Alguém Lá Fora Tem Medo

 Aimberê Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0087]
[Autor:
Aimberê Filho]
[Título: Alguém Lá Fora Tem Medo]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 2.319]

 

— Boa noite, padre.

     Era o velho Diogo Cão quem me abria a porta e me fazia entrar no antigo casarão dos Castella. Era este Cão um sujeito já de idade, de cara fina e testa calva. Seu sorriso canino, que ia fácil de uma orelha a outra, quase encontrava-se com seu olhar furtivo, de cão de guarda. Mas eram suas costas, arqueadas para frente, e uma certa expressão de eterno serviçal que realmente me incomodavam. Ainda assim, murmurei:

     — Obrigado.

     — Venha. — prosseguiu ele molemente, tomando as minhas mãos nas dele — Todos já estão esperando ansiosos por vossa senhoria. Na verdade, somente faltava a vossa pessoinha para que pudéssemos começar, meu bom padre.

     Esperavam por mim, foi o que pensei e, devo hoje confessar, com algum tempero de vaidade. O leitor deve ser generoso com minha pessoinha, como assim se referiu a mim Diogo Cão, e acertadamente. Contava eu, na época destes acontecimentos, pouco mais de 20 anos. Era padre recém formado, vindo do seminário com algumas tantas idéias e outras muitas ilusões, as quais muito cedo observei serem impraticáveis, somente por conservarem-se cristãs.

     Eu segui Diogo Cão pelo antigo corredor escuro do velho casarão dos Castella. Ora, ingênuo, tolo que fosse, eu compreendia o que significava o nome de Feliciano Castella, nosso anfitrião aquela noite. Era família de linhagem antiga, esses Castella, gente de berço e berço de cedro. Talvez Jacarandá. Contavam 300 anos de seguidas gerações a dar as cartas e decidir pela vida do povo daquela região.

     O que eu não compreendi de imediato é que eu estava ali a representar alguém muito maior do que eu, alguém que deveria estar ali e que, não podendo, ou preferindo manter-se afastado, elegera a mim de seu balcão celeste como seu substituto.

    — Padre Malaquias, de onde estiver, gostará de saber que o senhor aceitou vir, padre.— murmurou o Cão virando ligeiramente suas costas encurvadas para mim.

    — Desejo estar sempre de acordo com a vontade de Padre Malaquias. No entanto, gostaria de saber exatamente porque chamaram-me aqui esta noite...— disse enquanto piscava, tentando divisar na escuridão à minha frente a face humana do meu guia.

     Ele, porém, limitou-se a bufar e ranger os dentes.

     Eu jamais conheci este pároco Malaquias, se não de nome e de fama. Era, em vida, muito bem cotado naquela região, como milagreiro e defensor da miséria das gentes. Morto, passou a ser bem cotado ao lado do trono celestial. Em minha estéril pureza, cheguei a pensar que o vira, uma vez, ao meu lado no púlpito, quando na ocasião em que celebrei a primeira missa naquele lugar, há exato um ano. Fechei os olhos, e quando voltei a abrir era só a imagem da Paixão de Jesus que eu via: Jesus morto sendo espetado por um dos muitos guardas romanos. À época, busquei enxergar na figura de Deus o Padre, e quase enganei-me.

     À esta altura, Diogo Cão havia me arrastado por todo aquele corredor imenso e escuro e eu já podia ouvir vozes do outro lado. Estavam logo depois de uma porta, uma porta muito triste e pesada... Quão triste? Quão pesada? Não precisei esperar para descobrir. Escancarando-a com alguma rudeza, própria de sua pessoa, o Cão anunciou-me:

    — É o padre que chega, meus amigos. O padre, que vem em nome do santo e sempre lembrado Malaquias.

    — Ein? Ah... Assim seja... Que a Deusa Justiça o salve, padre— disse de sua cadeira um homem sonolento. Era o Lobo Neves, Juiz da Comarca. Baixo, atarracado, um bigode fino e sem viço a cobrir a face macilenta. Não posso dizer que tivesse rugas. Sua pele, à semelhança de Diogo Cão era seca e resseca, tal madeira velha. Não era o primeiro Lobos Neves. Houvera outros, pelo que sei. Outros tantos haveria. Era uma raça fértil essa dos Lobo Neves.

     Lembro-me de que o via na missa umas vezes. Mas também me lembro de que jamais parecera desperto. Pendia a cabeçaassim para o lado esquerdo e adormecia, um olho aceso, o outro apagado...

     Era assim que eu o via agora.

    — O padre se sente aqui.— apontou-me uma poltrona Diogo Cão. Ficava ao lado da sua própria e pareceu-me macia.

    — Obrigado.— disse eu, e sentei-me.

     Sentado, ouvi um sussurro, quase um sibilo. Pensei ser o vento. Mas o vento diria:

    — O padre está com medo?

    — Ein?

    — Aqui, à sua esquerda.

     No primeiro instante, vi somente uma cabeça, redonda, branca, quase lunar. Apenas então pude observar o resto do corpo, infelizmente pouco proporcional à cabeçorra. Era o dono desta estranha figura, magra e cabeçuda o farmacêutico da região, cujo nome, Teodoro Bezerra bem explicava sua natureza.

    — Desculpe se o assustei.— prosseguiu ele— Tento sempre ser o mais doce que posso, e é triste quando, ainda assim, acabo por assustar alguém. Assim foi com minha falecida em nossa lua de mel. Assim é com o senhor. Por que o senhor está assustado, não está?

    — Não.— respondi sem conseguir despregar os olhos do chão.

     A cabeça riu.

    — Do que o senhor está rindo?— perguntei ligeiramente irritado.

    — É que o senhor está mentindo. Vê-se bem que está. Olhe, o senhor é muito novo por aqui, deve compreender... com o tempo... sim, com o tempo conseguirá realizar corretamente as tarefas do nosso querido Malaquias, queDeus o tenha. Por hora, o senhor deve ficar atento, observar tudo, e tomar uma posição. Sim, uma posição será sempre lhe pedida. Aliás, que posição tem o senhor quanto ao assunto que vamos discutir hoje?

    — Desculpe-me, mas acredito que nenhuma. Eu nem ao menos sei porque estou aqui, se o senhor quer saber.— respondi.

     Ele continuava a sorrir.

    — Oh, não? Sim, sim. Muito interessante.— disse-me

     Teodoro Bezerra a me olhar com uns olhos claros cor de água.

    — Creio que o senhor já nos conhecia a todos, não?— ele prosseguiu no mesmo tom.— Quero dizer, ao velho Cão, e também ao Lobo Neves, que é juiz por aqui, e a mim, que o senhor sempre vê, quando vai à minha pequena botica comprar remédios para dormir... Espero que aqueles sonhos terríveis tenham lhe deixado em paz, padre...

    — Se me permite— disse eu interrompendo e apontando os olhos para uma figura que estava num trecho mais escuro da sala— não me lembro de ter visto aquele.

    — Oh, aquele! É o nosso poeta. Vive sempre tão enclausurado que poucas vezes se pode vê-lo durante o dia. Mas à noite... esta noite, ele não podeira deixar de comparecer. Lupercínio! Caro, caríssimo Lupercínio! Venha cá tomar a benção do padre, homem.

     O homem, de altura descomunal, levantou-se montado nas pernas gigantescas, mas não se moveu dali. Apenas acenou timidamente com uma das mãos, um meio sorriso na cara macilenta e raspada. Era mesmo imenso. E pálido, como todos naquela sala.

    — É tímido o nosso poeta, padre. Não se recrimine.

    — Não estou me recriminando. Mas que diabos está acontecendo aqui.— disse num espasmo de raiva.

     Notei então a transformação na expressão de Teodoro. Transmutara-se, repentinamente, num predador. Seu sorriso era agora de escárnio.

    — Bravos! Bravos! Agora o senhor está mostrando a que veio. Padre Malaquias gostaria de ouvi-lo neste momento.— fez Teodoro Bezerra juntando e espalmando as mãos como se batesse palmas.

     Corri os olhos pela sala. Todos olhavam-me naquele instante da mesma forma. Todos, inclusive o sonolento juiz, o tímido poeta e até Diogo Cão. Em todos havia um olhar que eu jamais observara. Eram caçadores, era certo. Mas eu, que era?

     Foi quando a lua se abriu. Creio que uma rajada de vento seguiu-se a este instante, e as velas, todas elas, se apagaram como por encanto. Somente a luz pálida da lua nos iluminava agora.

     Ouvi então, o som de um uivo doído, profundo, longínquo.

    — Onde está Feliciano Castella?— eu indaguei. Era a primeira vez que me dava conta da ausência do anfitrião.

    — Ele não se encontra aqui, padre.— disse-me o boticário.— Anda lá fora.

    — Que faz ele lá fora?

    — Está caçando. Caça por todos nós.— respondeu o Cão, como num ganido.

     Tentei divisar o rosto oval de Teodoro Bezerra, mas não consegui. Na treva daquela luz fosca, somente vi o perfil descomunal de Lupercínio e as costas arqueadas de Diogo Cão. Do lugar onde se encontrava o Juiz Lobo, via-se, agora, a fagulha acesa de um charuto.

    — Ele não devia ter ido só.— suspirou Teodoro em um momento.

    — Eu me ofereci para ir em seu lugar!— bradou Diogo Cão.

    — Padre Malaquias disse que somente ele poderia ir.— sentenciou o Juiz.

    — Mas e se Malaquias estiver errado?

     De onde viera aquela voz, eu não posso dizer ao certo. Poderia ser de qualquer um ali, mas também não. A VOZ, de onde quer que tivesse vindo, silenciara a todos.

     Ouviu-se, então, novamente, os uivos. Estavam mais próximos, era certo, e violentos. Vinham junto com o som de uma respiração ofegante, grotesca, quase inumana.

    — É isto que Feliciano Castella está a caçar lá fora?— indaguei.

    — Sim, padre.— respondeu o Cão.

    — E que tipo de animal é este?— prossegui.

    — É uma fera, padre. Uma fera antiga, que sempre esteve entre nós.— contou o Juiz, a voz estranhamente grave, como se um tufo de pêlos lhe impedisse a fala— Feliciano está novamente atrás dela.

    — E se não conseguir pegá-la?

    — Aí então ela entrará aqui... E nos devorará.— murmurou Teodoro Bezerra sem qualquer sarcasmo.

     Levantei-me e caminhei até a janela.

    — Isto é loucura. Um ser assim não pode existir.

    — E Deus, padre? Deus existe?

     Atrás de mim estava o poeta. Sua voz, grave e gultural vinha do alto, de muito alto.

    — Deus é um poeta, como o senhor.— respondi, a voz trêmula.

    — Não, padre. Deus é um comediante. Ele agora ri de nós. Por isso o senhor está aqui. Para nos ajudar a rir dele.

     Os fatos que se seguiram a estas palavras são para mim de difícil recordação e ainda mais difícil narração. Acredito que houve um trovão, ou então era já a primeira batida na porta da frente, o fato é que todos nos levantamos. Alguém passou por mim, mas naquele instante imaginei que fosse um rato, um rato imenso e gordo...

    — Temos que barrar a entrada!— gritou Diogo Cão.

    — Empurrem as estantes!— bradou o Juiz de onde quer que estivesse.

     Uma mão com unhas pontiagudas me tomou o braço:

    — E agora, padre? Está com medo?

     A cabeça oval estranhamente iluminada pelo luar não deixava dúvidas de quem se tratava.

    — Sim. Agora estou.— murmurei olhando para Teodoro Bezerra.

     Ajudei então Diogo Cão a colocar as estantes em frente à porta. Foi o tempo de começarem a bater. Primeiro ritmadamente, depois com fúria. Ouvimos então como se garras quisessem rasgar a porta ao meio.

    — Somente isso não vai funcionar.— falou o Juiz. Seu charuto andava em brasas.

     Foi então que Lupercínio começou a canção. Era estranha, e tão antiga que eu imaginei desconhecida de todos. Mas, então, do fundo de mim, comecei eu também a solfejar uns trechos vagos, uns trechos que íam clareando e se mesclando à canção do bardo Lupercínio. E então todos nós, sem exceção, a cantávamos juntos, em uníssono, sem a necessidade de ensaios anteriores ou partituras. Como se já a cantássemos desde a aurora de nossas vidas.

     Houve então silêncio. Aqui e dentro e lá fora. Não sei quando me veio pela primeira vez a idéia, ou se alguém me a murmurou no ouvido, mas o fato é que eu, finalmente, entendia porque estava ali.

     De onde estava, saí. Se mantinha-me sentado, levantei-me. Se assustado quedava-me, desassustei-me. Sem medo, sem receios, sem dúvidas, mas com alguma coisa a me queimar por dentro, eu fui até a porta.

    — Diogo Cão. Me ajude a tirar as estantes.— falei, mas a voz estava rouca.

     Retiramos, uma a uma as estantes. Ouviu-se, então, novamente os ganidos. Agora, estranhamente, mais altos, mais violentos, como se derradeiros.

    — Cala-te.— proferi, e não me assustei com a autoridade com que o fazia nem com a rouquidão que se apoderara de mim— Aqui quem fala é Malaquias, teu amo e senhor. Esquece, por esta noite, as tuas mágoas, os teus desejos. Sei que já sofreste demais, mas é hora de partir. Deixa, aí, somente aquele que desejamos e de quem tu te apoderaste covardemente. Vai.

     Assim foi, assim se fez. A fé, dizem os crentes, remove montanhas.

     Passaram-se, é claro, muitos anos. Esta noite é, agora, somente sombra, como tudo o mais que passa a fazer parte de nossa memória. O que não quer dizer que não veja mais os meus companheiros daquela estranha noite. Continuam todos lá, a freqüentar a casa de Feliciano Castella, que ainda vive. Têm ainda, é verdade, a mesma pele macilenta, e as exatas faces de madeira velha que eu vira da primeira vez. São persistentes esses meus amigos, e as portas da Morte parece que jamais se abrirão para eles.

     Somente eu envelheci. Se me perguntarem porque, não sei dizer, mas suponho que seja para que um dia, outro padre, em meu lugar, tenha o seu encontro com aquilo que não se explica mas que todos sabemos exatamente do que se trata.

     Será mesmo que sabemos? Às portas da morte, eu tenho dúvidas, e é isso que me leva à mesma botica do velho Teodoro Bezerra, comprar remédios para dormir. Osmalditos pesadelos jamais me abandonaram uma noite sequer, e é por isso que eu durmo. Hoje, no entanto, comprei uma dose um pouco maior. Como um dia fez padre Malaquias, também esta noite para mim será eterna.

     Não, eu nunca contei para você, caro leitor, que sonhos tive toda a minha vida. Mas como amanhã pela manhã não poderei fazê-lo, fica aqui descrito o que vi, caso você, assim como eu, tenha algum plano de se tornar sacerdote e manter-se cristão. Leitor, é preciso escolher.

     Porque somente eu, e talvez Malaquias, e antes dele um antigo monge, sabemos o que se passou lá fora, quando ordenamos que a besta-fera se fosse e que ali somente permanecesse Feliciano Castella.

     No escuro da noite, alguém deixou aquele lugar, e partiu. E não foi a fera.   

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