Até o que Chamamos de Fim

 Gabriel Torres Almeida

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0076]
[Autor:
Gabriel Torres Almeida]
[Título:
Até o que chamamos de Fim]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 3.260]

   

O ano era 2093. Não mudou como todo esperavam que mudasse. Não existem carros voadores, nem motos super velozes, nem tele transporte. Ah, sim, muita coisa mudou. A moda mudou assim como a arquitetura. A internet influe muito em nossas vidas, assim como a ciência.

Não, a relgião não existe mais. A ciência conseguiu muitos feitos, conseguinto até desmoronar a religião (guia de todo os povos, e olhe lá). E o que eu posso fazer? Já são 9 da noite e tenho que ir para a faculdade. Tenho medo de ir para lá, juro. Esse será o fim, digo logo isso.

Isso o que eu digito no meu computador pode até ser considerada uma carta de suícidio, se assim preferir, mas considero como uma passagem, talvez eu volte, talvez não. Mas tudo na vida é assim, rodamos, rodamos como o nosso planeta roda no universo. E em falar em vida, acabei vendo que ela não é tão necessária assim.

Garanto que você não está entendendo nada, caro leitor (seja você quem for), mas creio que posso explicar.

Tinha 23 anos, como agora. Fazia faculdade de Biologia. Levava uma vida normal, muitos estudos, alguns namoros, abastecer o carro, fazer feira, ver televisão... tudo o que fez parte do cotidiano de todos desde antes - como meu pai disse.

Mas, como tudo roda, minha vida mudou. Sofreu um impacto muito grande, garanto, que ainda hoje não sei como tudo isso foi acontecer.

Foi então que depois de ter ganho o prêmio de GRANDE BIÓLOGO DE 2092, um aluno novo me encontrou no meu escritório da faculdade.

- Você é Eduardo Valmont? - perguntou o aluno novo, cabelos loiros, uma barba por fazer, olheiras, rosto pálido e a boca ressecada.

- Sim. Eu.

Ele olhou para um lado e para o outro, viu toda a decoração do escritório. Paredes de aço, algumas escrivaninhas, computador, estantes também de aço. Livros pendurados nesta.

- Bom lugar aqui! - disse ele.

- Quem é você? Entrou sem chamar, e vem elogiar meu escritório. Com quem falo? - Gabriel Swain - estendeu a mão para me cumprimentar. O cumprimento foi feito. - Perdão pela minha falta de educação, mas estava realmente ansioso para vim falar com você. Sou aluno novo, e estou no mesmo ano que você. Vim do sul. Enfim, queria sugerir uma proposta para você.

Era estranho, depois do prêmio muitos alunos queriam fazer pesquisas comigo.

- Não, essa não será uma pesquisa normal - respondeu, ele.

E garanto, leitor, que não foi. Digo-lhes que minha espinha congelou quando ele disse essa frase. Foi algo novo, momentâneo.

Ele pediu para nos encontrar-mos na lanchonete da faculdade no outro dia às 10 da noite.

Quando cheguei o vi, sentado em uma mesa com uma mulher e mais 3 homens.

- Chegou o Eduardo - disse Gabriel, seguindo todos levantaram da mesa e me cumprimentaram. Em especial a mulher. Morena de cabelos lisos, porem presos não mostrando seu tamanho. Um vestido apertado, e cinza, parecendo uma modelo. Maquiagem muito bem feita. Senti sua pele fria, era linda. - Minha namorada.

Namorada do pálido Gabriel.

Bela.

Todos pareceram bem excitados, com sorriso no rosto, com a minha excessão, eu não sabia o que iria fazer.

- Antes, agradeço a participação de vocês no meu projeto. Thomas, Mateus, Otávio - para os três homens de terno, assim como eu. Pareciam ser da mesma idade que a minha - agradeço por me ajudarem no projeto. Isabela, querida, agradeço por me acompanhar e por me respeitar, você é muito necessária nessa experiência.

Sim, sim sim.

E daí? O que diabos estávamos fazendo ali? Aquela enrolação estava me deixando nervoso, via as pessoas sorrindo, felizes, alegres e eu? Quando vou saber do plano?! Gabriel virou-se para mim, com aquelas olheiras, olhos azul-gelo, acabou me dando um susto. Ele olhava bem fundo nos meus olhos, me queimava. Mas essas coisas acontecem.

- Antes de tudo, antes de saber do que se trata, Eduardo, aceita participar? - Não! Antes de saber, não! Todos fecharam a cara, ficaram calados.

- Olhe, com o que vamos fazer você ficaria famoso! Você irá adorar o que iremos fazer. Aceita? - Não. Infelizmente, não posso aceitar o seu pedido sem saber o que irei fazer.

Calados. Foi então que eu ouvi a deliciosa e macia voz de Isabela: - Ok, projeto cancelado, infelizmente. É verdade, Thomas, não encontramos pessoas fortes o suficiente para encarar algo de fato.

Estava falando de mim.

Porra, fui logo renegado, assim?! Pensaria ter uma chance com ela, por isso aceitei. Por ela, pois ela estaria no plano. Por isso disse que iria aceitar, e seja lá o que fosse, estaria dentro.

Sendo assim, no outro dia ao sair da sala da faculdade, entrei no meu escritório, e vi na minha escrivaninha uma carta: PARA EDUARDO VALMONT DE GABRIEL SWAIN Abri cuidadosamente para não rasgar o papel. Uma carta escrita à mão com uma caneta preta, nela seguia as linhas: <. Obrigado, Eduardo. Você ainda não sabe como colaborou para o nosso ambicioso projeto. Você é considerado por nós, um dos maiores biólogos, mesmo sendo tão novo, e não completado a faculdade, seus estudos tem futuro. E terão mais ainda, pois se juntou à nós.

Bem, você não sabe do que se trata a nossa experiência, mas irei lhe explicar cautelosamente.

Há muito os humanos procuram por respostas. De onde viemos, para onde iremos, porque estamos aqui? Ainda não sabemos respostas como essas. A igreja dizia saber, mas faz 29 anos que ela se foi. A filosofia também tentou explicar, mas na filosofia nada é certo. Então nós, biólogos, médicos, cirugiões - o nosso grupo - resolvemos juntar-nos para obter respostas como essas.

Para onde iremos depois que nossa mente para e nosso coração não bate mais? O que vem depois da morte? Espero você hoje, na faculdade, no salão de cirugia. Os equipamentos necessários já estarão montados, apenas falta a sua colaboração .> Em anexo vinha uma cópia do que iríamos fazer, para saber essa resposta. "O que vem depois da morte"? Na hora marcada eu estava lá, no salão, junto do grupo. Era perigoso fazer isso na faculdade. Apesar das luzes estarem apagadas, tinha seguranças rodando. Mas quando eu li a carta meus olhos brilharam. Era brilhante essa idéia, creio que o Gabriel é um cara muito esperto, inteligente... ele sabe o que fazer.

Ele tirou a blusa e calça - ficando nú - e deitou na maca. Vi sua namorada, com um uniforme branco, ela estava linda, como sempre.

Deitado, Gabriel falou: - Como foi enviado em anexo, vocês me darão o alucinógeno. Depois a injeção. Ela foi feita por mim, Thomas, Otávio e pelo Mateus. Ela me levará até a morte. Estarei morto em 2 minutos. Depois disso, tenho que ficar 5 minutos lá. Ouvirão? 5 minutos! O resto vocês sabem.

E ele deitou, como se nada fosse acontecer. Como se ele fosse dormir e acordar em outro dia. Era uma experiência sem certeza se iria dar certo.

- Não.. antes, Gabriel, porque fez tudo isso? - perguntei.

Ele sorriu, e depois: - Você nunca se questionou sobre esses fatos? Agente diz acreditar em uma coisa, mas nunca vimos, realmente. São coisas, que agente nem sabe se acontece. Posso morrer, sei, mas ao menos, morrerei, e saberei o que vem, só não contarei para vocês! A igreja falhou, a filosofia também, chegou a hora da ciência fazer algo...

E sorriu novamente. Esse cara é um maluco, pensei. Mas de fato ele tinha razão. De fato, ele era muito esperto e ambicioso.

Alucinógeno.

Vi seu sorriso se apagando, seus olhos fechando.

Injeção.

Aos poucos a linha foi ficando reta e reta.. reta. --------- Gelei. Isso era homicídio, sabe? Era impressionante como todos ficavam calados, um olhando para o outros, com os aparelhos na mão e eu? Atrás de todos eles, tinha medo. E se realmente ele conseguisse?? - 2 minutos - disse Mateus.

...

- 3 minutos ...

- 4 minutos ...

- Pronto! Desfibrilador! Isabela pegou e deu choque nele. Vi dando choque e mais choques. Era impossível eu ficar longe dessa parte, estava ali, assinei o contrato, tinha que fazer parte disso tudo. Peguei a injeção de adrenalina e apliquei.

- Adrenalina aplicada.

- Dê o soro - gritou Otávio.

- Desfibrilador! - Soro aplicado.

- Desfibrilador.

- Sangue, dêem sangue.

- Oxigênio.

- Mais adrenalina.

- Desfibrilador.

...............

Ficamos parado, olhando para ver se a linha deixava de ficar reta.

Ele podia morrer.

Tudo o que foi planejado poderia estar errado.

Nem todas experiências dão certo, não é? Ele podia morrer.

- Não, ele não pode morrer! - resmungou Mateus.

- Calma, ainda não vimos nada. - Isabela tentou acalmar nosso nervosismo. Mas era inevitável, a verdade é que ela estava mais nervosa que nós.

A linha vai balançando, alto e baixo, alto e baixo...

Gabriel tosse.

Sorri. Acho que chorei, foi uma emoção muito forte. Lembra quando é penalti para o time adversário e o jogador se prepara, e finalmente ele bate para fora e vc torce? Multiplique essa sensação por 10. Então você sentiu o que eu senti.

- E? Como foi, amor? - sussurou Isabela.

- Belo. Magnífico! - e deu um sorriso.

Ainda estou escrevendo aqui, errando na datilografia. Estou revivendo todos os momentos. E é demais para mim. Talvez eu pare agora. Mas não, não posso deixar de escrever... o que sinto, e como tudo foi.

No metrô, preto, estávamos de terno. Isabela a mais linda abraçada com Gabriel, suando e mancando um pouco. Ele mais pálido que antes e bem mais fraco. Mas apesar dessa sua aparência velha, ele sustentava um sorriso. Realizou seu sonho.

- E então, como é? - perguntou Otávio quando Gabriel resolveu sentar- se no banco do metrô.

- É... não sei, é uma viagem ao fim do mundo, ao nosso inconsciente. É mágico, é lindo, é belo.. você vê as árvores, o céu. É.. lindo! - e chora.

Na verdade todos nós choramos. Isabela, beijava e beijava Gabriel.

- Depois serei eu! - proclama Mateus.

- Porque você? - perguntou Otávio - Eu ajudei a criar a injeção. Você não sabe como foi trabalhoso, como foi... perigoso.

- Não, ei, cara, eu falei primeiro, qual é?! Vai brigar... que besteira! - Eu decido quem vai ser - diz Gabriel Swain. - Escolho Isabela. Depois ela escolherá outro.

- Eu? Porque eu? Não, amor, não estou preparada.

Olhei bem fundo para Isabela e vi sua fragilidade. Isso ela não mostrava. Mostramos nossa fragilidade quando somos impulsionados a fazer o que não queremos. E ela era frágil, pude ver.

No outro dia tinha mais um. Seria o Otávio. As olheiras do Gabriel tinha crescido, pois ficara a madrugada inteira fabricando a injeção da morte, como chamamos. Eu fiquei estudando sobre a morte, ou sobre como retornar a vida. Depois de ver aquela bela cena, percebi o quanto era importante para mim.

No mesmo salão. Otávio deitado, Isabela aplicando a injeção da morte. A linha reta. Seria a repetição do que já tinha acontecido, mas mesmo assim, ainda estava nervoso. Muito nervoso. Mas não sei porque, a imagem de Gabriel me relaxava, as vezes. Me confortava, assim como a imagem da bela Isabela.

E foi toda a mesma rotina, Desfibrilador, soro, tudo como antes.

E Otávio estava de volta, cansado, sorridente, feliz.

Voltamos para o metrô.

Me senti no início da faculdade, estava descobrindo o novo mundo da biologia, da magia. Estava feliz. Sempre que ressucitava alguém, eu ficava feliz, ficava muito feliz. E Otávio estava sorrindo, chorando.

- O que você viu não deve ser dito para ninguém. - disse Gabriel, o nosso mentor.

- Quem você escolhe? - perguntou Isabela.

Ele olhou para ela, suas lágrimas cairam no seu terno, e disse: - Pode ir...

Ela sorriu e beijou Gabriel, alegres.

Então será a vez da Senhorita Swain. Isabela, doce menina. Acho que me apaixonei, ou se não é paixão... é algo tão forte quanto. Sempre que olho para ela, não vejo adjetivo melhor que Linda para descrevê-la.

Fiquei lendo e lendo na minha escrivaninha, não mais prestava atenção na aula que tomava, eu estava entregue as experiências.

Como Gabriel disse, você acaba se envolvendo. Você acaba gostando, acaba viciando.

E era Isabela.

E assim foi...

Nua, linda, perfeita. Seios redondos, duros, pequenos, ela era luz. Deitou, se cobriu com o lençol.

- Se eu não voltar, digo que te amo, Gabriel. E eu escolho Eduardo.

Choque.

Gelo.

Uma mistura de nervosismo com anciedade.

Era eu (finalmente?).

Ela ficou olhando para mim, séria. Essa mulher me mata. Não é ela que vai morrer, sou eu - bem, na verdade foi o que senti, leitor. Era como se me ignorasse mas me adorasse, e eu não sabia o que fazer. Não tinha reação até que Gabriel olhou para mim mais uma vez com aqueles olhos azul-gelo o que me deixou parado, imóvel.

Ele sorriu.

O Gabriel é um cara sorridente...

- Vamos começar, então - disse Isabela.

E foi o de sempre...

Alucinógeno, Injeçao da morte.

1 2 3 4 5 minutos.

- Vamos, rápido - gritou Otávio.

- Venha, querida, venha conosco - sussurou Gabriel, preparando a adrenalina.

Eu? Não sei o que fazia, estava ainda meu perplexo de saber que ela me escolheu, que ela me quis. - Eduardo, porra, faça algo! - Mateus reclamou comigo.

- Tá bom, calma, calma... o que faço? - Oxigênio - falou novamente.

Peguei a bolsa de oxigênio e fiquei vendo para ver se a linha balançava. Inspiração, Expiração, Inspiração, Expiração, Inspiração... a linha reta.

- Desfribilador.

- Mais oxigênio, vamos com isso Eduardo.

Na verdade senti que a bolsa de oxigênio estava furada, por mais que eu apertasse o ar escapava. - Tá falhando. Não está entrando oxigênio - falei, muito nervoso. - Vou pegar o desfibrilador, Eduardo, encaixe o tubo.

Tudo bem, só era preciso encaixar o tubo, e a máquina iria mandar oxigênio para o pulmão dela. Sem problemas.

Peguei o tubo e mirei na traquéia.

- Pronto - disse. Nisso Otávio olhou para mim e gritou: - Não! Está no estômago!! - Calma, ok.. - o nervosismo te comanda, te deixa tonto e louco. Retirei o tubo e encaixei novamente. - Pronto.

- No estômago! - Não, não pode. - retirei e fiz o mesmo processo. Minha mão tremendo.

- No estômago! Desgraça, deixa eu fazer isso! - veio Otávio enquanto Gabriel olhava a linha ficar cada vez mais reta.

Otávio veio e tomou o tubo da minha mão.

Eu me afastei.

Fiquei olhando para a linha reta, verde, parecia infinita, era o fim. E depois seria eu.

Otávio conseguiu por o tubo, mas depois de umas 3 tentativas. Ele dizia que a traquéia estava bem fechada. E como se fosse ensaiado, olhamos todos juntos para a tela com a linha reta verde. Gabriel foi andando, passo por passo até a janela do salão.

Morta.

E ele chorava, assim como todos nós. Linda Isabela, morta, nossa tola experiência resultou num homicídio.

- Não foi homicídio. - disse Gabriel, limpando as lágrimas. - Ontem à noite ela perguntou para mim se ela acrescentasse mais dois ML do alucionógeno. Eu disse que a respiração dela iria parar, assim como o coração. E a traquéia iria se fechar, e iria se entupir. Não foi nossa falha.

E ele chorou mais ainda. Agente não sabia o que fazer pois chorávamos mais ainda. E eu juro que podia ver Isabela ali, em pé ao seu lado, ao lado do nosso mestre. Na janela. E ela olhando para mim numa reação de "Adeus".

Nessa noite chuveu. E andei na chuva com uma garrafa de cerveja na mão. Fui andando, carregando o terno na mão, minhas lágrimas se misturando com as águas da chuva. Eu amava Isabela, sim. Sonhava com ela às vezes, e pensar em suícidio... talvez por isso a frase dela: "Escolho Eduardo". Ela sabia. E no próximo dia seria.. eu.

Pois ainda estou nervoso ao digitar essas palavras. Tenho que ir para a faculdade, agora será o dia da minha morte. O dia final.

E minhas mãos tremem quando digito. Bem, talvez essa minha carta, que pode ser suícida, não chegue ao final.

Salvei o documento.

Fechei e desliguei o computador.

Peguei meu terno e olhei para a escada rolante do meu apartamento. Era noite - vi pela janela.

E sussurrei: - Hoje é um belo dia para morrer.

Mas estava nervoso. Estava ansioso e nervoso. Corri para meu quarto, apertei o botão e a porta abriu, e me ajoelhei próximo da minha cama e rezei. Rezei sim, mesmo sem saber qual era minha religião, rezei para alguém. Alguma força divina, a pessoa que criou nossas vidas, para algo... rezei para eu viver.

Então agora entendo. É impossível viver sem religião, pois sempre, você irá precisar de ajuda de algo que você não conhece, mas que diz lhe ajudar. Como eu...

Estamos andando, todos nós, sem Isabela, tristes e calados. Olhando para o céu. Sei que Gabriel achou que eu estava nervoso, pois ele está aqui ao meu lado me falando: - Você não pode ter medo da morte. Ela é o final de todos nós. Sendo você rico, pobre, você morrerá. Por isso você não é diferente de ninguém. Pois para a morte, não importa quem você seja.

As palavras dele servem de conforto. Estou me acalmando. - A melhor coisa que me aconteceu, como biólogo, foi você ter invadido meu escritório. - digo. - Depois da nossa primeira noite de morte, não paro de pensar. - Sei. Como todos nós você quer uma resposta... quer uma saída.

E como mágica, Gabriel me curou. Adivinhou como eu me sentia.

Me deito na cama, e vejo como é macia. Bem, agora sei porque Gabriel se sentia tão confiante na primeira vez que partiu. Ele me cobre, e olha para mim com aquela cara pálida, as olheiras a boca seca. Talvez ele já esteja morto. E estou calmo. Muito calmo. Pois sei a resposta para o motivo de eu morrer, e voltar.

- Porque você está fazendo isso? - me pergunta Gabriel, com um tom irônico.

Eu dou um sorriso.

- Porque desde os meus 23 anos que sigo o mesmo caminho. Agora quero tentar descobrir quem o fez.

Sorrindo ele fala para mim: - Não se preocupe. Será maravilhoso.

Fechei os olhos. Não sabia para onde iria. É impressionante quando você parte para um lugar que não conhece. Você planeja descobrir o que será... e estou calmo.

Lembro do que Gabriel disse quando voltou. "É... não sei, é uma viagem ao fim do mundo, ao nosso inconsciente. É mágico, é lindo, é belo.. você vê as árvores, o céu. É.. lindo!" "É... não sei, é uma viagem ao fim do mundo, ao nosso inconsciente. É mágico, é lindo, é belo.. você vê as árvores, o céu. É.. lindo!" Repito a frase dentro de mim várias vezes, isso me ajuda. Quero ver isso.. as árvores, a beleza.

Morri.

...

Está preto. Preto, preto, preto, preto, preto...

Onde estão as árvores? O céu? ...

Acho que estou chorando, aqui na morte. E entendo o que Gabriel quis nos mostrar. Não existe árvore, nem céu, nem uma beleza concreta. Você inventa a sua própria morte. Assim como eu, ele não viu nada. Mas achou bonito... e é realmente belo.

Choro de alegria.

Para onde fui? Para onde vou? Gabriel disse uma vez: "O que você viu não deve ser dito para ninguém".

Você tem que ver com seus próprios olhos...

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