A Negociação

 Eduardo Boldrini

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0077]
[Autor:
Eduardo Boldrini]
[Título: A Negociação]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 1.040]

 

      Introdução

Cá estamos outra vez. Eu e você. Eu, para contar-lhe mais um caso que aconteceu no interior deste mundo sem dono. Você, para ouvir e não comentar com ninguém o que aqui está dito, ou se isto você fizer, a autoria do fato será sua e também as conseqüências.

 

A crueldade, a frieza, os valores do episódio que está nessas linhas parece nos levar à época medieval, mas não se engane, estamos próximos à chegada de uma esperada Nova Era. Para encurtar os fatos, por próprio desconhecimento e abrindo mão de comentários supérfluos e igualmente de momentos de pouca importância, devo dizer que opto pela clareza das palavras, se é que neste caso isto é possível.

 

Fato

Nasceu o filho de um herdeiro. Mal completara um ano e seu choro começou no meio de uma madrugada tempestuosa. Para desespero de seus genitores, o estridente gemido infantil não parou mais nos corredores daquela casa. O mal-afortunado padeceu por horas, dias, semanas. Sem saber o que fazer, logo no início, os pais levaram-no no médico da família. Ele nada conseguiu diagnosticar e o choro continuou. Levaram então no médico mais conhecido daquela cidade. Foram feitos exames e mais exames e, para desespero daquele jovem casal e do seu primeiro filho, nada. Foram aconselhados e fizeram as malas para andar o país na busca da cura. Encontraram os equipamentos mais modernos e os melhores especialistas, experimentaram novos testes e tratamentos, mas da garganta do pequeno só saía o gemido profundo. Buscaram então bençãos e tentaram ainda as simpatias milagrosas. Em vão.

 

Depois da longa busca e do fracasso, os pais deixaram suas cabeças cairem entre as mãos. O olho do pavor. "Eu daria qualquer riqueza, sabedoria, até meu próprio sangue, pela cura do meu filho" gritava a mãe pelos corredores sombrios da casa onde viviam. Quando era tomada pelo desespero pleno precisava ser amparada pelas suas serviçais. Nem lágrimas secas havia mais para que rolassem pelas cicatrizes deixadas nas faces sofredoras. As bocas amargas, os olhos paralíticos, os narizes entupidos e insensíveis. Assim eles se sentiam. Foi quando chegou aos ouvidos, soprado por alguém que conhecia a pena daqueles dois desesperados, uma nova esperança, capaz de abrir-lhe os olhos, destampar-lhes as bocas e os narizes: uma colecionadora que vivia na pacata cidade vizinha, tinha um espelho que fazia enxergar os problemas mais profundos das pessoas, as doenças e feridas de suas almas. Na manhã seguinte acordaram cedo e partiram com o carro e os corações cheios de esperança. Foram sozinhos, os pais e o filho doente.

 

Os três, pai e mãe, ela com o filhote protegido em seus acalentadores braços, entraram na sala escurecida do casarão, decorada com móveis antigos, objetos cosmopolitas e tapetes até nas paredes, onde foram recepcionados por uma bela senhora embora pequena. Era a dona. A mãe foi quem falou. Explicou o problema com seu amado filho e disse que sabendo do espelho das almas tomou-se de uma coragem desesperadora e ali veio para pedir, afinal, era esta a última alternativa que restava para enterrar aquela longa dor que o pequeno sentia e que neles ia se enraizando pelas entranhas. Acrescentou ainda que para isto, estavam dispostos a retribuir a gentileza, que insistiam, era um agradecimento. Mas, sem desfazer o sorriso nos lábios, ela não aceitou.

 

- Podemos pagar a quantia que a Senhora quiser - disse então a mãe, ainda pensando que aquela era apenas uma brincadeira estranha.

 

Ela voltou a negar o pedido, apenas balançando a cabeça negativamente.

- Entregaremos nossa fortuna.

- Não. Eu não aceito, dinheiro não me falta. Sou só e minha fortuna é o que me resta.

- Toda, até o último centavo. - insistiu a mãe.

- Não.

- Todo ouro, carros, casas e terras pela esperança de encontrar a cura do nosso filho querido - acrescentou o pai numa voz ainda sob controle.

- Lhe damos nossos títulos sociais.

Ela ainda assim negou.

- Lhe seremos eternamente gratos.

- Não é possível.

Ela negou ainda mais uma vez e mais outras ainda e disse que a negociação estava encerrada, que não havia possibilidade lógica para que tal desejo viesse a se tornar fato real.

Então eles ofereceram lealdade e servidão até que suas forças não permitissem mais que seus corpos ficassem sobre as pernas.

 

Ela, mais uma vez, deu de ombros à proposta. Ofereceram, com suas vozes trêmulas, um completando as palavras do outro, seus próprios corpos. Ela fechou os olhos e voltou a negá-los, impaciente, já com um tom encomodado na voz. - Eu lhe dou o meu sangue - falou a mãe lamuriosa. Mas seu pedido também foi negado. Desesperada ela levantou da cadeira e precisou que o marido a agarrasse pelas roupas quando tentou arranhar o rosto daquela cruel mulher. Ficara com os olhos vermelhos e as veias salientes por debaixo da pele febril da testa.

 

Antes de deixarem aquela casa onde tiveram todas as suas esperanças friamente estraçalhadas, ainda com a estranheza do corpo ensopado com o suor gelado, a mãe voltou-se, com uma seriedade dura no olhar e ofereceu-lhe, então, a própria criança.

Ela aceitou.

Quando tomou o bebê em seus braços, subitamente ele parou com a dolorida choradeira. Ela embalou o pequeno e caminharam até outra peça. A dona com a criança, na frente, e os pais, na sombra de seus passos.

Entraram numa imensa sala clara. Lá tudo se refletia num único espelho que ficava solitário na outra extremidade da peça como um grande olho de vidro. Andaram sob os ruídos dos sapatos tocando coordenadamente o assoalho de madeira, acompanhados pelas paredes que pareciam andar ao seu lado, idênticas a cada metro alcançado. Aqueles quatro pararam em frente a peça rara. Nesta hora, os pais não puderam ver suas próprias e aterrorizadas expressões escritas pela carne dos seus olhos e lábios. No espelho, apenas o reflexo das suas duas almas, que flutuavam lado a lado, e mais nada, além da própria sala.

Já era noite quando deixaram a casa da desalmada. Da rua puderam ainda ouvir os gritinhos alegres do nenê.

Chegaram em casa sob o céu calmo da madrugada e apenas no dia seguinte comunicaram, com estranho alívio, o falecimento da criança sem alma.

 

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