O Mistério Que Veio do Céu

 Miguel Angel Pérez Corrêa

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0064]
[Autor: Miguel Angel Pérez Corrêa]
[Título: O Mistério Que Veio do Céu]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 910]

 

A noite estava calma e quente, como a maioria das outras. Eu caminhava perdida pelas proximidades da Serra do Roncador, sem ver viva alma já a três dias, quando pensei ter visto alguém.

- Hei! - gritei tentando chamar a atenção, mas num momento de distração, provocado por um tropeço que dei ao tentar sair correndo, não vi mais ninguém. Sai em disparada, correndo o mais depressa que podia, na certeza de encontrar a pessoa que vira, no entanto quando cheguei ao ponto onde ela se encontrava, não havia nem sinal de sua passagem.

- Por favor. Preciso de ajuda! - gritei desesperada sem esperanças de ser ouvida e com muita vontade de chorar sentei-me ali mesmo no chão, no meio da mata, e enfiei a cabaça entre os joelhos pronta para derramar-me em lágrimas. Foi quando senti uma mão em meu ombro.

- Calma, filha. Calma! - disse uma voz rouca e serena e eu lentamente voltei-me para ver o rosto do homem.

Era um homem grande. De cabelos e barba totalmente brancos e muito velho. Mesmo com as marcas de tantos anos na face ele tinha tanta vida no olhar que me encheu de ânimo.

- Meu Deus! Finalmente encontrei alguém. - resmunguei num misto de alegria e gratidão. - Era o senhor que estava passando por aqui antes?

- Cumé qui eu vô sabe! - respondeu o velho dando de ombros. - Por aqui, todo mundo vê o que bem qué. É portar disso, é passaje prá "num sei onde" ( Torquemada vive? )... Não sei o que sê viu não!

- O senhor tem água? - perguntei aflita e com a boca muito seca.

Ele me conduziu até sua cabana, ali bem próxima, sem deixar de falar um instante sequer por todo o caminho. Chegando a cabana ele me deu água e um pedaço de pão continuando a falar.

- Como eu ia dizeno aqui todu mundu vê di tudo. Os índio ali da ardeia, dize que vem disco vuador lá prás banda da lagoa e os barulho que a serra faiz, ingana muito.

Eu estava saciando minha fome e sede e ouvindo atentamente as histórias do velho, quando este, subitamente calou-se por conta de um forte estrondo vindo lá da serra. Corremos até a janela e vimos uma grande explosão de luzes que logo se dissipou. Algo de muito estranho aconteceu, pois o velho repentinamente parecia um garoto de tão rápido que pegou uma sacola, atirou-a as costas e saiu em disparada embrenhando-se na mata fechada.

Tentei segui-lo, porém o perdi de vista assim que se afastou da cabana. Fiquei muito aflita, sem saber o que pensar e como estava ainda com muita fome, continuei a comer. As horas passaram lentamente e por fim o sono venceu.

O Sol nasceu e seu brilho no meu rosto me acordou. Por um momento não sabia onde estava e procurei a minha volta algo para me localizar. Logo lembrai da cabana e do velho, mas não o vi em parte alguma. Nem na cabana nem nos arredores. Percebi que havia frutas recém colhidas numa cesta sobre a mesa e comi uma de cada. Algumas eu nunca tinha visto antes. Resolvi caminhar em volta da cabana entre as diversas arvores frutíferas que havia ali e comer mais alguma daquelas frutas exóticas. Enquanto eu me esforçava para alcançar uma fruta que mesmo não sendo nada exótica era irresistível para mim, uma goiaba, o velho surgiu do meio das árvores trajando uma túnica branca e parecendo muito mais jovem do que eu o vira na noite anterior.

- Aonde o senhor foi? Fiquei assustada!

- Precisava ver o que era aquilo e... não me chame de senhor. - respondeu-me o "novo velho" em português perfeito.

- O que aconteceu? - quis saber eu. - O sen... você parece diferente.

- Você está melhor? - perguntou o homem pensando que poderia desprezar minha curiosidade feminina.

- Sim! Muito melhor, mas diga-me o que foi...

- Avisei na cidade que você está aqui. - interrompeu. - Eles logo virão busca-la.

Eu queria insistir, no entanto alguma coisa me impediu como se algo dentro da minha mente me impedisse e eu fiquei com um pouco de medo.

- Obrigada pelas frutas. - desviei. - Eram para mim, não? Estavam uma delicia.

- Sim eram para você. - disse olhando-me nos olhos com um olhar de imensa ternura. - Regozijo-me em saber que gostou.

- Sabe. Eu não sei seu nome e você pode ter salvo minha vida.

O homem deu um sorriso benevolente e respondeu:
- Pode me chamar de Gabriel.

Enquanto falava olhava por toda a cabana, como se nunca fosse voltar a vê-la e não quizesse esquecer nada.

- Aonde vai?

- Finalmente, depois de décadas eles viram.

- Mas... - comecei, mas ele novamente me interrompeu.

- Vou para casa! - disse com semblante de imensa alegria saindo da cabana.

Minutos mais tarde outro estrondo se fez ouvir e nunca mais soube do "velho novo".

Um pessoal da cidade apareceu para me buscar umas quatro horas mais tarde e eu voltei para casa, assim como Gabriel. Até hoje não tirei uma conclusão sobre os estranhos acontecimentos que tiveram lugar na Serra do Roncador em dezembro de noventa e nove, nem de onde veio meu anjo salvador. Nutro esperanças de um dia voltar a encontra-lo e ouvir dele próprio as explicações.

  

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