Destino

 Marcelo Herondino Cardoso

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0093]
[Autor:
Marcelo Herondino Cardoso]
[Título: Destino]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 4.680]

 

Amanhecia. Os primeiros raios de sol surgiam no horizonte, indicando que aquele seria mais um dia de calor infernal. Michel abriu os olhos cuidadosamente, procurando acostumar-se com a claridade que insistia em passar por uma fresta da cortina. Tentou levantar-se, mas uma dor forte fez com que caísse na cama novamente. Levando as mãos até a perna esquerda, onde a dor era mais forte, pôde ter certeza de que era algo sério. "Meu Deus", pensou, "o que está acontecendo comigo ?" Um sentimento de desespero invadiu sua alma. Há algumas semanas fatos estranhos estavam mudando sua vida. Tudo começou com um bilhete misterioso, escrito em um velho pedaço de papel: "Esteja hoje à noite, no Boulevard Lyon. É muito importante."


Aquilo mexeu com ele. A caligrafia lhe era extremamente familiar e ao mesmo tempo estranha... Quem tão misterioso poderia querer conversar com aquele pacato funcionário público, com poucos amigos e uma vida tão agitada quanto a de um monge tibetano ? Aquele bilhete ficou em sua mente durante todo o dia, enquanto ele procurava convencer-se a não ir ao tal encontro. "Não vou", dizia para si próprio, "no mínimo é
uma brincadeira de mau gosto". Entretanto, surpreendeu-se ao ver à sua
frente o letreiro luminoso do Boulevard Lyon, um bar freqüentado por
pessoas que definitivamente não faziam parte de seu grupo social.
Prostitutas, bêbados e desocupados dividiam o espaço sujo e mal
cuidado. Michel entrou, sentando-se em uma mesa mais afastada, de onde
possuía uma visão completa do ambiente. Uma garota exibia-se no palco
improvisado, tirando a roupa para deleite dos assistentes. Embora não
pudesse ser considerado como um exemplo de beleza, seu corpo surrado
levava à loucura aqueles pobres coitados. Durante mais de uma hora,
Michel ficou observando o comportamento das pessoas e perguntando-se o
que fazia ali.


Cansado de esperar por algo que não podia imaginar o que fosse,
levantou-se e fez menção de sair do bar. Sentiu uma mão pesada em seu
ombro, que o fez virar de maneira brusca. Um calafrio percorreu-lhe a
espinha, ao ficar frente a frente com aquele homem, que causava ao
mesmo tempo admiração e pavor. Sua figura era imponente, possuindo um
corpo forte e bem delineado. Porém, ao examiná-lo mais detalhadamente,
Michel pôde vislumbrar a imagem que por muitas noites iria tirar seu
sono: o rosto daquele homem estava totalmente desfigurado, como se
tivesse sido retalhado com fúria por algum maníaco assassino.
Controlando sua repulsa, Michel tentou aproximar-se para examinar
melhor aquela figura. O homem deu um passo atrás, deixando claro que
rejeitava qualquer tipo de contato mais próximo. No breve instante em
que se encararam, Michel notou nos olhos dele uma expressão de pavor
misturada com ódio, que preferiu atribuir à impressão causada pelo
lugar e pela situação. Se ele soubesse o que iria acontecer nos
próximos dias, talvez tivesse se preocupado mais com o significado
daquele olhar... O homem misterioso entregou uma pequena caixa e fez
um sinal com as mãos, como se apontasse alguém atrás deles. Michel
virou-se instintivamente e, como não entendeu o que havia sido
apontado, voltou-se para questionar o homem que, no entanto, havia
desaparecido.



Já se passavam três dias desde o estranho incidente com o homem
desfigurado e Michel ainda não tivera coragem de abrir a caixa que lhe
fôra entregue. Um pouco porque andara ocupado com outras atividades,
mas o principal motivo era aquele rosto que não lhe saía da mente. A
imagem daquelas feições vinha à tona como se o homem estivesse à sua
frente. O mais estranho era que o rosto também parecia conhecido,
assim como a letra do bilhete... Mas algo tinha que ser feito, pois
era impossível conviver com aquela situação misteriosa. Num ímpeto de
coragem misturada à curiosidade, ele tomou a caixa às mãos. Examinou-a
cuidadosamente, não encontrando nada que denunciasse seu conteúdo. A
única coisa diferente era uma espécie de brasão, com duas serpentes
entrelaçadas. No mais, era uma caixa comum, pequena, similar a uma
urna funerária em tamanho reduzido. Aquele pensamento causou novos
arrepios em Michel. Abriu-a, retirando cuidadosamente a tampa e
deixou-se quedar sentado, ao constatar o macabro conteúdo daquele
recipiente: um dedo indicador humano, aparentemente de um homem,
arrancado na base por um instrumento cortante. O dedo estava
endurecido, como se fôra empalhado. Michel deixou cair a caixa,
fazendo com que o dedo saísse de seu interior e deixasse vislumbrar um
pedaço dobrado de papel. Pegou-o, notando que tratava-se de outro
bilhete, com a mesma letra do anterior e com uma frase assustadora: "o
destino começa a se cumprir". Desnecessário dizer que o pânico tomou
conta dele. Tentou coordenar as idéias, porém o medo dominava seus
sentimentos mais íntimos. Permaneceu sentado por alguns segundos, como
a esperar que aquele pesadelo acabasse por encanto. Não aconteceu, e
Michel resolveu procurar ajuda profissional para resolver o problema.


================ 2 ================


O número 636 da Rua Marshall já tinha vivido dias de mais glamour.
Teve sua época de ouro quando os irmãos Newman, até então obscuros
detetives, conseguiram recuperar uma coroa incrustada de diamantes,
pertencente à realeza. Poucos sabem que realizaram esse feito por obra
do acaso, embora isso não tenha a menor importância nos dias de hoje.
O fato é que eles souberam muito bem colher os frutos da repentina
fama que caiu a seus pés. Se como detetives podiam ser considerados
medíocres, eram homens que sabiam utilizar com maestria o marketing
necessário para mantê-los em situação cômoda pelo resto de suas vidas.
Mas isso foi há muito tempo... Hoje, apenas os números na parede suja
lembravam aqueles dias. Tudo mais estava abandonado. Lâmpadas
quebradas, a porta de entrada, antes imponente, mostrava claramente
que o tempo não perdoa mesmo as mais deslumbrantes obras do homem.


Michel ficou esperando por alguns minutos o elevador, que parecia
teimar em não descer até o térreo. Uma senhora passou resmungando algo
ininteligível, que ele preferiu entender como uma reclamação sobre o
elevador que não estaria funcionando. Cansado de esperar, resolveu
subir os poucos lances de escada que o separavam do seu destino. Como
era de supor, não havia luz e ele subiu utilizando apenas seu
instinto. Tropeçou algumas vezes, sentiu alguma coisa viva passar
correndo e roçar suas pernas - um pequeno rato, talvez - mas enfim
chegou ao oitavo andar, onde a luz do dia penetrava pelas janelas
sujas, tornando o ambiente um pouco menos macabro.


Não precisou procurar muito pelo que queria, pois um letreiro enorme
saltou-lhe aos olhos. Seria impossível não perceber o imenso FRAZER &
FRAZER, em letras garrafais pintado na porta da sala 802. Lembrou do
amigo de infância, que desde menino sonhava em ser detetive. Vivia
resolvendo situações difíceis, fazendo questão de manter certo
mistério sobre suas deduções. "É, ele era bom", pensou Michel, com um
sorriso brotando instantaneamente entre seus lábios, ao se deparar com
o letreiro. Só havia um "FRAZER", mas o amigo achava que a duplicação
do nome causava melhor impressão. Pensou em como era bom voltar a
sorrir, depois dos momentos de angústia que vinha enfrentando. Bateu
duas vezes à porta, sem obter resposta. Resolveu entrar assim mesmo.


A sala não estava em situação melhor que o resto do prédio. Pilhas de
papel jaziam em um canto, completamente amareladas. Bette Davis sorriu
para Michel, em uma foto que pendia da parede descascada. Aranhas
pareciam fazer uma competição de teias, pelo volume do material que se
apresentava pelos cantos. Michel arrependeu-se por um momento de ter
ido até lá e decidiu sair da sala. No mesmo instante, um golpe na
cabeça o fez perder os sentidos. Acordou sobressaltado, com alguém
sobre ele, tentando reanimá-lo. Tentou golpear seu oponente e fugir
dali, mas foi facilmente dominado, pois a cabeça ainda doía. Levou um
susto ao ouvir um familiar "Calma, Michel" partindo dos lábios daquela
criatura obesa que o fitava com curiosidade. Reconheceu então o amigo,
bastante diferente do James Frazer que conhecera em criança. Muito
mais gordo, aparentando mais idade do que realmente possuía, o
detetive certamente não tinha levado uma vida muito fácil. A roupa
desalinhada denotava um desleixo que Michel desconhecia no amigo.
Depois de alguns momentos de silêncio, Frazer quebrou o gelo.

-Desculpe, meu amigo. Não tive intenção de machucá-lo. Pensei que
fosse o detetive contratado pela minha ex-mulher para me investigar.
Você está bem ?

-Sem problemas - respondeu Michel, instintivamente acariciando a
cabeça machucada - mas, você mudou muito...

-Bem, certamente não sou o "grande detetive" que você talvez esperasse
encontrar, mas estou sobrevivendo, disse Frazer, não escondendo uma
ponta de tristeza na voz.

-Desculpe, não tive intenção de magoá-lo.

-Não se preocupe, amigo. Eu é que ando um pouco amargurado. Mas se
acomode nessa cadeira - cuidado, ela não é muito segura - e diga-me: o
que o traz a esse fim de mundo ? Não veio apenas matar as saudades,
veio ?

-Não, não. Estou precisando de ajuda, Frazer. Recebi uma...


Michel não conseguiu terminar a frase. Seu rosto empalideceu a ponto
de assustar o detetive, que instintivamente correu a seu encontro
pensando que o amigo fosse desmaiar novamente. Sua mão trêmula
apontava para a escrivaninha de Frazer e uma expressão de horror
contorcia seu rosto.

-A caixa... - conseguiu balbuciar, por fim - ...a caixa.

-Que caixa, homem ? Gritou o detetive, como tentando tirar Michel do
transe em que havia entrado.


Só então Michel conseguiu concatenar as idéias e explicar o que tinha
acontecido. Sobre a mesa de Frazer, uma caixa idêntica à recebida por
Michel, com as duas serpentes entrelaçadas na tampa de destacava sobre
a pilha de papéis velhos. Michel contou sua história e, ao fim, o
detetive comentou:

-É... no mínimo estranho. Recebi essa caixa ontem de manhã, pelo
correio. Dentro dela havia um anel de prata... e um bilhete idêntico
ao que você recebeu. Mas que promessa será essa? Pensei que se
tratasse de uma simples brincadeira, mas agora percebo que o assunto é
mais sério. Infelizmente, não tenho o anel aqui comigo. Sou muito
precavido, você sabe, então preferi enviá-lo para análise de um
especialista. Você deve conhecê-lo: dr. Richard Stevenson, professor
de Arqueologia.

-Claro que conheço, concordou Michel. Confesso que fico mais tranqüilo
ao saber que não estou sozinho. Fiquei com medo que você achasse que
eu estava ficando louco.

-Não se preocupe. Agora, tudo o que temos a fazer é esperar a análise
do anel. E depois descobrir se pertencia ao dedo que você recebeu,
hipótese que me parece bastante razoável. Em seguida, vamos tentar
descobrir a identidade desse infeliz... e o motivo que o levou a esse
destino tão trágico. Você poderia me trazer sua caixa?

-Claro, farei isso amanhã mesmo. Por ora, vou tentar descansar um
pouco, pois os últimos dias foram terríveis.

-Faça isso. Qualquer novidade, entre em contato. Tome meu cartão. Vou
escrever o número do telefone atrás, para você ligar em caso de
necessidade. É um telefone para recados, ok? O meu... digamos... não
está funcionando - disse Frazer, ruborizando instantaneamente, como
acontecia quando tentava enganar os colegas no tempo de colégio.

-Ok, amigo, não se preocupe. Obrigado e até amanhã.

-Até amanhã !


================ 3 ================


Michel acordou um pouco mais tarde do que o normal naquela manhã. O
simples fato de ter desabafado e saber que mais alguém estava tentando
resolver o problema que tanto lhe afligia fez com que dormisse um
pouco mais tranqüilo. Além disso, a chuva que começou a cair durante a
noite deixou a temperatura um pouco mais agradável. Resolveu passar na
empresa, para pedir a licença que há tanto tempo vinha prorrogando. Em
seguida, iria levar o "pacote" para o amigo detetive. Antes, decidiu
tomar seu café acompanhado da leitura do jornal matutino, coisa que
não fazia há muito. Entretanto, a manchete na primeira página não
permitiu que engolisse sequer o primeiro pedaço de pão: "Tragédia na
Universidade - assassinato de professor comove o meio acadêmico".
Assustado, não queria acreditar no que seus olhos viam e, mesmo antes
de ler a reportagem completa, algo já lhe dizia de quem se tratava.
Criou coragem e terminou a leitura: "Foi encontrado, ontem à noite, o
corpo do professor Richard Stevenson, famoso arqueólogo, que
trabalhava ultimamente como coordenador da equipe que escava as ruínas
do Palácio Nacional. Seu rosto estava totalmente desfigurado, a tal
ponto que a identificação só pôde ser feita pelas roupas e documentos
do professor. O vigia da Universidade, ainda em estado de choque, não
conseguiu prestar maiores informações. A polícia trabalha com a
possibilidade de vingança ou crime passional, uma vez que nada foi
retirado pelo suposto assassino. O professor era solteiro e morava
sozinho há vários anos, após a também trágica morte de seu filho
Brian, no colégio Richmond."

Após esse péssimo início de dia, Michel pegou o pacote e dirigiu-se à
casa de Frazer. A frase "seu rosto estava totalmente desfigurado" não
lhe saía da cabeça, remetendo à inevitável lembrança do misterioso
homem que lhe havia entregado o pacote macabro. Tentava encontrar
alguma forma de associação entre os fatos recentes, mas seu raciocínio
não estava ajudando muito naquela manhã. "Preciso comprar outro
guarda-chuva", pensou, enquanto tentava em vão se proteger da forte
chuva que castigava a cidade. Encontrou Frazer de pé, já o esperando.
Possuía uma aparência bem melhor do que no dia anterior. Havia cortado
a barba e tinha os cabelos cuidadosamente penteados. Estranhamente,
aquele mistério estava fazendo bem ao espírito do gordo detetive.
Michel não pôde esconder um sorriso ao notar que a gravata do amigo
era extremamente curta e repousava teimosa sobre a grande barriga,
deixando-o ainda mais gordo. Frazer parece ter notado, pois
imediatamente esforçou-se para puxá-la um pouco para baixo. Recebeu o
amigo com uma expressão apreensiva no rosto:

-A coisa parece ser mais séria do que eu imaginei. Certamente, não é
apenas uma brincadeira, como eu havia pensando inicialmente. Trouxe o
"dedo" ?

-Claro, aqui está - disse Michel, entregando-lhe o pacote.

-Interessante, muito interessante...


Frazer fitava o dedo com um extremo fascínio. Analisava-o por todos os
ângulos, cheirava. Chegou mesmo a atirá-lo contra a parede, certamente
na tentativa de verificar algum tipo de reação.

-Descobriu algo ? Inquiriu Michel, já ansioso.

-Claro. Esse dedo pertenceu a um homem, com idade entre 32 e 36 anos,
branco, de origem européia, cabelos grisalhos e altura aproximada de
1,85m. Fumava cachimbo e tinha um cachorro de grande porte,
possivelmente um São Bernardo. Todas as manhãs lia o jornal enquanto
tomava café e em seguida limpava uma garrucha que já estava na família
há décadas.


Michel espantou-se. Sabia que o amigo desde criança era bom em deduzir
fatos, mas aquilo era ridículo.

-Está brincando ? Disse, por fim.

-Óbvio que estou. Você acha que sou Sherlock Holmes ? Como iria saber
tudo isso ? A única dedução possível é que trata-se de um dedo anular
e pertenceu a um homem de meia-idade. Nada mais.


Michel não entendia como Frazer conseguia fazer brincadeiras em uma
situação tão delicada. Ainda mais tendo em suas mãos tão repugnante
objeto. "Os detetives são mesmo criaturas muito estranhas", pensou por
fim.

-Estou pensando em dar um passeio até a Faculdade. Me acompanha ?
Convidou o detetive, já colocando a capa de chuva.

-Claro que sim. Meu carro está estacionado aqui em frente.

No caminho, os dois seguiam em silêncio. Michel olhava a paisagem de
sua cidade, um pouco entristecida pela chuva e pelos acontecimentos da
noite anterior. Começou a lembrar de sua infância, das brincadeiras,
das namoradas. Onde andariam todas aquelas pessoas ? Muitas
construíram suas vidas na própria cidade, como era de se esperar.
Outras resolveram ganhar o mundo em busca de melhores oportunidades.


Sentiu um aperto ao passar em frente ao Colégio Richmond. Era uma
construção antiga, de aspecto imponente. Impossível não lembrar-se da
tragédia ocorrida há 25 anos. Brian Stevenson, então um saudável
garoto de 12 anos, morreu após uma brincadeira que não deveria ter
maiores conseqüências. Um grupo de cinco garotos resolveu pregar uma
peça nas pessoas. Esconderam-se no vão da ponte que cobre o Rio
Lamber, um dos orgulhos da cidade, para assustar os que passavam. Era
dia das bruxas, e eles utilizavam as máscaras feitas para pedir doces
às pessoas. A brincadeira seguia muito divertida, até que tudo começou
a fugir do controle. Ao perceber que o inspetor do colégio havia sido
informado e vinha atrás dos responsáveis, os garotos resolveram fugir
rapidamente. Na correria, Brian se desequilibrou e caiu da ponte.
Entre ajudá-lo e esconder-se, os amigos escolheram a segunda opção.
Afinal, estavam todos acostumados a mergulhar no rio, daquele mesmo
local, e o pequeno Stevenson era o melhor nadador do grupo.
Certamente, fugiria pelo rio e os encontraria depois. Não foi o que
aconteceu. Após esperar muito tempo, os meninos resolveram voltar.
Acharam estranho o movimento perto da ponte. Mais estranho ainda o dr.
Stevenson, pai de Brian, em prantos e sendo amparado por um policial.
Brian estava morto. Na queda, batera a cabeça em um dos pilares da
ponte, perdendo os sentidos. Seu corpo foi encontrado a duzentos
metros do local, preso entre troncos que boiavam no rio. Tinha nos
lábios uma expressão alegre, como se tivesse morrido fazendo algo de
que gostasse muito. Isso tinha sido há 25 anos. E agora, o pai dele
tinha sido assassinado. Ele, que após a morte do filho saiu da cidade,
certamente para esquecer a tragédia e voltara há apenas cinco anos,
também estava morto.


Michel não conseguia entender o sentido daquilo, por mais que se
esforçasse. E uma sensação de tristeza tomou conta do seu espírito.
Frazer parecia sentir o mesmo. Seu olhar fixo denunciava que as
lembranças eram as mesmas do amigo. O detetive também era um daqueles
garotos que, junto com Michel e Brian, assustava as pessoas na ponte.


================ 4 ================


O prédio da Universidade tinha arquitetura similar à maioria das
construções da cidade. Suas faculdades de maior destaque eram as de
Medicina e Arqueologia, com seus professores e pesquisadores possuindo
reconhecimento internacional. A parte destinada à Arqueologia se
localizava à direita do prédio, em uma construção mais nova, que tinha
sido restaurada após um incêndio. Foi para lá que Frazer e Michel se
dirigiram, a passos rápidos. O laboratório de estudos arqueológicos
estava trancado, com dois policiais à porta. Frazer cumprimentou-os e
entraram sem maiores dificuldades. O ambiente, já sombrio por
natureza, tornava-se ainda mais tétrico em virtude dos fatos que
precederam aquela visita. Sarcófagos, esfinges, imagens diversas se
misturavam dando um aspecto aterrador àquela sala. Michel e Frazer
vasculharam, cada qual à sua maneira, aquele espaço. O detetive foi
mais minucioso, como era de se esperar. Bateu nas paredes, com seu
ouvido colado à elas; mediu a altura da sala, bem como seu comprimento
e largura; abaixou-se diversas vezes, analisou o chão, os móveis, os
objetos de estudo do professor. Michel limitou-se a passar os olhos
sobre alguns livros que jaziam abertos sobre a mesa empoeirada e, em
seguida, ficou à janela esperando que Frazer terminasse seu trabalho.
A um sinal do detetive, saíram sem encontrar nada que pudesse lançar
alguma luz sobre o mistério. Entretanto, um fato inesperado aconteceu
pouco depois: um velho, de barbas longas e aparência pouco agradável,
os esperava perto do carro. Ao vê-los, dirigiu-se a eles como se
fossem conhecidos de longa data:

- Então, senhores, encontraram o que procuravam ??

- Depende - apressou-se em responder Frazer - do que o senhor está
falando ?


O velho deu de ombros e fez menção de afastar-se, dizendo:

- Não subestime minha inteligência, sr. Frazer. Posso ser velho, mas
sei muito mais sobre o trabalho do dr. Richard do que minha aparência
pode deixar transparecer... mas, se o senhor acha que não deve perder
seu tempo com um velho enxerido... passe muito bem!


O detetive segurou no braço do homem, que no mesmo instante se voltou
com uma expressão de tal ódio que arrepiou Michel até os ossos. O
velho parece ter percebido a perturbação do rapaz, pois logo estava de
volta o semblante cansado e pacífico de antes. Michel não deu maior
atenção ao fato, pois Frazer convidou-os para conversar em um local
mais reservado.


Às três da tarde, estavam sentados à mesa de um café. Frazer estava
ansioso, como se tivesse certeza que o velho poderia passar alguma
informação relevante. Como se conseguisse ler os pensamentos, ele
começou a falar:

-Mais que isso, detetive... o que sei pode mudar o rumo de suas
investigações... mas permita que eu me apresente: meu nome é Carl
Mortimer, fui amigo de infância do dr. Richard. Infelizmente, minha
vida foi muito difícil, o que me deixou nesse estado que os senhores
podem constatar. Vivia de pedir esmolas quando, há um ano, encontrei o
dr. Stevenson em uma rua da cidade. Lembrando-se de mim e
possivelmente querendo ajudar um velho amigo, convidou-me para
trabalhar com ele em um novo projeto. Segundo me disse à época,
precisava de alguém como eu: que o ajudasse sem levantar suspeitas.
Falou que tinha encontrado uma nova catacumba, cujo conteúdo iria
revolucionar a arqueologia mundial. Mas que não podia contar com a
ajuda de ninguém que trabalhasse no meio, pois temia que a informação
fosse vendida e ele perdesse os méritos pela descoberta. Perguntei
porque não divulgava logo a catacumba e ganhava os méritos, mas ele
ponderou que precisava ainda pesquisar um pouco mais. Sem muita
perspectiva, aceitei de pronto. Comecei a ajudá-lo em pequenos
trabalhos, mas sem aparecer na faculdade, para não levantar suspeitas.
Durante onze meses, minha rotina foi catalogar crânios e peças
metálicas. Até que, quando percebeu que podia confiar totalmente em
meu trabalho e discrição, ele levou-me até a catacumba. Fiquei
simplesmente estarrecido com o tamanho e a riqueza daquele lugar. A
visita foi rápida, com o professor me dizendo, ao final, que em
algumas semanas poderia divulgar seu achado. Isso seria na semana que
vem, mas agora ele está morto... e simplesmente não sei o que fazer...
não confio na polícia oficial, por isso estou aqui.


Tudo isso foi dito com muito esforço e parando várias vezes, tal o
estado físico deplorável em que se encontrava o homem. Quando
terminou, suava por todos os poros, denotando o imenso esforço físico
que fizera para contar sua história. Frazer coçou a cabeça, pensou por
alguns segundos e arriscou a pergunta:

-O senhor poderia nos levar até essa catacumba ??

-Bem, não conheço tanto de arqueologia nem sei o que fazer... de forma
que concordo em levá-los, se o senhor acha que isso pode ajudar em
descobrir quem matou meu amigo... mas tenho uma condição: que vocês me
acompanhem de olhos vendados, de forma que não consigam depois
identificar o local exato. Concorda?

-De minha parte, parece justo. O que acha, Michel ?

-Sem problemas, respondeu o amigo.


Após essa conversa, terminaram seu café e combinaram um encontro para
a noite do mesmo dia, às 23:00.



================ 5 ================


Fazia muito frio naquela noite. A chuva não dava trégua, o que deixava
o clima mais lúgubre e pouco acolhedor. Frazer e Michel chegaram ao
local combinado, nos arredores da cidade, e esperaram alguns minutos
até que um carro antigo parou próximo a eles. "Entrem, rápido",
ordenou o velho, que parecia mais forte e ativo do que à tarde. Os
amigos obedeceram sem contestar. O homem colocou uma uma venda em cada
um e amarrou seus pulsos. "Apenas precaução", conforme explicou.
Rodaram por alguns minutos, talvez quinze ou vinte, quando o carro
parou. A porta se abriu e, segurando em seus ombros, o veho caminhou
com eles por mais algum tempo. Ouviram um barulho de correntes e, em
seguida, uma pesada porta sendo arrastada. Desceram uma escada que
parecia não terminar e continuaram caminhando, por muito tempo ainda.
Quando, por fim, pararam, o velho desamarrou suas mãos e permitiu que
retirassem as vendas. Mas o efeito foi como se ainda continuassem
vendados. A escuridão que tomava conta daquele lugar era ainda mais
assustadora do que a ansiedade que habitava suas almas. Por mais que
tentassem se acostumar, não conseguiam vislumbrar nada à sua volta.
Frazer perguntou se o velho não poderia acender uma lanterna, mas
apenas uma risada sarcática ecoou no ambiente... aquilo deixou o
ambiente ainda mais aterrador, como se isso fosse possível... após
alguns segundos de silêncio, uma voz conhecida fez-se ouvir:

-O destino está se cumprindo, meus caros...


Michel não podia acreditar, mas a voz era do professor Richard
Stevenson, nítida e pausada. Antes que pudessem falar qualquer coisa,
uma tocha foi acesa, mostrando a face do professor, que tremia de
prazer e ódio, cuja mistura dava a seu rosto um aspecto aterrador, que
fez Michel mais uma vez lembra do rosto desfigurado que o entregou a
caixa, do dedo, do bilhete... mas dessa vez, o pavor era real. A seu
lado, o velho que os havia conduzido até ali segurava a tocha, imóvel.

-Poupem seus pensamentos e deduções, meus caros... faço questão de
explicar em detalhes o motivo dessa pequena reunião. Há muito tempo,
vinte e cinco anos, para ser mais preciso, eu aguardava esse momento.
Mas tudo tinha que ser cuidadosamente planejado, eu não podia cometer
erros. Vocês devem saber do que falo... Brian, meu amado filho
Brian... cuja vida foi ceifada tão cedo, graças à irresponsabilidade
de alguns moleques. Mas simplesmente punir aqueles garotos era pouco,
eu precisava deixá-los crescer, tornar-se adultos, para então pagar
pela omissão que acabou com minha vida. Durante longos anos, fiquei
recluso em uma pequena casa nas montanhas, onde tive a felicidade de
conhecer Carl, que se mostrou um bom e fiel amigo. Solidário a meu
sofrimento, concordou em participar da execução do plano. Seu
conhecimento da região e seus contatos me foram muito úteis. Conseguiu
um cadáver, que serviu muito bem ao seu propósito, de simular minha
morte. Por fim, conseguiu brilhantemente trazê-los até aqui, onde se
dará o epílogo desse drama pessoal. Não sei se perceberam, mas essa
catacumba está repleta de túneis que se entrecortam, dando algumas
milhares de combinações, onde somente uma leva à saída. Eu mesmo, no
início, tive muita dificuldade em achá-la e precisava de alguma
orientação. Um leigo, como é o caso de vocês, teria uma chance
infinitamente ridícula de conseguir sucesso. Uma pena, não é mesmo?


E mais uma vez a risada sarcástica se fez ouvir... dessa vez, mais
forte e prazerosa. O professor continuou:

-Mas não se preocupem tanto... não estarão sozinhos aqui. Ao caminhar
por esses túneis escuros, poderão pisar em escorpiões e cobras
venenosas, que tive o cuidado de espalhar nas galerias internas pouco
antes da chegada dos senhores... ou mesmo tropeçar em alguma forma
humana que, se tivessem uma lanterna, poderiam confirmar ser os corpos
de Vincent e Douglas, os outros moleques que estavam com vocês naquele
dia. Ah, Douglas está sem um dedo, que vocês já devem saber onde se
encontra... e seu corpo não deve estar em estado muito agradável. O
destino deles se cumpriu. Sintam-se à vontade para escolher a forma de
cumprir o seu: picado por um animal venenoso ou morto de fome e frio.
De minha parte, voltarei às montanhas, retomando minha vida tranqüila
e em paz por ter executado minha vingança. Boa sorte, senhores, se é
que isso vai adiantar alguma coisa por aqui...


Com uma gargalhada histérica, o dr. Richard Stevenson apagou a tocha,
cortando a última ligação que havia entre os apavorados amigos e o
mundo exterior. Ouviram os passos se afastando, enquanto tentavam
desesperadamente segui-los, sem sucesso. Mais tarde, ainda puderam
ouvir a pesada porta se fechando, ao longe...


Uma semana depois, uma pequena nota nos jornais locais dava conta do
misterioso desaparecimento de William Frazer e Michel Triburry.
Segundo a mesma nota, os jovens haviam sido vistos juntos pela última
vez no laboratório de arqueologia, há uma semana.


Dois anos mais tarde, um pesquisador da Universidade de Richmond
anunciou a descoberta de uma catacumba nos limites da cidade. Em sua
entrevista coletiva, confessou não ter sido o primeiro a encontrá-la,
pois achou quatro ossadas humanas no interior das galerias.
Estranhamente, contou ele, essas pessoas não demonstravam possuir
qualquer equipamento arqueológico. Duas delas tinham os sapatos gastos
ao extremo, como se tivessem andado dias a fio procurando a saída.


O destino havia se cumprido, enfim.

   

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