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A noite estava calma e quente, como a maioria das outras. Eu
caminhava perdida pelas proximidades da Serra do Roncador, sem ver
viva alma já a três dias, quando pensei ter visto alguém.
- Hei! - gritei tentando chamar a atenção, mas num momento
de distração, provocado por um tropeço que dei ao tentar sair
correndo, não vi mais ninguém. Sai em disparada, correndo o mais
depressa que podia, na certeza de encontrar a pessoa que vira, no
entanto quando cheguei ao ponto onde ela se encontrava, não havia
nem sinal de sua passagem.
- Por favor. Preciso de ajuda! - gritei desesperada sem
esperanças de ser ouvida e com muita vontade de chorar sentei-me
ali mesmo no chão, no meio da mata, e enfiei a cabaça entre os
joelhos pronta para derramar-me em lágrimas. Foi quando senti uma mão
em meu ombro.
- Calma, filha. Calma! - disse uma voz rouca e serena e eu
lentamente voltei-me para ver o rosto do homem.
Era um homem grande. De cabelos e barba totalmente brancos e
muito velho. Mesmo com as marcas de tantos anos na face ele tinha
tanta vida no olhar que me encheu de ânimo.
- Meu Deus! Finalmente encontrei alguém. - resmunguei num
misto de alegria e gratidão. - Era o senhor que estava passando por
aqui antes?
- Cumé qui eu vô sabe! - respondeu o velho dando de ombros.
- Por aqui, todo mundo vê o que bem qué. É portar disso, é
passaje prá "num sei onde" ( Torquemada vive? )... Não
sei o que sê viu não!
- O senhor tem água? - perguntei aflita e com a boca muito
seca.
Ele me conduziu até sua cabana, ali bem próxima, sem deixar
de falar um instante sequer por todo o caminho. Chegando a cabana
ele me deu água e um pedaço de pão continuando a falar.
- Como eu ia dizeno aqui todu mundu vê di tudo. Os índio ali
da ardeia, dize que vem disco vuador lá prás banda da lagoa e os
barulho que a serra faiz, ingana muito.
Eu estava saciando minha fome e sede e ouvindo atentamente as
histórias do velho, quando este, subitamente calou-se por conta de
um forte estrondo vindo lá da serra. Corremos até a janela e vimos
uma grande explosão de luzes que logo se dissipou. Algo de muito
estranho aconteceu, pois o velho repentinamente parecia um garoto de
tão rápido que pegou uma sacola, atirou-a as costas e saiu em
disparada embrenhando-se na mata fechada.
Tentei segui-lo, porém o perdi de vista assim que se afastou
da cabana. Fiquei muito aflita, sem saber o que pensar e como estava
ainda com muita fome, continuei a comer. As horas passaram
lentamente e por fim o sono venceu.
O Sol nasceu e seu brilho no meu rosto me acordou. Por um
momento não sabia onde estava e procurei a minha volta algo para me
localizar. Logo lembrai da cabana e do velho, mas não o vi em parte
alguma. Nem na cabana nem nos arredores. Percebi que havia frutas
recém colhidas numa cesta sobre a mesa e comi uma de cada. Algumas
eu nunca tinha visto antes. Resolvi caminhar em volta da cabana
entre as diversas arvores frutíferas que havia ali e comer mais
alguma daquelas frutas exóticas. Enquanto eu me esforçava para
alcançar uma fruta que mesmo não sendo nada exótica era irresistível
para mim, uma goiaba, o velho surgiu do meio das árvores trajando
uma túnica branca e parecendo muito mais jovem do que eu o vira na
noite anterior.
- Aonde o senhor foi? Fiquei assustada!
- Precisava ver o que era aquilo e... não me chame de senhor.
- respondeu-me o "novo velho" em português perfeito.
- O que aconteceu? - quis saber eu. - O sen... você parece
diferente.
- Você está melhor? - perguntou o homem pensando que poderia
desprezar minha curiosidade feminina.
- Sim! Muito melhor, mas diga-me o que foi...
- Avisei na cidade que você está aqui. - interrompeu. - Eles
logo virão busca-la.
Eu queria insistir, no entanto alguma coisa me impediu como se
algo dentro da minha mente me impedisse e eu fiquei com um pouco de
medo.
- Obrigada pelas frutas. - desviei. - Eram para mim, não?
Estavam uma delicia.
- Sim eram para você. - disse olhando-me nos olhos com um
olhar de imensa ternura. - Regozijo-me em saber que gostou.
- Sabe. Eu não sei seu nome e você pode ter salvo minha
vida.
O homem deu um sorriso benevolente e respondeu:
- Pode me chamar de Gabriel.
Enquanto falava olhava por toda a cabana, como se nunca fosse
voltar a vê-la e não quizesse esquecer nada.
- Aonde vai?
- Finalmente, depois de décadas eles viram.
- Mas... - comecei, mas ele novamente me interrompeu.
- Vou para casa! - disse com semblante de imensa alegria
saindo da cabana.
Minutos mais tarde outro estrondo se fez ouvir e nunca mais
soube do "velho novo".
Um pessoal da cidade apareceu para me buscar umas quatro horas
mais tarde e eu voltei para casa, assim como Gabriel. Até hoje não
tirei uma conclusão sobre os estranhos acontecimentos que tiveram
lugar na Serra do Roncador em dezembro de noventa e nove, nem de
onde veio meu anjo salvador. Nutro esperanças de um dia voltar a
encontra-lo e ouvir dele próprio as explicações.
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