Mil Olhos

 Fábio San Juan

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0081]
[Autor:
Fábio San Juan]
[Título: Mil Olhos]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 5.390]

 

(Manual do Inspetor de Minas, Divisão 3)

Felicidade é uma palavra que um Inspetor está proibido de pronunciar, mesmo para si próprio Ninguém está autorizado a falar sobre, em ou a respeito de felicidade (ou qualquer idéia que lhe esteja relacionada) em serviço ou mesmo fora dele.

Mesmo sendo algo totalmente destituído de lógica ou fundamento, a idéia de felicidade aparece com freqüência entre os subordinados. Cabe ao Inspetor ficar atento à mais leve menção da idéia, que também aparece com outros nomes, como Nirvana, Paraíso, etc. Em linhas gerais, um subversivo compara o seu modo de vida com um absurdo devaneio, onde aparecem sempre comida com fartura, dormitórios individuais e relações amorosas com uma mulher exclusiva.

O procedimento para com tais comportamentos patológicos será a chicotada repetida por meia hora à simples menção da palavra, termo equivalente ou idéia; aumento da cota diária de minério ou outra forma de Disciplina Controlada (veja Divisão 5, Tabela de Correções e Punições Exemplares) se houver reincidência por uma vez; se a ocorrência persistir, ou se o subordinado tentar aliciar seus colegas, o Posto de Inspeção Geral deverá ser avisado, onde será feita a vontade de Darptrui.

As palavras difíceis estão no fim do manual.

(Diário de Zão Ralufis, subordinado da mina 5)

eu peguei paper do banhero peguei um risca que risca paper do posto tô iscreveno resorvi iscrevê num sei eu iscrevo eu num sei como mai eu iscrevo só sei qui sei

num lembro nada Ninguem viu eu mais ficá tempão no banhero é pirigosu ninguém fica tempão no banheru eu fico é pirigosu eu apanho apanho apanho si elis discobre mai eu iscrevo num ligo

eu trabaio na mina cinco 5 cato o minériu que é uma pedra mai num é bem pedra é uma pedra que brilha bastante i é bonitu eu gosto dos minériu num gostu de catá minériu cansa a gente o ispetô bati se fizé mole hoje o Dabelu feiz mole e levô cinco 5 seis 6 sete 7 no lombo eu num sei comu ele guenta ele vivi fazeno mole na mina ele era de fazê mole na mina quatro 4 intão levaro ele pra mina cinco 5 i ele faiz mole si ele fôssi na mina sete ele fazia tamem i tomava

hoje foi festa de Darpitrúi tudu mundo gosta di festa i Darpitrúi tudo olha o céu i vê um mil, nóis fala bem dereito mil óleos num é zoio eu achu bunitu mai eu sinto um negociu ixquisito drento da cabeça i da barriga i num olho mai eu caiu

hoje levaro eu nu posto eu peguei o risca ponhei no borso num sei deu vontade eu tive idéia de iscrevë eu nem sabia iscrevë i eu iscrivi intão eu tô iscreveno intão eu tive idéia di intrá no banheru i iscrevê no paper do banheru tá doenu minha mãou

(Cidade Parnaso, planeta Parnaso)

À mesa estavam sentados o Chefe do Controle de Tráfego, o Chefe da Seção de Cartografia, o Chefe do Censo 58, o Secretário Geral da Assembléia Parnasiana, o Coordenador do Fisco Universal e o Comandante das Armas do Primeiro Quadrante.

- Sidarta é o menor planeta habitado do Braço de Órion - disse o Chefe da Cartografia. - Também é o mais remoto. Isso é tudo que sabemos dele. Não temos nenhuma informação recente. Nossos mapas e rotas para Sidarta datam de trezentos anos.

- E por isso, ninguém vai para Sidarta, especificamente - continuou o Chefe de Tráfego - Na área do planeta há cinco sistemas solares de pouca importância, e ainda assim distantes de Sidarta. Algumas naves do Controle de Tráfego têm ido para esse setor e desaparecido.

- O Censo estará incompleto se não incluirmos os dados desse planeta e seu Setor - interveio o Chefe do Censo 58 - todavia não temos mapas precisos, nem garantia de segurança para os recenseadores.

- Nossos pontos de vista convergem - declarou o Secretário-Geral da Assembléia Parnasiana - na medida que percebemos que uma parte do território que a humanidade ocupa no espaço não tem representação política na Assembléia dos Povos em Parnaso. Não farão parte do grande Concerto dos Povos, não terão parte no grande drama da Humanidade, se ficarem fechados em si mesmos, sem desfrutar da amizade e troca com seus irmãos em outros planetas.

- Este planeta seria de menor importância se nele não existisse mineração - retrucou o Coordenador do Fisco Universal - Depois que ficamos sabendo do enorme volume de minério procedente de Sidarta, é-nos impossível fechar os olhos, por mais distante que esteja.

- Sem falar que está numa área estratégica - completou o Comandante das Armas do Segundo Quadrante. - O programa de
Colonização prevê o início da ocupação do Braço de Sagitário dentro de cento e cinqüenta anos. Por acaso, o Setor onde está situado o planeta fica bem no meio do caminho. Seria ótimo usarmos o espaço como trampolim, com bases de abastecimento, apoio e claro, de defesa.

O Secretário-Geral soltou um estalido com a língua, mostrando sua decepção.

- Deixaríamos este planetinha em paz, não fossem os prejuízos que nos causa... e os impostos que não nos paga.

(Esta aula foi anotada por um dos aprendizes de uma das turmas de Formação de Inspetores, em seu caderno de relatórios. Por ser uma tradição dos inspetores, os aprendizes são instruídos a anotarem seus relatórios na terceira pessoa)

O Doutrinador mandou entrar o novo lote de subordinados por uma das portas e depois pediu a todos que se sentassem. O Doutrinador explicou ao Aprendiz que todos vinham de Gautama. Perguntou se o Aprendiz se lembrava onde era Gautama. O Aprendiz respondeu que era um dos Sete Planetas de Darptrui. Então o Doutrinador continuou explicando. Disse que os subordinados estavam anestesiados do pescoço à cintura. Receberam também uma dose pequena de imipramina. O Doutrinador esclareceu que assim estariam mais receptivos à Doutrinação.

O Doutrinador ordenou ao Técnico para que ligasse o filme. Sentados à frente de uma tela, os subordinados assistiram imagens do que devem ter sido suas vidas em Gautama. Facilidades e conforto tão imorais que o Aprendiz corou de indignação. Teve mesmo vontade de estrangular os subordinados. Mas Darptrui deu-lhe forças e sabia que eles estariam logo no caminho da Retidão.

O Doutrinador explicou que seriam administrados ainda choques elétricos e inibidores farmacológicos durante a exibição. A Doutrinação deve invadir não somente a mente e a alma, mas também o corpo. Os agentes físicos e químicos são apenas instrumentos de Darptrui em sua Doce Conversão, disse ele. Mas primeiro o corpo, depois a alma, coração e mente, completou o Doutrinador.

Começou a segunda fase. Foram exibidas imagens de Darptrui e Seus Mil Olhos. Aromas e fragrâncias diversas invadiram o ambiente, e estimulantes eram administrados.

O Doutrinador explicou ao Aprendiz que seriam feitas mais vinte sessões com o lote, até os subordinados entrarem a serviço de Darptrui, que Seus Olhos nos guiem e velem por nós.

(Diário de Zão Ralufis)

nada bom mina cinco 5 catei trinta 30 carrinhu minériu cansadu pareci quieu vô caí mai eu guento eu vô iscrevë eu gostu

num lembru nada antis nada eu num sempre fui grande animar grande foi piquenu eu pranta grande foi piquenu Hómi grande foi piqueno mai eu nunca vi Hómi piqueno

eu sei lugar de Darpitrúi num é lugar di eu sempre

pareci despoi di hoje chega otro lote lote novo vai catá minériu é bom a cota abáxa uns parde dia atrais levaro uns colega que morreu ou levô chicotada morreu (trecho ilegível por duas linhas).

num intendo purque essis leva chicotada um eu sei leva por causa otro tamem mai os otro eu num sei num vi nem iscutei é longe notro tunel mai a gente ôve falá qui levô intão a gente dá risada tudu tonto tem que trabaiá direito mai num trabáia intão leva no lombo mai eu pensu

daqui a pouco vamu na festa Darpitrúi despoi eu gosto vamu bebê i comê i os amigo eu gostu dos amigo o gordo do Guerdo i o véio do Corma mai eu gostu

eu sei vô oiá us oléos de Darpitrúi vô mi sintí mal i vão mi levá di novo nu posto num sei purque eles faiz issu os ôtro que num óia eles dão chicotada mai eu eles leva pro posto

hoje si dé eu pego ôtro risca riscadô

(Últimas anotações da agenda do Enviado do Controle de Tráfego ao Setor 51)

Lembrar de:

- checar encefalogravor

- enviar bagagem escritório Controle Tráfego

- dar gorjeta tripulantes

planetas investigar: Gautama - Kapilavastu - Saquiamuni

O que sei sobre Sidarta é muito pouco. Ou nada (riscado). Tão pouco que é impossível traçar uma linha de ação. Terei de correr o risco de pedir informações nos planetas do Setor.

Não existem muitos lugares assim, no Braço de Órion, dos quais sabe-se nada ou quase nada. Sempre agi em território conhecido, com informações se não abundantes, pelo menos suficientes. Mas este é o trabalho de um Enviado, chegar ao objetivo colhendo informações ao longo da investigação (frase riscada com apenas um risco no meio, depois anotada acima: óbvio)

Espero que tudo isto termine breve. Voltar para Parnaso, respirar ao ar livre e não o ar engarrafado desta nave.

(Transcrição das ondas cerebrais do Enviado do Controle de Tráfego, na forma de relato em primeira pessoa, feita por técnico do C.T., dias após a transmissão via encefalogravor; trecho)

Estamos descendo em Gautama. Não é bonito nem feio. Não dá para ver muito pela janela. Posso distinguir apenas o que parece ser uma cidade de tamanho médio.

Estamos chegando ao aeroporto. A viagem, do espaço até a superfície, está sendo muito rápida. Comparável aos melhores serviços aéreos de Parnaso.

A aeromoça foi até a cabine do comandante e voltou, pedindo que nos preparássemos para o pouso.

A nave pousa, sinto o baque na pista. Aguardamos, fazemos fila para descer. Quando chego à porta, vejo que lá fora há um grupo de pessoas, vestidos com roupas amarelas. Devem ser funcionários do aeroporto.

Mas não, eu desço e eles...

Ai!

Ai!

Ai...

(Atividade cerebral confusa; segue-se longo trecho onde se registra percepção sensorial mínima)

Darptrui... Darptrui...

Mil Olhos, mil olhos, mil, mil!

Por que estou aqui? Que lugar é esse?

Lavagem cerebral? Condicionamento? Não fui afetado, deve ser o encefalogravor.

Vou ter que fingir que fui.

(Diário de Zão Ralufis)

sorte sorte di Darpitrúi tive tão medo num iscrevi antis de hoje antis onti é onti lembrei num iscrevi onti de bebê co Guerdo i o véio Corma

nóis tava no bar sentado bebenu veiu a Cine sentô no colu do Corma ele ficô bravu num sei purque ele ficô bravo mai ficô nuncavi ele assim a Cine vortô pro balcão ficô oiando pra mim

daí o Corma falô co Guerdo i coeu duns negóciu di tê um lugar onde num era cheiu di gente i num bebessi bastante mai ficassi bão i gostosu intão o Guerdo achô ixquisito i eu achei tamem i a Cine oiando pra mim intão o Corma falô intão que ele lembrô dumas coisa dumas palavra que eu num lembro num guardei na cabeça

eu saí da mesa i fui coa Cine num canto lá meio escondido eu preguntei si ela quiria ela quiria i a gente foi intão ali memo eu comi ela ai qui gostosa fiquei mai um pôco coela i despoi comencei vortá na mesa

eu num saí num deu doi minuto que eu saí do canto eu vi us ispetô dando no Corma i nu Guerdo tamem eu num entendi mai disconfio eu fiquei queto i num falei nada mai eu desconfio

aquelas coisa ixquisita do Corma qui ele falô acho qui si eu num tivesse saído da mesa eu tinha levado tamem os dois apanharo eu não porpôco

(Mina Cinco, Galeria Oito. Primeiro dia do lote n.o 8567)

O Inspetor de Minas parou em frente à frente à abertura da Galeria Oito. Olhou cada um dos cinco homens e disse:

- Darptrui nos disse, no Posto: estes homens são bons e por isso merecem Minha misericórdia. Eles irão catar o minério na Galeria Oito da Mina Cinco. Darptrui disse!

Os cinco homens gritaram:

- Os Mil Olhos!

Continuou: - Lá dentro vocês irão receber a ferramenta. Vocês ligam este botão do lado - e mostrou, empunhado um bastão - e batem com o bastão na parede. Acertem o minério para arrancá-lo da parede. Depois peguem a pá, carreguem tudo para os carrinhos. E depois começa tudo de novo. Darptrui disse!

Novamente a mesma resposta.

Um dos homens deu um passo à frente?

- Ispetô, quando nóis vai vê Darptrui?

O Inspetor sacou o chicote e o estalou na direção do subordinado.

- Subordinado! Darptrui não permite que fale sem permissão! Darptrui dá o que quer na hora que quer!

O homem, caído no chão, não gemeu nem reclamou. Ergueu-se e juntou-se ao grupo.

- A quantidade que vocês têm que cavar, por dia - e neste ponto frisou bem as palavras, para que os subordinados entendessem bem - é trinta carrinhos. Vocês têm que encher trinta carrinhos de minério por dia. Entenderam? Trinta carrinhos por dia! Agora, que Darptrui zele por nós.

Os cinco subordinados entraram na Galeria Oito. O Inspetor, ao entrar, deu uma chicotada no subordinado Dabelo.

(Diário de Zão Ralufis)

chegou o lote que bão eu pensei mai num foi bão nada a cota num baxô continua trinta carrinhu eu num falei nada mai o Dabelo falô levô di novo

cinco 5 cara novo passaro perto di eu as ferramenta tava perto eles passaro pertinho eu vi eles mai é tudu iguar a gete tudo fio de Darpitrui que nem a gente

só um eu vi parecia diferente num oiava pra frente olhava dos lado tamem istranho ninguem oia pros lado nas mina só minériu minériu minériu i pedra pedra pedra i gente trabaiano

hoje eu catei trinta i um carrinho o Inspetor gostô me saudou com o Darpitrúi dissi eu respondi mil óleos mai num sei esse Inspetor num gostu dele

mudaro as orde das cama nos quarto coletivo pusero um dus novo do meu lado agora de pôco ele falô co eu preguntô quando era a festa di Darpitrúi eu disse a festa é amanhã ele falô uns negóciu ixquisito

acho qui essi novo era aquele da mina qui num oiava pra frente olhava dos lado tamem eu num sei vai dá probrema eu desconfio dessi

ele preguntou quando nóis acordava eu dissi o posto acorda ele dissi que hora eu num entendi ele dissi uns negóciu despoi dormiu

(Alojamento. Três horas antes do Toque de Alvorada)

Silêncio. Ele ergueu os olhos do cobertor e tentou contar as camas. Via três carreiras, com mais ou menos trinta camas. Aberturas nas paredes parecendo tubos de ventilação. No meio do recinto a escada que saía no refeitório, nos bares e nos corredores que levavam às minas. Havia ainda uma porta na parede sul, uma grande porta onde ele ainda não havia passado.

De um lado dormia aquele mineiro desconfiado que trabalhava na mesma galeria que ele. Do outro um dos que haviam vindo com ele. Pensava de onde vinha aquela luz tênue, dispersa por todo o alojamento. E também a umidade. Podia ser devido ao aposento ser subterrâneo.

Subitamente ouviu um barulho. Voltou a enterrar-se nas cobertas. Espiou entre as frestas do cobertor vultos entrando pela porta, de dois em dois. Pareciam mexer nos tubos de ventilação, tirando algo de um e colocando no seguinte.

Tremeu quando chegaram ao tubo acima de sua cama. Embora todos os mineiros se sacudissem enquanto dormiam, ele não mexeu um único músculo. Tiraram do tubo sobre si e colocaram dentro do tubo sobre aquele mineiro desconfiado, fosse o que fosse.

Depois passaram aos banheiros. Ele não dormiu mais até o Toque de Alvorada, pensando em Parnaso.

(Confissão obtida do subordinado Dorlei Xintesi, do lote n.o 4347, transcrita pelo Inspetor de plantão no relatório 00586/57)

Eu estava no bar, com o Zadama e o Lorques. Na outra mesa estavam o Ralufis, o Gueldo, o Corma e aquele do lote novo. Eu vi que eles perguntavam muita coisa pro cara novo mas ele não respondia, até que ele levantou e começou a falar de umas coisas esquisitas. Falou se a gente não conhecia outra vida, se nunca havíamos pensado em sair dali, de ter uma mulher só nossa, e umas outras palavras que eu nunca havia ouvido. Foi daí que o Lorques ouviu também. Não, ninguém mais ouviu. Só eu e o Lorques. O Zadama estava bêbado. O Lorques repetiu algumas das frases que o cara novo tinha dito. Daí vieram dois Inspetores, e bateram na gente. Sim, antes dos Inspetores chegarem eles pagaram a conta e foram embora. Não, eles não foram correndo. Acho que foram para a festa de Darptrui, que ele vele por nós.

(Relatório da Festa de Darptrui, 50-2-04-57 data sidartiana, elaborado pelo Inspetor do Posto de plantão; excerto)

(...) A noite em Sidarta está limpa. Nenhuma noite seria melhor que esta para uma Festa de Darptrui. Os Olhos de Darptrui no céu estão cintilando maravilhosamente.

Na posição 0432 do relógio o Doutrinador deu a ordem e os lotes saíram aos telhados dos alojamentos. Os telhados, embora um pouco distanciados dos outros, perdem-se de vista na superfície de Sidarta. Isso é bom. Crescem os filhos de Darptrui.

Coloquei nos monitores os telhados de números pares, esta noite. Incluindo os ímpares, alguns dos pares ficaram de fora. Falta equipamento, mas tenho certeza que o Inspetorado está providenciando.

O Doutrinador subiu à Torre e sua voz reboou nas caixas de som. Ele disse, emocionando a mim e a todos: "Darptrui disse: ‘Meus filhos, sois bons, porque viestes de mim. Meus Olhos os vêem e têm misericórdia de vós. Por isso, ainda tereis a comida e a cama, e os Inspetores para cuidardes de vós’. Olhai os Mil Olhos de Darptrui!"

Todos voltaram os olhos para o céu. (...) Vi na tela dos lotes da Galeria Oito que o Zão Ralufis, do lote n.o 3975, sentiu-se mal novamente. Acionei o Inspetor da Galeria Oito. Antes, porém, de trazer o Ralufis para o Posto, um dos novos, o Dalpi Grantu, do lote n.o 8567, tentou socorrê-lo e levou uma chicotada. No mais, a cerimônia correu normalmente.

(Diário de Zão Ralufis)

o Grantu pareci um bobão chegô pra mim falô purque tinha festa di Darpitrúi nem respondi tudu mundo sabe purque tem só ele num sabe que bobão

gozado ele pareci que num sabe nada pregunta purque a gente trabaia nas mina eu falu que é pra Darpitrúi ele responde si Darpitrúi come o minériu que tonto é claro que não Darpitrúi tem dó di nóis i dexa nóis trabaiá daí ele fala si a gente nunca saiu lá fora é claro qui sim tuda vez qui tem a festa

ele qué sabê purque eu caio quando óio os óleos di Darpitrúi eu mi sinto maul num controlo daí eles leva eu pro posto dá remédio i eu mioro

fiquei brabo hoje o véio Corma num consiguiu a cota mai faltô só um 1 carrinho intão veiu o ispetô i deu nele deu bastante ele quasi morreu num sei como ele num morreu

amanhã ou dispoi eu acho pareci qui nóis recebi as ficha pro bar qui bão vô podê bebê i comê mai bastante i dá tamem pra falá coa Cine quem sabi nóis vai di novo lá daí eu como ela de novo gostosa

vô pará que o Grantu capais de seja preguntá purque eu demoro no banhero drento capais

(Transcrição das ondas cerebrais do Enviado do Controle de Tráfego em primeiro pessoa, por técnico do C.T.)

Naquela festa idiota em que todos olham as estrelas à noite e dizem "mil olhos, mil olhos!", eu notei que aquele mineiro, chamado Ralufis, quando olhava o céu sentia-se mal. Então o levavam para o tal do Posto de Inspeção. Decidi então fazer o mesmo, na esperança que me levassem, também. Daria um jeito de descobrir tudo, quando lá estivesse.

Deu certo. Levaram a mim e ao Ralufis. O Inspetor deu um remédio a ele. Só havia um Inspetor. Quando chegou a minha vez de tomar o remédio, peguei-o pelo pescoço e o deixei inconsciente.Chamei o Ralufis. Ele é teimoso, não quis me obedecer. Gritei com ele, ele veio como um menino assustado. Entrei por uma porta. Havia telas e equipamento de monitoração à distância cobrindo as paredes da sala. Dali controlavam todas as minas, os telhados e quem sabe o que mais. Saí dali. Voltei à sala onde estava. Descemos, eu e o Ralufis, por uma escada, a mesma pela qual chegáramos ali. Vi outra porta, já embaixo. Tentei abrí-la, fechada, arrombei-a com chutes. Havia pessoas dentro.

- Chega desta palhaçada, gritei eu. O Ralufis estava encolhido, do lado de fora da sala. - O que vocês fazem com esses homens é escravidão!

Havia cinco Inspetores sentados numa mesa. Parecia que jogavam cartas. Aposto que nunca haviam presenciado uma insubordinação tão ousada. No primeiro momento, ficaram tão surpresos que não houve um único mover de sobrancelhas. Por um breve momento, fiquei a imaginar o que pensavam aqueles homenzinhos ridículos, na certa asseclas de um ditadorzinho de um planeta esquecido, fazendo lavagens cerebrais e impondo uma religião estúpida a um bando de mineiros ignorantes, ou tornados ignorantes, aprisionados dos sistemas solares vizinhos. Depois percebi que eu era o ridículo, mais ainda, burro, por entrar numa sala abrindo a porta a pontapés, sem saber o que ou quem encontraria, sem ter uma arma ou um plano. Mas só percebi tudo isso no meio da frase na qual comecei a gritar novamente:

- Por que vocês estão isolados do resto? Para vender o minério sem pagar impostos, não é? Vocês atacam passageiros em Gautama e transformam os homens em mineiros e as mulheres em prostitutas!

Um dos Inspetores resolveu fazer alguma coisa. Girou um botão em uma caixinha. Eu caí.

Não sei quanto tempo fiquei inconsciente. Não sabia onde estava e não havia como saber. Eu estava confuso e meio anestesiado, com as pálpebras pesadas e a visão turva, quando conseguia abrir os olhos. Penso que fiquei mais ou menos meia hora num estado de semi-torpor. Ouvi alguém dizer, depois de certo tempo:

- O que ele tem é parecido com o nosso Ouvido de Darptrui. Transmite, como o nosso, mas também grava.

Outra voz disse, momentos mais tarde:

- Podemos dispor da gravação?

- Sem problemas - disse a primeira voz.

Caí inconsciente, mais uma vez. Despertei desta vez vendo-me numa espécie de maca, presa numa parede. Aquela primeira voz tomou a forma de um homem magérrimo, cabeludo e com barba por fazer. Sua voz não combinava nem um pouco com sua fisionomia.

- Aqui está ele, Doutrinador - disse ele.

Não vi o Doutrinador. Eu estava preso na maca. Ele parecia estar falando de longe, embora parecesse estar na sala. Escutei-o dizer:

- Então é de Parnaso? Controle de Tráfego? Fico contente que não tenha feito maiores estragos. Onde está Ralufis?

O cabeludo respondeu:

- Está na Sala de Doutrinação Corretiva.

- Leve-o para o Noviciado de Inspetoria - ordenou o Doutrinador.

Por um momento pensei que levariam a mim para o Noviciado. Ouvi, entretanto, a voz do Doutrinador mais próxima.

- Parnaso é muito longe. Ninguém que eu conheça já foi a Parnaso.

Perdi o controle. Fraco, dormente, gritei, ou tentei gritar:

- Ninguém que eu conheça já veio a Sidarta, também. Mas eu estou aqui e exijo uma explicação. Por que faz isso? Como esconde tudo?

O Doutrinador vociferou, furioso:

- Não devo explicações a ninguém!

Caí inconsciente de novo e foi a última vez. (Confusão sensorial. Atividade cerebral mínima. O sinal é interrompido)

(Telefonema do Controle de Passageiros do Aeroporto Granmillius Danq, planeta Mahaiana, fronteira do Setor de Sidarta)

- Não, a única pessoa com essa descrição estava acompanhada. Bagagem normal, senhor. Não, não inspecionamos toda a bagagem. Não senhor, o volume é grande, estamos na confluência de três siste... Um momento, vou consultar o destino no nosso computador. Senhor, foram para o Setor Um, para Galícia. Sim, é só uma escala. Não temos como controlar o destino final, esse tipo de passagem tem a opção de escolha de conexão para qualquer planeta do Setor. Sim, senhor. mandarei os nomes. De nada.

(Reunião de emergência com o Chefe da Segurança do Setor Um, o Comandante das Armas do Primeiro Quadrante e o Secretário-Geral da Assembléia Geral Parnasiana)

- Como vamos achá-los? Poremos todo o Setor Um em alerta? São quarenta sistemas solares!

- Polícia, forças armadas e agências especializadas do governo nas ruas e nos principais prédios públicos. Outros alvos importantes, como empresas e edifícios também. Tropas nas ruas em Galícia, Ipiranga e Parnaso. Nos restantes, vigilância pesada nos aeroportos.

- Não podem passar do saguão do aeroporto!

- Estão em dupla! Quem será o outro?

- O Enviado deve ser uma isca. Deve haver outras pessoas agindo em operações isoladas.

- Por que não o mataram?

- O transmissor cerebral. Devem estar querendo eliminar os registros. Então o usam como isca, para distrair nossa atenção.

- Como devem estar fazendo há trezentos anos.

- O prédio do Controle de Tráfego!

- Não se preocupe. As informações não ficam lá. O que me preocupa, realmente, que me acaba de ocorrer, é que deve haver cavalos de tróia entre nós. Onde, exatamente, será nossa tarefa mais difícil. Vasculhem tudo!

(Gabinete do deputado Geon Malxope, Assembléia Parnasiana)

A porta abriu-se com tal violência que Geon Malxope acordou do seu cochilo.

- Como vocês entraram aqui? - sobressaltou-se o deputado.

- Calma, excelência - disse o homem, descansando uma mala no piso. Estava acompanhado de outro, que olhava o chão, distraído. Parecia que não queria se envolver na cena. O homem da mala falou, duro, como se pregasse cada palavra com uma martelada numa tábua: - Não se lembra mais dos membros da base de sustentação?

- Como?... Como?... - o deputado estava embasbacado. - Como você veio parar aqui? - Ia ligar o botão que ativava a segurança, quando o homem fez um gesto, ergueu a mala, pousou-a na mesa e a abriu.

- Deputado, quando eu disse para ter calma, estava falando sério... Vossa Excelência pode relaxar, por favor? - Pôs uma mão no bolso da calça e o homem taciturno sentou-se numa poltrona. - Sabe de uma coisa, Geon... posso chamá-lo assim, excelência? Nossa ligação já permite isso, não é?

Malxope tremia, incomodado, em sua confortável cadeira.

- Não sei do que está falando.

- Como eu dizia, Geon... eu poderia explodir Cidade Parnaso. Mas aqui, nesta maleta, há explosivos suficientes para o meu propósito imediato. Um serviço do qual eu mesmo quis me desincumbir. Para eu me certificar de que foi bem feito? Não, confio em meus subordinados o suficiente. É que este serviço tem um gosto especial de protesto. Sabe que espécie de protesto?

- Você não faria... não faria isso. Você explodiria junto... e além disso, não vejo como este ato beneficiaria aquele seu asteróide miserável.

O homem sem tirar as mãos da mala, sentou na beirada da mesa, continuando, sem se importar com a resposta do deputado:

- Protesto cartorário, Geon! Quebra de contrato! Vim aplicar a multa!

- Não entendo... - disse o deputado, ofegante - deve ser algo muito sério, para fazê-lo viajar mil e duzentos parsecs.

- Não é nada muito sério - respondeu o homem - nada que não possa resumido ao volume de um único homem - e apontou para o homem sentado.

O político olhou para ele, tentando reconhecê-lo.

- Nunca o vi - disse - não é ninguém ligado a mim, eu lhe garanto...

O homem da mala ergueu-se num gesto brusco e dirigiu-se a uma das paredes do gabinete, sem tirar os olhos de Malxope.

- Isto - e passou o braço pelo mapa dos planetas habitados do Braço de Órion - é um mapa. Você vê Sidarta, o menor planeta habitado, nele? Você vê Sidarta num mapa de cinqüenta anos atrás? Não! E cem anos atrás? E duzentos? Não, não, não! - e esmurrava a carta galática a cada não que pronunciava.

- Deputado Geon Malxope, sua família está na Assembléia há quatrocentos anos - e aqui o deputado, sem procurar disfarçar o nervosismo, passou a mão pela testa molhada. - Sidarta e seus Doutrinadores têm um contrato firmado com a família Malxope há trezentos anos. E Malxope acabou de quebrá-lo!

O deputado bateu com as duas mãos no tampo da mesa, levantando-se.

- Como? Todas as referências sobre Sidarta foram apagadas da Biblioteca de Cidade Parnaso... dos registros do Governo, do Fisco, do Tesouro... as coordenadas, as rotas do Controle de Tráfego, os mapas do Braço de Órion... nem se fala mais que Sidarta é o menor planeta habitado, como você disse, há pouco. Ninguém tem essa referência, porque ninguém ouviu falar de um planeta chamado Sidarta... não há referências! - e apontando um dedo trêmulo para o homem da mala: - Se vocês se fizeram notar, é problema seu! Seu comércio cresceu mais que esperavam! Não conseguem esconder tanto minério! Não posso fazer nada se vocês são descuidados!

O homem não respondeu. Nem mesmo mudou a expressão. Voltou à mala e apertou uma combinação de botões. Depois, dirigiu-se para o lado de trás da mesa, onde estava o deputado, e antes que Geon pensasse em detê-lo, arrancou o painel que chamava a segurança.

- Este homem... vê este homem? É um agente do Controle de Tráfego. - o homem da mala jogou o painel com violência ao chão. - Ele foi a Sidarta com um objetivo. Não conseguiu alcançá-lo. Nós o doutrinamos. Eu o controlo, agora. Através deste controle - tirou-o do bolso da calça - Tome, Malxope. É um presente de despedida. - e o jogou para o deputado.

Geon Malxope, com os reflexos prejudicados pela tensão, deixou o controle cair ao chão. O homem saiu do gabinete, sem dizer nenhuma palavra de despedida. A mala estava sobre a mesa, aberta. Se eu sair correndo, pensou o deputado, agora, não terei tempo de evacuar o prédio. Um prédio com mais de dez mil salas! Ora, não terei tempo de salvar minha própria pele! E o louco daquele doutrinador era bem capaz de morrer por aquele pedaço de rocha árido. Não havia como escapar, nem mesmo o homem da mala escaparia! Mas isso não era nenhum consolo. Esvaziou a esperança do coração e o desespero tomou conta de si.

Mas o homem distraído, sentado na poltrona, sorria, sem preocupação, sem medo, sem ansiedade, sem culpa.

Geon pensou como era fácil morrer, com um sorriso daqueles.

(Caderno de relatórios do Aprendiz Zanis Ralufise, primeira página)

Começo este caderno honradamente. O próprio Doutrinador o entregou a mim. Eu disse a ele que era uma honra. Ele respondeu que eu merecia pois o próprio Darptrui enviou-me para Sidarta, especialmente para ser um Inspetor de Minas.

Darptrui seja louvado! Pensar que todo o meu treinamento... pensar que eu estava sendo testado, e também abençoado!

Talvez seja por isso que não me lembre de nada do que me aconteceu antes do treinamento no Noviciado. Um caso parecido é de um subordinado, que escreveu uma espécie de Diário com canetas roubadas do Posto de Inspeção e papel higiênico dos banheiros. Como ele sabia escrever, é um enigma para mim. Creio que quando eu for um Inspetor, todos esses mistérios serão revelados. Mas que seja na hora certa, quando Darptrui desejar.

O caso desse subordinado será instrutivo, de qualquer forma. Conhecer como eles pensam e agem será utilíssimo, assim saberei como dosar o rigor das punições.

Juro honrar a distinção feita a mim por Darptrui, e que o Doutrinador veio confirmar pessoalmente, com Sua Visão Privilegiada. Colher o minério é uma dádiva de Darptrui. Torna todos os subordinados úteis. A nós, Inspetores de Minas, dá um sentido elevado à vida, por servir como olhos dos Olhos de Darptrui.

Negar-se a cumprir uma tarefa dada por Darptrui é uma ingratidão e uma ofensa dirigida ao seu próprio Criador. Por isso, serei impiedoso com os subordinados quando se tratar de preguiça ou corpo mole. O mesmo também se aplica a cotas não cumpridas.

Que os Mil Olhos nos guiem e velem por nós!

    

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