O Sorriso Entre as Árvores do Jardim

 Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0068]
[Autora: Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira]
[Título: O Sorriso Entre as Árvores do Jardim]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 3.290]

   

1 - O SORRISO

O Kristal negro e brilhante reflete minha imagem, traço por traço, mais fielmente que o melhor espelho.

Um erro pode ser fatal.

Quando a pedra se dissolve numa névoa tênue e acinzentada, eu a atravesso decidido.

Se os dados não estiverem corretos, meu corpo se fragmentará nas células que o compõem, transformado em partículas de poeira.

Mas chego inteiro ao outro lado.

Os corredores espelhados são luminosos a minha frente. Por todos os ângulos me vejo, multiplicado nas paredes, no chão, no teto, acompanhando meus passos em direção à letra E.

De alguma forma, o Observador me vê, quando caminho dentro do Grande Arquivo, silencioso e sozinho.

Na verdade, nunca estou sozinho.

Ele está sempre à espreita, gravando nossas imagens com Seu olhar implacável.

Sua absoluta certeza permite que a vida dentro das Semiesferas seja preservada eternamente. Nunca mais nossa mesquinharia e ganância construirá o Apocalipse.

Aqui estaremos sempre em segurança.

Junto Àquele que Tudo Provê.

O que não tem ambição nem dúvida e cujas decisões são sábias.

Seus circuitos cerebrais são mais perfeitos, Seu corpo mineral pode se autorecuperar até o infinito desconhecido.

E no Grande Arquivo Pessoal Seu olhar eletrônico me acompanha.

Os terminais das paredes vão me indicando o caminho nesse labirinto que reúne dados, filmes, vídeos, disquetes e hologramas sobre todos os habitantes do planeta, desde que o primeiro homem surgiu na sua superfície.

Nossa raça quase se extinguiu, mas o Observador, o coração de toda a ciência criada por nós, preservou a memória.

Dentro das Semiesferas sobrevivemos à Catástrofe.

Em cada Setor-Letra, dois enormes ciborgues guardam o portal de entrada, imóveis como estátuas gregas.

Embora seja biomédico, interesso-me pela Arte Arqueológica, especialmente do Período Clássico, no chamado século V AC. Por isso os ciborgues de quarta geração me fascinam. Não têm mais aqueles músculos hipertrofiados dos primeiros tempos. Sua estrutura é vigorosa e ágil como a dos atletas atenienses. Além disso, a pele branca e luzidia lembra o mármore das cópias romanas. São brancos também os cabelos encaracolados que cobrem a cabeça pequena. Os olhos frios, de um azul transparente, movem-se em todas as direções, encravados nas órbitas arredondadas.

Chego ao Setor-Letra E e passo por eles, cuidadosamente, evitando me aproximar.

Na única vez em que toquei, acidentalmente, um desses guardiões, ele me derrubou no chão antes que pudesse entender o que acontecera e sua mão de ferro manteve meu corpo imobilizado durante terríveis minutos, até que um funcionário do setor, alertado por seus sensores, viesse me libertar.

Ele não me faria mal. O Observador controla seus circuitos cerebrais e não permitiria.

Apesar disso, tive muito medo.

De qualquer forma, satisfiz uma curiosidade: sua pele é gelada e dura como o mármore a que se assemelha.

No terminal do saguão digito o nome:

Escuderas - Rodrigo

Recebo de volta umas vinte identificações.

Entre elas seleciono o músico, nascido em 21 de janeiro de 2080, há mais de duzentos anos atrás.

Completo o programa e entro na sala retangular e escura das projeções holográficas. Nenhum objeto ou cor deve interferir para que a sensação de realidade seja total.

A única parede transparente se ilumina.

Estou em um quarto de hospital antigo, do tipo onde ainda havia nascimentos através de partos ou cirurgias.

Uma jovem, que identifico como a mãe natural, segura contra os seios o bebê Rodrigo Escuderas e o mostra a mim, com gestos estudados. A técnica holográfica era recente naquela época e, embora as pessoas estivessem em três dimensões, como figuras vivas, pareciam estar posando para o espectador, tensas e pouco a vontade.

Mesmo assim, posso observar que a jovem mãe tem a pele clara e sedosa e seios firmes que aparecem através da renda de sua vestimenta.

Afasto essas imagens que me distraem e concentro-me na pesquisa.

Rodrigo Escuderas, o brilhante compositor, fôra um inadaptado mental e sua vida cheia de contradições e mistérios. Com seu código genético, todos os dados de seu registro físico e a ajuda do Observador, venho investigando a ligação entre seu padrão cerebral específico e os desvios comportamentais de sua vida atribulada.

Os hologramas daquela época, ainda que restritos e pouco científicos, me ajudarão a decifrar o enigma dessa e de outras mentes inadequadas.

Como se estivesse participando dos acontecimentos, passam por mim as várias fases de sua vida, entrada na Escola de Música, etc, até sua morte, registrada por um discípulo, quando já se tornara o grande compositor, conhecido em todo o planeta.

É quase penoso observar, como um intruso, a agonia do mestre e o desespero de parentes e amigos.

Finalmente, o trabalho termina mas, em vez de me retirar, volto o holograma até seu início e dou um longo Stop, admirando a mãe biológica de Rodrigo Escuderas.

Seus cabelos são escuros, mas ela tem a pele clara e grandes olhos cor de mel. Chama-se Vera.

Bem devagar, revejo todo o programa.

Há uma parte que me fascina especialmente: um concerto, ao ar livre, no Parque Itatiaia, no Rio de Janeiro, Brasil, entre exemplares centenários da Mata Atlântica.

A alta tecnologia do Arquivo permite que as paredes praticamente desapareçam. O Parque se estende ao meu redor como se as árvores estivessem aqui, ao alcance da minha mão. A música inunda o ambiente.

Estou a ponto de chorar de emoção.

Como era bela a Terra antes das Semiesferas!...

Destacando-se dos espectadores, uma mulher ainda jovem se aproxima de mim e sorri.

É Vera Escuderas.

Os dentes alvos brilham contra os lábios carnudos com uma claridade que obscurece as pessoas em volta dela.

Antes que eu possa responder a esse sorriso, ela se vira de costas para mim e some entre os assistentes.

Meio hipnotizado, retorno a cena.

Agora observo a mulher desde o início:

Caminha distraída, abraça o filho, ouve, com ar orgulhoso e meio distante, a sua música entre as árvores, arruma o cabelo displicentemente. Então, afasta-se dos outros espectadores, vem até bem perto de mim e sorri.

Retribuo aquele sorriso, desejando que permaneça para sempre.

Mas, novamente ela se virou, me deu as costas e sumiu na multidão.

Não sei quantas vezes retornei o programa para ver de novo o mesmo sorriso fugidio...

Após o concerto no parque, Vera desaparecia da vida holográfica do filho. Teria morrido relativamente jovem? Ou os realizadores dos novos hologramas julgaram sem interesse reproduzir a mãe do artista a partir do momento em que começou sua escalada para o sucesso?

Preocupava-me com Vera Escuderas mais do que com o músico que deveria estudar.

As luzes vermelhas se acendem.

Há outras pessoas querendo usar a cabine.

Saio para os corredores espelhados. Minha imagem, reproduzida múltipla e fielmente, parece ofegante. Dois círculos vermelhos cobrem os malares que me rasgam o rosto abaixo dos olhos febris.

No terminal do saguão, digito outra vez o nome Escuderas.

Vera está lá. Um holograma só para ela.

Abençoei o Observador e seus implacáveis Arquivos Pessoais.

Meu terminal de pulso bipou:

Cinco e trinta. Muito tarde para assistir a um novo holograma. O edifício fecha às seis horas e todas as cabines até E S C estão ocupadas.

Não tem importância. Posso voltar amanhã. Nos septimus eu estou de folga.

Sem pressa, aciono o autotransportador do cinto, elevando-me entre as árvores da praça. O céu acima de mim está azul e quase é possível esquecer a cúpula protetora da Semiesfera 2.

Sempre que vôo para casa, costumo olhar para o alto pensando na Terra lá fora. Os robôs exploradores têm mostrado imagens de renascimento no planeta destruído. Uma nova vegetação e até pequenos animais vêm se adaptando ao ar contaminado.

Mas o nível de radiação ainda é perigoso para o homem, cem anos depois da última guerra nuclear.

O Observador nos assegura a melhor vida possível dentro das Semiesferas. Seus terminais são nossos braços e mãos, são nossas pernas e pés para construir um futuro melhor. E, talvez, redescobrir a Terra...

Alícia não sente nenhuma curiosidade sobre o planeta lá fora, sobre a vida que nenhum de nós conheceu. Ela é funcional e fria como um computador... Não quero pensar em Alícia, nem em Bruno. Nossos laços hoje são distantes. Quantos anos ele deve ter agora? Oito? Não, nove. Nove anos e há mais de três anos a gente não se vê pessoalmente. Apenas no videofone, de vez em quando, para não perder o hábito. Sua imagem no visor é séria e sem emoção.

Ele não é meu filho biológico, mas eu gostei dele em certa época de minha vida. Na verdade, sempre fui um homem muito só. Não me inscrevi como voluntário do Programa de Reprodução. Não desejo perpetuar meus genes.

Embora o Laboratório da Biomédica seja o que há de melhor em limpeza e organização. Bruno foi gerado lá. É filho biológico de Alícia. Como Cientista Comportamental, tem permissão de criá-lo ao seu lado. Será provavelmente um brilhante pesquisador como seu pai. Alícia sempre escolheu os mais importantes para suas cruzas genéticas.

Vera Escuderas nasceu entre fezes e urina à maneira perigosa e anti-higiênica dos antigos e assim concebeu e pariu seu filho. No entanto, parece feliz e linda na sua vida holográfica do Grande Arquivo e sorri luminosa para o futuro.

As árvores e os pássaros de cristal do Natureza B aparecem no horizonte. Ajusto os controles para descer.

Meu salário de Biomédico permite que eu viva num dos setores mais agradáveis da Semisfera. Os edifícios tem a forma de aves e plantas estilizadas.

São belos no crepúsculo.

A luz avermelhada do sol faz brilhar os cristais que emitem fagulhas multicoloridas.

Desço rente ao meu prédio-árvore e pouso no terraço, assentado sobre o quarto galho, à direita.

As esculturas envidraçadas ao redor de mim vão se esbatendo em sombras lilás no meio do parque. As outras árvores, as naturais, estão floridas: acácias, ipês, quaresmas... Só não há frutos por causa dos impessoas. Também por causa deles é envenenada a água das fontes e dos lagos.

A luz das estrelas trespassa a esfera que escurece devagar.

Sento-me na espreguiçadeira, observando os últimos raios do poente.

O sorriso de Vera Escuderas é como o verdadeiro sol perdido e aquece meu coração na noite que desliza, dentro da Semisfera 2, num planeta contaminado, entre milhões de astro indiferentes.

2 - ENTRE AS ÁRVORES DE ONTEM -

Eu conheço cada gesto, expressão e movimento de Vera Escuderas no Arquivo Pessoal.

Algumas vezes ela sorri para mim, como no concerto, mas é o sorriso vago e distante das fotografias. Anda na minha direção, olha o meu rosto e não me reconhece.

Há alguns holos de sua juventude, antes do casamento com o pai de Rodrigo que eu adoro:

Vera joga tênis, ainda mocinha, os braços queimados, as pernas musculosas...

Ri, com os cabelos ao vento, num barco sobre o mar...

Como eu gosto dos hologramas no mar!... Ele invade as paredes estreitas e se espraia em torno de mim, verde e infinito...

( Obviamente só existem lagos nas Semiesferas e tão pequenos para se comparar com o oceano!...)

Ela navega ao meu lado, os cabelos soltos contra o ar salgado... quase posso sentir o cheiro de óleo e maresia que só conheço dos sonhos programados.

Infelizmente, a quantidade de material é pequena. A família de Vera Hertz, mais tarde Escuderas, pôde se dar ao luxo de gravar a filha única em holos suficientes para manter a sua imagem através de vários anos de sua vida.

Mas não o suficiente para minha sede de apaixonado.

Analiso seu rosto, o olhar as vezes triste, quase sempre distante, sonhador.

Vera Escuderas morreu, aos 44 anos, me informa o computador em sua linguagem impessoal.

O último holograma em que apareceu foi aquele do concerto no Parque Itatiaia.

É o meu preferido.

Inúmeras vezes retorno ao ponto de partida só para vê-la caminhar em minha direção e sorrir daquele jeito luminoso.

Embora eu saiba ( com precisão milimétrica de segundos ) que, logo depois, irá dar as costas para mim e se perder na multidão anônima de um dia longínquo.

Observo-a chegar, andando graciosamente.

A saia balança ao suave movimento das pernas e uma brisa qualquer agita uma mecha fina dos cabelos.

Divirto-me fixando o holograma no momento em que se aproxima.

Ela fica parada na minha frente, todo o cenário imobilizado, o sorriso estático, os olhos que não me vêem.

Então, prefiro deixá-la ir embora, sumir entre as árvores do parque.

As vezes penso que estou me tornando inadequado, com essa fixação por uma mulher morta há mais de duzentos anos.

E tento resistir.

Mas é como um vício. Não consigo parar. Nas horas de folga, durante o almoço, nos feriados.

Minha maior diversão é viajar com ela no tempo.

Vera levanta a raquete, suas pernas se flexionam, a bola estoura na rede e ela ri. O céu é muito azul contra os seus cabelos escuros.

No barco, a blusa curta, a barriga morena aparecendo, a curva macia dos seios.

Como um furtivo caçador espero a hora em que um movimento mais brusco irá revelar alguma parte desconhecida do corpo que adoro...

Sei perfeitamente que isso nunca vai acontecer, mas é com emoção, o coração aos saltos, a respiração ofegante, que a vejo saltar com a raquete nas mãos.

A saia rodopia mostrando as coxas fortes.

E paro a imagem.

Fixo-a no ar, no chão, a cabeça estendida para trás, no barco, os cabelos voando, como um instantâneo vivo.

Passo e repasso as cenas. Uma, duas, milhares de vezes.

Estou sempre a espreita de que se mova de alguma outra maneira, desvie o olhar, pare de rir ou acerte aquela bola que, inevitavelmente, cai na rede.

Mas ela continua a repetir, obsessivamente, a mesma pequena vida limitada de seu programa imutável.

E no meio do concerto, entre as árvores do Parque Itatiaia, caminha para mim, sorri luminosa e se afasta para sempre de sua vida e do meu mundo.

3 - LONGE DO SORRISO -

Estou atrasado para minha visita diária ao Grande Arquivo. Sobrevôo a cidade distraído. Ao descer, quase esbarro num impessoa que caminha esfarrapado pela limpíssima rua metálica.

Desde cedo somos treinados a não apenas ignorar os impessoas, mas a não vê-los realmente. Eles não existem. São menos que os fantasmas sobre os quais podemos conversar em noites de insônia.

Ninguém fala sobre eles. Apenas nos treinamentos, durante a infância e parte da adolescência.

Costumo passar por esses não-seres sem notar, mas hoje, meus nervos tensos, meu estado de extrema agitação não me permitem ignorá-lo.

Mesmo sem olhar diretamente para ele, percebo que é absurdamente magro, pálido e que tem fome.

Seu andar é trôpego. Ele titubeia... apoia-se na parede e finalmente cai, num turbilhão de trapos esvoaçantes. Um transeunte passa sobre ele e quase lhe pisa a mão. Ele continua imóvel, trouxa esquecida sobre a calçada brilhante, objeto incongruente na organização perfeita das Semiesferas.

Esforço-me por tirá-lo do pensamento e entro no Grande Arquivo Pessoal.

Um psicólogo me espera na entrada da Letra E, entre os dois gigantes ciborgues.

Eu já sabia que ia acontecer.

Desvio do Padrão Comportamental.

Sigo-o pacientemente.

Durante duas horas perdidas, ele procura analisar a minha compulsão por determinados hologramas da antiguidade e eu tento, inutilmente, explicar a ele que sou apenas um homem comum apaixonado por uma imagem.

Como previa, recebi duas semanas de licença para tratamento no Sanatório do Biomédico. O meu setor.

Sei perfeitamente que não tenho nada. Mas ele diagnosticou uma espécie de Síndrome da Semiesfera. O confinamento obrigatório afeta o psiquismo, mesmo dos indivíduos aparentemente mais ajustados. Existem várias formas de fuga mental do ambiente aprisionador das cúpulas protetoras.

A minha, segundo o psicólogo que me atendeu, nem ao menos é a mais original.

No entanto, eu sempre vivi aqui dentro. Nunca estive em nenhum lugar além dos muros de kristal.

Sinto-me triste e cansado. O observador me parece distante e Seu olhar eletrônico já não é indispensável.

Ele pode prover quase tudo.

Mas este quase me faz um falta terrível.

O pior é ficar duas longas e tediosas semanas sem Vera.

Sou um bom cidadão. Programando o autotransportador, dirijo-me ao Sanatório dos Inadaptados.

Os edifícios são retos e feios, pintados de branco. As árvores ao redor deles parecem melancólicas, de um verde mais escuro, altas e esguias: ciprestes, pinheiros e cedros.

Nos bancos, sob as árvores, homens e mulheres de olhar perdido, sempre acompanhados de outros, vestidos de branco: os guardiões.

Mas ninguém foge dos Sanatórios. Todos estão lá por sua livre e espontânea vontade.

Como eu.

Desço suavemente ao encontro dos médicos na área da Terapia. Eles são gentis. Mostram-me um quarto limpo e arejado que será o meu por quinze dias.

Olho pela janela envidraçada. O céu é tão claro que dá para perceber o brilho da cúpula protetora.

Estarei, realmente, sofrendo de um tipo de claustrofobia? Os campos se estendem verdes do outro lado e tudo parece calmo e conhecido. Há uma videobiblioteca no meu quarto. Coloco o capacete e concentro-me em verouvir um livro.

De repente, sem motivo nenhum, me lembro do impessoa que quase esbarrou em mim. Uma náusea irresistível faz com que atire longe o capacete e corra para o banheiro.

Dois preocupados enfermeiros aparecem, reprogramam o capacete e o colocam , delicadamente, na minha cabeça.

Tudo fica escuro e caio num sono sem sonhos.

4 - PERDIDO DAS ÁRVORES DE ONTEM -

Hoje é meu primeiro dia de trabalho desde que tive alta. Não devo pensar no Grande Arquivo Pessoal, nem em Vera Escuderas.

Concentro-me nas tarefas rotineiras.

Sinto em mim Seu olhar cibernético e minha alma engatinha num pântano insondável. Os pensamentos resvalam, procuram os desvãos da mente, sobem e descem entre os contornos ásperos da realidade.

Às cinco horas não agüento mais. Deixo sorrateiramente o Laboratório de Biomédica.

Na área de decolagem evito ser visto e sobrevôo a cidade como um ladrão, temendo ser descoberto.

Estou sempre descoberto.

Ele me vê em todos os momentos.

Mesmo assim, desço bem em frente ao Grande Arquivo. O impessoa não está mais lá. Talvez tenha morrido e o Aerocaminhão da Limpeza Urbana o levou embora.

Este pensamento banal me faz estremecer.

O kristal negro parece sinistro ao refletir minha imagem amedrontada.

Mas me deixa atravessar sem problemas.

Percorro os corredores, quase desertos a esta hora. Um ou outro pesquisador passa por mim, o olhar indiferente. Mas a cada figura que vejo, o coração dá saltos e o pulso dispara.

Consulto o terminal da entrada do Setor Letra E, ao lado do branco ciborgue imóvel. Procuro aparentar indiferença:

"Escuderas - Veríssimo.... Verônica..."

Um suor gelado escorre pela minha nuca... o nome dela não está mais lá!...

Aflito, interrogo o terminal:

"Não consta dos registro com este nome. Tente outra vez" me responde a suave voz cibernética..

Procuro então Rodrigo Escuderas.

Também desapareceu!...

Procuro seus avós: estão no programa como não tendo filhos.

O Observador apagou Rodrigo Escuderas, o músico genial, apenas para fazer desaparecer Vera de minha vida!...

Ele age como um deus.

Refaz o passado conforme seus interesses.

Esse é o poder que nós lhe demos.

Comecei a rir alto.

O Observador nunca amará a música. Sabe todos os seus sinais, pode criá-la, reproduzi-la em milhares de composições possíveis.

Mas nunca vai amá-la.

Para ele é apenas um instrumento, uma droga para essa nossa raça degenerada que conhece tão bem e jamais compreenderá.

Pode impedir o Armaggedon. Pode reconstruir todos os atos, órgãos e palavras que compõem o espetáculo teatral do amor.

Mas não pode entendê-lo.

Uma opressão dolorosa me aperta o peito, junto com uma revolta enfurecida. Começo a esmurrar as paredes, agora como um verdadeiro psicopata, chutando o kristal resistente.

Apenas as batidas ocas de meus próprios movimentos me respondem.

Porque os ciborgues não vem me buscar?

Onde estão os guardiões?

Reunindo minhas últimas forças, atravesso correndo os labirintos espelhados, até o Setor-Letra T e procuro meu nome.

Teodoro - Carlos Rovenda

Está lá.

Respiro aliviado e coloco o meu holograma para funcionar.

Quando a luz se acende, apareço como um bebê, na cerimônia da entrega, pelo Laboratório de Reprodução Humana, a meus pais biológicos.

O Dr. Lannab, supervisor da fecundação e a Dra. Glenda, responsável pela gestação in vitro, estavam lá, sorridentes, ao lado do eminente físico Bruno Teodoro e da bióloga Angela Rovenda cujos genes reunidos deram origem a esta pessoa imperfeita que sou eu.

No holo estou tranqüilo, dormindo no colo de minha mãe.

Não vivi com ela mais do que dois meses. A maior parte de minha vida foi passada nas creches e internatos do Programa de Educação.

Revejo as salas de aula, os vídeo-professores, como se estivesse de novo participando de tudo aquilo.

Por um motivo obscuro, alguém que já esqueci registrou-me, criança, na Praça da Liberdade, deslizando por um escorrega de água que despenca sobre um lago cercado de flores.

É a parte mais alegre de minha vida holográfica.

Estou feliz, dou gargalhadas e espalho água em todas as direções, enquanto desço vertiginosamente para o lago, onde mergulho com gritos de prazer.

Os outros holos são convencionais: estudos, formaturas, prêmios, meu casamento com Alícia, Bruno, o Laboratório da Biomédica...

Neste momento se inicia o horror...

Pouco a pouco, em pleno laboratório de pesquisa, as pessoas começam a desaparecer ao redor de mim. O ambiente também vai sumindo e, finalmente, sou apagado daquela cena.

Assustado, voltei o holograma ao ponto de partida. Febrilmente, refaço a minha trajetória: bebê, colégio, escorrega, casamento... e acabou!... as pesquisas, os prêmios, nada existe mais.

Recomeço o programa, tremendo, os dentes trincados no esforço de entender... agora ele termina com a minha entrada na Universidade Integrada.

A angústia quase me impede a respiração. Luto para recuperar o fôlego. O ar se prende na garganta contraída.

O Observador está apagando meu holograma na minha frente!...

É o castigo por não me adaptar às normas da Semiesfera: minha vida inteira sendo desmanchada como uma cópia malfeita.

E eu aqui assistindo, impotente e apavorado, à destruição da minha imagem...

Não!... o escorrega, não!... é crueldade demais!...

Pouco a pouco, diante do meu olhar desolado, vão sumindo as flores, o lago, e deslizo no vazio até desaparecer, também tornado nada.

Quero fugir, desviar o olhar, mas não consigo.

Fascinado, pregado no mesmo lugar, refaço pela última vez meu percurso.

Sou apenas um indefeso bebê, embalado por minha mãe biológica.

O Laboratório, os médicos, tudo foi tragado pela máquina.

Meu pai.

O colo de minha mãe.

Já se foram todos.

Há apenas um bebê se desfazendo lentamente...

Rosto... nariz... boca...

Muito lentamente...

íris...

lentamente...

lentamen...

Lent...

......................................................................................

Pode ser ilusão.

Mas o que compõe a realidade senão a matéria de nossos próprios sonhos aparentemente corporificados?

Como saber se o outro existe realmente ou é apenas produto de cotidiana criação?

Vejo. Ouço. Toco. Mas estou prisioneiro de minha própria mente.

Sozinho no absoluto nada, inventando uma vida que é o meu momento particular.

O tempo é uma criação da consciência.

Se realmente fugi, atingi o Cérebro dos programas, o Coração do Observador, o Ninho, o Ovo e de lá retirei, intactos, meu holo e o de Vera Escuderas, então esta é a verdade para mim.

As vezes sonho que estou na calçada, em frente ao Grande Arquivo, faminto e abandonado.

Mas, geralmente, minha vida é aqui, nesse lugar especial, ao lado de minha amada e me divirto misturando nossos hologramas.

Ela desce comigo no escorrega de água e caímos no oceano, onde seu barco nos espera.

E navegamos até o concerto no Parque Itatiaia onde, como dois jovens apaixonados, ouvimos a musica encantada de Rodrigo Escuderas.

Posso escolher as combinações que desejar.

Assim eu vivo, eternamente, ao lado dela.

E milhares, milhares de vezes mesmo, Vera sorri para mim no meio das árvores.

Mas nunca mais me deu as costas.

E nunca mais foi embora, sumindo na multidão.

   

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