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Quando ingressei no segundo grau, comecei a pensar em certas
questões que antes não me ocorriam: Será que Deus existe? O que
realmente importa: saber se Ele existe ou se essa fé traz algum
benefício individual? Qual é o objetivo da vida? O que define um
ser humano? O que nos torna diferentes dos outros animais? São
questões que me atraem muito e as respostas a que cheguei servem
como pano de fundo para este conto - cuja inspiração foi uma paixão
de adolescência que jamais vou esquecer. Assim, enquanto o
personagem Martin encontra a felicidade que procurou por tanto tempo
(e que é um dos objetivos da vida), Emily dá início a uma jornada
em busca de respostas que a levará aos limites da compreensão de
sua própria natureza e, consequentemente, de qualquer ser humano
(que é o outro objetivo). As idéias espostas aqui são pessoais e
poderão ou não coincidir com a de outros, mas espero que não
ofendam ninguém.
UMA CANÇÃO PARA EMILY
PARTE I
O pesadelo acabou abruptamente e ela acordou ofegante. Ainda
podia sentir o calor e a falta de ar que lhe tinham tirado a vida em
sonho. O dia já havia amanhecido e os raios do sol enchiam o quarto
com uma luz pálida e suave. Ao seu lado Martin rolou na cama e
sentou-se ao lado dela. - O que foi, meu bem? Outro pesadelo?Ela
assentiu com a cabeça.
- Não quer me contar o que foi? - disse ele com um sorriso
encorajador.
Ela lançou-lhe um olhar desconfiado. - Você vai me achar
louca.
- Ora! Mas que bobagem, Emily. - retrucou ele passando-lhe a mão
na testa soada. - Você precisa me deixar ajuda-la. Estou começando
a ficar preocupado.
- Não fique. Estou com muito trabalho atrasado lá na
Revista. Deve ser o stress. Vai passar logo. - Acontece que isso já
dura muito tempo. Já deveria ter passado. Se ao menos você me
contasse o que são esses pesadelos... Você não me diz nada.
- Sabe que não quero falar nisso. - disse ela com delicadeza
adorável. Martin nunca conseguia impor-se quando ela lhe dirigia
aqueles olhos meigos e cheios de ternura, por isso acabava sempre
cedendo. - Talvez se eu procurasse um psicólogo... - comentou ela
fingindo distração.
- Já falamos sobre isso. Você sabe o que eu penso a
respeito. Como eles podem saber o que se passa na mente humana se
ninguém até hoje conseguiu decifra-la inteiramente? São todos
charlatões. Não passam de produtos de consumo para ricaços
entediados. Eles não vão te ajudar em nada. Nisso, Martin tinha
razão. Era o quinto psicólogo diferente, pensou Emily mal humorada
enquanto saía em meio ao formigueiro que emergia da estação do
metrô, que ela procurava desde que suas dúvidas e pesadelos começaram.
Todos eles diziam que era absolutamente normal, e cada um receitava
uma terapia mental mais esquisita que a outra - mas os resultados
jamais apareciam. Martin era o homem mais cético que Emily jamais
conhecera (algo comum para um médico), e a sua desaprovação
quanto a ela consultar um psicólogo, poderia muito bem ser mais um
de seus exageros, de modo que ela nunca levava ao pé da letra o que
ele dizia. Porém, a medida que tomara agora despertava desconfiança
até mesmo nela, e certamente Martin concordaria menos ainda. Ao
passar pelo shopping que dava acesso à avenida onde ficava a
Revista Hora Atual em que ela trabalhava, Emily deteve-se em frente
a uma vitrine que cintilava em luzes de néon coloridas.
"Regresse ao seu passado." - diziam as luzes. -
"Reencontre-se com seus entes queridos que já
faleceram."; "Não usamos bruxaria, temos
tecnologia.". Seria essa a resposta? Perguntou Emily a si
mesma. Só havia uma maneira de descobrir.
A sessão fora longa e, no mínimo, ridícula. A sala obscura
e cheia de instrumentos (aparentemente) modernos impressionava
qualquer um - correspondendo, portanto, a tudo que Martin tantas
vezes lhe dissera a respeito desses lugares, quando ela fazia comentários
ingenuamente favoráveis a eles. Depois de uma bateria de supostos
exames mentais com os tais aparelhos, Emily saiu com a promessa de
obter uma resposta e possivelmente uma cura. Tornar transparente seu
passado obscuro e, quem sabe, descobrir o mistério da sua infância
que tanto lhe atormentava no presente, era tudo o que Emily queria.
E a terapeuta, é claro, sabia disso. "Seu passado parecerá um
lago cristalino." - dissera ela. Entretanto, graças ao
ceticismo de Martin, Emily nunca atingira um grau de credulidade tão
alto para cair nessas armadilhas (fez a sessão "só por
curiosidade", conforme justificou a si mesma), de modo que
seguiu para o trabalho decidida a não voltar mais ali. Não
obstante, ali estava ela em frente a mesma vitrine tentando decidir
se entrava ou não. "Bem," - pensou ela - "o mais
insensato eu já fiz. Agora é só pegar o resultado qualquer que
seja." Se a resposta prometida conteria alguma verdade ou não,
ela teria muito trabalho se quisesse mesmo descobrir. Mas não
precisou se dar ao trabalho; a própria terapeuta lhe poupou a
frustração.
- Meu nome é Emily Crowne. Fiz uma sessão e fiquei de vir
buscar o resultado dos exames.
A secretária a fitou com olhos assustados. Apertou um botão
no interfone e falou nele:- Ela está aqui. Ouviu-se um emaranhado
indecifrável de palavras vindas do aparelho e a secretaria pediu
que ela esperasse um pouco. Logo apareceu a mulher com que Emily
fizera a sessão com um olhar igualmente assustado dirigindo-se a
ela. - Infelizmente, - disse a mulher pegando no braço dela e
encaminhando-a em direção a porta. - não será possível
continuarmos com o tratamento.
- Mas por quê? Houve algum problema? - perguntou Emily. - Por
favor, não faça perguntas. - disse a outra visivelmente ansiosa
para que ela fosse embora.
Quando chegaram à porta ela deu a Emily um pequeno aparelho
que parecia com uma calculadora de bolso. - O que é isso? -
perguntou ela.
- Como vou saber. Esteve um homem aqui no dia em que lhe
atendi e ameaçou me denunciar caso eu prosseguisse com você.
Mandou-me entregar-lhe isso quando voltasse. Agora, por favor, não
quero problemas. Vá embora e não volte mais aqui. Dito isso
fechou-lhe a porta na cara e a deixou perplexa do lado de fora, sem
entender nada. Algumas horas mais tarde, sentada em seu birô na
redação da Revista, descobriu tratava-se de um antigo modelo de
bip com tela de cristal líquido, com uma mensagem gravada. Ao
apertar o único botão que havia a diminuta tela iluminou-se e nela
surgiu o rosto de um homem sorrindo ironicamente.
- Olá, Emily. - saudou a imagem. O som arranhado como uma
fita de vídeo muito antiga - Parece que está com problemas, hein?
Como sei disso? Ora, você só estaria ouvindo esta mensagem se seus
problemas começassem. E infelizmente eles começaram, como eu
previa.
Neste momento Emily notou que a data no canto da tela era de
quatro anos atrás. - Há algum tempo, - continuou o homem na tela.
- fiz experiências com implantes de memória em computadores
dotados de inteligência artificial. Na época havia uma teoria
entre os especialistas da área segundo a qual os computadores não
podiam imitar o cérebro humano porque não tinham um passado. Ou
seja, para os autores desta teoria, a mente humana só é
independente e auto-consciente porque lembra de sua infância,
adolescência e que por isso sabe que está viva. Era isso que
estava faltando para os computadores segundo, aqueles cientistas. E
parece que eles tinham razão: graças a inúmeros experimentos
nesse sentido em várias partes do mundo, hoje temos computadores
quase tão inteligentes quanto nós. "Só que, com o tempo,
surgiu um problema absolutamente inesperado. Logo que o computador
saía da fábrica não havia problema. Isso porque a máquina não
tinha como perceber as falhas e incoerências com que suas memórias
(lembranças se preferir) foram montadas. Afinal, as lembranças
poderiam ser daquele jeito mesmo; do que poderiam desconfiar? Só
que com o passar do tempo os acontecimentos vão se acumulando de
naturalmente, e claro, de forma diferente. Isso deu aos computadores
um padrão de comparação e, então, puderam perceber o defeito. O
resultado foi pane geral em todos os lugares do mundo e mais ou
menos ao mesmo tempo. Milhões de dólares foram perdidos e mais
alguns foram gastos somente para introduzir um programa que revelava
o motivo da diferença entre os dois tipos de memória - uma forma
de anular o problema. Assim, ele corrigido e não se ouviu mais
falar no assunto."Neste momento a imagem tremulou, saiu do ar
por alguns segundos e logo voltou.
- Você deve estar se perguntando - continuou - o que você
tem a ver com tudo isso - embora saiba que sente algo parecido. E
também, como eu a conheço se você nunca me viu. E tem toda razão.
Mas eu a conheço, Emily, muito mais do que você possa imaginar. Se
você está ouvindo isso, em breve vai saber como. Por isso não se
preocupe. Todas as suas dúvidas se esfumaçarão. A imagem deu um
sorriso tranqüilizador, tremulou na tela e novamente desapareceu.
Como antes, logo voltou, porém com as feições do rosto
ligeiramente diferentes. Emily notou que desta vez a data era de
apenas alguns meses antes.
- Peço desculpas, Emily, - continuou ele mais sério - por
aumentar-lhe ainda mais as dúvidas, mas prometo livrá-la de todas
elas. Meu nome é Andrew Kaufman. Sei que está consultando psicólogos
e logo estará procurando pessoas menos confiáveis. Naturalmente
você pode achar que a minha promessa pode não ser mais importante
do que as outras que tem ouvido. Por isso não posso cumpri-la deste
lado da tela. Temos que nos encontrar pessoalmente, só assim
poderei lhe ajudar a montar esse quebra-cabeça. Não é em nenhum
divã, muito menos com poderes paranormais que você vai encontrar o
que procura. Se quiser saber a verdade vai ter que confiar em min. Não
sei exatamente quando você estará ouvindo essa mensagem, mas
saberei quando estiver. Portanto você deve me encontrar sem falta
no mesmo dia em que receber isso. Anote aí o endereço e o horário.
Depois que essa mensagem terminar não poderá ouvi-la outra vez.
Neste momento, porém, alguém chamava por Emily em tom de urgência
em algum lugar na confusão da redação. Ela anotou rapidamente o
endereço e a imagem desapareceu, desta vez para sempre.
No fim do expediente, Emily telefonou para casa.
- Querido, terei que ficar até mais tarde aqui na redação a
fim de adiantar o serviço. Não sei exatamente, acho que até a
madrugada. Não, não precisa. Já tenho carona que vai me deixar
bem perto de casa, não se preocupe. Outro. Também te amo.
Tchau!Ela não sabia, mas muito mais do que algumas horas se
passariam antes que ela visse Martin outra vez. Era a primeira vez
que mentia para ele. Mas comparado com o que iria descobrir em
breve, isso era perfeitamente perdoável.
Parte IIO táxi parou em frente de um prédio alto e luxuoso.
Na fachada principal lia-se: "Edifício Europa".
- Tem certeza que é aqui? - Perguntou Emily.
- Rua Robinsom, Edifício Europa. O endereço confere. -
Respondeu o motorista secamente. Emily olhava desconfiada para o prédio
perguntando-se se deveria mesmo subir. Após um breve instante de
silêncio o motorista virou-se impaciente.
- E então moça? Não é aconselhável ficar muito tempo
parado por aqui.
- Ah, sim. Eu me distraí. Aqui está. - Deu-lhe uma nota de
cinqüenta e desceu do carro.
Contemplou mais uma vez o edifício, cujo topo se perdia na
escuridão nebulosa do céu, e perguntou a si mesma se estariam lá
as respostas para as suas dúvidas. O Edifício Europa era um dos
mais altos e iluminados da cidade, contrastando estranhamente com os
arredores sombrios da Rua Robinsom. O interior, no entanto, era
obscuro. Ao andar pelos corredores largos e cheios de eco, Emily
teve a sinistra sensação de que o prédio era assombrado. Ela só
não entendia por que aquela conversa tinha que ser àquela hora da
noite, quase madrugada. Mas a possibilidade, desta vez aparentemente
mais concreta, de conseguir uma resposta, a fez esquecer de todas as
desconfianças que o bom senso lhe indicava.
Ao entrar na sala 501, viu uma mulher de cabelos lisos e
curtos, muito jovem ainda, sentada atrás de uma suntuosa mesa de
vidro. - Você deve ser Emily. - Inquiriu ela com aquela paciência
típica de pessoas acostumadas com burocracias.
- Sim, sou eu. - Ainda bem que não se atrasou. - disse ela
dirigindo-se para a sala ao lado. - O expediente já acabou, sabe?
Mas o Dr. Kaufman me pediu para esperá-la a fim de que eu pudesse
prepará-la para a sessão.
- Me preparar... para a sessão? - Perguntou Emyli intrigada.
- Não estou entendendo.
A secretária pareceu levemente constrangida.
- Bem, o Dr. Kaufman pediu para que confiasse em min, pois
tudo que terei que fazer é essencial para que você conheça, hã...
a verdade. Foi o que ele me mandou lhe dizer. Obviamente não sei do
que se trata. Não é problema meu. Tudo que eu tenho que fazer é
instalar esse aparelho em você, e posso ir pra casa. Portanto você
terá que confiar em min, ou desistir de tudo e ir embora também. A
escolha é sua. Por mais estranho que tudo estava parecendo, seria
ridículo desistir agora e lamentar para sempre a oportunidade
perdida. Além disso, sabia que acabaria voltando, mais cedo ou mais
tarde.
- Tudo bem. - Respondeu.
- Ótimo. Sente-se aqui então. Enquanto Emily acomodava-se
numa confortável poltrona vermelha de couro, a secretária apanhou
o tal aparelho. Era uma espécie de capacete, mas que não cobria
todo o crânio. Na verdade, parecia mais a armação de um capacete
cheio de eletrodos e sensores, com muitos fios expostos. De cada
lado da armação, na altura das frontes, saía um tubo cilíndrico
com um êmbolo no interior, o que lhes dava a aparência de duas
seringas. A secretária encaixou o aparelho na cabeça de Emily e
apertou um pequeno botão na altura da nuca. Imediatamente as duas
agulhas invisíveis, mais finas que um fio de cabelo, penetraram em
sua pele causando-lhe uma coceira ardida , característica de uma
picada de mosquito. Emily contorceu o rosto e perguntou irritada:- O
que é isso? Uma injeção? - Não. - respondeu a outra distraída.
- São os nanofios se conectando ao seu nervo óptico. - Que espécie
de geringonça é essa afinal? - Começava a sentir um pouco de
medo.
- Essa é uma pergunta que você terá que fazer ao Dr.
Kaufman.
- Mas pra que isso vai servir. Não entendo a necessidade...
- Por favor... - Atalhou a secretária, enquanto teclava
freneticamente em um computador. - Confie em min. Já disse que tudo
é necessário. Após um longo intervalo de silêncio (só se ouvia
o barulho das teclas, cuja finalidade Emily estava longe de
entender) a secretária anunciou:- As luzes vão se apagar por um
instante. Mas não se preocupe, isso faz parte do processo. Não foi
como se tivessem desligado um interruptor. As luzes começaram a
esmaecer lentamente até que dentro de uns dez segundos a sala
estava completamente às escuras.
- Vou levá-la agora à sala do Dr. Kaufman. - informou ela.
Emily não havia notado, mas a cadeira possuía rodinhas. A secretária
começou a empurrá-la no meio da escuridão sem esbarrar em nada.
Pelo contrário, parecia saber perfeitamente para onde estava indo.
Ao chegarem na sala ela disse que as luzes logo voltariam (teriam
mesmo se apagado?) e que então o Dr. Kaufman viria recebê-la. Saiu
antes que Emily pudesse fazer qualquer pergunta. Cerca de um minuto
depois as luzes começaram a se acender ainda mais lentamente do que
quando se apagaram, até que a mobília da sala estava totalmente às
clars. Eram móveis antigos de madeira envernizada, talvez do século
dezenove, com detalhes torneados e muito bem trabalhados. Emily
jamais pensara que tais móveis ainda existissem. As paredes eram
forradas de estantes repletas de livros. Num canto da sala havia um
bar com bebidas e copos, e logo à sua frente uma mesa cheia de
quinquilharias como em qualquer outra mesa de escritório do mundo.
De repente a porta se abriu e Kaufman entrou. Emily levantou-se para
cumprimenta-lo, mas não completou o gesto. Ele recuou imediatamente
como se tivesse medo que ela fosse feri-lo. - Desculpe-me, Emily.
Mas é importante que você continue sentada até o fim da nossa
conversa.
- Eu só ia dizer que é um prazer conhecer o senhor; como
qualquer pessoa faz quando acaba de conhecer outra...
- Pode me chamar de "você". - disse ele
dirigindo-se para trás da mesa. - Faça de conta que esta é uma
consulta e que eu sou o seu novo psicólogo. E acredite, a honra é
toda minha.
Puxou uma cadeira giratória que havia ali, fez um gesto para
que Emily sentasse e sentou-se também. Ele a fitou por um instante,
como se estivesse querendo estudá-la e depois perguntou, sem mudar
a expressão do rosto:- Diga-me Emily... Por que veio até aqui?A
pergunta a surpreendeu. - Você disse na mensagem...
Ele a silenciou com um gesto.
- Vou-lhe dizer por que está aqui. Existe algo de errado com
o seu passado, Emily. Você não consegue explicar o que é, mas
sabe que há alguma coisa de anormal nas suas lembranças. Pode
sentir isso.
- E você sabe o que é? - Perguntou ela vivamente. - Você é
mesmo um psicólogo, então?Um lento sorriso alastrou-se pelo rosto
de Kaufman.
- Não. - disse ele - Mas sei exatamente qual é o problema.
Emily recostou-se na poltrona decepcionada.
- Se não é psicólogo ou coisa parecida, como pode saber? -
O que vou lhe revelar agora será um choque Emily, mas você é
capaz de absorve-lo. É uma história longa e complicada, por isso
vou resumi-la para você. - Continue. Estou ouvindo.
- Bem, tentarei ser o mais direto possível. Em primeiro lugar
devo-lhe dizer que você não foi concebida de forma natural. - Como
assim? - Interrompeu ela - Se você se refere à uma inseminação
artificial, esse é um método de concepção normal hoje em dia.
Ainda assim foram meus pais que me deram vida. Não vejo nada de
anormal nisso - embora nunca tenham mencionado nada. Se é essa a
sua grande revelação, francamente... - Não, Emily. Seus pais não
têm nada a ver com isso. - Kaufman suspirou. Não sabia como dizer
aquilo. Abriu a boca várias vezes para falar mas não encontrava
palavras. Finalmente decidiu por uma abordagem indireta do assunto.
- Diga-me: Martin, seu marido, já lhe contou sobre uma
namorada que ele teve... antes de você?- Sim, me contou.
- E ele contou também que ela morreu de overdose?- Não.
Disso eu não sabia.
- É verdade. Logo que ela morreu Martin ficou arrasado. Não
sentia mais prazer em absolutamente nada. Ao que me parece, depois
daquilo, ele desistiu da vida. Começou a beber e foi despedido.
Mas certo dia, alguém entrou em contato com ele dizendo que
podia trazer sua mulher de volta. Conforme entendi Martin viu provas
incontestáveis, de que o tal sujeito falava a verdade. Tratava-se
de uma teoria segundo a qual era possível ressuscitar uma pessoa na
forma de um clone. Com a mesma aparência, mesma idade, tudo. Está
percebendo?- Estou ouvindo, mas não sei se estou entendo onde você
quer chegar.
- Ora, mas é claro que está. - disse ele com veemência.
Tinha esperança de que Emily descobrisse por si mesma o que ele
estava tentando dizer. Mas, ao contrário disto, ela parecia
totalmente alheia ao assunto. Kaufman passou a mão pelo rosto e
recomeçou mais calmamente.
- Tudo bem, Emily. Vou desenhar a situação para você. Aqui
está Mártin, certo? O típico cidadão da sociedade moderna. Bem
sucedido, com bom emprego, apartamentinho mobiliado e uma rotina de
matar. Tem ao seu alcance todos os prazeres que a sociedade do
consumo pode lhe proporcionar. Mas, apesar de tudo, Martin não é
uma pessoa feliz. Falta alguma coisa em sua vida que ele não sabe
bem o que é. Algo que o complete e faça tudo o mais valer a pena.
E um dia ele encontra o que procura. Conhece uma linda mulher e
experimenta a verdadeira felicidade. Mas, como a vida não tem senso
de justiça, algum tempo depois ela morre. Martin despenca. Percebe
que a única coisa essencial para ele, era a mulher que acabara de
perder. Toda sua infelicidade volta com forças redobradas, e ele vê
sua vida desmoronar de uma vez por todas. Mas, um belo dia ele tem a
chance de recuperar tudo. Recebe uma mensagem anônima em seu
computador (o sujeito se identifica apenas como sendo um cientista),
dizendo-lhe que pode devolver sua mulher à vida. Martin, é claro,
se recusa a acreditar, mas depois de ver provas irrefutáveis, ele
se convence e transforma a idéia em uma obsessão. Vai até o
hospital em que sua mulher esteve antes de morrer; pega uma amostra
de sangue dela e envia para um endereço que o misterioso benfeitor
lhe dera. Neste ponto Kaufman recostou-se na cadeira e começou a
falar mais de vagar. - Longe de seus olhos são feitas algumas
experiências. E o resultado de tudo isso está sentada na minha
frente neste exato momento. Você é um clone, Emily. Seus pais não
existem. Nunca existiram. Emily desferiu um tapa no braço da
poltrona.
- Mas é claro! - exclamou. - Sempre achei que era diferente
dos outros. Na adolescência eu era a estranha do colégio. Não sei
como essa idéia nunca me ocorreu. É tão óbvio, não é
mesmo?Olhava para ele com ironia, tentando não sorrir.
- Achou engraçada a história que lhe contei?- Sinceramente não
sei o que lhe dizer. É a história mais maluca que já ouvi. Mesmo
que fosse possível gerar uma pessoa já adulta, ela seria destituída
de consciência, de personalidade... Seria um vegetal.
- É aí que eu entro na história. - disse Kaufman
reanimando-se. - Sabe qual é o meu trabalho, aqui? Conforme já lhe
expliquei na mensagem, desenvolvo sistemas dotados de inteligência
artificial para as empresas. A personalidade de uma pessoa é
definida por certos parâmetros, padrões psíquicos de identidade.
Através de um programa é possível emular os aspetos
comportamentais de alguém. É quase isso que fazemos aqui todos os
dias. Não é tão extraordinário assim. - Quer dizer - disse Emily
fingindo surpresa - que tudo o que eu sou está gravado em algum
dispositivo que foi ligado ao meu cérebro?- Exatamente. Na verdade
esse "dispositivo" não está totalmente ligado ao seu cérebro.
Ele serve apenas para dar respostas - adequadas a esta personalidade
específica - à estímulos exteriores. É isto que é uma
personalidade.
Emily suspirou, tamborilou os dedos na poltrona e falou com
tranqüilidade: - Sabe de uma coisa Dr. Kaufman. Não sei qual de nós
dois é mais louco. O senhor por inventar uma história absurda
destas, ou eu, por estar aqui ouvindo. Mas suponhamos que tudo isso
seja verdade. Não vejo nenhuma relação com o meu passado.
- Sim, claro, o seu passado. A personalidade de uma pessoa
também depende do seu passado. Pois bem. Quando o embrião clonado
atingiu a idade desejada você foi mantida em um coma induzido, e
instalamos em você um aparelho como esse que está usando agora.
Sabe para que ele serve?- Não. Perguntei à secretária mas ela não
quis me responder. O que é isso afinal?- Pode-se dizer que é um
aparelho de realidade virtual. Com ele é possível transmitir
imagens diretamente ao cérebro através da estimulação do nervo
óptico, sem que a imagem tenha que passar pela retina. Quando
instalamos isso em seu crânio, você passou a receber uma
infinidade de imagens e sons que compõem a matéria prima de suas
lembranças. Assim, todas as recordações que você tem do seu
passado são imagens falsas de pessoas e acontecimentos que marcaram
a sua infância, adolescência, enfim, de toda a sua vida até os
dias de hoje. Lamento lhe dizer, Emily, mas o seu passado não
existe. E sinto muito pelo que fiz. - Mas isso é um absurdo. -
protestou ela. - Tudo isso é completamente impraticável. - Não,
Emily, não é. E vou provar para você.
Pegou um controle remoto de cima da mesa e ligou a tela que
havia na parede. Repentinamente ela encheu-se de imagens.
- No dia do seu... nascimento, - disse o Dr. Kaufman dando-lhe
as costas para fitar a tela - houve uma grande festa. Afinal, havia
sido um feito extraordinário, um marco na história da ciência.
Por isso o acontecimento foi filmado como pode ver.
Na tela surgiu um tanque cilíndrico de vidro cheio de um líquido
turvo e avermelhado. Em volta do cilindro, painéis de controle, com
muitas luzes piscando, monitoravam o andamento da experiência; no
interior podia-se vislumbrar vagamente um corpo humano. Várias
pessoas - homens e mulheres - vestindo imaculados jalecos brancos
flutuavam ao redor do tanque aproximando-se e afastando-se dele para
verificar os painéis. Ao que parecia o cinegrafista também
flutuava, pois a imagem oscilava bastante. - Provavelmente você não
se reconheça, - recomeçou o Dr. Kaufman ainda sem olhar para ela -
mas é você ali dentro daquele cilindro. Como pode ver não há
gravidade, pois estão a bordo de uma estação espacial. Há algum
tempo constatou-se que organismos vivos, especialmente o do homem,
se desenvolvem mais rápido em um ambiente sem gravidade. Com a
ajuda de outros estimulantes foi possível desenvolver o embrião
clonado até a fase adulta dentro de pouco mais de três anos. De
repente algo estranho aconteceu com Emily e ela mal podia ouvir o
que Kaufman dizia. Um frio gelado apossou-se dela e um arrepio agudo
percorreu-lhe a espinha. Já tinha visto aquela cena antes. E o
lugar onde a vira foi lentamente emergindo das profundezas de sua
inconsciência para aterrorizá-la ainda mais. Havia identificado a
cena com o último pesadelo que tivera. Os cientistas de jaleco
branco eram os anjos que vira flutuando ao redor do útero onde se
achava quando adquirira consciência prematuramente. Ainda
lembrava-se perfeitamente de observá-los assustada através do líquido
avermelhado quando o pesadelo acabou de repente. Agora tudo começava
a fazer sentido. Os sonhos estranhos e tão reais que tinha. A
infinidade de cenas e diálogos desconexos e entrecortados que
compunham o seu confuso passado. E, o mais estranho de tudo, as
lacunas inexplicáveis na linha sinuosa de suas lembranças. Apesar
do trabalho extraordinário que haviam feito, não conseguiram
remediar essas falhas. Haviam recriado a vida nos seus mais ínfimos
detalhes, mas, ao contrário da Natureza, não fora um trabalho
perfeito.
Kaufman desligou o aparelho e virou-se para Emily novamente.
Quando seus olhos a alcançaram deram com ela olhando para o chão
com uma expressão aterrorizada. Seus olhos, cheios de lágrima,
ergueram-se para ele de vagar.
- Não pode ser. - sussurrou ela chorando - Isso é impossível.
Por que me trouxe até aqui? Por que está fazendo isso comigo? Ela
entendia perfeitamente o que havia acontecido e em que circunstâncias.
Tudo se encaixava perfeitamente. A história era terrivelmente
convincente e, embora seu ego se recusasse a aceitar os fatos, ela
sabia que tudo poderia perfeitamente ser verdade. E lá no fundo de
sua alma podia sentir que era verdade. Apesar disso, parecia-lhe
sumamente irreal e inviável o modo como tudo havia sido feito.
Repentinamente silenciou-se. Ocorreu-lhe um pensamento capaz de livrá-la
daquele pesadelo, e com o qual poderia escapar incólume daquela
terrível revelação. Decidiu que tudo não passava de um teste
para estudar as reações de uma pessoa diante de uma revelação
chocante como aquela, e que fora escolhida para a experiência. Sim!
Talvez estivessem planejando concretizar aquela idéia mirabolante,
e queriam saber quais seriam as conseqüências. Ela enxugou as lágrimas
do rosto e empertigou-se na poltrona com ar resoluto.
- Não sei qual é o seu objetivo em inventar essa história,
- disse ela muito calmamente, embora parecesse ser outra pessoa
falando. - nem por que me escolheu para isso. Mas vou lhe dizer uma
coisa. Se me procurar outra vez eu processo o senhor e a sua empresa
por danos morais. Eu vou embora agora e é melhor o senhor não
tentar me impedir ou vai se arrepender, entendeu?Kaufman pareceu
levemente aborrecido. Desprezando as ameaças começou a falar
calmamente:- Tudo bem, Emily. Não tinha mesmo esperanças de
convencê-la apenas com palavras. Por isso pedi que usasse esse
aparelho. Peço-lhe que me deixe fazer uma última demonstração de
que estou falando a verdade, e depois a deixo ir. - Fez um gesto
como se abrisse uma cortina com as costas da mão. - Olhe em sua
volta. - Emily olhou - Está vendo todos esses móveis aí? E se eu
lhe dissesse que eles não existem?- Como assim? - perguntou ela
rispidamente.
- Estou lhe dizendo que esses móveis não estão aí. Você
está numa sala vazia. Tudo que você está vendo são imagens
transmitidas ao seu cérebro através desse aparelho; tal como lhe
expliquei agora pouco.
Kaufman recostou-se na cadeira e cruzou os dedos sobre o colo.
- Agora me diga, Emily. O que aconteceria se eu também fosse uma
imagem digitalizada; sem ter uma existência no mundo real? E o que
aconteceria se você saísse daqui sem saber de nada disso? Vou lhe
dizer. Sendo assim, essa conversa não teria acontecido, mas você
se lembraria dela e desse lugar mesmo assim. - Papo furado - disse
ela exasperada. Mas Kaufman continuou com a mesma serenidade.
- Já lhe aconteceu, Emily, de você sonhar com alguma coisa e
depois não conseguir lembrar se era um sonho, ou se havia
acontecido de verdade?Ela não respondeu nada.
- Suponha agora que a primeira possibilidade não chegasse a
se apresentar. Ou seja, se você nem cogitasse a possibilidade de
que pudesse ser um sonho? Não lhe parece que, desse modo, aquele
sonho se transformaria em uma lembrança, de um fato que na verdade
não ocorreu?Emily fechou-se num silêncio meditativo e considerou a
possibilidade. Não podia mentir para si mesma. Querendo ou não a
idéia parecia bastante convincente. Mas seria viável? Seria mesmo
possível que tudo que ela via ali não era real?- O que estou
tentando lhe explicar, Emily, é que uma mentira que não pode ser
desmentida se torna verdade. Em resumo, se você sonha com alguma
coisa e não se lembra que sonhou, essa coisa se transforma numa
lembrança e você pensa que ela aconteceu de fato. Assim foi
construído todo o seu passado. Sem essas imagens falsas, sua memória
seria vazia. Assim como essa sala, se desligarmos o aparelho.
- Quer dizer então que você não está aqui na minha frente
conversando comigo?- Na verdade não, embora eu seja real. Estou
numa sala aqui ao lado vendo você numa tela. Minha imagem foi
inserida na do cenário. - Então, me mostre. - desafiou ela -
Desligue essa geringonça e vamos ver se o que diz é verdade.
- É o que vou fazer. - disse Kaufman dirigindo-se para algum
lugar que ela não podia ver - provavelmente algo que não fora
inserido no conjunto das imagens. - Vou lhe pedir que feche os olhos
e não os abra até eu mandar.
Emily obedeceu. A escuridão cerrou-se sobre ela e, após um
breve instante, sentiu uma leve dormência nos olhos e depois
novamente aquela coceira ardida, quando os nanofios saíram de sua
pele.
- Pode abrir. - disse Kaufman.
A voz soou-lhe diferente, acompanhada de um eco que até então
não percebera. Quando ela abriu os olhos não teve como avaliar as
dimensões do espaço a sua volta. Estava numa sala absurdamente
branca e totalmente desprovida de linhas que pudessem separar as
paredes, o teto e o chão. Tudo se fundia num horizonte sem fim onde
não havia nada em que fixar os olhos. Para qualquer lado que
virasse o rosto tinha a impressão de estar olhando através de uma
neblina bastante espessa, onde a claridade era tão impenetrável
quanto a própria escuridão. Era como se o nada tivesse se
materializado em sua volta. A única coisa que havia na sala era ela
mesma e a poltrona onde estava sentada. Emily sentiu-se como um
desenho numa folha de papel. De repente um retângulo vertical
abriu-se na escuridão branca, e, então, Emily teve uma pequeníssima
noção dos limites da sala. Kaufman entrou e foi como se um novo
desenho tivesse sido rapidamente pintado na folha. Ele abriu os braços
num gesto que abarcava o espaço todo. - Assim é o seu passado,
Emily. Acredita em min agora?Emily não respondeu. Estava ocupada
demais tentando ponderar a situação. A cena era tão insólita,
que a mente humana levava algum tempo para digeri-la. - Não! -
berrou ela de repente levando as mãos na cabeça para arrancar o
aparelho. - Tire isso de min. Tire agora. - gritava.
Kaufman projetou-se sobre ela para ajudá-la. Quando
desprendeu o aparelho de sua cabeça ela o tomou de suas mãos e
golpeou-o na cabeça, derrubando-o no chão. Atordoada olhou em
volta tentando encontrar a porta por onde Kaufman entrara. Ao avistá-la,
saiu correndo por ela.
- Emily espere! - gritou ele levantando-se para ir atrás
dela. - A sessão ainda não acabou.
Mas Emily não ouviu. Continuou correndo pelos corredores
procurando desesperadamente a saída. Quando chegou no elevador
percebeu que ele já a estava alcançando. Decidiu então ir pelas
escadas. Começou a descer freneticamente, pulando os degraus de
dois em dois. Kaufman descia mais rápido, porém a pancada o
deixara tonto. Tinha descido três lances de escada quando parou
para recuperar o fôlego. Foi então que ouviu ecoar pelas paredes,
o barulho do corpo de Emily rolando escadaria abaixo. PARTE III
Naquele dia Martin chegou em casa as 19 horas em ponto. Perguntar a
Dóris, seu programa personalizado, se havia alguma mensagem já
tornara-se um hábito. Fazia isso quase sem perceber e, na maioria
das vezes, nem ouvia a resposta. Sabia que não havia mensagem
alguma. Mesmo assim, talvez...
Mas naquele dia foi diferente. Em vez de servir-se uma bebida
e pedir ao computador que tocasse uma de suas músicas preferidas,
apenas sentou-se na semi-escuridão da sala e apreciou o silêncio
quase palpável que enchia o ambiente - o que levava-o
inevitavelmente a meditar sobre a própria vida desde a sua infância.
E como sempre chegou a mesma conclusão: vivia uma vida medíocre e
não sabia o que fazer para modificá-la. Sua única alternativa era
a morte - decidiu ele. De certa forma já estava morto há muito
tempo. Portanto, ali estava ele agora, de pé numa das barras
horizontais que formavam a grade de proteção da sacada, a uma
altura considerável das ruas movimentadas da cidade lá embaixo.
Mas se já não fazia diferença, por que não tinha coragem de ir
até o fim? Estivera ali várias vezes antes e, no entanto, sabia
perfeitamente que nunca seria capaz de ir além. Se ao menos tivesse
sorte e seus pés escorregassem... A madrugada já ia alta quando Dóris
começou a emitir sinais estridentes que carregavam um leve mas
inconfundível toque de... alegria?! Martin acordou num sobressalto,
surpreso ao perceber que sua insônia subitamente o deixara. Ainda
sonolento esfregou os olhos perguntando-se com mau humor por que o
computador tinha que usar um sinal tão irritante para anunciar o
recebimento de uma mensagem. A última vez que recebera uma, estava
tão recuada no passado que ele mal se lembrava da ocasião. E teria
sido impressão sua, ou Dóris estava realmente feliz ao dar-lhe a
notícia? Apanhou rapidamente os óculos e os ajustou sobre o nariz.
Na tela duas palavras coloridas dançavam mudando de forma
constantemente: "Mensagem Entrando" diziam. Isso indicava
que a mensagem estava sendo enviada em tempo real. Do outro lado da
linha outra pessoa aguardava sua resposta.
- Quem é o remetente? - Martin quis saber.
As duas palavras foram substituídas por outras duas: 'Sem
identificação'.
Martin ficou ainda mais intrigado. O único remetente que
podia imaginar era o hospital, informando-lhe sobre alguma emergência.
Mas este não teria nenhum motivo para não se identificar.
Pressionou uma tecla e logo surgiu no canto superior esquerdo da
tela uma frase:- Podemos conversar um pouco, Martin?- Se você se
identificasse ficaria mais fácil. - respondeu ele em voz alta.
- Desculpe, mas prefiro permanecer incógnito por enquanto.
- Isso é estranho. Eu conheço você? - Tudo o que precisa
saber por enquanto é que sou uma pessoa como você, Martin. Você não
me conhece, mas eu o conheço melhor do que ninguém. Sei como se
sente e o quanto é infeliz.
Mártin ficou calado por algum tempo. Por fim o
cursor moveu-se novamente na tela deixando para trás um rasto de
palavras: - Gostaria de lhe fazer uma pergunta pessoal... Você
amava sua mulher?A princípio Martin ficou incomodado, mas o caráter
direto da pergunta e a identificação imediata com o seu misterioso
interlocutor fizeram com que, por um instante, ele esquecesse que
estava falando com um estranho. - Amava. - respondeu como se
estivesse longe dali. - Mais do que tudo na vida. - Você seria
capaz de desistir de tudo que conquistou até hoje para tê-la de
volta?- O que quer dizer com isso?- Quero saber se você trocaria
tudo que tem para tê-la de volta.
Ele lançou um olhar lento sobre os móveis caros e
completamente dispensáveis que mobiliavam a sala.
- Nada disto faz sentido sem ela. - disse mais para si próprio
do que como resposta - Sim. Eu seria capaz de vender a minha maldita
alma ao diabo se ele me aparecesse fazendo tal proposta.
- Bem, Martin, não sou o diabo. Mas e se eu lhe dissesse que
entrei em contado com você hoje, justamente para lhe dar essa
chance? Pela primeira vez, a idéia de que pudessem estar zombando
dele passou pela sua cabeça.
- Eu diria que você é um grande cretino que está tentando
se divertir as minhas custas.
- Não, Martin. Não é isso. Eu já fui um cientista muito
respeitado um dia, mas hoje não passo de um velho triste e solitário.
Quero ajudá-lo. Acredite, posso dar-lhe sua mulher de volta. - E
quem você pensa que é? Se não é o diabo talvez pense que é
Deus, já que acha que pode ressuscitar os mortos. - Ora vamos,
Martin. Nós dois sabemos que nenhum deles existe. A ciência não
conforta tanto quanto Deus, mas pode devolver-lhe a felicidade. E
afinal, o quê mais importa além disso?Novamente Martin ficou
calado. Sentiu-se tentado a perguntar como o outro pretendia fazer o
que dizia, mas não lhe agradava nem um pouco ter que admitir a si
mesmo que estava prestes a acreditar naquele absurdo. Pela primeira
vez em sua vida pôde compreender por que milhares de pessoas, de
todas as épocas e lugares, se voltavam para o sobrenatural e para a
superstição sempre que a realidade não podia dar respostas
satisfatórias. Era o desespero, percebeu ele, que movia aquela
gente. O mesmo desespero que sentia agora. - Sei o que está
pensando. - as palavras na tela quebraram o silêncio. - Você
precisa de provas, não é? Pois vou lhe dar algumas. Analise tudo
com calma e quando tiver tomado sua decisão, entro em contado com
você novamente. Antes que Martin pudesse dizer qualquer coisa,
houve um ruído agudo e três palavras encheram a tela: "FIM DA
TRANSMISSÃO".
Por um longo espaço de tempo Martin ficou em silêncio
tentando entender o significado daquela estranha conversa. Mas só
conseguiu isso depois de ler todo o extenso documento que recebera
através de Dóris. Talvez não houvesse, no mundo inteiro, outra
pessoa capaz de compreender que aquelas promessas eram perfeitamente
realizáveis. Foi então que entendeu por que havia sido escolhido.
Ele era perfeito. Não só por ser um médico, mas também porque
era uma pessoa comum que não tinha mais nada a perder na vida.
Martin não sabia, mas um longo caminho fora percorrido para chegar
até ele. Agora só havia mais um obstáculo a vencer. Ele seria
capaz de desfazer-se de tudo que possuía para tornar aquele sonho
realidade, mas ainda tinha dúvidas se poderia trair seus próprios
princípios. A incômoda coceira da ética que tanto afligira a
humanidade desde o começo dos tempos exercia seu efeito sobre ele.
Não obstante, ele já havia tomado sua decisão. Só que
ainda não estava consciente disso.
PARTE I V- Eu nunca vi nada parecido. Os ferimentos parecem
ter desencadeado uma espécie de câncer. As células se dividem
freneticamente, mas morrem em seguida... - Não há como reverter
isso?- Já tentei de tudo. É uma doença que eu nunca vi antes, por
isso não sei como lidar com ela.
- Quando vai acontecer?- Bem, a divisão acontece num ritmo
bastante uniforme. Por isso pude traçar uma previsão bem
aproximada de quando ocorrerá a falência total...
- Quando?- Nove meses no máximo. Emily acordou e o primeiro
sentido que entrou em funcionamento foi a audição. Ouviu duas
vozes sussurrantes conversando perto dela, embora fosse como se, no
tempo, estivessem distantes. Uma delas era desconhecida, mas a outra
ela reconheceu, ainda que não soubesse exatamente a quem pertencia.
Permaneceu pouco tempo neste estado de semiconsciência mas foi o
suficiente para descobrir que por mais difícil que fosse uma situação
ela sempre poderia piorar.
Foi a chuva caindo na janela de vidro que acordou Emily no dia
seguinte. Não se surpreendeu quando viu Kaufman parado perto da
janela com ar preocupado. Ao perceber que ela acordara, ele
aproximou-se da cama.
- Olá, Emily. É bom ver que está melhor.
Ela lançou-lhe um olhar de desprezo e respondeu com uma voz débil.
- O que quer aqui?- Só ajudar.
- Você já fez o que não devia. Agora não há mais volta.
- Eu sei. - respondeu ele num suspiro - Mas talvez possamos
remediar isso.
- Suponho que tenha a ver com o fato de você ter resolvido me
contar tudo. Por que fez isso, afinal?- Porque era o único meio de
lhe ajudar. Você estava sofrendo porque tinha dúvidas sobre o seu
passado. Para se livrar do sofrimento você tinha que se livrar das
dúvidas. Agora você sabe de toda a verdade; só precisa dar o
passo seguinte: ignorá-la. Lembra-se de que lhe expliquei naquela
mensagem, como foi que resolvemos o problema dos computadores? É a
mesma coisa com você.
- Como posso ignorar uma coisa destas? - Mas você precisa,
Emily. - foi tão patente sua exaltação ao dizer isso que ele teve
que se recompor para não deixar transparecer seu nervosismo. - É o
único modo de você viver em paz. Você e Martin se amam. Isso é a
única coisa que importa. Você ainda o ama, não?- Amo. - respondeu
ela com os olhos cheios de lágrima. - Mas quando penso que até
isso faz parte de um plano, que foi fabricado... Não sei o que
pensar. Estou muito confusa. - Deixe tudo isso de lado. - disse
Kaufman num tom de súplica. - Esqueça o passado e tente viver sua
vida no presente. Faça ela valer a pena. Pensa que existe outra
vida além desta? Um outro mundo onde tudo ficará bem? Não, Emily.
É preciso ser feliz aqui e agora. Esse mundo é uma porcaria, eu
sei. Mas eu estou feliz por estar vivo. Ele falava com tal obstinação
que parecia querer incutir à força aquela idéia na mente dela.
Emily, é claro, percebeu isso; e sabia qual era o motivo. Com os
olhos ainda lacrimejantes ela o fitou e começou a falar de vagar e
com bastante esforço:- Sei que tem razão. Eu preferia que nada
disso tivesse acontecido, mas já que estou aqui quero viver. Juro
que gostaria de seguir o seu conselho, Dr. Kaufman. Juro que, se eu
não soubesse de nada, esqueceria de tudo e tentaria viver uma vida
normal. Mas não posso fazer isso sabendo o que sei.
- O que quer dizer com isso? - perguntou ele assustado.
- Não tente esconder. - disse com a voz reduzida quase a um
sussurro. - Sei de tudo. Eu não estava dormindo ontem quando você
e o médico conversavam. Ouvi o que diziam. Sei que estou morrendo.
Sem mudar a expressão do rosto, e sem desviar o olhar - que
logo adquiriu uma expressão vítrea - Kaufman sentiu seu coração
falhar e o sangue subir-lhe às faces. O pior que poderia acontecer
acontecera. Todo seu esforço, que durante anos ele vinha
arquitetando minuciosamente, para corrigir seu erro fora
inteiramente por água abaixo naquele exato instante. Teria que agüentar
as conseqüências de seus atos por mais cruéis que fossem. - Só há
uma pessoa que pode me ajudar. - ele ouviu a voz débil de Emily
dizer. - Você precisa me ajudar a encontrá-lo. É a minha única
esperança. Ele afastou-se da cama visivelmente perturbado.
- Jamais pensei que as coisas fossem chegar a este ponto,
Emily. Sinto muito.
- Sei que sente, e não o culpo por isso. Mas essa é a sua
chance de remediar as coisas. Diga-me onde posso encontra-lo e juro
que esquecerei de tudo e tentarei viver normalmente. Por um longo
espaço de tempo Kaufman refletiu sem nada dizer. As conseqüências
deste encontro eram imprevisíveis. Por outro lado ela dissera uma
verdade. Essa poderia ser sua última chance de redenção. Não
poderia deixar de tentar. - Você tem razão. - disse decidindo-se
de repente. Com ar resoluto tirou do bolso um pedaço de papel e pôs-se
a rabiscar nele.
- Se fazendo isso poderei corrigir meu erro então eu farei.
Dirigindo-se ao leito onde Emily estava entregou-lhe o papel. - Aqui
está. Você dará alta em dois dias. - explicou ele - Depois disso
pegue um avião para Londres. Daí pra frente é tudo com você. - Mártin.
- sussurrou ela - Quase esqueci dele. Ele deve estar preocupado.
- Não se preocupe. Eu vou me passar por seu chefe e deixarei
uma mensagem para ele dizendo que você teve que fazer uma viagem de
emergência a fim de cobrir uma matéria e que passará alguns dias
fora. Ele não vai desconfiar. Quando você voltar e estiver tudo
resolvido poderão viver normalmente. "Assim espero." -
disse ele a si mesmo.
- Nós não nos veremos mais? - Não. Não nos veremos mais. -
respondeu ele preparando-se para ir embora. Já na porta virou-se
mais uma vez para Emily e disse:- Tudo vai dar certo.
Antes que ele fechasse a porta ela ainda teve forças para
chamá-lo mais uma vez.
- Dr. Kaufman.
- Sim.
- Obrigado por me dizer a verdade.
- Você merece isso, Emily. Você merece.
E então a porta se fechou e, para seu grande desgosto, ela não
teve forças para mais nada.
PARTE VA fria noite londrina já ia caindo quando o avião
pousou. Sua intenção era ir direto ao endereço que Kaufman lhe
dera, mas assim que Emily pisou fora do avião soube que seria
impossível. O frio, o vento a chuva. Não fazia sentido
aventurar-se sem necessidade. Teria que esperar até o dia seguinte.
Lembrou-se, então, da ocasião em que Martin lhe falara do edifício
onde morava em Londres e que o mesmo havia se tornado um hotel. Não
poderia haver lugar melhor. A corrida de táxi do hotel até o Sítio
Boolean durou pelo menos a metade do tempo que o supersônico levou
para cruzar o atlântico. Desde que dera alta do hospital, até
estes momentos finais, Emily vinha meditando sobre como agiria
quando chegasse a hora. Estava disposta a enfrentar quem quer que
fosse, de gritar, brigar, qualquer coisa para conseguir o que
queria. Entretanto, não foi preciso nada disso - como veio a saber
mais tarde.
Depois de percorrer uma longa estrada de chão batido e
atravessar uma pequena floresta, o táxi chegou a uma enorme mansão
que dava a impressão de ser bastante antiga por ter a pintura
desbotada e descascada pelo mofo. Parecia estar perpetuamente
mergulhada em sombras, pois a luz do sol quase não conseguia passar
pelas folhas das árvores. Contrastando com a casa sem cores, um
jardim visivelmente bem cuidado enfeitava seus arredores.
Emily alcançou ao motorista um maço grosso de dinheiro:-
Espere por min o quanto for preciso.
Sem esperar resposta ela saiu do carro e caminhou pela pequena
alameda que levava até a porta. Depois de bater e esperar
impacientemente, uma espécie de mordomo, vestido à rigor, atendeu
ao chamado. - Quero falar com o senhor Boolean. - disse ela
prontamente.
- Quem devo anunciar?- Não preciso ser anunciada. Quero falar
com ele agora mesmo.
Estava prestes a passar por cima do mordomo quando uma voz
rouca e grave veio do interior da casa. - Deixe-a entrar Conrad.
Traga-a até min.
Ao ouvir isso, Emily estremeceu. Era a voz de um homem normal,
mas, aos seus ouvidos, havia nela um toque sinistro, assustador.
Obedientemente o mordomo fez um gesto educado para que ela entrasse,
e conduziu-a através de uma ampla sala escura até uma escadaria
larga que levava até os aposentos do piso superior. Ele a deixou em
frente uma porta semi aberta e afastou-se sem nada dizer. Era
estranho estar ali parada, sem saber exatamente o que sentir. Seria
o sentimento de uma filha que reencontra o pai que a abandonou
depois de muito tempo? Talvez. Mas o que a dominava no momento - se
é que tinha certeza sobre suas emoções - era o sentimento de ódio
de uma filha contra um pai, não por ela tê-la abandonado mas,
justamente, por tê-la dado à vida. E, por mais estranho que
parecesse, ela sentiu-se como a verdadeira Emily voltando em busca
de satisfações por terem interferido no descanso de sua morte. No
entanto, como Emily bem sabia, tudo isso estava longe de ser o
verdadeiro propósito.
Num ímpeto contrário a sua vontade, empurrou a porta e
entrou na sala obscura, iluminada apenas a luz de velas. Num canto
da sala - que agora ela podia ver claramente que tratava-se de uma
ampla biblioteca - um homem corpulento e de cabelos grisalhos jazia
sentado numa cadeira de rodas. Por algum tempo ouve silêncio, e então
sua voz imponente espalhou-se pela sala. - Eu sabia que mais cedo ou
mais tarde você viria.
-Tenho algumas perguntas a fazer. - disse Emily tentando
disfarçar sua perturbação. - Sei que tem. - respondeu ele
virando-se para ela. Era a primeira vez que a via, por isso não pôde
deixar de surpreender-se com a sua beleza. Do mesmo modo Emily não
pôde deixar de perturbar-se ainda mais com aquele rosto austero,
emoldurado por uma cerrada barba esbranquiçada, olhar profundo e ao
mesmo tempo benevolente. Sobre o casaco preto, rebrilhando à luz
amarelada das velas, pendia uma corrente prateada com uma pequena
moldura oval na altura do peito. - Sei que você quer explicações.
Sei também que você pode até estar com raiva. Mas antes que você
faça a pergunta óbvia, quero que saiba que tudo que fiz foi por
uma causa nobre. E na ciência tudo é lícito desde que a meta
aponte para o bem. E que motivo pode ser mais nobre do que a
felicidade de um homem?- Felicidade de quem?- De Martin, é claro. E
minha também, não devo negar.
- E quanto à? - perguntou Emily devastadora. - E quanto às
conseqüências que isso poderia gerar? E quanto a minha consciência
quando descobrisse que era diferente de qualquer outra pessoa no
mundo? Que eu não era fruto da natureza mas obra das mãos sujas do
homem?- Mas você nunca deveria saber. - atalhou o Dr. Boolean. - E
depois, não é verdade que você é diferente. Você é tão humana
quanto qualquer pessoa deste planeta.
- Como não sou diferente? - disse ela com a raiva abafada por
uma lágrima. - Eu nem se quer nasci. Sou uma experiência, um protótipo
vulgar...
- O modo como você foi concebida não a faz diferente. -
disse ele com a voz baixa mas firme. - Pense. O que difere um homem
de um animal? Todos os mamíferos ( e algumas outras espécies também
) sentem medo, alegria, ódio, tristeza, até mesmo compaixão.
Nenhum sentimento é exclusividade do homem. Mas, diferente dos
outros animais, um homem não age por instinto. Ele tem o dom do
livre arbítrio, o poder de controlar seus sentimentos e
necessidades. É apenas isso que faz da mente humana algo especial.
E a sua mente funciona exatamente assim, como a de qualquer outro
ser humano.
- Mesmo assim... - começou Emily.
- Mesmo assim, - interrompeu o Dr. Boolean. - ainda há outra
coisa a considerar: a diferença entre viver e existir. Um animal
apenas vive. Não tem personalidade, que é a própria essência do
ser humano. Um corpo adormecido (em coma vamos dizer), não pode ser
considerado um homem, pois suas peculiaridades mentais, seu caráter
único, está ausente. É apenas matéria vivia.
- Como eu estava antes de acordar pela primeira vez. - disse
Emily sarcasticamente.
- Exatamente. - concordou ele um tanto relutante. - Naqueles
dias esse conjunto disforme e abstrato de caraterísticas que você
chama de eu, ainda não existia.
Ele moveu-se com a cadeira para perto de uma mesa onde havia
um terminal.
- Por outro lado, um computador dotado de inteligência pode
imitar o funcionamento do cérebro humano com considerável precisão.
Mas apesar de agir como o homem, ele pode ser considerado um tipo de
vida? Alguns cientistas e filósofos dizem que sim. Mas ao meu ver a
palavra "vida" perde seu significado quando fora de um
sentido orgânico. O programa existe, mas é desprovido de vida. Um
homem só pode ser considerado como tal enquanto viver e existir
simultaneamente.
Agora olhe para você, Emily. Você está viva, e sua mente é
perfeita. Nada no seu caráter é fora dos padrões. Você é um ser
humano, este é o fato. Todo o resto é filosofia. - e seu gesto
rejeitou todas as implicações éticas que questionavam seus
argumentos. - Não me julgue mau pelo que fiz.
- Não vim aqui para julgá-lo. Acredito até que você possa
ter razão quanto ao que disse. Mas isso não importa agora. Estou
aqui por que você é o único que pode me salvar.
- Salvar? Do que?Ela ajoelhou-se diante da cadeira pousando as
mãos sobre o seu joelho esquerdo.
- Estou morrendo. - disse gravemente. - E só você deve
conhecer o meu problema. - Mas como... como você sabe? - Sofri um
acidente. No hospital ouvi o médico dizer: "as células se
dividem sem parar e envelhecem rapidamente." Alguma coisa
parecida. Não sei direito.
- Oh, não! - exclamou o Sr. Boolean. - Então aconteceu.
- Aconteceu o quê? - perguntou Emily.
- Sinto muito Emily, mas acho que não posso ajuda-la.
- Como não. Foi você quem me concebeu. Deve saber qual é o
problema.
- Na verdade eu sei. Mas é algo que eu só descobri depois
que tudo já estava feito. Devido à aceleração celular que você
passou para se desenvolver mais depressa, o código genético sofreu
mutação e está se multiplicando como antes. Não há como alterar
o código. Seria preciso recomeçar o processo todo, com o erro
corrigido.
Ele afastou-se dela com ar pensativo.
- Terei que corrigir isso da próxima vez.
- Próxima vez? - disse Emily levantando-se. - Quer dizer que
você pretende fazer isso novamente?Ele virou-se mostrando a ela a
pequena fotografia que havia na moldura da corrente.
- Sabe quem é? - perguntou. - Minha filha. E sabe como vim
parar nesta cadeira de rodas? Também sofri um acidente. De automóvel...
há muitos anos. Minha mulher e minha filha de dois anos estavam
comigo. As duas morreram. E eu... fiquei apenas paralítico.
Ele fitou com pesar a fotografia.
- Por minha culpa elas morreram. Mas posso remediar isso. Vou
ressuscitar a minha filha. Posso fazer isso, e vou fazer.
- Quer dizer - disse Emily assombrada - que eu tinha razão.
Eu não passo de uma experiência sua para que você pudesse anotar
os erros e corrigi-los mais tarde para o seu verdadeiro objetivo.
Agora que você já sabe quais são, eu não importo mais. E se da
próxima vez houver outro erro vai fazer o mesmo com a sua própria
filha.
- Não! - disse ele fixando o olhar sobre ela. - Gosto de você
como se fosse minha filha também. É claro que me importo com você
ainda, e sempre me importarei. Infelizmente não posso livrá-la da
morte, mas sei como fazer com que isso não faça diferença.
Ele virou-se de costas para ela e dirigiu-se até a mesa onde
estava o computador. - Vou entrar em contato com Kaufman. Pedirei a
ele que apague uma parte de suas lembranças de modo que você esqueça
que ouviu aquele médico falar sobre a sua morte. Será como se você
nunca tivesse descoberto, entende?Emily estava tão perplexa que não
conseguia ouvir o que ele dizia.
- "O pior castigo que Deus pode infligir a um de seus
filhos é lhe revelar o dia da sua morte." - exclamou ele
enquanto tentava uma linha pelo computador. - Ele cometeu esse erro
com você. Mas eu vou corrigi-lo.
- Não vou deixar que isso aconteça. - disse Emily a si
mesma.
O senhor Boolean não ouviu o que ela disse. Só notou que
Emily estava parada atrás dele quando ela roçou de leve os seus
ombros. A princípio ele estranhou esse gesto, mas quando ela
agarrou a corrente que lhe pendia do pescoço entendeu qual era sua
intenção. Mas já era tarde. Ela puxou com violência a corrente
contra sua garganta quase quebrando-lhe a traquéia. Cada vez mais
apertada, a pele começou a ceder e uma fina listra de sangue
manchou a pequena fotografia. Ele tentava em vão desvencilhar-se,
e, no desespero caiu da cadeira sem poder se mover. Sem soltar a
corrente Emily ajoelhou-se junto dele.
- Você é um louco arrogante. - sussurrou ela em seu ouvido.
- Mas não se preocupe, Deus sabe que ninguém tem culpa da própria
insanidade. Ele vai perdoa-lo.
Depois, olhando para o teto como se pudesse ver através dele,
disse:- Fiz algo terrível, Senhor. Mas sei que entende o motivo.
Aos poucos o Dr. Boolean parou de se mexer e Emily deitou
lentamente sua cabeça no chão. PARTE VIMartin desconfiou de que
havia alguma coisa errada justamente quando ouviu a mensagem na
secretária eletrônica. Depois de rodar a mesma por mais de dez
vezes reconheceu a voz de quem falava. Se havia alguém que soubesse
o que estava acontecendo, esse alguém era o dono daquela voz, e
quando Martin pressionou Kaufman para que lhe contasse, ele entregou
o jogo. Quando disse que Emily partira para Londres, Martin
lembrou-se - e arrependeu-se - imediatamente do dia em que contara a
ela tudo sobre sua vida ali em Londres, inclusive o cobiçado endereço
onde morava. Mas agora, sentado num café observando a chuva cair do
lado de fora, pensando bem fora melhor assim. Afinal, pelo menos ele
tinha uma idéia de onde encontra-la. Seu palpite se confirmou
quando a recepcionista do hotel lhe respondeu:- Sim, temos uma Emily
hospedada aqui. Mas ela saiu esta manhã e até agora não voltou.
Ele não podia fazer mais nada por enquanto a não ser
esperar. Mais cedo ou mais tarde ela tinha que aparecer. Chovia aos
cântaros quando Emily chegou de volta ao hotel. Do outro lado da
rua Martin viu parar um táxi e descer dele uma mulher que entrou
correndo no prédio. Ela cruzou a sala de recepção sem pedir as
chaves do quarto e entrou no elevador. Martin passou pela sala
poucos momentos depois, mas o elevador já estava no quarto andar, e
só parou quando o visor acima da porta indicou: "Terraço".
Lá em cima a chuva era a mesma, mas o vento soprava mais
forte e gelado. Emily, porém, não o percebia. Estava tão
transtornada que seus sentidos como que foram desligados. Um milhão
de pensamentos atropelavam-se em sua mente e de repente ela entendeu
o que deveria fazer. Caminhou devagar até a borda do terraço e
subiu na mureta de proteção. Quarenta andares abaixo dela as luzes
da cidade reluziam como centenas de jóias fulgurantes. Ficou um
momento absorta naquele panorama que se estendia por quilômetros de
extensão, e foi então que ouviu uma voz bastante familiar falar
atrás dela.
- Não faça isso, Emily.
Ela virou-se assustada e lá estava Martin olhando para ela.
- O que faz aqui? Como me encontrou?- Kaufman me contou. Sei
que você sabe de tudo. Mas, Emily, esta não é a melhor saída.
Desça daí e venha comigo, está bem?- Kaufman lhe contou tudo! -
disse ela. - Contou também que estou morrendo?- Sim, contou. Mas nós
vamos dar um jeito. Juntos vamos...
- Não há solução. Não há como fugir. Mais cedo ou mais
tarde eu vou... - parou antes de completar a frase.
- Mas não assim. Você não pode fazer isso comigo. Não tem
esse direito.
- É a minha vida. - gritou ela. - Eu é que decido. - depois,
como se houvesse tido uma idéia repentina: - Ou melhor, não é
minha. Estou sendo obrigada a viver uma vida que não me pertence. A
verdadeira Emily está morta. Você tem que aceitar isso, Martin. Não
devia ter feito o que fez.
Ele caminhou sob a chuva até uma grande caixa de concreto e
sentou-se no chão escorado nela.
- Vivi sozinho nesse prédio durante oito anos. - começou ele
chorando. - E durante todo esse tempo não tive um só momento de
alegria. Depois que conheci você...
- Quer dizer quando conheceu a verdadeira Emily. - atalhou
ela.
- ...me tornei um homem feliz, alegre, com amor pela vida. Mas
quando ela morreu foi como se eu tivesse morrido junto e essa vida
se tornou um tormento. Tentei até mesmo o suicídio, exatamente
como você está fazendo agora. Mas nunca tive coragem.
- Posso sentir que você a amava de verdade. - disse ela com
uma voz de pena. - E sei também que me ama como se eu fosse ela
realmente. Você não sabe como estou feliz. - Mas você é a
verdadeira...
Ela fez de conta que não ouviu, e continuou:- Mas, e quanto
ao amor que eu sinto por você? Será ele verdadeiro ou apenas um
sentimento programado, livre da minha vontade?- Mas todo amor é
livre da nossa vontade. - disse Martin. - O seu amor é como o meu.
Ela sorriu tristemente.
- Acho que tem razão. - Então venha comigo. - suplicou ele -
Desça daí, por favor.
- Não. Não há mais volta.
- Olhe para trás e me diga se está pronta para morrer. Quer
mesmo fazer isso?- Não tenho medo da morte, Martin. Porque ao contrário
de você eu sei que há um lugar melhor do que este.
- Isso não é verdade. Não há outro mundo além deste.
- Há sim.- Há sim. Meus sonhos não eram só pesadelos.
Muitas vezes sonhei com esse lugar. Me via nele livre de qualquer
dor ou sofrimento. Sei que não era só a minha imaginação. Olhou
para Martin com tristeza e perguntou como se uma idéia tivesse
acabado de lhe ocorrer.
- Acha que eu poderia entrar no Reino dos Céus mesmo não
sendo obra do Senhor?- Isso só a faz mais semelhante a qualquer um.
- murmurou ele a si mesmo.
- Não importa. Não é da morte que tenho medo. Sabe do que
é?Martin não disse nada.
- De estar infeliz quando chegar a hora. E eu estou muito
feliz agora. Óh, Martin! Não sabe o quanto estou feliz neste
momento.
- Não faça isso pelo amor de Deus. - disse Martin baixinho
sem olhar para ela.
- Não sinta pena de min. Se eu não puder entrar no paraíso,
também não serei aceita no inferno. Ao dizer isso fechou os olhos
e inclinou-se para trás caindo no vazio. Mas, de olhos fechados, não
foi o céu chuvoso que ela viu e sim um túnel de nuvens brancas
através do qual ela caía vertiginosamente. No silêncio do seu
inconsciente ela tinha a plena convicção de que caía em direção
ao mundo dos seus sonhos, onde viveria feliz por toda a eternidade.
Era extraordinária a sensação de alegria que a idéia lhe
proporcionava. Mas de repente as nuvens tornaram-se vermelhas e ela
sentiu uma enorme força lhe pressionar a parte de trás do crânio.
Não era dor, apenas pressão. E nas costas um calor agradável. Ela
não havia chegado ao outro mundo. Estava deitada de costas em uma
possa de sangue, no chão da calçada.
PARTE VII
Martin estava sentado em frente uma mesa numa sala vazia
esperando por um advogado. Este era o único fato de que tinha
consciência. A última coisa de que se lembrava era de ter
caminhado de vagar até a borda do terraço e ver uma mancha
avermelhada lá embaixo no centro de uma pequena multidão que já
havia se formado. As pessoas na calçada apontando em sua direção,
e o débil sorriso de Emily em seus braços antes de partir (quem
sabe?) para um mundo melhor. Depois disso não se lembrava de mais
nada. Não fazia a mínima idéia de como viera parar ali. Um homem
baixo e barrigudo interrompeu seus devaneios ao irromper à porta. -
Olá Martin. Sente-se melhor?Martin não respondeu.
- Sou seu advogado indicado pelo estado para a sua defesa. Você
está sendo acusado de assassinato. Está ciente disso?Martin o
fitava vagamente. O olhar fixado no nada, como se estivesse longe
dali.
- Algumas pessoas - continuou o advogado - dizem ter visto você
empurrar sua mulher do alto hotel Maerkli. Lembra-se disso?Ele
continuou calado, como se não tivesse ouvido a pergunta.
- Pode falar comigo, Martin. Estamos sozinhos nesta sala. E
você precisa confiar em min.
- Qual é a pena para assassinato? - perguntou ele de repente.
- Bem - respondeu o advogado. - no seu caso, se for condenado,
provavelmente prisão perpétua.
- E quanto à pena de morte?- Não há mais pena de morte na
Europa. Eles têm agora um equivalente que, segundo eles, é mais
produtivo e menos... desumano. É a tal da Desconstrução Mental.
Sabe do que se trata?- Já ouvi falar. Um projeto experimental para
a amenização da violência na sociedade.
- Exatamente. - respondeu o advogado. - Eles não acreditam
mais nos institutos correcionais. - Mas... o que seria preciso para
ser condenado. O advogado se surpreendeu com a pergunta. Não estava
entendendo onde Martin queria chegar.
- Bem, - começou ele hesitante - seria preciso que se
provasse a sua culpa ou que você assinasse uma confissão. Aí você
teria duas opções: passar o resto da vida numa prisão de segurança
máxima ou na Casa de Tratamento Para Estados de Consciência
Alternativos. Uma casa para doidos, se é que me entende. Mas isso,
claro, se você fosse condenado. E pretendo trabalhar para que isso
não aconteça.
- Mas eu quero ser condenado. - disse ele finalmente.
- Como assim, quer ser condenado?- A liberdade não faz mais
sentido para min. Eu me declaro culpado. E sou voluntário para hóspede
na tal casa.
O advogado mal podia acreditar no que estava ouvindo.
- Não acredito que seja culpado.
- E não sou. Mas isso não faz diferença para o júri, não
é? Tudo que quero é ser condenado à Desconstrução. A minha
redenção está na insanidade. E você vai me ajudar a alcança-la.
- Bem, - disse o advogado boquiaberto. - se essa é a sua
decisão, eu não posso fazer nada. Só espero que você saiba o que
está fazendo.
- Eu sei. Não se preocupe.
- OK. Menos trabalho para min. - disse ele enquanto tirava da
pasta algumas folhas impressas. - Você tem que assinar alguns papéis,
então. - Alcançou a Martin as folhas juntamente com uma caneta. -
Assine aqui, aqui e aqui.
Martin assim o fez. Acabara de assinar a sua sentença de
morte.
PARTE VIIICasa Rushmore: O lugar mais feliz do mundo. Era
assim, exalando ironia, que a placa acima do portão principal
definia a Casa de Tratamento Para Estados de Consciência
Alternativos. Na verdade uma prisão disfarçada de manicômio que
ficava no alto da colina Rushmore. Não havia grades, nem arames
farpados, muito menos guardas armados. Uma tentativa de fuga estava
absolutamente fora das preocupações de uma penitenciária onde
todos os detentos viviam pacificamente. Eram em sua maioria
assassinos cruéis, traficantes e estupradores que, após passar por
uma profunda lavagem cerebral, vinham para ali como seres calmos,
harmoniosos, incapazes de violência. Era assim que a Europa, e
outras poucas partes do mundo oriental, tratava agora seus
criminosos. Em vez de trancafiá-los em prisões cada vez mais
lotadas nas quais aprendiam inúmeras outras formas de crime, além
de reafirmarem as que já conheciam, vinham para a Casa Rushmore,
onde poderiam viver felizes (e produzindo para o Estado) pelo resto
de suas vidas. Isto, é claro, custava-lhes a identidade. Mas que
importância tem isso quando o principal objetivo da vida é ser
feliz? Esse parecia ser o pensamento dos legisladores que aprovaram
a lei.
Dois anos depois Kaufman ainda sentia um certo remorso por ter
abandonado tudo sem olhar para trás. Especialmente por causa de
Martin, por quem adquirira um estranho afeto. Quando os equivocados
acontecimentos acerca de Martin e sua condenação chegaram-lhe aos
ouvidos, seu remorso chegou a tal ponto que não pôde mais
suportar. Teria que ver Martin uma última vez - mesmo que fosse
tarde demais.
- Sou o Dr. Orson, diretor da Casa. - disse polidamente o
homem corpulento que entrou na sala de espera. - Vou leva-lo até o
prisioneiro que quer ver. Acompanhados pelo psiquiatra responsável,
eles caminharam pela casa por alguns metros até saírem numa
pequena sacada. Ali Kaufman teve a visão mais psicodélica de toda
a sua vida. Diante dos seus olhos descortinava-se um amplo jardim
repleto de flores e árvores e com um gramado incrivelmente bem
cuidado. Entre os canteiros de flores, dezenas de homens e mulheres,
todos vestidos de branco, corriam e brincavam alegremente quais
crianças em hora de recreio. - Nunca vi tantas flores assim. -
murmurou Kaufman.
- Na verdade o senhor nunca viu flores como estas. - disse o
diretor com visível satisfação. - elas foram modificadas para se
adaptarem ao clima. São geneticamente perfeitas.
Kaufman olhava tudo com um misto de fascínio e perturbação.
- Senhorita Price! - dirigiu-se o diretor à enfermeira parada
logo abaixo da sacada. - Traga o prisioneiro Martin até aqui.
- Ele não está com essa turma. - disse a moça após
consultar uma lista que tinha em mãos. - Provavelmente esteja na
sala de música.
- Oh! Perfeito. - exclamou o diretor. - Você terá a
oportunidade de ver um dos nossos melhores compositores em ação,
Sr. Kaufman.
- Compositores? - disse Kaufman. - Há músicos aqui?- São
poucos, mas há sim. E não só músicos, mas também pintores,
artesões, escultores, plantadores, carpinteiros, toda uma gama de
talentos que produzem os mais variados bens para a sociedade.
Kaufman sentiu vontade de questionar o diretor, mas não o
fez. Estava mais preocupado com seus próprios pensamentos e não
tinha ânimo para entrar em discussão. No entanto, quando viu
Martin ( pela primeira vez depois de dois anos ) não pôde deixar
de expressar sua desaprovação.
Eles haviam parado em frente um vidro através do qual via-se
uma grande sala cheia de instrumentos musicais. A turma já estava
saindo quando eles chegaram. - Por favor. - disse o diretor em um
interfone na parede. - Peça ao prisioneiro Martin que toque uma última
música.
A enfermeira murmurou alguma coisa no ouvido de Martin e ele
dirigiu-se de volta ao piano com um sorriso imbecil nos lábios. Não
era o homem que Kaufman conhecera.
- Isso é horrível. - murmurou ele.
- O que? - perguntou o diretor.
- Isto. Todo este lugar.
- Horrível? - disse o psiquiatra manifestando-se pela
primeira vez. - Olhe só para ele. Consegue imaginar alguém mais
feliz?Neste momento, porém, fez-se ouvir a música. Kaufman
voltou-se para o vidro desistindo da discussão.
- Ele lembra-se de alguma coisa...? Do que aconteceu antes?-
É difícil dizer com certeza. - respondeu o psiquiatra. - É possível
que se lembre de algo, mas é muito improvável. Ao apagar seus
reflexos violentos apagamos também...
As palavras foram lentamente morrendo nos ouvidos de Kaufman,
pois neste momento começou a identificar as notas que saíam das
ocultas caixas de som. Estava agora oito anos no passado relembrando
seu primeiro encontro com Martin no apartamento dele. Não fora difícil
convence-lo a seguir adiante com a experiência, e depois da longa
conversa, Martin fez questão que ele escutasse uma canção, a
mesma que ele ouvia agora. - Eu a compus para Emily. - dissera
Martin. - Ela não chegou a ouvir. Espero que ela goste. Kaufman
voltou ao presente e notou que a canção acabara.
- Ele lembra. - murmurou a si mesmo, mais satisfeito por isso.
- De quê? - perguntou o psiquiatra.
- Nada. Tem certeza de que ele ficará bem?- Ele está feliz.
O que mais importa além disso?- Sim. O que importa além disso. -
repetiu Kaufman.
Antes de ir embora deu uma última olhada em Martin. Apesar de
tudo ele estava bem, realmente. E isso era um tremendo alívio para
sua consciência, de modo que ao descer a colina tudo já fazia
parte do passado - ou assim desejava.
E lá, no alto da colina, sentado entre as rosas perfeitas,
Martin via Emily caminhar em sua direção entre o longo corredor de
flores que se estendia a sua frente. Quando ela chegou perto dele e
ajoelhou-se diante de seus olhos, ele deu aquele sorriso bobo e
estendeu a mão para tocar-lhe o rosto. Era apenas uma miragem,
obviamente, mas isso não fazia a menor diferença. Nada mais
importava para ele. Havia finalmente alcançado a felicidade.
Fim
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