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"O que os olhos não vêem o coração não
sente"
Provérbio popular
As pessoas que ali moravam não imaginavam que suas vidas, em breve,
sofreriam tal mudança.
É verdade que sempre andavam de um lado para outro com sorrisos
abertos nos rostos simpáticos e cumprimentos prontos nas bocas e mãos.
É também parte da verdade que nunca tinham visto seus próprios
rostos antes com a perfeição dos dias de hoje. Parece difícil de
imaginar, mas o mais perto que tinham chegado de conhecer suas feições
era nos espelhos dos lagos daquela região de ventos diúrnos ou,
com mais precisão, nos quadros dos pintores que por ali passavam.
Ainda nunca tinham ouvido falar em espelho ou fotografia e por muito
e muito tempo ainda não ouviriam. Seus netos e bisnetos talvez
chegassem a tais dias.
Os retratos tinham enorme valor àquelas pessoas e sempre eram
pendurados na parede da principal peça da casa, geralmente ao lado
de um crucifícsso, e ali permaneciam para serem admirados por todos
que passassem ou que se acomodassem para uma visita. A cada novo
retrato feito o antigo era guardado cuidadosamente a frente do mais
antigo que também já estava a frente do anterior.
Nos domingos, após a ceia matinal e a sagrada e concorrida missa na
única capela, as pessoas de lá caminhavam pelas ruelas de chão
batido e de árvores espassas, principalmente perto ao mercado.
Encontravam umas às outras com alegria e trocavam palavras
confidentes, os mais velhos ainda contavam histórias de um tempo há
muito passado e mais perfeito, enquanto as crianças brincavam de
roda levantando poeira do solo de terra vermelha deixando os
sapatinhos brancos docilmente manchados.
Quando algum dos pintores que rodeavam a região passava por ali,
muitos moradores, não importando a idade, ficavam horas nas filas
para tentar um novo retrato, dessa nova fase da vida, com um sorriso
maior e mais bonito. Eles não sabiam quando um outro viria, às
vezes demoravam meses, as distâncias ainda eram muito longas, e as
montanhas nos arredores altas e cinzas.
As filas se acumulavam e os atribulados pintores, a fim de atender a
todos, não vinham dando os retoques necessários nos sorridentes
retratos. Alguns acabavam levando seus quadros com pequenos e quase
imperceptíveis erros ou borrões, mas o sorriso era cuidadosamente
pintado, surgia aos poucos da ponta de pincéis finos para dar às
obras sua parte mais valiosa. Os mais velhos, porém, diziam que
eram bonitos, mas a nova geração de pintores não era como as mais
antigas, os ângulos não eram mais tão perfeitos nem mesmo a
testura da pele e as sombras bem definidas. "Foram-se aqueles
pintores, foi-se aquela época..." falavam como presságio de
novos tempos. Mas nem isso era motivo para mudar a expressão alegre
daquelas faces.
Foi num desses dias, quando o inverno tirava o manto que aquecia
aquela cidade e o céu começava a se confundir com o pico azulado
das montanhas, que um jovem desconhecido pintor armou o tripé e
sobre uma pedra colocou a paleta de tintas. Tinha o cabelo comprido,
olhos um tanto tristes, caídos, e mãos finas manchadas de tinta.
Acomodou-se num velho banco de madeira e molhava o pincél entre os
lábios quando a primeira pessoa postou-se à cadeira a sua frente:
uma menina-moça, de cabelos em cachos dourados como a luz do sol,
com olhos azuis delicados, e a pele fina parecendo uma folha de
papel macia e fina. Vestia um traje tipo festivo de domingo, mas
isso pouco importava, a não ser o colarinho e o chapéu que ela
retirou antes mesmo do primeiro traço. Ele deu um tímido aceno com
a cabeça e ela retribuiu-o. Podiam começar.
Passaram-se algumas horas para que o retrato ficasse pronto. Durante
esse tempo ele se limitou a movimentos lentos dos olhos que iam do
quadro para ela e dela para o quadro, e a mão, com uma destreza até
então nunca vista, riscava o ar tocando à tela apenas os pêlos do
pincel.
O vento lento do início da primavera faria secar com espantosa
rapidez a obra enquanto o artista ia dando os últimos e hábeis
retoques.
A tinta do quadro agora pronto, brilhava ao sol e aos olhos daquele
pintor de mãos finas e manchadas. Todos que por ali passavam, ao
perceberem que ele limpava o pincél no pote de água e repousava as
tintas dentro da sua valhise de madeira, pararam para ver o
resultado da obra acabada. Ele colocou-se em pé sem virar a imagem
para aqueles olhos famintos e não sorriu. Olhou para aqueles
curiosos sorridentes e para a garota que continuava sentada na
cadeira com o mesmo olhar delicado dirigido a ele. Percebeu a
ansiedade de todos e com certa presunção fechou os olhos, pegou o
quadro pelas bordas e num movimento contínuo virou a imagem
calmamente para eles. Os aplausos não vieram, como de comum naquela
vila, e o silêncio durou eternos segundos antes dos primeiros
gritos eufóricos.
Logo em seguida ele foi cercado e preso, e no mesmo dia condenado à
morte pela única autoridade. Não conseguiu explicar o porquê
daquele quadro nem lhe foi dado o direito à palavra ou qualquer
tipo de defesa. Na manhã seguinte foi amarrado a um tronco
improvisado na mesma rua ao lado do mercado. As árvores tinhas suas
folhas mais próximas ao chão e nem a poeira parecia ter força
para se mexer. Ali, naquela rua que agora parecia sem vida, todos
pararam para ver. Ele confessou com o padre em voz baixa e atearam
fogo as suas roupas. O quadro da menina de rosto triste, pregado no
tronco, acima dele, chorava sobre a sua cabeça lágrimas que
evaporavam em diferentes cores. Assim, ninguém ousaria cometer um
erro capaz de abalar a paz do povoado. Não se ouviram seus gritos e
nem aplausos da multidão e, por muito tempo, ali, as pessoas
cruzariam umas pelas outras sem se olhar nos olhos, talvez
envergonhadas da sua revelada tristeza.
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