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Falava-se de mulheres à respeito de amores recentes. Era uma reunião
de amigos, à rua Primeiro de Março, numa mesa de bar, e cada um
tinha uma história para contar.
Então, o
velho João, motorneiro de Santa Teresa, falou com sua voz baixa e
rouca: - Eu tenho um caso estranho, tão estranho para contar... Já
decorreram sete anos desde que me aconteceu e não se passa uma
noite sem que a reviva em sonhos. Ela surge a cada noite para me
assombrar. São mistérios que não podemos explicar! Esta história
deixou-me perturbado, de uma forma misteriosa, terrível e profunda.
Nunca ousei contá-la, mas agora a assombração é maior.
Busco alívio do
meu coração, da minha alma e da minha tristeza. Guardei o segredo
no meu mais doloroso âmago.
Vou contar-lhes a
aventura, sem entrar detalhes. Podem imaginar que sou louco, mas
quem não teve suas horas de loucura?! Eis os fatos: Foi em 1980, no
mês de janeiro. Encontrava-me em Santa Teresa.
Dirigia o meu bonde
de lá para cá, subindo e descendo o bairro.
Fazia muito calor.
As meninas em trajes sumários eram um colírio para os meus olhos.
Todas pareciam ir à praia. Quando passava pelos Arcos da Lapa, uma
jovem tocou em meu ombro. Assustei-me, desviei a atenção da
manivela do carro.
Era Maria a quem
muito amava. Ela nunca tinha dado abertura suficiente para o meu
amor. Havia três dias que não a via na janela. Pasmem! Eu sempre
passava pela janela de Maria antes de ir trabalhar, só para vê-la
sorrir. Era o sol da minha vida! Parei o bonde na estação. Ela
tinha olheiras negras e fundas, contrastavam com a pele alva do
rosto. Ela era mui branquinha! Os cabelos vermelhos como fogo. Usava
um vestido verde musgo e os pés nus. Compreendeu a minha surpresa e
falou-me que precisava muito de minha ajuda.
"Graças que o
encontrei" - ela me disse -" vou lhe pedir que me preste
uma ajuda: buscar-me em minha casa. Preciso sair esta noite, não
posso ficar um minuto em paz naquela casa".
"Dar-lhe-ei -
continuou - a chave da minha casa. Entre, vá até o meu quarto e me
apanhe. Serei toda sua esta noite. Mas não pode passar desta
noite".
Maria desceu
do bonde logo após me estender a mão a chave. Seguiu à rua
Senador Dantas e desapareceu entre os prédios. Confesso-lhes que
desejei muito ir atrás dela, mas não podia deixar o bonde.
À noite, às
oito horas, estava em minha casa a pensar em Maria.
Comecei a ter
desejos carnais. Lábios rosados e olhos verdes. Fiquei a olhar a
chave que abriria a porta do paraíso. Eu queria ter uma noite
intensa de paixão.
Juro, meus
amigos, que não hesitei. Meus hormônios fluíam por todos os
poros. Saí à noite quente de verão. Ouvi o pio de uma coruja. Mau
agouro, pensei comigo mesmo. Caminhei pelas ruas mal iluminadas de
Santa Teresa até o portão de Maria.
Os cães
ladravam na vizinhança. A casa estava às escuras. Pensei em gritar
o nome de Maria. Não gritei, tinha a chave. Empurrei o portão do
quintal e caminhei até uma pequena varanda. Enfiei a chave na porta
e virei.
Abri
lentamente a porta da casa. Entrei. Maria! Maria! Repeti bem
baixinho.
Comecei a
imaginá-la nos meus braços e a fazer amor. A porta bateu com violência.
Tentei abrí-la, mas parecia emperrada. Maria! Maria! Chamei.
Ninguém
respondia.
A sala estava
tão escura que a princípio não consegui distinguir nada.
Detive-me impressionado por aquele insípido cheiro de carne podre.
Depois, pouco
a pouco, meus olhos habituaram-se à obscuridade e vi com nitidez os
móveis da casa: um sofá, uma mesa de centro, algumas cadeira caídas
no chão. Tentei acender a luz, mas parecia queimada.
Dirigi-me à
janela fazer entrar um pouco de luz. A luz da lua penetrou quebrando
a monotonia da escuridão. Um silêncio prevaleceu. Só o pio da
coruja. Mau agouro! Procurei o caminho para o quarto onde Maria
devia estar deitada me esperando. Senti um vento gelado, um pequeno
arrepio singular e desagradável.
Localizei uma
porta aberta e adivinhei ser o quarto de Maria.
Maria estava
deitada na cama. Bela, branca e nua. Uma luz saía de seu corpo e
iluminava o quarto. Escorri minhas mãos por suas coxas. Ela estava
gelada. Abri lentamente suas pernas e fiz amor.
No dia
seguinte, meus amigos, o legista confirmou: Maria estava morta há
três dias.
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