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Em terra de cego quem tem um
olho é pária, assim dizia Gustavo, enquanto tomava sua Coca-cola
gelada, fechando os olhos pra não ver nada mesmo. Pra que enxergar,
pra ser torturado e morto feito Cristo? Preferia seguir tomando sua
Coca-cola gelada, sempre Coca-cooola! Tim-tim!
O cigarro era o
Marlboro, afinal ele tinha nascido na cidade, num cubículo de
apartamento, por isso mesmo era quase imprescindível se imaginar
soberano dos extensos vales e das majestosas montanhas inacessíveis.
O cara que dominava as forças impetuosas da natureza com seu braço
e o temperamento varonil, mesmo que tudo que fizesse de manhã era
forçar uma janela emperrada que dava para o paredão do prédio ao
lado. Mas ele fumava Marlboro! Podia até sentir o cheiro dos
cavalos selvagens e se pendurasse o corpo pela janela e olhasse o
abismo estreito que se estendi até o térreo, quase podia ver as
cabeças de gado mugindo, esperando que ele fosse conduzi-las ao
pasto, o de asfalto, da avenida dupla que se estendia a perder de
vista, distante duas quadras dali.
Não, mas uma coisa
ele fazia questão de manter e cultivar: sua originalidade. Original
ele era. E por original se entenda trazer suvenirs de vários
lugares do mundo. Sim, ele tinha cinzeiros feitos por índios
mexicanos; um poncho e um anel de pedra Lápis Lázuli trazidos do
Chile; uma filmadora dos Eua; e consumia doce de leite e whisky do
Paraguai. Podia não ter muito dinheiro, mas tinha viajado bastante
em grupos de excursão, com amigos, e sua cultura era de fazer
inveja a muito intelectual.
Seu programa
predileto: Jô Soares Onze e Meia e, mais recentemente, Programa do
Jô. É sem acento? Voce está certo disso? (de vez em quando
assistia ao Show do Milhão e acertava todas!) Claro, um cara culto
gosta do Programa do Jô e assiste a programação Global! Pelo
menos ele pensava assim, ele, Gustavo, um cara culto. Em se tratando
de livros, a originalidade aumentava: ele tinha lido os filósofos
gregos, as obras completas de Freud, Kafka, Nietzsche, Schopenhauer
e Sartre; tinha lido João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa,
Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e uma
infinidade de outros notáveis, tudo entre um gole e outro de
Cola-cola e entre uma tragada e outra de Marlboro.
Trabalhar como todo
mundo, trabalhava, pegava ônibus e tudo, mas se alguém lhe fizesse
uma pergunta, boba que fosse, dava uma aula expositiva, usava
fartamente sinônimos, incluía um vocábulo especial no meio da
dissertação; adorava dizer privilégio e conjugar apropinquar. Mas
a questão é que Gustavo fazia isso só pra não enxergar, como
todo mundo na terra dos cegos faz. Ele lá queria ter um olho que vê?
Um olho como Cristo teve, um olho de Galileu, um olho de Joana
d'Arc? Não, melhor era ver o que os outros vêem, nada mais.
Ele lá queria ter
um olho de Einstein pra fazerem da paz uma bomba atômica? Não,
bendita ignorância, bendita cegueira. E seguia abrindo sua janela
para o paredão e vivendo no seu cubículo, fumando Marlboro e
tomando sua Coca-cola gelada.
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