ela pensou, "Não sou mais jovenzinha,
mas que bom seria se
fosse!"
*
O dia foi longo. Desatenta, mal produziu alguma coisa no trabalho, o
que
chamou a atenção dos amigos, já que sempre fora um exemplo com
suas
obrigações.
E o dia chegou ao fim novamente. Adiantada, coração aos pulos,
desceu
correndo as escadarias de mármore com uma facilidade acrobática.
Esquecera
que existiam escadas-rolantes. Pela primeira vez foi solidária com
o Apagão
do Imbecil, usando sua energia pessoal, pra vencer as escadarias.
Praticamente sem respirar, o toktok do saltinho comflitando com o
tumtum do
coração, finalmente parou na plataforma.
Conteve o impulso de embarcar no trem no momento em que a sirene
avisava que
as portas se fechariam em seguida. A espera realmente matava. Rolou
os dados
e o destino fez seu jogo...
*
Achou que o tempo de espera era interminável... O segundo era um
abismo sob
seus pés pregados na plataforma. Olhava o relógio a todo instante,
e quando
o trem apareceu no início do túnel, seu pé direito ficou
automaticamente em
posição para entrar no vagão. Se houvesse premeditação não
seria mais
preciso.
Entrou. O carro nº 5 era o mesmo de sempre; seu banco de costume
estava
ocupado, mas isso não a incomodou, pois do banco ao lado podia
olhar pela
janela e ver claramente o pilar onde "seu homem" estaria
esperando para lhe
sorrir.
Desta vez não fechou os olhos... queria vê-lo melhor...
E ele não a desapontou...
Acreditou ter visto um gesto com a mão esquerda como se a chamasse
para
junto de si...
Enlouqueceu... era impossível... mas ninguém sonha o mesmo sonho
duas vezes
e de forma tão real.
Os dias foram passando...
Seria loucura terminal? Nesse caso estaria explicado.
Tentando ser racional, perdeu a chance de ser tão louca quanto sua
visão.
*
Marília chegava em horários diferentes e ficava Na estação até
o embarque na
hora fatídica, como se temesse quebrar algum tipo de mágica
delicada. Na
esperança de vê-lo chegando... e não mais partindo...
Sabia que ele estava sempre entre a estação Paraíso e
Vergueiro... Não podia
haver melhor lugar. Isso fazia com que ela às vezes saísse mais
cedo do
trabalho e prosseguisse até a vergueiro, só pra pegá-lo
desprevenido, por lá
ficando até quase seu horário normal de embarque. Acreditando
piamente que o
veria entrar por qualquer daquelas portas e caminhar pelos
corredores dos
túneis. Mas em vão. Jamais conseguiu encontrá-lo fora de seu
lugar. O
mistério a sufocava.
*
Novamente em seu ponto de observação.
Lá estava ele, esperando por ela, como que nascido do nada,
escorando-se na
polastra, piscando para ela. Nem conseguia flagrá-lo numa outra
atitude.
Vaga cativa pela eternidade afora, como um episódio de Além da
Imaginação.
Certa vez tentou até mesmo entrar no túnel, junto a muralha, mas
foi barrada
por um segurança. Teve sorte em não ser tão truculento. Este,
desconfiado,
pensando estar com uma suicida em potencial, ficou grudado nela até
o
embarque.
*
Naquela nova e inflexível manhã anunciaram que o metrô estava em
marcha
lenta; algum tipo de protesto da categoria em curso, solicitando
aumento de
salário e não de serviço.
Marília percebeu que essa era sua chance de encontrar seu amor...
Quando o trem parasse entre as estações ela abriria a porta de
emergência e
nada mais a impediria de estar com ele. Loucura por loucura, já não
agüentava mais. Qualquer coisa valia a pena para ficar com seu Adônis
encostado na pilastra.
*
Eu estava do seu lado naquele dia; já há algum tempo a seguia de
longe, pois
não conseguia entender sua mudança e tanta euforia.
Na verdade comentava com ela sobre a possível greve quando,
inesperadamente,
ela ficou de pé. O trem começava sua parada protesto e via na
atitude dela
algo premeditado.
Mal pude notar quando ela puxou a trava da porta de emergência,
fazendo
aquilo que se propunha, ela e aquilo que forçava-a àquele ato
insano. Ergui
a mão para pegá-la no momento em que a porta abria e ela saltava.
Em vão. O
livro que ela lia caindo aberto aos meus pés.
"Amor nas Entranhas", um livro de poemas com título pouco
auspicioso e
totalmente profético. Foi pelas anotações naquele livro bem
manuseado que
tomei conhecimento daquilo que não consegui deduzir.
Mas naquele momento não pude entender nada. Ninguém pôde.
A principio pareceu-me que ela tentou segurar num homem que estava
junto ao
pilar, mas seu impulso ao saltar foi muito grande e a mulher que
conversara
comigo no vagão caiu no outro trilho no exato momento em que uma
nova
composição passava...
Fatalidade ou premeditação? Talvez os dois.
Ainda consegui manter os olhos abertos o suficiente para reparar no
homem
que ela tencionava atingir, com ele mantendo-se inflexível, junto
à
pilastra...
Do pouco que consegui manter em minha retina, aquele homem -
era o mais
bonito que já tinha visto; parecia uma figura impossível, saída
dos filmes,
um sorriso sinistro aflorando-lhe como um quadro-a-quadro de
videocassete.
Garanto que consegui ler essa frase em seus lábios antes que o trem
entrasse
novamente em movimento:
- Mestre, minha cota de hoje está completa!
*
- Bem, o que dizer mais?
O livro está comigo. Senão fisicamente, mantenho-o gravado em
minha memória.
As anotações nas partes disponíveis eram como as de um diário,
tanto no
conteúdo como no estilo.
Sei o que ela estava buscando.
Com certeza não acreditam em mim.
Mas quando eu sair daqui desse hospital psiquiátrico, e acabar de
vez com
aquela confusão das pessoas que juraram ter sido eu a empurrá-la
para a
morte, vou atrás daquele homem nem que seja a última coisa que faça.
Encontrá-lo e fazer com que explique e pague por aquele crime que não
cometi!
|