O Trote

 Mário Fernando Lins

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0090]
[Autor:
Mário Fernando Lins]
[Título: O Trote]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 3.580]


[Nota do Autor: a falta de parágrafos é intencional, para dar um certo
clima ao texto.]


"Mas você tem certeza de que a sexta é 'B'? Uh hum... Ah ham... Sei. E
o anel aromático? Ah, quebrava a ligação, né? Tá, tá, é mesmo. E o
pior é que eu fiz a mesma coisa no oitavo e não me liguei, já tinha
passado essa questão..." O fio do telefone percorria um caminho
incerto; ora pendia inerte ao lado da base do aparelho, ora se
esticava num comprimento quase impossível por entre caixas de som,
sapatos, livros e uma mesa de computador. Era incessantemente
arrastado, torcido e retorcido, esticado e encolhido. Pequenos fiapos
de poeira se agarravam aos trechos mais habituados à ginastica de
solo, aumentando pouco a pouco, à medida que corriam os dias. Deitado
sobre a cama bagunçada, um garoto disputava o pouco espaço livre com
algumas pilhas de livros escolares, uma bolsa num tom de azul muito
semelhante ao uniforme do ilustre personagem em quadrinhos super forte
que podia voar, e quatro controles remotos diferentes. Muitas vezes
tais controles haviam sido alvo de acaloradas discussões entre pais e
filho, e a funcionalidade dos aparelhos eletrônicos mais conhecidos do
público, a saber, televisão, videocassete, som e cd player, ameaçadas
de cortes sumários. O barulho do telefone sendo colocado no gancho foi
parcialmente encoberto pela música que tocava, em alto volume, no
quarto fechado. Uma banda japonesa de nome Guitar Wolf brandia acordes
para todos os lados, como se no pequeno ambiente ocorresse uma pequena
rebelião. A qualidade sonora poderia até ser objeto de discussão, mas
ao se levar em consideração o nome adotado pelo orientais para seu
estridente grupo musical, um observador mais atento perceberia sua
falta de pretensão, poupando os comentários. Lobo e guitarra talvez
sejam as duas únicas palavras em inglês no vocabulário das pessoas em
questão; nada mais justo que ignorar os pormenores. O garoto se chama
Caio, é aluno da primeira série do segundo grau e acabara de fazer uma
prova de química orgânica no Colégio Marista Pio II. Da sala de aula
para casa o espaço-tempo é nulo, principalmente quando não se tem
certeza das respostas da avaliação. Caio chegara em casa, comera algo
que mais tarde se transformaria no almoço do dia, e enveredara pelo
terreno familiar do seu quarto. Abrira os livros de química do colégio
e aqueles que tinha herdado do irmão mais velho, agora já na faculdade
de engenharia, e pusera-se a procurar pelas respostas que, algumas
horas atrás, teriam valido seu peso em ouro. Após algum tempo de
pesquisa e conseqüente frustração, o telefone tocara, trazendo de
longe a familiar voz do amigo de sala, João, que naquele momento
também se encontrava protegido no abrigo do próprio lar. Discutiram
sobre a prova, e Caio conferira seu rendimento baseando-se nas
respostas do amigo, mais estudioso que ele desde o início dos tempos.
Momentos depois desligaram, mas não sem antes marcar a programação da
tarde: cinema no Multiplex, filme novo de John Woo, às 16:00 em ponto.
Ligação acabada, aumentara o volume do som, sabendo ser aquele o único
momento do dia em que a altura da música não encontraria ninguém em
casa para perturbar. À tarde, o irmão estaria estudando no quarto ao
lado, e à noite sua mãe reprimiria qualquer tentativa de difundir
novos gêneros musicais por entre os vizinhos dos andares mais
próximos. A empregada reclamava a qualquer hora, mas Caio não se
importava com os acessos de raiva da pobre mulher. As portas possuíam
fechaduras para momentos como aqueles, e empregá-las nunca foi um
problema para o garoto. Voltamos do flashback estilo "querido-diário",
unindo passado narrado e presente descritivo, e nos encontramos
pensando acerca de controles remotos e bandas japonesas. Um susto para
nós mesmos, mas Caio nada percebe, absorto que estava em não fazer
nada, apenas aproveitando o momento... carpe diem, seize the day.
Contudo, é sabido que os melhores momentos duram pouco, e foi este o
caso, pois o telefone pendurado na parede pôs-se a tocar. Seus olhos
azuis percorreram a pilha de controles, buscando aquele que poderia
pôr termo à barulheira infernal gravada do outro lado do mundo. "Aqui
está", e o botão pause foi pressionado por um polegar de unha grande e
suja. Cabe aqui uma rápida reflexão sobre comprimentos de unha e sua
funcionalidade, tendo em vista que, esteticamente, homens não ficam
bem com grandes unhas esmaltadas. Não é exatamente o caso em questão,
pois as unhas de Caio não estavam pintadas; a única variação cromática
existente decorria da sujeira que se acumulava por debaixo, entre a
pele e a unha, num tom escuro. Porém, tal desleixo não era embasado
unicamente na falta de higiene juvenil, mas nos argumentos pouco
conhecidos de músicos e instrumentistas, de violeiros e seresteiros:
unhas grandes ajudam a dedilhar. Poder-se-ia chegar mais rapidamente a
essa conclusão caso mais atenção fosse dada ao quarto do rapaz, com
uma caixa amplificada encostada a um dos cantos, um case preto
encostado na parede oposta, com o nome Fender estampado na parte
superior. Quarto de jovenzinho revoltado com predileção por bandas de
rock de acordes estridentes, discípulos inegáveis do deus Kobain e sua
sagrada banda, aquela mesma, a que trazia a paz divina ao mundo dos
sentidos. Sânscrito para o fim das ilusões, o Nirvana. E depois da
reviravolta de camisas de flanela e movimento grunge, os críticos
dizem: "nada mais se inventa, nada mais se cria, tudo se copia". E
Caio tinha uma guitarra em seu quarto, mas isso não vem muito ao caso,
pois no momento em questão o telefone estava a tocar. Pause. "Alô?",
"Quem?", "É sim, pode falar". E um sorriso travesso surgiu nos lábios
finos do nosso protagonista. "É o José Antônio sim, minha senhora,
pode falar". "É que eu estou um pouco gripado, e... a Verinha? O que é
que tem a Verinha?" Caso chegássemos mais perto do telefone seria
possível escutar a voz da mulher que falava do outro lado da linha,
uma voz amargurada. Estaria ela tentando nos dizer algo mais, por
baixo das palavras rasgadas pela velha garganta? Caio parecia
indiferente, talvez a imaturidade não permitisse um melhor
discernimento da situação. O fato é que, gostemos ou não, todos já
passamos trotes quando pequenos. Talvez alguns possam até protestar,
alegar que nunca fizeram nada disso na vida, tudo bem. Vamos colocar
de outra forma: quem nunca achou engraçado quando viu o amigo ou amiga
passar trote para um mesmo número, durante uma tarde inteira? Há pouco
tempo atrás, Caio me fez relembrar um desses momentos. Ligou para um
conhecido do cursinho de inglês e disparou, impiedoso: "Tem um fusca
branco gelo aí na frente? Não? Ah, então já derreteu!" Coisas da
infância, que ainda afetam a cabeça dos garotos até bem depois de
crescidos. Ao telefone, a velha falava algo de importante, pois Caio
franziu a testa, expressão só usada nos momentos de maior stress, como
na vez em que ele teve as saídas abolidas por um mês, ou na vez em que
foi proibido de ensaiar com os amigos da banda. É verdade, ele tem uma
banda, mas nada que mereça mais um comentário sequer. Muito triste,
isso, mas temos que manter os padrões elevados. "A senhora tem certeza
de que ela está grávida?" A pergunta que ainda assombra meninos e
meninas pelo mundo afora. Mas ele não estava nem um pouco abalado;
entrar na vida de estranhos por alguns momentos não o deixava
realmente tocado, ele até achou tudo muito divertido. Quem diria que
um telefonema errado iria tirar um pouco da monotonia típica das
tardes dos estudantes de colégio? "Não, a senhora não precisa se
preocupar, eu caso sim... Eu sei, é que eu pensei um pouco melhor, e
decidi casar com ela, mesmo. Eu percebi que eu amo a Verinha". Aquilo
dito, a mulher deve ter se acalmado, pois Caio não mais franzia o
cenho. "Vamos fazer o seguinte: diga para ela me encontrar... tá
certo, tá certo, no colégio... de que horas acaba a aula mesmo? ...da
noite? ...pronto. Diga a ela que me espere lá na frente da parada de
ônibus. Agora veja só, avise a ela que me espere, e se eu não for, tá
tudo acabado, viu? Quando ela sair do curso eu falo com ela, agora
diga que se eu não for, eu nem caso e nem reconheço o filho, entendeu?
Dê o recado..." Maldade pura, isso de fazer pouco caso da vida alheia.
Mas tudo parecia brincadeira, e ele mentalizava todos os colegas do
colégio rindo da peça que ele pregara na grávida e na velha boba. O
telefone foi desligado, mas Caio não colocou a música de imediato:
parecia absorto numa possibilidade obscura, algo que ele não queria
ver mas, mesmo assim, insistia em tirar sua atenção. A sensação, a
velha sensação de que algo estava errado pairava no ar, grossa como
pudim. Ele procurava não pensar naquilo que acabara de fazer, nas
engrenagens do destino postas em movimento. Deuses ex machina. O ar
estava carregado, e o sol que brilhava pela janela aberta foi embora:
nuvens negras bloqueavam seus raios, esfriando o dia rapidamente,
juntamente com o ânimo de Caio. Mas ainda restaram forças para
pressionar o botão mágico e o barulho afastou os maus espíritos, no
melhor estilo tibetano. Pause. É um conceito bastante interessante,
interromper algo pela metade, antes mesmo de completo o ciclo. Coisas
da modernidade. Com a presença do lupus e o barulho da guitarra, o
quarto tornou a irradiar a energia acolhedora de sempre, e nosso amigo
pôde relaxar uma vez mais. Não que sua posição, quando comparada à do
início da tarde, tenha variado muito. No momento, a diferença básica
residia num livro posicionado entre seus olhos e a parede oposta, onde
um enorme pôster descansava, colado à parede. Duas garotinhas de
vestido branco adornado por pequeninas flores douradas faziam caretas,
eternamente estirando suas línguas para os observadores do curioso
retrato. Asas de borboleta brancas surgiam por detrás das singelas
silhuetas, como que para completar o quadro, assegurando tratar-se, na
realidade, de dois pequenos anjos travessos. O livro era uma edição
recém comprada do livro um do "Senhor dos Anéis", título que Caio não
podia deixar de ler, pois o filme estaria nos cinemas muito em breve,
e ele não queria ficar de fora da moda tolkeniana, e a maioria dos
seus amigos já tinha lido. A noite chegou rápida, e podemos deixar
transcorrer o fluxo temporal tranqüilamente, posto que nada que mereça
atenção ocorreu nas horas seguintes. Isto é, nada a não ser os gritos
do irmão mais velho, o universitário, para que Caio abaixasse
"...aquele maldito barulho". No mais, podemos descansar a atenção por
algumas horas. É hora de dormir, o jantar já foi servido, e as
migalhas, recolhidas. As que se perderam no tapete felpudo foram pegas
pelas diligentes formigas, as únicas ainda acordadas em toda a casa.
No quarto escuro, os barulhos da cidade formavam a "estática urbana"
`a qual todos estão acostumados hoje em dia. A janela do quarto estava
aberta, uma brisa garantia o frescor do ambiente. Caio dormia todo
coberto, apenas o rosto de fora. Não se sabe ao certo se ele dormira
com as pernas de fora quando pequeno, passando por algum trauma que o
fez se esconder para sempre debaixo da camada protetora de lençol e
edredom; isso é mera especulação. Mas os sonhos de Caio não pareciam
ser nada bons, pelo modo como ele se remexia e gemia baixinho. Ao
acostumar os olhos à escuridão, seria possível notar minúsculas
gotículas de suor em sua testa, o velho clichê cinematográfico, desta
vez de verdade. Sonhos bons. Sonhos maus. Pesadelos. Ao contrário do
que a maioria pensa, essas três gradações do sonhar existem. Os sonhos
bons, hipótese prontamente descartada no caso acima, são aqueles nos
quais as pessoas gastam boa parte da noite em histórias estranhas,
porém agradáveis. Os sonhos maus diferem da definição acima apenas
pelo final, pois uma sensação ruim permeia toda a história, fazendo
com que o sonhador se sinta incomodado em estar presente ao desenrolar
do enredo. Já os pesadelos são facilmente identificados como tais.
Caio deve ter tido algo dessa última espécie: o suor frio havia
umedecido as cobertas, seu coração estava disparado e tinha a vontade
de nunca mais sentir aquilo de novo. Sonhara com um longo corredor,
cheio de portas, por onde corria sem parar. Algo estava próximo, uma
coisa tão ruim que ele não ousava sequer tentar imaginá-la, pois nos
pesadelos é sempre assim: quando se pensa em uma situação horrível,
ela acontece em seguida. No corredor, ele não queria abrir nenhuma
porta, pois sabia que apenas uma delas era a certa. Caso errasse,
seria o fim, então ele corria sem parar, adiando a decisão ao máximo.
De repente, ele chegou ao fim do corredor, e tinha que escolher uma
porta rapidamente. À sua frente, uma placa luminosa indicava: "Saída".
Mas algo de errado emanava daquela porta: estava fácil demais, por
assim dizer. Sem pensar duas vezes, Caio abrira a porta do lado, se
jogando através dela. Era a certa. No pátio do colégio, ele vira
imensas naves alienígenas pairando sobre os prédios mais próximos, com
suas longas escadas luminosas tocando o chão. Mas era impossível, não
estava certo. Ele viu um vulto cair de uma das naves, em sua direção,
era uma mulher gritando, uma mulher gorda, grávida, e ele assistia à
queda abobalhado, ela ia cair em cima dele e ele nem se mexia.
Primeiro ele sentiu a barriga da mulher se abrindo em sua cabeça, e o
líquido quente jorrou sobre ele. Ploft. Ao acordar, as cobertas
molhadas aumentaram a sensação de nojo que sentia. O relógio de
cabeceira mostrava as horas em algarismos luminosos: 03:15 . A
expressão "mau agouro" passou por sua cabeça sonolenta, e o pesadelo
era vencido, pouco a pouco, pelo despertar. A idéia de se levantar
ficava distante, e a umidade dos lençóis não mais importava. Dois
minutos depois, dormia novamente. Na manhã seguinte, tomou café como
de costume, o pesadelo já completamente esquecido, e foi para a
escola. Passou a manhã entre equações e fórmulas, apenas recebendo o
resultado da prova no último horário. João, seu amigo, havia tirado
nove e meio. Caio recebeu sua prova e se pôs a praguejar: "Malditos
sejam todos os CDF's da face da terra! Eu me ralei de estudar e tirei
um seis e meio, João. Meio ponto abaixo da média, quando eu devia ter
tirado no mínimo um oito, para recuperar a unidade passada. Tem horas
que eu te odeio, cara." Um soco de mentira na barriga do amigo, e a
fisionomia aborrecida desapareceu. Afinal, ainda havia uma unidade
para recuperar as notas baixas, não havia? E até Renato Russo
detestava química, e devia ser muito inteligente para escrever todas
aquelas letras... Caio voltou para casa alguns minutos mais cedo, pois
fora liberado após receber a prova. Demorou apenas trinta minutos do
colégio até a esquina da rua onde morava, pois o trânsito não estava
muito intenso àquela hora. Da esquina, podia ver um estranho
aglomerado de carros e pessoas se formando em frente ao seu prédio.
Carros da polícia e do corpo de bombeiros estavam parados dos dois
lados da rua. Tentou entrar pelo portão de pedestres, mas o porteiro
não estava na guarita, e ninguém veio deixá-lo entrar. Por sorte vinha
chegando um carro, e o motorista acionou o portão automático,
permitindo que Caio entrasse no prédio. Que absurdo, ser barrado na
porta da própria casa. Mas havia algo estranho acontecendo no pilotis,
e ele tratou de subir os lances de escada que davam acesso ao local.
Encontrou muitos dos moradores do prédio com expressões pesarosas,
conversando em pequenos grupos espalhados pelos cantos. Viu alguns
vizinhos se aproximando dele, e percebeu pelos seus rostos que diriam
algo como "vá para casa, Caio, é melhor você não ver isso", ou "você é
muito novo para ver uma desgraça dessas, meu filho". Mas ele se
esquivou rapidamente, conseguindo driblar a cerca viva que tentava
impedi-lo de ver o que tinha acontecido. Havia um policial de costas,
abaixado, e uma grande poça de sangue no chão. O sangue começava a
secar, coagulando-se em crostas no piso irregular. Mais para a
esquerda, um rico veio rubro corria em direção à poça, caindo em
pequenas cascatas do primeiro degrau de uma série de cinco, que
levavam ao hall social. Entre o terceiro e o quarto degraus Caio pôde
ver um braço, inerte, dobrado num ângulo estranho. No quinto degrau
repousavam os restos de uma cabeça, uma confusão de cabelos
castanho-claros e sangue. Ouvia vozes, não muito claras, de pessoas ao
seu redor. Era a empregada do 1201, ela havia pulado. Suicídio, diziam
as vozes, um pecado condenar uma alma imortal ao inferno. Não, ao Vale
dos Suicidas, diziam outros. Ela iria esperar até a sua hora
verdadeira de morrer, se arrependendo do que fez. Não, é pecado tirar
a própria vida, ela foi para o inferno. Discussões. Alguém perguntou:
"O que esse menino está fazendo aqui? Alguém tire ele daqui, eu quero
toda a área isolada até tirarmos o corpo..." Caio não sentiu a mão que
o agarrara firmemente pelo braço, nem o policial perguntando em que
apartamento ele morava. Tudo o que via era aquela massa de cabelos
ensangüentados, a cabeça aberta no quinto batente, no último degrau.
Não o primeiro, de onde escorria o sangue até parar na poça mais
abaixo, nem o terceiro ou o quarto, onde repousava o braço quebrado.
Um-dois-três-quatro-cinco, essa era a ordem. Não eram os cabelos o
problema, mas o que estava por detrás deles: olhos esbugalhados,
injetados de sangue, congelados, mas que, de alguma forma, olhavam
diretamente para Caio. Olho no olho, os olhos de um morto. Algo
estalou em sua cabeça, e ele se corrigiu mentalmente: não olho no
olho, mas olho por olho. O policial o levava para longe, mas ele não
conseguia desviar-se daquele olhar tão pessoal. E teve a nítida
impressão de que, tal qual a Mona Lisa por detrás do vidro, no Louvre,
aqueles olhos o seguiam. Uma lógica cruel se formava: o nome da
empregada era Vera, Verinha para as crianças, ela tinha dezenove anos
e estava completando o primeiro grau, agora ensino fundamental, numa
escola pública noturna. Morava com a mãe na periferia da cidade, e
Caio ouvira rumores de que ela estava tendo um caso com algum morador
do prédio. José Antônio, Zeca, o filho do contador do 1902... E Caio
morava logo embaixo, no 1802. A mãe de Vera provavelmente havia
procurado o telefone do rapaz num catálogo telefônico, e confundira os
apartamentos. O trote. Naquela noite, os pesadelos voltaram mais
fortes que da outra vez. Num quarto escuro, ele sentia aquela presença
maligna de monstro-bichopapão-lobisomem-vampiro-zumbi. Enfrentaria
exércitos dessas criaturas para não ter que encarar aquela coisa
terrível. Tudo estava pior dessa vez: o corredor estava mais escuro e
tortuoso, as portas estavam todas fechadas por tábuas pregadas, e um
rastro de sangue dividia o piso de um extremo ao outro. Caio tinha que
correr mais rápido, evitar o sangue maldito e encontrar a única porta
ainda aberta. Dessa vez, não havia truques: era conseguir alcançar a
saída e salvar-se, ou enfrentar o que quer que estivesse lhe
perseguindo. Seu coração quase saltava do peito, as pernas tremiam e o
terror eriçava todo e qualquer pêlo de seu corpo. De repente, um sinal
luminoso acendeu um pouco à frente: "Não Corra", no mesmo estilo da
antiga placa de "Saída". Ele segurou um grito, transformando-o num
gemido abafado, deteve o passo e se pôs a caminhar o mais rapidamente
que pôde. Queria correr, sentia aquela coisa se aproximando e não
queria olhar de jeito nenhum. A placa apagou-se e ele disparou
novamente, sentindo mais medo que da primeira vez, pois a distância
entre ele e o-que-quer-que-fosse havia diminuído. Seus olhos ardiam,
lacrimejavam, não de choro, mas de tensão. Lá na frente, uma luz
amarela prometia liberdade, a luz amarela era segurança, o fim da
perseguição, e ele não queria olhar para trás, por Deus não queria.
Atravessou a porta iluminada e parou de correr numa sala vazia, de
paredes brancas. Estava a salvo? Hesitou, não queria se certificar,
não ainda. Mas Orfeu não havia caído em truque parecido? Ao olhar para
trás, aquilo estava lá, e o pegou num salto felino. Acordou. Mas o
pesadelo parecia melhor. Era melhor do que ver aquilo, aquela mulher
de cabelos ensangüentados de pé em seu quarto. Ele gritou numa voz
estridente, de menina, e urinou a cama inteira. Aquela coisa pulou
para cima dele, agarrando-o como uma aranha gigante e colocando-o de
pé no mesmo instante. Caio sentia o aperto daquela garota morta, seu
rosto colado nos seios gelados, fedendo tanto, e ouvia sons
gorgolejantes partindo dela. Uma canção, e eles estavam dançando? O
trote. De súbito, ela segurou a cabeça dele com ambas as mãos,
forçando-o a olhar aquele rosto desfigurado, torto, morto. Nos últimos
instantes, o mais aterrador na mulher morta não fora seu cabelo
coberto de sangue ou o crânio aberto, mas o sorriso forçado nos lábios
frios, duros, e aqueles olhos esbugalhados, injetados de sangue, que o
fitavam impiedosamente. Olho no olho, olho por olho. Ela o beijou, a
língua podre forçando entrada em sua boca, e saltou junto com ele pela
janela aberta. Seus pais chegaram em seguida e comprovaram: não havia
nada no quarto, a não ser um rastro de urina em direção à queda fatal.


FIM  

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