Pesadelo na Estrada

Juraci Oliveira Chaves

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0070]
[Autora:
Juraci Oliveira Chaves]
[Título: Pesadelo na Estrada]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 1.400]

   

O carro corria velozmente. Altas horas da noite, eu viajava por uma estrada, não muito confiável. Curvas perigosas eram sinalizadas não com placas educativas ou informativas do DER, mas, com várias cruzes indicando que muitos se foram desta vida, para melhor.

Ao volante, ouvia música sertaneja e rodava sem preocupar com o velocímetro apontando para o não permitido. A estrada não me dava condição para isso mas, a pista estava vazia, como o meu automóvel.

Pretendia chegar logo ao destino. Resolvi viajar sozinha por ser uma viagem apressada e pretendia voltar, logo que realizasse o meu trabalho.

Convidada à proferir uma palestra, num encontro de adolescentes, sobre Ética e Cidadania, não poderia nem pensar em chegar atrasada, muito menos, não comparecer ao evento.

A cidade era distante, mas, a velocidade por mim estabelecida, devoraria cada quilômetro, num espaço de tempo bem curto. O celular tocava com freqüência. Eram as coordenadoras do evento, certificando-se quantas horas eu ainda gastaria para chegar ao locar do encontro. Sabia que não precisava apressar tanto porque outras atividades estavam também programadas para esta reunião.

Repentinamente, o carro parecia não querer andar. A velocidade diminuía ou às vezes acelerava, a cada metro percorrido. Comecei a ficar com medo. Medo que agravava quando olhava para um lado e outro, só avistava pirambeiras profundas. Lá na frente, as montanhas pareciam bloquear a minha estrada. A lua no céu, clareava toda a região amenizando o meu pavor. - Passei tantas vezes nessa estrada e nunca me amedrontei. O que está acontecendo hoje? Até o carro parece diferente, emperrado...

A velocidade oscilava sem justificativa... Quanto mais eu acelerava, o carro parecia recuar. Quando eu apertava o freio ele queria arrancar. Eu já não sabia comandar a direção. Analisava todo o painel e estava tudo em ordem. O tremor incomodava até ao passar a marcha. Não raciocinava com precisão. Não sabia se estava sentada, deitada ou em pé. Havia momentos, fração de segundos, que me apresentavam esquecimentos. Noutros instantes, todas as minhas reações pareciam ser ao contrário. Lembrei-me do celular e disquei com rapidez para pedir ajuda. Também não sinalizava contatos. Com receio de acidentar-me, e com muito trabalho, consegui estacionar no acostamento.

Sem saber o que fazer, fiquei a olhar ao meu redor. Fechei e travei todas as portas do carro. Decidi esperar até passar o perigo e tomar pé da situação.

Observei que, lá na minha frente, uns dois quilômetros mais ou menos, uma estrela – ou algo semelhante- muito estranha, vinha em minha direção, como se procurasse lugar para aterrissar.

Decidida voltar para casa, tentei ligar o carro e nada. Não obedeceu ao comando. A vontade de gritar tomava conta de todo o meu ser. Gritar para quem ouvir? As forças foram se acabando. Queria sumir dali e não conseguia. Precisava rezar com urgência. Começava a oração e não sabia continuar.

A luz foi se aproximando, se aproximando, quase ofuscando a minha visão. Agora não tinha como correr. Travara tudo. Até o meu coração queria parar. Lágrimas jorravam com força. Quanto arrependimento por estar sozinha naquele ermo lugar.

Bem de perto, pude observar com mais clareza, que se tratava de um objeto luminoso. Possuía um formato de ovo de páscoa, enorme, um pouco achatado nos pólos. Brilhava tanto que iluminava tudo ao nosso redor. Era todo prateado com listras douradas.

Quanto mais o medo aumentava mais eu fixava no objeto estranho.

Arrebanhei forças e fiquei agachada sobre o banco, só na espreita, na esperança de não ser detectada ou mesmo conectada no objeto voador.

Perguntei a mim mesma: - Quem poderia estar pilotando aquela nave, naquele lugar isolado? O que estão procurando? Tomara que não seja eu.

Quando disse assim, a porta da nave se abriu e dela saiu um ser estranho com características de não ser habitante terrestre.

O pavor aumentou ainda mais quando ele caminhou em minha direção, com passos largos.

Santo Deus! Apesar de estar frio eu suava como se fosse "tirador de espírito." Parou bem na frente do meu carro. Era um animal escomunal. Possuía quatro braços, sendo dois nas costas. À medida que se deslocava, os braços abanavam como se fossem voar. Na cabeça, dois chifres luminosos soltavam faíscas coloridas. Os olhos, com pupilas fluorescentes, piscavam com freqüência acelerada. A vestimenta era muito estranha e extravagante; semelhante a coro de cobra, escamosa, escorregadia e brilhante. Como brilhava! Apesar do medo que sentia, era lindo!

O estranho foi chegando bem perto do carro e eu tremi ainda mais, nas bases. Murmurei comigo mesma:

- Será que ele percebeu que estou aqui? Serei morta e ninguém saberá. O que ele fará comigo?

Procurando esconder-me entre os bancos do carro, observava com mais tranqüilidade.

Ele agora, parecia um mutante, com garras na parte superior das mãos enormes e com unhas afiadas. Dentes pontiagudos como se fossem de um vampiro, sorria maldosamente para aumentar o meu pavor. As orelhas, fora do comum, grandes e afinadas nas extremidades, abanavam para lá e para cá. O nariz, não tinha outra forma senão de um nariz de porco gordo, com a variação de só um orifício central.

Observando e certificando de que não era um ser humano, soltei um grito estridente:

- Socorro ! Socorro! Alguém me ajude!

Ele nem se abalou. Aproximou, mirou bem onde eu estava e, puxando-

me pelos cabelos - que eram enormes - para fora do carro. Arrastando-me sem pressa, jogou-me dentro daquilo que eu acreditei ser um Engenho Interplanetário. Resisti o quanto pude mas ele era poderoso. Tinha forças de gigante. Acalmei um pouco quando percebi que não pretendia maltratar-me.

Dentro do apavorante objeto, um outro elemento com as mesmas características do primeiro, sentou-me numa poltrona e começou a fazer raio X de cada parte do meu corpo. Seu olhos penetrantes, eram um aparelho infalível.

Depois desse estudo, iniciou-se a tarefa de ligar aparelhos em meu corpo. Cada veia saliente, era um ponto de uma enorme tarrafa que se desprendia do teto da "nave." Nunca vi tanto emaranhado de fios no corpo de uma pessoa. Ele observava cada detalhe, sem ser ousado. Deslizava a mão, bem devagar, como se estivesse fazendo alguma pesquisa, confirmando suas análises. Parecia penetrar dentro de cada célula viva, com admiração.

O medo que eu sentia era tanto, que não dava para observar as suas conclusões.

Os meus braços, um de cada vez, recebia um aparelho "sugador" de sangue. Neste momento apelei por piedade, mas eles não sabiam o que era isso. Quando foi penetrado na veia , eu desmaiei...

Não sei por quanto tempo permaneci naquele lugar...

Quando acordei, o sol já estava alto. Castigava o meu corpo. O calor caustigante ardia no meu rosto .

Sentindo que alguém me chamava, tinha medo de abrir os olhos. Era uma sonolência brutal. Ouvi palavras mais fortes, mais estridentes: - Quem é você? O que faz aqui nesta mata?

- Eu não sei. Sinto sede. Preciso de água.

- Vou buscar mas, primeiro quero saber como se chama.

Demorei a responder:

- Meu nome é Teliza... Teliza Sanguinet.

- Aquele carro ali é seu?

- Sim. Parece ser o meu.

- Por que o deixou lá e veio para este lado?

- Devo ter tido uma crise. Sou sonâmbula, - menti.

- Se tem esta mania, não devia viajar de noite.

- Foi só essa vez. Tinha um compromisso urgente.

- Nada justifica arriscar a vida. Parece que precisa de um médico.

- Acredito que você esteja com a memória fraca.

- Não, não será preciso. Estou muito bem. O pior já passou.

Aos pouco fui lembrando tudo que havia acontecido. Olhando para os braços observei as picadas das agulhas nas veias e senti as marcas, na testa.

O carro intacto estava estacionado no mesmo lugar que eu havia estacionado .

O cavalheiro ajudou-me a caminhar até ao carro, observou as minhas possibilidades de dirigir e desejou-me uma boa viagem.

Eu não podia contar para ele o ocorrido. Pensaria que eu estava mesmo maluca.

Tentando dirigir, pavorosa, cheguei à cidade, atrasada, causando o maior transtorno para os organizadores do encontro. Não encontrava motivo para justificar a minha falta. Não podia relatar a verdade porque ai eu ficava taxada como louca.

Cancelando a minha fala, arranjei um acompanhante e voltei para casa. Não teria condição psicológica, para proferir sobre o tema agendado. Poderia falar sim, sobre uma noite de horror, sozinha, na estrada...

 

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