Paixão Cega

 Marco Bourguignon

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0071]
[Autor: Marco Bourguignon]
[Título: Paixão Cega]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 735]

 

Falava-se de mulheres à respeito de amores recentes. Era uma reunião de amigos, à rua Primeiro de Março, numa mesa de bar, e cada um tinha uma história para contar.

          Então, o velho João, motorneiro de Santa Teresa, falou com sua voz baixa e rouca: - Eu tenho um caso estranho, tão estranho para contar... Já decorreram sete anos desde que me aconteceu e não se passa uma noite sem que a reviva em sonhos. Ela surge a cada noite para me assombrar. São mistérios que não podemos explicar! Esta história deixou-me perturbado, de uma forma misteriosa, terrível e profunda. Nunca ousei contá-la, mas agora a assombração é maior.

         Busco alívio do meu coração, da minha alma e da minha tristeza. Guardei o segredo no meu mais doloroso âmago.

         Vou contar-lhes a aventura, sem entrar detalhes. Podem imaginar que sou louco, mas quem não teve suas horas de loucura?! Eis os fatos: Foi em 1980, no mês de janeiro. Encontrava-me em Santa Teresa.

         Dirigia o meu bonde de lá para cá, subindo e descendo o bairro.

         Fazia muito calor. As meninas em trajes sumários eram um colírio para os meus olhos. Todas pareciam ir à praia. Quando passava pelos Arcos da Lapa, uma jovem tocou em meu ombro. Assustei-me, desviei a atenção da manivela do carro.

         Era Maria a quem muito amava. Ela nunca tinha dado abertura suficiente para o meu amor. Havia três dias que não a via na janela. Pasmem! Eu sempre passava pela janela de Maria antes de ir trabalhar, só para vê-la sorrir. Era o sol da minha vida! Parei o bonde na estação. Ela tinha olheiras negras e fundas, contrastavam com a pele alva do rosto. Ela era mui branquinha! Os cabelos vermelhos como fogo. Usava um vestido verde musgo e os pés nus. Compreendeu a minha surpresa e falou-me que precisava muito de minha ajuda.

        "Graças que o encontrei" - ela me disse -" vou lhe pedir que me preste uma ajuda: buscar-me em minha casa. Preciso sair esta noite, não posso ficar um minuto em paz naquela casa".

         "Dar-lhe-ei - continuou - a chave da minha casa. Entre, vá até o meu quarto e me apanhe. Serei toda sua esta noite. Mas não pode passar desta noite".

          Maria desceu do bonde logo após me estender a mão a chave. Seguiu à rua Senador Dantas e desapareceu entre os prédios. Confesso-lhes que desejei muito ir atrás dela, mas não podia deixar o bonde.

          À noite, às oito horas, estava em minha casa a pensar em Maria.

          Comecei a ter desejos carnais. Lábios rosados e olhos verdes. Fiquei a olhar a chave que abriria a porta do paraíso. Eu queria ter uma noite intensa de paixão.

          Juro, meus amigos, que não hesitei. Meus hormônios fluíam por todos os poros. Saí à noite quente de verão. Ouvi o pio de uma coruja. Mau agouro, pensei comigo mesmo. Caminhei pelas ruas mal iluminadas de Santa Teresa até o portão de Maria.

          Os cães ladravam na vizinhança. A casa estava às escuras. Pensei em gritar o nome de Maria. Não gritei, tinha a chave. Empurrei o portão do quintal e caminhei até uma pequena varanda. Enfiei a chave na porta e virei.

          Abri lentamente a porta da casa. Entrei. Maria! Maria! Repeti bem baixinho.

          Comecei a imaginá-la nos meus braços e a fazer amor. A porta bateu com violência. Tentei abrí-la, mas parecia emperrada. Maria! Maria! Chamei.

          Ninguém respondia.

          A sala estava tão escura que a princípio não consegui distinguir nada. Detive-me impressionado por aquele insípido cheiro de carne podre.

          Depois, pouco a pouco, meus olhos habituaram-se à obscuridade e vi com nitidez os móveis da casa: um sofá, uma mesa de centro, algumas cadeira caídas no chão. Tentei acender a luz, mas parecia queimada.

          Dirigi-me à janela fazer entrar um pouco de luz. A luz da lua penetrou quebrando a monotonia da escuridão. Um silêncio prevaleceu. Só o pio da coruja. Mau agouro! Procurei o caminho para o quarto onde Maria devia estar deitada me esperando. Senti um vento gelado, um pequeno arrepio singular e desagradável.

          Localizei uma porta aberta e adivinhei ser o quarto de Maria.

         Maria estava deitada na cama. Bela, branca e nua. Uma luz saía de seu corpo e iluminava o quarto. Escorri minhas mãos por suas coxas. Ela estava gelada. Abri lentamente suas pernas e fiz amor.

          No dia seguinte, meus amigos, o legista confirmou: Maria estava morta há três dias.

Fale com o autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Webmaster: Marta Rolim

Hosted by www.Geocities.ws

1