No Vale da Sombra da Morte

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0084]
[Autor: Rogério Amaral de Vasconcellos ]
[Título: No Vale da Sombra da Morte]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 6.204]

 

"A Vida de Cristo Antes de Cristo"

Por Rogério Amaral de Vasconcellos

A vida não fora fácil para ele; muito pelo contrário. Inicialmente aprendera o ofício de carpintaria com Mathias, O Velho. Mas o conserto de bancos e a feitura de telheiros e arcas não lhe rendiam mais que algumas míseras moedas, quando tinha sorte, o que era raro; via de regra trocava seus préstimos por comida, abrigo e determinados objetos. O escambo se tornara sua principal fonte de sobrevivência.

Contudo, não podia se queixar totalmente, pois conhecera várias plagas em suas viagens pelo oriente; estivera próximo à Cleópatrix quando esta morrera no Egipto e, devido também ao seu ofício, bendito seja!, conhecera aquela que viria a ser sua companheira, Mariha, que apesar de muito nova, lhe abrira os olhos para o amor e para a prosperidade.

Agora Josepha era um invejado granjeiro, famoso por sua grande criação de galináceas em Damascópolis e na Cesaréia, o que lhe rendera comentários de varias cepas, dentre os quais pululavam os de caráter virulento, a pura fealdade perante seu sucesso como comerciante. Quanto mais benesses alcançava, pior a retaliação. Principalmente insinuações maldosas a respeito de sua mulher, Mariha...

Um dia os ouvidos moucos resolveram escutar e descobriu que as más línguas diziam que ‘as galinhas comiam dentro da própria casa dele’. Custou bastante para que alguém chamasse sua atenção e acabasse com sua indiferença no que dizia respeito ao real teor daquela nem tanto cifrado gracejo.

Afinal, fora ou não o primeiro a reconhecer a estranheza do fato de sua Mariha ter engravidado em tão tenra idade e parindo antes de completar-se sete meses de que a tocara pela primeira vez, no aconchego do lar comum? Contudo, esse fato ele tributava ao Divino Corpo Santo de que ouvira dizer de forma aarhônica pelos forasteiros que pregavam esse novo evangelho contrário às crenças olímpicas dos româncios ou - o que achava mais provável e menos perigoso de admitir -, a um descuido em dada ocasião na qual ‘brincaram’ no celeiro dos pais dela.

Ainda se lembrava do comentário pueril:

"Ei, seu ancinho está em minha trouxinha de palha...", só que lembrava que o roçado não fora suficiente para fazer brotar no campo alguma semente. Então...

Josepha estava muito transtornado naqueles dias, pois percebera que pilheriavam dele às suas costas; logo ele, a quem o Governador fizera citação pública de apreço e se alojava de quando em vez em sua propriedade no Quintal das Oliveiras.

Imperdoável!!

Será que havia fundamento em todo aquele veneno destilado por tantas e cheias de línguas bocas?

Olhou para a esposa que saia do galinheiro com uma braçada de ovos dentro de um cesto de vime, cantarolando.

"Tão jovem, fresca, pura," pensou: "Só podem estar me agourando! Não suportam que minhas aves sejam tão fornidas e poedeiras de excelsa comprovação..."

*

— Jesuha!!- gritou, chamando seu renitente primogênito, como sempre foragido do trabalho.

O tempo passou e o pequeno rebento, que acabara de invocar, já transformado em um homenzinho, parecia relegar aqueles comentários sobre a mulher ao quase desterro de sua mente, não fosse por aquela ferida aberta e não cicatrizada verter sangue sempre naqueles dias que antecediam ao aniversário dele...

— A paz esteja com o senhor, meu pai – apareceu finalmente Jesuha, ouvindo a resposta de praxe "ela está no meio de nós", falando a título de cumprimento, interrompendo os caudalosos e nefastos pensamentos de Josepha — O Demônico ataca por meios quaisquer para atingir até mesmo o mais santo e probo dentre os maobitas, usando de várias artimanhas para infligir derrota em quem se coloque entre Ele e Seus objetivos.

— Não perde essa mania de descobrir os pensamentos alheios, não é, Jesuha? - repreendeu, corando, constrangido.

"O que mais ele terá captado de meus pensamentos..."

— Tudo – vibrou a voz, provando de uma tâmara seca e piscando um olho com ar trocista, - Não se perde o hábito assim de uma hora para outra, pai.

— Não pense que me engana com essa desculpa rota, filho! Nem mesmo o matuto que nos ajuda na roça, sequer ele, que pouco ou nada tem na cabeça, acreditaria nisso - apontou na direção da cidade. — O tempo urge, ide logo ao Sapateiro; procure por Efraim Ben Judah, que você já conhece. Ele tem uma encomenda para mim...

Vendo que Jesuha acompanhava seus olhos cravados na figura ainda delgada de Mariah, curvada graciosamente sobre uma trouxa de roupas sujas - as mesmas que levaria ao rio dali a pouco na companhia da prestativa e aleijada Fátimà, filha do matuto -, Josepha tentou dar um tom de irritação as suas palavras:

— Vá!! Despache-se, menino curioso. Não se demore por aqui; o sol logo ficará alto e quero você de volta antes do anoitecer. Está prevista a chegada de nosso amigo de Tebas; desejo ter todos à mesa para a ceia.

Vendo-o se distanciar, já próximo à cancela, saltando-a ao invés de abri-la, como era seu hábito, gritou-lhe:

— Não vá desperdiçar o dinheiro que lhe dei para o repasto na pensão de Rute Judah, fazendo o que sempre faz, dando aos pedintes e leprosos, e nem pense em ficar brincando na pedreira com seus amigos invisíveis!!

Perante o aceno alegre do rebento abençoado, parando no alto da colina antes de sumir de suas vistas, Josepha somente então abaixou o braço e murmurou unicamente para as orelhas mutiladas de seu velho cão, Navalha, que enroscara-se em seus pés:

— Cuidado com seu dom, filho! - e num sussurro, — Não suportarei perdê-lo por minha negligência em protegê-lo...

Um uivo vindo de Navalha exortou-o a chutar seu agourento e fedido cachorro, levando para longe dali o mal presságio, incluindo a morrinha também.

*

E veio o homem, o semiDeux, com sua força descomunal. Era Hérculys, o Invencível!!

E vieram outros e tantos mais apareceram de forma esporádica pelo mundo, dando origem aos mitos e lendas, infundindo terror, respeito, fantasias e ódio, dependendo do que se queria atingir, conforme as circunstâncias que regem o momento.

Sabedor disso, naquele deserto no qual se refugiara, o peregrino perseguia sua sombra incansável, indo de encontro a toda parte e a parte alguma, aguardando o oráculo se materializar, ganhando voz através dos elementos.

Mas o Mensageiro não apareceu, nem ao cair da noite nem nos cinco dias seguintes; aquele corpo, apesar de não aparentar grande fortaleza, era pródigo em resistência, porém, como tudo sob o sol do lugar, não era eterno...

- PAI – fez gritar a voz arrastada do estrangeiro naquela meia-manhã, seguindo um roteiro de frases feitas para marcar, ainda que não houvesse testemunha visível: - Por quê me abandonaste...

Não houve resposta dos céus perante o qual clamava, porém esta veio próxima a seus pés, irradiada por uma pedra vulgar, que nada mais era que uma das muitas formas D’Ele.

Aí estava o esperado oráculo, como se só aguardasse a pergunta, reverberando sua voz em forma de trovão, pontuada pelos efeitos especiais:

— Há uma criança em seu caminho; uma cria humana de incrível capacidade que escapou-nos do Censo da Raça. Ela é tudo aquilo pelo que esperávamos, porém sua vida expira hoje em seu último alento. Irá remediar sua passagem desse mundo para o Além.

Ao concluir, o trovão estralejou como um chicote muitas vezes brandido:

— Assim falou o oráculo. Cumpra com sua missão e faça o acompanhamento. Não se preocupe com as conseqüências.

Como o seu costume, ouviu a voz impávido, mas por dentro o andarilho não podendo acreditar no que insinuava o oráculo, registrando com os olhos sua sombra tremeluzente sob o sol quente, como se raízes invisíveis o houvessem atado ao solo seco. Ele aguardou. Algo que o oráculo não-dizia era sempre mais eloqüente que seu curto discurso/síntese deixava transparecer...

Sabia, por exemplo, que aquela criança seria a nova ferramenta D’Eles; seu tempo de nômade e observador, cria também, encontrava seu zênite, onde sua obediência cega não podia fraquejar.

Um lagarto albino saiu da pedra-Ele e correu rumo a uma cordilheira distante, sobressaindo ao longe na divisão que separava o deserto das suaves ondulações montanhosas, a sudoeste de sua posição atual.

Afinal, o sinal! A mutação teve início...

O peregrino foi tomado por uma dor e, sabedor do que aconteceria em seguida, curvou-se sobre si mesmo; de suas costas, transformadas em arco, rasgada a carne, brotaram duas grandes e translúcidas asas membranosas, vincadas dum emaranhado de fortes tendões e finas veias azul e vermelhas; suas vestes, dilaceradas pelo surgimento do novo corpo, caíram por terra, incandescendo mal tocaram o chão pedregoso. Sem pistas. Um hábito e medida de segurança.

O peregrino, em sua formação alada, provocou uma nuvem de pó ao testar as asas e se elevar tal uma gárgula, dançando sua sombra sobre o deserto como um imenso condor voando de volta ao ninho nas montanhas.

Ou espreitando sua caça ao longe, já que o único ninho que tivera, fora-lhe tomado faziam gerações.

*

Aquela pedreira abandonada, seus rostos de rocha talhada e erodidas pela ação do homem e do tempo, tudo para ele funcionava como um segundo lar; por meio de sua funda predileta, confeccionada por seu pai, parou para jogar alguns seixos longe; ouvia o baque deles reverberando encosta abaixo, acertando aquilo que mirava. Sempre. Era muito bom nisso e nunca tivera necessidade de provar isso a ninguém.

Prosseguiu andando entre os imensos e irregulares blocos de granito, como um minúsculo musaranho aos pés de uma cáfila enorme de camelos grotescos. Uma insignificância. Menos até.. Jovem demais, um gênio em outros tempos, já então percebera que tudo dependia do referencial.

Abandonou a pedreira quando o vento começou a se tornar mais intenso e nuvens de poeira se insurgiram, multiplicando-se na forma de remoinhos. Saindo de lá, penetrando por uma ravina, seguiu ao longo de um leito seco de rio sem perceber nenhum sinal de viv’alma por vários minutos, levando-o à introspeção...

Desde cedo descobrira poder tatear a mente das pessoas, mas só bem recentemente aprendera a decifrar o emaranhado de imagens ali contidas, discernindo o real do imaginário, o verbalizado daquilo que se queria ocultar.

O fardo podia parecer por demais pesado para sua constituição raquítica e sua tenra idade, mas dom não se discute, como dissera seu pai no início, aceita-se e pronto. Mesmo franzino para seus quase 9 anos, aquilo nunca o impediu de chegar onde quisesse, usando de sua fortaleza interior onde até mesmo os mais bem constituídos e avançados em anos entregavam-se de corpo e alma à fadiga e retidão.

Apesar disso, Jesuha acreditava ser uma criança feliz.

Tinha pais que o adoravam e ele retribuía da melhor forma que podia, mesmo vivendo num mundo só seu, povoado por ‘amigos invisíveis’: Na verdade eram produto de uma imaginação febril, tirando também das mentes das pessoas o que melhor delas podia aproveitar, como uma ferramenta, operando a nível onírico, usando tais imagens como chave para invadir seus sonhos e devaneios, onde até os próprios sonhadores desconheciam do que eram capazes.

O fato daqueles que se servia, via de regra, serem em sua maioria de classe menos favorecida pela prosperidade e torturados pelas doenças perante as quais ficavam expostos em maior número e grau, não o prejudicava em nada, muito ao contrário; aprendera que até mesmo uma velha carcaça, o matuto imbecilizado por exemplo, trazia dentro de si uma gama enorme de vidas passadas enfeixadas pela fantasia, tudo misturado; acabavam sendo criadores das mais loucas parábolas; na exata contrapartida se situava a mente de alguns supostos sábios, parasitas do Colegiado Româncio, seres de uma aridez sem par, tão vazios e imprestáveis por dentro quão cheios de si por fora. Uma espécie de compensação. O universo era prenhe nesse tipo de coisa.

Aos poucos sua percepção engatinhava rumo ao esclarecimento. A própria demora na resposta tinha um senso de que não gostaria de prescindir. Os erros ajudavam bem mais que os acertos.

Após um quarto de hora desse frenesi cerebral, abandonou o leito do rio e correu pelo campo relvado por um enfezado e cinzento conjunto de cardos e moitas baixas, vendo ao longe, próximo a uma pequena colina, sua ‘árvore de referência’, um espécime incomum de nêspera. Externamente, um engalhado colosso na margem do descampado, mas para ele uma amiga, um marco interpondo-se entre aquele lugar e o caminho que o levaria fatalmente à cidade; uma sombra sob a qual meditar e sonhar e, na época da frutificação, uma deliciosa provedora de benditas bagas amareladas, deleitando-o ao cair das tardes primaveris com a companhia de Navalha, correndo atrás de ariscos e briguentos coelhos selvagens, voltando, enxotado, o rabo entre as patas, aceitando as carícias bem-humoradas do raro menino.

Ao aproximar-se foi o roçagar algo diferente de sua árvore, quiçá um cheiro de pêlo rançoso e carniça no ar, como a explosão de pios agudos de um bando de bicos-de-lacre e sua posterior arrevoada e dispersão que avisou-o do perigo.

*

Os animais sonhavam da mesma forma que os homens, mas diferiam na estrutura do pensar, no encadeamento de suas idéias, na produção de imagens caleidoscópicas que Jesuha nunca conseguira destrinchar do emaranhado de suas mentes, apesar de sempre conseguir distinguir o ‘estado de espírito’ de qualquer ser-vivente e sua provável localização num raio de mil passos dele, ao menos até aquele momento; quando viu o chacal pela primeira vez, descobriu que fora ludibriado por sua própria divagação, fazendo-o abandonar a ‘realidade’ por um segundo, porém o bastante para garantir a aproximação insuspeita do esfaimado predador.

*

Gatunak, o grande chacal, não comia há dias.

Normalmente evitava caça humana mas tinha uma ninhada à alimentar e nenhuma alcatéia a tomar conta deles, não podendo se dar ao luxo de voltar novamente de presas vazias.

Exatamente o alimento que faltava em suas tripas seguia-a com seus olhinhos curiosos e, a julgar pelo tamanho, não lhe oporia resistência nem que a fêmea não estivesse movida pela fome e o impulso ancestral da manutenção de suas crias.

— Irmã das Estepes - disse Jesuha, arrastando-se de encontro a árvore, tentando fazê-la ficar entre ele e o salivar abundante do animal, falando e pensando de modo condensado, o que ainda não dominava de todo: — Vejo você grande vazio prometo alimento cria breve retorno minha jornada...

Gatunak percebeu um invulgar almíscar pairando do filhote humano, o que para os animais era uma das formas de transmitir seus desejos, sendo que a raça dos Homens, salvo raríssimas exceções, pouco soubera usar de modo consciente. Aquele filhote-gente, porém, projetava sua índole de forma aproximada ao canal de comunicação e a chacal percebeu igualmente sua sinceridade, todavia estava longe de ficar demovida de seu intento original. A volta, a desistência da presa, a negação do instinto de caça, estava fora de cogitação.

Não mais seguia a Lei. Ultrapassara a barreira e o código não se aplicava. A necessidade era a única ditadora de regras, logo, uma foragida, e como tal disposta a morrer por isso: tinha nova e plena convicção que, comesse ou não aquela presa de duas patas, seus filhotes não se amamentariam do leite que suspeitava parara de minar de suas imprestáveis tetas; teria de devorá-los também para lhes dar a oportunidade de um novo começo, um dia...

Jesuha sentiu o hálito se aproximar de seu rosto e algo mais se imiscuir em sua mente, o que era novo para ele, já que vinha daquele animal.

"Matar não alimento vida perdida" — veio o pensamento, apunhalando-o onde nunca esperara ser atingido — "Sabemos feitos mesma coisa caos. Aqui Gatunak encerra homem e homem conhecer Gatunak dentro".

Jesuha não respondeu de imediato. Ficou encarando os olhos vermelhos, dilatados, porém estranhamente humanos, do animal sentado ali ao alcance de seus dedos, lambendo tranqüilamente sua pata ferida num espinheiro.

Aguardando. Inteligência inequívoca.

Como sempre, movido por impulsos, abandonou o tronco onde se sentira inutilmente protegido, deitando-se junto ao chacal, o ventre exposto pela túnica arregaçada, as sandálias cobertas de poeira meticulosamente ajeitadas com a funda junto a base da árvore, onde antes abraçara-a, indo assumir seu leito de morte.

— Assim seja, cumpra-se o desejo... - vaticinou o menino, sem verter qualquer lágrima. — Dada as circunstâncias é a única coisa a ser feita para apaziguar seus desejos.

Sua última lembrança foi dirigida aos pais, mas esse pensamento derradeiro não mais seguiria junto a Jesuha. Estava largado sem dono no limbo dos ausentes, sem que precisasse visualizar o pescoço abocanhado numa única e precisa mordida.

*

Fátimà olhou para o céu ao perceber uma grande e ligeira sombra defletir por momentos o brilho do sol; nenhuma nuvem, nada denunciava o motivo de tal obliteração. Quando voltou seus olhos castanhos para as roupas recém-lavadas e estendidas sobre o chão mais abaixo, junto ao leito do rio, viu estarrecida o perfil crispado do rosto de Mariha, imobilizada ao fitar o horizonte.

— Senhora!! - gritou ela, assustada.

Arrastava sua perna atrofiada atrás de si, deixando de lado o grande tapete, que até então sovava com o auxílio duma palmilha, jogado esquecido sobre um grosso e debastado galho; correu como podia para o trecho de pequenas pedras achatadas, piorando seu avanço, onde estava a estática Mariha e as roupas.

Onde em pouco tempo só as roupas sobrariam...

Naquele lugar o rugido do rio calou os apelos de Fátimà, chorando de dor e frustração ao tentar dar maior velocidade às pernas e, principalmente, ao ver sua senhora desabando, como se vitimada por uma súbita vertigem, caindo nas águas ligeiras que nasciam nas montanhas, levada pela correnteza e pela desgraça.

*

João Bapthista realizava seu culto de todas as tardes. Sua audiência, pequena, aglomerava-se a sua volta, mas para ele, que por muito tempo viajara sem discípulos, o pequeno era muito. Um começo...

Já fora apedrejado e inúmeras vezes quase sucumbira em sua fé, porém Bapthista encontrara forças em seu íntimo sempre que a dúvida e a adversidade se faziam lançadas pelo poder corrosivo das trevas; seus sonhos, compartilhados naquele tranqüilo trecho de águas calmas cercado pelos olivais despontando nos montes, não podiam morrer com ele! Acreditava piamente num sinal que mudaria para sempre a concepção do divino, e para tanto, os homens teriam de ser purificados para se acharem merecedores da graça do Espírito Santificado. Amé!!!

Se ele, há tempos um exímio e compulsivo pecador inveterado, arruaceiro nato, prevaricador, mulherengo, sem tempo sequer para a idolatria de qualquer espécie, mudara devido ao contato involuntário e inicialmente repulsivo com os Hessênios, assimilando parte de seus ensinamentos, incorporando-os como seus, o que dizer da maioria do povo, que eram simplesmente rebanhos perdidos no prado de Deux, pairando no limbo da perdição somente por faltar-lhes um condutor para seus desejos que nasciam puros e ao longo de suas vidas, na falta de tal bom pastor, se maculavam de pecado e injúrias?

Renascera para preencher esse lugar de fé e compromisso com a bondade.

Apesar de muito jovem era por alguns chamado de Instrutor da Retidão, Profeta-sacerdote Messiânico, "O Ungido", dotado de revelação divina; a despeito de tantos títulos e predicados, nunca deixara de se considerar apenas um homem, porém um homem renovado como todos eles poderiam ser! Seu aprendizado não nascera apenas da cultura dos hessênios (responsáveis por sua cura tanto espiritual quanto física, quando entrava em batalhas para fazer o maior estrago possível); descobrira que sempre fora o tônus de sua carne, o pó de seus ossos: Nenhum repasto litúrgico de pão & vinho, somente ele, o verme, e Deux, O-Todo-Poderoso.

No ring da salvação só Ele e o insignificante e fraco homem. Tudo e nada a serviço das almas inquietas, o emolimento que faltava.

Seus pensamentos vagavam por terras longínquas naquele radioso dia, porém o sonho que tivera, repetindo-se ao longo de todas cinco luas anteriores, ainda estava assombreado em seu olhar assustado e encovado nas órbitas, presente também no vôo súbito de um pássaro, no sussurro do próprio vento na folhagem. Tudo lembrava-o do sonho e o motivo do sobressalto.

Desde que encontrara Deux que não sentia tanto receio das coisas extraterrenas quanto naqueles dias. Como se algo importante estivesse destinado a acontecer-lhe, inevitável, tão certo quanto a própria salvação que ministrava nos gestos automáticos aprendido nas vezes em que o deserto fora seu rio purificador, usando a areia grossa e escaldante no lugar de água, obrigando os teimosos e raros crentes a mergulharem nas dunas, em comunhão com os elementos...

— Vejam!!! - alardeou um oleiro recém-convertido, interrompendo seus devaneios, as vestes boiando na água, apontando para algo que a correnteza abandonara a sua própria sorte junto à margem oposta, agarrado a um tronco como craca a um rochedo.

João Bapthista deixou a imersão do próximo fiel de lado; num rompante correu rio acima, temerariamente subindo e descendo pedras escorregadias até chegar naquilo que se revelou não como uma imensa craca mas um corpo sangrando de vários cortes, porém milagrosamente vivo, a julgar pelo bater apressado das pálpebras, cuspindo água e palavras indecifráveis antes de soltar um grito torturante e desfalecer, enredado em seus braços.

*

— Alguém conhece essa mulher?

O corpo jazia aparentemente confortável, envolto num manto de carneiro, a cabeça repousando no colo de uma meiga menina, protegido do sol pelas pessoas a volta dele.

João ia voltar a fazer sua pergunta quando um velho, surgido como que do nada, equilibrado sobre um tosco cajado nodoso - onde uma observação mais cuidadosa desvelaria incrustações em osso e ágata -, se acercou do grupo de fiéis subitamente emudecidos; arrastando suas sandálias curtidas nas folhas ressequidas do caminho, se ajoelhando e, tateando, prosseguiu até encontrar o rosto da quase afogada, gastando um minuto numa investigação silenciosa, ao final assinalando sua conclusão:

— É Mariha, - foi ajudado a levantar-se pelo estarrecido pregador, que ouvia naquela voz quente e raspada algo muito familiar... — Conheço-a como a jovem esposa de Josepha.

João Bapthista viu os olhos vazados do vetusto, as vestes caindo soltas e mal talhadas sobre aquele corpo esquálido e vergado por muito mais coisas que somente a idade pressupunha.

— Patriarca - instou, movido por uma onda de empatia, pondo as mãos com delicadeza nos ombros do ancião: - És cego pela misericórdia de Deux, protegido da visão da desgraça que grassa pelo mundo, então como, velho andarilho, podes estar tão certo quanto à identidade dessa Filha de Evia??

— Os traços não mentem, Filho de Adon. Esteja certo que, mesmo por privado estar de enxergar, não compartilho da mesma vacuidade da ignorância. O mundo não é mistério para mim - levou os dedos calejados a fronte franzida de João, — Ando por estas terras há mais tempo que todos vocês têm de vida; meus dedos tocaram em mais rostos que dúzias de Legiões de soldados româncios podem dispor em suas fileiras.

Esperou que o velho, de onde emanava uma estranha vitalidade aliada a um forte cheiro de incenso de mirra e amêndoas, concluísse sua aparente divagação, porém o silêncio se prolongou sem o mesmo ultimar seu comentário. Viu quando o idoso de longa e encardida barba levantou seu cajado, apontando-o para um lugar ao norte, murmurando quase inaudivelmente, porém em rimas:

— Leve-a naquela direção, ao vale do Pequeno Sião. A fazenda de seu marido é a maior da região.

João olhou o ancião que, finda sua aparente missão, se arrastava na direção oposta, cambaleando mas firmemente voltando ao seu rumo, esbarrando em troncos de abetos com o cajado e perdendo-se no seio do bosque.

*

Quando Josepha cavalgava pelos campos, montado à pêlo em seu melhor cavalo, deixava para trás seus tardiços serviçais; em sua cabeça só existia um pensamento e o mesmo traduzia-se numa só palavra: Mariha.

Tudo se originara ao ver Fátimà correr, sinal inequívoco de pânico visceral. Escutara-a mortalmente pálido, não dando tempo à menina de se refazer de sua aterrada, dorida e claudicante correria, mandando-a reunir todo pessoal da propriedade, homens e mulheres, até crianças, e invocar o médico da vila dos farizheus, no outro extremo do vale, por intermédio de um mensageiro montado.

A meio caminho onde Fátimà dissera que Mariha caíra nas águas do amaldiçoado rio, contudo de uma direção totalmente diversa, um disperso grupo marchava em sua direção, liderado por um homem de porte maciço e temperado, em cujo os braços bronzeados pôde vislumbrar uma cascata de cabelos conhecidos.

"Não pode ser..."

— MARIHA!! - gritou, saltando de sua montaria resfolegante, correndo para o pequeno e heterogêneo grupo.

*

O sol já declinara bastante no arco do céu oliva, ruborescendo em suas bordas, quando o arabeuta Mustapha Calleja Abdulla Femal instou suas esposas e o bando de filhos que Alalá o bafejou, todos na direção do local indicado pelo aguadeiro Marduk Efraim, vindo da cidade onde reabastecera.

Abdulla podia ser considerado um próspero (tão ‘honesto’ quanto possível), comerciante de tudo quanto sua gente podia suprir ao povo da Judésia, especialmente especiarias, o real motivo de sua visita ao velho amigo do Kairon, a quem há dois dias mandara notificar de sua chegada estimada. Na retaguarda dele, no último dos dois carroções puxados por parelhas de bois tigrados, levava cortes de tecidos, rendas, cânforas de vinho egíptium e um ábaco para presentear a mulher, o anfitrião e seu filho, os quais o impressionaram muitíssimo, em especial o jovem, estranho e talentoso Jesuha, para o qual o ábaco se destinava. Intuindo novas oportunidades de negócio, levava também amostras daquilo que o tornara famoso mesmo entre os conquistadores româncios e suas concubinas, apreciadores da arte em adornos de cela e brilhantes incrustáveis.

Tudo tinha um motivo: Pensava numa nova filial, na ajuda inestimável que seu amigo poderia conseguir com o Governador e exatamente na satisfação que teria com o negócio, quando seu bucéfalo negro começou a corcovear, quase jogando-o ao chão.

— Cobra, pai? - acorreu o filho mais velho, correndo ao seu encalço, a espada brilhando sob a luz vermelha e cobre do sol, desembainhada em mãos de muitos anéis, cada um para o número de suas conquistas, a esquerda em batalhas, a direita no amor.

— Creio que não, Mohamed... - olhou em torno, firmando as rédeas e arriscando elevar-se na cela do agitado animal, não vendo nada de diferente na paisagem desolada: — Pegue Fadur e Butã e investigue além daquele monte. Grite se precisar de ajuda...

E concluiu, ao ver os filhos destemidamente seguindo seus desejos, sem hesitação:

— Que Alalá os acompanhe!

*

Calhou de Mohamed ser o primeiro a ver a coisa.

Atrás dele seus dois irmãos, filhos gêmeos da 3ª esposa de Mustapha, a fertilizada Alloé, espigados pela honra dada por seu provedor. Tão logo ultrapassaram o estatuado Mohamed, deixaram cair as cimitarras diante daquela visão triplamente compartilhada.

Aos pés duma isolada árvore estava um corpo estendido naquele chão atapetado de folhas; sobre o pequeno dorso desnudo, olhos esbugalhados vislumbraram uma Gárgula que nunca abandonaria seus pesadelos; na luz declinante a penumbra ressaltava ainda mais seus piores atributos de djim dos infernos: suas grandes asas repousando distendidas para trás, o sangue pingando farto das presas mastodônticas, mastigando com pressa mas também com prazer algo que parecia um fígado...

Mohamed foi o único a permanecer de pé, os gêmeos ajoelhados no chão, protegendo suas cabeças com as mãos trêmulas.

O mais velho não pode deixar de notar, com assombro, o olhar enviesado que a Gárgula lhe reservou e, ainda imobilizado, assistiu-a segurar a vítima em suas garras dianteiras, andando algo felinamente em sua direção, traçando um sinuante rastro por conta do movimento que a cauda fazia sobre o chão.

Sentiu o corpo leve e oco que a besta lhe depositou nos braços sem tomar qualquer outra atitude, vendo-a se distanciar, batendo as asas e soltando um guincho ao se perder na noite ou mergulhando nalgum profundo e invisível fosso que ligaria aquele lugar ao inferno...

*

— Meu Filho!!

Mariha, desacordada por várias horas, assolada por acessos de febre, calafrios, assumia delírios imponderáveis como o que acabara de gritar, esbravejando ao erguer-se parcialmente no leito, ecoando a mesma frase, caindo para trás em nova onda de calafrios febricitantes. Josepha praticamente não arredara de sua cabeceira, saindo somente para rondar o grande aposento, a todo instante instando o médico a providenciar a melhora de sua amada e perguntar ao temeroso e mortalmente pálido caseiro pelo paradeiro de Jesuha.

Se sua Mariha não estivesse entre a vida e a morte, largaria tudo e vasculharia por seu filho em todos os quatro cantos do mundo, até encontrá-lo!

*

O lampião de óleo projetava vários gigantes de sombras nas paredes caiadas de branco do quarto quando Fátimà entrou, os olhos fundos e aguados, sobressaltando Josepha novamente.

— Fale, mulher! - ordenou com brusquidão, o olhar mais torturado que Fátimà jamais testemunhara num homem ou qualquer ser vivente: — Voltou?!

Ela deu um passo para trás, indicando a janela e soluçando:

— Sua vi-visita, Se-senhor...

— VISITA? - rugiu, assustando e acuando ainda mais a menina.

Ela abraçou-se a velha escrava grega que, à revelia do médico cansado e já sem recursos, aplicava ungüentos nas varias feridas superficiais de Mariha. Na opinião do médico inerte, que não verbalizou por questão de sobrevivência, os animais eram mais fáceis de tratar, sacrificando-os ao invés de despender tamanha energia em algo provavelmente condenado ao suplício eterno.

Josepha lembrou-se então, num vislumbre carregado de dor, da ceia que daria, da sopa de lentilhas, das travessas com peixe seco, pães cozidos ainda fumegantes, cestos com uvas, figos e tâmaras, não podendo imaginar pior hora para receber convidados.

A escrava, uma espécie de mãe postiça de Fátimà, conseguiu calar os soluços dela, que arrastou-se novamente até a janela e tentou chamar a atenção de Josepha, murmurando numa cortina de lágrimas, dedo em riste:

— Aquele grande homem negro está chegando e traz... Jesuha...

*

A dor que sentiu, a punhalada quase fatal, só não ocasionou maior estrago porque Mariha venceu a estranha infecção e se salvou. Restava, portanto, um resquício dele ainda por morrer. Uma morte em capítulos.

Velou o corpo do filho por três dias, enquanto ouvia algo distanciado as abordagens mais impossíveis do acontecido, destarte levando-o a empreender uma caça ao demônico alado que (aceitando como versão definitiva) matara e mutilara tão barbaramente seu rebento, sem obter êxito algum nas buscas empreendidas por ‘seu exército’ de homens assustados e aliviados com o fracasso.

Uma semana se passou inteira até o estabelecimento relativo da esposa, imaginando como lhe daria a notícia da morte de Jesuha por um ser vindo das profundezas, quando algo mais culminante lhe atingiu um derradeiro e duro golpe...

Os olhos azuis e extremamente límpidos de sua Mariha abriram-se numa tarde sombria, ela sorrindo para ele, tornando o dia tão radioso que ofuscava, e suas primeiras falas foram:

— Esposo, nosso filho virá em breve!

Desamparado, olhou para João Bapthista, que durante todo aquele tempo se mostrara um amigo valoroso, o pesar solidário estampado no rosto. Revelação. Era chegado o tão temido momento. Mas algo na forte emoção que transbordava da face da mulher refrearam seu ímpeto de afagá-la, o tempo suficiente para esta sentar-se na cama e passar a mão nos olhos dele.

— Não chores, meu esposo amado - pousou sua outra mão por sobre o ventre, embalando algo invisível, — nosso filho será lindo como um angio do Céu!

*

A partida de João Bapthista encheu-o de tristeza, no entanto tinha plena certeza que seus caminhos se cruzariam no futuro. Acreditava piamente que o celeiro onde este se alojara na companhia de seus fieis, declinando da oferta de melhores instalações nas amplas dependências da casa, para sempre estaria abençoado.

Em seu último sermão de despedida, João Bapthista levara-o a um canto daquele mesmo celeiro e indicara um monte de feno dourado pelos raios de sol, parecendo um velocino de ouro, ajoelhando-se e chorando aberta e inexplicavelmente. Ver aquele vívido semblante, seus contornos embrutecidos pelas árduas caminhadas e insondáveis privações, minando tal quantidade de lágrimas, já significavam um pequeno milagre.

— Ouve – jubilou-se naquele dia, imprimindo uma sugestão irrefreável: — Constrói naquele feno tua manjedoura. Da vaca negra retires o leite e façais pão de tua farinha mais espessa. Aquece-te junto ao rebanho. Mantêm tua mão sempre ocupada no ofício, enquanto a estrela traz os peregrinos.

Fora sumamente impossível arrancar dele maiores esclarecimentos quanto aquilo, intuindo que ele próprio talvez até mesmo o desconhecesse.

— O começo é particularmente feito de prazer. O final nem sempre destituído de dor... - amealhou, levando Josepha a refletir o significado de sua desdita, o que passara a fazer muito amiúde.

*

Talvez influenciado pelo pregador ou, principalmente, pela desgraça que se abatera e ainda parecia pairar sobre ele, o certo foi que Josepha mudara muito naquele último mês e aquilo estava patente na forma passiva como tratava todos a sua volta: Para sua escrava, a grega Tissa, adquirida junto com as glebas, saudosa de voltar a ver sua pátria, dera um punhado de moedas e um documento alforriador, isentando-a de suas obrigações; beneficiou generosamente os arrendatários de sua fazenda, provendo a dissolução de suas terras limítrofes entre eles; legara ao caseiro e sua filha um quinhão substancial de acres fecundos.

Nada tinha tanta importância quanto Mariha, que definitivamente parecia ter perdido a razão, andando pela casa ninando seu próprio ventre.

Verdade ou não que estivesse grávida, o fato era que a parteira da vila chamou sua atenção para o abaular crescente do ventre dela, aguilhoando-o com seus comentários equídnicos:

— É barriga demais para uma pessoa que pouco se alimenta, não é verdade, meu senhor? Se está saudável, também não parece ser doença... – fizera a ‘casual’ constatação, antes de difundir a novidade pelas vielas imundas da aldeia, ateando nova série de comentários que remetiam-no ao passado.

"E pela última vez", prometeu.

*

Numa noite fria despertou de um cochilo nascido na pura exaustão; procurou por Mariha ao seu lado na cama e não a encontrou. O calor de seu corpo ainda presente sob o toque no colchão atestava seu recente desaparecimento.

Acendeu vários archotes e socando tambores acordou o pessoal da fazenda, conclamando que o ajudassem na procura.

— Ó Senhor! - falou, arquejando de tanto vasculhar sem encontrar, perdido entre as espigas de seu milharal, olhando uma estranha e irregular estrela evoluindo no céu da propriedade, — Não façais com que se repita a desgraça nessa casa. Fazei de mim o Teu instrumento!

Novamente prometeu ali mesmo um novo começo se tudo terminasse bem...

*

Correu toda a casa e quintal sem encontrar sinal de Mariha. Desesperava-se quando uma luz forte atraiu sua atenção, vinda do casebre do caseiro, próximo ao curral; seguiu para lá aos tropeções, o coração aos pulos dentro do peito apertado.

Pisando nas muitas tábuas soltas do precário barraco, vislumbrou o matuto e sua filha ajoelhados, as costas vergadas voltadas para ele; ao se aproximar mais viu também Mariha iluminada por uma halo e um ser-de-luz pairando sobre ela...

Foi compelido a se acercar da esposa, tomando-a nos braços, contemplando a figura tão alta quanto o travão que sustentava o teto. E assim acusou quando o ser-luz moveu alguma coisa na região que devia compreender seu rosto, embora o som viesse de um lugar inesperado...

O matuto ficou de pé num salto acrobático, seu semblante, mormente bovino e pétreo, tomado pelo refulgir da beleza, afastando-se de Fátimà e quase tocando o ser-luz com os cabelos eriçados como fogo ardendo na pradaria.

* Vão-se os adornos, ficam-se os membros – cantou o caseiro, voltado para Josepha e Mariha, — Pelos próximos três meses o Salvador gestará no úbere de uma purificada e virá ao mundo para ser o Rei da Dor e o Príncipe do Sofrimento.

"Esse será dedicado a Mim. Outra e outros dois mais virão de seus corpos terrenos, já na velhice, mas aquele que fecundei traz o meu selo e credo. Vicejará, portanto, como flor boníssima e aromática em meio ao esterco. Seguirá o caminho como Eu determinei.

"Em honra de seu predecessor, será em fase adulta chamado de Jesus, como também será conhecido por muitas eras como O Filho de Deux, a rocha primeira de Minha Igreja.

"Mas dia virá que será lembrado pelo sacrifício que fará à Humanidade, humanidade esta que não o compreenderá e será responsável por seu fim..."

O ser-luz tremeluziu e foi-se, deixando o casebre entregue a escuridão, enquanto lá fora um trovão se arrastava pelo céu sem nuvens.

"Se Mariha está louca", pensou Josepha, amparando o matuto que soluçava em seu ombro, "a loucura também é minha maldição"!!

*

A partida deu-se no dia seguinte com a luz da alvorada.

Atrás deles ficara o passado (a granja entregue ao controle dos serviçais que provavelmente saqueariam e vilipendiariam as terras, degolariam galinhas, sem tirarem de tudo seu melhor manejo), enquanto na frente, aguardando por eles, uma grande incógnita se avolumava.

Josepha guiava Mariha trepada no lombo de um simples burrico. Navalha, o cão, velho demais para acompanhá-los, amarrado, saudava com roucos e abafados latidos, a medida que se afastavam da antiga propriedade, perdendo-a de vista.

— Viveremos com os proventos de um velho e destreinado carpinteiro, minha esposa... - sem um único olhar para trás, indagou: — Continua convicta que fizemos a coisa certa?

— Sim - passou a mão pelo cabelo dele, prematuramente grisalho, em contraste com a farta barba negra — Trago comigo a única coisa que importa. Algo maior que nós mesmos. É por ele que tudo isso faz-se necessário.

E desapareceram no horizonte, acompanhados ao longe por uma última estrela que o céu da manhã não conseguira apagar.

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Nota: Extraído do Livro "Renascimento", que fiz há algum tempo, tendo início nos Alpes europeus, em 1320, e ‘terminando’ numa favela carioca em 2005.

   

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