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"A Vida de
Cristo Antes de Cristo"
Por Rogério Amaral
de Vasconcellos
A vida não fora fácil
para ele; muito pelo contrário. Inicialmente aprendera o ofício de
carpintaria com Mathias, O Velho. Mas o conserto de bancos e a
feitura de telheiros e arcas não lhe rendiam mais que algumas míseras
moedas, quando tinha sorte, o que era raro; via de regra trocava
seus préstimos por comida, abrigo e determinados objetos. O escambo
se tornara sua principal fonte de sobrevivência.
Contudo, não podia
se queixar totalmente, pois conhecera várias plagas em suas viagens
pelo oriente; estivera próximo à Cleópatrix quando esta morrera
no Egipto e, devido também ao seu ofício, bendito seja!, conhecera
aquela que viria a ser sua companheira, Mariha, que apesar de muito
nova, lhe abrira os olhos para o amor e para a prosperidade.
Agora Josepha era um
invejado granjeiro, famoso por sua grande criação de galináceas
em Damascópolis e na Cesaréia, o que lhe rendera comentários de
varias cepas, dentre os quais pululavam os de caráter virulento, a
pura fealdade perante seu sucesso como comerciante. Quanto mais
benesses alcançava, pior a retaliação. Principalmente insinuações
maldosas a respeito de sua mulher, Mariha...
Um dia os ouvidos
moucos resolveram escutar e descobriu que as más línguas diziam
que ‘as galinhas comiam dentro da própria casa dele’. Custou
bastante para que alguém chamasse sua atenção e acabasse com sua
indiferença no que dizia respeito ao real teor daquela nem tanto
cifrado gracejo.
Afinal, fora ou não
o primeiro a reconhecer a estranheza do fato de sua Mariha ter
engravidado em tão tenra idade e parindo antes de completar-se sete
meses de que a tocara pela primeira vez, no aconchego do lar comum?
Contudo, esse fato ele tributava ao Divino Corpo Santo de que ouvira
dizer de forma aarhônica pelos forasteiros que pregavam esse novo
evangelho contrário às crenças olímpicas dos româncios ou - o
que achava mais provável e menos perigoso de admitir -, a um
descuido em dada ocasião na qual ‘brincaram’ no celeiro dos
pais dela.
Ainda se lembrava do
comentário pueril:
"Ei, seu ancinho
está em minha trouxinha de palha...", só que lembrava que o
roçado não fora suficiente para fazer brotar no campo alguma
semente. Então...
Josepha estava muito
transtornado naqueles dias, pois percebera que pilheriavam dele às
suas costas; logo ele, a quem o Governador fizera citação pública
de apreço e se alojava de quando em vez em sua propriedade no
Quintal das Oliveiras.
Imperdoável!!
Será que havia
fundamento em todo aquele veneno destilado por tantas e cheias de línguas
bocas?
Olhou para a esposa
que saia do galinheiro com uma braçada de ovos dentro de um cesto
de vime, cantarolando.
"Tão jovem,
fresca, pura," pensou: "Só podem estar me agourando! Não
suportam que minhas aves sejam tão fornidas e poedeiras de excelsa
comprovação..."
*
— Jesuha!!- gritou,
chamando seu renitente primogênito, como sempre foragido do
trabalho.
O tempo passou e o
pequeno rebento, que acabara de invocar, já transformado em um
homenzinho, parecia relegar aqueles comentários sobre a mulher ao
quase desterro de sua mente, não fosse por aquela ferida aberta e não
cicatrizada verter sangue sempre naqueles dias que antecediam ao
aniversário dele...
— A paz esteja com
o senhor, meu pai – apareceu finalmente Jesuha, ouvindo a resposta
de praxe "ela está no meio de nós", falando a título de
cumprimento, interrompendo os caudalosos e nefastos pensamentos de
Josepha — O Demônico ataca por meios quaisquer para atingir até
mesmo o mais santo e probo dentre os maobitas, usando de várias
artimanhas para infligir derrota em quem se coloque entre Ele e Seus
objetivos.
— Não perde essa
mania de descobrir os pensamentos alheios, não é, Jesuha? -
repreendeu, corando, constrangido.
"O que mais ele
terá captado de meus pensamentos..."
— Tudo – vibrou a
voz, provando de uma tâmara seca e piscando um olho com ar
trocista, - Não se perde o hábito assim de uma hora para outra,
pai.
— Não pense que me
engana com essa desculpa rota, filho! Nem mesmo o matuto que nos
ajuda na roça, sequer ele, que pouco ou nada tem na cabeça,
acreditaria nisso - apontou na direção da cidade. — O tempo
urge, ide logo ao Sapateiro; procure por Efraim Ben Judah, que você
já conhece. Ele tem uma encomenda para mim...
Vendo que Jesuha
acompanhava seus olhos cravados na figura ainda delgada de Mariah,
curvada graciosamente sobre uma trouxa de roupas sujas - as mesmas
que levaria ao rio dali a pouco na companhia da prestativa e
aleijada Fátimà, filha do matuto -, Josepha tentou dar um tom de
irritação as suas palavras:
— Vá!!
Despache-se, menino curioso. Não se demore por aqui; o sol logo
ficará alto e quero você de volta antes do anoitecer. Está
prevista a chegada de nosso amigo de Tebas; desejo ter todos à mesa
para a ceia.
Vendo-o se
distanciar, já próximo à cancela, saltando-a ao invés de
abri-la, como era seu hábito, gritou-lhe:
— Não vá desperdiçar
o dinheiro que lhe dei para o repasto na pensão de Rute Judah,
fazendo o que sempre faz, dando aos pedintes e leprosos, e nem pense
em ficar brincando na pedreira com seus amigos invisíveis!!
Perante o aceno
alegre do rebento abençoado, parando no alto da colina antes de
sumir de suas vistas, Josepha somente então abaixou o braço e
murmurou unicamente para as orelhas mutiladas de seu velho cão,
Navalha, que enroscara-se em seus pés:
— Cuidado com seu
dom, filho! - e num sussurro, — Não suportarei perdê-lo por
minha negligência em protegê-lo...
Um uivo vindo de
Navalha exortou-o a chutar seu agourento e fedido cachorro, levando
para longe dali o mal presságio, incluindo a morrinha também.
*
E veio o homem, o
semiDeux, com sua força descomunal. Era Hérculys, o Invencível!!
E vieram outros e
tantos mais apareceram de forma esporádica pelo mundo, dando origem
aos mitos e lendas, infundindo terror, respeito, fantasias e ódio,
dependendo do que se queria atingir, conforme as circunstâncias que
regem o momento.
Sabedor disso,
naquele deserto no qual se refugiara, o peregrino perseguia sua
sombra incansável, indo de encontro a toda parte e a parte alguma,
aguardando o oráculo se materializar, ganhando voz através dos
elementos.
Mas o Mensageiro não
apareceu, nem ao cair da noite nem nos cinco dias seguintes; aquele
corpo, apesar de não aparentar grande fortaleza, era pródigo em
resistência, porém, como tudo sob o sol do lugar, não era
eterno...
- PAI – fez gritar
a voz arrastada do estrangeiro naquela meia-manhã, seguindo um
roteiro de frases feitas para marcar, ainda que não houvesse
testemunha visível: - Por quê me abandonaste...
Não houve resposta
dos céus perante o qual clamava, porém esta veio próxima a seus pés,
irradiada por uma pedra vulgar, que nada mais era que uma das muitas
formas D’Ele.
Aí estava o esperado
oráculo, como se só aguardasse a pergunta, reverberando sua voz em
forma de trovão, pontuada pelos efeitos especiais:
— Há uma criança
em seu caminho; uma cria humana de incrível capacidade que
escapou-nos do Censo da Raça. Ela é tudo aquilo pelo que esperávamos,
porém sua vida expira hoje em seu último alento. Irá remediar sua
passagem desse mundo para o Além.
Ao concluir, o trovão
estralejou como um chicote muitas vezes brandido:
— Assim falou o oráculo.
Cumpra com sua missão e faça o acompanhamento. Não se preocupe
com as conseqüências.
Como o seu costume,
ouviu a voz impávido, mas por dentro o andarilho não podendo
acreditar no que insinuava o oráculo, registrando com os olhos sua
sombra tremeluzente sob o sol quente, como se raízes invisíveis o
houvessem atado ao solo seco. Ele aguardou. Algo que o oráculo não-dizia
era sempre mais eloqüente que seu curto discurso/síntese deixava
transparecer...
Sabia, por exemplo,
que aquela criança seria a nova ferramenta D’Eles; seu tempo de nômade
e observador, cria também, encontrava seu zênite, onde sua obediência
cega não podia fraquejar.
Um lagarto albino
saiu da pedra-Ele e correu rumo a uma cordilheira distante,
sobressaindo ao longe na divisão que separava o deserto das suaves
ondulações montanhosas, a sudoeste de sua posição atual.
Afinal, o sinal! A
mutação teve início...
O peregrino foi
tomado por uma dor e, sabedor do que aconteceria em seguida,
curvou-se sobre si mesmo; de suas costas, transformadas em arco,
rasgada a carne, brotaram duas grandes e translúcidas asas
membranosas, vincadas dum emaranhado de fortes tendões e finas
veias azul e vermelhas; suas vestes, dilaceradas pelo surgimento do
novo corpo, caíram por terra, incandescendo mal tocaram o chão
pedregoso. Sem pistas. Um hábito e medida de segurança.
O peregrino, em sua
formação alada, provocou uma nuvem de pó ao testar as asas e se
elevar tal uma gárgula, dançando sua sombra sobre o deserto como
um imenso condor voando de volta ao ninho nas montanhas.
Ou espreitando sua caça
ao longe, já que o único ninho que tivera, fora-lhe tomado faziam
gerações.
*
Aquela pedreira
abandonada, seus rostos de rocha talhada e erodidas pela ação do
homem e do tempo, tudo para ele funcionava como um segundo lar; por
meio de sua funda predileta, confeccionada por seu pai, parou para
jogar alguns seixos longe; ouvia o baque deles reverberando encosta
abaixo, acertando aquilo que mirava. Sempre. Era muito bom nisso e
nunca tivera necessidade de provar isso a ninguém.
Prosseguiu andando
entre os imensos e irregulares blocos de granito, como um minúsculo
musaranho aos pés de uma cáfila enorme de camelos grotescos. Uma
insignificância. Menos até.. Jovem demais, um gênio em outros
tempos, já então percebera que tudo dependia do referencial.
Abandonou a pedreira
quando o vento começou a se tornar mais intenso e nuvens de poeira
se insurgiram, multiplicando-se na forma de remoinhos. Saindo de lá,
penetrando por uma ravina, seguiu ao longo de um leito seco de rio
sem perceber nenhum sinal de viv’alma por vários minutos,
levando-o à introspeção...
Desde cedo descobrira
poder tatear a mente das pessoas, mas só bem recentemente aprendera
a decifrar o emaranhado de imagens ali contidas, discernindo o real
do imaginário, o verbalizado daquilo que se queria ocultar.
O fardo podia parecer
por demais pesado para sua constituição raquítica e sua tenra
idade, mas dom não se discute, como dissera seu pai no início,
aceita-se e pronto. Mesmo franzino para seus quase 9 anos, aquilo
nunca o impediu de chegar onde quisesse, usando de sua fortaleza
interior onde até mesmo os mais bem constituídos e avançados em
anos entregavam-se de corpo e alma à fadiga e retidão.
Apesar disso, Jesuha
acreditava ser uma criança feliz.
Tinha pais que o
adoravam e ele retribuía da melhor forma que podia, mesmo vivendo
num mundo só seu, povoado por ‘amigos invisíveis’: Na verdade
eram produto de uma imaginação febril, tirando também das mentes
das pessoas o que melhor delas podia aproveitar, como uma
ferramenta, operando a nível onírico, usando tais imagens como
chave para invadir seus sonhos e devaneios, onde até os próprios
sonhadores desconheciam do que eram capazes.
O fato daqueles que
se servia, via de regra, serem em sua maioria de classe menos
favorecida pela prosperidade e torturados pelas doenças perante as
quais ficavam expostos em maior número e grau, não o prejudicava
em nada, muito ao contrário; aprendera que até mesmo uma velha
carcaça, o matuto imbecilizado por exemplo, trazia dentro de si uma
gama enorme de vidas passadas enfeixadas pela fantasia, tudo
misturado; acabavam sendo criadores das mais loucas parábolas; na
exata contrapartida se situava a mente de alguns supostos sábios,
parasitas do Colegiado Româncio, seres de uma aridez sem par, tão
vazios e imprestáveis por dentro quão cheios de si por fora. Uma
espécie de compensação. O universo era prenhe nesse tipo de
coisa.
Aos poucos sua percepção
engatinhava rumo ao esclarecimento. A própria demora na resposta
tinha um senso de que não gostaria de prescindir. Os erros ajudavam
bem mais que os acertos.
Após um quarto de
hora desse frenesi cerebral, abandonou o leito do rio e correu pelo
campo relvado por um enfezado e cinzento conjunto de cardos e moitas
baixas, vendo ao longe, próximo a uma pequena colina, sua ‘árvore
de referência’, um espécime incomum de nêspera. Externamente,
um engalhado colosso na margem do descampado, mas para ele uma
amiga, um marco interpondo-se entre aquele lugar e o caminho que o
levaria fatalmente à cidade; uma sombra sob a qual meditar e sonhar
e, na época da frutificação, uma deliciosa provedora de benditas
bagas amareladas, deleitando-o ao cair das tardes primaveris com a
companhia de Navalha, correndo atrás de ariscos e briguentos
coelhos selvagens, voltando, enxotado, o rabo entre as patas,
aceitando as carícias bem-humoradas do raro menino.
Ao aproximar-se foi o
roçagar algo diferente de sua árvore, quiçá um cheiro de pêlo
rançoso e carniça no ar, como a explosão de pios agudos de um
bando de bicos-de-lacre e sua posterior arrevoada e dispersão que
avisou-o do perigo.
*
Os animais sonhavam
da mesma forma que os homens, mas diferiam na estrutura do pensar,
no encadeamento de suas idéias, na produção de imagens caleidoscópicas
que Jesuha nunca conseguira destrinchar do emaranhado de suas
mentes, apesar de sempre conseguir distinguir o ‘estado de espírito’
de qualquer ser-vivente e sua provável localização num raio de
mil passos dele, ao menos até aquele momento; quando viu o chacal
pela primeira vez, descobriu que fora ludibriado por sua própria
divagação, fazendo-o abandonar a ‘realidade’ por um segundo,
porém o bastante para garantir a aproximação insuspeita do
esfaimado predador.
*
Gatunak, o grande
chacal, não comia há dias.
Normalmente evitava
caça humana mas tinha uma ninhada à alimentar e nenhuma alcatéia
a tomar conta deles, não podendo se dar ao luxo de voltar novamente
de presas vazias.
Exatamente o alimento
que faltava em suas tripas seguia-a com seus olhinhos curiosos e, a
julgar pelo tamanho, não lhe oporia resistência nem que a fêmea não
estivesse movida pela fome e o impulso ancestral da manutenção de
suas crias.
— Irmã das Estepes
- disse Jesuha, arrastando-se de encontro a árvore, tentando fazê-la
ficar entre ele e o salivar abundante do animal, falando e pensando
de modo condensado, o que ainda não dominava de todo: — Vejo você
grande vazio prometo alimento cria breve retorno minha jornada...
Gatunak percebeu um
invulgar almíscar pairando do filhote humano, o que para os animais
era uma das formas de transmitir seus desejos, sendo que a raça dos
Homens, salvo raríssimas exceções, pouco soubera usar de modo
consciente. Aquele filhote-gente, porém, projetava sua índole de
forma aproximada ao canal de comunicação e a chacal percebeu
igualmente sua sinceridade, todavia estava longe de ficar demovida
de seu intento original. A volta, a desistência da presa, a negação
do instinto de caça, estava fora de cogitação.
Não mais seguia a
Lei. Ultrapassara a barreira e o código não se aplicava. A
necessidade era a única ditadora de regras, logo, uma foragida, e
como tal disposta a morrer por isso: tinha nova e plena convicção
que, comesse ou não aquela presa de duas patas, seus filhotes não
se amamentariam do leite que suspeitava parara de minar de suas
imprestáveis tetas; teria de devorá-los também para lhes dar a
oportunidade de um novo começo, um dia...
Jesuha sentiu o hálito
se aproximar de seu rosto e algo mais se imiscuir em sua mente, o
que era novo para ele, já que vinha daquele animal.
"Matar não
alimento vida perdida" — veio o pensamento, apunhalando-o
onde nunca esperara ser atingido — "Sabemos feitos mesma
coisa caos. Aqui Gatunak encerra homem e homem conhecer Gatunak
dentro".
Jesuha não respondeu
de imediato. Ficou encarando os olhos vermelhos, dilatados, porém
estranhamente humanos, do animal sentado ali ao alcance de seus
dedos, lambendo tranqüilamente sua pata ferida num espinheiro.
Aguardando. Inteligência
inequívoca.
Como sempre, movido
por impulsos, abandonou o tronco onde se sentira inutilmente
protegido, deitando-se junto ao chacal, o ventre exposto pela túnica
arregaçada, as sandálias cobertas de poeira meticulosamente
ajeitadas com a funda junto a base da árvore, onde antes abraçara-a,
indo assumir seu leito de morte.
— Assim seja,
cumpra-se o desejo... - vaticinou o menino, sem verter qualquer lágrima.
— Dada as circunstâncias é a única coisa a ser feita para
apaziguar seus desejos.
Sua última lembrança
foi dirigida aos pais, mas esse pensamento derradeiro não mais
seguiria junto a Jesuha. Estava largado sem dono no limbo dos
ausentes, sem que precisasse visualizar o pescoço abocanhado numa
única e precisa mordida.
*
Fátimà olhou para o
céu ao perceber uma grande e ligeira sombra defletir por momentos o
brilho do sol; nenhuma nuvem, nada denunciava o motivo de tal
obliteração. Quando voltou seus olhos castanhos para as roupas recém-lavadas
e estendidas sobre o chão mais abaixo, junto ao leito do rio, viu
estarrecida o perfil crispado do rosto de Mariha, imobilizada ao
fitar o horizonte.
— Senhora!! -
gritou ela, assustada.
Arrastava sua perna
atrofiada atrás de si, deixando de lado o grande tapete, que até
então sovava com o auxílio duma palmilha, jogado esquecido sobre
um grosso e debastado galho; correu como podia para o trecho de
pequenas pedras achatadas, piorando seu avanço, onde estava a estática
Mariha e as roupas.
Onde em pouco tempo só
as roupas sobrariam...
Naquele lugar o
rugido do rio calou os apelos de Fátimà, chorando de dor e frustração
ao tentar dar maior velocidade às pernas e, principalmente, ao ver
sua senhora desabando, como se vitimada por uma súbita vertigem,
caindo nas águas ligeiras que nasciam nas montanhas, levada pela
correnteza e pela desgraça.
*
João Bapthista
realizava seu culto de todas as tardes. Sua audiência, pequena,
aglomerava-se a sua volta, mas para ele, que por muito tempo viajara
sem discípulos, o pequeno era muito. Um começo...
Já fora apedrejado e
inúmeras vezes quase sucumbira em sua fé, porém Bapthista
encontrara forças em seu íntimo sempre que a dúvida e a
adversidade se faziam lançadas pelo poder corrosivo das trevas;
seus sonhos, compartilhados naquele tranqüilo trecho de águas
calmas cercado pelos olivais despontando nos montes, não podiam
morrer com ele! Acreditava piamente num sinal que mudaria para
sempre a concepção do divino, e para tanto, os homens teriam de
ser purificados para se acharem merecedores da graça do Espírito
Santificado. Amé!!!
Se ele, há tempos um
exímio e compulsivo pecador inveterado, arruaceiro nato,
prevaricador, mulherengo, sem tempo sequer para a idolatria de
qualquer espécie, mudara devido ao contato involuntário e
inicialmente repulsivo com os Hessênios, assimilando parte de seus
ensinamentos, incorporando-os como seus, o que dizer da maioria do
povo, que eram simplesmente rebanhos perdidos no prado de Deux,
pairando no limbo da perdição somente por faltar-lhes um condutor
para seus desejos que nasciam puros e ao longo de suas vidas, na
falta de tal bom pastor, se maculavam de pecado e injúrias?
Renascera para
preencher esse lugar de fé e compromisso com a bondade.
Apesar de muito jovem
era por alguns chamado de Instrutor da Retidão, Profeta-sacerdote
Messiânico, "O Ungido", dotado de revelação divina; a
despeito de tantos títulos e predicados, nunca deixara de se
considerar apenas um homem, porém um homem renovado como todos eles
poderiam ser! Seu aprendizado não nascera apenas da cultura dos
hessênios (responsáveis por sua cura tanto espiritual quanto física,
quando entrava em batalhas para fazer o maior estrago possível);
descobrira que sempre fora o tônus de sua carne, o pó de seus
ossos: Nenhum repasto litúrgico de pão & vinho, somente ele, o
verme, e Deux, O-Todo-Poderoso.
No ring da salvação
só Ele e o insignificante e fraco homem. Tudo e nada a serviço das
almas inquietas, o emolimento que faltava.
Seus pensamentos
vagavam por terras longínquas naquele radioso dia, porém o sonho
que tivera, repetindo-se ao longo de todas cinco luas anteriores,
ainda estava assombreado em seu olhar assustado e encovado nas órbitas,
presente também no vôo súbito de um pássaro, no sussurro do próprio
vento na folhagem. Tudo lembrava-o do sonho e o motivo do
sobressalto.
Desde que encontrara
Deux que não sentia tanto receio das coisas extraterrenas quanto
naqueles dias. Como se algo importante estivesse destinado a
acontecer-lhe, inevitável, tão certo quanto a própria salvação
que ministrava nos gestos automáticos aprendido nas vezes em que o
deserto fora seu rio purificador, usando a areia grossa e escaldante
no lugar de água, obrigando os teimosos e raros crentes a
mergulharem nas dunas, em comunhão com os elementos...
— Vejam!!! -
alardeou um oleiro recém-convertido, interrompendo seus devaneios,
as vestes boiando na água, apontando para algo que a correnteza
abandonara a sua própria sorte junto à margem oposta, agarrado a
um tronco como craca a um rochedo.
João Bapthista
deixou a imersão do próximo fiel de lado; num rompante correu rio
acima, temerariamente subindo e descendo pedras escorregadias até
chegar naquilo que se revelou não como uma imensa craca mas um
corpo sangrando de vários cortes, porém milagrosamente vivo, a
julgar pelo bater apressado das pálpebras, cuspindo água e
palavras indecifráveis antes de soltar um grito torturante e
desfalecer, enredado em seus braços.
*
— Alguém conhece
essa mulher?
O corpo jazia
aparentemente confortável, envolto num manto de carneiro, a cabeça
repousando no colo de uma meiga menina, protegido do sol pelas
pessoas a volta dele.
João ia voltar a
fazer sua pergunta quando um velho, surgido como que do nada,
equilibrado sobre um tosco cajado nodoso - onde uma observação
mais cuidadosa desvelaria incrustações em osso e ágata -, se
acercou do grupo de fiéis subitamente emudecidos; arrastando suas
sandálias curtidas nas folhas ressequidas do caminho, se ajoelhando
e, tateando, prosseguiu até encontrar o rosto da quase afogada,
gastando um minuto numa investigação silenciosa, ao final
assinalando sua conclusão:
— É Mariha, - foi
ajudado a levantar-se pelo estarrecido pregador, que ouvia naquela
voz quente e raspada algo muito familiar... — Conheço-a como a
jovem esposa de Josepha.
João Bapthista viu
os olhos vazados do vetusto, as vestes caindo soltas e mal talhadas
sobre aquele corpo esquálido e vergado por muito mais coisas que
somente a idade pressupunha.
— Patriarca -
instou, movido por uma onda de empatia, pondo as mãos com
delicadeza nos ombros do ancião: - És cego pela misericórdia de
Deux, protegido da visão da desgraça que grassa pelo mundo, então
como, velho andarilho, podes estar tão certo quanto à identidade
dessa Filha de Evia??
— Os traços não
mentem, Filho de Adon. Esteja certo que, mesmo por privado estar de
enxergar, não compartilho da mesma vacuidade da ignorância. O
mundo não é mistério para mim - levou os dedos calejados a fronte
franzida de João, — Ando por estas terras há mais tempo que
todos vocês têm de vida; meus dedos tocaram em mais rostos que dúzias
de Legiões de soldados româncios podem dispor em suas fileiras.
Esperou que o velho,
de onde emanava uma estranha vitalidade aliada a um forte cheiro de
incenso de mirra e amêndoas, concluísse sua aparente divagação,
porém o silêncio se prolongou sem o mesmo ultimar seu comentário.
Viu quando o idoso de longa e encardida barba levantou seu cajado,
apontando-o para um lugar ao norte, murmurando quase inaudivelmente,
porém em rimas:
— Leve-a naquela
direção, ao vale do Pequeno Sião. A fazenda de seu marido é a
maior da região.
João olhou o ancião
que, finda sua aparente missão, se arrastava na direção oposta,
cambaleando mas firmemente voltando ao seu rumo, esbarrando em
troncos de abetos com o cajado e perdendo-se no seio do bosque.
*
Quando Josepha
cavalgava pelos campos, montado à pêlo em seu melhor cavalo,
deixava para trás seus tardiços serviçais; em sua cabeça só
existia um pensamento e o mesmo traduzia-se numa só palavra: Mariha.
Tudo se originara ao
ver Fátimà correr, sinal inequívoco de pânico visceral.
Escutara-a mortalmente pálido, não dando tempo à menina de se
refazer de sua aterrada, dorida e claudicante correria, mandando-a
reunir todo pessoal da propriedade, homens e mulheres, até crianças,
e invocar o médico da vila dos farizheus, no outro extremo do vale,
por intermédio de um mensageiro montado.
A meio caminho onde Fátimà
dissera que Mariha caíra nas águas do amaldiçoado rio, contudo de
uma direção totalmente diversa, um disperso grupo marchava em sua
direção, liderado por um homem de porte maciço e temperado, em
cujo os braços bronzeados pôde vislumbrar uma cascata de cabelos
conhecidos.
"Não pode
ser..."
— MARIHA!! -
gritou, saltando de sua montaria resfolegante, correndo para o
pequeno e heterogêneo grupo.
*
O sol já declinara
bastante no arco do céu oliva, ruborescendo em suas bordas, quando
o arabeuta Mustapha Calleja Abdulla Femal instou suas esposas e o
bando de filhos que Alalá o bafejou, todos na direção do local
indicado pelo aguadeiro Marduk Efraim, vindo da cidade onde
reabastecera.
Abdulla podia ser
considerado um próspero (tão ‘honesto’ quanto possível),
comerciante de tudo quanto sua gente podia suprir ao povo da Judésia,
especialmente especiarias, o real motivo de sua visita ao velho
amigo do Kairon, a quem há dois dias mandara notificar de sua
chegada estimada. Na retaguarda dele, no último dos dois carroções
puxados por parelhas de bois tigrados, levava cortes de tecidos,
rendas, cânforas de vinho egíptium e um ábaco para presentear a
mulher, o anfitrião e seu filho, os quais o impressionaram muitíssimo,
em especial o jovem, estranho e talentoso Jesuha, para o qual o ábaco
se destinava. Intuindo novas oportunidades de negócio, levava também
amostras daquilo que o tornara famoso mesmo entre os conquistadores
româncios e suas concubinas, apreciadores da arte em adornos de
cela e brilhantes incrustáveis.
Tudo tinha um motivo:
Pensava numa nova filial, na ajuda inestimável que seu amigo
poderia conseguir com o Governador e exatamente na satisfação que
teria com o negócio, quando seu bucéfalo negro começou a
corcovear, quase jogando-o ao chão.
— Cobra, pai? -
acorreu o filho mais velho, correndo ao seu encalço, a espada
brilhando sob a luz vermelha e cobre do sol, desembainhada em mãos
de muitos anéis, cada um para o número de suas conquistas, a
esquerda em batalhas, a direita no amor.
— Creio que não,
Mohamed... - olhou em torno, firmando as rédeas e arriscando
elevar-se na cela do agitado animal, não vendo nada de diferente na
paisagem desolada: — Pegue Fadur e Butã e investigue além
daquele monte. Grite se precisar de ajuda...
E concluiu, ao ver os
filhos destemidamente seguindo seus desejos, sem hesitação:
— Que Alalá os
acompanhe!
*
Calhou de Mohamed ser
o primeiro a ver a coisa.
Atrás dele seus dois
irmãos, filhos gêmeos da 3ª esposa de Mustapha, a fertilizada
Alloé, espigados pela honra dada por seu provedor. Tão logo
ultrapassaram o estatuado Mohamed, deixaram cair as cimitarras
diante daquela visão triplamente compartilhada.
Aos pés duma isolada
árvore estava um corpo estendido naquele chão atapetado de folhas;
sobre o pequeno dorso desnudo, olhos esbugalhados vislumbraram uma Gárgula
que nunca abandonaria seus pesadelos; na luz declinante a penumbra
ressaltava ainda mais seus piores atributos de djim dos infernos:
suas grandes asas repousando distendidas para trás, o sangue
pingando farto das presas mastodônticas, mastigando com pressa mas
também com prazer algo que parecia um fígado...
Mohamed foi o único
a permanecer de pé, os gêmeos ajoelhados no chão, protegendo suas
cabeças com as mãos trêmulas.
O mais velho não
pode deixar de notar, com assombro, o olhar enviesado que a Gárgula
lhe reservou e, ainda imobilizado, assistiu-a segurar a vítima em
suas garras dianteiras, andando algo felinamente em sua direção,
traçando um sinuante rastro por conta do movimento que a cauda
fazia sobre o chão.
Sentiu o corpo leve e
oco que a besta lhe depositou nos braços sem tomar qualquer outra
atitude, vendo-a se distanciar, batendo as asas e soltando um
guincho ao se perder na noite ou mergulhando nalgum profundo e invisível
fosso que ligaria aquele lugar ao inferno...
*
— Meu Filho!!
Mariha, desacordada
por várias horas, assolada por acessos de febre, calafrios, assumia
delírios imponderáveis como o que acabara de gritar, esbravejando
ao erguer-se parcialmente no leito, ecoando a mesma frase, caindo
para trás em nova onda de calafrios febricitantes. Josepha
praticamente não arredara de sua cabeceira, saindo somente para
rondar o grande aposento, a todo instante instando o médico a
providenciar a melhora de sua amada e perguntar ao temeroso e
mortalmente pálido caseiro pelo paradeiro de Jesuha.
Se sua Mariha não
estivesse entre a vida e a morte, largaria tudo e vasculharia por
seu filho em todos os quatro cantos do mundo, até encontrá-lo!
*
O lampião de óleo
projetava vários gigantes de sombras nas paredes caiadas de branco
do quarto quando Fátimà entrou, os olhos fundos e aguados,
sobressaltando Josepha novamente.
— Fale, mulher! -
ordenou com brusquidão, o olhar mais torturado que Fátimà jamais
testemunhara num homem ou qualquer ser vivente: — Voltou?!
Ela deu um passo para
trás, indicando a janela e soluçando:
— Sua vi-visita,
Se-senhor...
— VISITA? - rugiu,
assustando e acuando ainda mais a menina.
Ela abraçou-se a
velha escrava grega que, à revelia do médico cansado e já sem
recursos, aplicava ungüentos nas varias feridas superficiais de
Mariha. Na opinião do médico inerte, que não verbalizou por questão
de sobrevivência, os animais eram mais fáceis de tratar,
sacrificando-os ao invés de despender tamanha energia em algo
provavelmente condenado ao suplício eterno.
Josepha lembrou-se
então, num vislumbre carregado de dor, da ceia que daria, da sopa
de lentilhas, das travessas com peixe seco, pães cozidos ainda
fumegantes, cestos com uvas, figos e tâmaras, não podendo imaginar
pior hora para receber convidados.
A escrava, uma espécie
de mãe postiça de Fátimà, conseguiu calar os soluços dela, que
arrastou-se novamente até a janela e tentou chamar a atenção de
Josepha, murmurando numa cortina de lágrimas, dedo em riste:
— Aquele grande
homem negro está chegando e traz... Jesuha...
*
A dor que sentiu, a
punhalada quase fatal, só não ocasionou maior estrago porque
Mariha venceu a estranha infecção e se salvou. Restava, portanto,
um resquício dele ainda por morrer. Uma morte em capítulos.
Velou o corpo do
filho por três dias, enquanto ouvia algo distanciado as abordagens
mais impossíveis do acontecido, destarte levando-o a empreender uma
caça ao demônico alado que (aceitando como versão definitiva)
matara e mutilara tão barbaramente seu rebento, sem obter êxito
algum nas buscas empreendidas por ‘seu exército’ de homens
assustados e aliviados com o fracasso.
Uma semana se passou
inteira até o estabelecimento relativo da esposa, imaginando como
lhe daria a notícia da morte de Jesuha por um ser vindo das
profundezas, quando algo mais culminante lhe atingiu um derradeiro e
duro golpe...
Os olhos azuis e
extremamente límpidos de sua Mariha abriram-se numa tarde sombria,
ela sorrindo para ele, tornando o dia tão radioso que ofuscava, e
suas primeiras falas foram:
— Esposo, nosso
filho virá em breve!
Desamparado, olhou
para João Bapthista, que durante todo aquele tempo se mostrara um
amigo valoroso, o pesar solidário estampado no rosto. Revelação.
Era chegado o tão temido momento. Mas algo na forte emoção que
transbordava da face da mulher refrearam seu ímpeto de afagá-la, o
tempo suficiente para esta sentar-se na cama e passar a mão nos
olhos dele.
— Não chores, meu
esposo amado - pousou sua outra mão por sobre o ventre, embalando
algo invisível, — nosso filho será lindo como um angio do Céu!
*
A partida de João
Bapthista encheu-o de tristeza, no entanto tinha plena certeza que
seus caminhos se cruzariam no futuro. Acreditava piamente que o
celeiro onde este se alojara na companhia de seus fieis, declinando
da oferta de melhores instalações nas amplas dependências da
casa, para sempre estaria abençoado.
Em seu último sermão
de despedida, João Bapthista levara-o a um canto daquele mesmo
celeiro e indicara um monte de feno dourado pelos raios de sol,
parecendo um velocino de ouro, ajoelhando-se e chorando aberta e
inexplicavelmente. Ver aquele vívido semblante, seus contornos
embrutecidos pelas árduas caminhadas e insondáveis privações,
minando tal quantidade de lágrimas, já significavam um pequeno
milagre.
— Ouve –
jubilou-se naquele dia, imprimindo uma sugestão irrefreável: —
Constrói naquele feno tua manjedoura. Da vaca negra retires o leite
e façais pão de tua farinha mais espessa. Aquece-te junto ao
rebanho. Mantêm tua mão sempre ocupada no ofício, enquanto a
estrela traz os peregrinos.
Fora sumamente impossível
arrancar dele maiores esclarecimentos quanto aquilo, intuindo que
ele próprio talvez até mesmo o desconhecesse.
— O começo é
particularmente feito de prazer. O final nem sempre destituído de
dor... - amealhou, levando Josepha a refletir o significado de sua
desdita, o que passara a fazer muito amiúde.
*
Talvez influenciado
pelo pregador ou, principalmente, pela desgraça que se abatera e
ainda parecia pairar sobre ele, o certo foi que Josepha mudara muito
naquele último mês e aquilo estava patente na forma passiva como
tratava todos a sua volta: Para sua escrava, a grega Tissa,
adquirida junto com as glebas, saudosa de voltar a ver sua pátria,
dera um punhado de moedas e um documento alforriador, isentando-a de
suas obrigações; beneficiou generosamente os arrendatários de sua
fazenda, provendo a dissolução de suas terras limítrofes entre
eles; legara ao caseiro e sua filha um quinhão substancial de acres
fecundos.
Nada tinha tanta
importância quanto Mariha, que definitivamente parecia ter perdido
a razão, andando pela casa ninando seu próprio ventre.
Verdade ou não que
estivesse grávida, o fato era que a parteira da vila chamou sua
atenção para o abaular crescente do ventre dela, aguilhoando-o com
seus comentários equídnicos:
— É barriga demais
para uma pessoa que pouco se alimenta, não é verdade, meu senhor?
Se está saudável, também não parece ser doença... – fizera a
‘casual’ constatação, antes de difundir a novidade pelas
vielas imundas da aldeia, ateando nova série de comentários que
remetiam-no ao passado.
"E pela última
vez", prometeu.
*
Numa noite fria
despertou de um cochilo nascido na pura exaustão; procurou por
Mariha ao seu lado na cama e não a encontrou. O calor de seu corpo
ainda presente sob o toque no colchão atestava seu recente
desaparecimento.
Acendeu vários
archotes e socando tambores acordou o pessoal da fazenda,
conclamando que o ajudassem na procura.
— Ó Senhor! -
falou, arquejando de tanto vasculhar sem encontrar, perdido entre as
espigas de seu milharal, olhando uma estranha e irregular estrela
evoluindo no céu da propriedade, — Não façais com que se repita
a desgraça nessa casa. Fazei de mim o Teu instrumento!
Novamente prometeu
ali mesmo um novo começo se tudo terminasse bem...
*
Correu toda a casa e
quintal sem encontrar sinal de Mariha. Desesperava-se quando uma luz
forte atraiu sua atenção, vinda do casebre do caseiro, próximo ao
curral; seguiu para lá aos tropeções, o coração aos pulos
dentro do peito apertado.
Pisando nas muitas tábuas
soltas do precário barraco, vislumbrou o matuto e sua filha
ajoelhados, as costas vergadas voltadas para ele; ao se aproximar
mais viu também Mariha iluminada por uma halo e um ser-de-luz
pairando sobre ela...
Foi compelido a se
acercar da esposa, tomando-a nos braços, contemplando a figura tão
alta quanto o travão que sustentava o teto. E assim acusou quando o
ser-luz moveu alguma coisa na região que devia compreender seu
rosto, embora o som viesse de um lugar inesperado...
O matuto ficou de pé
num salto acrobático, seu semblante, mormente bovino e pétreo,
tomado pelo refulgir da beleza, afastando-se de Fátimà e quase
tocando o ser-luz com os cabelos eriçados como fogo ardendo na
pradaria.
* Vão-se os adornos,
ficam-se os membros – cantou o caseiro, voltado para Josepha e
Mariha, — Pelos próximos três meses o Salvador gestará no úbere
de uma purificada e virá ao mundo para ser o Rei da Dor e o Príncipe
do Sofrimento.
"Esse será
dedicado a Mim. Outra e outros dois mais virão de seus corpos
terrenos, já na velhice, mas aquele que fecundei traz o meu selo e
credo. Vicejará, portanto, como flor boníssima e aromática em
meio ao esterco. Seguirá o caminho como Eu determinei.
"Em honra de seu
predecessor, será em fase adulta chamado de Jesus, como também será
conhecido por muitas eras como O Filho de Deux, a rocha primeira de
Minha Igreja.
"Mas dia virá
que será lembrado pelo sacrifício que fará à Humanidade,
humanidade esta que não o compreenderá e será responsável por
seu fim..."
O ser-luz tremeluziu
e foi-se, deixando o casebre entregue a escuridão, enquanto lá
fora um trovão se arrastava pelo céu sem nuvens.
"Se Mariha está
louca", pensou Josepha, amparando o matuto que soluçava em seu
ombro, "a loucura também é minha maldição"!!
*
A partida deu-se no
dia seguinte com a luz da alvorada.
Atrás deles ficara o
passado (a granja entregue ao controle dos serviçais que
provavelmente saqueariam e vilipendiariam as terras, degolariam
galinhas, sem tirarem de tudo seu melhor manejo), enquanto na
frente, aguardando por eles, uma grande incógnita se avolumava.
Josepha guiava Mariha
trepada no lombo de um simples burrico. Navalha, o cão, velho
demais para acompanhá-los, amarrado, saudava com roucos e abafados
latidos, a medida que se afastavam da antiga propriedade, perdendo-a
de vista.
— Viveremos com os
proventos de um velho e destreinado carpinteiro, minha esposa... -
sem um único olhar para trás, indagou: — Continua convicta que
fizemos a coisa certa?
— Sim - passou a mão
pelo cabelo dele, prematuramente grisalho, em contraste com a farta
barba negra — Trago comigo a única coisa que importa. Algo maior
que nós mesmos. É por ele que tudo isso faz-se necessário.
E desapareceram no
horizonte, acompanhados ao longe por uma última estrela que o céu
da manhã não conseguira apagar.
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Nota: Extraído do Livro "Renascimento", que fiz há algum
tempo, tendo início nos Alpes europeus, em 1320, e ‘terminando’
numa favela carioca em 2005.
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