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O carro corria velozmente. Altas horas da noite, eu viajava
por uma estrada, não muito confiável. Curvas perigosas eram
sinalizadas não com placas educativas ou informativas do DER, mas,
com várias cruzes indicando que muitos se foram desta vida, para
melhor.
Ao volante, ouvia música sertaneja e rodava sem preocupar com
o velocímetro apontando para o não permitido. A estrada não me
dava condição para isso mas, a pista estava vazia, como o meu
automóvel.
Pretendia chegar logo ao destino. Resolvi viajar sozinha por
ser uma viagem apressada e pretendia voltar, logo que realizasse o
meu trabalho.
Convidada à proferir uma palestra, num encontro de
adolescentes, sobre Ética e Cidadania, não poderia nem pensar em
chegar atrasada, muito menos, não comparecer ao evento.
A cidade era distante, mas, a velocidade por mim estabelecida,
devoraria cada quilômetro, num espaço de tempo bem curto. O
celular tocava com freqüência. Eram as coordenadoras do evento,
certificando-se quantas horas eu ainda gastaria para chegar ao locar
do encontro. Sabia que não precisava apressar tanto porque outras
atividades estavam também programadas para esta reunião.
Repentinamente, o carro parecia não querer andar. A
velocidade diminuía ou às vezes acelerava, a cada metro
percorrido. Comecei a ficar com medo. Medo que agravava quando
olhava para um lado e outro, só avistava pirambeiras profundas. Lá
na frente, as montanhas pareciam bloquear a minha estrada. A lua no
céu, clareava toda a região amenizando o meu pavor. - Passei
tantas vezes nessa estrada e nunca me amedrontei. O que está
acontecendo hoje? Até o carro parece diferente, emperrado...
A velocidade oscilava sem justificativa... Quanto mais eu
acelerava, o carro parecia recuar. Quando eu apertava o freio ele
queria arrancar. Eu já não sabia comandar a direção. Analisava
todo o painel e estava tudo em ordem. O tremor incomodava até ao
passar a marcha. Não raciocinava com precisão. Não sabia se
estava sentada, deitada ou em pé. Havia momentos, fração de
segundos, que me apresentavam esquecimentos. Noutros instantes,
todas as minhas reações pareciam ser ao contrário. Lembrei-me do
celular e disquei com rapidez para pedir ajuda. Também não
sinalizava contatos. Com receio de acidentar-me, e com muito
trabalho, consegui estacionar no acostamento.
Sem saber o que fazer, fiquei a olhar ao meu redor. Fechei e
travei todas as portas do carro. Decidi esperar até passar o perigo
e tomar pé da situação.
Observei que, lá na minha frente, uns dois quilômetros mais
ou menos, uma estrela – ou algo semelhante- muito estranha, vinha
em minha direção, como se procurasse lugar para aterrissar.
Decidida voltar para casa, tentei ligar o carro e nada. Não
obedeceu ao comando. A vontade de gritar tomava conta de todo o meu
ser. Gritar para quem ouvir? As forças foram se acabando. Queria
sumir dali e não conseguia. Precisava rezar com urgência. Começava
a oração e não sabia continuar.
A luz foi se aproximando, se aproximando, quase ofuscando a
minha visão. Agora não tinha como correr. Travara tudo. Até o meu
coração queria parar. Lágrimas jorravam com força. Quanto
arrependimento por estar sozinha naquele ermo lugar.
Bem de perto, pude observar com mais clareza, que se tratava
de um objeto luminoso. Possuía um formato de ovo de páscoa,
enorme, um pouco achatado nos pólos. Brilhava tanto que iluminava
tudo ao nosso redor. Era todo prateado com listras douradas.
Quanto mais o medo aumentava mais eu fixava no objeto
estranho.
Arrebanhei forças e fiquei agachada sobre o banco, só na
espreita, na esperança de não ser detectada ou mesmo conectada no
objeto voador.
Perguntei a mim mesma: - Quem poderia estar pilotando aquela
nave, naquele lugar isolado? O que estão procurando? Tomara que não
seja eu.
Quando disse assim, a porta da nave se abriu e dela saiu um
ser estranho com características de não ser habitante terrestre.
O pavor aumentou ainda mais quando ele caminhou em minha direção,
com passos largos.
Santo Deus! Apesar de estar frio eu suava como se fosse
"tirador de espírito." Parou bem na frente do meu carro.
Era um animal escomunal. Possuía quatro braços, sendo dois nas
costas. À medida que se deslocava, os braços abanavam como se
fossem voar. Na cabeça, dois chifres luminosos soltavam faíscas
coloridas. Os olhos, com pupilas fluorescentes, piscavam com freqüência
acelerada. A vestimenta era muito estranha e extravagante;
semelhante a coro de cobra, escamosa, escorregadia e brilhante. Como
brilhava! Apesar do medo que sentia, era lindo!
O estranho foi chegando bem perto do carro e eu tremi ainda
mais, nas bases. Murmurei comigo mesma:
- Será que ele percebeu que estou aqui? Serei morta e ninguém
saberá. O que ele fará comigo?
Procurando esconder-me entre os bancos do carro, observava com
mais tranqüilidade.
Ele agora, parecia um mutante, com garras na parte superior
das mãos enormes e com unhas afiadas. Dentes pontiagudos como se
fossem de um vampiro, sorria maldosamente para aumentar o meu pavor.
As orelhas, fora do comum, grandes e afinadas nas extremidades,
abanavam para lá e para cá. O nariz, não tinha outra forma senão
de um nariz de porco gordo, com a variação de só um orifício
central.
Observando e certificando de que não era um ser humano,
soltei um grito estridente:
- Socorro ! Socorro! Alguém me ajude!
Ele nem se abalou. Aproximou, mirou bem onde eu estava e,
puxando-
me pelos cabelos - que eram enormes - para fora do carro.
Arrastando-me sem pressa, jogou-me dentro daquilo que eu acreditei
ser um Engenho Interplanetário. Resisti o quanto pude mas ele era
poderoso. Tinha forças de gigante. Acalmei um pouco quando percebi
que não pretendia maltratar-me.
Dentro do apavorante objeto, um outro elemento com as mesmas
características do primeiro, sentou-me numa poltrona e começou a
fazer raio X de cada parte do meu corpo. Seu olhos penetrantes, eram
um aparelho infalível.
Depois desse estudo, iniciou-se a tarefa de ligar aparelhos em
meu corpo. Cada veia saliente, era um ponto de uma enorme tarrafa
que se desprendia do teto da "nave." Nunca vi tanto
emaranhado de fios no corpo de uma pessoa. Ele observava cada
detalhe, sem ser ousado. Deslizava a mão, bem devagar, como se
estivesse fazendo alguma pesquisa, confirmando suas análises.
Parecia penetrar dentro de cada célula viva, com admiração.
O medo que eu sentia era tanto, que não dava para observar as
suas conclusões.
Os meus braços, um de cada vez, recebia um aparelho
"sugador" de sangue. Neste momento apelei por piedade, mas
eles não sabiam o que era isso. Quando foi penetrado na veia , eu
desmaiei...
Não sei por quanto tempo permaneci naquele lugar...
Quando acordei, o sol já estava alto. Castigava o meu corpo.
O calor caustigante ardia no meu rosto .
Sentindo que alguém me chamava, tinha medo de abrir os olhos.
Era uma sonolência brutal. Ouvi palavras mais fortes, mais
estridentes: - Quem é você? O que faz aqui nesta mata?
- Eu não sei. Sinto sede. Preciso de água.
- Vou buscar mas, primeiro quero saber como se chama.
Demorei a responder:
- Meu nome é Teliza... Teliza Sanguinet.
- Aquele carro ali é seu?
- Sim. Parece ser o meu.
- Por que o deixou lá e veio para este lado?
- Devo ter tido uma crise. Sou sonâmbula, - menti.
- Se tem esta mania, não devia viajar de noite.
- Foi só essa vez. Tinha um compromisso urgente.
- Nada justifica arriscar a vida. Parece que precisa de um médico.
- Acredito que você esteja com a memória fraca.
- Não, não será preciso. Estou muito bem. O pior já
passou.
Aos pouco fui lembrando tudo que havia acontecido. Olhando
para os braços observei as picadas das agulhas nas veias e senti as
marcas, na testa.
O carro intacto estava estacionado no mesmo lugar que eu havia
estacionado .
O cavalheiro ajudou-me a caminhar até ao carro, observou as
minhas possibilidades de dirigir e desejou-me uma boa viagem.
Eu não podia contar para ele o ocorrido. Pensaria que eu
estava mesmo maluca.
Tentando dirigir, pavorosa, cheguei à cidade, atrasada,
causando o maior transtorno para os organizadores do encontro. Não
encontrava motivo para justificar a minha falta. Não podia relatar
a verdade porque ai eu ficava taxada como louca.
Cancelando a minha fala, arranjei um acompanhante e voltei
para casa. Não teria condição psicológica, para proferir sobre o
tema agendado. Poderia falar sim, sobre uma noite de horror,
sozinha, na estrada...
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