O Especialista

 Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0088]
[Autora:
Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira]
[Título: O Especialista]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 4.590]

 

1o Ato

        O escritor elaborou o anúncio pela décima vez e digitou-o no terminal.

        O símbolo inconfundível da UNIC apareceu na tela:

         "BOSTON - 2015 - Elizabeth Tellmark pela CLOUD para pasta dental EXCLUSIVE - março a julho - Amerikan Net Esterovision"

        Soltou o milésimo palavrão. Tinha vontade de esmurrar o computador.

        Com um movimento brusco, retirou o pequeno cachimbo eletrônico preso a um dos lados do terminal e aspirou a fumaça antipoluente e anticancerígena.

        Uma cortesia do Departamento de Pesquisa em Biofeedback da UNIC.

        O calor e um ligeiro relaxante acrescentado ao fumo diminuíram sua irritação em alguns pontos percentuais. A pequena luz vermelha do cachimbo foi se tornando alaranjada até se estabilizar no amarelo.

        Continuou, então, a quebrar a cabeça com as combinações possíveis.

        Na vigésima-quinta tentativa, finalmente, o maldito símbolo não apareceu.

        E a máquina emitiu as alegres notas da Aleluia de Haendel, que ele acompanhou em falsete.

        Pequena contribuição humorística acrescentada, por sua conta, ao programa.

        Agora, só faltava testar os estereovídeos prontos e a trilha sonora. Às vezes, depois do produto acabado, era preciso recomeçar por causa de um pequeno detalhe.

        A UNIC ( Universal Idea Company ) tornara-se o terror de todos os criadores. Uma simples firma de patentes que o gênio de seu dono transformara no poderoso complexo mundial de hoje que englobava todas as firmas sobre absolutamente tudo que era produzido no planeta. De frases a imagens e músicas, de máquinas a sabonetes.

        Com a rendosa indústria dos processos por plágio, a preocupação dos criadores tornou-se paranóica, principalmente na área de publicidade. Quase todos trabalhavam com terminais da UNIC.

        Os outros simplesmente não existiam para o mundo do consumo.

        "Rio de Janeiro - 2021 - Marcos Cordeiro pela DPZ para sutiãs Desire - três semanas em maio - Revistas na Web e jornais."

        O escritor jogou a cadeira longe. O cachimbo não estava sendo suficiente.

        Foi até o banheiro , pressionou a tecla que adicionava modificadores comportamentais à água da torneira e tomou um copo-medida.

        No espelho em frente seu rosto estava tenso e os cabelos cada vez mais grisalhos indicando o início da Síndrome de Retroatividade Verbal que acometia os profissionais da sua área.

        Os cabelos ficavam precocemente embranquecidos e o vocabulário, eternamente policiado, ia se reduzindo a slogans para cada operação do cotidiano, até que a comunicação em sociedade se tornava impossível.

        Eram, então, internados no SEPROC ( Sanatório Especial dos Profissionais de Criação ) onde permaneciam, em estado catatônico, os olhos brilhantes, emitindo sílabas incompreensíveis.

        Uma parte das diárias de hospitalização saia de seus polpudos salários. A outra era, generosamente, doada pela UNIC.

Quando o modificador começou a fazer efeito, o Escritor voltou a se sentar diante do terminal.

        Finalmente, os anúncios ficaram prontos. Tinham, todos os dois, exatamente 15 segundos. Mas levaram 8 dias e seis horas para serem aceitos pelo computador.

 


2o Ato

 

        Chovia fino quando o porteiro introduziu os primeiros membros do Clube dos Tomadores de Café no saguão iluminado.

        Uma entidade que tinha como única finalidade aparente reunir, em torno da negra infusão, uma série de apreciadores para discutir sobre inutilidades.

        Todas as quartas-feiras, pontualmente, às nove horas da noite, no imponente edifício-sede da Empresa ATZ de Publicidade.

        Quando o número de participantes se completou, o Escritor, que presidia as sessões, mandou que as portas de aço fossem fechadas.

        Ninguém mais poderia entrar ou sair da reunião.

        Nesse momento, uma radical transformação se processou entre os pacato Tomadores de Café:

        Três deles, munidos de rastreadores eletrônicos, rapidamente vasculharam o recinto à procura de câmeras e microfones.

        Um telão de estereovídeo apareceu atrás da mesa do conferencista e, por uma porta até então invisível, o Desconhecido entrou e se sentou ao lado do presidente.

        O Escritor foi direto ao assunto:

        "Este é aquele que nós chamamos o Especialista..."

        Todos os olhos se voltaram para o estranho. Um homem alto e moreno, de pele clara e rosto sensível.

        Não parecia um matador.

        "Na verdade é o andróide Número Um da série Alpha. Um clone. Uma reprodução absolutamente fiel, física e mentalmente, de seu original humano, o Dr. Jason Lannor, cientista brilhante e meu amigo. Ele trabalhou nesse projeto durante quinze anos, num laboratório secreto nas montanhas, com uma equipe cujos membros, por motivo de segurança, nem eu mesmo conheço integralmente. O Dr. Lannor morreu há dois meses atrás..."

        O Escritor fez uma pausa. Os outros permaneceram em silêncio.

        "Desde então, o especialista tem se mantido oculto, com a minha ajuda, até esse momento. Quando chegou a hora dele realizar sua primeira tarefa para nós: eliminar o nefando Sing Lo, presidente da UNIC..."

        O silêncio se tornou mais espesso.

        "O Especialista é praticamente um homem comum. Suas necessidades são as mesmas de um indivíduo normal de seu tamanho e idade aparente. Pode sentir dor, fome e frio e não é dotado de super força ou velocidade, nem tem qualquer tipo de poder desconhecido. Mas foi projetado com uma qualidade essencial para o sucesso dessa operação: um cérebro privilegiado e a ausência total de qualquer emoção humana..."

        Pela primeira vez, um ligeiro tremor percorreu a assistência.

        "Nem ódio, nem medo, atrapalhando sua caminhada. Nem ambição, nem amor impedindo-o de ver claramente seus limites..."

        O desconhecido permanecia impassível, ouvindo com atenção concentrada e registrando todos os detalhes ao seu redor.

        "Agora, ele vai nos mostrar num programa simulação, exatamente como a coisa deve acontecer..."

        Com seu jeito distante e tranqüilo, o Especialista inseriu o programa. Imagens perfeitas dele e do presidente da UNIC apareceram no telão no ambiente escolhido.

        Os espectadores prenderam, visivelmente, a respiração quando o espírito do Sing Lo virtual foi ao encontro de seus antepassados, através da mão certeira do Especialista.

        Então a tela escureceu novamente e todos respiraram aliviados.

        O Escritor decretou com voz fria:

        "Será amanhã, às 17 horas. Os que estiverem de acordo levantem a mão direita."

        Uma a uma, as mãos se levantaram lentamente.

        A tela e o Especialista desapareceram pela porta secreta e os Tomadores de Café voltaram a conversar sobre amenidades.

 


3o Ato

 

        O Honorável Sing Lo ultrapassou os portões da Universal Idea Company cercado por sete seguranças orientais.

        Quando se aproximou do jatinho executivo preto que o levaria à sua residência, exatamente às dezessete horas, uma rajada de metralhadora laser, de fabricação iraquiana, separou seu corpo em duas metades.

        Sua honorável cabeça rolou até o meio-fio e ficou oscilando até cair na sarjeta em meio à uma poça de sangue.

        Essa imagem, projetada um milhão de vezes, percorreu o mundo em todas as estereovisões do planeta, apenas alguns segundos após o estrondo final.

        Elas mostravam, também, um homem sendo preso rapidamente pelos seguranças, colocado no aerocar da Polícia Volante que desaparecia no céu contra o sol poente.

        Um visual plástico e forte, pelo qual o editor da Transeuropean recebeu elogios do diretor e o cinegrafista foi cumprimentado com tapinhas insinceros pelos colegas.

        Enquanto o mundo assistia, estarrecido, ao desenrolar das notícias e às imagens do Departamento de Pesquisa sobre a vida e a obra do Honorável Sing Lo, o Especialista era levado para a Prisão de Segurança Máxima nas montanhas de Thor e entregue ao Serviço de Informações.

 


4o Ato

 

        Situada nos contrafortes das montanhas geladas de Thor, a Prisão de Segurança Máxima é uma edificação escura e pesada, que se confunde com as rochas ao seu redor.

        A muitos quilômetros de qualquer cidade e cercada por poderosos rastreadores espaciais é praticamente inacessível tanto por terra como pelo ar.

        Só aerocars e aeróbus policiais descem no seu aeroporto e as visitas são proibidas.

        Sua divisa poderia ser:

        "Deixai toda a esperança ó vós que entrais."

        Para os que lá chegam como prisioneiros, a Prisão de Segurança Máxima de Thor é o próprio Inferno.

        Muitos metros abaixo do solo, nos Laboratórios de Interrogação Científica, os guardas colocaram o Especialista numa cadeira de aço e prenderam suas pernas e um dos braços por garras de metal. O braço livre repousava sobre um anteparo brilhante que terminava numa prancha onde lhe indicaram que deixasse a mão. Ela foi, então, coberta por um artefato de metal, a uma distância de aproximadamente 10 centímetros, que emitia uma luminosidade violeta.

        Apesar de manietado, a posição não era totalmente inconfortável e o Especialista passou a observar com calma as paredes claras, as máquinas e os cientistas ao seu redor.

        "Qual é o nome dele?"

        "Não conseguimos identificação até o momento. O computador rejeitou as impressões digitais como desconhecidas. A aparência externa é do Doutor Jason Lannor, físico do Projeto Experimental de Manipulação Genética."

        O outro levantou as sobrancelhas, surpreso:

        "Identidade falsa. O Dr. Lannor morreu há dois meses. Deve ter sofrido uma plástica de alta sofisticação. Até as impressões foram alteradas... de qualquer maneira, fizemos coleta do material celular, vamos aguardar o exame de DNA e a resposta do Laboratório de Análises. Ele se recusa a colaborar, claro."

        O cientista, um homem de meia-idade com a aparência de um simpático avô meio cansado, dirigiu-se diretamente ao prisioneiro:

        "Preste atenção... Responda apenas o que eu perguntar. Como é o seu nome?"

        "Eles me chamam o Especialista."

        "É só o que a gente consegue arrancar dele..."

        "Muito bem. deixa ele comigo..."

        Dirigiu-se outra vez, pacientemente, ao prisioneiro:

        "Você conhece este aparelho?"

        O Especialista observou atentamente a máquina:

        "Parece um Detetor de Mentiras."

        "Ele pode ser considerado um Detetor de Mentiras. Só que é muito mais sofisticado do que esses que existem por aí... É impossível enganá-lo. Veja bem, filho, você pode mentir para mim, mas este aparelho percebe qualquer vibração de seus dedos, por menor que seja, qualquer modificação na umidade da pele, a mais infinitesimal partícula de suor, a mais imperceptível diferença de temperatura. Então, é possível controlar todas as suas reações... saber o que se passa na sua mente... no seu sistema nervoso..."

        O criador se entusiasmava com a criatura.

        Mas o Especialista continuava absolutamente calmo, ouvindo, como sempre, com toda a sua atenção concentrada.

        Aquela ausência de reação desapontou um pouco o cientista. Mas era questão de tempo.

        "Quando aquela luz verde se acender, a máquina estará ligada. Certo?"

        "Certo."

        "Muito bem, Vamos começar...Qual é o seu nome verdadeiro?"

        "Eles me chamam o Especialista."

        Nenhuma reação - afirmava o computador. A tela permanecia parada. O aparelho zumbia suavemente.

        "Eu perguntei seu nome verdadeiro. Aquele do registro civil. Diga, filho, qual é o seu nome?"

        "Eles me chamam o Especialista."

         Nenhuma reação.

        O cientista começou a suar. Não estava dentro do padrão. O homem era uma pedra de gelo.

        "Quem são eles?"

        "Os que me chamam o Especialista."

        Nenhuma reação outra vez.

        "Quantos anos você tem?"

        "Aparento 39 anos."

        Não perguntei quanto aparenta!... Responda apenas o que for perguntado!.. Quantos anos você tem?... Responda!... Responda!..."

        O cientista começava a perder a calma.

        "Eles me chamam o Especialista. Aparento 29 anos."

        "Quer bancar o engraçadinho, não é?... mas, se você não passar aqui vai direto para o Comportamental e lá eles não são simpáticos como eu, não... lá a barra é pesada... é sofrimento mesmo!... Ninguém resiste!... é melhor cantar aqui e você fica livre..."

        Nenhuma reação - continuava o computador zumbindo suavemente, as linhas verdes correndo serenas como as águas de um rio preguiçoso de verão.

        Quando a sessão terminou e os guardas entraram, o Especialista continuava absolutamente calmo. Nem um fio de seu cabelo se desarrumara. Ele observava concentradamente o ambiente, registrando cada pequeno detalhe. O cientista, vermelho e suado, bufava diante da máquina.

        "Esse cara não é humano!... Rasgo meus diplomas se ele não for um andróide... pode apostar!... quero ver os exames..."

        "Não é assunto seu, Doutor. Se não conseguiu nada aqui, a ordem é levá-lo para o pessoal da Comportamental."

        "Besteira!... Estou dizendo a vocês que ele não é humano!... não tem emoções!... não reage!... Fica aí, sentado, feito uma pedra!... Nem uma mísera gota de suor!... isso não existe!..."

        Estava a ponto de chorar de frustração.

        O chefe da guarda balançou a cabeça e foi saindo com o prisioneiro.

        "Esses cientistas são todos birutas..."

        Deixassem com ele e os velhos métodos tradicionais e aquele pássaro ia cantar direitinho... Mas toda essa parafernália eletrônica de agora... porcaria!... não valia nada!..."

        Como não era ele quem decidia, o Especialista foi levado para o segundo subsolo, onde funcionava a menina dos olhos da Polícia Científica: o Laboratório de Terapia Comportamental para os Desvios Patológicos do Crime.

 

        Quando recuperou a consciência, estava imerso na escuridão.

        Há uma escuridão com a qual a vista, pouco a pouco, se acostuma, distinguindo vultos e sombras.

        Mas ali, o negrume era absoluto e total.

        Não havia diferença entre abrir e fechar os olhos. Era apenas um ato mecânico, como flexionar as mãos.

        Algo pegajoso o envolvia e impedia seus movimentos. Apalpou o lugar onde seu corpo estava deitado. Era mole e úmido e aquela coisa estava em volta dele a uma distância de poucos centímetros do seu rosto. Tentou levantar a cabeça e esbarrou num tecido esponjoso que parecia carne. Suas pernas também estavam presas como se estivesse numa espécie de casulo meio mole. Quando tentava se mover, todo o organismo que o cercava movia-se também de uma forma gelatinosa.

        Calculou quanto ar ainda restaria no reduzido espaço entre seu corpo e a matéria ao redor dele e tentou se mover, levando com ele toda a estrutura. Percebeu que, forçando o corpo, conseguia rolar sobre si mesmo e, quem sabe, romper o que o prendia.

        Embora fosse uma operação bastante difícil (em alguns momentos a carne esponjosa o sufocava ) conseguiu rolar o suficiente para perceber uma claridade tênue se infiltrando a sua direita. Naquele ponto o tecido se esgarçara numa membrana rosada pontilhada de um líquido oleoso e amarelado.

        Reunindo toda sua força, golpeou aquele ponto aparentemente mais frágil, mas ele apenas se tornou elástico, acompanhando seu braço. Aproveitando que esticada parecia mais fina, enfiou as unhas com violência entre a trama rosada e conseguiu, finalmente abrir um buraco no tecido e enfiar o braço para fora.

        Deu um grito de dor.

        Alguma coisa o mordera, com força, no dedo e o sangue esguichava, escorrendo para dentro do casulo, enquanto um bico escuro e esverdeado comia o tecido ao seu redor, arrancando, na operação, pedaços de sua pele.

        Na claridade pálida que se fez, viu que era uma espécie de ave enorme , o bico gotejando com uma baba avermelhada, grandes asas escuras como de morcego pousadas no chão.

        Percebeu, então, que estava num platô, sobre um precipício de onde subia uma névoa fina e fria.

        O pássaro devorava o casulo. Rolando sobre o corpo ferido, encontrou uma parede de rocha. Seus olhos se habituaram à claridade pálida e ele procurou uma saída.

        Não havia.

        O pequeno platô se abria sobre a goela escancarada do abismo. Na sua superfície descobriu os corpos dos que o precederam. Pedaços dilacerados de braços, pernas e rostos semidevorados.

        Nesse instante, o pássaro acabou sua refeição e olhou para ele. Apanhando um dos ossos maiores, colocou-se contra a parede e esperou o ataque.

        Com um rufar das enormes asas, o monstro voou sobre ele, as garras afiadas voltadas para seu rosto.

        O Especialista o enfrentou, quebrando o osso no meio de suas pálpebras rugosas. A ave recuou e abriu o bico soltando um guincho de dor e raiva.

        E atacou novamente.

Apanhando outro osso, tentou se defender, mas o pássaro o empurrava na direção do abismo e ele, escorregando no próprio sangue, ia deslizando para a beira, até que não conseguiu mais manter o equilíbrio.

Caiu vertiginosamente, vendo as paredes de pedra se estreitarem cada vez mais, batendo num lado e no outro até que sua queda foi aparada por um outro platô , ele mergulhou num pântano gelatinoso e perdeu completamente a consciência.

        Quando acordou, estava, outra vez, na escuridão.

        Pelo ar abafado e ligeiramente úmido concluiu que estava num ambiente fechado, talvez uma cela subterrânea, próxima de algum lençol de água.

        Seus ouvidos aguçados distinguiram um leve gotejar, não muito distante.

        Agachou-se e apalpou o solo.

        Parecia cimento, ligeiramente molhado.

        Ensaiou alguns passos, sempre na mesma direção, com a mão estendida. Três passadas adiante, sua mão esbarrou numa parede úmida e viscosa. Acompanhando a parede, lentamente, descobriu um ângulo.

        Retirou o casaco esfarrapado e ensangüentado e colocou-o no chão, marcando o lugar. Rasgou a camisa e fez curativos nos ferimentos mais dolorosos. Depois se moveu com cuidado para a direita, tateando a parede.

        Descobriu mais três ângulos antes de chegar de novo ao casaco e determinou que estava num aposento de forma retangular. Não havia, pelo que pode perceber apalpando a parede durante horas intermináveis, portas ou janelas.

        Levantando a mão podia tocar o teto, também viscoso e frio.

        A umidade entrava nos ossos.

        As feridas feitas pelo pássaro e pela queda ardiam terrivelmente. Começou a sentir fome e sede. Tinha todas as necessidades humanas. Mas não havia o que fazer no momento, a não ser uma coisa: embrulhando-se no casaco meio molhado, acomodou-se num dos cantos e dormiu.

        Acordou com uma sede torturante.

        Resolveu então atravessar diagonalmente a cela.

        Cautelosamente, colocando um pé na frente do outro, deu o primeiro passo... o segundo...o terceiro... no quarto passo seu pé encontrou o vazio.

        Com os membros entorpecidos pelo frio, a umidade e a falta de alimento, não conseguiu se equilibrar indo de encontro a um lago de águas geladas abaixo dele.

        O choque fez com que perdesse a respiração e ele afundou no líquido escuro, lutando para recuperar o fôlego. Quando conseguiu, nadou alguns metros, no limite de suas forças, sem direção, até que o braço esbarrou em algo sólido. Um parapeito escorregadio, que parecia coberto de limo, para onde subiu com dificuldade.

        Ficou um minuto deitado, ofegante, o peito subindo e descendo, a garganta ardendo como fogo.

         Sentiu alguma coisa rastejando sobre suas pernas. Um ser vivo, úmido, pesando sobres sua coxas, as patinhas arranhando a pele, subindo em direção ao peito.

        Com um gesto rápido, agarrou a criatura e apalpou-a ..

        Tudo indicava que era uma ratazana, bastante grande e gorda.

        Atirou-a para o lado. Ela guinchou e o ruído foi diminuindo até se perder nas profundezas.

        Sentou-se com dificuldade e ficou contemplando o negrume ao seu redor, refletindo.

        Bebeu um pouco da água malcheirosa e isso acalmou o ardor na garganta e a sede, embora a náusea que se seguiu o incomodasse um pouco. Quando ela passou, sentindo-se mais forte, começou a explorar, cuidadosamente, a nova prisão.

        Ali estaria melhor. Havia até alimento com que saciar a fome: ratos, talvez cobras e outros animais pequenos. Descobriu também outra companhia inanimada. Uma dezena de ossadas, provavelmente de antecessores dele naquele lugar.

        Sorriu, satisfeito.

        Pelo menos teria armas com que se defender e capturar suas presas.

        Nesse instante, uma claridade insuportável obrigou-o a fechar os olhos.

        Dentro da sua cabeça uma voz explodiu:

        "Vamos testar a Reação Máxima Weiner"

        Outra voz respondeu:

        "Mas foi proibido pelo regulamento..."

        As vozes se misturaram num nevoeiro denso, pontilhado de sussurros e a escuridão novamente o envolveu.

        Devagar, a claridade foi voltando.

        Estava numa escada cheia de limo, estreita e abafada. Um cheiro de mofo e sujeira impregnava o ambiente, tornando-o sufocante. A escada descia interminavelmente, entre paredes estreitas e úmidas, por onde corria água que escorria para o limo dos degraus, tornando-os mais escorregadios, dificultando a descida. Após enfrentar horas de degraus, sempre cada vez mais para baixo, chegou a uma abertura que dava para um túnel abafado e estreito que só podia ser percorrido de joelhos.

        O Especialista entrou no túnel e tentou avaliar seu comprimento. Apenas uma tênue claridade, uma fosforescência emanava de suas paredes. Não dava para perceber onde acabava. Embora fosse tão apertado que mal dava para se mexer dentro dele, o Especialista foi avançando devagar, machucando mais ainda o corpo nas suas paredes. Em determinado ponto, o túnel foi se alargando e ele pôde ficar de pé. Ao longe, avistou uma claridade forte e soube, com toda certeza, que naquele ponto, o Horror esperava por ele.

        De alguma forma estranha, tinha consciência de que, lá no fundo, algo inimaginável, apavorante, estava a sua espera.

        Mesmo assim, caminhou com calma naquela direção.

        A medida que se aproximava, a sensação ia ficando mais forte.

        Escondido na luminosidade a sua frente, o Impronunciável esperava por ele. Sabia que apenas alguns passos o separavam do Terror Absoluto.

        Havia uma música dentro da sua cabeça que se tornava cada vez mais alucinante e a mente se fragmentava em cores, acompanhando o ritmo. Pela primeira vez, tinha uma certa dificuldade de se concentrar.

        Então, o Especialista parou.

        Os cientistas se entreolharam. Ele já resistira mais do que era provável imaginar.

        Ia desistir.

        Mas ele apenas continuou em passadas regulares em direção ao Inominável.

        E se atirou contra ele!...

        Os psiquiatras interromperam a experiência. O Especialista estava de volta à realidade.

        Deitado na confortável espreguiçadeira da Terapia Comportamental.

        Fechou os olhos porque a intensidade da luz, que imitava a solar, feria seus olhos acostumados à penumbra do corredor.

        Ao seu redor, os jardins envidraçados e coloridos do Projeto Mente-Sonhos.

        Os cientistas tiraram o Capacete de Ondas de sua cabeça sem dizer uma palavra.

        Através do intercomunicador chamaram o chefe da guarda.

        "Ele é todo seu."

        Definitivamente, o Especialista não reagia como um ser humano normal. Tinham experimentado com ele os pesadelos e medos mais frequentes e mais terríveis na extensa gama do terror humano. E ele resistira a toda e qualquer tortura mental, mantendo sempre a mesma calma absoluta, a mesma atenção concentrada.

        Nada era capaz de abalá-lo.

        O último recurso, o pesadelo inenarrável, o sonho maldito escondido no mais recôndito da alma de cada um, tinham acabado de colocar na sua mente, apesar da proibição expressa do Conselho de Ética Médica.

        E o Especialista se atirara contra ele!...

        Não tinha reações humanas. Essa foi a conclusão do seu relatório.

        Agora era com os gorilas do Terceiro Subsolo.

 

        O Chefe da Guarda estava satisfeito. Finalmente iam realizar um trabalho objetivo. Esse negócio de máquinas e mente não era com ele. Nada como uma boa sessão de dor física e ameaças de mutilação para despertar as lembranças mais bem guardadas. Queria ver a coragem desse sujeitinho diante do fogo, do cutelo, do pau-de-arara, do choque elétrico. Velhos métodos, sempre eficientes. Já vira homens mais fortes do que ele se desmancharem feito crianças.

        Mas tinha que reconhecer que era valente.

        Depois de tudo, caminhava ao seu lado em direção à tortura absolutamente indiferente.

        Olhava as paredes ao seu redor como se nada mais importante lhe passasse pela cabeça.

        A cela do Terceiro Subsolo era ampla e nua.

        Nada de jardins ou cadeiras aconchegantes. Apenas um catre, uma cadeira simples e uma latrina tosca.

        O Especialista entrou, atirou-se sobre a cama e dormiu instantaneamente.

        Parado diante dele o Chefe da Guarda observava a respiração regular e o rosto sereno.

        O homem era frio. Isto ele tinha que admitir.

        A sombra do Torturador, debruçado sobre ele, diminuiu um pouco a intensidade da luz que o cegava.

        "Quem são eles?... Fala desgraçado!..."

        A voz doce do início desaparecera. Era uma de suas características: extrema dor física e uma gentileza oriental. Mas este cara o punha fora do sério.

        O estilete arrancou a última unha com violência.

        O Especialista soltou um urro e tombou para trás. De sua boca escorriam sangue e saliva e o rosto intumescido estava coberto de suor. Os olhos eram uma pasta irreconhecível.

        Mas, entre as pálpebras feridas, o olhar era frio.

        Quando retornou a posição inicial, ele apenas sorriu com dificuldade e respondeu:

        "Eles me chamam o Especialista."

        Um pontapé no estômago o jogou fora da cadeira.

        "Levem esse filho de uma cadela de novo pro pau-de-arara... Eu desisto!... DE-SIS-TO!... Ele não é normal!... É um pervertido... Parece que gosta de sofrer!..."

        "Pois vamos satisfazer os desejos dele..."

        O Chefe da Guarda arrastou o prisioneiro que seguiu cambaleando pelo corredor.

        O Torturador examinou o papel à sua frente.

        "Agora é tarde demais. O pássaro se foi esta manhã..."

        "Que merda é essa?... Eu disse que preservasse a vida dele... As ordens foram bem claras!..."

        "O homem resistiu a tudo... essas coisas acontecem... a gente não pode controlar... um coração mais fraco..."

        "Coração fraco porra nenhuma!... Você leu o relatório. As análises concluíram que não era humano. Um clone!... um exemplar raríssimo perdido por causa da incompetência de vocês!... Um andróide não pode ser destruído tão facilmente!..."

        "Olha aqui, não enche meu saco!... Ninguém me avisa nada... entregam a mercadoria e querem que eu arranque a informação. Depois, se alguma coisa dá errado vem querer me culpar. Que se danem!... Eu estou me lixando pra esse seu precioso robô!..."

        "Robô, não!... Clone, seu cretino!... Um andróide em tudo semelhante ao homem... coisa raríssima!... E você destruiu com seu sadismo burro!.... Mas não vai ficar assim, não!... Pode esperar que vem chumbo grosso!..."

        O Torturador sacudiu os ombros.

        "Que se danem!..."

 


Final

 

        O Escritor ligou a estereovisão.

        A claridade da enorme tela cortou a penumbra da sala.

        Os Tomadores de Café observavam atentamente as imagens do noticiário. Quando o locutor anunciou que o assassino do Honorável Sing-Lo se suicidara na prisão, o mesmo sorriso irônico percorreu seus rostos.

        "...os psicólogos da Polícia Científica garantem que era um desequilibrado e que agiu sozinho. Os motivos para o seu gesto ainda estão sendo investigados. Os policiais liberaram fotos do prisioneiro enforcado com uma corda feita com tiras do próprio lençol. Entidades de Direitos Humanos de várias partes do mundo protestaram e entraram com pedidos exigindo a autópsia do acusado. Mas as autoridades carcerárias garantem que ele será cremado amanhã às 17 horas. Como não tem parentes conhecidos, a cerimônia acontecerá no Crematório da Prisão de Segurança Máxima de Thor..."

        O sorriso continuava.

        "... e atenção para essa notícia: O PRESIDENTE DA UNIC, SING-LO, NÃO MORREU NO ATENTADO!... Foi atingido em seu lugar um clone Sing Lo II, usado para ocasiões de perigo..."

        Na suite da notícia, o locutor explicava, com desenhos computadorizados, o que era um andróide substituto e como funcionava. Logo depois, um sorridente Sing-Lo apareceu na tela, agradecendo a solidariedade e o pesar manifestados durante a sua suposta morte e demonstrando estar mais robusto e bem-disposto do que nunca.

        O Escritor fitou os trinta e seis Judas ao seu redor e em cada sorriso viu o mesmo brilho dos trinta dinheiros.

        O círculo dos traidores se fechou sobre ele e a última coisa que viu foi uma arma apontada diretamente sobre sua cabeça.

        Quando foi destruída a câmera de estereovídeo colocada atrás de suas células-olhos.

        No interior do subterrâneo, em algum lugar do planeta, o Dr. Lannor desligou o aparelho receptor.

        "Eu estava certo. Não se podia confiar neles..."

        O Escritor concordou, entristecido.

        "Eram bons camaradas. O poder corrompe."

        O outro não fez comentários. Perguntou apenas:

        "Quer vê-lo agora?"

        "Quero. A inteligência será preservada?"

        "Claro. É um cérebro privilegiado. Mas quando os Tomadores de Café foram avisá-lo, já era o clone que estava na presidência da UNIC. O nosso clone. Aquele que o Especialista "matou".

        "Um plano sem falhas..."

        O Escritor sorriu.

        Entraram juntos no Laboratório. Deitado numa prancha metálica, suspenso a um metro e trinta de altura, com monitores do Programa de Dissolução da Personalidade envolvendo sua cabeça, o poderoso Sing Lo, presidente da UNIC, respirava suavemente.

        "Quando voltar a si fará apenas o que nós quisermos. Agora somos os verdadeiros donos da Universal Idea Company! E destruiremos pedra por pedra de sua abominável estrutura... Viva a liberdade de expressão!..."

        O Escritor respondeu:

        "Viva!..."

        Mas seu entusiasmo soou falso.

        Pela primeira vez, ele e o Dr. Lannor evitaram se encarar.

        Afinal a UNIC era a UNIC.

        O poder corrompe.

   

Fale com a autora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Webmaster: Marta Rolim

Hosted by www.Geocities.ws

1