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Introdução
Cá estamos outra vez. Eu e você. Eu, para contar-lhe mais um
caso que aconteceu no interior deste mundo sem dono. Você, para
ouvir e não comentar com ninguém o que aqui está dito, ou se isto
você fizer, a autoria do fato será sua e também as conseqüências.
A crueldade, a frieza, os valores do episódio que está
nessas linhas parece nos levar à época medieval, mas não se
engane, estamos próximos à chegada de uma esperada Nova Era. Para
encurtar os fatos, por próprio desconhecimento e abrindo mão de
comentários supérfluos e igualmente de momentos de pouca importância,
devo dizer que opto pela clareza das palavras, se é que neste caso
isto é possível.
Fato
Nasceu o filho de um herdeiro. Mal completara um ano e seu
choro começou no meio de uma madrugada tempestuosa. Para desespero
de seus genitores, o estridente gemido infantil não parou mais nos
corredores daquela casa. O mal-afortunado padeceu por horas, dias,
semanas. Sem saber o que fazer, logo no início, os pais levaram-no
no médico da família. Ele nada conseguiu diagnosticar e o choro
continuou. Levaram então no médico mais conhecido daquela cidade.
Foram feitos exames e mais exames e, para desespero daquele jovem
casal e do seu primeiro filho, nada. Foram aconselhados e fizeram as
malas para andar o país na busca da cura. Encontraram os
equipamentos mais modernos e os melhores especialistas,
experimentaram novos testes e tratamentos, mas da garganta do
pequeno só saía o gemido profundo. Buscaram então bençãos e
tentaram ainda as simpatias milagrosas. Em vão.
Depois da longa busca e do fracasso, os pais deixaram suas
cabeças cairem entre as mãos. O olho do pavor. "Eu daria
qualquer riqueza, sabedoria, até meu próprio sangue, pela cura do
meu filho" gritava a mãe pelos corredores sombrios da casa
onde viviam. Quando era tomada pelo desespero pleno precisava ser
amparada pelas suas serviçais. Nem lágrimas secas havia mais para
que rolassem pelas cicatrizes deixadas nas faces sofredoras. As
bocas amargas, os olhos paralíticos, os narizes entupidos e insensíveis.
Assim eles se sentiam. Foi quando chegou aos ouvidos, soprado por
alguém que conhecia a pena daqueles dois desesperados, uma nova
esperança, capaz de abrir-lhe os olhos, destampar-lhes as bocas e
os narizes: uma colecionadora que vivia na pacata cidade vizinha,
tinha um espelho que fazia enxergar os problemas mais profundos das
pessoas, as doenças e feridas de suas almas. Na manhã seguinte
acordaram cedo e partiram com o carro e os corações cheios de
esperança. Foram sozinhos, os pais e o filho doente.
Os três, pai e mãe, ela com o filhote protegido em seus
acalentadores braços, entraram na sala escurecida do casarão,
decorada com móveis antigos, objetos cosmopolitas e tapetes até
nas paredes, onde foram recepcionados por uma bela senhora embora
pequena. Era a dona. A mãe foi quem falou. Explicou o problema com
seu amado filho e disse que sabendo do espelho das almas tomou-se de
uma coragem desesperadora e ali veio para pedir, afinal, era esta a
última alternativa que restava para enterrar aquela longa dor que o
pequeno sentia e que neles ia se enraizando pelas entranhas.
Acrescentou ainda que para isto, estavam dispostos a retribuir a
gentileza, que insistiam, era um agradecimento. Mas, sem desfazer o
sorriso nos lábios, ela não aceitou.
- Podemos pagar a quantia que a Senhora quiser - disse então
a mãe, ainda pensando que aquela era apenas uma brincadeira
estranha.
Ela voltou a negar o pedido, apenas balançando a cabeça
negativamente.
- Entregaremos nossa fortuna.
- Não. Eu não aceito, dinheiro não me falta. Sou só e
minha fortuna é o que me resta.
- Toda, até o último centavo. - insistiu a mãe.
- Não.
- Todo ouro, carros, casas e terras pela esperança de
encontrar a cura do nosso filho querido - acrescentou o pai numa voz
ainda sob controle.
- Lhe damos nossos títulos sociais.
Ela ainda assim negou.
- Lhe seremos eternamente gratos.
- Não é possível.
Ela negou ainda mais uma vez e mais outras ainda e disse que a
negociação estava encerrada, que não havia possibilidade lógica
para que tal desejo viesse a se tornar fato real.
Então eles ofereceram lealdade e servidão até que suas forças
não permitissem mais que seus corpos ficassem sobre as pernas.
Ela, mais uma vez, deu de ombros à proposta. Ofereceram, com
suas vozes trêmulas, um completando as palavras do outro, seus próprios
corpos. Ela fechou os olhos e voltou a negá-los, impaciente, já
com um tom encomodado na voz. - Eu lhe dou o meu sangue - falou a mãe
lamuriosa. Mas seu pedido também foi negado. Desesperada ela
levantou da cadeira e precisou que o marido a agarrasse pelas roupas
quando tentou arranhar o rosto daquela cruel mulher. Ficara com os
olhos vermelhos e as veias salientes por debaixo da pele febril da
testa.
Antes de deixarem aquela casa onde tiveram todas as suas
esperanças friamente estraçalhadas, ainda com a estranheza do
corpo ensopado com o suor gelado, a mãe voltou-se, com uma
seriedade dura no olhar e ofereceu-lhe, então, a própria criança.
Ela aceitou.
Quando tomou o bebê em seus braços, subitamente ele parou
com a dolorida choradeira. Ela embalou o pequeno e caminharam até
outra peça. A dona com a criança, na frente, e os pais, na sombra
de seus passos.
Entraram numa imensa sala clara. Lá tudo se refletia num único
espelho que ficava solitário na outra extremidade da peça como um
grande olho de vidro. Andaram sob os ruídos dos sapatos tocando
coordenadamente o assoalho de madeira, acompanhados pelas paredes
que pareciam andar ao seu lado, idênticas a cada metro alcançado.
Aqueles quatro pararam em frente a peça rara. Nesta hora, os pais não
puderam ver suas próprias e aterrorizadas expressões escritas pela
carne dos seus olhos e lábios. No espelho, apenas o reflexo das
suas duas almas, que flutuavam lado a lado, e mais nada, além da própria
sala.
Já era noite quando deixaram a casa da desalmada. Da rua
puderam ainda ouvir os gritinhos alegres do nenê.
Chegaram em casa sob o céu calmo da madrugada e apenas no dia
seguinte comunicaram, com estranho alívio, o falecimento da criança
sem alma.
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