O Último Quadro

 Eduardo Boldrini

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0089]
[Autor:
Eduardo Boldrini]
[Título: O Último Quadro]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 988]

 

"O que os olhos não vêem o coração não sente"

Provérbio popular


                As pessoas que ali moravam não imaginavam que suas vidas, em breve, sofreriam tal mudança.

                É verdade que sempre andavam de um lado para outro com sorrisos abertos nos rostos simpáticos e cumprimentos prontos nas bocas e mãos. É também  parte da verdade que nunca tinham visto seus próprios rostos antes com a perfeição dos dias de hoje. Parece difícil de imaginar, mas o mais perto que tinham chegado de conhecer suas feições era nos espelhos dos lagos daquela região de ventos diúrnos ou, com mais precisão, nos quadros dos pintores que por ali passavam. Ainda nunca tinham ouvido falar em espelho ou fotografia e por muito e muito tempo ainda não ouviriam. Seus netos e bisnetos talvez chegassem a tais dias.

                Os retratos tinham enorme valor àquelas pessoas e sempre eram pendurados na parede da principal peça da casa, geralmente ao lado de um crucifícsso, e ali permaneciam para serem admirados por todos que passassem ou que se acomodassem para uma visita. A cada novo retrato feito o antigo era guardado cuidadosamente a frente do mais antigo que também já estava a frente do anterior.

                 Nos domingos, após a ceia matinal e a sagrada e concorrida missa na única capela, as pessoas de lá caminhavam pelas ruelas de chão batido e de árvores espassas, principalmente perto ao mercado. Encontravam umas às outras com alegria e trocavam palavras confidentes, os mais velhos ainda contavam histórias de um tempo há muito passado e mais perfeito, enquanto as crianças brincavam de roda levantando poeira do solo de terra vermelha deixando os sapatinhos brancos docilmente manchados.

                Quando algum dos pintores que rodeavam a região passava por ali, muitos moradores, não importando a idade, ficavam horas nas filas para tentar um novo retrato, dessa nova fase da vida, com um sorriso maior e mais bonito. Eles não sabiam quando um outro viria, às vezes demoravam meses, as distâncias ainda eram muito longas, e as montanhas nos arredores altas e cinzas.

                As filas se acumulavam e os atribulados pintores, a fim de atender a todos, não vinham dando os retoques necessários nos sorridentes retratos. Alguns acabavam levando seus quadros com pequenos e quase imperceptíveis erros ou borrões, mas o sorriso era cuidadosamente pintado, surgia aos poucos da ponta de pincéis finos para dar às obras sua parte mais valiosa. Os mais velhos, porém, diziam que eram bonitos, mas a nova geração de pintores não era como as mais antigas, os ângulos não eram mais tão perfeitos nem mesmo a testura da pele e as sombras bem definidas. "Foram-se aqueles pintores, foi-se aquela época..." falavam como presságio de novos tempos. Mas nem isso era motivo para mudar a expressão alegre daquelas faces.

                Foi num desses dias, quando o inverno tirava o manto que aquecia aquela cidade e o céu começava a se confundir com o pico azulado das montanhas, que um jovem desconhecido pintor armou o tripé e sobre uma pedra colocou a paleta de tintas. Tinha o cabelo comprido, olhos um tanto tristes, caídos, e mãos finas manchadas de tinta. Acomodou-se num velho banco de madeira e molhava o pincél entre os lábios quando a primeira pessoa postou-se à cadeira a sua frente: uma menina-moça, de cabelos em cachos dourados como a luz do sol, com olhos azuis delicados, e a pele fina parecendo uma folha de papel macia e fina. Vestia um traje tipo festivo de domingo, mas isso pouco importava, a não ser o colarinho e o chapéu que ela retirou antes mesmo do primeiro traço. Ele deu um tímido aceno com a cabeça e ela retribuiu-o. Podiam começar.

                Passaram-se algumas horas para que o retrato ficasse pronto. Durante esse tempo ele se limitou a movimentos lentos dos olhos que iam do quadro para ela e dela para o quadro, e a mão, com uma destreza até então nunca vista, riscava o ar tocando à tela apenas os pêlos do pincel.

                O vento lento do início da primavera faria secar com espantosa rapidez a obra enquanto o artista ia dando os últimos e hábeis retoques.

                A tinta do quadro agora pronto, brilhava ao sol e aos olhos daquele pintor de mãos finas e manchadas. Todos que por ali passavam, ao perceberem que ele limpava o pincél no pote de água e repousava as tintas dentro da sua valhise de madeira, pararam para ver o resultado da obra acabada. Ele colocou-se em pé sem virar a imagem para aqueles olhos famintos e não sorriu. Olhou para aqueles curiosos sorridentes e para a garota que continuava sentada na cadeira com o mesmo olhar delicado dirigido a ele. Percebeu a ansiedade de todos e com certa presunção fechou os olhos, pegou o quadro pelas bordas e num movimento contínuo virou a imagem calmamente para eles. Os aplausos não vieram, como de comum naquela vila, e o silêncio durou eternos segundos antes dos primeiros gritos eufóricos.

                Logo em seguida ele foi cercado e preso, e no mesmo dia condenado à morte pela única autoridade. Não conseguiu explicar o porquê daquele quadro nem lhe foi dado o direito à palavra ou qualquer tipo de defesa. Na manhã seguinte foi amarrado a um tronco improvisado na mesma rua ao lado do mercado. As árvores tinhas suas folhas mais próximas ao chão e nem a poeira parecia ter força para se mexer. Ali, naquela rua que agora parecia sem vida, todos pararam para ver. Ele confessou com o padre em voz baixa e atearam fogo as suas roupas. O quadro da menina de rosto triste, pregado no tronco, acima dele, chorava sobre a sua cabeça lágrimas que evaporavam em diferentes cores. Assim, ninguém ousaria cometer um erro capaz de abalar a paz do povoado. Não se ouviram seus gritos e nem aplausos da multidão e, por muito tempo, ali, as pessoas cruzariam umas pelas outras sem se olhar nos olhos, talvez envergonhadas da sua revelada tristeza.

 

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