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Clara, com um sorriso sinistro, termina seu projeto para o
jantar daquela noite. Os convidados eram perfeitos! Surpreendia-se
por não ter pensado naquilo antes, afinal era a solução para o
problema que congelava em seu freezer.
Ligou para a mãe, pois sabia que naquela hora ela não estava
em casa, caso contrário perderia horas ouvindo suas reclamações e
impressões sobre seus atos nas últimas semanas. O melhor mesmo era
deixar um recado na secretária.
- Mamãe, a espero às 21 horas para um jantar especial em
minha casa. Tenho surpresas.
Sabia que esta frase despertaria a curiosidade de sua mãe,
contando como confirmada a presença dela, antes de concluir: - Não
se atrase, heim! Em seguida ligou para Joana - vaca francesa! -
,pensou em voz alta. Olhando a sua volta, os colegas não tinham se
voltado para ela, portanto não havia falado tão alto assim.
Se bem que ninguém mais reparava no fato de Clara falar
sozinha. Em seu trabalho todos já conheciam seus hábitos e sua
manias estranhas.
Joana era a convidada principal - o jantar não teria a menor
graça sem ela! Afinal, chegara a hora do troco! Era tudo ou nada. E
Clara optou pelo tudo...
*** Surpresa com o convite, mas antevendo algum acontecimento
interessante, Joana aceitou sem questionar. Mesmo uma boa briga era
melhor que a monotonia que estava vivendo nos últimos tempos.
Gostava de baixaria, pois sentia-se viva! O que não vinha
acontecendo desde que conheceu o marido de Clara. Ou pelo menos não
de forma variável.
"Vamos a guerra", pensou..
Para completar o quadro, Nicanor, o estivador, forte,
bronzeado e sensual, que tirava seu sono nas últimas semanas, veio
assaltar seus pensamentos.
Só de imaginar Clara sentia um calor, um formigamento pelo
corpo, mais precisamente em suas partes mais sedentas de atenção.
Outras palavras: sexo, principalmente se não viesse desacompanhado.
Por fim concluiu com um sorriso ainda mais sinistro: Com a
presença da vaca, ninguém questionará meu convidado; o quadro
estará perfeito.
*** Sobre Nicanor, ela o conheceu num hospital, numa das
muitas vezes em que foi socorrida depois das agressividades do
marido.
Sentiu-se atraída por ele desde o primeiro momento, nem
pensou ser ainda capaz de qualquer sentimento, no entanto sentiu-se
cheia de esperança. Ele foi totalmente receptivo, mas, tímida e
temerosa, ficou apenas com algumas ligações casuais nas noites em
que o marido esquecia de voltar para casa.
*** Já em casa, Clara cantarolava meigamente enquanto dava os
últimos retoques no jantar.
Serviu um pequeno cálice de vinho e tomou "para
relaxar".
Enquanto caminhava até a sala de jantar, viu seu reflexo no
espelho do corredor. Parou. Aproximou-se e olhou os próprios olhos;
"profundos", pensou. Nesse momento, suas lembranças
ganharam forma e marcaram presença como uma realidade virtual.
- Mamãe, por que tenho que casar
com ele? Não gosto dele, é um manipulador, ditador, além de muito
possessivo...
- É o melhor pra você, querida.
É um homem de posses, bem relacionado, bem apessoado, dar-lhe-á
lindos filhos. Depois de casá-la com ele, poderei relaxar um pouco,
minha missão estará cumprida. Talvez até faça a viagem pelo
mundo que seu futuro marido me prometeu.
- Gosta muito dele, né, mamãe?!
Por que não casa a senhora com ele?! - lembrava de assustar-se com
a própria ousadia na época, quando se encolhera toda temerosa.
Não era pra menos. O olhar da mãe
foi fulminante! Então fez aquilo que deu a descarga em
sua vida: Silenciou e aceitou seu destino.
As imagens sumiram e Clara voltou a se ver no espelho.
Uma cicatriz no pescoço confirmava o direito de posse
adquirido pelo marido alguns anos antes. Foi realmente uma sorte
Joana ter aparecido na vida dele. Foi tão fácil depois disso..., e
chegar em casa embriagado todas as noites facilitou bastante. Nem
acreditava ter conseguido. Sorte maior ainda foi ser transferida
para a ala de despacho de lixo químico do laboratório em que
trabalhava.
Não! Não foi sorte. Se tudo deu certo é porque tinha
chegado sua hora de ser feliz. Disso Clara não tinha a menor dúvida.
A campainha trouxe-a de volta à realidade. Ajeitou os cabelos
num gesto peculiar, ensaiou um sorriso e abriu a porta...
*** A primeira a chegar foi Joana.
Uma boca vermelha e um vestido da mesma cor enfeitava o quadro
vulgar.
"Vestida para matar", Clara não pode deixar de
pensar .
- Boa noite querida! - Clara sorriu, toda segundas intenções:
- Acomode-se, já vou lhe servir uma bebida.
Nem bem fechou a porta e a campainha voltou a tocar...
"Todo mundo muito pontual". E do pensamento ao ato
abriu novamente a porta, e agora seu sorriso, se já fora luminoso
antes, competiu até com o Sol.
Embaraçado, Nicanor correspondeu e entrou seguido por Maria,
sua mãe, que também acabara de chegar como se tivessem marcado
encontro na esquina.
Clara, como de praxe, não a beijou, apenas afastou um pouco
da porta para sua entrada.
Os convidados trocaram olhares interrogativos, enquanto a
anfitriã fingia que não via, sugerindo que passassem todos para a
sala de jantar, onde a mesa já estava posta.
Aliando palavras à ação, ninguém ficou pra trás, seguindo
Clara como cordeiros.
"Como
cordeirinhos', reforçou o pensamento.
Os olhos da mãe eram interrogativos e recriminatórios mas se
manteve em silêncio. Já acomodados Clara começou a servir: Para
Nicanor apenas uma salada. Ele não tinha nada a ver com aquilo, e só
estava ali para testemunhar, ainda que não soubesse, sua vitória.
Joana foi a primeira a falar: - Por quê seu marido não foi
convidado? Clara sorri. E responde, sem titubear, desconcertando
Joana: - Ele foi querida! Ele foi! A voz era doce e cúmplice.
Treinara bem.
Ao mesmo tempo, a mãe olha de forma estranha para o que a
filha estava lhe servindo e faz uma observação divertida, mas
esperando mesmo atingir a filha, deixando, como de hábito, mais
insegura: - O que está nos servindo Clara? Esse prato me faz
lembrar da cena de um filme em quer serviram cérebro de macaco no
jantar! Foi a vez da anfitriã, se já antes imitara o Sol, invocar
uma constelação, pois o sorriso chegou a ofuscar de tão
brilhante: - Não é de macaco, mamãe! - respondeu, logo depois
acrescentando: - Mas, pensando bem, não está longe disso...
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