Os Agriões Não Morrem Jamais

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0072]
[Autor:
Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título: Os Agriões Não Morrem Jamais]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 5.397]

 

Nota: Existe uma versão com a introdução na íntegra, que é a versão submetida pelo protagonista dessa aventura à esse vosso relator. Porém, como é material sem revisão, compatível com o personagem, foi retirado da estória.

 

INTRODUÇÃO

Minha missão, todos sabiam (e eu mais que todos), era impossível de ser concretizada. Da mesma forma, o que não sabem, também é aquilo que nem eu sei, mesmo agora, passado todo sufoco: Porquê o 'general' de nossa comarca escolheu justo a mim, entre tantos outros mais tarimbados, profissionais do ramo, logo um gandula(!), pra unir os elos daquela corrente há muito partida?

Tá certo que fui, antes do embargo, o mais velho gandula partime em atividade no Brasil - o que 'tava longe de ser mérito pra qualquer um; mas atribuir o fato de minha 'notoriedade' súbita àquela matéria sepultada nas páginas centrais no extinto Jornal dos Sports, sob o título 'O catedrático das bolas isoladas', era pura balela sensacionalista. Senão vejamos, uma coisa é sair na porrada com um torcedor mais afoito, que pulava a mureta, invadia o valão, lascando uma, levando outra, em busca da pelota maldita, porém ser escalado como Empresário e Treinador de um timeco com pretensões à Seleção do Resto do Mundo?!! Se não bastasse isso, recrutando gente, em sua maioria um bando de leigos que nunca vira bola na vida e desconheciam o que é um Estádio de Futebol repleto de gargantas que xingam...

Que merda, são Menelau. Que furada me meteram!

Mas a realidade é assim, como direi, bocas de recém-nascidos ávidas de leite. Fazer o quê? Desistir? Dar fim a minha miserável vida? Virar as costas à única chance que tenho de entrar pra história? Não mesmo!

Passando fome, num miserê só, não pensei mais que dez vezes, o que dá uma idéia aproximada desse meu dilema: Não era só pular fora quando o circo pegava fogo, tomando a grana como faziam os cartolas, dizendo que aceitava e depois desaparecia do mapa para umas longas férias no Caribe. Bem que queria, nem que fosse pra Conchinchina, porém meu destino e o dessa 'seleção' era um só; se ganhasse, teria minha alma de volta e talvez algum prestígio torto de quebra; se não, 12 filhos, uma mulher e uma sogra 'estepe' teriam algo pra contar aos noticiários exportivos (atentem para o 'ex'), abaixo de minha fuça estampada nos principais obituários da cidade, quiçá do mundo: Zé Cabrito Desovado!, o pé-de-chinelo que achou que podia e se fodeu. Ou seja, nada mais, nada menos, que minha própria e ridícula pessoa.

Empresário. Era essa função que queriam que eu desempenhasse? Claro que aceitei! Onde assino com o meu sangue aguado, Sr. Capeta? Aceita como promissória minha sogra?

É. Não aceitou. Estava nessa sozinho...

'PRIMEIRO TEMPO'

18 de Março, 2006

Minha estranha aventura começa naquele último verão carioca, posterior a minha nova função no 'bico' de manobreiro no ex-campo do 'bacalhau', transformado no Vasco Grill & Music Hall. Era ali que espremia alguma gruja pra feira na grande praça de alimentação e Casa de Shows a céu aberto situada no subúrbio de São Cristóvão; o novo (velho) point do momento.

Mas não pensem que Zé Cabrito, minha alcunha, percebia uma mixaria maior na sala de máquinas das lanchas e barcas da Conerj, minha verdadeira ocupação trabalhista 'dos dias úteis'. Exceto muita graxa e grosas de estopa velha, mil aedis, vetores de malária, e baratas, além de batalhões ratos, eram meu comitê de recepção diário, conhecendo vários deles até pelo nome. Por ser um autodidata, talvez por exatamente esse motivo, lia muito naquela sauna barulhenta no intervalo de alguma caldeira obstruída ou parafuso frouxo, enquanto o contramestre folheava e melecava todas as revistas de mulher pelada que conseguia carregar pro bueiro (nosso exíguo banheiro de bordo, comum a todas as lanchas da classe Itaipú); era uma diarréia-pornorréia constante que, felizmente, deixava-me tempo de sobra pra consumir tudo que caísse em minhas mãos, via sebos ou lixo mesmo, de enciclopédias despaginadas, suplementos de jornal, 'pérolas' de Camões e Ari Toledo, tratados de metalurgia, astronomia, romances, fandons de ficção científica, quadrinhos, uffá!, tudo enfim...

Vem daí meu 'início' no lado de cá do esporte bretão. O pasquim Fofoca dos Vestiários - Esquema Tático dos Excluídos trago ainda hoje, encardido, cobiçado pelas traças e ácaros, em minha velha e detonada pochete de guerra, que até apelido tinha: topa-tudo. Um autodidata não pode realmente almejar grande coisa na vida. Vender a alma ao diabo continuava sendo um bom negócio, como já citei na introdução.

*

Ainda que outros se lhe comparassem, hoje posso afirmar: foram os dias mais tumultuados da minha vida. Nem a ascensão vitoriosa e quase milagrosa do Rio de Janeiro Futebol Clube à 1ª Divisão suplantou aquilo, o que dava uma perspectiva de como me sentia naquele momento. Dias que se arrastavam na folhinha como um meio-campista cansado e contundido, sem poder ser trocado, esgotada todas as substituições a que um Técnico tinha direito.

Quem diria que o tempo em que me dirigia à Praça XV (espremido nos coletivos, mofando nos engarrafamentos-monstro por todo trajeto de Caramujo, via Alcântara, atravessando a Baía da Guanabara) acometeria agora como gratas lembranças dum passado quando a grana era pouca e suada, mas a perspectiva de continuar sobrevivendo ainda existia e não assolada por nuvens cor de breu! Os físicos estavam certos. Tudo questão de referencial. E também errados: nada era relativo. Só mudava-se o rótulo. O produto continuava sendo o mesmo...

Quem poderia prever que a coisa tomaria um diacho de vulto desse porte, arrastando um pobre trabalhador e quase duas dúzias de outros cidadãos, dentre sul-americanos, asiáticos, europeus, africanos,..., se não iguais na dureza e mediocridade, semelhantes no sofrimento? Todos juntos despejados naquela ilha cheia de cabras barulhentas, montanhas aos porrilhões e nativos com chapéu de bambu na cabeça e hálito de peixe cru... Escolhida a dedo (torto) não teria sido pior. Que local para uma Concentração, sem sequer uma única planície disponível para justificar um campo de futebol! E não era só isso que contabilizava nossa desgraça: Um aguaceiro sem pai nem mãe não cessava de despencar das alturas com a força dum dilúvio visto pelo próprio Noé; quase diuturnamente chovia, reservando somente as úmidas e mosquitadas madrugadas para o treino no encharcado - e ondulado - Costa Brava Nova Guiné Golf Club. Um campo 'administrado' por nativos que falavam o pidgin e pareciam zelar, com competência, pelo continuamento inercial do mato que parecia não sofrer apara desde a II Guerra Mundial...

*

Sentado sob um grande cajueiro depenado de frutos (nem precisa dizer 'quem os depenei'), comendo uma banana (d'água), permaneci entediado e com saudades de casa - o feijão amigo, a conversa fiada, tentando engabelar o birosqueiro e beber fiado também -, além de todo picado, no dilema se morreria primeiro de pneumonia ou hemorragia. Observava os holofotes cheios de mariposas multiplicarem as minhas sombras e a do desenrolar da pelada colina abaixo, ouvindo o berreiro e o xingamento saudável de onze motivos de insulto ao futebol mundial.

Estavam todos ali, ao menos assim parecera na época; dos 'apontados' pelos etês aos recrutados por mim com a conivência deles em dois meses de campanha, de aeroporto em teco-tecoporto; só pra citar algumas paradas, tivera minha cota de Indiana Jones, na verdadeira perdição de mergulhar em picadas na floresta como um buwana mulato numa aventura na África pós-febre tifóide; ou subindo rios em chalupas barulhentas e hipopótamos nervosos, contrários a tanto esporro em seu habitat, na Índia; ou escalando aldeias trepadas como verdadeiros ninhos no telhado do mundo, tanto no Equador como no Nepal; ou congelando em Quebra-gelos no Polo Norte; trepidando em rixás nas ruas apinhadas da Ásia; conduzido por gôndolas e solemios suspeitos no submundo de Veneza ou ardendo a bunda num lombo de burro, em nossa última parada em Sacramento, Novo México, quando Manuelito Enriquez de Córdoba y Estevan - um nome comprido demais para um carvoeiro mexicano 'apontado' - subiu a bordo da, juro, em vias de naufragar, nau dos desgraçados. Como tudo ali era uma arrematada insensatez, a começar por mim mesmo, não criei obstáculo algum em trazer uma mascote pro time, ou seja, o 'jumento da sorte' de Manuelito. O difícil foi convencer a Alfândega do arquipélago de Bismarck que não tínhamos nenhum interesse sodomita com o bicho na proliferação de beldades locais <disponíveis>. Nada como valorizar o produto interno bruto!

Os críticos é que estavam com a razão: Loucademia de Futebol...

*

Saquei da 'topa-tudo' um pequeno e anacrônico bloco de apontamentos e, meio sem jeito, o apoio precário, se a caligrafia já era ruim, ficou pior pra cacete; após alguns rabiscos um tanto quanto indecifráveis, decidi deixar de lado a caneta de prata comemorativa e alusiva ao evento que ganhara em minha primeira recepção oficial na Comarca de Brasília; souvenir desse momento onde tudo pareciam flores e existia um certo apelo patriótico no ar, por ser eu, apesar dum enjeitado, despontando como representante brasileiro no comando da escuderia terrestre contra os maléficos estrangeiros do espaço (claro que isso era subtendido e nunca dito aos 4 ventos, pois, afinal, estávamos em Brasília, a Meca dos linguarudos).

Junto à caneta sepultada na grama, que jamais reavi, larguei também o bloquinho de couro de rato repleto de meus garranchos feitos à lápis na minha costumeira letra tremida e semi-analfabeta, que o cúmulo dos hipócritas - diziam na frouxa imprensa, e central de mexericos de sempre -, ser estilizadamente floreada. O que o medo e o oportunismo não fazia...

É mesmo, veio-me aquele pensamento de Camões barato, enquanto buscava pelo pequeno gravador no âmago da pochete inseparável e mais que costurada, que flor se prestaria a tamanha esquisitice no formato mais torto que o próprio Quasímodo vergado por duzentos Ulisses?. E acrescentei, não sem certa tristeza pelo auto-reconhecimento: No mínimo!.

Enquanto acompanhava o vôo de um pombo noturno, pelo chiado acabando por se revelar um morcego dos grandes, talvez o próprio batman, iniciei a gravação que, se impressa ficaria mais ou menos assim:

RELATÓRIO - FICHA DE OCORRÊNCIA

(Comissão Técnica, Técnico, Jogadores, Apontamentos, Esquema Tático e Conclusões)

Item um (relação): Estruturam-se com os seguintes nomes, alcunha (se existir), nacionalidade, staff, idade (quando conhecida), ocupação anterior (idem), domínio de idiomas (se houver):

  1. José Ludibriel Oliveira (Zé Cabrito, Zé, Chefe), 50 anos, natural de Varginha, Brasil: Empresário da Seleção Terrestre e Treinador. Ocupação Anterior = 'prático' em reparação de caldeiras e mecânica de motores diesel; nunca freqüentou a escola mas têm conhecimentos teóricos em vários níveis (todos não formais, por ser autodidata);
  2. Anatoli Von G. Grusven (Polaco), 66 anos, natural de Brachov, Romênia: Preparador Físico, fluente em servo-croata e alemão, com rudimentos em inglês. OA = relojoeiro;
  3. Samuelson Torino (Daktari), 51 anos, natural de Brava, Cabo Verde: Médico, Conselheiro e Nutrólogo; inglês fluente e bom domínio no afrikaan. OA = veterinário;
  4. Renato Abílio Correia Lago (Pilão de Veludo), 29 anos, natural das Serras Gaúchas, Brasil: Massagista e Roupeiro; no idioma, noções de espanhol. OA = ator de teatro;
  5. Sinval da Silva (Flanelinha), 23 anos, natural da Rocinha, Brasil: Intérprete e Administrativo; possui bons conhecimentos em inglês, francês, alemão e japonês, além de faculdade extrema para o aprendizado de outras línguas e sair de situações imprevistas. OA = não especificado (igualmente polivalente);
  6. Obicquá Oddo (Xamã), idade desconhecida; nômade nas terras do Alto Xingu, Brasil: Técnico. AO = presume-se que exercia a função de Curandeiro da Tribo Txucarramãe, sendo tio-avô, segundo fax recebido, de Raoni;
  7. Olaffson Stuart Franzpettersen (Sueco ou Stu), 35 anos, natural de Uppsala, Suécia: Forward; com inglês e finlandês fluentes. OA = padeiro;
  8. Hussaim al-Yollaf, 30 anos, natural do Kuwait: Ala Esquerdo; fala francês e inglês. OA = enólogo;
  9. Lin Hongween Ku (Lincu ou Fumanchu, sendo o complemento omitido, já que fazia sentido somente em português), 25 anos, natural de Ynchuan, China: Lateral-Direito; têm o mandarim como segunda língua. OA = pescador;
  10. Surya Pong (Baby ou DiMenor), 15 anos, natural de Katmandu, Nepal: Forward; rudimentos de francês e fluência no chinês. OA = xela;
  11. Margot Lívia Grimaldi (Cicciolina ou Fafá), 18 anos, paulista (Brás), Brasil: Líbera; com noções de inglês e espanhol. OA = estilista (apresenta potencial, devido somente a sua liderança, para ocupar a função de Capitã do time);
  12. Omüunk Fukuda (Picolé), idade desconhecida; natural da Groenlândia: Médio-volante; arranha algo de dinamarquês. OA = guia de trenó;
  13. Robert Levinsk Noland (Basco), 25 anos, natural de Belfast, Irlanda do Norte: Goleiro. OA = ativista político (eufemismo para terrorista);
  14. Manuelito Enriquez de Córdoba y Estevan (Miguelito), 30 anos, natural de Monterrey, México: 4º Zagueiro; com noções de inglês. OA = carvoeiro;
  15. Nehu Attanabi Muwanib (Zumbi): dados ainda sendo apurados (recém-chegado, encaixado no time como meio-campista);
  16. Luiz Ignácio Olbidero (Coca), 21 anos, natural do Guaiaquil, Equador: Ala Direito; fala quíchua. OA = balconista, camelô e, segundo alguns, 'laranja' de traficante;
  17. Oswaldo Leon de Godoy (Montain, Tyson ou Oswaldão), 35 anos, natural de Obidos, Brasil: Beque. OA = estivador.

Item dois (Apontamentos e Esquema Tático): Todas as posições ocupadas pelos 11 jogadores anteriormente citados não são, de forma alguma, definitivas. Em sua quase maioria somente tiveram doze dias para se conhecerem como equipe e a análise não promete muita coisa, MESMO QUE SE ENTROSEM POR CEM ANOS. É forçoso admitir que uma estilista de modas, um padeiro, balconista e mineiro, só para restringir-me nos 4 mencionados, consigam melhorar suas performances num esporte que, nem em suas infâncias, praticaram? Todos sabem a resposta. Coloquei alguns taipes desde nossa chegada no dia 8 de novembro, aproveitando da chuva ininterrupta; mas só pude, depois de muito custo, passar as Leis Básicas do Futebol, sem aprofundar no fundamento Linha de Impedimento, Marcação e Voleio. Diria - com absoluta certeza de não errar -,que todos têm boa-vontade em aprender, sendo que alguns, por sorte, milagre talvez, já acertaram alguns chutes na bola (e a bola continuava errando o alvo, mantendo o padrão de nossa seleção); porém TODOS são terrivelmente primários e, se não fosse os 'agriões', nunca estariam aqui.

Item três (Conclusões): (a) usarei, na medida do possível, suas características pessoais para a definição de suas posições futuras; (b) não acredito que ser 'duro' com eles vá resolver as muitas de suas mazelas, mas cumpre-se sempre uma figura de 'mau' e deleguei para o Polaco essa função; tivemos sorte com este, pois tem uma fascinação invulgar no quesito 'fantasia de Hitler'; talvez batendo dos dois lados, acariciando e socando, consigamos despertar o Atleta Adormecido que cada um têm em si (comentário: duvido!); (c) não há Reservas, até agora, para nenhuma função, por determinação Deles e (d) por vias das dúvidas, já fiz meu testamento...

*

Interrompi aquele relato, meio que mastigado por uma ou outra dentada na última banana do cacho, para conferir o espaço que ainda restava na fita Basf HQ. Somente naquele momento - quando o bando de galinhas-d'angola empoleiradas no cajueiro resolveram calar o bico, até então incomodadas com a luz, estando eu protegido da titica-atômica por um grande sombrero (não preciso mencionar seu estado de pau de galinheiro) -, ouvi pela primeira vez uma agitação diferente vinda do 'jogo'. Uma comoção que atendia pelo nome de Firula!

Vivas!, devo ter pensado, eles finalmente encontraram seu fute...

E lembro ter silenciado aquele pensamento com um palavrão totalmente verbalizado.

- Porra...

*

Olhando mais detidamente, reparei na falta de alguns cadies sem camisa, que deveriam servir como sparrings e time adversário para o treino de bola corrida e chutes à gol; também não estava ali o espalhafatoso e silencioso meia-cancha africano que chegara coincidentemente com um e-mailgrama da comarca de Pretória, o credenciando pra Seleção, mas, como sempre, sem motivos detalhados, num currículo anexo.

Pelo que pude notar, para meu completo desespero e indiferença total do Técnico indígena, mesmo desfalcado de quatro cadies, inclusive o goleiro(!), os sem camisa estavam levando vantagem por um placar dilatado. E tinham até torcida!!

Empreendi uma corrida desembestada que não espero repetir jamais! O binóculo militar, sambando na cara, vasculhava o paradeiro dos evadidos, enquanto tropeçava em alguns tacos enferrujados, largados no mato ainda não desbastado por obra dos jardineiros papa-kina que contratamos para aquela simples e abandonada tarefa. Arriscando-me a ser mordido por cobras, finalmente consegui algum sucesso na trêmula empreitada. Antes não tivesse me deslocado até lá...

Eu os encontrei próximo a uma grande mancha de água marrom, jutosa, estagnada, decadente, outrora um lago piscoso (segundo me dissera o guia turístico impresso em 1940), decaído naquele poço de varejeiras e refeitório de sapos-boi. O desaparecido grupinho de sem-camisas se reunia curiosamente em torno de duas pessoas compenetradas num gesticular furioso, principalmente, com mais ênfase, por parte de uma delas.

Quando me viu, o maior deles, o que parara de reger o vazio, veio correndo e arrastou-me até o centro da arena. Fora pego na armadilha.

*

Meu 'intérprete' oficial, Sinval, voltava à carga, balançando a cabeça, espalhando caspa pra todo lugar. Aquela parada dava pinta de ser daquelas!

- Senegal? Nigéria? Camarões, Zaire, Angola... - e, por nervosismo, resolveu satirizar, esgotado seu rol de países africanos, perante a nova aquisição 'retinta' do timeco: - Suíça?!

O baixinho meia-cancha - metido num tênis sujo, rasgado, tamanho 46, meiões cor-de-água-sanitária que pareciam uma meia-calça de tão grandes e finos, desaparecendo sob o bermudão dum defunto maior -, retribuiu um sorriso vazio de beques de frente pra todos nós. Sinval, desesperado ao cubo, coçou a malfeita cicatriz remanescente no lábio leporino tricotado por um Inamps ou Sus da vida, fazendo que o prurido nervoso atingisse a orelha de abano. Via-se que dava tudo de si, mas estava tão empacado quanto a mascote do time, Nostradamus, ao desembarcar do compartimento de carga do Hércules C-104 da FAB.

Parecendo obedecer àquele último 'sinal secreto' telegrafado da orelha coçada de Sinval, o pigmeu de tênis imensos passou a gesticular com entusiasmo.

- Chefe... - disse-me o tradutor, socando a ampla testa, deixando ali impressa a marca de seus dedos, detonando outras mímicas no novato, além do riso de hiena dos sem-camisa: - O CARA É SURDO E MUDO!

Que 'Seleção'!!! Agora <realmente> tínhamos tudo. A nata do nada e não se podia cogitar fazer nata (nem queijo), a não ser agradecer por não nos darem 'atletas' de muletas, entrevados ou desportistas em caixões...

*

Sinval, meu único recrutado não-contestado em única instância pelos Agriões, era um ex-flanelinha, extrovertido, escroque que conheci anos atrás num jogo combinado no saudoso Maraca, dando umas escapadinhas como cambista e vendedor ambulante de camisetas, rojões e cornetas; um jovem despachado, 'fluente' em alguns idiomas devido a uma facilidade inata para línguas, realçado por seu trabalho esporádico de 'guardador' poliglota nas ruas transversais ao Othon e Meridién, além de 'agenciador' no carnaval; ressalvo umas poucas coisas mais ilícitas, um pequeno comércio de CD-laser e acessórios de auto, exercia sua função com aparente dedicação; cabia como luva justa naquele escreti de merda (sei que falam de mim coisa pior), a começar pelo Técnico que me impingiram, um Txucarramãe dado à salamaleques, palrações incompreensíveis e quase tão-somente isso, às vezes mais alienígena que os próprios etês.

Depois vinha o Roupeiro & Massagista, um bageense que, por fora, todo truculência, por dentro, cruzes santa, nem te conto!, quicava nas tamancas. Esses, mais dois 'jogadores' (uma estilista desempregada, de ascendência italiana, Margot, e também Oswaldão, um estivador que, por razões óbvias, escalei como beque), perfazia assim a supremacia do Brasil naquela Seleção Internacional, ou devia nessa altura do campeonato dizer 'Seleção Terrestre'?

Aquilo soava tão engraçado quanto uma piada das antigas do Chico Anysio.

Se a piada não fosse tão próxima de nós quanto era...

Não posso - se bem que gostaria de poder - colocar-me de fora (o mais longe possível!) daquele sonho alcoolizado de Garrincha, em sua pior crise ébria, tão torata quanto sua canhotinha de ouro: Eu, o Empresário, o 'amigo da macacada', o gandula promovido, tinha no passaporte carimbado as expensas da Polícia Federal (obedecendo ordens - que diria que isso ainda existia por aqui - do próprio Presidente), o status olvidável de Embaixador Honorário da Humanidade. Chique, hein? Porra nenhuma. Era figura de proa, o judas inconfesso de todos noticiários.

É pra se acreditar ou acordar molhado e gritando daquele pesadelo? Fosse um pesadelo, por favor, jogue-me um balde de água fria!!!!, só peço uma coisa, tenham o cuidado de não lançar o balde junto. Meu azar é tanto que é sempre bom advertir.

Taí porquê reclamava tanto. A tal 'pátria de chuteiras', o planeta Terra em 2006, tinha o pior chulé do universo. Se os etês não fossem suscetíveis àquilo - ou à crise de riso durante o jogo dali há 10 ou 15 dias (o massacre, bem dizendo) -, restava a todos nós, futebolistas involuntários, morrermos de vergonha ou algo mais letal, bem ao gosto duvidoso dos alienígenas...

'SEGUNDO TEMPO'

Agriões era como os chamávamos. Ninguém sabia dizer com precisão quem primeiro cunhara aqueles seres de Agriões, ninguém ao menos que quisesse se expor e trazer o inferno do passado recente para dentro de sua vida. 'Tava na cara, pra tipos como eu que tiveram o desprazer de confrontá-los de muito perto, que eram um cruzamento ilícito de um legume salvo da xepa com restos de mariscos com forte cheiro de maresia. No mais, agrião, chicória, cebolinha ou qualquer leguminosa não mudava sua índole enigmática, movida por surtos de 'bondade' excessiva, contrapondo a verdadeiros acessos alomórficos de troca de personalidade, se é que havia tal coisa e chavões psicológicos assim pudessem ser mantidos.

Pelo que pude depreender do pouco que me disseram, poderiam ter chegado no fantástico reveillon carioca, na virada do milênio (o verdadeiro, não aquela palhaçada de 1999/2000), só pra situar o negócio no nosso distante Brasil. Contudo, a grande massa cosmopolita ali reunida carecia de algo que no entender deles era vital. Em Copacabana tudo correra muito homogeneizado, imaculado demais, pactuado no ritual da celebração: 3,2,1... Cabrummmm! Bum, Bum, Bum!.. e fogos e mais fogos, beijos e mais sapinhos, bolinações até o raiar do outro dia; corpos distendidos, esgotados e estornados na areia; cachorros lambendo o focinho de todos os bêbados da cidade. Não.

A preferência deles recaiu em outra comemoração. Mesmo que na atmosfera da Copa (de futebol e não aquela palavra indígena associada à famosa 'Princesinha do Mar' que muitos também conhecem na forma abreviada) de 2002 isso existisse, tudo era muito mais segregado, dividido pelos vários povos reunidos nos estádios de futebol da Coréia do Sul e Japão, onde se deu a primeira copa de dupla nacionalidade organizacional da história.

Claro estava que havia lá também o show de fogos de artifício e canhões luzes nos ares de Osaca e Seul; idem para o comparecimento das 'estrelas' que fizeram da Abertura do Mundial, com World Music, um sucesso, um culto, o sacerdócio aos ídolos e todo o misancene que estávamos acostumados. Pois ademais sabiam que estava ali o tempero, a pimenta no vatapá dos etês: ignorada a carapaça bonita, o verniz enganador por cima duma obra de arte infestada de cupins, lá no fundo existia a desunião, a desagregação, o grito de goooooooooooo!!!!, entranhado em cada torcedor egoísta, fazendo de seu time os Eleitos de Deus.

E não ficava só nisso. Tinha também contido o sentido de revanche, o poder desarmônico da repressão, na expectativa do caos irromper a qualquer bomba 'plantada' no meio da multidão, de fazer parte daquela catástrofe potencial, enquanto espectador, testemunha ocular do desastre. A glória para muitos, isto é, se sobrevivessem...

Nesse contexto, o sangue tão ansiosamente aguardado não transbordou da taça da morte, apenas transubstanciou-se em fumaça. Uma imensa coluna de fumo que, uma vez dissipada, desnudou uma cratera de 1km de diâmetro, expondo a feia ulceração de 300 metros de profundidade de solo fundido. O mais novo cemitério sem corpos ou lápides do planeta.

Revelarem-se pro mundo sob tal ótica foi pra eles duplamente vantajoso: tiveram por horas a mídia planetária ao seu dispor; uma população de milhões de ouvintes e assistentes interagindo com a manifestação de seu poder. Ter um estádio olímpico com 95 mil lugares tomados - personalidades do mundo esportivo, a seleção da Austrália e seu cabeça-de-chave, o Brasil, na fase eliminatória, formados no campo para a execução do hino de ambos países -, sendo todos desintegrados por um único disparo à queima-roupa, era ou não um dissuasor de elevada magnitude entre nós, nativos?

Como agora, ninguém deu a resposta milionária. Nenhuma voz se ergueu do bando de Organismos Internacionais e ajuntamento de letras imponentes; nem ONU ou OTAN vociferaram qualquer máscula (mesmo efeminada) oposição, se não por patriotismo, por pura auto-preservação. Dessa maneira a conquista da Terra deu-se sem atrito, onde nenhum Awac se lançara aos céus ou a tão difundida Guerra nas Estrelas arriscou qualquer de seus satélites estratégicos para um único disparo que fosse; foi 'sopa', como se esperassem por tal coisa, daí deduzindo-se que tais organizações já há muito estavam de sobreaviso, preparadas para a ocupação, esperando até mesmo lucrar bastante com tal ocorrência. Como se a vinda Deles fosse uma data menor no calendário de eventos da humanidade. Como um fevereiro bissexto totalmente dispensável, e não aquilo que realmente se tornou...

Com a tragédia de quase cem mil mortos no intercurso de um único disparo, o marco de uma era-Agrião tivera início.

Exceto algumas medidas punitivo-administrativas no campo militar, político e social, os etês só arbitraram sanções pesadas com relação ao desporto do futebol (Por quê? Ainda estou tentando engolir isso). E aplicaram um novo policiamento à Internet, cujos os mecanismos conheciam, pois o 'criador de janelas' fizera bem o seu papel de arauto informático, dando uma droga que, como o cigarro e a bebida, conquistara seu lugar sem muito estardalhaço, tornando-se um vício socialmente aceito.

Por algum motivo não elucidado naquele período, sua sanha levou à ojeriza do esporte milenar, extinguindo por completo a cúpula da quase centenária meca futebolística, desaquartelando qualquer resquício da Federation Internacionale Football Association (FIFA) e suas associadas, obstando até qualquer jogo amistoso, pelada de bairro. Tudo. Dando como proibido de morte a execução do menor ensejo que levasse o rótulo, mesmo aproximado, de futebol. Nisso, Confederações, Federações e Clubes desapareceram da noite pro dia. Tirar um pirulito dessa forma deixou a criança amuada. Foi nessa altura que alguns esperneios ocorreram...

O mundo no day after acabou não sendo bacteriologicamente imprestável, nem nocivo ao homem e favorável às baratas devido a qualquer bola de fogo radioativa, porém amanheceu com aquela célebre frase Os agriões não morrem jamais! grafitada em diversos idiomas nos muros de todas as cidades do planeta. A propósito daquilo veio a primeira grande retaliação pós-invasão, com centenas de grafiteiros a menos para darem seqüência ao movimento subterrâneo de resistência à intolerância do 0-Futebol ditado pelos aliens. Assim, livre de qualquer compaixão, o movimento subversivo, o único levante popular ensejado nos velhos dias, tinha terminado conforme começara.

Os Agriões Não Morrem Jamais!, nesse caso referência provável a cor dos gramados (a popular 'zona do agrião'), deram ao inimigo um manancial simbólico que estes souberam auto-rotular-se, legislando em causa própria. Porém, se os Agriões eram imortais de fato só mais tarde fiquei sabendo da resposta. Ou um vislumbre dela...

Por mais de três anos prosseguiram no que chamamos eufemisticamente 'Movimento de Apertar Parafusos', não isentando de rigor, pelo descumprimento de sua Lei, a quem quer que fosse. Um exemplo que se tornou clássico (e crasso) fora o caso dum bando de garotos senegaleses que jogavam pelada, muitos até inocentes, por puro desconhecimento do embargo global, caçados como criminosos de guerra, estendendo a pena a quem lhes desse guarita, alguns até executados sumariamente pelos 'varapaus' (que serão descritos dentro em pouco), ou presos e desterrados em campos de concentração pelo braço-direito Deles na Terra, a vendida ONU(P).

A convulsão que crescia no mundo não encontrava similar em tal gama de inflexibilidade, relatando-se casos de crianças de 3-5 anos que, numa pequena escola num país qualquer, foram dizimadas (sic) '...porque brincavam com uma bola de praia e balizes feitas de cubos de borracha a título de gol'. Enquanto outros que jogavam com game-boys de futebol, acabaram obtendo destino semelhante.

Onde o folclore e a realidade se interceptavam tudo era possível.

Definitivamente não estavam buscando respaldo histórico para aquilo; nós, humanos, é que tínhamos essa mania de procurar o salva-vidas no suporte errado. Descobrir, por exemplo, que os reis da Inglaterra e França proibiram a prática do futebol desde o século XIV até XVII - a nobreza se sentindo ameaçada em 300 anos de história pelo grande apelo popular do, segundo Eduardo III, "...esporte vão, sem nenhum valor" -, nada disso adiantara.

Tanto não adiantava lhufas que os estádios estavam abandonados, muitos transformados em pátio de estacionamento, alguns mais sortudos em palco de espetáculos e Shoppings. Mas, após anos de erradicação comprovada, uniforme, eis que surgiu uma brecha e uma seleção de futebol da Terra fora convocada em rede internacional de notícias pra um 'amistoso' com os etês, em local ainda a ser divulgado, sob condições especiais de escalação, observando uma série de pré-requisitos misteriosos. Isso sim era problemático! Melhor a ausência, a inexistência de algo para o qual, bem ou mal, já nos acostumáramos a não contar, do que a apressada mudança de opinião da parte de seus destrutivos autores...

A notícia, óbvio, caiu como uma bomba e foi tão devastadora quanto o artefato bélico no qual se baseou!

O mundo veio literalmente abaixo e me jogou onde estava naquele momento.

*

Foi com choque que voltei meus pensamentos para o presente...

O bichão estava como que envolto numa campânula restrita aos limites de seus pseudópodes, tremeluzindo como gás néon rosa. Que soubesse, da parte dos outros, nenhum deles tinha proteção equivalente contra meus gérmens terrestres, talvez porquê os microorganismos tivessem fritado no raio transportador ou, mais propriamente, por serem todos plenamente dispensáveis em suas fantasias de carnaval no Inferno.

Então o pesadelo resolveu falar:

- O dela, digo, futebol, e sua Lei de Lavoisier, assim como outras coisas, tiveram uma mesma Inspiração Divina: Nosso Utt, o ente conscientológico das eras passadas.

Sabia que, mais uma vez, nessa quinta intervenção desde que fora apresentado a eles no Itamaraty, o Agrião-chefe viria com sua lengalenga repleta de aforismos baratos, jactando uma filosofia de porta de botequim cósmico. Ladeado pelos dois 'varapaus' - aqueles seres meio-louvadeuses num exoesqueleto quitinado de velociraptor, dois pares de garras aéreas de 25 centímetros, um par poderoso arcado no chão -, não arrisquei outro comentário, fora o tradicional, aprendido a duras penas:

- Prossiga ó verdade das mais sublimes. Ilumine nosso caminho com teu esclarecimento!

De fato assim prosseguiu a palhaçada, minha enxaqueca embarcada junto naquela abdução que acontecera após dispersar os cadies e o camarão (afinal descobriu-se sua nacionalidade) que estava compenetrado em ensinar Sinval a linguagem dos sinais, no meu retorno solitário ao alojamento que, claro, não aconteceria tão cedo:

- Dizia eu, a Boca de nossos Antepassados, o Oráculo dos Anciões, que, já em sua pré-história, o peludo-das-cavernas foi agraciado com os rudimentos do dela, vendo-nos praticá-lo no seu campo de caça em Ur. Claro que, estúpidos, não aprenderam as sutilezas da arte do domínio do soma, mas quem busca alguma perfeição em bípedes cata-piolhos?

"Desde os astekas de Aztlán e seu tlatchli; os arabes e a koura; os chineses de 2.500AC (antes do crucificado); os gregos, ao kemari dos japoneses com bolas recheadas de crina de cavalo, tudo foi objeto de estudo por alguns desocupados de nosso clã.

"Sua raça desenvolveu um prazer muito menos belicoso que os nativos de Ettin-Krumandi e seus rituais de Bolas de Fogo. Porém, desde os jogos romanos, na corte desse tal Júlio César - onde quinhentos jogadores de cada lado disputavam uma enorme bola com socos e pontapés, degladiando-se até restar uns poucos sobreviventes - que vimos o destino de sua raça".

O silêncio de mais de dez minutos foi demais pra minha curiosidade estúpida:

- E que destino será esse, ó Grandioso...

- O mesmo que será aplicado a você se não fechar seu sopro, humano! - repreendeu-me o maior dos 'varapaus', pisando despreocupadamente em minhas costas e encerando o chão comigo a título de esteira.

- Sejamos bondosos, meus súditos, eles não sabem o que dizem - apartou o nobel espacial, cessando por completo meu tormento de enceradeira.

- Deixei-me levar pela ousadia do sacrílego macacóide, Grão-Altezamer - disse o hexápoda agressor: - Sê a Bondade nossa amiga e guia outra vez.

E a reverência do varapau, curvado em suas cinco juntas, mais minha rotulação como 'macacóide', sem esquecer a porra do chão que 'tava gelado pra cacete, não permitia muita margem de esperança para mim.

- O Destino, pequeno sopro, em breve será revelado no charco das desilusões, - vaticinou o Agrião-Boss, dando por interrompida a audiência.

Estranhamente minha última lembrança, antes de ser sacudido pela força do raio transportador, dediquei àquela expressão infame que o tradutor universal sintetizara como 'pequeno sopro'. Quanto a pequeno, não tinha dúvida, perante aqueles três metros de envergadura do Rei da Xepa; pequeno sopro, todavia, deixava sempre uma conotação em aberto: que eles (pelo menos fiando-me na Enciclopédia Zan-Zer que fora induzido a 'decorar') não tivessem faro, tudo bem. Coisas da 'Evolução'. Mas como explicar um pumm! silencioso dado em certa ocasião, adjetivado de 'sopro'?

Coisas da revolução intestinal ou simbolismo dos humanos que, perante as enormes bocas rasgadas da maioria dos etês daquela nave, éramos todos pequenos sopros?

'PRORROGAÇÃO'

(1º TEMPO)

Sem muita vontade olhei pra planilha que o computador plotara, algo bem bonitinho e limpo por sinal, detalhando tudo com perfeição, acabando no entanto por ser muita embalagem pra pouco pão, longe de nossa real condição anárquica, despanificante. Como também era utopia acreditar que qualquer sistema defensivo, por mais bem urdido que fosse, faria frente a um time que possuísse varapaus no ataque, um meio-campo de 'rinocerontes' clonado, 'gorilas' na zaga e um 'polvo' no gol...

Apesar dos insistentes convites pra relaxar estava sozinho à margem do aeroporto de Jacarta, evacuado por uma ordem expressa do Alto-Comando da ONU(P). Podia ouvir o vento assoviando, varrendo a poeira entre os aviões abandonados nos hangares e pistas, levantando jornais velhos com manchetes agourentas e trazendo o cheiro do churrasco de despedida que o pessoal fizera questão de armar junto à Torre de Comando. Despedida era uma palavra demais funesta, mas foi a única que me ocorreu. Ainda assim alguns conseguiam viver com isso... Cadeiras de lona espalhavam-se no asfalto e alguns jogadores e convidados (leia-se 'convidadas do prostíbulo local', muitas até drogadas para amenizar seus medos), além da comissão técnica, assavam como marmotas no ainda elevado calor da tarde, as vezes espirrando uns jatos de mangueira uns nos outros, aparentemente indiferentes ao futuro. Só aparentemente.

Sabia porquê faziam aquilo e não era nenhum sentido de festividade que os movia. Era a certeza da última ceia entre os vivos, um direito que lhes assistia muito mais que a quaisquer outros na face da Terra. Um quadro que dificilmente Michelângelo gostaria de retratar... Por outro lado, se fosse pintor, Dante adoraria.

Abaixei os olhos novamente pro croqui e, desta vez, procurei me concentrar melhor.

COMPOSIÇÃO FINAL DA SELEÇÃO TERRESTRE

(esquema tático 5x4x1)

[não foi possível exibir a figura que constava aqui] 

O esquema era arcaico e favorecia enormemente à retranca, porém, sem nenhum valor individual no time, somente a coesão dos jogadores, a coletividade, as jogadas ensaiadas e o contra-ataque, se houvesse chance, podiam levar à algum resultado menos vergonhoso. Menos mortal.

Obicquá, andando nu com um espetinho de asa de frango e 'puxando' um cigarrinho de folhas de Petrum fumarento nas imediações da barraca-iglu do recluso esquimó, era nessa hora mais um estorvo que propriamente um reles bibelô plantado em nosso meio. Contudo, sincero em sua indiscrição, conseguia ser até divertido, porém nos momentos mais impróprios. E não enxerguei nele nenhum pedantismo ou pendor pro lado etê. Quando o via, sempre aquela pergunta surgia: No que um curandeiro senil poderia ensinar em termos de técnica? Ainda bem que só era eu a perguntar, pois decerto muitas respostas cretinas viriam.

Quem já tivera um Gallo supersticioso como Técnico, com direito a estátua e tudo, não deveria achar estranho de um genuíno Xamã orquestrar aquela gang. Precedente aberto, só magia mesmo, com pemba e macumba da preta, com os ebós e os exús mais abissais do planeta, daria algum sentido àquela piada cósmica!

Como conciliar tantos disparates e handcaps de uma forma positiva acabou sendo minha recorrente dor-de-cabeça, daí meu isolamento.

Se fosse menos incompetente e mais otimista isso não ocorreria.

*

O toldo acima de mim chicoteou o ar. O céu tornava-se rapidamente plúmbeo com o aproximar da noite e de outra daquelas monções, mas não foi isso que despertou minha audição. Foi um chamado que vinha do kitnner do aeroporto, onde Margot e companhia exerciam outra fase daquela orgia gastronômica, aquela maratona de sólidos & molhados que prometia varar a noite, até quando os agriões dessem o ar de sua desgraça e dissessem NÃO!

- Cara, a bolonhesa tá esfriando! - gritou Sinval, favorecido pelo vento, com uma mão firmando um chapéu ridículo de chef de cuisine na cabeça, com a outra agitando um pano de prato, mesmo daqui visivelmente respingado de extrato de polpa de tomate, - Nostra tá impaciente. Se não vier agora, não garanto nem a sobremesa!!

"Maldito burrico. Um poço sem fundo correndo atrás do prejuízo", pensei.

Minha barriga roncou como pra provar, diferentemente dos outros, que 'tava forrada de vento. Realmente esquecera de agasalhar qualquer coisa mais substancial que uma porção de coco roído.

Destaquei a planilha, o papel quadriculado, a caneta bastão e soquei-os na topa-tudo. Se mais não fosse, estava feliz por ter conhecido Zico em pessoa, quando este passara de manhãzinha, encontrando-nos suados pelo treino, desejando Boa Sorte e partindo rápido no seu jatinho patrocinado pela Unicef. Quem mais senão ele pra arriscar ser abatido pelos Agriões só por manifestar solidariedade onde todos mais se acuavam?

E lá fui eu, não feliz, mas quase, vestindo a Camisa 10 que o 'galinho' usara em seu último jogo pelo Flamengo e onde usaria no meu também. Só que no meu caso a camisa serviria de mortalha...

*

Após a meia-noite, quando a madrugada badalou sua segunda hora, ainda estávamos todos ali. A pancada de chuva, por fim afastada pelo vento, chegara para refrescar o ar, ainda escoando suas seqüelas nas calhas, empoçada no asfalto esburacado, desimpedindo em seu rastro celeste um raro céu limpíssimo, coalhado de estrelas cintilantes e um luar fantástico!

Fomos saindo um-a-um de onde cada qual se entocara, com ou sem companhia, migrando como roedores hipnotizados e ávidos daquela mágica Lua Nova, tão grande que parecia irreal.

E era.

Eles chegaram.

*

Sentindo o corpo formigar, os cabelos eletrostaticamente de pé, mal tive tempo de olhar com mais atenção para os outros, porém superficialmente vendo-os de mãos dadas, numa correntinha brasileira...

Corrente humana como viram, e juraram não fazer igual, em alguns filmes da Copa de 1998, na França. Inconscientemente estavam assim irmanados no caos.

Sabia que minha sensação não era única, apertando forte a enganadoramente frágil e esquelética mão de Obicquá, que, naquele sorriso banguela, sua marca característica, falou muito mais que mil milhões de palavras verbalizadas.

Desfaleci.

'PRORROGAÇÃO'

(2º TEMPO)

Polímeros e ligas totalmente antiestáticas, usinadas em astros além de nossa imaginação, tomaram de assombro nossa equipe de leigos em tudo, incluindo, mesmo, nossa desgraça, o futebol. Devia fazer alguns minutos que despertei como um kibon humano naquele aposento semicircular, vendo os outros tremerem, incluindo Omüunk, tão nus quanto eu próprio, soprando aqueles bafos de respiração fantasmagórica, enregelada.

Estávamos agrupados como um bando de trogloditas ao redor do fogo recém-descoberto nos glaciares de outrora, e ainda assim faltava calor, porque fogo na teoria não esquentava na prática. Sabia que a analogia não era lá muito boa, mas quem precisava de analogia petrificado numa geleira como aquela? Se a idéia dos Agriões era provocar pneumonia tripla, para uma posterior vivissecção e estudo, o caminho do freezer já 'tava todo escancarado. Restava saber somente uma coisa: Por quê tanto trabalho...

- Che-chefe, você é que cos-tuma lidar com esses ca-caras-de-na-nabo. É sempre assim nessa fuz-arca? - titilou a líbera.

Em outra época - e totalmente diversa circunstância -, aqueles bicos ruivos salientes, os peitos alvos caindo levemente como duas pequenas e apetitosas jacas, seriam altamente convidativos a uma exploração tátil-bucal, mas ali, todos sendo gretados pelo frio, furunfagem era o mais longínquo de nossos pensamentos e necessidades.

- N-não li-do com eles. É b-bem ao contrário, Mar-Margot: eles que to-tomam a liberdade de me apalparem e se-seqüestrarem toda vez que que-querem 'con-conversar' e capturar um ou outro esperma so-sobrevi-sobrevivente. Esse lugar é tão novo pra vocês qua-quanto pra mim.

- Fo-fodeu!

Das poucas palavras em português que Sinval tinha ensinado ao Esquimó, aquela era, dentre todas, a de pronúncia mais exata, sem vestígio de qualquer sotaque, fora seu tom gutural de praxe.

Mas cabia aí uma pequena mas significativa observação: Como todo brasileiro sacaneado por gringos que 'ensinavam' significados diferente pra palavras originalmente concebidas em outros usos, Sinval passara à Omüunk um outro sentido pra 'fodeu'. Para o médio-volante aquela expressão máxima da merda, quando aludida fora do metiê sexual (ou até dentro dele), passou a simbolizar o oposto. O dinamarquês estropiado acenado pelo intérprete e a medíocre compreensão desse idioma pelo esquimó providenciaram o aporte necessário praquelas heresias. Então...

- Fo-fo-fodeeeeooo!!!...

Veio aquela palavra mágica de novo, desta feita acompanhada de um apontar insistente da mão, mais insistente ainda devido ao frio que fazia-a tremer, apontando para um lugar próximo a uma escultura bizarra, como se concebida de engradados de cervejas sobrepostos de forma desordenada e equilíbrio impossível.

Uma porta? E aberta?!... Só podia ser sacanagem ou a mandinga do Técnico enfim encontrara endereço certo no ebó!

E lá fomos nós, uma espécie de Três Patetas em Órbita multiplicados por 6 -1, contudo bem mais patetas que o trio original, tropeçando porta afora, espatifados do outro lado como pinos após o strike.

- Hot air... - entusiasmou-se Basco, o goleiro, esfregando o corpo franzino com prazer, esquecido de procurar pela centésima-primeira vez a boina basca em sua cabeça. Finalmente encontrara o que fazer com suas grandes mãos, fora coquetéis molotov e o cacoete da boina.

*

A temperatura ambiente agradável em relação àquilo de antes (em torno dos 15ºC), distraiu-nos por alguns momentos, providenciando-me tempo suficiente pra um aquecimento, flexionando todos os músculos enregelados, mesmo ali onde estávamos.

- Mein Gott!! Was machen Pelé und Beckenbauer in diesen bewegten Bildern... - saiu metralhando Stu, o atacante, sendo imediatamente assessorado por Sinval.

- Minha nossa! - traduziu: - Que Pelé e Beckenbaüer estão fazendo naqueles quadros que se mexem?! Haverá...

E deixamos o intérprete falando sozinho, exercitando seu sueco com o eco revelador das paredes, digo, com o que servia de revestimento àquele aposento tão grande quanto um Maracanã inteiro mais o Maracanãzinho de troco.

Fatalmente acabamos tombando novamente. Os 17 patetas mais uma vez caídos no chão liso como uma prancha parafinada, atrapalhados uns com os outros.

- Ninguém levanta daqui, ouviram? Nem tentem... - sussurrei, cansado de ser fonte de divertimento pra quem quer que seja.

Não é que o filho-da-puta do Sinval me traduziu em 6 idiomas e, se não fosse contido, tentaria alguns dialetos? Contudo meu beliscão pareceu reduzir sua ânsia verborrágica, retribuindo o murmúrio em francês, inglês e alemão somente:

- Parece que encontramos a Concentração deles. Se sabem ou não de nossa presença, não serei eu a perguntar.

E passamos a observar cada movimento, cada nuance que, decorridos alguns instantes, nenhum de nós, nem mesmo Daktari, nosso médico otimista do 'Escreti do Riso', duvidou um momento sequer da grande bosta que era nosso destino.

- Ótimo! Ótimo! Ótimo! - disse o esquimó, se recusando a continuar olhando, no que era mais feliz que todo o resto.

Escusava explicar o significado da palavra 'ótimo' pra ele, pois abaixo de nós se estendia um mundo repleto de objetos misteriosos que se perdiam na distância. E não só isso...

"Desconheço quem foi que acionou a merda da alavanca", mas a plataforma onde estávamos começou a se recolher ao corpo da parede, restringindo nosso espaço físico no piso derrapante.

- ÓTIMO! - gritava Omüunk, agora em desespero de causa.

- Porraporraporra - rebatia em resposta Sinval, estourando meus tímpanos, - Esqueça esse 'ótimo', esquimó burro!! Isso aqui é Porra, Caralho!.

*

Não havia mais nenhum vestígio de porta atrás de nós para onde rastejar, só uma parede tão lisa quanto o próprio chão movediço, quando Obicquá, que todos pensávamos desconhecer uma só sílaba de qualquer língua ali presente, perante o inusitado da coisa, invocou naquele momento um primo ameríndio distante, mas muito conhecido dos pára-quedistas. Ao subir na grade que servia de mureta, gritou:

- Jerônimooooooooooo...... !!! - Saltando no vazio sem hesitar.

Se a oportunidade fosse outra, juro, poderia ter chorado mas, vendo aquele corpo esquálido boiando calmamente no abismo, planando como uma gaivota desconjuntada, obrigou-me a despertar a veia cômica dos outros perante aquele fato insólito, procurando no fundo de minha mente (e principalmente nos gibis de Flash Gordon) o termo certo pra explicar aquele fenômeno:

- Gravitação neutra. - Cairíamos de qualquer jeito mesmo, porquê não fazê-lo com estilo? - O último a saltar é mulher do Etêeeeeeeee...........

E a chuva de corpos só cessou no último homem, na verdade na única mulher do grupo, berrando ao cair antes de ser contida pelo campo de neutralização gravitacional ou coisa que valha, onde todos nós circulávamos num movimento vortético rumo à planície lá embaixo.

Como jóia da espécie ela não pode deixar de fazer o comentário mais temeroso do grupo:

- O etê é bichaaaa.....

*

Chegamos sãos e salvos no chão e a primeira coisa que encontramos, finda a queda suave e demorada, foram nossas roupas exaurindo um cheiro que presumimos ser desinfetante; haviam também várias sacolas de viagem e equipamentos equilibrados no dorso tosado de Nostradamus, que trotou feliz em nossa direção; além do índio e o sorriso de gengivas mais descarado do mundo. Ele, habituado a andar nu naturalmente e com um saquinho como bagagem, adiantou-se mais uma vez ao grupo, começando a explorar por conta própria os objetos que do alto pareceram-nos assustadoramente enigmáticos e ali, ao nosso alcance, não perderam em nada daquela característica aliando-se a outra bem piores.

Era uma coleção de 'bolas' imobilizadas no ar, protegidas por um campo de força doloroso para quem tencionasse mexer com elas (e houvera casos onde isso foi testato); bolas de feltro, bexigas de boi, tecido, borracha, crânios, cocos e outros utensílios que, presumimos, se eqüivaliam mas, de tão grandes, nunca poderiam ter sido usados por seres humanos. Nossa jornada no inexplicável, parecendo uma turma de colegiais no 'museu' imenso da nave, revelava um acervo de coisas ora conhecidas, como o holograma imenso de Pelé e Beckenbaüer se confrontando, camisas de vários Clubes, taças diversas (inclusive a presumivelmente derretida Jules Rimet), ingressos de estádios, 'fotos cúbicas', bandeiras e apetrechos diversos; outros, no entanto, tal como uma massa informe, borbulhante e gelatinosa, não ganhou nenhuma atenção, salvo Obicquá, o explorador solitário que nem o Zorro deveria apreciar.

Ia perguntar justo a ele como soubera da 'gravitação' quando um grito efeminado partiu de nossa retaguarda.

Era o bageense todo encolhido, deixando seu lado feminino afluir:

- Ali, ali!!! - apontava para nossa direita, uma parede repleta de névoa, com alguma coisa, tal qual uma estátua, olhando para além de nós.

- É algo, mas certamente estátua não é... - falei, sentindo naquele exato momento uma pata arriar em meu ombro.

*

Erguido do chão por meus amigos, fitamos o varapau de olhos esbranquiçados e longas antenas surgido do nada.

- Que fazem aqui, seres da Terra?

Meus 'amigos' deram um passo para trás e restou a mim, o ombro dolorido, quase fraturado, 'enfrentar' o desgraçado que 'tava blindado com um traje de campanha - conforme a Enciclopédia Zan-Zer definia - inexpugnável.

- Explique-me aquilo, bicho-grilo - nada tinha a perder, fora a vida.

Apontei a assombração embutida, totalmente descortinada e revelando-se um homem-das-cavernas em seu habitat, paralisado num gesto agressivo ou de defesa, não sabíamos ao certo.

A resposta foi sucinta e nada esclarecedora:

- Por quê?

- Porque nossa espécie agradeceria e não criaria tantos transtornos para o nobre Guardião. - Joguei a migalha, esperando que ele papasse a ração.

Pelo visto entalou. Parecendo considerar a oferta, naquele gesto meio abobado de apalpar o vazio, ao que indicava sentindo as vibrações ou o credenciava como péssimo double de mímico.

- Meu mestre autorizou a revelar o significado deste natura.

- Natura? - arrisquei nova interpelação, ouvindo o inevitável burburinho de Sinval, traduzindo natura como in natura, naquela conversa feita em português, somente estando eu sob a influência dirigida do tradutor do varapau.

- Neanderthal, se preferir. Como este, temos outros espécimes em galerias anexas, rotulados em relação há época e estágio evolutivo.

- O pouco que sei de antropologia de pasquim, diria ser uma réplica perfeita...

- Culpe então seus semelhantes por parecerem réplicas, pois este é original. TUDO aqui, exceto as imagens, é original. Esse homóide e tão verdadeiro quanto meu ódio por sua espécie...

Calou-se (ou foi calado). Recebendo instruções do Agrião no comando?

- Sejamos amigos - falou, confirmando minhas suspeitas, contrariando o desejo palpável de nos aniquilar: - A técnica, em teoria, já é de conhecimento de vocês, embora não tenha sido dominada inteiramente: Criogenia. Só temos aqui nômades, gente segregada que, uma vez capturados sem o seu conhecimento, foram trazidos pelos tempos e ecoprogramados num habitat equivalente.

"De 10 em 10 dos seus anos - quando o metabolismo retardado de sua gente começa seu estágio reversivo, danificando células -, liberando sua consciência, os devolvemos por dado período naquilo que se pode chamar de reconvalescimento, preservando assim o espécime que envelhece numa razão de um mês a cada milênio..."

A voz do varapau foi ficando mais profunda, menos mecanizada, tão agradável, levando seu autor a parecer até bonito, que somente ao ouvir seu próximo comentário foi que percebi o quanto estávamos sendo lenta e irremediavelmente drogados:

- ...eles saem e entram nesse estágio de Êxtase da mesma forma que vocês logo o farão, juntamente com o quadrúpede, em, espero, a última excursão de suas vidas...

 

 

 

'MORTE SÚBITA'

Chegou o grande dia. Se por um lado o nervosismo matava-nos, por outro os etês logo fariam igual, executando o que tivesse sobrado.

A manhã alvoreceu mais uma vez num vermelho rubro-coral, incendiando o horizonte e, promessa e dívida pagas, tornou o dia tão 'ensolarado' e o ar parado que até mesmo respirar era difícil. Sabia que tudo aquilo era psicológico, pois toda atmosfera ali era controlada. Uma jaula ou um túmulo vip?

Marte, nosso destino após o inconsciente desembarque da nave, aquele planeta do outro lado, abaixo e por toda volta da redoma até onde os olhos alcançassem, favorecia esse tipo de elucubração e forçava vôos tão psicodélicos em todos nós que, não fosse o policiamento constante da tropa de choque dos Agriões, há muito não teriam com quem espezinhar.

De fato era uma grande planície avermelhada juncada de escombros de rocha de todos os tamanhos e torvelinhos de poeira rodopiando em alguns lugares; naquele deserto tudo era mais monótono que um filme mudo rodado na caatinga nordestina na época da pior seca. Não sei se devido àquela falta de cenário ou monotonia monocromática ou outro qualquer expediente desviacionista, acabei olhando a imensa torre translúcida que erguia-se do centro da redoma, varando o espaço até o topo, algo em torno de 200 metros acima. Meus olhos já não eram como antigamente, mas pude vislumbrar um minúsculo ponto colorido num dos níveis médios da torre; um retalho azul, vinho e amarelo que agitava-se bem levemente sob um tempo de observação mais demorado.

Seria outro suicida? Tivéramos três tentativas daquilo nessas várias semanas de nossa estadia.

"Definitivamente não mesmo".

Se fosse, os varapaus já estariam agindo com o rigor costumeiro, materializados aos pelotões para dentro da redoma, metidos naqueles trajes blindados negros que os faziam pior que de hábito, saltando por toda parte como molas dotadas de garras e raios alfinetadores. Se a lembrança disso já dói, imagine o resto...

E lá fui eu que nunca fora muito entusiasta de alturas, deixando o agrupamento cinzento de alojamentos para uma expedição solitária torre acima, favorecido pela reduzida gravidade, tentando ver aquilo como um exercício matinal. E confesso, esbaforido, que não consegui.

- Oi - arquejei para o casaco espalhafatoso que revelou-se como sendo a 'italianinha' estilista do Brás.

Uma prolongada trepidação interrompeu aquele começo malogrado de diálogo. Contudo outro tipo de movimento formou-se naqueles belos lábios que deixavam de lado um sanduíche de plástico com ovo plástico (cortesia dos nossos raptores), traindo um assovio de admiração. Ou medo...

- Esse foi dos grandes! - ficou mesmo na admiração, apontando para o que deveria ser o campo de pouco dos etês, repleto de edificações cônicas, cilíndricas e pentagonais, alguns quilômetros adiante na direção das colinas, ocultando seus outros mistérios. - Acredita que aportaram dezoito naves desde às duas da manhã?!...

Estava calma, talvez calma em demasia para alguém cujo o destino já fora selado e extraviado pelo correio dentro de um vendaval. Vendo seu comportamento aparentemente relaxado fez-me sentir pior que antes, porém fui atiçado a fazer o mesmo, senão por inveja, etcha sentimento terrível!, ao menos pra manter as aparências e disfarçar só um pouquinho do MEU medo.

- É muito melhor que contar carneirinhos...

- E não provoca alergias, né! - acrescentou ela.

Rimos, pois Margot, na Indonésia, vivia empolada só em ver as cabras pastarem calmamente pelas vias públicas, como cães vadeando no lixão da cidade, e principalmente as flops, ovelhas de cara preta e lã azul, vermelha, algumas até multicores, como novelos quadrúpedes, fruto da engenharia genética (permissivas pela legislação de lá), aumentando a entranheza da 'paisagem'.

Via agora seu nervosismo despido de todo artifício. A ilusão duma falsa fortaleza, mantida à força por uma vontade não tão invulnerável quanto gostaria. Ela se tornara o exemplo pra todos nós e não ocultei-lhe aquele pensamento, despontando uma lágrima perdida em seu rosto pálido de menina-mulher.

- Acredita em Deus, Chefe? - lançou a porção menina nela, dando as costas a grande e expansiva nuvem de poeira avermelhada que antecedia a aterragem de mais um artefato alienígena, deixando de marcar um X com batom na chapa da torre.

- Pra quem mais rezaria pra pedir uma feijoada completa e uma caipirinha nesse lugar esquecido dos homens e da tradicional comida caseira mineira, uai? - vendo em seu rosto aquela ausência de sorriso, uma trêmula linha esbranquiçada que lutava contra o choro, obrigou-me a acrescentar, deixando de lado meu sotaque de Varginha: - Deus é muito maior que esses astronautas de merda, querida. Se não fez nada até agora é talvez porque queira reservar um ou outro milagrezinho pra usar no jogo mais tarde.

Desta vez, diferente do que esperava, consegui um pequeno lampejo de brilho em seus lábios, em detrimento de minha própria agonia silenciosa, que aumentou ainda mais quando desviei os olhos do porto espacial e (coisa que até então evitara) olhei para a imensa cúpula do 'estádio' refulgindo sob os fracos raios do sol de Marte.

Dez horas nos separavam dali. Um intervalo muito curto entre a vida e a morte, mas o único que dispúnhamos.

'PENÁLTIS'

A reunião já acontecia quando me juntei aos outros na colmeia central que nos foi destinada como alojamentos. Já quase me adaptara a ouvir nossas vozes sendo uniformizadas - quando falávamos em ritmo normal e em isolado -, suplantando a babel original de idiomas desconexos pela atuação do Tradutor Pleno, 'aposentando' temporariamente o triste Sinval, perante o novo presente dos Agriões, em operação desde nossa instalação ali, se vão mais de vinte dias.

<Presente de Grego> pois, se por um lado, quanto mais falássemos, abasteceríamos a aparentemente ilimitada capacidade de memória e combinações da máquina, dando variações de timbre e conotações que uma mesma palavra assumia nas diferentes línguas - universalizando o diálogo como se fosse uma dublagem malfeita no sentido da sincronização -, por outro prisma, alardeávamos também o inimigo do que ia em 15 almas (o camaronês não precisava do expediente da voz para conseguir ser 'ouvido' e Obicquá parecia carta fora do baralho, permanecendo alijado na maior parte do tempo), passando a eles nossas conversas, expondo os medos e, muitos de nós, a revolta.

- ... quanto pesa uma bola oficial? Uma, duas libras...? - sondava o norte-irlandês, acalorado.

Sentei no chão de concreplástico, numa posição relativamente privilegiada junto ao semicírculo de beliches pneumáticos, procurando observar até o ponto quando e se devesse intervir.

- Pois então, que sejam duas!! - voltou Levinsk, sopesando uma pelota que alguém lhe lançara, rodopiando-a no dedo como se demonstrasse a 'dinâmica da bola': - Tive algumas aulas de Álgebra Linear e Física antes de me ferrar como militante do IRA. O negócio é o seguinte: sob a gravidade de Marte (a), que verificamos ser pouco mais da metade da terrestre, um corpo com esse tipo de massa (b), pode, fácil, se devidamente acelerado por um chute mediano (c), atingir 200 quilômetros por hora.

"Eu é que não vou segurar uma equação dessa!!!!"

Mortalmente pálido, devendo estar projetando em sua mente a imagem dele como goleiro frente ao míssil de couro, afastou a bola que saiu rolando sem destino pelo soalho liso.

Obicquá, vindo lá do fundão, onde estivera entretido com alguns 'amuletos' desde antes de minha chegada, resolveu abrir o bico:

- Uma vez um curumim da tribo Xavante foi tentar pescar no lago com uma pena de garça, quando o Grande Espírito das Águas, jorrando de uma fonte, interrogou:

<- Por quê não joga tua lança e acerta o pintado como todo mundo, curumim?>

<- Senhor das Chuvas e das Fontes, como um pequeno nada como eu posso almejar ser um chefe índio se faço as mesmas coisas que meus irmãos?>

Ninguém esperava aquilo de onde vinha. O jovem nepalense, Pong, talvez sentindo-se visado pela aparente lenda, foi o primeiro a se manifestar:

- E que moral há nisso, curandeiro?

- Repetir não é a solução... - arriscou Sinval.

- Somos falhos mas a paciência suplanta tudo? - 'chutou' o melancólico mexicano.

O Xamã olhou de um para o outro, balançou a cabeça, a cabeleira descorada entretecida por miçangas, os olhos negros no rosto seco como um maracujá de gaveta, brilhando encravados no fundo de suas órbitas, aprisionando o conhecimento que nós, 'civilizados', não tínhamos.

- Se mesmo um ser superior dá-se ao trabalho de perguntar a um imbecil porque faz um asneira assim, então resta sempre uma esperança do Idiota (todos nós) ganhar o Paraíso (o jogo)... - vaticinou.

O olhar que endereçou-me era muito mais que eloqüente e isso o tradutor simultâneo nunca aprenderia a igualar. Seria eu o tal idiota? Na dúvida, tentei traduzi-lo:

- Diacho! Acho que Oddo quer dizer algo que nunca pensamos, a hipótese mais óbvia que existe, no entanto nunca falada...

Todos viraram-se pra mim, esse todos incluindo o jumento Nostradamus, que ali estava pra nos fazer companhia e trazer um pouco de imundice da velha Terra pra junto de nosso isolamento em Marte.

- Pensem, senhores! Tudo que se falou até agora é bola isso, peso aquilo, chute aquilo outro. Padrões de jogo humano. Premissas válidas num esporte sob condições que evoluíram a partir de rudimentos até chegar aos fundamentos aceitos por boa parte da civilização atual.

"Ninguém nunca cogitou, nem eu mesmo - não antes de Obicquá falar -, na hipótese do futebol deles, o dela (ainda mais sendo Inspiração Divina como afirmam), apresentar-se duma forma inconcebível perante o nosso modo terrestre de jogar bola.

"Vimos a bordo de nosso transporte, semanas atrás, vários materiais coletados na Terra; assistimos filmes de Seleções do passado; enfim, varamos noites em claro treinando padrões humanos, pressupostos humanos, com times e regra humanas. Por quê será que não escalaram jogadores profissionais ou até amadores, já que pouparia bastante trabalho? Não será porquê pouco importa o futebol como o conhecemos? Acham, amigos, que isso aí que enfrentaremos logo mais é algo minimimamente humano?"

De minha boca, infelizmente, veio o petardo final. Logo eu, que jurara preservar o mínimo de orgulho e entusiasmo naquele grupo de exportados made in Terra.

'DECISÃO FINAL'

Ainda existia alguma luz natural, mas o dia naquele verão equatorial em breve traria o 'luar' da Terra para o céu de Marte; a temperatura exterior, em menos 18ºC, servindo de arauto, já baixava vertiginosamente. Além dessas informações, o servo-mecanismo que dirigia aquele 'minhocão' tentava socar em nossas mentes uma avalanche de outras plenamente dispensáveis.

O silêncio no vagão flutuante era funesto, e não podia ser doutra forma.

Uns entretinham-se em fingir dormir, outros, como eu, víamos o veículo entrar nas sombras eternas das monumentais cordilheiras, esperando que o 'minhocão' nunca mais saísse de lá, rumo ao campo de pouso e, mais adjacentemente, o Estádio Marciano.

Obicquá, como sempre contraditório, passara a cantarolar em seu canto na traseira do veículo, quando um som ensurdecedor, precedido de uma onda de choque, fez o vagão tombar sobre seu eixo de flutuação. Não fosse a ação automática do servo-mecanismo intervir em sentido contrário, estabilizando a derivação abrupta, teria sido lançado contra os contrafortes, ai, babau...

- Ô da geringonça! - o gigante costumeiramente calado, originário de Óbidos, ostentando um Sr. galo na testa, tentou novamente: - Que merda é essa!! Aprendeu a dirigir nos coletivos do Rio de Janeiro, por acaso, animal?

A resposta foi imediata, ainda que desprezando completamente o comentário colorido.

AVISO AOS PASSAGEIROS. ZONA DE TURBULÊNCIA NO ESPAÇOPORTO. DECOLAGENS SEM REGISTRO NO BANCO DE DADOS. EFETUANDO POUSO DE EMERGÊNCIA PARA EVITAR DANO ESTRUTURAL E NA CARGA. FIM DA TRANSMISSÃO.

Foi num pequeno anfiteatro natural feito de rochas azuladas que tivemos a privilegiada observação do campo de pouso e vimos praticamente todas as naves que Margot dera-se ao trabalho de contar partirem numa espécie de fuga desordenada, como o estouro duma manada espacial...

*

Passado o terrível instante, quando o veículo em que estávamos parara de reverberar e o porto se esvaziara quase por completo, exceto por duas naus menores, ouvimos o Xamã soltar uma risadinha que nos pareceu demente, depois, plenamente justificada, isto é, caso os dementes não fôssemos nós.

- O ente criador nos fez todos imperfeitos por um motivo. O respeito tinha de ser comum a todas as espécies, não importa onde fossem geradas. Não se pega uma sucuri pelo rabo sem o risco de se poder levar uma mordida na bunda, ou se flecha um jacaré na sua couraça, pra isso sua barriga é macia e fraca...

- Onde quer chegar com essa chacrinha, velho? - indaguei, com medo até de respirar, pois via naquilo algo que presenciei num terreiro de Umbanda, antes de decidir procurar respostas em outros lugares. Algo não muito 'científico'.

- No princípio, na origem de tudo.

Agora tive receio até de perguntar... O que Deus teria a ver com aquele fumo de rolo dos grossos?

Como pra me socorrer, Obicquá expôs as gengivas que não mais estavam despidas de dentes, a mandíbula se projetando como um focinho curto, o restante do corpo passando por uma acelerada transfiguração.

- Se Deus existe, não sei. Andei muito, vivi bastante, porém, nunca encontrei-o vagando por aí como entidade não-autóctone.

O 'Xamã' perdera seu estereótipo e crescera aos nossos olhos como um arranha-céu perante um ridículo casebre.

- Exteriormente um barraco pode ser ínfimo, mas a 'alma' dentro dele pode torná-lo tão grande quanto qualquer espigão - explicou, como se lesse meus pensamentos: - Como lendo e não SE, Zé!

Ao ouvir aquilo, acho que me borrei todo. Em todo caso, se notou, preferiu continuar com seu discurso:

- Como dizia, Deus foi uma boa invenção que plantamos nos primórdios da raça humana, e em muitos outros povos também, com o fito de torná-los mais reverentes com o dom que lhes fora outorgado. O dom da vida. Se cheguei ao estágio atual, devo a outros que se padeceram dos da minha espécie. Nem sempre fomos esclarecidos.

"Contudo, não tivemos êxito com uma grande fração de povos desta e outras galáxias. Eles só conhecem - e respeitam - aquilo que lhes verga o espírito, tornando-os escravos ou mortos. Agriões é um ótimo nome para aqueles para-vegetais e todos seus 'amigos'.

"Providenciamos alguns problemas sérios em seus planetas e soberanias de origem, desestabilizando diversas castas e, assim, como num filme simplificado sem o costumeiro clímax e anticlímax, que prende a platéia até o fim, tirei-os de seu caminho, providenciando alguns séculos para a Terra se preparar para uma nova investida que, digo-lhes já, ocorrerá em menos de 300 de seus anos; o tempo que 'nossos transtornos cumulativos' levarão para serem superados; até lá, vão até o estádio, vejam por si mesmos que o dela deles pouco mais é que um ritual de acasalamento onde uma 'bola-organela' de hormônios é depositada no campo-charco e todos os adversários se retalham para poder engoli-la. Ou morrem tentando. Faço questão que vão e vejam com seus olhos o que sobrou em termo de despojos da 'partida' preliminar que os Agriões patrocinaram entre algumas subespécies para introdutório do 'prato principal', digo, sua Seleção.

"Antes, outro esclarecimento: Sua raça até que é simpática aos nossos olhos, porém simpatia não é quesito que SOMA na Grande Comunidade. Não fazemos isso porquê 'somos simpáticos', mas pelos Agriões serem recorrentes, mais de uma vez chamados perante nós, Vigilantes, por SUBTRAÍREM com algo além do que advertimos que o fizessem. Como disse, deflagramos já, enquanto falo, a revolta em mais de vinte dos planetas daquela soberania; alguns outros, os mais cotados de arrivismo, tratamos de erradicar sumariamente."

O silêncio se manteve por um bom tempo, mas paulatinamente a língua de alguns começara a coçar.

- Isso acarretaria a morte de milhares... - murmurou Sinval, abestalhado como todo o resto de nós.

- Milhões. Centenas de Milhões. Por isso somos lentos em julgar, porém imediatos em aplicar o veredicto final. Poderia continuar infiltrado entre vocês e gozar de cada minuto com esse grupo, indo à frente, chegando no estádio dos Agriões e, por meio de qualquer 'garrafada mágica', sem me expor, forçar nosso grupo a beber um aditivo que deixaria seus poderes latentes afluírem, fazendo daquela partida um fato memorável. Mas humor, para os Vigilantes, não...

- ... SOMA, não é mesmo? - antecipei, não conseguindo me conter.

- Exato, Zé! Entendi o sarcasmo. A Grande Comunidade dos Vigilantes não nutri qualquer humor, o que é uma pena, pois o universo carece bastante de humoristas e abunda em ranzinzas exterminadores, o que não deixa de credenciá-los também nesse aspecto, que espero consigam resolver antes de nosso próximo encontro.

"Todavia, voltando à 'vaca fria', como diriam vocês, gostaria que não se preocupassem com seu retorno à Terra. Esse servo-mecanismo será seu cicerone, reprogramado para atendê-los e deixá-los cada qual em seu destino. Os Vigilantes fizeram sua parte."

- E quem vigia os policiais? - saí com essa, vendo-o mexer-se de forma suspeita no assento.

- Boa pergunta. Acreditaria em deus como resposta?

Aquele ser abjeto gargalhou antes de desaparecer, irradiando um agradável hálito térmico, fazendo aquele som, mesmo após sua partida, repercutir no local de sua anterior estada, deixando isso e a cadeira vazia, gravada com algumas palavras a título de despedida:

ESTE NÃO É APENAS O FIM

MAS O COMEÇO DE UMA

NOVA HISTÓRIA

Aproveitem, senão...  

 

 

Rogério Amaral de Vasconcellos

Rogamvas produções Ltda.

 

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