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(Manual do Inspetor de Minas, Divisão 3)
Felicidade é uma palavra que um Inspetor está proibido de
pronunciar, mesmo para si próprio Ninguém está autorizado a falar
sobre, em ou a respeito de felicidade (ou qualquer idéia que lhe
esteja relacionada) em serviço ou mesmo fora dele.
Mesmo sendo algo totalmente destituído de lógica ou
fundamento, a idéia de felicidade aparece com freqüência entre os
subordinados. Cabe ao Inspetor ficar atento à mais leve menção da
idéia, que também aparece com outros nomes, como Nirvana, Paraíso,
etc. Em linhas gerais, um subversivo compara o seu modo de vida com
um absurdo devaneio, onde aparecem sempre comida com fartura, dormitórios
individuais e relações amorosas com uma mulher exclusiva.
O procedimento para com tais comportamentos patológicos será
a chicotada repetida por meia hora à simples menção da palavra,
termo equivalente ou idéia; aumento da cota diária de minério ou
outra forma de Disciplina Controlada (veja Divisão 5, Tabela de
Correções e Punições Exemplares) se houver reincidência por uma
vez; se a ocorrência persistir, ou se o subordinado tentar aliciar
seus colegas, o Posto de Inspeção Geral deverá ser avisado, onde
será feita a vontade de Darptrui.
As palavras difíceis estão no fim do manual.
(Diário de Zão Ralufis, subordinado da mina 5)
eu peguei paper do banhero peguei um risca que risca paper do
posto tô iscreveno resorvi iscrevê num sei eu iscrevo eu num sei
como mai eu iscrevo só sei qui sei
num lembro nada Ninguem viu eu mais ficá tempão no banhero
é pirigosu ninguém fica tempão no banheru eu fico é pirigosu eu
apanho apanho apanho si elis discobre mai eu iscrevo num ligo
eu trabaio na mina cinco 5 cato o minériu que é uma pedra
mai num é bem pedra é uma pedra que brilha bastante i é bonitu eu
gosto dos minériu num gostu de catá minériu cansa a gente o ispetô
bati se fizé mole hoje o Dabelu feiz mole e levô cinco 5 seis 6
sete 7 no lombo eu num sei comu ele guenta ele vivi fazeno mole na
mina ele era de fazê mole na mina quatro 4 intão levaro ele pra
mina cinco 5 i ele faiz mole si ele fôssi na mina sete ele fazia
tamem i tomava
hoje foi festa de Darpitrúi tudu mundo gosta di festa i
Darpitrúi tudo olha o céu i vê um mil, nóis fala bem dereito mil
óleos num é zoio eu achu bunitu mai eu sinto um negociu ixquisito
drento da cabeça i da barriga i num olho mai eu caiu
hoje levaro eu nu posto eu peguei o risca ponhei no borso num
sei deu vontade eu tive idéia de iscrevë eu nem sabia iscrevë i
eu iscrivi intão eu tô iscreveno intão eu tive idéia di intrá
no banheru i iscrevê no paper do banheru tá doenu minha mãou
(Cidade Parnaso, planeta Parnaso)
À mesa estavam sentados o Chefe do Controle de Tráfego, o
Chefe da Seção de Cartografia, o Chefe do Censo 58, o Secretário
Geral da Assembléia Parnasiana, o Coordenador do Fisco Universal e
o Comandante das Armas do Primeiro Quadrante.
- Sidarta é o menor planeta habitado do Braço de Órion -
disse o Chefe da Cartografia. - Também é o mais remoto. Isso é
tudo que sabemos dele. Não temos nenhuma informação recente.
Nossos mapas e rotas para Sidarta datam de trezentos anos.
- E por isso, ninguém vai para Sidarta, especificamente -
continuou o Chefe de Tráfego - Na área do planeta há cinco
sistemas solares de pouca importância, e ainda assim distantes de
Sidarta. Algumas naves do Controle de Tráfego têm ido para esse
setor e desaparecido.
- O Censo estará incompleto se não incluirmos os dados desse
planeta e seu Setor - interveio o Chefe do Censo 58 - todavia não
temos mapas precisos, nem garantia de segurança para os
recenseadores.
- Nossos pontos de vista convergem - declarou o Secretário-Geral
da Assembléia Parnasiana - na medida que percebemos que uma parte
do território que a humanidade ocupa no espaço não tem representação
política na Assembléia dos Povos em Parnaso. Não farão parte do
grande Concerto dos Povos, não terão parte no grande drama da
Humanidade, se ficarem fechados em si mesmos, sem desfrutar da
amizade e troca com seus irmãos em outros planetas.
- Este planeta seria de menor importância se nele não
existisse mineração - retrucou o Coordenador do Fisco Universal -
Depois que ficamos sabendo do enorme volume de minério procedente
de Sidarta, é-nos impossível fechar os olhos, por mais distante
que esteja.
- Sem falar que está numa área estratégica - completou o
Comandante das Armas do Segundo Quadrante. - O programa de
Colonização prevê o início da ocupação do Braço de Sagitário
dentro de cento e cinqüenta anos. Por acaso, o Setor onde está
situado o planeta fica bem no meio do caminho. Seria ótimo usarmos
o espaço como trampolim, com bases de abastecimento, apoio e claro,
de defesa.
O Secretário-Geral soltou um estalido com a língua,
mostrando sua decepção.
- Deixaríamos este planetinha em paz, não fossem os prejuízos
que nos causa... e os impostos que não nos paga.
(Esta aula foi anotada por um dos aprendizes de uma das turmas
de Formação de Inspetores, em seu caderno de relatórios. Por ser
uma tradição dos inspetores, os aprendizes são instruídos a
anotarem seus relatórios na terceira pessoa)
O Doutrinador mandou entrar o novo lote de subordinados por
uma das portas e depois pediu a todos que se sentassem. O
Doutrinador explicou ao Aprendiz que todos vinham de Gautama.
Perguntou se o Aprendiz se lembrava onde era Gautama. O Aprendiz
respondeu que era um dos Sete Planetas de Darptrui. Então o
Doutrinador continuou explicando. Disse que os subordinados estavam
anestesiados do pescoço à cintura. Receberam também uma dose
pequena de imipramina. O Doutrinador esclareceu que assim estariam
mais receptivos à Doutrinação.
O Doutrinador ordenou ao Técnico para que ligasse o filme.
Sentados à frente de uma tela, os subordinados assistiram imagens
do que devem ter sido suas vidas em Gautama. Facilidades e conforto
tão imorais que o Aprendiz corou de indignação. Teve mesmo
vontade de estrangular os subordinados. Mas Darptrui deu-lhe forças
e sabia que eles estariam logo no caminho da Retidão.
O Doutrinador explicou que seriam administrados ainda choques
elétricos e inibidores farmacológicos durante a exibição. A
Doutrinação deve invadir não somente a mente e a alma, mas também
o corpo. Os agentes físicos e químicos são apenas instrumentos de
Darptrui em sua Doce Conversão, disse ele. Mas primeiro o corpo,
depois a alma, coração e mente, completou o Doutrinador.
Começou a segunda fase. Foram exibidas imagens de Darptrui e
Seus Mil Olhos. Aromas e fragrâncias diversas invadiram o ambiente,
e estimulantes eram administrados.
O Doutrinador explicou ao Aprendiz que seriam feitas mais
vinte sessões com o lote, até os subordinados entrarem a serviço
de Darptrui, que Seus Olhos nos guiem e velem por nós.
(Diário de Zão Ralufis)
nada bom mina cinco 5 catei trinta 30 carrinhu minériu
cansadu pareci quieu vô caí mai eu guento eu vô iscrevë eu gostu
num lembru nada antis nada eu num sempre fui grande animar
grande foi piquenu eu pranta grande foi piquenu Hómi grande foi
piqueno mai eu nunca vi Hómi piqueno
eu sei lugar de Darpitrúi num é lugar di eu sempre
pareci despoi di hoje chega otro lote lote novo vai catá minériu
é bom a cota abáxa uns parde dia atrais levaro uns colega que
morreu ou levô chicotada morreu (trecho ilegível por duas linhas).
num intendo purque essis leva chicotada um eu sei leva por
causa otro tamem mai os otro eu num sei num vi nem iscutei é longe
notro tunel mai a gente ôve falá qui levô intão a gente dá
risada tudu tonto tem que trabaiá direito mai num trabáia intão
leva no lombo mai eu pensu
daqui a pouco vamu na festa Darpitrúi despoi eu gosto vamu
bebê i comê i os amigo eu gostu dos amigo o gordo do Guerdo i o véio
do Corma mai eu gostu
eu sei vô oiá us oléos de Darpitrúi vô mi sintí mal i vão
mi levá di novo nu posto num sei purque eles faiz issu os ôtro que
num óia eles dão chicotada mai eu eles leva pro posto
hoje si dé eu pego ôtro risca riscadô
(Últimas anotações da agenda do Enviado do Controle de Tráfego
ao Setor 51)
Lembrar de:
- checar encefalogravor
- enviar bagagem escritório Controle Tráfego
- dar gorjeta tripulantes
planetas investigar: Gautama - Kapilavastu - Saquiamuni
O que sei sobre Sidarta é muito pouco. Ou nada (riscado). Tão
pouco que é impossível traçar uma linha de ação. Terei de
correr o risco de pedir informações nos planetas do Setor.
Não existem muitos lugares assim, no Braço de Órion, dos
quais sabe-se nada ou quase nada. Sempre agi em território
conhecido, com informações se não abundantes, pelo menos
suficientes. Mas este é o trabalho de um Enviado, chegar ao
objetivo colhendo informações ao longo da investigação (frase
riscada com apenas um risco no meio, depois anotada acima: óbvio)
Espero que tudo isto termine breve. Voltar para Parnaso,
respirar ao ar livre e não o ar engarrafado desta nave.
(Transcrição das ondas cerebrais do Enviado do Controle de
Tráfego, na forma de relato em primeira pessoa, feita por técnico
do C.T., dias após a transmissão via encefalogravor; trecho)
Estamos descendo em Gautama. Não é bonito nem feio. Não dá
para ver muito pela janela. Posso distinguir apenas o que parece ser
uma cidade de tamanho médio.
Estamos chegando ao aeroporto. A viagem, do espaço até a
superfície, está sendo muito rápida. Comparável aos melhores
serviços aéreos de Parnaso.
A aeromoça foi até a cabine do comandante e voltou, pedindo
que nos preparássemos para o pouso.
A nave pousa, sinto o baque na pista. Aguardamos, fazemos fila
para descer. Quando chego à porta, vejo que lá fora há um grupo
de pessoas, vestidos com roupas amarelas. Devem ser funcionários do
aeroporto.
Mas não, eu desço e eles...
Ai!
Ai!
Ai...
(Atividade cerebral confusa; segue-se longo trecho onde se
registra percepção sensorial mínima)
Darptrui... Darptrui...
Mil Olhos, mil olhos, mil, mil!
Por que estou aqui? Que lugar é esse?
Lavagem cerebral? Condicionamento? Não fui afetado, deve ser
o encefalogravor.
Vou ter que fingir que fui.
(Diário de Zão Ralufis)
sorte sorte di Darpitrúi tive tão medo num iscrevi antis de
hoje antis onti é onti lembrei num iscrevi onti de bebê co Guerdo
i o véio Corma
nóis tava no bar sentado bebenu veiu a Cine sentô no colu do
Corma ele ficô bravu num sei purque ele ficô bravo mai ficô
nuncavi ele assim a Cine vortô pro balcão ficô oiando pra mim
daí o Corma falô co Guerdo i coeu duns negóciu di tê um
lugar onde num era cheiu di gente i num bebessi bastante mai ficassi
bão i gostosu intão o Guerdo achô ixquisito i eu achei tamem i a
Cine oiando pra mim intão o Corma falô intão que ele lembrô
dumas coisa dumas palavra que eu num lembro num guardei na cabeça
eu saí da mesa i fui coa Cine num canto lá meio escondido eu
preguntei si ela quiria ela quiria i a gente foi intão ali memo eu
comi ela ai qui gostosa fiquei mai um pôco coela i despoi comencei
vortá na mesa
eu num saí num deu doi minuto que eu saí do canto eu vi us
ispetô dando no Corma i nu Guerdo tamem eu num entendi mai
disconfio eu fiquei queto i num falei nada mai eu desconfio
aquelas coisa ixquisita do Corma qui ele falô acho qui si eu
num tivesse saído da mesa eu tinha levado tamem os dois apanharo eu
não porpôco
(Mina Cinco, Galeria Oito. Primeiro dia do lote n.o 8567)
O Inspetor de Minas parou em frente à frente à abertura da
Galeria Oito. Olhou cada um dos cinco homens e disse:
- Darptrui nos disse, no Posto: estes homens são bons e por
isso merecem Minha misericórdia. Eles irão catar o minério na
Galeria Oito da Mina Cinco. Darptrui disse!
Os cinco homens gritaram:
- Os Mil Olhos!
Continuou: - Lá dentro vocês irão receber a ferramenta. Vocês
ligam este botão do lado - e mostrou, empunhado um bastão - e
batem com o bastão na parede. Acertem o minério para arrancá-lo
da parede. Depois peguem a pá, carreguem tudo para os carrinhos. E
depois começa tudo de novo. Darptrui disse!
Novamente a mesma resposta.
Um dos homens deu um passo à frente?
- Ispetô, quando nóis vai vê Darptrui?
O Inspetor sacou o chicote e o estalou na direção do
subordinado.
- Subordinado! Darptrui não permite que fale sem permissão!
Darptrui dá o que quer na hora que quer!
O homem, caído no chão, não gemeu nem reclamou. Ergueu-se e
juntou-se ao grupo.
- A quantidade que vocês têm que cavar, por dia - e neste
ponto frisou bem as palavras, para que os subordinados entendessem
bem - é trinta carrinhos. Vocês têm que encher trinta carrinhos
de minério por dia. Entenderam? Trinta carrinhos por dia! Agora,
que Darptrui zele por nós.
Os cinco subordinados entraram na Galeria Oito. O Inspetor, ao
entrar, deu uma chicotada no subordinado Dabelo.
(Diário de Zão Ralufis)
chegou o lote que bão eu pensei mai num foi bão nada a cota
num baxô continua trinta carrinhu eu num falei nada mai o Dabelo
falô levô di novo
cinco 5 cara novo passaro perto di eu as ferramenta tava perto
eles passaro pertinho eu vi eles mai é tudu iguar a gete tudo fio
de Darpitrui que nem a gente
só um eu vi parecia diferente num oiava pra frente olhava dos
lado tamem istranho ninguem oia pros lado nas mina só minériu minériu
minériu i pedra pedra pedra i gente trabaiano
hoje eu catei trinta i um carrinho o Inspetor gostô me saudou
com o Darpitrúi dissi eu respondi mil óleos mai num sei esse
Inspetor num gostu dele
mudaro as orde das cama nos quarto coletivo pusero um dus novo
do meu lado agora de pôco ele falô co eu preguntô quando era a
festa di Darpitrúi eu disse a festa é amanhã ele falô uns negóciu
ixquisito
acho qui essi novo era aquele da mina qui num oiava pra frente
olhava dos lado tamem eu num sei vai dá probrema eu desconfio dessi
ele preguntou quando nóis acordava eu dissi o posto acorda
ele dissi que hora eu num entendi ele dissi uns negóciu despoi
dormiu
(Alojamento. Três horas antes do Toque de Alvorada)
Silêncio. Ele ergueu os olhos do cobertor e tentou contar as
camas. Via três carreiras, com mais ou menos trinta camas.
Aberturas nas paredes parecendo tubos de ventilação. No meio do
recinto a escada que saía no refeitório, nos bares e nos
corredores que levavam às minas. Havia ainda uma porta na parede
sul, uma grande porta onde ele ainda não havia passado.
De um lado dormia aquele mineiro desconfiado que trabalhava na
mesma galeria que ele. Do outro um dos que haviam vindo com ele.
Pensava de onde vinha aquela luz tênue, dispersa por todo o
alojamento. E também a umidade. Podia ser devido ao aposento ser
subterrâneo.
Subitamente ouviu um barulho. Voltou a enterrar-se nas
cobertas. Espiou entre as frestas do cobertor vultos entrando pela
porta, de dois em dois. Pareciam mexer nos tubos de ventilação,
tirando algo de um e colocando no seguinte.
Tremeu quando chegaram ao tubo acima de sua cama. Embora todos
os mineiros se sacudissem enquanto dormiam, ele não mexeu um único
músculo. Tiraram do tubo sobre si e colocaram dentro do tubo sobre
aquele mineiro desconfiado, fosse o que fosse.
Depois passaram aos banheiros. Ele não dormiu mais até o
Toque de Alvorada, pensando em Parnaso.
(Confissão obtida do subordinado Dorlei Xintesi, do lote n.o
4347, transcrita pelo Inspetor de plantão no relatório 00586/57)
Eu estava no bar, com o Zadama e o Lorques. Na outra mesa
estavam o Ralufis, o Gueldo, o Corma e aquele do lote novo. Eu vi
que eles perguntavam muita coisa pro cara novo mas ele não
respondia, até que ele levantou e começou a falar de umas coisas
esquisitas. Falou se a gente não conhecia outra vida, se nunca havíamos
pensado em sair dali, de ter uma mulher só nossa, e umas outras
palavras que eu nunca havia ouvido. Foi daí que o Lorques ouviu
também. Não, ninguém mais ouviu. Só eu e o Lorques. O Zadama
estava bêbado. O Lorques repetiu algumas das frases que o cara novo
tinha dito. Daí vieram dois Inspetores, e bateram na gente. Sim,
antes dos Inspetores chegarem eles pagaram a conta e foram embora. Não,
eles não foram correndo. Acho que foram para a festa de Darptrui,
que ele vele por nós.
(Relatório da Festa de Darptrui, 50-2-04-57 data sidartiana,
elaborado pelo Inspetor do Posto de plantão; excerto)
(...) A noite em Sidarta está limpa. Nenhuma noite seria
melhor que esta para uma Festa de Darptrui. Os Olhos de Darptrui no
céu estão cintilando maravilhosamente.
Na posição 0432 do relógio o Doutrinador deu a ordem e os
lotes saíram aos telhados dos alojamentos. Os telhados, embora um
pouco distanciados dos outros, perdem-se de vista na superfície de
Sidarta. Isso é bom. Crescem os filhos de Darptrui.
Coloquei nos monitores os telhados de números pares, esta
noite. Incluindo os ímpares, alguns dos pares ficaram de fora.
Falta equipamento, mas tenho certeza que o Inspetorado está
providenciando.
O Doutrinador subiu à Torre e sua voz reboou nas caixas de
som. Ele disse, emocionando a mim e a todos: "Darptrui disse:
‘Meus filhos, sois bons, porque viestes de mim. Meus Olhos os vêem
e têm misericórdia de vós. Por isso, ainda tereis a comida e a
cama, e os Inspetores para cuidardes de vós’. Olhai os Mil Olhos
de Darptrui!"
Todos voltaram os olhos para o céu. (...) Vi na tela dos
lotes da Galeria Oito que o Zão Ralufis, do lote n.o 3975,
sentiu-se mal novamente. Acionei o Inspetor da Galeria Oito. Antes,
porém, de trazer o Ralufis para o Posto, um dos novos, o Dalpi
Grantu, do lote n.o 8567, tentou socorrê-lo e levou uma chicotada.
No mais, a cerimônia correu normalmente.
(Diário de Zão Ralufis)
o Grantu pareci um bobão chegô pra mim falô purque tinha
festa di Darpitrúi nem respondi tudu mundo sabe purque tem só ele
num sabe que bobão
gozado ele pareci que num sabe nada pregunta purque a gente
trabaia nas mina eu falu que é pra Darpitrúi ele responde si
Darpitrúi come o minériu que tonto é claro que não Darpitrúi
tem dó di nóis i dexa nóis trabaiá daí ele fala si a gente
nunca saiu lá fora é claro qui sim tuda vez qui tem a festa
ele qué sabê purque eu caio quando óio os óleos di Darpitrúi
eu mi sinto maul num controlo daí eles leva eu pro posto dá remédio
i eu mioro
fiquei brabo hoje o véio Corma num consiguiu a cota mai faltô
só um 1 carrinho intão veiu o ispetô i deu nele deu bastante ele
quasi morreu num sei como ele num morreu
amanhã ou dispoi eu acho pareci qui nóis recebi as ficha pro
bar qui bão vô podê bebê i comê mai bastante i dá tamem pra
falá coa Cine quem sabi nóis vai di novo lá daí eu como ela de
novo gostosa
vô pará que o Grantu capais de seja preguntá purque eu
demoro no banhero drento capais
(Transcrição das ondas cerebrais do Enviado do Controle de
Tráfego em primeiro pessoa, por técnico do C.T.)
Naquela festa idiota em que todos olham as estrelas à noite e
dizem "mil olhos, mil olhos!", eu notei que aquele
mineiro, chamado Ralufis, quando olhava o céu sentia-se mal. Então
o levavam para o tal do Posto de Inspeção. Decidi então fazer o
mesmo, na esperança que me levassem, também. Daria um jeito de
descobrir tudo, quando lá estivesse.
Deu certo. Levaram a mim e ao Ralufis. O Inspetor deu um remédio
a ele. Só havia um Inspetor. Quando chegou a minha vez de tomar o
remédio, peguei-o pelo pescoço e o deixei inconsciente.Chamei o
Ralufis. Ele é teimoso, não quis me obedecer. Gritei com ele, ele
veio como um menino assustado. Entrei por uma porta. Havia telas e
equipamento de monitoração à distância cobrindo as paredes da
sala. Dali controlavam todas as minas, os telhados e quem sabe o que
mais. Saí dali. Voltei à sala onde estava. Descemos, eu e o
Ralufis, por uma escada, a mesma pela qual chegáramos ali. Vi outra
porta, já embaixo. Tentei abrí-la, fechada, arrombei-a com chutes.
Havia pessoas dentro.
- Chega desta palhaçada, gritei eu. O Ralufis estava
encolhido, do lado de fora da sala. - O que vocês fazem com esses
homens é escravidão!
Havia cinco Inspetores sentados numa mesa. Parecia que jogavam
cartas. Aposto que nunca haviam presenciado uma insubordinação tão
ousada. No primeiro momento, ficaram tão surpresos que não houve
um único mover de sobrancelhas. Por um breve momento, fiquei a
imaginar o que pensavam aqueles homenzinhos ridículos, na certa
asseclas de um ditadorzinho de um planeta esquecido, fazendo
lavagens cerebrais e impondo uma religião estúpida a um bando de
mineiros ignorantes, ou tornados ignorantes, aprisionados dos
sistemas solares vizinhos. Depois percebi que eu era o ridículo,
mais ainda, burro, por entrar numa sala abrindo a porta a pontapés,
sem saber o que ou quem encontraria, sem ter uma arma ou um plano.
Mas só percebi tudo isso no meio da frase na qual comecei a gritar
novamente:
- Por que vocês estão isolados do resto? Para vender o minério
sem pagar impostos, não é? Vocês atacam passageiros em Gautama e
transformam os homens em mineiros e as mulheres em prostitutas!
Um dos Inspetores resolveu fazer alguma coisa. Girou um botão
em uma caixinha. Eu caí.
Não sei quanto tempo fiquei inconsciente. Não sabia onde
estava e não havia como saber. Eu estava confuso e meio
anestesiado, com as pálpebras pesadas e a visão turva, quando
conseguia abrir os olhos. Penso que fiquei mais ou menos meia hora
num estado de semi-torpor. Ouvi alguém dizer, depois de certo
tempo:
- O que ele tem é parecido com o nosso Ouvido de Darptrui.
Transmite, como o nosso, mas também grava.
Outra voz disse, momentos mais tarde:
- Podemos dispor da gravação?
- Sem problemas - disse a primeira voz.
Caí inconsciente, mais uma vez. Despertei desta vez vendo-me
numa espécie de maca, presa numa parede. Aquela primeira voz tomou
a forma de um homem magérrimo, cabeludo e com barba por fazer. Sua
voz não combinava nem um pouco com sua fisionomia.
- Aqui está ele, Doutrinador - disse ele.
Não vi o Doutrinador. Eu estava preso na maca. Ele parecia
estar falando de longe, embora parecesse estar na sala. Escutei-o
dizer:
- Então é de Parnaso? Controle de Tráfego? Fico contente
que não tenha feito maiores estragos. Onde está Ralufis?
O cabeludo respondeu:
- Está na Sala de Doutrinação Corretiva.
- Leve-o para o Noviciado de Inspetoria - ordenou o
Doutrinador.
Por um momento pensei que levariam a mim para o Noviciado.
Ouvi, entretanto, a voz do Doutrinador mais próxima.
- Parnaso é muito longe. Ninguém que eu conheça já foi a
Parnaso.
Perdi o controle. Fraco, dormente, gritei, ou tentei gritar:
- Ninguém que eu conheça já veio a Sidarta, também. Mas eu
estou aqui e exijo uma explicação. Por que faz isso? Como esconde
tudo?
O Doutrinador vociferou, furioso:
- Não devo explicações a ninguém!
Caí inconsciente de novo e foi a última vez. (Confusão
sensorial. Atividade cerebral mínima. O sinal é interrompido)
(Telefonema do Controle de Passageiros do Aeroporto
Granmillius Danq, planeta Mahaiana, fronteira do Setor de Sidarta)
- Não, a única pessoa com essa descrição estava
acompanhada. Bagagem normal, senhor. Não, não inspecionamos toda a
bagagem. Não senhor, o volume é grande, estamos na confluência de
três siste... Um momento, vou consultar o destino no nosso
computador. Senhor, foram para o Setor Um, para Galícia. Sim, é só
uma escala. Não temos como controlar o destino final, esse tipo de
passagem tem a opção de escolha de conexão para qualquer planeta
do Setor. Sim, senhor. mandarei os nomes. De nada.
(Reunião de emergência com o Chefe da Segurança do Setor
Um, o Comandante das Armas do Primeiro Quadrante e o Secretário-Geral
da Assembléia Geral Parnasiana)
- Como vamos achá-los? Poremos todo o Setor Um em alerta? São
quarenta sistemas solares!
- Polícia, forças armadas e agências especializadas do
governo nas ruas e nos principais prédios públicos. Outros alvos
importantes, como empresas e edifícios também. Tropas nas ruas em
Galícia, Ipiranga e Parnaso. Nos restantes, vigilância pesada nos
aeroportos.
- Não podem passar do saguão do aeroporto!
- Estão em dupla! Quem será o outro?
- O Enviado deve ser uma isca. Deve haver outras pessoas
agindo em operações isoladas.
- Por que não o mataram?
- O transmissor cerebral. Devem estar querendo eliminar os
registros. Então o usam como isca, para distrair nossa atenção.
- Como devem estar fazendo há trezentos anos.
- O prédio do Controle de Tráfego!
- Não se preocupe. As informações não ficam lá. O que me
preocupa, realmente, que me acaba de ocorrer, é que deve haver
cavalos de tróia entre nós. Onde, exatamente, será nossa tarefa
mais difícil. Vasculhem tudo!
(Gabinete do deputado Geon Malxope, Assembléia Parnasiana)
A porta abriu-se com tal violência que Geon Malxope acordou
do seu cochilo.
- Como vocês entraram aqui? - sobressaltou-se o deputado.
- Calma, excelência - disse o homem, descansando uma mala no
piso. Estava acompanhado de outro, que olhava o chão, distraído.
Parecia que não queria se envolver na cena. O homem da mala falou,
duro, como se pregasse cada palavra com uma martelada numa tábua: -
Não se lembra mais dos membros da base de sustentação?
- Como?... Como?... - o deputado estava embasbacado. - Como
você veio parar aqui? - Ia ligar o botão que ativava a segurança,
quando o homem fez um gesto, ergueu a mala, pousou-a na mesa e a
abriu.
- Deputado, quando eu disse para ter calma, estava falando sério...
Vossa Excelência pode relaxar, por favor? - Pôs uma mão no bolso
da calça e o homem taciturno sentou-se numa poltrona. - Sabe de uma
coisa, Geon... posso chamá-lo assim, excelência? Nossa ligação já
permite isso, não é?
Malxope tremia, incomodado, em sua confortável cadeira.
- Não sei do que está falando.
- Como eu dizia, Geon... eu poderia explodir Cidade Parnaso.
Mas aqui, nesta maleta, há explosivos suficientes para o meu propósito
imediato. Um serviço do qual eu mesmo quis me desincumbir. Para eu
me certificar de que foi bem feito? Não, confio em meus
subordinados o suficiente. É que este serviço tem um gosto
especial de protesto. Sabe que espécie de protesto?
- Você não faria... não faria isso. Você explodiria
junto... e além disso, não vejo como este ato beneficiaria aquele
seu asteróide miserável.
O homem sem tirar as mãos da mala, sentou na beirada da mesa,
continuando, sem se importar com a resposta do deputado:
- Protesto cartorário, Geon! Quebra de contrato! Vim aplicar
a multa!
- Não entendo... - disse o deputado, ofegante - deve ser algo
muito sério, para fazê-lo viajar mil e duzentos parsecs.
- Não é nada muito sério - respondeu o homem - nada que não
possa resumido ao volume de um único homem - e apontou para o homem
sentado.
O político olhou para ele, tentando reconhecê-lo.
- Nunca o vi - disse - não é ninguém ligado a mim, eu lhe
garanto...
O homem da mala ergueu-se num gesto brusco e dirigiu-se a uma
das paredes do gabinete, sem tirar os olhos de Malxope.
- Isto - e passou o braço pelo mapa dos planetas habitados do
Braço de Órion - é um mapa. Você vê Sidarta, o menor planeta
habitado, nele? Você vê Sidarta num mapa de cinqüenta anos atrás?
Não! E cem anos atrás? E duzentos? Não, não, não! - e esmurrava
a carta galática a cada não que pronunciava.
- Deputado Geon Malxope, sua família está na Assembléia há
quatrocentos anos - e aqui o deputado, sem procurar disfarçar o
nervosismo, passou a mão pela testa molhada. - Sidarta e seus
Doutrinadores têm um contrato firmado com a família Malxope há
trezentos anos. E Malxope acabou de quebrá-lo!
O deputado bateu com as duas mãos no tampo da mesa,
levantando-se.
- Como? Todas as referências sobre Sidarta foram apagadas da
Biblioteca de Cidade Parnaso... dos registros do Governo, do Fisco,
do Tesouro... as coordenadas, as rotas do Controle de Tráfego, os
mapas do Braço de Órion... nem se fala mais que Sidarta é o menor
planeta habitado, como você disse, há pouco. Ninguém tem essa
referência, porque ninguém ouviu falar de um planeta chamado
Sidarta... não há referências! - e apontando um dedo trêmulo
para o homem da mala: - Se vocês se fizeram notar, é problema seu!
Seu comércio cresceu mais que esperavam! Não conseguem esconder
tanto minério! Não posso fazer nada se vocês são descuidados!
O homem não respondeu. Nem mesmo mudou a expressão. Voltou
à mala e apertou uma combinação de botões. Depois, dirigiu-se
para o lado de trás da mesa, onde estava o deputado, e antes que
Geon pensasse em detê-lo, arrancou o painel que chamava a segurança.
- Este homem... vê este homem? É um agente do Controle de Tráfego.
- o homem da mala jogou o painel com violência ao chão. - Ele foi
a Sidarta com um objetivo. Não conseguiu alcançá-lo. Nós o
doutrinamos. Eu o controlo, agora. Através deste controle - tirou-o
do bolso da calça - Tome, Malxope. É um presente de despedida. - e
o jogou para o deputado.
Geon Malxope, com os reflexos prejudicados pela tensão,
deixou o controle cair ao chão. O homem saiu do gabinete, sem dizer
nenhuma palavra de despedida. A mala estava sobre a mesa, aberta. Se
eu sair correndo, pensou o deputado, agora, não terei tempo de
evacuar o prédio. Um prédio com mais de dez mil salas! Ora, não
terei tempo de salvar minha própria pele! E o louco daquele
doutrinador era bem capaz de morrer por aquele pedaço de rocha árido.
Não havia como escapar, nem mesmo o homem da mala escaparia! Mas
isso não era nenhum consolo. Esvaziou a esperança do coração e o
desespero tomou conta de si.
Mas o homem distraído, sentado na poltrona, sorria, sem
preocupação, sem medo, sem ansiedade, sem culpa.
Geon pensou como era fácil morrer, com um sorriso daqueles.
(Caderno de relatórios do Aprendiz Zanis Ralufise, primeira página)
Começo este caderno honradamente. O próprio Doutrinador o
entregou a mim. Eu disse a ele que era uma honra. Ele respondeu que
eu merecia pois o próprio Darptrui enviou-me para Sidarta,
especialmente para ser um Inspetor de Minas.
Darptrui seja louvado! Pensar que todo o meu treinamento...
pensar que eu estava sendo testado, e também abençoado!
Talvez seja por isso que não me lembre de nada do que me
aconteceu antes do treinamento no Noviciado. Um caso parecido é de
um subordinado, que escreveu uma espécie de Diário com canetas
roubadas do Posto de Inspeção e papel higiênico dos banheiros.
Como ele sabia escrever, é um enigma para mim. Creio que quando eu
for um Inspetor, todos esses mistérios serão revelados. Mas que
seja na hora certa, quando Darptrui desejar.
O caso desse subordinado será instrutivo, de qualquer forma.
Conhecer como eles pensam e agem será utilíssimo, assim saberei
como dosar o rigor das punições.
Juro honrar a distinção feita a mim por Darptrui, e que o
Doutrinador veio confirmar pessoalmente, com Sua Visão
Privilegiada. Colher o minério é uma dádiva de Darptrui. Torna
todos os subordinados úteis. A nós, Inspetores de Minas, dá um
sentido elevado à vida, por servir como olhos dos Olhos de
Darptrui.
Negar-se a cumprir uma tarefa dada por Darptrui é uma
ingratidão e uma ofensa dirigida ao seu próprio Criador. Por isso,
serei impiedoso com os subordinados quando se tratar de preguiça ou
corpo mole. O mesmo também se aplica a cotas não cumpridas.
Que os Mil Olhos nos guiem e velem por nós!
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