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1o Ato
O
escritor elaborou o anúncio pela décima vez e digitou-o no
terminal.
O
símbolo inconfundível da UNIC apareceu na tela:
"BOSTON - 2015 - Elizabeth Tellmark pela CLOUD para pasta
dental EXCLUSIVE - março a julho - Amerikan Net Esterovision"
Soltou
o milésimo palavrão. Tinha vontade de esmurrar o computador.
Com
um movimento brusco, retirou o pequeno cachimbo eletrônico preso a
um dos lados do terminal e aspirou a fumaça antipoluente e
anticancerígena.
Uma
cortesia do Departamento de Pesquisa em Biofeedback da UNIC.
O
calor e um ligeiro relaxante acrescentado ao fumo diminuíram sua
irritação em alguns pontos percentuais. A pequena luz vermelha do
cachimbo foi se tornando alaranjada até se estabilizar no amarelo.
Continuou,
então, a quebrar a cabeça com as combinações possíveis.
Na
vigésima-quinta tentativa, finalmente, o maldito símbolo não
apareceu.
E
a máquina emitiu as alegres notas da Aleluia de Haendel, que ele
acompanhou em falsete.
Pequena
contribuição humorística acrescentada, por sua conta, ao
programa.
Agora,
só faltava testar os estereovídeos prontos e a trilha sonora. Às
vezes, depois do produto acabado, era preciso recomeçar por causa
de um pequeno detalhe.
A
UNIC ( Universal Idea Company ) tornara-se o terror de todos os
criadores. Uma simples firma de patentes que o gênio de seu dono
transformara no poderoso complexo mundial de hoje que englobava
todas as firmas sobre absolutamente tudo que era produzido no
planeta. De frases a imagens e músicas, de máquinas a sabonetes.
Com
a rendosa indústria dos processos por plágio, a preocupação dos
criadores tornou-se paranóica, principalmente na área de
publicidade. Quase todos trabalhavam com terminais da UNIC.
Os
outros simplesmente não existiam para o mundo do consumo.
"Rio
de Janeiro - 2021 - Marcos Cordeiro pela DPZ para sutiãs Desire -
três semanas em maio - Revistas na Web e jornais."
O
escritor jogou a cadeira longe. O cachimbo não estava sendo
suficiente.
Foi
até o banheiro , pressionou a tecla que adicionava modificadores
comportamentais à água da torneira e tomou um copo-medida.
No
espelho em frente seu rosto estava tenso e os cabelos cada vez mais
grisalhos indicando o início da Síndrome de Retroatividade Verbal
que acometia os profissionais da sua área.
Os
cabelos ficavam precocemente embranquecidos e o vocabulário,
eternamente policiado, ia se reduzindo a slogans para cada operação
do cotidiano, até que a comunicação em sociedade se tornava
impossível.
Eram,
então, internados no SEPROC ( Sanatório Especial dos Profissionais
de Criação ) onde permaneciam, em estado catatônico, os olhos
brilhantes, emitindo sílabas incompreensíveis.
Uma
parte das diárias de hospitalização saia de seus polpudos salários.
A outra era, generosamente, doada pela UNIC.
Quando o
modificador começou a fazer efeito, o Escritor voltou a se sentar
diante do terminal.
Finalmente,
os anúncios ficaram prontos. Tinham, todos os dois, exatamente 15
segundos. Mas levaram 8 dias e seis horas para serem aceitos pelo
computador.
2o Ato
Chovia
fino quando o porteiro introduziu os primeiros membros do Clube dos
Tomadores de Café no saguão iluminado.
Uma
entidade que tinha como única finalidade aparente reunir, em torno
da negra infusão, uma série de apreciadores para discutir sobre
inutilidades.
Todas
as quartas-feiras, pontualmente, às nove horas da noite, no
imponente edifício-sede da Empresa ATZ de Publicidade.
Quando
o número de participantes se completou, o Escritor, que presidia as
sessões, mandou que as portas de aço fossem fechadas.
Ninguém
mais poderia entrar ou sair da reunião.
Nesse
momento, uma radical transformação se processou entre os pacato
Tomadores de Café:
Três
deles, munidos de rastreadores eletrônicos, rapidamente vasculharam
o recinto à procura de câmeras e microfones.
Um
telão de estereovídeo apareceu atrás da mesa do conferencista e,
por uma porta até então invisível, o Desconhecido entrou e se
sentou ao lado do presidente.
O
Escritor foi direto ao assunto:
"Este
é aquele que nós chamamos o Especialista..."
Todos
os olhos se voltaram para o estranho. Um homem alto e moreno, de
pele clara e rosto sensível.
Não
parecia um matador.
"Na
verdade é o andróide Número Um da série Alpha. Um clone. Uma
reprodução absolutamente fiel, física e mentalmente, de seu
original humano, o Dr. Jason Lannor, cientista brilhante e meu
amigo. Ele trabalhou nesse projeto durante quinze anos, num laboratório
secreto nas montanhas, com uma equipe cujos membros, por motivo de
segurança, nem eu mesmo conheço integralmente. O Dr. Lannor morreu
há dois meses atrás..."
O
Escritor fez uma pausa. Os outros permaneceram em silêncio.
"Desde
então, o especialista tem se mantido oculto, com a minha ajuda, até
esse momento. Quando chegou a hora dele realizar sua primeira tarefa
para nós: eliminar o nefando Sing Lo, presidente da UNIC..."
O
silêncio se tornou mais espesso.
"O
Especialista é praticamente um homem comum. Suas necessidades são
as mesmas de um indivíduo normal de seu tamanho e idade aparente.
Pode sentir dor, fome e frio e não é dotado de super força ou
velocidade, nem tem qualquer tipo de poder desconhecido. Mas foi
projetado com uma qualidade essencial para o sucesso dessa operação:
um cérebro privilegiado e a ausência total de qualquer emoção
humana..."
Pela
primeira vez, um ligeiro tremor percorreu a assistência.
"Nem
ódio, nem medo, atrapalhando sua caminhada. Nem ambição, nem amor
impedindo-o de ver claramente seus limites..."
O
desconhecido permanecia impassível, ouvindo com atenção
concentrada e registrando todos os detalhes ao seu redor.
"Agora,
ele vai nos mostrar num programa simulação, exatamente como a
coisa deve acontecer..."
Com
seu jeito distante e tranqüilo, o Especialista inseriu o programa.
Imagens perfeitas dele e do presidente da UNIC apareceram no telão
no ambiente escolhido.
Os
espectadores prenderam, visivelmente, a respiração quando o espírito
do Sing Lo virtual foi ao encontro de seus antepassados, através da
mão certeira do Especialista.
Então
a tela escureceu novamente e todos respiraram aliviados.
O
Escritor decretou com voz fria:
"Será
amanhã, às 17 horas. Os que estiverem de acordo levantem a mão
direita."
Uma
a uma, as mãos se levantaram lentamente.
A
tela e o Especialista desapareceram pela porta secreta e os
Tomadores de Café voltaram a conversar sobre amenidades.
3o Ato
O
Honorável Sing Lo ultrapassou os portões da Universal Idea Company
cercado por sete seguranças orientais.
Quando
se aproximou do jatinho executivo preto que o levaria à sua residência,
exatamente às dezessete horas, uma rajada de metralhadora laser, de
fabricação iraquiana, separou seu corpo em duas metades.
Sua
honorável cabeça rolou até o meio-fio e ficou oscilando até cair
na sarjeta em meio à uma poça de sangue.
Essa
imagem, projetada um milhão de vezes, percorreu o mundo em todas as
estereovisões do planeta, apenas alguns segundos após o estrondo
final.
Elas
mostravam, também, um homem sendo preso rapidamente pelos seguranças,
colocado no aerocar da Polícia Volante que desaparecia no céu
contra o sol poente.
Um
visual plástico e forte, pelo qual o editor da Transeuropean
recebeu elogios do diretor e o cinegrafista foi cumprimentado com
tapinhas insinceros pelos colegas.
Enquanto
o mundo assistia, estarrecido, ao desenrolar das notícias e às
imagens do Departamento de Pesquisa sobre a vida e a obra do Honorável
Sing Lo, o Especialista era levado para a Prisão de Segurança Máxima
nas montanhas de Thor e entregue ao Serviço de Informações.
4o Ato
Situada
nos contrafortes das montanhas geladas de Thor, a Prisão de Segurança
Máxima é uma edificação escura e pesada, que se confunde com as
rochas ao seu redor.
A
muitos quilômetros de qualquer cidade e cercada por poderosos
rastreadores espaciais é praticamente inacessível tanto por terra
como pelo ar.
Só
aerocars e aeróbus policiais descem no seu aeroporto e as visitas são
proibidas.
Sua
divisa poderia ser:
"Deixai
toda a esperança ó vós que entrais."
Para
os que lá chegam como prisioneiros, a Prisão de Segurança Máxima
de Thor é o próprio Inferno.
Muitos
metros abaixo do solo, nos Laboratórios de Interrogação Científica,
os guardas colocaram o Especialista numa cadeira de aço e prenderam
suas pernas e um dos braços por garras de metal. O braço livre
repousava sobre um anteparo brilhante que terminava numa prancha
onde lhe indicaram que deixasse a mão. Ela foi, então, coberta por
um artefato de metal, a uma distância de aproximadamente 10 centímetros,
que emitia uma luminosidade violeta.
Apesar
de manietado, a posição não era totalmente inconfortável e o
Especialista passou a observar com calma as paredes claras, as máquinas
e os cientistas ao seu redor.
"Qual
é o nome dele?"
"Não
conseguimos identificação até o momento. O computador rejeitou as
impressões digitais como desconhecidas. A aparência externa é do
Doutor Jason Lannor, físico do Projeto Experimental de Manipulação
Genética."
O
outro levantou as sobrancelhas, surpreso:
"Identidade
falsa. O Dr. Lannor morreu há dois meses. Deve ter sofrido uma plástica
de alta sofisticação. Até as impressões foram alteradas... de
qualquer maneira, fizemos coleta do material celular, vamos aguardar
o exame de DNA e a resposta do Laboratório de Análises. Ele se
recusa a colaborar, claro."
O
cientista, um homem de meia-idade com a aparência de um simpático
avô meio cansado, dirigiu-se diretamente ao prisioneiro:
"Preste
atenção... Responda apenas o que eu perguntar. Como é o seu
nome?"
"Eles
me chamam o Especialista."
"É
só o que a gente consegue arrancar dele..."
"Muito
bem. deixa ele comigo..."
Dirigiu-se
outra vez, pacientemente, ao prisioneiro:
"Você
conhece este aparelho?"
O
Especialista observou atentamente a máquina:
"Parece
um Detetor de Mentiras."
"Ele
pode ser considerado um Detetor de Mentiras. Só que é muito mais
sofisticado do que esses que existem por aí... É impossível enganá-lo.
Veja bem, filho, você pode mentir para mim, mas este aparelho
percebe qualquer vibração de seus dedos, por menor que seja,
qualquer modificação na umidade da pele, a mais infinitesimal partícula
de suor, a mais imperceptível diferença de temperatura. Então, é
possível controlar todas as suas reações... saber o que se passa
na sua mente... no seu sistema nervoso..."
O
criador se entusiasmava com a criatura.
Mas
o Especialista continuava absolutamente calmo, ouvindo, como sempre,
com toda a sua atenção concentrada.
Aquela
ausência de reação desapontou um pouco o cientista. Mas era questão
de tempo.
"Quando
aquela luz verde se acender, a máquina estará ligada. Certo?"
"Certo."
"Muito
bem, Vamos começar...Qual é o seu nome verdadeiro?"
"Eles
me chamam o Especialista."
Nenhuma
reação - afirmava o computador. A tela permanecia parada. O
aparelho zumbia suavemente.
"Eu
perguntei seu nome verdadeiro. Aquele do registro civil. Diga,
filho, qual é o seu nome?"
"Eles
me chamam o Especialista."
Nenhuma reação.
O
cientista começou a suar. Não estava dentro do padrão. O homem
era uma pedra de gelo.
"Quem
são eles?"
"Os
que me chamam o Especialista."
Nenhuma
reação outra vez.
"Quantos
anos você tem?"
"Aparento
39 anos."
Não
perguntei quanto aparenta!... Responda apenas o que for
perguntado!.. Quantos anos você tem?... Responda!...
Responda!..."
O
cientista começava a perder a calma.
"Eles
me chamam o Especialista. Aparento 29 anos."
"Quer
bancar o engraçadinho, não é?... mas, se você não passar aqui
vai direto para o Comportamental e lá eles não são simpáticos
como eu, não... lá a barra é pesada... é sofrimento mesmo!...
Ninguém resiste!... é melhor cantar aqui e você fica
livre..."
Nenhuma
reação - continuava o computador zumbindo suavemente, as linhas
verdes correndo serenas como as águas de um rio preguiçoso de verão.
Quando
a sessão terminou e os guardas entraram, o Especialista continuava
absolutamente calmo. Nem um fio de seu cabelo se desarrumara. Ele
observava concentradamente o ambiente, registrando cada pequeno
detalhe. O cientista, vermelho e suado, bufava diante da máquina.
"Esse
cara não é humano!... Rasgo meus diplomas se ele não for um andróide...
pode apostar!... quero ver os exames..."
"Não
é assunto seu, Doutor. Se não conseguiu nada aqui, a ordem é levá-lo
para o pessoal da Comportamental."
"Besteira!...
Estou dizendo a vocês que ele não é humano!... não tem emoções!...
não reage!... Fica aí, sentado, feito uma pedra!... Nem uma mísera
gota de suor!... isso não existe!..."
Estava
a ponto de chorar de frustração.
O
chefe da guarda balançou a cabeça e foi saindo com o prisioneiro.
"Esses
cientistas são todos birutas..."
Deixassem
com ele e os velhos métodos tradicionais e aquele pássaro ia
cantar direitinho... Mas toda essa parafernália eletrônica de
agora... porcaria!... não valia nada!..."
Como
não era ele quem decidia, o Especialista foi levado para o segundo
subsolo, onde funcionava a menina dos olhos da Polícia Científica:
o Laboratório de Terapia Comportamental para os Desvios Patológicos
do Crime.
Quando
recuperou a consciência, estava imerso na escuridão.
Há
uma escuridão com a qual a vista, pouco a pouco, se acostuma,
distinguindo vultos e sombras.
Mas
ali, o negrume era absoluto e total.
Não
havia diferença entre abrir e fechar os olhos. Era apenas um ato
mecânico, como flexionar as mãos.
Algo
pegajoso o envolvia e impedia seus movimentos. Apalpou o lugar onde
seu corpo estava deitado. Era mole e úmido e aquela coisa estava em
volta dele a uma distância de poucos centímetros do seu rosto.
Tentou levantar a cabeça e esbarrou num tecido esponjoso que
parecia carne. Suas pernas também estavam presas como se estivesse
numa espécie de casulo meio mole. Quando tentava se mover, todo o
organismo que o cercava movia-se também de uma forma gelatinosa.
Calculou
quanto ar ainda restaria no reduzido espaço entre seu corpo e a matéria
ao redor dele e tentou se mover, levando com ele toda a estrutura.
Percebeu que, forçando o corpo, conseguia rolar sobre si mesmo e,
quem sabe, romper o que o prendia.
Embora
fosse uma operação bastante difícil (em alguns momentos a carne
esponjosa o sufocava ) conseguiu rolar o suficiente para perceber
uma claridade tênue se infiltrando a sua direita. Naquele ponto o
tecido se esgarçara numa membrana rosada pontilhada de um líquido
oleoso e amarelado.
Reunindo
toda sua força, golpeou aquele ponto aparentemente mais frágil,
mas ele apenas se tornou elástico, acompanhando seu braço.
Aproveitando que esticada parecia mais fina, enfiou as unhas com
violência entre a trama rosada e conseguiu, finalmente abrir um
buraco no tecido e enfiar o braço para fora.
Deu
um grito de dor.
Alguma
coisa o mordera, com força, no dedo e o sangue esguichava,
escorrendo para dentro do casulo, enquanto um bico escuro e
esverdeado comia o tecido ao seu redor, arrancando, na operação,
pedaços de sua pele.
Na
claridade pálida que se fez, viu que era uma espécie de ave enorme
, o bico gotejando com uma baba avermelhada, grandes asas escuras
como de morcego pousadas no chão.
Percebeu,
então, que estava num platô, sobre um precipício de onde subia
uma névoa fina e fria.
O
pássaro devorava o casulo. Rolando sobre o corpo ferido, encontrou
uma parede de rocha. Seus olhos se habituaram à claridade pálida e
ele procurou uma saída.
Não
havia.
O
pequeno platô se abria sobre a goela escancarada do abismo. Na sua
superfície descobriu os corpos dos que o precederam. Pedaços
dilacerados de braços, pernas e rostos semidevorados.
Nesse
instante, o pássaro acabou sua refeição e olhou para ele.
Apanhando um dos ossos maiores, colocou-se contra a parede e esperou
o ataque.
Com
um rufar das enormes asas, o monstro voou sobre ele, as garras
afiadas voltadas para seu rosto.
O
Especialista o enfrentou, quebrando o osso no meio de suas pálpebras
rugosas. A ave recuou e abriu o bico soltando um guincho de dor e
raiva.
E
atacou novamente.
Apanhando outro osso, tentou
se defender, mas o pássaro o empurrava na direção do abismo e
ele, escorregando no próprio sangue, ia deslizando para a beira, até
que não conseguiu mais manter o equilíbrio.
Caiu
vertiginosamente, vendo as paredes de pedra se estreitarem cada vez
mais, batendo num lado e no outro até que sua queda foi aparada por
um outro platô , ele mergulhou num pântano gelatinoso e perdeu
completamente a consciência.
Quando
acordou, estava, outra vez, na escuridão.
Pelo
ar abafado e ligeiramente úmido concluiu que estava num ambiente
fechado, talvez uma cela subterrânea, próxima de algum lençol de
água.
Seus
ouvidos aguçados distinguiram um leve gotejar, não muito distante.
Agachou-se
e apalpou o solo.
Parecia
cimento, ligeiramente molhado.
Ensaiou
alguns passos, sempre na mesma direção, com a mão estendida. Três
passadas adiante, sua mão esbarrou numa parede úmida e viscosa.
Acompanhando a parede, lentamente, descobriu um ângulo.
Retirou
o casaco esfarrapado e ensangüentado e colocou-o no chão, marcando
o lugar. Rasgou a camisa e fez curativos nos ferimentos mais
dolorosos. Depois se moveu com cuidado para a direita, tateando a
parede.
Descobriu
mais três ângulos antes de chegar de novo ao casaco e determinou
que estava num aposento de forma retangular. Não havia, pelo que
pode perceber apalpando a parede durante horas intermináveis,
portas ou janelas.
Levantando
a mão podia tocar o teto, também viscoso e frio.
A
umidade entrava nos ossos.
As
feridas feitas pelo pássaro e pela queda ardiam terrivelmente. Começou
a sentir fome e sede. Tinha todas as necessidades humanas. Mas não
havia o que fazer no momento, a não ser uma coisa: embrulhando-se
no casaco meio molhado, acomodou-se num dos cantos e dormiu.
Acordou
com uma sede torturante.
Resolveu
então atravessar diagonalmente a cela.
Cautelosamente,
colocando um pé na frente do outro, deu o primeiro passo... o
segundo...o terceiro... no quarto passo seu pé encontrou o vazio.
Com
os membros entorpecidos pelo frio, a umidade e a falta de alimento,
não conseguiu se equilibrar indo de encontro a um lago de águas
geladas abaixo dele.
O
choque fez com que perdesse a respiração e ele afundou no líquido
escuro, lutando para recuperar o fôlego. Quando conseguiu, nadou
alguns metros, no limite de suas forças, sem direção, até que o
braço esbarrou em algo sólido. Um parapeito escorregadio, que
parecia coberto de limo, para onde subiu com dificuldade.
Ficou
um minuto deitado, ofegante, o peito subindo e descendo, a garganta
ardendo como fogo.
Sentiu alguma coisa rastejando sobre suas pernas. Um ser vivo, úmido,
pesando sobres sua coxas, as patinhas arranhando a pele, subindo em
direção ao peito.
Com
um gesto rápido, agarrou a criatura e apalpou-a ..
Tudo
indicava que era uma ratazana, bastante grande e gorda.
Atirou-a
para o lado. Ela guinchou e o ruído foi diminuindo até se perder
nas profundezas.
Sentou-se
com dificuldade e ficou contemplando o negrume ao seu redor,
refletindo.
Bebeu
um pouco da água malcheirosa e isso acalmou o ardor na garganta e a
sede, embora a náusea que se seguiu o incomodasse um pouco. Quando
ela passou, sentindo-se mais forte, começou a explorar,
cuidadosamente, a nova prisão.
Ali
estaria melhor. Havia até alimento com que saciar a fome: ratos,
talvez cobras e outros animais pequenos. Descobriu também outra
companhia inanimada. Uma dezena de ossadas, provavelmente de
antecessores dele naquele lugar.
Sorriu,
satisfeito.
Pelo
menos teria armas com que se defender e capturar suas presas.
Nesse
instante, uma claridade insuportável obrigou-o a fechar os olhos.
Dentro
da sua cabeça uma voz explodiu:
"Vamos
testar a Reação Máxima Weiner"
Outra
voz respondeu:
"Mas
foi proibido pelo regulamento..."
As
vozes se misturaram num nevoeiro denso, pontilhado de sussurros e a
escuridão novamente o envolveu.
Devagar,
a claridade foi voltando.
Estava
numa escada cheia de limo, estreita e abafada. Um cheiro de mofo e
sujeira impregnava o ambiente, tornando-o sufocante. A escada descia
interminavelmente, entre paredes estreitas e úmidas, por onde
corria água que escorria para o limo dos degraus, tornando-os mais
escorregadios, dificultando a descida. Após enfrentar horas de
degraus, sempre cada vez mais para baixo, chegou a uma abertura que
dava para um túnel abafado e estreito que só podia ser percorrido
de joelhos.
O
Especialista entrou no túnel e tentou avaliar seu comprimento.
Apenas uma tênue claridade, uma fosforescência emanava de suas
paredes. Não dava para perceber onde acabava. Embora fosse tão
apertado que mal dava para se mexer dentro dele, o Especialista foi
avançando devagar, machucando mais ainda o corpo nas suas paredes.
Em determinado ponto, o túnel foi se alargando e ele pôde ficar de
pé. Ao longe, avistou uma claridade forte e soube, com toda
certeza, que naquele ponto, o Horror esperava por ele.
De
alguma forma estranha, tinha consciência de que, lá no fundo, algo
inimaginável, apavorante, estava a sua espera.
Mesmo
assim, caminhou com calma naquela direção.
A
medida que se aproximava, a sensação ia ficando mais forte.
Escondido
na luminosidade a sua frente, o Impronunciável esperava por ele.
Sabia que apenas alguns passos o separavam do Terror Absoluto.
Havia
uma música dentro da sua cabeça que se tornava cada vez mais
alucinante e a mente se fragmentava em cores, acompanhando o ritmo.
Pela primeira vez, tinha uma certa dificuldade de se concentrar.
Então,
o Especialista parou.
Os
cientistas se entreolharam. Ele já resistira mais do que era provável
imaginar.
Ia
desistir.
Mas
ele apenas continuou em passadas regulares em direção ao Inominável.
E
se atirou contra ele!...
Os
psiquiatras interromperam a experiência. O Especialista estava de
volta à realidade.
Deitado
na confortável espreguiçadeira da Terapia Comportamental.
Fechou
os olhos porque a intensidade da luz, que imitava a solar, feria
seus olhos acostumados à penumbra do corredor.
Ao
seu redor, os jardins envidraçados e coloridos do Projeto
Mente-Sonhos.
Os
cientistas tiraram o Capacete de Ondas de sua cabeça sem dizer uma
palavra.
Através
do intercomunicador chamaram o chefe da guarda.
"Ele
é todo seu."
Definitivamente,
o Especialista não reagia como um ser humano normal. Tinham
experimentado com ele os pesadelos e medos mais frequentes e mais
terríveis na extensa gama do terror humano. E ele resistira a toda
e qualquer tortura mental, mantendo sempre a mesma calma absoluta, a
mesma atenção concentrada.
Nada
era capaz de abalá-lo.
O
último recurso, o pesadelo inenarrável, o sonho maldito escondido
no mais recôndito da alma de cada um, tinham acabado de colocar na
sua mente, apesar da proibição expressa do Conselho de Ética Médica.
E
o Especialista se atirara contra ele!...
Não
tinha reações humanas. Essa foi a conclusão do seu relatório.
Agora
era com os gorilas do Terceiro Subsolo.
O
Chefe da Guarda estava satisfeito. Finalmente iam realizar um
trabalho objetivo. Esse negócio de máquinas e mente não era com
ele. Nada como uma boa sessão de dor física e ameaças de mutilação
para despertar as lembranças mais bem guardadas. Queria ver a
coragem desse sujeitinho diante do fogo, do cutelo, do pau-de-arara,
do choque elétrico. Velhos métodos, sempre eficientes. Já vira
homens mais fortes do que ele se desmancharem feito crianças.
Mas
tinha que reconhecer que era valente.
Depois
de tudo, caminhava ao seu lado em direção à tortura absolutamente
indiferente.
Olhava
as paredes ao seu redor como se nada mais importante lhe passasse
pela cabeça.
A
cela do Terceiro Subsolo era ampla e nua.
Nada
de jardins ou cadeiras aconchegantes. Apenas um catre, uma cadeira
simples e uma latrina tosca.
O
Especialista entrou, atirou-se sobre a cama e dormiu
instantaneamente.
Parado
diante dele o Chefe da Guarda observava a respiração regular e o
rosto sereno.
O
homem era frio. Isto ele tinha que admitir.
A
sombra do Torturador, debruçado sobre ele, diminuiu um pouco a
intensidade da luz que o cegava.
"Quem
são eles?... Fala desgraçado!..."
A
voz doce do início desaparecera. Era uma de suas características:
extrema dor física e uma gentileza oriental. Mas este cara o punha
fora do sério.
O
estilete arrancou a última unha com violência.
O
Especialista soltou um urro e tombou para trás. De sua boca
escorriam sangue e saliva e o rosto intumescido estava coberto de
suor. Os olhos eram uma pasta irreconhecível.
Mas,
entre as pálpebras feridas, o olhar era frio.
Quando
retornou a posição inicial, ele apenas sorriu com dificuldade e
respondeu:
"Eles
me chamam o Especialista."
Um
pontapé no estômago o jogou fora da cadeira.
"Levem
esse filho de uma cadela de novo pro pau-de-arara... Eu desisto!...
DE-SIS-TO!... Ele não é normal!... É um pervertido... Parece que
gosta de sofrer!..."
"Pois
vamos satisfazer os desejos dele..."
O
Chefe da Guarda arrastou o prisioneiro que seguiu cambaleando pelo
corredor.
O
Torturador examinou o papel à sua frente.
"Agora
é tarde demais. O pássaro se foi esta manhã..."
"Que
merda é essa?... Eu disse que preservasse a vida dele... As ordens
foram bem claras!..."
"O
homem resistiu a tudo... essas coisas acontecem... a gente não pode
controlar... um coração mais fraco..."
"Coração
fraco porra nenhuma!... Você leu o relatório. As análises concluíram
que não era humano. Um clone!... um exemplar raríssimo perdido por
causa da incompetência de vocês!... Um andróide não pode ser
destruído tão facilmente!..."
"Olha
aqui, não enche meu saco!... Ninguém me avisa nada... entregam a
mercadoria e querem que eu arranque a informação. Depois, se
alguma coisa dá errado vem querer me culpar. Que se danem!... Eu
estou me lixando pra esse seu precioso robô!..."
"Robô,
não!... Clone, seu cretino!... Um andróide em tudo semelhante ao
homem... coisa raríssima!... E você destruiu com seu sadismo
burro!.... Mas não vai ficar assim, não!... Pode esperar que vem
chumbo grosso!..."
O
Torturador sacudiu os ombros.
"Que
se danem!..."
Final
O
Escritor ligou a estereovisão.
A
claridade da enorme tela cortou a penumbra da sala.
Os
Tomadores de Café observavam atentamente as imagens do noticiário.
Quando o locutor anunciou que o assassino do Honorável Sing-Lo se
suicidara na prisão, o mesmo sorriso irônico percorreu seus
rostos.
"...os
psicólogos da Polícia Científica garantem que era um
desequilibrado e que agiu sozinho. Os motivos para o seu gesto ainda
estão sendo investigados. Os policiais liberaram fotos do
prisioneiro enforcado com uma corda feita com tiras do próprio lençol.
Entidades de Direitos Humanos de várias partes do mundo protestaram
e entraram com pedidos exigindo a autópsia do acusado. Mas as
autoridades carcerárias garantem que ele será cremado amanhã às
17 horas. Como não tem parentes conhecidos, a cerimônia acontecerá
no Crematório da Prisão de Segurança Máxima de Thor..."
O
sorriso continuava.
"...
e atenção para essa notícia: O PRESIDENTE DA UNIC, SING-LO, NÃO
MORREU NO ATENTADO!... Foi atingido em seu lugar um clone Sing Lo
II, usado para ocasiões de perigo..."
Na
suite da notícia, o locutor explicava, com desenhos
computadorizados, o que era um andróide substituto e como
funcionava. Logo depois, um sorridente Sing-Lo apareceu na tela,
agradecendo a solidariedade e o pesar manifestados durante a sua
suposta morte e demonstrando estar mais robusto e bem-disposto do
que nunca.
O
Escritor fitou os trinta e seis Judas ao seu redor e em cada sorriso
viu o mesmo brilho dos trinta dinheiros.
O
círculo dos traidores se fechou sobre ele e a última coisa que viu
foi uma arma apontada diretamente sobre sua cabeça.
Quando
foi destruída a câmera de estereovídeo colocada atrás de suas células-olhos.
No
interior do subterrâneo, em algum lugar do planeta, o Dr. Lannor
desligou o aparelho receptor.
"Eu
estava certo. Não se podia confiar neles..."
O
Escritor concordou, entristecido.
"Eram
bons camaradas. O poder corrompe."
O
outro não fez comentários. Perguntou apenas:
"Quer
vê-lo agora?"
"Quero.
A inteligência será preservada?"
"Claro.
É um cérebro privilegiado. Mas quando os Tomadores de Café foram
avisá-lo, já era o clone que estava na presidência da UNIC. O
nosso clone. Aquele que o Especialista "matou".
"Um
plano sem falhas..."
O
Escritor sorriu.
Entraram
juntos no Laboratório. Deitado numa prancha metálica, suspenso a
um metro e trinta de altura, com monitores do Programa de Dissolução
da Personalidade envolvendo sua cabeça, o poderoso Sing Lo,
presidente da UNIC, respirava suavemente.
"Quando
voltar a si fará apenas o que nós quisermos. Agora somos os
verdadeiros donos da Universal Idea Company! E destruiremos pedra
por pedra de sua abominável estrutura... Viva a liberdade de
expressão!..."
O
Escritor respondeu:
"Viva!..."
Mas
seu entusiasmo soou falso.
Pela
primeira vez, ele e o Dr. Lannor evitaram se encarar.
Afinal
a UNIC era a UNIC.
O poder corrompe.
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