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Nota: Existe uma versão
com a introdução na íntegra, que é a versão submetida pelo
protagonista dessa aventura à esse vosso relator. Porém, como é
material sem revisão, compatível com o personagem, foi retirado da
estória.
INTRODUÇÃO
Minha missão, todos sabiam (e eu mais que todos), era impossível
de ser concretizada. Da mesma forma, o que não sabem, também é
aquilo que nem eu sei, mesmo agora, passado
todo sufoco: Porquê o 'general' de nossa comarca escolheu
justo a mim, entre tantos outros mais tarimbados, profissionais do
ramo, logo um gandula(!), pra unir os elos daquela corrente há
muito partida?
Tá certo que fui, antes do embargo, o mais velho gandula partime
em atividade no Brasil - o que 'tava longe de ser mérito pra
qualquer um; mas atribuir o fato de minha 'notoriedade' súbita àquela
matéria sepultada nas páginas centrais no extinto Jornal
dos Sports, sob o título 'O catedrático das bolas
isoladas', era pura balela sensacionalista. Senão vejamos, uma
coisa é sair na porrada com um torcedor mais afoito, que pulava a
mureta, invadia o valão, lascando uma, levando outra, em busca da
pelota maldita, porém ser
escalado como Empresário e Treinador de um timeco com pretensões
à Seleção do Resto do Mundo?!! Se não bastasse isso,
recrutando gente, em sua maioria um bando de leigos que nunca vira
bola na vida e desconheciam o que é um Estádio de Futebol repleto
de gargantas que xingam...
Que merda, são Menelau. Que furada me meteram!
Mas a realidade é assim, como direi, bocas de recém-nascidos ávidas de leite. Fazer o quê?
Desistir? Dar fim a minha miserável vida? Virar as costas à única
chance que tenho de entrar pra história? Não mesmo!
Passando fome, num miserê só, não pensei mais que dez vezes, o
que dá uma idéia aproximada desse meu dilema: Não era só pular
fora quando o circo pegava fogo, tomando a grana como faziam os
cartolas, dizendo que aceitava e depois desaparecia do mapa para
umas longas férias no Caribe. Bem que queria, nem que fosse pra
Conchinchina, porém meu destino e o dessa 'seleção' era um só;
se ganhasse, teria minha alma de volta e talvez algum prestígio
torto de quebra; se não, 12 filhos, uma mulher e uma sogra 'estepe'
teriam algo pra contar aos noticiários exportivos (atentem para o
'ex'), abaixo de minha fuça estampada nos principais obituários da
cidade, quiçá do mundo: Zé
Cabrito Desovado!, o pé-de-chinelo que achou que podia e se fodeu.
Ou seja, nada mais, nada menos, que minha própria e ridícula
pessoa.
Empresário. Era
essa função que queriam que eu desempenhasse? Claro que aceitei!
Onde assino com o meu sangue aguado, Sr. Capeta? Aceita como promissória
minha sogra?
É. Não aceitou. Estava nessa sozinho...
'PRIMEIRO TEMPO'
18 de Março, 2006
Minha estranha aventura começa naquele último verão carioca,
posterior a minha nova função no 'bico' de manobreiro no ex-campo
do 'bacalhau', transformado no Vasco Grill & Music Hall. Era ali
que espremia alguma gruja pra feira na grande praça de alimentação
e Casa de Shows a céu aberto situada no subúrbio de São Cristóvão;
o novo (velho) point do momento.
Mas não pensem que Zé Cabrito, minha alcunha, percebia uma mixaria
maior na sala de máquinas das lanchas e barcas da Conerj, minha
verdadeira ocupação trabalhista 'dos dias úteis'. Exceto muita
graxa e grosas de estopa velha, mil aedis,
vetores de malária,
e baratas, além de batalhões
ratos, eram meu comitê de recepção diário, conhecendo vários
deles até pelo nome. Por ser um autodidata, talvez por exatamente
esse motivo, lia muito naquela sauna barulhenta no intervalo de
alguma caldeira obstruída ou parafuso frouxo, enquanto o
contramestre folheava e melecava todas as revistas de mulher pelada
que conseguia carregar pro bueiro (nosso exíguo banheiro de bordo,
comum a todas as lanchas da classe Itaipú); era uma diarréia-pornorréia
constante que, felizmente, deixava-me tempo de sobra pra consumir
tudo que caísse em minhas mãos, via sebos ou lixo mesmo, de
enciclopédias despaginadas, suplementos de jornal, 'pérolas' de
Camões e Ari Toledo, tratados de metalurgia, astronomia, romances,
fandons de ficção científica, quadrinhos, uffá!, tudo enfim...
Vem daí meu 'início' no lado de cá do esporte bretão. O pasquim
Fofoca dos Vestiários - Esquema Tático dos Excluídos trago
ainda hoje, encardido, cobiçado pelas traças e ácaros, em minha
velha e detonada pochete de guerra, que até apelido tinha:
topa-tudo. Um autodidata não pode realmente almejar grande coisa na
vida. Vender a alma ao diabo continuava sendo um bom negócio, como
já citei na introdução.
*
Ainda que outros se lhe comparassem, hoje posso afirmar: foram os
dias mais tumultuados da minha vida. Nem a ascensão vitoriosa e
quase milagrosa do Rio de Janeiro Futebol Clube à 1ª Divisão
suplantou aquilo, o que dava uma perspectiva de como me sentia
naquele momento. Dias que se arrastavam na folhinha como um
meio-campista cansado e contundido, sem poder ser trocado, esgotada
todas as substituições a que um Técnico tinha direito.
Quem diria que o tempo em que me dirigia à Praça XV (espremido nos
coletivos, mofando nos engarrafamentos-monstro por todo trajeto de
Caramujo, via Alcântara, atravessando a Baía da Guanabara)
acometeria agora como gratas lembranças dum passado quando a grana
era pouca e suada, mas a perspectiva de continuar sobrevivendo ainda
existia e não assolada por nuvens cor de breu! Os físicos estavam
certos. Tudo questão de referencial. E também errados: nada era
relativo. Só mudava-se o rótulo. O produto continuava sendo o
mesmo...
Quem poderia prever que a coisa tomaria um diacho de vulto desse
porte, arrastando um pobre trabalhador e quase duas dúzias de
outros cidadãos, dentre sul-americanos, asiáticos, europeus,
africanos,..., se não iguais na dureza e mediocridade, semelhantes
no sofrimento? Todos juntos despejados naquela ilha cheia de cabras
barulhentas, montanhas aos porrilhões e nativos com chapéu de
bambu na cabeça e hálito de peixe cru... Escolhida a dedo (torto)
não teria sido pior. Que local para uma Concentração, sem sequer
uma única planície disponível para justificar um campo de
futebol! E não era só isso que contabilizava nossa desgraça: Um
aguaceiro sem pai nem mãe não cessava de despencar das alturas com
a força dum dilúvio visto pelo próprio Noé; quase diuturnamente
chovia, reservando somente as úmidas e mosquitadas madrugadas para
o treino no encharcado - e ondulado - Costa Brava Nova Guiné Golf
Club. Um campo 'administrado' por nativos que falavam o pidgin e pareciam zelar, com competência, pelo continuamento
inercial do mato que parecia não sofrer apara desde a II Guerra
Mundial...
*
Sentado sob um grande cajueiro depenado de frutos (nem precisa dizer
'quem os depenei'), comendo uma banana (d'água), permaneci
entediado e com saudades de casa - o feijão amigo, a conversa
fiada, tentando engabelar o birosqueiro e beber fiado também -, além
de todo picado, no dilema se morreria primeiro de pneumonia ou
hemorragia. Observava os holofotes cheios de mariposas multiplicarem
as minhas sombras e a do desenrolar da pelada colina abaixo, ouvindo
o berreiro e o xingamento saudável de onze motivos de insulto ao
futebol mundial.
Estavam todos ali, ao menos assim parecera na época; dos
'apontados' pelos etês aos recrutados por mim com a conivência deles em dois meses de campanha, de aeroporto
em teco-tecoporto; só pra citar algumas paradas, tivera minha cota
de Indiana Jones, na verdadeira perdição de mergulhar em picadas
na floresta como um buwana mulato numa aventura na África pós-febre
tifóide; ou subindo rios em chalupas barulhentas e hipopótamos
nervosos, contrários a tanto esporro em seu habitat, na Índia; ou
escalando aldeias trepadas como verdadeiros ninhos no telhado do
mundo, tanto no Equador como no Nepal; ou congelando em Quebra-gelos
no Polo Norte; trepidando em rixás nas ruas apinhadas da Ásia;
conduzido por gôndolas e solemios suspeitos no submundo de Veneza
ou ardendo a bunda num lombo de burro, em nossa última parada em
Sacramento, Novo México, quando Manuelito Enriquez de Córdoba y
Estevan - um nome comprido demais para um carvoeiro mexicano
'apontado' - subiu a bordo da, juro, em vias de naufragar, nau dos
desgraçados. Como tudo ali era uma arrematada insensatez, a começar
por mim mesmo, não criei obstáculo algum em trazer uma mascote pro
time, ou seja, o 'jumento da sorte' de Manuelito. O difícil foi
convencer a Alfândega do arquipélago de Bismarck que não tínhamos
nenhum interesse sodomita com o bicho na proliferação de beldades
locais <disponíveis>. Nada como valorizar o produto interno
bruto!
Os críticos é que estavam com a razão: Loucademia de Futebol...
*
Saquei da 'topa-tudo'
um pequeno e anacrônico bloco de apontamentos e, meio sem jeito, o
apoio precário, se a caligrafia já era ruim, ficou pior pra
cacete; após alguns rabiscos um tanto quanto indecifráveis, decidi
deixar de lado a caneta de prata comemorativa e alusiva ao evento
que ganhara em minha primeira recepção oficial na Comarca de Brasília;
souvenir desse momento onde tudo pareciam flores e existia um certo
apelo patriótico no ar, por ser eu, apesar dum enjeitado,
despontando como representante brasileiro no comando da escuderia
terrestre contra os maléficos estrangeiros do espaço (claro que
isso era subtendido e nunca dito aos 4 ventos, pois, afinal, estávamos
em Brasília, a Meca dos linguarudos).
Junto à caneta sepultada na grama, que jamais reavi, larguei também
o bloquinho de couro de rato repleto de meus garranchos feitos à lápis
na minha costumeira letra tremida e semi-analfabeta, que o cúmulo
dos hipócritas - diziam na frouxa imprensa, e central de mexericos
de sempre -, ser estilizadamente
floreada. O que o medo e o oportunismo não fazia...
É mesmo, veio-me aquele pensamento de Camões barato, enquanto buscava pelo
pequeno gravador no âmago da pochete inseparável e mais que
costurada, que flor
se prestaria a tamanha esquisitice no formato mais torto que o próprio
Quasímodo vergado por duzentos Ulisses?. E acrescentei, não
sem certa tristeza pelo auto-reconhecimento: No
mínimo!.
Enquanto acompanhava o vôo de um pombo noturno, pelo chiado
acabando por se revelar um morcego dos grandes, talvez o próprio
batman, iniciei a gravação que, se impressa ficaria mais ou menos
assim:
RELATÓRIO - FICHA DE OCORRÊNCIA
(Comissão Técnica, Técnico, Jogadores, Apontamentos, Esquema Tático e
Conclusões)
Item um (relação):
Estruturam-se com os seguintes nomes, alcunha (se existir),
nacionalidade, staff, idade (quando conhecida), ocupação anterior
(idem), domínio de idiomas (se houver):
- José Ludibriel
Oliveira (Zé Cabrito, Zé, Chefe), 50 anos, natural de
Varginha, Brasil: Empresário da Seleção Terrestre e
Treinador. Ocupação Anterior = 'prático' em reparação de
caldeiras e mecânica de motores diesel; nunca freqüentou a
escola mas têm conhecimentos teóricos em vários níveis
(todos não formais, por ser autodidata);
- Anatoli Von G.
Grusven (Polaco), 66 anos, natural de Brachov, Romênia:
Preparador Físico, fluente em servo-croata e alemão, com
rudimentos em inglês. OA = relojoeiro;
- Samuelson Torino (Daktari),
51 anos, natural de Brava, Cabo Verde: Médico, Conselheiro e
Nutrólogo; inglês fluente e bom domínio no afrikaan. OA =
veterinário;
- Renato Abílio
Correia Lago (Pilão de Veludo), 29 anos, natural das Serras Gaúchas,
Brasil: Massagista e Roupeiro; no idioma, noções de espanhol.
OA = ator de teatro;
- Sinval da Silva
(Flanelinha), 23 anos, natural da Rocinha, Brasil: Intérprete e
Administrativo; possui bons conhecimentos em inglês, francês,
alemão e japonês, além de faculdade extrema para o
aprendizado de outras línguas e sair de situações
imprevistas. OA = não especificado (igualmente polivalente);
- Obicquá Oddo (Xamã),
idade desconhecida; nômade nas terras do Alto Xingu, Brasil: Técnico.
AO = presume-se que exercia a função de Curandeiro da Tribo
Txucarramãe, sendo tio-avô, segundo fax recebido, de Raoni;
- Olaffson Stuart
Franzpettersen (Sueco ou Stu), 35 anos, natural de Uppsala, Suécia:
Forward; com inglês e finlandês fluentes. OA = padeiro;
- Hussaim al-Yollaf,
30 anos, natural do Kuwait: Ala Esquerdo; fala francês e inglês.
OA = enólogo;
- Lin Hongween Ku (Lincu
ou Fumanchu, sendo o complemento omitido, já que fazia sentido
somente em português), 25 anos, natural de Ynchuan, China:
Lateral-Direito; têm o mandarim como segunda língua. OA =
pescador;
- Surya Pong (Baby ou
DiMenor), 15 anos, natural de Katmandu, Nepal: Forward;
rudimentos de francês e fluência no chinês. OA = xela;
- Margot Lívia
Grimaldi (Cicciolina ou Fafá), 18 anos, paulista (Brás),
Brasil: Líbera; com noções de inglês e espanhol. OA =
estilista (apresenta potencial, devido somente a sua liderança,
para ocupar a função de Capitã do time);
- Omüunk Fukuda
(Picolé), idade desconhecida; natural da Groenlândia: Médio-volante;
arranha algo de dinamarquês. OA = guia de trenó;
- Robert Levinsk
Noland (Basco), 25 anos, natural de Belfast, Irlanda do Norte:
Goleiro. OA = ativista político (eufemismo para terrorista);
- Manuelito Enriquez
de Córdoba y Estevan (Miguelito), 30 anos, natural de Monterrey,
México: 4º Zagueiro; com noções de inglês. OA = carvoeiro;
- Nehu Attanabi
Muwanib (Zumbi): dados ainda sendo apurados (recém-chegado,
encaixado no time como meio-campista);
- Luiz Ignácio
Olbidero (Coca), 21 anos, natural do Guaiaquil, Equador: Ala
Direito; fala quíchua. OA = balconista, camelô e, segundo
alguns, 'laranja' de traficante;
- Oswaldo Leon de
Godoy (Montain, Tyson ou Oswaldão), 35 anos, natural de Obidos,
Brasil: Beque. OA = estivador.
Item dois (Apontamentos e Esquema Tático): Todas
as posições ocupadas pelos 11 jogadores anteriormente citados não
são, de forma alguma, definitivas. Em sua quase maioria somente
tiveram doze dias para se conhecerem como equipe e a análise não
promete muita coisa, MESMO QUE SE ENTROSEM POR CEM ANOS. É forçoso
admitir que uma estilista de modas, um padeiro, balconista e
mineiro, só para restringir-me nos 4 mencionados, consigam melhorar
suas performances num esporte que, nem em suas infâncias,
praticaram? Todos sabem a resposta. Coloquei alguns taipes desde
nossa chegada no dia 8 de novembro, aproveitando da chuva
ininterrupta; mas só pude, depois de muito custo, passar as Leis Básicas
do Futebol, sem aprofundar no fundamento Linha de Impedimento, Marcação
e Voleio. Diria - com absoluta certeza de não errar -,que todos têm
boa-vontade em aprender, sendo que alguns, por sorte, milagre
talvez, já acertaram alguns chutes na bola (e a bola continuava
errando o alvo, mantendo o padrão de nossa seleção); porém TODOS
são terrivelmente primários e, se não fosse os 'agriões', nunca
estariam aqui.
Item três (Conclusões): (a) usarei, na medida do
possível, suas características pessoais para a definição de suas
posições futuras; (b) não acredito que ser 'duro' com eles vá
resolver as muitas de suas mazelas, mas cumpre-se sempre uma figura
de 'mau' e deleguei para o Polaco essa função; tivemos sorte com
este, pois tem uma fascinação invulgar no quesito 'fantasia de
Hitler'; talvez batendo dos dois lados, acariciando e socando,
consigamos despertar o Atleta Adormecido que cada um têm em si
(comentário: duvido!); (c) não há Reservas, até agora, para
nenhuma função, por determinação Deles e (d) por vias das dúvidas,
já fiz meu testamento...
*
Interrompi aquele relato, meio que
mastigado por uma ou outra dentada na última banana do cacho, para
conferir o espaço que ainda restava na fita Basf HQ. Somente
naquele momento - quando o bando de galinhas-d'angola empoleiradas
no cajueiro resolveram calar o bico, até então incomodadas com a
luz, estando eu protegido da titica-atômica por um grande sombrero
(não preciso mencionar seu estado de pau de galinheiro) -,
ouvi pela primeira vez uma agitação diferente vinda do 'jogo'. Uma
comoção que atendia pelo nome de Firula!
Vivas!, devo ter pensado,
eles finalmente encontraram seu fute...
E lembro ter silenciado aquele pensamento
com um palavrão totalmente verbalizado.
- Porra...
*
Olhando mais detidamente, reparei na
falta de alguns cadies
sem camisa, que deveriam servir como sparrings e time adversário
para o treino de bola corrida e chutes à gol; também não estava
ali o espalhafatoso e silencioso meia-cancha africano que chegara
coincidentemente com um e-mailgrama da comarca de Pretória, o
credenciando pra Seleção, mas, como sempre, sem motivos
detalhados, num currículo anexo.
Pelo que pude notar, para meu completo
desespero e indiferença total do Técnico indígena, mesmo desfalcado de quatro cadies, inclusive o goleiro(!), os sem
camisa estavam levando vantagem por um placar dilatado. E tinham até
torcida!!
Empreendi uma corrida desembestada que não
espero repetir jamais! O binóculo militar, sambando na cara,
vasculhava o paradeiro dos evadidos, enquanto tropeçava em alguns
tacos enferrujados, largados no mato ainda não desbastado por obra
dos jardineiros papa-kina que contratamos para aquela simples e
abandonada tarefa. Arriscando-me a ser mordido por cobras,
finalmente consegui algum sucesso na trêmula empreitada. Antes não
tivesse me deslocado até lá...
Eu os encontrei próximo a uma grande
mancha de água marrom, jutosa, estagnada, decadente, outrora um
lago piscoso (segundo me dissera o guia turístico impresso em
1940), decaído naquele poço de varejeiras e refeitório de
sapos-boi. O desaparecido grupinho de sem-camisas se reunia
curiosamente em torno de duas pessoas compenetradas num gesticular
furioso, principalmente, com mais ênfase, por parte de uma delas.
Quando me viu, o maior deles, o que
parara de reger o vazio, veio correndo e arrastou-me até o centro
da arena. Fora pego na armadilha.
*
Meu 'intérprete' oficial, Sinval,
voltava à carga, balançando a cabeça, espalhando caspa pra todo
lugar. Aquela parada dava pinta de ser daquelas!
- Senegal? Nigéria? Camarões, Zaire,
Angola... - e, por nervosismo, resolveu satirizar, esgotado seu rol
de países africanos, perante a nova aquisição 'retinta' do timeco:
- Suíça?!
O baixinho meia-cancha - metido num tênis
sujo, rasgado, tamanho 46, meiões cor-de-água-sanitária que
pareciam uma meia-calça de tão grandes e finos, desaparecendo sob
o bermudão dum defunto maior -, retribuiu um sorriso vazio de
beques de frente pra todos nós. Sinval, desesperado ao cubo, coçou
a malfeita cicatriz remanescente no lábio leporino tricotado por um
Inamps ou Sus da vida, fazendo que o prurido nervoso atingisse a
orelha de abano. Via-se que dava tudo de si, mas estava tão
empacado quanto a mascote do time, Nostradamus, ao desembarcar do
compartimento de carga do Hércules C-104 da FAB.
Parecendo obedecer àquele último 'sinal
secreto' telegrafado da orelha coçada de Sinval, o pigmeu de tênis
imensos passou a gesticular com entusiasmo.
- Chefe... - disse-me o tradutor, socando
a ampla testa, deixando ali impressa a marca de seus dedos,
detonando outras mímicas no novato, além do riso de hiena dos sem-camisa: - O CARA É SURDO E MUDO!
Que 'Seleção'!!! Agora
<realmente> tínhamos tudo. A nata do nada e não se podia
cogitar fazer nata (nem queijo), a não ser agradecer por não nos
darem 'atletas' de muletas, entrevados ou desportistas em caixões...
*
Sinval, meu único recrutado não-contestado
em única instância pelos Agriões,
era um ex-flanelinha, extrovertido, escroque que conheci anos atrás
num jogo combinado no saudoso Maraca, dando umas escapadinhas como
cambista e vendedor ambulante de camisetas, rojões e cornetas; um
jovem despachado, 'fluente' em alguns idiomas devido a uma
facilidade inata para línguas, realçado por seu trabalho esporádico
de 'guardador' poliglota nas ruas transversais ao Othon e Meridién,
além de 'agenciador' no carnaval; ressalvo umas poucas coisas mais
ilícitas, um pequeno comércio de CD-laser e acessórios de auto,
exercia sua função com aparente dedicação; cabia como luva justa
naquele escreti de merda (sei que falam de mim coisa pior), a começar
pelo Técnico que me impingiram, um Txucarramãe dado à
salamaleques, palrações incompreensíveis e quase tão-somente
isso, às vezes mais alienígena que os próprios etês.
Depois vinha o Roupeiro & Massagista,
um bageense que, por fora, todo truculência, por dentro, cruzes
santa, nem te conto!, quicava nas tamancas. Esses, mais dois
'jogadores' (uma estilista desempregada, de ascendência italiana,
Margot, e também Oswaldão, um estivador que, por razões óbvias,
escalei como beque), perfazia assim a supremacia do Brasil naquela
Seleção Internacional, ou devia nessa altura do campeonato dizer
'Seleção Terrestre'?
Aquilo soava tão engraçado quanto uma
piada das antigas do Chico Anysio.
Se a piada não
fosse tão próxima de nós quanto era...
Não posso - se bem que gostaria de poder
- colocar-me de fora (o mais longe possível!) daquele sonho
alcoolizado de Garrincha, em sua pior crise ébria, tão torata
quanto sua canhotinha de ouro: Eu, o Empresário, o 'amigo da
macacada', o gandula promovido, tinha no passaporte carimbado as
expensas da Polícia Federal (obedecendo ordens - que diria que isso
ainda existia por aqui - do próprio Presidente), o status olvidável
de Embaixador Honorário da
Humanidade. Chique, hein? Porra nenhuma. Era figura de proa,
o judas inconfesso de todos noticiários.
É pra se acreditar ou acordar molhado e
gritando daquele pesadelo? Fosse um pesadelo, por favor, jogue-me um balde de água fria!!!!, só peço uma
coisa, tenham o cuidado de não lançar o balde junto. Meu azar é
tanto que é sempre bom advertir.
Taí porquê reclamava tanto. A tal 'pátria
de chuteiras', o planeta Terra em 2006, tinha o pior chulé do
universo. Se os etês não fossem suscetíveis àquilo - ou à crise
de riso durante o jogo dali há 10 ou 15 dias (o massacre, bem
dizendo) -, restava a todos nós, futebolistas involuntários,
morrermos de vergonha ou algo mais letal, bem ao gosto duvidoso dos
alienígenas...
'SEGUNDO TEMPO'
Agriões era como os chamávamos. Ninguém sabia
dizer com precisão quem primeiro cunhara aqueles seres de Agriões,
ninguém ao menos que quisesse se expor e trazer o inferno do
passado recente para dentro de sua vida. 'Tava na cara, pra tipos
como eu que tiveram o desprazer de confrontá-los de muito perto,
que eram um cruzamento ilícito de um legume salvo da xepa com
restos de mariscos com forte cheiro de maresia. No mais, agrião,
chicória, cebolinha ou qualquer leguminosa não mudava sua índole
enigmática, movida por surtos de 'bondade' excessiva, contrapondo a
verdadeiros acessos alomórficos de troca de personalidade, se é
que havia tal coisa e chavões psicológicos assim pudessem ser
mantidos.
Pelo que pude depreender do pouco que me
disseram, poderiam ter chegado no fantástico reveillon carioca, na
virada do milênio (o verdadeiro, não aquela palhaçada de
1999/2000), só pra situar o negócio no nosso distante Brasil.
Contudo, a grande massa cosmopolita ali reunida carecia de algo que
no entender deles era vital. Em Copacabana tudo correra muito
homogeneizado, imaculado demais, pactuado no ritual da celebração:
3,2,1... Cabrummmm! Bum, Bum, Bum!.. e fogos e mais fogos, beijos e mais sapinhos, bolinações até o
raiar do outro dia; corpos distendidos, esgotados e estornados na
areia; cachorros lambendo o focinho de todos os bêbados da cidade.
Não.
A preferência deles recaiu em outra comemoração. Mesmo que na atmosfera da
Copa (de futebol e não aquela palavra indígena associada à famosa
'Princesinha do Mar' que muitos também conhecem na forma abreviada)
de 2002 isso existisse, tudo era muito mais segregado, dividido
pelos vários povos reunidos nos estádios de futebol da Coréia do
Sul e Japão, onde se deu a primeira copa de dupla nacionalidade
organizacional da história.
Claro estava que havia lá também o show
de fogos de artifício e canhões luzes nos ares de Osaca e Seul;
idem para o comparecimento das 'estrelas' que fizeram da Abertura do
Mundial, com World
Music, um sucesso, um culto, o sacerdócio aos ídolos e todo o
misancene que estávamos
acostumados. Pois ademais sabiam que estava ali o tempero, a pimenta
no vatapá dos etês: ignorada a carapaça bonita, o verniz
enganador por cima duma obra de arte infestada de cupins, lá no
fundo existia a desunião, a desagregação, o grito de
goooooooooooo!!!!,
entranhado em cada torcedor egoísta, fazendo de seu time os Eleitos
de Deus.
E não ficava só nisso. Tinha também
contido o sentido de revanche, o poder desarmônico da repressão,
na expectativa do caos irromper a qualquer bomba 'plantada' no meio
da multidão, de
fazer parte daquela
catástrofe potencial, enquanto espectador, testemunha ocular do
desastre. A glória para muitos, isto é, se sobrevivessem...
Nesse contexto, o sangue tão
ansiosamente aguardado não transbordou da taça da morte, apenas
transubstanciou-se em fumaça. Uma imensa coluna de fumo que, uma
vez dissipada, desnudou uma cratera de 1km de diâmetro, expondo a
feia ulceração de 300 metros de profundidade de solo fundido. O
mais novo cemitério sem corpos ou lápides do planeta.
Revelarem-se pro mundo sob tal ótica foi
pra eles duplamente vantajoso: tiveram por horas a mídia planetária
ao seu dispor; uma população de milhões de ouvintes e assistentes
interagindo com a manifestação de seu poder. Ter um estádio olímpico
com 95 mil lugares tomados - personalidades do mundo esportivo, a
seleção da Austrália e seu cabeça-de-chave, o Brasil, na fase
eliminatória, formados no campo para a execução do hino de ambos
países -, sendo todos desintegrados por um único disparo à
queima-roupa, era ou não um dissuasor de elevada magnitude entre nós,
nativos?
Como agora, ninguém deu a resposta
milionária. Nenhuma voz se ergueu do bando de Organismos
Internacionais e ajuntamento de letras imponentes; nem ONU ou OTAN
vociferaram qualquer máscula (mesmo efeminada) oposição, se não
por patriotismo, por pura auto-preservação. Dessa maneira a
conquista da Terra deu-se sem atrito, onde nenhum Awac se lançara
aos céus ou a tão difundida Guerra nas Estrelas arriscou qualquer
de seus satélites estratégicos para um único disparo que fosse;
foi 'sopa', como se esperassem por tal coisa, daí deduzindo-se que
tais organizações já há muito estavam de sobreaviso, preparadas
para a ocupação, esperando até mesmo lucrar bastante com tal
ocorrência. Como se a vinda Deles fosse uma data menor no calendário
de eventos da humanidade. Como um fevereiro bissexto totalmente
dispensável, e não aquilo que realmente se tornou...
Com a tragédia de quase cem mil mortos
no intercurso de um único disparo, o marco de uma era-Agrião
tivera início.
Exceto algumas medidas
punitivo-administrativas no campo militar, político e social, os etês
só arbitraram sanções pesadas com relação ao desporto do
futebol (Por quê? Ainda estou tentando engolir isso). E aplicaram
um novo policiamento à Internet, cujos os mecanismos conheciam,
pois o 'criador de janelas' fizera bem o seu papel de arauto informático,
dando uma droga que, como o cigarro e a bebida, conquistara seu
lugar sem muito estardalhaço, tornando-se um vício socialmente
aceito.
Por algum motivo não elucidado naquele
período, sua sanha levou à ojeriza do esporte milenar, extinguindo
por completo a cúpula da quase centenária meca futebolística,
desaquartelando qualquer resquício da Federation Internacionale
Football Association (FIFA) e suas associadas, obstando até
qualquer jogo amistoso, pelada de bairro. Tudo. Dando como proibido
de morte a execução do menor ensejo que levasse o rótulo, mesmo
aproximado, de futebol. Nisso, Confederações, Federações e
Clubes desapareceram da noite pro dia. Tirar um pirulito dessa forma
deixou a criança amuada. Foi nessa altura que alguns esperneios
ocorreram...
O mundo no day after acabou não sendo bacteriologicamente imprestável, nem
nocivo ao homem e favorável às baratas devido a qualquer bola de
fogo radioativa, porém amanheceu com aquela célebre frase Os agriões não morrem jamais! grafitada em diversos idiomas nos
muros de todas as cidades do planeta. A propósito daquilo veio a
primeira grande retaliação pós-invasão, com centenas de
grafiteiros a menos para darem seqüência ao movimento subterrâneo
de resistência à intolerância do 0-Futebol ditado pelos aliens.
Assim, livre de qualquer compaixão, o movimento subversivo, o único
levante popular ensejado nos velhos dias, tinha terminado conforme
começara.
Os Agriões Não
Morrem Jamais!, nesse caso referência
provável a cor dos gramados (a popular 'zona do agrião'), deram ao
inimigo um manancial simbólico que estes souberam auto-rotular-se,
legislando em causa própria. Porém, se os Agriões
eram imortais de fato só mais tarde fiquei sabendo da resposta. Ou
um vislumbre dela...
Por mais de três anos prosseguiram no
que chamamos eufemisticamente 'Movimento de Apertar Parafusos', não
isentando de rigor, pelo descumprimento de sua Lei, a quem quer que
fosse. Um exemplo que se tornou clássico (e crasso) fora o caso dum
bando de garotos senegaleses que jogavam pelada, muitos até
inocentes, por puro desconhecimento do embargo global, caçados como
criminosos de guerra, estendendo a pena a quem lhes desse guarita,
alguns até executados sumariamente pelos 'varapaus' (que serão
descritos dentro em pouco), ou presos e desterrados em campos de
concentração pelo braço-direito Deles na Terra, a vendida ONU(P).
A convulsão que crescia no mundo não
encontrava similar em tal gama de inflexibilidade, relatando-se
casos de crianças de 3-5 anos que, numa pequena escola num país
qualquer, foram dizimadas (sic) '...porque brincavam com uma bola de
praia e balizes feitas de cubos de borracha a título de gol'.
Enquanto outros que jogavam com game-boys de futebol, acabaram
obtendo destino semelhante.
Onde o folclore e a realidade se
interceptavam tudo era possível.
Definitivamente não estavam buscando
respaldo histórico para aquilo; nós, humanos, é que tínhamos
essa mania de procurar o salva-vidas no suporte errado. Descobrir,
por exemplo, que os reis da Inglaterra e França proibiram a prática
do futebol desde o século XIV até XVII - a nobreza se sentindo
ameaçada em 300 anos de história pelo grande apelo popular do,
segundo Eduardo III, "...esporte vão, sem nenhum valor"
-, nada disso adiantara.
Tanto não adiantava lhufas que os estádios
estavam abandonados, muitos transformados em pátio de
estacionamento, alguns mais sortudos em palco de espetáculos e
Shoppings. Mas, após anos de erradicação comprovada, uniforme,
eis que surgiu uma brecha e uma seleção de futebol da Terra fora
convocada em rede internacional de notícias pra um 'amistoso' com
os etês, em local ainda a ser divulgado, sob condições especiais de escalação, observando uma série
de pré-requisitos misteriosos. Isso sim era problemático! Melhor a
ausência, a inexistência de algo para o qual, bem ou mal, já nos
acostumáramos a não contar, do que a apressada mudança de opinião
da parte de seus destrutivos autores...
A notícia, óbvio, caiu como uma bomba e
foi tão devastadora quanto o artefato bélico no qual se baseou!
O mundo veio literalmente abaixo e me
jogou onde estava naquele momento.
*
Foi com choque que voltei meus
pensamentos para o presente...
O bichão estava como que envolto numa
campânula restrita aos limites de seus pseudópodes, tremeluzindo
como gás néon rosa. Que soubesse, da parte dos outros, nenhum
deles tinha proteção equivalente contra meus gérmens terrestres,
talvez porquê os microorganismos tivessem fritado no raio
transportador ou, mais propriamente, por serem todos plenamente
dispensáveis em suas fantasias de carnaval no Inferno.
Então o pesadelo resolveu falar:
- O dela,
digo, futebol, e sua Lei de Lavoisier, assim como outras coisas,
tiveram uma mesma Inspiração Divina: Nosso Utt,
o ente conscientológico das eras passadas.
Sabia que, mais uma vez, nessa quinta
intervenção desde que fora apresentado a eles no Itamaraty, o Agrião-chefe
viria com sua lengalenga repleta de aforismos baratos, jactando uma
filosofia de porta de botequim cósmico. Ladeado pelos dois
'varapaus' - aqueles seres meio-louvadeuses num exoesqueleto
quitinado de velociraptor, dois pares de garras aéreas de 25 centímetros,
um par poderoso arcado no chão -, não arrisquei outro comentário,
fora o tradicional, aprendido a duras penas:
- Prossiga ó verdade das mais sublimes.
Ilumine nosso caminho com teu esclarecimento!
De fato assim prosseguiu a palhaçada,
minha enxaqueca embarcada junto naquela abdução que acontecera após
dispersar os cadies e o camarão (afinal descobriu-se sua
nacionalidade) que estava compenetrado em ensinar Sinval a linguagem
dos sinais, no meu retorno solitário ao alojamento que, claro, não
aconteceria tão cedo:
- Dizia eu, a Boca de nossos
Antepassados, o Oráculo dos Anciões, que, já em sua pré-história,
o peludo-das-cavernas foi agraciado com os rudimentos do dela, vendo-nos praticá-lo no seu campo de caça em Ur. Claro
que, estúpidos, não aprenderam as sutilezas da arte do domínio do
soma, mas quem busca
alguma perfeição em bípedes cata-piolhos?
"Desde os astekas de Aztlán e seu
tlatchli; os arabes e a koura; os chineses de 2.500AC (antes
do crucificado); os gregos, ao kemari dos japoneses com bolas
recheadas de crina de cavalo, tudo foi objeto de estudo por alguns
desocupados de nosso clã.
"Sua raça desenvolveu um prazer
muito menos belicoso que os nativos de Ettin-Krumandi e seus rituais
de Bolas de Fogo. Porém, desde os jogos romanos, na corte desse tal
Júlio César - onde quinhentos jogadores de cada lado disputavam
uma enorme bola com socos e pontapés, degladiando-se até restar
uns poucos sobreviventes - que vimos o destino de sua raça".
O silêncio de mais de dez minutos foi
demais pra minha curiosidade estúpida:
- E que destino será esse, ó
Grandioso...
- O mesmo que será aplicado a você se não
fechar seu sopro, humano! - repreendeu-me o maior dos 'varapaus',
pisando despreocupadamente em minhas costas e encerando o chão
comigo a título de esteira.
- Sejamos bondosos, meus súditos, eles não
sabem o que dizem - apartou o nobel espacial, cessando por completo
meu tormento de enceradeira.
- Deixei-me levar pela ousadia do sacrílego
macacóide, Grão-Altezamer - disse o hexápoda agressor: - Sê a
Bondade nossa amiga e guia outra vez.
E a reverência do varapau, curvado em
suas cinco juntas, mais minha rotulação como 'macacóide', sem
esquecer a porra do chão que 'tava gelado pra cacete, não permitia
muita margem de esperança para mim.
- O Destino, pequeno sopro, em breve será revelado no charco das desilusões,
- vaticinou o Agrião-Boss, dando por interrompida a audiência.
Estranhamente minha última lembrança,
antes de ser sacudido pela força do raio transportador, dediquei àquela
expressão infame que o tradutor universal sintetizara como 'pequeno
sopro'. Quanto a pequeno, não tinha dúvida, perante aqueles três
metros de envergadura do Rei da Xepa; pequeno
sopro, todavia, deixava sempre uma conotação em aberto: que
eles (pelo menos fiando-me na Enciclopédia Zan-Zer que fora
induzido a 'decorar') não tivessem faro, tudo bem. Coisas da 'Evolução'.
Mas como explicar um pumm! silencioso dado em certa ocasião, adjetivado de 'sopro'?
Coisas da revolução intestinal ou
simbolismo dos humanos que, perante as enormes bocas rasgadas da
maioria dos etês daquela nave, éramos todos
pequenos sopros?
'PRORROGAÇÃO'
(1º TEMPO)
Sem muita vontade olhei pra planilha que
o computador plotara, algo bem bonitinho e limpo por sinal,
detalhando tudo com perfeição, acabando no entanto por ser muita
embalagem pra pouco pão, longe de nossa real condição anárquica,
despanificante. Como também era utopia acreditar que qualquer
sistema defensivo, por mais bem urdido que fosse, faria frente a um
time que possuísse varapaus no ataque, um meio-campo de
'rinocerontes' clonado, 'gorilas' na zaga e um 'polvo' no gol...
Apesar dos insistentes convites pra
relaxar estava sozinho à margem do aeroporto de Jacarta, evacuado
por uma ordem expressa do Alto-Comando da ONU(P). Podia ouvir o
vento assoviando, varrendo a poeira entre os aviões abandonados nos
hangares e pistas, levantando jornais velhos com manchetes
agourentas e trazendo o cheiro do churrasco de despedida que o
pessoal fizera questão de armar junto à Torre de Comando. Despedida
era uma palavra demais funesta, mas foi a única que me ocorreu.
Ainda assim alguns conseguiam viver com isso... Cadeiras de lona
espalhavam-se no asfalto e alguns jogadores e convidados (leia-se
'convidadas do prostíbulo local', muitas até drogadas para
amenizar seus medos), além da comissão técnica, assavam como
marmotas no ainda elevado calor da tarde, as vezes espirrando uns
jatos de mangueira uns nos outros, aparentemente indiferentes ao
futuro. Só aparentemente.
Sabia porquê faziam aquilo e não era
nenhum sentido de festividade que os movia. Era a certeza da última
ceia entre os vivos, um direito que lhes assistia muito mais que a
quaisquer outros na face da Terra. Um quadro que dificilmente Michelângelo
gostaria de retratar... Por outro lado, se fosse pintor, Dante
adoraria.
Abaixei os olhos novamente pro croqui e,
desta vez, procurei me concentrar melhor.
COMPOSIÇÃO
FINAL DA SELEÇÃO TERRESTRE
(esquema tático 5x4x1)
[não foi possível exibir a figura que
constava aqui]
O esquema era arcaico e favorecia
enormemente à retranca, porém, sem nenhum valor individual no
time, somente a coesão dos jogadores, a coletividade, as jogadas
ensaiadas e o contra-ataque, se houvesse chance, podiam levar à
algum resultado menos vergonhoso. Menos mortal.
Obicquá, andando nu com um espetinho de
asa de frango e 'puxando' um cigarrinho de folhas de Petrum
fumarento nas imediações da barraca-iglu do recluso esquimó, era
nessa hora mais um estorvo que propriamente um reles bibelô
plantado em nosso meio. Contudo, sincero em sua indiscrição,
conseguia ser até divertido, porém nos momentos mais impróprios.
E não enxerguei nele nenhum pedantismo ou pendor pro lado etê.
Quando o via, sempre aquela pergunta surgia: No que um curandeiro
senil poderia ensinar em termos de técnica? Ainda bem que só era
eu a perguntar, pois decerto muitas respostas cretinas viriam.
Quem já tivera um Gallo supersticioso
como Técnico, com direito a estátua e tudo, não deveria achar
estranho de um genuíno Xamã orquestrar aquela gang. Precedente
aberto, só magia mesmo, com pemba e macumba da preta, com os ebós
e os exús mais abissais do planeta, daria algum sentido àquela
piada cósmica!
Como conciliar tantos disparates e
handcaps de uma forma positiva acabou sendo minha recorrente
dor-de-cabeça, daí meu isolamento.
Se fosse menos incompetente e mais
otimista isso não ocorreria.
*
O toldo acima de mim chicoteou o ar. O céu
tornava-se rapidamente plúmbeo com o aproximar da noite e de outra
daquelas monções, mas não foi isso que despertou minha audição.
Foi um chamado que vinha do kitnner do aeroporto, onde Margot e
companhia exerciam outra fase daquela orgia gastronômica, aquela
maratona de sólidos & molhados que prometia varar a noite, até
quando os agriões dessem
o ar de sua desgraça e dissessem NÃO!
- Cara, a bolonhesa tá esfriando! -
gritou Sinval, favorecido pelo vento, com uma mão firmando um chapéu
ridículo de chef de
cuisine na cabeça, com a outra agitando um pano de prato,
mesmo daqui visivelmente respingado de extrato de polpa de tomate, -
Nostra tá impaciente. Se não vier agora, não garanto nem a
sobremesa!!
"Maldito burrico. Um poço sem fundo
correndo atrás do prejuízo", pensei.
Minha barriga roncou como pra provar,
diferentemente dos outros, que 'tava forrada de vento. Realmente
esquecera de agasalhar qualquer coisa mais substancial que uma porção
de coco roído.
Destaquei a planilha, o papel
quadriculado, a caneta bastão e soquei-os na topa-tudo. Se mais não fosse, estava feliz por ter conhecido
Zico em pessoa, quando este passara de manhãzinha, encontrando-nos
suados pelo treino, desejando Boa
Sorte e partindo rápido no seu jatinho patrocinado pela
Unicef. Quem mais senão ele pra arriscar ser abatido pelos Agriões
só por manifestar solidariedade onde todos mais se acuavam?
E lá fui eu, não feliz, mas quase,
vestindo a Camisa 10 que o 'galinho' usara em seu último jogo pelo
Flamengo e onde usaria no meu também. Só que no meu caso a camisa
serviria de mortalha...
*
Após a meia-noite, quando a madrugada
badalou sua segunda hora, ainda estávamos todos ali. A pancada de
chuva, por fim afastada pelo vento, chegara para refrescar o ar,
ainda escoando suas seqüelas nas calhas, empoçada no asfalto
esburacado, desimpedindo em seu rastro celeste um raro céu limpíssimo,
coalhado de estrelas cintilantes e um luar fantástico!
Fomos saindo um-a-um de onde cada qual se
entocara, com ou sem companhia, migrando como roedores hipnotizados
e ávidos daquela mágica Lua Nova, tão grande que parecia irreal.
E era.
Eles chegaram.
*
Sentindo o corpo formigar, os cabelos
eletrostaticamente de pé, mal tive tempo de olhar com mais atenção
para os outros, porém superficialmente vendo-os de mãos dadas,
numa correntinha
brasileira...
Corrente humana como viram, e juraram
não fazer igual, em alguns filmes da Copa de 1998, na França.
Inconscientemente estavam assim irmanados no caos.
Sabia que minha sensação não era única,
apertando forte a enganadoramente frágil e esquelética mão de
Obicquá, que, naquele sorriso banguela, sua marca característica,
falou muito mais que mil milhões de palavras verbalizadas.
Desfaleci.
'PRORROGAÇÃO'
(2º TEMPO)
Polímeros e ligas totalmente antiestáticas,
usinadas em astros além de nossa imaginação, tomaram de assombro
nossa equipe de leigos em tudo, incluindo, mesmo, nossa desgraça, o
futebol. Devia fazer alguns minutos que despertei como um kibon humano naquele aposento semicircular, vendo os outros
tremerem, incluindo Omüunk, tão nus quanto eu próprio, soprando
aqueles bafos de respiração fantasmagórica, enregelada.
Estávamos agrupados como um bando de
trogloditas ao redor do fogo recém-descoberto nos glaciares de
outrora, e ainda assim faltava calor, porque fogo
na teoria não
esquentava na prática.
Sabia que a analogia não era lá muito boa, mas quem precisava de
analogia petrificado numa geleira como aquela? Se a idéia dos
Agriões era provocar pneumonia tripla, para uma posterior
vivissecção e estudo, o caminho do freezer já 'tava todo
escancarado. Restava saber somente uma coisa: Por quê tanto
trabalho...
- Che-chefe, você é que cos-tuma lidar
com esses ca-caras-de-na-nabo. É sempre assim nessa fuz-arca? -
titilou a líbera.
Em outra época - e totalmente diversa
circunstância -, aqueles bicos ruivos salientes, os peitos alvos
caindo levemente como duas pequenas e apetitosas jacas, seriam
altamente convidativos a uma exploração tátil-bucal, mas ali,
todos sendo gretados pelo frio, furunfagem era o mais longínquo de
nossos pensamentos e necessidades.
- N-não li-do com eles. É b-bem ao
contrário, Mar-Margot: eles que to-tomam a liberdade de me
apalparem e se-seqüestrarem toda vez que que-querem 'con-conversar'
e capturar um ou outro esperma so-sobrevi-sobrevivente. Esse lugar
é tão novo pra vocês qua-quanto pra mim.
- Fo-fodeu!
Das poucas palavras em português que
Sinval tinha ensinado ao Esquimó, aquela era, dentre todas, a de
pronúncia mais exata, sem vestígio de qualquer sotaque, fora seu
tom gutural de praxe.
Mas cabia aí uma pequena mas
significativa observação: Como todo brasileiro sacaneado por
gringos que 'ensinavam' significados diferente pra palavras
originalmente concebidas em outros usos, Sinval passara à Omüunk
um outro sentido pra
'fodeu'. Para o médio-volante aquela expressão máxima da merda,
quando aludida fora do metiê sexual (ou até dentro dele), passou a
simbolizar o oposto. O dinamarquês estropiado acenado pelo intérprete
e a medíocre compreensão desse idioma pelo esquimó providenciaram
o aporte necessário praquelas heresias. Então...
- Fo-fo-fodeeeeooo!!!...
Veio aquela palavra mágica de novo,
desta feita acompanhada de um apontar insistente da mão, mais
insistente ainda devido ao frio que fazia-a tremer, apontando para
um lugar próximo a uma escultura bizarra, como se concebida de
engradados de cervejas sobrepostos de forma desordenada e equilíbrio
impossível.
Uma porta? E aberta?!... Só podia ser
sacanagem ou a mandinga do Técnico enfim encontrara endereço certo
no ebó!
E lá fomos nós, uma espécie de Três
Patetas em Órbita multiplicados por 6 -1, contudo bem mais
patetas que o trio original, tropeçando porta afora, espatifados do
outro lado como pinos após o strike.
- Hot
air... - entusiasmou-se Basco, o goleiro, esfregando o corpo
franzino com prazer, esquecido de procurar pela centésima-primeira
vez a boina basca em sua cabeça. Finalmente encontrara o que fazer
com suas grandes mãos, fora coquetéis molotov e o cacoete da
boina.
*
A temperatura ambiente agradável em relação
àquilo de antes (em torno dos 15ºC), distraiu-nos por alguns
momentos, providenciando-me tempo suficiente pra um aquecimento,
flexionando todos os músculos enregelados, mesmo ali onde estávamos.
- Mein
Gott!! Was machen Pelé und Beckenbauer in diesen bewegten Bildern...
- saiu metralhando Stu, o atacante, sendo imediatamente assessorado
por Sinval.
- Minha nossa! - traduziu: - Que Pelé e
Beckenbaüer estão fazendo naqueles quadros que se mexem?! Haverá...
E deixamos o intérprete falando sozinho,
exercitando seu sueco com o eco revelador das paredes, digo, com o
que servia de revestimento àquele aposento tão grande quanto um
Maracanã inteiro mais o Maracanãzinho de troco.
Fatalmente acabamos tombando novamente.
Os 17 patetas mais uma vez caídos no chão liso como uma prancha
parafinada, atrapalhados uns com os outros.
- Ninguém levanta daqui, ouviram? Nem
tentem... - sussurrei, cansado de ser fonte de divertimento pra quem
quer que seja.
Não é que o filho-da-puta do Sinval me
traduziu em 6 idiomas e, se não fosse contido, tentaria alguns
dialetos? Contudo meu beliscão pareceu reduzir sua ânsia verborrágica,
retribuindo o murmúrio em francês, inglês e alemão somente:
- Parece que encontramos a Concentração
deles. Se sabem ou não de nossa presença, não serei eu a
perguntar.
E passamos a observar cada movimento,
cada nuance que, decorridos alguns instantes, nenhum de nós, nem
mesmo Daktari, nosso médico otimista do 'Escreti do Riso', duvidou
um momento sequer da grande bosta que era nosso destino.
- Ótimo! Ótimo! Ótimo! - disse o
esquimó, se recusando a continuar olhando, no que era mais feliz
que todo o resto.
Escusava explicar o significado da
palavra 'ótimo' pra ele, pois abaixo de nós se estendia um mundo
repleto de objetos misteriosos que se perdiam na distância. E não
só isso...
"Desconheço quem foi que acionou a merda da alavanca", mas a
plataforma onde estávamos começou a se recolher ao corpo da
parede, restringindo nosso espaço físico no piso derrapante.
- ÓTIMO! - gritava Omüunk, agora em
desespero de causa.
- Porraporraporra - rebatia em resposta
Sinval, estourando meus tímpanos, - Esqueça esse 'ótimo', esquimó
burro!! Isso aqui é Porra,
Caralho!.
*
Não havia mais nenhum vestígio de porta
atrás de nós para onde rastejar, só uma parede tão lisa quanto o
próprio chão movediço, quando Obicquá, que todos pensávamos
desconhecer uma só sílaba de qualquer língua ali presente,
perante o inusitado da coisa, invocou naquele momento um primo ameríndio
distante, mas muito conhecido dos pára-quedistas. Ao subir na grade
que servia de mureta, gritou:
- Jerônimooooooooooo...... !!! -
Saltando no vazio sem hesitar.
Se a oportunidade fosse outra, juro,
poderia ter chorado mas, vendo aquele corpo esquálido boiando
calmamente no abismo, planando como uma gaivota desconjuntada,
obrigou-me a despertar a veia cômica dos outros perante aquele fato
insólito, procurando no fundo de minha mente (e principalmente nos
gibis de Flash Gordon) o termo certo pra explicar aquele fenômeno:
- Gravitação neutra. - Cairíamos de
qualquer jeito mesmo, porquê não fazê-lo com estilo? - O último
a saltar é mulher do Etêeeeeeeee...........
E a chuva de corpos só cessou no último
homem, na verdade na única mulher do grupo, berrando ao cair antes
de ser contida pelo campo de neutralização gravitacional ou coisa
que valha, onde todos nós circulávamos num movimento vortético
rumo à planície lá embaixo.
Como jóia da espécie ela não pode
deixar de fazer o comentário mais temeroso do grupo:
- O etê é bichaaaa.....
*
Chegamos sãos e salvos no chão e a
primeira coisa que encontramos, finda a queda suave e demorada,
foram nossas roupas exaurindo um cheiro que presumimos ser
desinfetante; haviam também várias sacolas de viagem e
equipamentos equilibrados no dorso tosado de Nostradamus, que trotou
feliz em nossa direção; além do índio e o sorriso de gengivas
mais descarado do mundo. Ele, habituado a andar nu naturalmente e
com um saquinho como bagagem, adiantou-se mais uma vez ao grupo,
começando a explorar por conta própria os objetos que do alto
pareceram-nos assustadoramente enigmáticos e ali, ao nosso alcance,
não perderam em nada daquela característica aliando-se a outra bem
piores.
Era uma coleção de 'bolas' imobilizadas
no ar, protegidas por um campo de força doloroso para quem
tencionasse mexer com elas (e houvera casos onde isso foi testato);
bolas de feltro, bexigas de boi, tecido, borracha, crânios, cocos e
outros utensílios que, presumimos, se eqüivaliam mas, de tão
grandes, nunca poderiam ter sido usados por seres humanos. Nossa
jornada no inexplicável, parecendo uma turma de colegiais no
'museu' imenso da nave, revelava um acervo de coisas ora conhecidas,
como o holograma imenso de Pelé e Beckenbaüer se confrontando,
camisas de vários Clubes, taças diversas (inclusive a
presumivelmente derretida Jules Rimet), ingressos de estádios,
'fotos cúbicas', bandeiras e apetrechos diversos; outros, no
entanto, tal como uma massa informe, borbulhante e gelatinosa, não
ganhou nenhuma atenção, salvo Obicquá, o explorador solitário
que nem o Zorro deveria apreciar.
Ia perguntar justo a ele como soubera da
'gravitação' quando um grito efeminado partiu de nossa retaguarda.
Era o bageense todo encolhido, deixando
seu lado feminino afluir:
- Ali, ali!!! - apontava para nossa
direita, uma parede repleta de névoa, com alguma coisa, tal qual
uma estátua, olhando para além de nós.
- É algo, mas certamente estátua não
é... - falei, sentindo naquele exato momento uma pata arriar em meu
ombro.
*
Erguido do chão por meus amigos, fitamos
o varapau de olhos esbranquiçados e longas antenas surgido do nada.
- Que fazem aqui, seres da Terra?
Meus 'amigos' deram um passo para trás e
restou a mim, o ombro dolorido, quase fraturado, 'enfrentar' o
desgraçado que 'tava blindado com um traje de campanha - conforme a
Enciclopédia Zan-Zer definia - inexpugnável.
- Explique-me aquilo, bicho-grilo - nada tinha a perder, fora a vida.
Apontei a assombração embutida,
totalmente descortinada e revelando-se um homem-das-cavernas em seu
habitat, paralisado num gesto agressivo ou de defesa, não sabíamos
ao certo.
A resposta foi sucinta e nada
esclarecedora:
- Por quê?
- Porque nossa espécie agradeceria e não
criaria tantos transtornos para o nobre
Guardião. - Joguei a migalha, esperando que ele papasse a ração.
Pelo visto entalou. Parecendo considerar
a oferta, naquele gesto meio abobado de apalpar o vazio, ao que
indicava sentindo as vibrações ou o credenciava como péssimo
double de mímico.
- Meu mestre autorizou a revelar o
significado deste natura.
- Natura? - arrisquei nova interpelação,
ouvindo o inevitável burburinho de Sinval, traduzindo natura como in
natura, naquela conversa feita em português, somente estando
eu sob a influência dirigida do tradutor do varapau.
- Neanderthal, se preferir. Como este,
temos outros espécimes em galerias anexas, rotulados em relação há
época e estágio evolutivo.
- O pouco que sei de antropologia de
pasquim, diria ser uma réplica perfeita...
- Culpe então seus semelhantes por
parecerem réplicas, pois este é original. TUDO aqui, exceto as
imagens, é original. Esse homóide e tão verdadeiro quanto meu ódio
por sua espécie...
Calou-se (ou foi calado). Recebendo
instruções do Agrião no comando?
- Sejamos
amigos - falou, confirmando minhas suspeitas, contrariando o
desejo palpável de nos aniquilar: - A técnica, em teoria, já é
de conhecimento de vocês, embora não tenha sido dominada
inteiramente: Criogenia. Só temos aqui nômades, gente segregada
que, uma vez capturados sem o seu conhecimento, foram trazidos pelos
tempos e
ecoprogramados num habitat equivalente.
"De 10 em 10 dos seus anos - quando
o metabolismo retardado de sua gente começa seu estágio reversivo,
danificando células -, liberando sua consciência, os devolvemos
por dado período naquilo que se pode chamar de reconvalescimento,
preservando assim o espécime que envelhece numa razão de um mês a
cada milênio..."
A voz do varapau foi ficando mais
profunda, menos mecanizada, tão agradável, levando seu autor a
parecer até bonito, que somente ao ouvir seu próximo comentário
foi que percebi o quanto estávamos sendo lenta e irremediavelmente
drogados:
- ...eles saem e entram nesse estágio de
Êxtase da mesma forma que vocês logo o farão, juntamente com o
quadrúpede, em, espero, a última excursão de suas vidas...
'MORTE SÚBITA'
Chegou o grande dia. Se por um lado o
nervosismo matava-nos, por outro os etês logo fariam igual,
executando o que tivesse sobrado.
A manhã alvoreceu mais uma vez num
vermelho rubro-coral, incendiando o horizonte e, promessa e dívida
pagas, tornou o dia tão 'ensolarado' e o ar parado que até mesmo
respirar era difícil. Sabia que tudo aquilo era psicológico, pois
toda atmosfera ali era controlada. Uma jaula ou um túmulo vip?
Marte, nosso destino após o inconsciente
desembarque da nave, aquele planeta do outro lado, abaixo e por toda
volta da redoma até onde os olhos alcançassem, favorecia esse tipo
de elucubração e forçava vôos tão psicodélicos em todos nós
que, não fosse o policiamento constante da tropa de choque dos Agriões,
há muito não teriam com quem espezinhar.
De fato era uma grande planície
avermelhada juncada de escombros de rocha de todos os tamanhos e
torvelinhos de poeira rodopiando em alguns lugares; naquele deserto
tudo era mais monótono que um filme mudo rodado na caatinga
nordestina na época da pior seca. Não sei se devido àquela falta
de cenário ou monotonia monocromática ou outro qualquer expediente
desviacionista, acabei olhando a imensa torre translúcida que
erguia-se do centro da redoma, varando o espaço até o topo, algo
em torno de 200 metros acima. Meus olhos já não eram como
antigamente, mas pude vislumbrar um minúsculo ponto colorido num
dos níveis médios da torre; um retalho azul, vinho e amarelo que
agitava-se bem levemente sob um tempo de observação mais demorado.
Seria outro suicida? Tivéramos três
tentativas daquilo nessas várias semanas de nossa estadia.
"Definitivamente não mesmo".
Se fosse, os varapaus já estariam agindo
com o rigor costumeiro, materializados aos pelotões para dentro da
redoma, metidos naqueles trajes blindados negros que os faziam pior
que de hábito, saltando por toda parte como molas dotadas de garras
e raios alfinetadores. Se a lembrança disso já dói, imagine o
resto...
E lá fui eu que nunca fora muito
entusiasta de alturas, deixando o agrupamento cinzento de
alojamentos para uma expedição solitária torre acima, favorecido
pela reduzida gravidade, tentando ver aquilo como um exercício
matinal. E confesso, esbaforido, que não consegui.
- Oi - arquejei para o casaco
espalhafatoso que revelou-se como sendo a 'italianinha' estilista do
Brás.
Uma prolongada trepidação interrompeu
aquele começo malogrado de diálogo. Contudo outro tipo de
movimento formou-se naqueles belos lábios que deixavam de lado um
sanduíche de plástico com ovo plástico (cortesia dos nossos
raptores), traindo um assovio de admiração. Ou medo...
- Esse foi dos grandes! - ficou mesmo na
admiração, apontando para o que deveria ser o campo de pouco dos
etês, repleto de edificações cônicas, cilíndricas e
pentagonais, alguns quilômetros adiante na direção das colinas,
ocultando seus outros mistérios. - Acredita que aportaram dezoito
naves desde às duas da manhã?!...
Estava calma, talvez calma em demasia
para alguém cujo o destino já fora selado e extraviado pelo
correio dentro de um vendaval. Vendo seu comportamento aparentemente
relaxado fez-me sentir pior que antes, porém fui atiçado a fazer o
mesmo, senão por inveja, etcha
sentimento terrível!, ao menos pra manter as aparências e
disfarçar só um pouquinho do MEU medo.
- É muito melhor que contar
carneirinhos...
- E não provoca alergias, né! -
acrescentou ela.
Rimos, pois Margot, na Indonésia, vivia
empolada só em ver as cabras pastarem calmamente pelas vias públicas,
como cães vadeando no lixão da cidade, e principalmente as flops, ovelhas de cara preta e lã azul, vermelha, algumas até
multicores, como novelos quadrúpedes, fruto da engenharia genética
(permissivas pela legislação de lá), aumentando a entranheza da
'paisagem'.
Via agora seu nervosismo despido de todo
artifício. A ilusão duma falsa fortaleza, mantida à força por
uma vontade não tão invulnerável quanto gostaria. Ela se tornara
o exemplo pra todos nós e não ocultei-lhe aquele pensamento,
despontando uma lágrima perdida em seu rosto pálido de
menina-mulher.
- Acredita em Deus, Chefe? - lançou a
porção menina nela, dando as costas a grande e expansiva nuvem de
poeira avermelhada que antecedia a aterragem de mais um artefato
alienígena, deixando de marcar um X com batom na chapa da torre.
- Pra quem mais rezaria pra pedir uma
feijoada completa e uma caipirinha nesse lugar esquecido dos homens
e da tradicional comida caseira mineira, uai? - vendo em seu rosto
aquela ausência de sorriso, uma trêmula linha esbranquiçada que
lutava contra o choro, obrigou-me a acrescentar, deixando de lado
meu sotaque de Varginha: - Deus é muito maior que esses astronautas
de merda, querida. Se não fez nada até agora é talvez porque
queira reservar um ou outro milagrezinho pra usar no jogo mais
tarde.
Desta vez, diferente do que esperava,
consegui um pequeno lampejo de brilho em seus lábios, em detrimento
de minha própria agonia silenciosa, que aumentou ainda mais quando
desviei os olhos do porto espacial e (coisa que até então evitara)
olhei para a imensa cúpula do 'estádio' refulgindo sob os fracos
raios do sol de Marte.
Dez horas nos separavam dali. Um
intervalo muito curto entre a vida e a morte, mas o único que dispúnhamos.
'PENÁLTIS'
A reunião já acontecia quando me juntei
aos outros na colmeia central que nos foi destinada como
alojamentos. Já quase me adaptara a ouvir nossas vozes sendo
uniformizadas - quando falávamos em ritmo normal e em isolado -,
suplantando a babel original de idiomas desconexos pela atuação do
Tradutor Pleno, 'aposentando' temporariamente o triste Sinval,
perante o novo presente dos Agriões, em operação desde nossa
instalação ali, se vão mais de vinte dias.
<Presente de Grego> pois, se por um lado, quanto mais falássemos,
abasteceríamos a aparentemente ilimitada capacidade de memória e
combinações da máquina, dando variações de timbre e conotações
que uma mesma palavra assumia nas diferentes línguas -
universalizando o diálogo como se fosse uma dublagem malfeita no
sentido da sincronização -, por outro prisma, alardeávamos também
o inimigo do que ia em 15 almas (o camaronês não precisava do
expediente da voz para conseguir ser 'ouvido' e Obicquá parecia
carta fora do baralho, permanecendo alijado na maior parte do
tempo), passando a eles nossas conversas, expondo os medos e, muitos
de nós, a revolta.
- ... quanto pesa uma bola oficial? Uma,
duas libras...? - sondava o norte-irlandês, acalorado.
Sentei no chão de concreplástico, numa
posição relativamente privilegiada junto ao semicírculo de
beliches pneumáticos, procurando observar até o ponto quando e se devesse intervir.
- Pois então, que sejam duas!! - voltou
Levinsk, sopesando uma pelota que alguém lhe lançara, rodopiando-a
no dedo como se demonstrasse a 'dinâmica da bola': - Tive algumas
aulas de Álgebra Linear e Física antes de me ferrar como militante
do IRA. O negócio é o seguinte: sob a gravidade de Marte (a), que
verificamos ser pouco mais da metade da terrestre, um corpo com esse
tipo de massa (b), pode, fácil, se devidamente acelerado por um
chute mediano (c), atingir 200 quilômetros por hora.
"Eu é que não vou segurar uma equação dessa!!!!"
Mortalmente pálido, devendo estar
projetando em sua mente a imagem dele como goleiro frente ao míssil
de couro, afastou a bola que saiu rolando sem destino pelo soalho
liso.
Obicquá, vindo lá do fundão, onde
estivera entretido com alguns 'amuletos' desde antes de minha
chegada, resolveu abrir o bico:
- Uma vez um curumim da tribo Xavante foi
tentar pescar no lago com uma pena de garça, quando o Grande Espírito
das Águas, jorrando de uma fonte, interrogou:
<- Por quê não joga tua lança e acerta o pintado como todo mundo,
curumim?>
<- Senhor das Chuvas e das Fontes, como um pequeno nada como eu posso
almejar ser um chefe índio se faço as mesmas coisas que meus irmãos?>
Ninguém esperava aquilo de onde vinha. O
jovem nepalense, Pong, talvez sentindo-se visado pela aparente
lenda, foi o primeiro a se manifestar:
- E que moral há nisso, curandeiro?
- Repetir não é a solução... -
arriscou Sinval.
- Somos falhos mas a paciência suplanta
tudo? - 'chutou' o melancólico mexicano.
O Xamã olhou de um para o outro, balançou
a cabeça, a cabeleira descorada entretecida por miçangas, os olhos
negros no rosto seco como um maracujá de gaveta, brilhando
encravados no fundo de suas órbitas, aprisionando o conhecimento
que nós, 'civilizados', não tínhamos.
- Se mesmo um ser superior dá-se ao
trabalho de perguntar a um imbecil porque faz um asneira assim, então
resta sempre uma esperança do Idiota (todos nós) ganhar o Paraíso
(o jogo)... - vaticinou.
O olhar que endereçou-me era muito mais
que eloqüente e isso o tradutor simultâneo nunca aprenderia a
igualar. Seria eu o tal idiota? Na dúvida, tentei traduzi-lo:
- Diacho! Acho que Oddo quer dizer algo
que nunca pensamos, a hipótese mais óbvia que existe, no entanto
nunca falada...
Todos viraram-se pra mim, esse todos
incluindo o jumento Nostradamus, que ali estava pra nos fazer
companhia e trazer um pouco de imundice da velha Terra pra junto de
nosso isolamento em Marte.
- Pensem, senhores! Tudo que se falou até
agora é bola isso, peso aquilo, chute aquilo outro. Padrões de jogo humano. Premissas válidas num esporte sob condições
que evoluíram a
partir de rudimentos até chegar aos fundamentos aceitos por boa
parte da civilização atual.
"Ninguém nunca cogitou, nem eu
mesmo - não antes de Obicquá falar -, na hipótese do futebol
deles, o dela (ainda
mais sendo Inspiração Divina como afirmam), apresentar-se duma
forma inconcebível perante o nosso modo terrestre de jogar bola.
"Vimos a bordo de nosso transporte,
semanas atrás, vários materiais coletados na Terra; assistimos
filmes de Seleções do passado; enfim, varamos noites em claro treinando padrões humanos, pressupostos humanos, com times e
regra humanas. Por quê será que não escalaram jogadores
profissionais ou até amadores, já que pouparia bastante trabalho?
Não será porquê pouco importa o futebol como o conhecemos? Acham,
amigos, que isso aí que enfrentaremos logo mais é algo
minimimamente humano?"
De minha boca, infelizmente, veio o
petardo final. Logo eu, que jurara preservar o mínimo de orgulho e
entusiasmo naquele grupo de exportados made
in Terra.
'DECISÃO FINAL'
Ainda existia alguma luz natural, mas o
dia naquele verão equatorial em breve traria o 'luar' da Terra para
o céu de Marte; a temperatura exterior, em menos 18ºC, servindo de
arauto, já baixava vertiginosamente. Além dessas informações, o
servo-mecanismo que dirigia aquele 'minhocão' tentava socar em
nossas mentes uma avalanche de outras plenamente dispensáveis.
O silêncio no vagão flutuante era
funesto, e não podia ser doutra forma.
Uns entretinham-se em fingir dormir,
outros, como eu, víamos o veículo entrar nas sombras eternas das
monumentais cordilheiras, esperando que o 'minhocão' nunca mais saísse
de lá, rumo ao campo de pouso e, mais adjacentemente, o Estádio
Marciano.
Obicquá, como sempre contraditório,
passara a cantarolar em seu canto na traseira do veículo, quando um
som ensurdecedor, precedido de uma onda de choque, fez o vagão
tombar sobre seu eixo de flutuação. Não fosse a ação automática
do servo-mecanismo intervir em sentido contrário, estabilizando a
derivação abrupta, teria sido lançado contra os contrafortes, ai,
babau...
- Ô da geringonça! - o gigante
costumeiramente calado, originário de Óbidos, ostentando um Sr.
galo na testa, tentou novamente: - Que merda é essa!! Aprendeu a
dirigir nos coletivos do Rio de Janeiro, por acaso, animal?
A resposta foi imediata, ainda que
desprezando completamente o comentário colorido.
AVISO AOS PASSAGEIROS. ZONA DE TURBULÊNCIA
NO ESPAÇOPORTO. DECOLAGENS SEM REGISTRO NO BANCO DE DADOS.
EFETUANDO POUSO DE EMERGÊNCIA PARA EVITAR DANO ESTRUTURAL E NA
CARGA. FIM DA TRANSMISSÃO.
Foi num pequeno anfiteatro natural feito
de rochas azuladas que tivemos a privilegiada observação do campo
de pouso e vimos praticamente todas as naves que Margot dera-se ao
trabalho de contar partirem numa espécie de fuga desordenada, como
o estouro duma manada espacial...
*
Passado o terrível instante, quando o veículo
em que estávamos parara de reverberar e o porto se esvaziara quase
por completo, exceto por duas naus menores, ouvimos o Xamã soltar
uma risadinha que nos pareceu demente, depois, plenamente
justificada, isto é, caso os dementes não fôssemos nós.
- O ente criador nos fez todos
imperfeitos por um motivo. O respeito tinha de ser comum a todas as
espécies, não importa onde fossem geradas. Não se pega uma sucuri
pelo rabo sem o risco de se poder levar uma mordida na bunda, ou se
flecha um jacaré na sua couraça, pra isso sua barriga é macia e
fraca...
- Onde quer chegar com essa chacrinha,
velho? - indaguei, com medo até de respirar, pois via naquilo algo
que presenciei num terreiro de Umbanda, antes de decidir procurar
respostas em outros lugares. Algo não muito 'científico'.
- No princípio, na origem de tudo.
Agora tive receio até de perguntar... O
que Deus teria a ver com aquele fumo de rolo dos grossos?
Como pra me socorrer, Obicquá expôs as
gengivas que não mais estavam despidas de dentes, a mandíbula se
projetando como um focinho curto, o restante do corpo passando por
uma acelerada transfiguração.
- Se Deus existe, não sei. Andei muito, vivi bastante, porém, nunca
encontrei-o vagando por aí como entidade não-autóctone.
O 'Xamã' perdera seu estereótipo e
crescera aos nossos olhos como um arranha-céu perante um ridículo
casebre.
- Exteriormente um barraco pode ser ínfimo,
mas a 'alma' dentro
dele pode torná-lo tão grande quanto qualquer espigão - explicou,
como se lesse meus pensamentos: - Como
lendo e não SE, Zé!
Ao ouvir aquilo, acho que me borrei todo.
Em todo caso, se notou, preferiu continuar com seu discurso:
- Como dizia, Deus foi uma boa invenção que plantamos nos primórdios da raça
humana, e em muitos outros povos também, com o fito de torná-los
mais reverentes com o dom que lhes fora outorgado. O dom da vida. Se
cheguei ao estágio atual, devo a outros que se padeceram dos da
minha espécie. Nem sempre fomos esclarecidos.
"Contudo, não tivemos êxito com
uma grande fração de povos desta e outras galáxias. Eles só
conhecem - e respeitam - aquilo que lhes verga o espírito,
tornando-os escravos ou mortos. Agriões
é um ótimo nome para aqueles para-vegetais e todos seus
'amigos'.
"Providenciamos alguns problemas sérios
em seus planetas e soberanias de origem, desestabilizando diversas
castas e, assim, como num filme simplificado sem o costumeiro clímax
e anticlímax, que prende a platéia até o fim, tirei-os de seu
caminho, providenciando alguns séculos para a Terra se preparar
para uma nova investida que, digo-lhes já, ocorrerá em menos de
300 de seus anos; o tempo que 'nossos transtornos cumulativos' levarão
para serem superados; até lá, vão até o estádio, vejam por si
mesmos que o dela
deles pouco mais é que um ritual de acasalamento onde uma
'bola-organela' de hormônios é depositada no campo-charco e todos
os adversários se retalham para poder engoli-la. Ou morrem
tentando. Faço questão que vão e vejam com seus olhos o que
sobrou em termo de despojos da 'partida' preliminar que os Agriões
patrocinaram entre algumas subespécies para introdutório do 'prato
principal', digo, sua Seleção.
"Antes, outro esclarecimento: Sua raça
até que é simpática aos nossos olhos, porém simpatia não é
quesito que SOMA na Grande Comunidade. Não fazemos isso porquê
'somos simpáticos', mas pelos Agriões serem recorrentes, mais de
uma vez chamados perante nós, Vigilantes, por SUBTRAÍREM com algo
além do que advertimos que o fizessem. Como disse, deflagramos já,
enquanto falo, a revolta em mais de vinte dos planetas daquela
soberania; alguns outros, os mais cotados de arrivismo, tratamos de
erradicar sumariamente."
O silêncio se manteve por um bom tempo,
mas paulatinamente a língua de alguns começara a coçar.
- Isso acarretaria a morte de milhares...
- murmurou Sinval, abestalhado como todo o resto de nós.
- Milhões. Centenas de Milhões. Por
isso somos lentos em julgar, porém imediatos em aplicar o veredicto
final. Poderia continuar infiltrado entre vocês e gozar de cada
minuto com esse grupo, indo à frente, chegando no estádio dos Agriões
e, por meio de qualquer 'garrafada mágica', sem me expor, forçar
nosso grupo a beber um aditivo que deixaria seus poderes latentes
afluírem, fazendo daquela partida um fato memorável. Mas humor,
para os Vigilantes, não...
- ... SOMA, não é mesmo? - antecipei, não
conseguindo me conter.
- Exato, Zé! Entendi o sarcasmo. A
Grande Comunidade dos Vigilantes não nutri qualquer humor, o que é
uma pena, pois o universo carece bastante de humoristas e abunda em
ranzinzas exterminadores, o que não deixa de credenciá-los também
nesse aspecto, que espero consigam resolver antes de nosso próximo
encontro.
"Todavia, voltando à 'vaca fria',
como diriam vocês, gostaria que não se preocupassem com seu
retorno à Terra. Esse servo-mecanismo será seu cicerone,
reprogramado para atendê-los e deixá-los cada qual em seu destino.
Os Vigilantes fizeram sua parte."
- E quem vigia os policiais? - saí com
essa, vendo-o mexer-se de forma suspeita no assento.
- Boa pergunta. Acreditaria em deus como
resposta?
Aquele ser abjeto gargalhou antes de
desaparecer, irradiando um agradável hálito térmico, fazendo
aquele som, mesmo após sua partida, repercutir no local de sua
anterior estada, deixando isso e a cadeira vazia, gravada com
algumas palavras a título de despedida:
ESTE NÃO É APENAS O FIM
MAS O COMEÇO DE UMA
NOVA HISTÓRIA
Aproveitem, senão...
Rogério Amaral de Vasconcellos
Rogamvas produções Ltda.
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