|
Lenira passou pela borboleta do ônibus e acomodou-se junto à
janelinha. Ao seu lado se sentou uma senhora gorda com o vestido
escandalosamente floreado, cheia de sacolas de compras. Os braços
se roçaram, pele contra pele, e Lenira sentiu um tremor percorrê-la.
Sentiu frio, apesar do calor generoso de fim-de-ano.
Torceu o gesto. Já sabia em que seguida ia chegar o cheiro de
churrasco queimado -e chegou- e depois luzinhas azuis pipocariam no
canto superior direito do campo visual -e pipocaram. Aguardou com
paciência e mau-humor.
Tinha dessas coisas desde pequena. A avó, cabocla lá dos
lados de Bajé, benzia. Contava sempre que Lenira nascera com um véu
sobre a cara, que foi um susto, que menos mal que dona Maria fez um
buraco na altura da boca dela, Lenira, antes que sufocasse. Se
esperava que Lenira fosse diferente.
Como a mulher terminara aprendendo, todas as diferenças,
mesmo as divinizadas, trazem problemas. Ser acometida pelo futuro após
um anúncio de frios, cheiros e luzes, nunca lhe trouxera nada de
bom.
Jamais sentia algo positivo, sempre eram doenças, mortes trágicas,
traições amargas. Acidentes, já nem sabia quantos havia assistido
com a mente. Jamais evitara nenhum, nem mesmo o que lhe matara o
marido.
E isso que avisara, aquele dia, Sérgio, toma cuidado com o
vermelho.
Fora atropelado por um caminhão encarnado que fazia uma
manobra.
Acidente bobo e sem conseqüências, não fosse um gancho
bater-lhe na cabeça. Disseram que Lenira não chorara no enterro.
Chorar para quê? Ivete, a amante de Sérgio, mãe de dois curumins
espevitados o fizera pelas duas. Tinha coisas que não fazia falta
ser vidente para saber.
Ao longo de seus trinta e oito anos perdera cinco empregos por
causa das visões. Aqui, uma mulher a quem tentou avisar da
infidelidade do marido, lhe ensinara a não se meter em questões
conjugais. Ali, uma mãe que a culpou da morte do filhinho de cinco
anos. Acolá, uma que salvou a mãe, tomou tanto medo de Lenira que
para pagá-la, deixava o envelope com o dinheiro sobre a mesa.
Gratidão? Nenhuma. O vocabulário de Lenira não conhecia o
significado para essa palavra.
Além do mais, de que valia ver o futuro dos outros? Já fora
assaltada três vezes na volta do serviço e em nenhuma ocasião o
dom lhe prevenira. Era uma inutilidade, era como ter enxaqueca de
vez em quando.
Quando o frio vinha e o cheiro de churrasco queimado se
instalava sob seu nariz, não tinha nada que fazer a não ser
esperar tudo passar, feito uma tempestade de verão.
Olhou para o reflexo dos passageiros na janela do ônibus e
soube: Subiria as escadas de seu edifício de três andares e já
deste o último patamar ouviria os gritos do vizinho. Só
conseguiria ouvir as pancadas quando chegasse para abrir sua própria
porta. Depois um silêncio.
Outro grito. Do outro lado da parede, Rudimira revidaria pela
primeira vez na vida. Ia sentar a bacia de porcelana com toda força
na cara de Valdinei que cambalearia até o sofá, entre bêbado e
tonto pela pancada.
A mulher avançaria firme, a faca da cozinha em punho e
acertaria o homem uma, duas, três, trinta e sete vezes. Sangue,
muito sangue e dor.
Depois Rudimira iria até o banheiro, como uma sonâmbula,
lavaria as mãos, trocaria o vestido, enrolaria a faca no vestido e
o vestido na toalha, e jogaria tudo dentro de uma sacola que estava
junto à mala, pronta e fechada sobre a cama. De roupa limpa, calçaria
o sapato e ao sair do apartamento faria uma volta enorme para não
pisar na poça de sangue do assoalho. No corredor, pararia um
momento, trancaria a porta, empurraria a mala para um canto escuro.
Depois sairia pela janela do corredor pelo parapeito do edifício,
avançaria com alguma dificuldade até a janela, sempre protegida
pela enorme árvore que em novembro se cobria de flores liláses, e
quebraria a vidraça de dentro para fora, destrancaria a janela com
a ajuda de um lenço para não deixar digitais, como se alguém
tivesse entrado no apartamento, e voltaria pelo mesmo caminho.
Desceria então as escadas, pegaria o ônibus, embarcaria na rodoviária
em tempo recorde, que a sorte a ajudaria em tudo e se livraria da
faca e do vestido sujo ao parar numa churrascaria junto a um rio,
quase na divisa com Santa Catarina. Tornaria a embarcar, se acharia
livre para sempre.
Mas o morto não estaria morto, soube Lenira. Com um resto de
forças moribundas, escreveria no chão, com o próprio sangue:
"Rudimira me matou". Depois soaria o relógio da igreja
marcando nove horas e ele morreria. De nada valeriam os esforços da
mulher. Seria presa na quarta- feira, quando a polícia achasse o
cadáver, e ainda por cima, na casa da mãe, onde, se supunha em
segurança.
Lenira piscou, assustada, quando o ônibus deu uma freada. Um
táxi buzinou furioso, alguém gritou "passa por cima!"
com raiva. A visão acabara.
Na curta caminhada entre o ponto de ônibus e o prédio, a
mulher ficou pensando nas imagens que vira, no futuro imutável.
Coitada da Rudimira.
Sempre tão boa vizinha, caprichosa, boa esposa, melhor
amante. Fiel como um cão. Apanhava quase todos os dias, vivia com o
lábio inchado e o olho roxo. Já pedira ajuda para a polícia -a
mesma que iria prendê-la dias mais tarde-, mas ninguém fizera
nada. Bom, uma vez haviam prendido o Valdinei, mas quando ele
voltara para a casa, a surra fora em dobro e ela nunca mais havia
procurado ajuda. Tentara fugir uma vez, mas ele a trouxera de volta
com promessas que ficaram em dívida.
E dê-lhe surra! Mancara durante semanas, depois daquilo. A
costela quebrada teve de se curar sozinha, que o Valdinei nem se
preocupou em levá-la para o pronto-socorro. Cachorro! Lenira se
trancou em casa, pensando em tudo aquilo, aquele suplício que era a
vida de Rudimira, pensando na desgraça que era ela ter se engraçado
com o Valdinei. Ia pagar muito caro por ter amado o homem errado. Não
era justo, pensava Lenira ouvindo o silêncio que agora vinha do
apartamento vizinho. Quem devia ir preso, mesmo morto, era o
Valdinei, que bicho ruim estava ali. Não era justo, não era justo!
A coitada tinha o direito de tentar de novo. De conhecer alguém que
nem o Sérgio, um homem bom, que cuidava de duas mulheres feito elas
fossem um bibelô, cada uma. Nunca lhe faltara nada, nem a ela, nem
à Ivete. Rudimira merecia alguém assim, carinhoso, faceiro,
cantador. Enxugou uma lágrima que teimava escorregar pelo canto do
olho. Era pela Rudimira, era pelo Sérgio, era pela própria Lenira.
E daí, soube o que fazer.
Colou o ouvido na porta, a espreita. Ouviu a porta ser
trancada, a janela ser aberta. De longe chegou o som de vidros
quebrados. Depois movimento, depois uns passos, primeiro tímidos,
tristes, depois, cada vez mais fortes, mais seguros, enquanto
Rudimira descia a escada e ganhava a rua. Então Lenira abriu a
porta, olhou o corredor vazio, ganhou a janela. No escuro, repetiu o
caminho que a vizinha fizera. Entrou pela janela aberta e tratou de
deixar presos nela uns fios de lã verde da blusa que usava para se
proteger dos cacos de vidro. Andou com cuidado com as sandálias
baratas e se acocorou junto a cabeça moribunda de Valdinei, deitado
de bruços no sofá, bem como sabia que estaria. E esperou. Esperou.
Quando as pálpebras dele tremeram, sentiu um nó no estômago,
porque nunca fizera o que estava por fazer, nunca interferira
diretamente, nunca.
Era assustador, ela pensou, sentindo o lábio superior suando
de calor e frio.
A mão do homem se moveu sobre o assoalho, lenta, pausada,
doloridamente. As facadas haviam cortado músculos e tendões,
profundas, cruéis como o sentimento que ele nutria por Rudimira.
Lenira freqüentemente o ouvia gritar que amava Rudimira sobre tudo
e todos. Que não podia viver sem ela. Que ela era a razão de sua
vida, de seu mundo.
E nas vírgulas, nos pontos, Lenira podia ouvir as bofetadas
que soavam como tiros.
O dedo dele escrevia com o sangue que deslizava pelo braço. A
caligrafia, pensou Lenira, sem se dar conta da frieza do pensamento,
até que estava bem legível, para a ocasião. Podia ler bem o nome
de Rudimira. Esperou que ele terminasse. Teve de refazer a última
letra, com dificuldade, ao borde das forças. Então, quando
Valdinei terminou e parou, um ar de justiça feita no rosto marcado
pela dor, Lenira puxou a mão dele e usando-a como pano de chão,
apagou tudo. Substantivo, pronome pessoal, verbo.
Ficou um borrão. Viu que o homem a fitava, horrorizado, deu
de ombros.
Ele gargarejou um socorro. Ela levantou-se devagar.
Valdinei morreu. Viu como os olhos dele se apagaram cheios de
pavor e raiva. O relógio da igreja marcou nove horas. Estava
acabado.
Saiu por onde entrou. Em casa, enfiou o blusão verde numa
bolsa de papel, só para garantir e, pouco antes do caminhão do
lixo passar, desceu e pôs a sacola ao lado do plástico do lixo no
fio da calçada.
Naquela noite dormiu e sonhou de Rudimira caminhava na beira
da praia, cabelos soltos ao vento, os pés nus brincando na água do
mar.
|