Que Fim Levou Sofia?

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0062]
[Autor: Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título: Que Fim Levou Sofia?]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 20.660]

 

 PRIMEIRA PARTE

“E Deus criou o Homem,

e disse: Vai trabalhar,

1

O pequeno linner Skylark completava seu cruzeiro estelar através duma rota alternativa, no quadrante Hemp-Toshiba, recém liberado, ainda que com restrições, para o tráfego espacial de médio e grande porte.

Dificilmente o linner e suas modestas (muitos diriam até desprezíveis) 328 mil toneladas se eqüivaleria em algum ponto a esses gigantes de dois milhões e até mais de puro zarcônio reforçado, capazes de revidar qualquer ataque regular oriundo das Profundezas, onde os piratas fixavam sua incerta morada.

Sem ser um Cargueiro ou Desbravador, o veículo ostentava o duvidoso status de ‘iate’ duma empresa com um patrimônio declarado de apenas 1$203.000 Soleres, cujo ganha-pão tinha relação direta com o que a Skylark conseguisse arrumar em termo de passageiros, carga e algum correio eventual, muitas vezes ocorrendo uma mistura desses três itens, sendo difícil distinguir um dos outros.  Seria problemático para qualquer empresa sem capital de giro suficiente seguir adiante no mercado sem o mínimo investimento numa ou outra área de risco;  relevando isso, sempre, os detentores da apólice de funcionamento não desprezavam nada, inclusive fazendo da nave uma porta-cacareco, entupindo-a com carga viva de toda sorte, numa empreitada (na verdade várias) como aquela, para evitar perder o pouco que possuíam, vivendo quase à margem da Ilegalidade.

Um daqueles momentos delicados novamente se apresentara e o pequeno e ‘chumbado’ iate invadia o quadrante disponibilizado – com reservas, enquanto bandeiras de risco de saque rebrilhavam em bóias sinalizadoras – às fortalezas voadoras.  Independentemente desse quadro pouco producente, seguia seu curso como se nada pudesse detê-la.  Como se as preces que o capitão da nave fazia adiantassem de alguma coisa. *

Quando o Alerta Vermelho soou, Gabriel Barleduc Capadossos engasgou com seu octingentésimo ‘Padre Nosso que Estais no Espaço’, deu com o olhar inquiridor no olhão identicamente arregalado do imediato, que também acumulava a função de mestre-de-carga, surgindo dum dos vários e estreitos passadiços de serviço que desembocavam na central de comando.

- Por quê do Alerta?  Sabe de alguma coisa, Jessy? – indagou, socando o rosário num ponto que pudesse socorrê-lo a qualquer momento.  Como a nave não dispunha de alerta modulado, sendo a maneira mais rápida de identificar qualquer situação anômala, todas as vezes que isso acontecia era um tormento para todo mundo.

Jess Binot O. Pascalevy, afivelando ainda parte do uniforme regulamentar que vestira no compartimento externo, deu de ombros no alto de seus 2.20m, parecendo menos por conta de geralmente andar encurvado como um marabu terrestre;  a tez azulada mais pálida que de costume, os olhos de íris graúdas e totalmente negras piscavam, dançando nas órbitas, traduzindo sua ignorância para explicar porquê da tela de navegação cintilar em vermelho vivo, sinal de ameaça iminente.

- Pensei que o senhor soubesse... – sem outro recurso, procurou seguir o comandante, acabando por ajeitar o jaquetão sobre o peito mirrado que também traia sua ascendência de colono adaptado às condições adversas de Rigel II: - Já estava vindo do convés de pouso, através do atalho, checando a maldita carga, quando ouvi os primeiros acordes do alerta máximo.  Algum palpite, chefe?

Foi a vez de Gaba, como era também conhecido o vetusto comandante, dar de ombros.

Quando chegaram junto à Astrodesk, o realçador aga3dê já esboçava o motivo daquela agitação vespertina.  Com os nervos tracionados, toda exígua tripulação manteve o silêncio expontâneo, enquanto, sob o comando preciso de Gerusa Monteiro - a astronavegadora assombreada pela curvatura dos raios do HtriD -, o realçador plotava o intruso na intertela ionizante.

- Humm, não me parece ser uma Corsário... – especulou a ruiva em seu nicho, enquanto finalizava os últimos retoques digitais, cruzando dados e axiomas alfanuméricos, jogando mais algumas variáveis para dentro do delineador.  Quase satisfeita com o resultado, ultimou um giro horizontal de quase ½ phi radianos, também incrementando a revolução do eixo vertical, possibilitando que todos pudessem ver os contornos frontais do objeto que acionara o alarma de impacto automaticamente.  E voltou a se manifestar: - Nem apresenta a característica bojuda e o centro de torque das unidades dos Japomães.  Sayonara-Aulfidezain por isso!

- Sem sombra de dúvida é uma benção, em todo caso o designer ainda é muito familiar e com certeza nem alienígena ela é – cofiando a barba cinzenta, sentindo os contornos duma velha cicatriz, o comandante requisitou o nucapacete que plugou em sua única ventosa craniana;  através daquele mecanismo, já precisando ser modernizado, findo o reconhecimento do periférico, colheu áudio (destituído de padrão de contato interestelar) num feixe amplo e multifreqüencial, como também controlou foco, conseguindo pormenores que qualquer olho humano rudimentar dificilmente estaria apto a revelar.

Jess intuiu que o perigo não era tão imediato assim.  Entrosado perfeitamente com seu comandante, depois de quase 5 anos de convivência praticamente diária, deixou-o lidando com o mistério da aparição;  desarmou o alerta máximo, declinando o nível dele até o mínimo de prontidão, esperando com isso tranqüilizar os passageiros que, mesmo assim sabia, dentro em pouco tentariam irromper através da eclusa principal, exigindo que o linner prosseguisse sua viagem conforme o substancial acordo financeiro celebrado entre as partes.

A porra da carga, um contrabando na verdade, estava atravessado em sua garganta desde muito antes da partida de San Sebastian IV, porto-matrícula do iate em Eudoxia-Premium, um nome pomposo para um cloaca sideral.  A vantagem e desvantagem de ser funcionário duma empresa de capital privado limitadíssimo era que podia muito bem se sublevar em relação ao manifesto de carga e seus passageiros, mas também tinha a certeza de que poucas vezes seria ouvido.

De todo jeito, formalizara seu protesto, no qual estranhamente, ao menos daquela vez, o velho e tarimbado oficial superior não ratificara, mantendo-se silencioso por muito tempo.  Tempo demais.  

*

Seu pensamento também fervilhava, apresentando-se fracionado.  Parte dele mergulhava nas minúcias técnicas-engenhacionais da belonave que jazia exposta por todos os ângulos, como num nu ginecológico, só que em larga escala, absolutamente mecânico;  o ‘desnudamento’ não revelava qualquer dano estrutural, nem uma mínima moça que pudesse alardear alguma pista para seu estado de abandono;  nada havia ali, fora as muitas microfissuras comuns à exposição prolongada da poeira de estrelas em suspensão no universo e seu processo lentamente abrasivo.  Mas reconhecia não ser toda verdade.  Nem a parte mais significativa.  Alguma coisa, sim, havia, só não podia vê-la... ainda.

Embora desconhecesse o que seu lugar-tenente elucubrava, um outro fragmento de sua atenção vagava por searas semelhantes...

Realmente detestava levar contrabando e/ou contrabandistas.  E não somente a ética clamava contra.  Bastava um pouco de prova documental e sua carreira iria novamente pro beleléu.  O contratante, um grupinho mal encarado de ‘pústulas cinzentas’ – como definiam privadamente os Traficantes de Especiarias (devido as empolações que o contato freqüente com a gama enorme de artigos trangênicos, através da segregação de suas instáveis toxinas, faziam com que basicamente todos eles se cobrissem de algo que lembravam a antiga varíola, só que bem mais purulento, embora nada transmissível pelo ar e através do toque) -, não fizeram mistérios que se tratava disso, fretando o linner com exclusividade, trocando uma extraordinária soma pelo transporte da carga até um porto seguro do outro lado dos quadrantes policiados.

Gabriel aceitara o encargo não só ex-officio.  Fizera-o principalmente porque tal rota o levaria próximo a seu planeta natal.  A senilidade, tinha se decidido, trazia um lado bom, fazendo com que todos perigos não fossem tão letais assim, já que a morte a tudo suplantava.  Com carga ilegal ou não, a oportunidade era excepcional, pois já há exatos 87 anos não visitava o lugar, muito pouco até de forma virtual, pela insossa e atulhada Spacenet.

Todavia, alguns de seus pensamentos estavam bem aferrados no objeto que se revelava a meros 1,3 milhões de quilômetros dali.  Aquela nave vagando à deriva tinha tudo para ser uma jóia preciosa de primeiríssimo grau!  Uma presa rara.  Uma pérola que dificilmente o destino colocaria nas mãos de uma só pessoa em um trilhão.  Tê-la, apossando-se, em usufruto explícito de um dos capítulos do Direito Espacial da Exploração de Sinistros, da provável carga que só fazia salivá-lo, renderiam tantos soleres que poderia abandonar de vez aquela vida de piloto de aluguel, deixando de engolir tantos batráquios ptaks, que só o efeito do pensamento era uma enxurrada de euforia.  “Quem sabe”, um ou outro neurônio rebelara os demais, “adquiro minha própria frota.  Quem sabe fixo residência novamente na Terra...”

Era um sonho que até então sempre procurou não acalentar demais, trazendo sempre atrelado à razão, pois soltando o lastro do devaneio, sabia, este tendia a perder todo controle, e só havia um lugar onde aquilo terminaria: o motivo de se auto-exilar nos cafundós da galáxia.

Por isso, quando o imediato invadiu sua interface audiovisual, criando uma ‘janela’ através do mainframe, por onde avisou-o que os pústulas cinzentas exigiam ser recebidos na Ponte, sua ordem foi:

- Prenda-os!! – e acrescentou, livrando-se do aparato acarrapatado à nuca, como um prateado solidéu da Nova Era, resetando alguns sentidos até então ampliados: - Invente qualquer coisa, tipo Quarentena, que o jantar fugiu novamente, sei lá;  dou-lhe carta-branca nesse caso, mas, Santa Epifania, coloque-os em recinto fechado, incomunicáveis, imediatamente.  E com guardas na porta, de preferências os robôs combatentes mais incorruptíveis que dispomos, para termos certeza que não seremos mais interrompidos.

Feliz da vida, sem atinar que aquilo tudo era bastante irregular, traído pela vontade em redimir-se perante sua consciência, Jess saltou de seu assento e fez uma continência que rotineiramente pouco era empregada, pois ninguém ali tinha ascendência militar, dizendo:

- SIM, SENHOR!!

2

Seguindo a dica do comandante, Jess apelou para a mais trivial dentre as ocorrências prováveis para se ‘encarcerar’ os passageiros sem criar um incidente de caráter irrevogável, ao menos durante a primeira hora de confinamento.

Usou a estratégia de deixar vazar que o Murrax - o único exemplar que tinham, o mais caquético do universo, ainda assim dispendioso, da misteriosa manada espalhada por todos rincões que a humanidade se aventurava -, uma espécie dum bisão agigantado de muitas patas-ventosas, tinha fugido do cercado no zoodispensário, e arremetia, furioso, contra qualquer um que se aproximasse;  naquele momento esgueirava-se através do fosso central da nave e, uma vez ramificado na malha de tráfego interno, atingiria qualquer ponto dela.  Detalhe: Para melhorar a cobertura, ninguém da tripulação fora alertado de que se tratava dum embuste.

Aquele tipo de ‘ameaça’ já ocorrera no início da jornada, apenas que o imediato pintou o diabo duma forma bem mais terrível;  conhecia que o máximo que os cinco passageiros diriam seria que a tripulação era composta de idiotas, sendo isso o mínimo de qualquer comentário que costumava brotar daquelas bocas tão versadas em esculhambação.  Nunca satisfeitos com nada, insatisfeitos e meio.  Jess estava adorando a nova filosofia!!  

*

Com certeza ninguém estranhou do Murrax bundear a bordo quando deveria estar convertido em bifes no frigorífico, como qualquer gado de corte.  Afinal, um ser desse naipe só prestava se vivo, cedendo alguma parte ‘comestível’ de si mesmo se no gozo de suas faculdades motoras intactas, exemplo flagrante do queijo-carne que nascia dos períodos de ordenha;  esse plasma sanguinolento de aspecto alimentício duvidoso, cheiro pungente e sabor adocicado, uma vez centrigufado, separado de algumas enzimas letais, pasteurizado para consumo humano, era um manjar que mesmo uma carroça como aquele iate, havendo um mínimo espaço para tal, deixaria de prescindir.

Quando o imediato recebeu a exigência para o uso do gigarádio, com suprema vontade evitou gargalhar.  Sabia que a batalha estava ganha, pelo menos por hora;  os passageiros perceberam o gênero de beco sem saída onde estavam entrando, já que valia a lei do blecaute de rádio, evitando chamar a atenção dalguma patrulha avançada do consórcio teuto-nipônico (japomães), donos presuntivos daquelas parágens.

Daí também não foi difícil negar-lhes uma entrevista com o comandante ‘sobre a inconveniência da nave permanecer inerciando quando deveria estar pré-aquecendo os Impulsores para a ultranavegação, através do Zimmerespaço’.  O precedente ajudara pacas.  Uma vez negada uma série de coisas, o resto ficava mais fácil.  Negar.  Negar.  Negar.  Um pouquinho de poder pra variar.  Já tinha se esquecido do gostinho disso!

Por isso, quando veio nova ordem, só pôde aquiescer aos estranhos ‘santos’ que o comandante vivia dizendo que não o tinham abandonado.  Mesmo sendo ateu, o rigeliano não podia negar que alguma coisa de diferente e inexplicável inspirara o velho marujo a reverter até 80% dos plantões que todos tripulantes já mantinham há quase 38h ininterruptas, desde a reentrada em espaço corrente para salvaguardar os Impulsores.  Durante o período em que, junto ao terminal, elaborou uma escala de serviço flexível no pequeno escritório anexo à sala de comando principal, o delgado imediato ficou tão atarefado com outros assuntos burocráticos que só muito tardiamente descobriu que Gaba, pessoalmente, pretendia uma temerária incursão extraveicular.  

*

Depois de deixar o imediato pasmo ao fazer aquilo que geralmente era serviço de robôs, inspeção virtual ou unidades especiais de assalto, dependendo do caso, Gabriel resolveu abrir o jogo com o subalterno.  Porém um ‘jogo’ no qual a quase totalidade dos trunfos ainda jaziam, velados, repousando na manga.  Um jogo na verdadeira acepção da palavra.  Contou o que sabia do Veículo Transepacial Versátil Sofia, o objeto que insistia que ninguém mais além daqueles que estiveram na Sala de Comando soubessem de sua existência.

Só haviam dois veículos de transporte vip, de magnitude semelhante, que se tinha notícia.  Um deles era o VTV La Luna del Esperanza, nave de elite do ainda poderoso, embora desestabilizado, consórcio hispânico-brasileiro, via de regra em serviço na banda azul da galáxia, onde a quantidade de planetas que se sublevavam era bem maior que a taxa de novas sociedades empresariais de exploração.  O outro ‘gêmeo’ estava na frente da Skylark, sendo que o detalhe maior o comandante deixaria para o final, por enquanto omitindo do imediato: a Sofia, do gigaconsórcio eurosinoafricano tinha sido dada OFICIALMENTE como desaparecido fazia perto de dois anos...

3

Gabriel não podia confiar em ninguém mais para executar a tarefa.  Por isso envergava o traje autopropulsado que, uma vez catapultado, colocara-o junto ao casco do gigante com 1,3km de extensão e sua arrojada configuração em ponta de flecha que exaustivamente analisara dentro de sua nave, antes de aventurar-se no vazio.

É claro que enfrentar o espaço daquela forma tão íntima, com algumas polegadas entre ele e o vácuo absoluto, não se destacava dentre seus esportes prediletos.  E a idade, se é que tal coisa tinha época, para esse tipo de aventura, perdia-se no esquecimento.

Foi com pesar que usou um canhão portátil para varrer a camada de gelo que se formara sobre uma das eclusas de transbordo, numa larga seção situada à meia-nau.  O mesmo pesar desapareceu quando constatou que o canhão, apesar de funcionar com o gelo, fora inútil para tentar criar um mínimo lanho no encouraçado.

Magnetizado, ainda atado à nave por um umbilical, procurou recordar tudo que sabia sobre esse tipo de veículo que em sua juventude ajudara a rascunhar, embora não tivesse tido chance de levar o projeto adiante.

Credenciado pela dilatada experiência de seus 182 anos de existência, muitos desses dedicados na linha de montagem dos mais importantes estaleiros do Conglomerado, como estava previsto averiguou que o canhão acabou sendo mesmo uma tentativa patética;  existiam outras formas de se chegar ao interior da carcaça intacta, contudo dificilmente algumas dessas tentativas funcionariam através da força bruta.

Em sua vida pregressa, como renomado e atípico engenheiro-de-estruturas, um ‘doutor’ de naves do Conglomerado - antes do mesmo, sucumbindo às velhas reinvindicações e novos conclaves, como a orogenia de placas dum continente único, acabara se fragmentando em blocos -, Gabriel buscou inspiração, contando os locais onde os escaleres salva-vidas se projetavam da estrutura em forma de trígono.  Estranhamente nenhum deles faltava, isto é, aparentemente à exceção de um único, o último, situado à ré, debaixo duma condensação maior de gelo espacial, atestando um escape atmosférico.  Um sinal inequívoco de escamoteamento!

O que abatera aquela nave, aquele colosso da engenharia humana com o auxílio de um ou outro povo alienígena, era sua opinião particular que fora feito de forma a destruir de dentro para fora, evitando a fuga em massa de seus tripulantes.

O motivo disso, só uma checagem in loco poderia auferir autenticidade.  E talvez nem assim.  E era tal coisa que estava providenciando.

Deixando de lado seu começo de apreensão, se dirigiu à parte do casco onde uma escotilha bem mais fina que as demais anteparas descera sobre o vão onde antes repousara em seu berço, o que acabou confirmado, o único escaler escamoteado.  Trabalhou ali com paciência pelos próximos 12 minutos;  intermitentemente relembrava uma batelada de indagações que seu imediato lhe fizera antes da partida, sobre o estado de nervos dos passageiros (e o seu próprio).  Quando sugerira usar o sistema de ventilação para narcotizá-los, inserindo um agente neural de tempo sincronizado, sem rastro delével algum, só então o lugar-tenente largou de seu pé e nem ao menos dissimulou um risinho de satisfação.  Inclusive usara aquilo para seduzir Jess.  Nada como insuflar a expectativa de represália de uma pessoa... Isso tudo coincidiu com o ‘bronk’ na fuselagem, o capacete encostado junto à comporta conduzindo as vibrações que o ruído mecânico desencadeara, tendo seu inseparável aparelhinho de sensoriamento remoto descoberto a seqüência que destravava a mesma;  usando dum bi-pass e enorme sangue-frio, delicadamente, correndo o risco de atingir um bolsão explosivo, injetou alguns ergs no pistolão hidráulico, que passou a atender ao estímulo da força externa, fazendo a comporta recuar e se esconder silenciosamente dentro da espessa parede.

Diante dele estava uma cavidade de trinta e cinco metros de diâmetro.  Nenhuma luz havia no aposento despojado de qualquer coisa, nem resquício de qualquer elemento químico ou biológico;  uma vez dentro da nave seu progresso foi bem mais rápido;  tirando um conjugado de capacitores e toda parafernália de arrombamento que achou necessária para a tarefa, fez sua ‘gazua’ trabalhar.  Foi somente oclusar a comporta externa novamente e checar os equipamentos se estavam operantes.  Para sua surpresa, não esperava que o compartimento fosse pressurizado, contudo foi isso exatamente o que ocorreu, quando um dispositivo latente da nave registrou a presença de um objeto (seu traje) com conformidade humanóide, tratando logo de bombear ar para o recinto.

Junto com o oxigênio e todos elementos constituintes do ar que eram vitais ao homem, preparou-se para a fase seguinte, pois sabia que o cérebro multilógico da nave, provando estar alerta - e um mistério a mais para ser solucionado do porquê da Sofia não usar de sua programação de emergência para deslocar-se até um local de fácil resgate, ou no mínimo irradiar um chamado de socorro na freqüência que bem entendesse... -, iria simultaneamente providenciar o aquecimento, iluminação, bem como a indução de gravidade artificial, que seu sensível instrumental de medição atestava em franco processo de acomodação. *

Sem se livrar do traje, ou parte dele, mesmo comprovando que o ambiente externo apresentava todo suporte de vida compatível, ele, perante os corpos tombados, todos perfeitamente mumificados, todos absoluta e estranhamente flagrados na lide anterior à catástrofe – pois só podia ser isso, para arrebatá-los daquela maneira –, tudo induzia que a morte ocorrera de forma rápida e silenciosa.  Já as expressões dos rostos não desmentiam alguma dor.  Se radiação, vírus ou outro agente desconhecido, Gabriel só poderia esperar por novas baterias de testes para se arriscar fora do traje protetor.  E nunca faria isso sem o devido acompanhamento.  Sua cota de perigos já transbordara o caneco.

Como gozar de seu novo investimento se fosse convertido em poeira de estrelas?

Sua primeira intenção de checar o manifesto de carga foi tolhida pela sensação de algum movimento originado nas cercanias da mapoteca.

Sem jamais desprezar tal intuição, que já salvara-o de muitas enrascadas, novamente destravou o canhão portátil e, desta feita, com uma pequena torção, regulou um feixe amplo para ter certeza de acertar qualquer coisa que se mantivesse oculta, mesmo após uma detida análise espectrográfica.

Porém o movimento sutil e ‘imaginado’ finalmente transformou-se em algo com som e contornos, o abafado ruído de pequenos pés sobre o piso plastimetalizado não tardando a revelar sua origem.

Apontou a arma mas não foi preciso disparar.  Sua intuição novamente deu sinal.

4

De volta à Skylark, espantado ao verificar que tinha ficado menos de três horas fora (quando pareciam bem mais), foi recebido por um batalhão de perguntas e um imediato que, apesar do tamanho todo, parecia uma criança quando queria descobrir o que estava dentro daquela pequena caixa que o comandante submetia à descontaminação.

Como um pai afetuoso, brincalhão, Gabriel só deu-lhe alguns tapas nas costas e meio-sorrisos pouco reveladores;  a fim de diminuir (e com isso talvez aumentar) o ‘impacto’ do presente, colocou um dedo verticalmente em seu próprio lábio, fazendo a pantomima necessária para levar o auxiliar a se calar, exigindo sigilosidade para que aquilo que revelaria tão logo pudesse.  

*

Tendo descartado mais uma vez o imediato, talvez o último subterfúgio antes da ‘verdade’, Gabriel seguiu até o desértico Observatório, resolvendo pôr em ação seus vastos, embora enferrujados, conhecimentos de sistemas e contra-senhas;  em pouco tempo conseguiu ‘tapear’ a programação original, construindo um programa de geração falsa de imagens para burlar qualquer tentativa de ser monitorado.

Imediatamente depois começou a agir em conformidade com suas suspeitas, examinando o objeto que retirara da Sofia: um atarracado robô-andarilho com uma mensagem em seus bancos de dados para quem conseguisse chegar até a sala de comando do veículo abandonado.

Quando plugou-se ao centópode robotizado, a interface se estabilizou, podendo então examinar se aquela figura que se materializava em sua mente seria de fato a mesma cujo paradeiro não fora encontrado pelo escrutínio dos 422 tripulantes mortos nos diversos conveses da nave sinistrada.  A pessoa que, destoando do código naval milenar, usando o escaler, escapara ao destino comum de seus comandados.  Embora, já que o comandante da nave, um tal de Luiggi Cardinalle, estava morto sobre um prato de Fettucini & almôndegas emboloradas de murrax, seria acertado dizer o mesmo em relação ao comandante do Consórcio, que, pelo que constava à Gabriel, salvo prova em contrário, continuava vivinho da silva??

Mama mia, Santa Porciúncula, rogai por nós, seus infratores!!

Ali estava a comparação que atestava a imagem como sendo a do próprio megaempresário Zander Zimmerman Kosak em pessoa!  Atual detentor da patente (ainda sub judice, pelo que verificou-se facilmente nos registros do Diário Estelar de Notícias*, em que o prazo para contestação expiraria em breve) e neto daquele que inventara o sistema supralúmen para navegação através do alterespaço (ou Zimmerespaço, como era mais corrente dizer) há 281 anos, em meados do século XXI, servindo como marco da verdadeira Corrida Espacial e viabilizando o surgimento do Conglomerado Terrestre, inclusive plantando ali o vírus de sua futura dissolução.

Poder de barganha.  Instrumento de vingança.  Muitas escolhas possíveis.  Aquilo devia valer muito mais do que toda aquela nave física e tudo que levasse com ela (inclusive os cadáveres), podendo ouvir, e se possível auferir, o último desejo do figurão desaparecido.

“Então é isso”, encerrando o arquivo de interface que fizera todo seu músculo facial latejar pelo esforço cognitivo prolongado, concluiu, “ou me decido em reparar essa belezoca, que pelo visto foi sabotada por um mestre – assim como eu -, caindo fora o quanto antes, ou, contra qualquer lógica aceitável, vou atrás da rota que esse idiota fez e descubro, realmente, Oh! Santos Borbotões, que fim levou Sofia...”

(*) O DEN, apesar do nome ‘diário’, era emitido para todas regiões do espaço, numa periodicidade semanal.  O arquivo condensado, meio enciclopédico, meio jornalístico, fazendo notar cada fato de alguma relevância no panorama dos 36 Sistemas que patrocinavam o projeto, estava ao alcance de qualquer decodificador multisat, pagando pelo serviço em conformidade com o número do espectro sensorial que gostasse de ter acesso.  

SEGUNDA PARTE

Jogo de Gato & Rato

1

Substrato 0062E a 0975K (c/ 6 spots de interrupções)
– Relato extraído do HD de Leopold X –

Apesar de assim parecer, fiz minha fortuna não em cima da manutenção daquilo que, primeiro meu avô patenteara, depois meu pai se encarregou de torrar nas mesas de dados de El Rubro, conhecida como a Las Vegas marciana.

Muito pelo contrário.  Ao fazer-me na vida, mesmo sem um bit de conhecimento tecnológico e a abstração matemática dum Rufus Talbot Zimmerman, foi porque tive tino para os negócios e consegui ser tão feroz nas finanças quanto o fui na apropriação ‘indébita’ da dita massa falida das empresas que solaparam a invenção de meu avô.

Na guerrilha financeira, o inimigo de hoje pode ser o aliado de amanhã.

Certo.  O postulado é esse mesmo, mas busquei enriquecê-lo com um pouco de temor:

Temor para fazê-los curvar perante a mim ao menor sinal de comando.

Temor para tirar deles aquilo que tinham de melhor, e se não tinham nada, tratar de ensinar e depois tirar.

Temor para poder municiá-los com a traição...

Se hoje estou indeciso junto à esse sol cafajeste, que nem se digna a possuir mais que um mísero pedaço de rocha T23, devo à minha própria estupidez.

Não que me arrependa.  Longe disso.  Mas abandonei Sofia, minha bela amada, graciosa, terna, companheira, inspiração e vício, aquela a quem me revelo – ou deveria dizer revelava? – de corpo inteiro, sem essa máscara que aprendi a esculpir e manter ao longo dos anos.

A mesma Sofia que serviu de batismo para aquele infeliz veículo espacial no qual quase sucumbi.  O que diria ela disso tudo?  Provavelmente riria na minha cara, desfaria meu penteado, e deslocaria aqueles lábios fantásticos até aquele exato ponto onde só ela sabia tocar com a necessária profundidade, fazendo o ‘Grande’ Zander gemer com um cão vadio.  Estremeço só em pensar.

Somente ela sabia ler naquele drive contaminado que alguns poucos corajosos (ou idiotas) chamavam de minha vida.  Diferenciava o óbvio, descartava o excesso, desprezava a alegoria, reduzia-me de senhor à escravo seu.

E no entanto, sei, provavelmente jamais a verei novamente...

E AQUILO ESTAVA ME DEIXANDO LOUCO!  Não era a morte em si, não, nem a solidão, nem o amigo de sempre, o diabo.  Apenas (como se fosse pouco) a falta que Sofia fazia.

Perdi a conta de quantos murros apliquei, quantos galos conquistei, quanto volume de sangue derramei, até perceber que só conseguia apressar o meu fim.

Se ela era a razão de minha vida, por quê, por quê, estava em minhas mãos a força que me tiraria isso?

Mas oito semanas no espaço faz muita diferença.  Fez toda diferença.

Se louco posso ousar ficar, que destino me aguarda nas próximas semanas, quando meus víveres chegarem ao fim, heim?  Por isso não relutei mais.  Suicídio maior seria permanecer estático, daí decidi não iniciar a milésima órbita em torno de Cu – o único nome que aceitei para batizar minha provável última morada, selando o destino ‘poético’ que muitos me mandaram tomar às escondidas -, fazendo o escaler picar numa trajetória que me colocará, assim espero, embora sem nenhuma felicidade, naquele pedaço árido de terra marrom, de contorno acentuadamente irregular.  

spot

Através de minhas últimas explosondas, por amostragem, sei que o ar lá era uma bosta, porém continuava a ser uma bosta ‘respirável’.  Afinal, bem podia não haver ar nenhum, planeta algum, sol, porra nenhuma... Confortado por esse tipo de pensamento, sinto a vibração ao passar por umas camadas menos rarefeitas do único cinturão de partículas do lugar, que apelidara de ‘Intestino Delgado’.  De resto, o mundo se revelava tal qual investigado por minhas sondas enviadas anteriormente:

Uma bosta.

Mas tenho muita coisa a fazer para preocupar-me com aspectos estéticos, se bem que isso me afeta diretamente, pois esse é um mundo rústico, sem nenhum atrativo visual, só gases, MUITOS GASES, e alguns desses absurdamente fétidos.  Um verdadeiro Cu, como disse.  Qualquer analogia é mera coerência.  Quanto mais penso nisso, mais acredito que minha escolha não poderia ser mais acertada.

Quando pousei, o fiz dentro duma cratera.  Não intervi em nenhum momento.  Deixei o servidor automático se encarregar de tudo, pois tinha autonomia pré-programada para tal, e, dentre outras atribuições, era a razão de ainda não ter perecido desde que a Sofia travou seus Impulsores e, tudo ao mesmo tempo, minha tripulação foi posta fora de combate por sei lá que agente infeccioso fulminante.  Não eram muitos dados, nem nada esclarecedores, confesso, mas deixei tudo gravado num pequeno autômato, indicando as coordenadas aproximadas para onde me dirigiria, já que a nave, a grande filha da puta, se recusara a atender qualquer ordem expressa minha, com exceção do escamoteamento do escaler.

Enquanto a cratera estava sendo submetida a uma série de mudanças estruturais, para dar-lhe um aspecto menos inóspito, venho matutando se realmente sou vítima dum complô bem urdido ou a pessoa mais sem sorte do universo.  Como não acredito ser assim – e estou vivo, não esqueço de me lembrar desse detalhe -, tenho um palpite muito bom de quem está por trás disso...

A Corporação Lambda, que quer transformar meu legado num poder lacaio daqueles gorduchos e sebosos habitantes do Conchavo Alienígena das Pléiades;  só não entendo como infectaram o vírus (inclusive no programa da nave) deixando-o latente até o momento quando deixou de sê-lo, passando por meu dispendioso controle pessoal que sempre funcionou...

E principalmente, por quê não fui infectado e como o cérebro controlador da Sofia foi reformatado para ignorar toda e qualquer solicitação de socorro?  Era um ‘vírus’ muito seletivo, isso ninguém poderia negar.

O tempo que levei para cerebrar tudo isso (papagaiando para efeito de registro) não foi maior que o bate-estaca da nave ocupado em alicerçar minha base em Cu;  coisa rápida até mesmo para as limitadas aspirações do minicomputador-servidor do escaler, que uma vez em terra, nunca mais poderia levantar vôo.  Talvez essa ‘pressa’ acontecesse como sinal externo que os monoblocos começavam a se fundir, e nem isso poderia contar daqui por diante.  Que se apressasse então, ou terei de fazer um serviço braçal dos diabos!

Se eu fosse Rufus, saberia o que fazer.

Mas, sendo Zander, posso não ser o bonzão das hiperequações com variáveis dimensionais na cabeça, contudo também tenho meus recursos...

Sabia o que tinha de fazer...  Um objetivo afinal!!

A única dúvida – na verdade uma certeza – era onde encontrar o material apropriado para levar à cabo minhas modestas noções de engenharia robótica.  E, sim, a idéia se baseava nisso, ciência da computação.  Principalmente ciência do desespero.

Tenho pouco mais de três semana para rever minhas prioridades, checar o que posso ‘vampirizar’ sem agredir minha instável biosfera e descobrir meios de me alimentar nessa merdinha sem vestígio algum de vida vegetal ou animal (e não quero incluir aquele lodo todo que borbulha naquele único ‘mar’ que avistei como algo ‘vegetal’).

Quando penso nisso, acho que o simulacro nojento com o nosso órgão excretor é tão perfeito que não pode ser real.

Mas é.  Atende os sentidos.  A merda é toda minha.  E devo resolver o que fazer com ela, antes que ela é que resolva o que fazer comigo.

Se vou morrer aqui (e vou), preciso inventar uma forma de transcender.  Não quero que pensem que sou místico ou algo do gênero.  Apenas uma pessoa determinada;  se transcender é o que quero, claro que é isso que farei!  Agora, se vai funcionar, eu não serei juiz disso.  É detestável deixar as coisas assim, na mão do destino, principalmente quando não se acredita nisso, mas acabei tendo de considerar essa ‘variável’ como a única que me restou.

Enquanto falo (porque louco, óbvio, já me classifico) estou no console baixando a relação de cada mínimo objeto à minha disposição.  Pedi desdobramento até das peças menores, a fim de ter uma idéia clara se meus fatores hereditários e predisposição genética farão um click, e criarei a coisa por mera questão espasmódica.

E, não.  A ‘coisa’ não aconteceu dessa forma...  

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Quando o robô veio ao mundo como conjunto, dezenove dias após ter chegado nesse planeta, era um produto genuíno do esforço versus exaustão.  Estava ali, de pé, encarando, imóvel, parado em todos os sentidos.  Mas estava.  Poderia não estar.  Era minha vitória.  E comemorei comendo minha antepenúltima ração.

A coisa, o fantoche, o golem de tripas eletrônicas, precisava dum nome.  Mas antes do nome, apareceram outras cogitações.  Inicialmente pensei em fazê-lo ‘mulher’, quer dizer, com contornos dum corpo feminino, e algumas brechas e orifícios tão em voga para que esse tipo de estereótipo funcionasse.  Desisti.  Fiz apenas o ‘útero’, como planejado, e uma maneira de me inserir nele.  Mais nada.  Constatei que outros refinamentos era carga demais pra minha navezinha.

Claro que tenho todas as neuroses básicas preservadas.  Ei, vocês que me escutam e também riem de mim, quero que saibam que até me masturbo algumas vezes (e faria melhor, se houvesse algo aqui mais inspirador que essa latrina), tendo até esfolado meu pau, mais por raiva que propriamente prazer, já que esses momentos não são tão fáceis de encontrar hoje em dia.

Afinal, em Cu faça como os ‘nativos’: flutue.  Assim sendo, desisti até disso e trancafiei meu tesão nesta obra que, de tão mal-acabada, parece mais zombar que tributar algum loa ao artista.

Quer saber mesmo o que penso disso?  Foda-se (esse comentário é pra mim e pra quem mais servir, pois há muita gente interessada na mercadoria).  Finalmente decidi que o momento de ligar a coisa só devia prescindir de um detalhe...
 
Tendo o servidor cedido seus arquivos na hora certa – promessa é dívida –, acabou pifando, porém deixando-me com uma biosfera praticamente concluída;  sem ferramental adequado, sendo o robô tudo que me sobrara, risquei a blindagem da máquina e estou escrevendo o primeiro nome que veio à minha cabeça, que por acaso não consegui relacionar com ninguém que conheci: LEOPOLD.

És Leopold, meu caro ferro-velho, e agora vos ligo, e sua missão será me manter vivo e cumprir toda e qualquer instrução.  Não se atreva a quebrar, pois levará também minha mensagem à posteridade, contudo a ‘mensagem’ principal ninguém deverá conhecer, a menos, não antes do final”.

Com essas palavras jocosas, pouco me importo em ser retratado por qualquer eventual ouvinte.  O importante mesmo é que Leopold – esse nome horrível, porém tão adequado à máquina, que ficará esse mesmo – deu alguns tremeliques, sacudiu-se desconjuntado como se num balé-rap como naquelas fitas antigas, onde a maioria de nosso vocabulário provém.  Bravo!  Finalmente conseguiu se deslocar, caindo apenas cinco vezes, até chegar onde estou.  

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Pra definir um pouco melhor esse local, peço, grito, sussurro, pra que me ouçam:  a nave, situada no centro da cratera, é o alicerce principal, lugar onde durmo e faço minhas necessidades, me alimentando delas também, como sabem, já que tudo é reciclável, tendo Leopold feito milagres para conseguir chegar ao meu décimo mês aqui.

Estou do lado de fora, no quintal vitrificado que o extinto servidor tão bem preparou muitos meses atrás, antes de pifar.  Conto até com um pequeno playground para me exercitar, já que a gravidade em Cu não é lá essas coisas, por um lado ajudando, por outro tendendo a atrofiar meus músculos.

Existe também o reservatório com, ainda, 100 galões de ‘água’ nativa tratada.  Já que as principais características orgânicas podem ser aplicadas naquele líquido, não vou entrar no mérito do gosto, uma vez que todos sabem que qualquer flatulência afeta muito mais ao olfato que ao paladar.

Tentar manter a sanidade é relatar um tópico após o outro.  Pois bem, vamos tentar: uns oito metros acima do topo do escaler estava o vidrofibrex da cúpula que, além de me proteger da chuva de bosta – que aqui é uma monção prolongada e escura, como se uma lama fosse vomitada pelo céu que se abria em diarréia freqüente -, providenciava a reciclagem do ar sob a cúpula, que, por analogia, era um pouquinho melhor que ter de conviver com uma tropa de bodes malcheirosos.

Voltando à Leopold.  Depois duns ‘ajustes finos’, e comprovar que o mesmo podia se manter incólume sem meter os cornos no primeiro obstáculo que encontrasse, lembrei do distante dia quando desliguei a conexão com o escaler.  Tudo aquilo que tenho (tinha) dito até a presente data faz parte, agora, do HD dele.  Chupou todos os dados, sem omitir nenhum.  E o que manterá nele será apenas aquilo que eu determinar.

Como disse, externamente a máquina nada têm de atrativa.  É só uma carranca inorgânica, sem qualquer sutileza, no geral sem contornos aprimorados, sem isenção de ruídos, sem o aparato plástico que pudesse dizer “isto é um monumento à minha inteligência”.

Nada disso.  Leopold até que saiu melhor ao que imaginei.  Durante esse tempo, não sei COMO fez isso, mas aprimorou-se.  Existiram alguns zilhões de dados no escaler de como construir seu habitáculo, porém praticamente nenhum de como fazer você mesmo um homem de aço.  Por isso tive de improvisar, relembrando conceitos que, se é que alguma vez foram importantes, tinham deixado de ter qualquer valor, já que tudo quanto queria bastava perguntar quanto, e os outros se desdobravam para melhor servir.

Com o feio, desconjuntado, porém bastante diligente, mesmo assim já não era aquele Leopold do início da criação que capengara ao meu lado;  acabei de vestir meu traje e saí para minha excursão matinal.  

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Finalmente!  Hoje completo 1 ano nesse lugar aprazível.

Parabéns para mim, muitas bostas devidas...
Muitas felicidades, muitos anus de vida...

Nem me reconheço mais.

E nem sei o que seria de mim sem o Leo...

Mas sei que tenho de fazer aquilo, hoje, doutra forma sei também que não me restará forças, e vontade, pra continuar.

Parece que esqueci de dizer, porém acabei mesmo tendo de comer o lodo do oceano, com Leopold se desdobrando na sua milésima função como cozinheiro, transformando aquilo in natura numa salada energética, num complexo vitamínico, num panelão de sopa e outros tantos pratos de aparência ruim e gosto muito pior.  Tenho certeza que uma parte daquilo, em vez de descer, acabou se alojando em meu cérebro, trocando de lugar com ele.  Aquele lodo todo, quem diria, acabou se confirmando como a maior fonte de oxigênio do planeta, e queimava que era uma beleza dentro de meus intestinos!

Para terem uma idéia de como aquela ‘alimentação’ agia em mim, antes do robô melhorar a química, havia ocasiões que andava pelado na base e bastava uma série de peidos para me deslocar cinco metros em qualquer direção, menos pra cima ou pra baixo.  Era até divertido.  Só não havia cueca que resistisse.

Depois duma noite repleta de pesadelos – mais uma -, onde comandos de cocôs pára-quedistas desciam para tomar meu refúgio, e brigadas de homens-esgoto arremessavam partes de seus corpos contra mim, no intuito de me transformar num deles, ainda estou aterrorizado.  Nem mesmo consigo ir à privada sem achar que tudo não passa dum complô, que meu anus podia ser a porta de entrada da invasão alienígena...

Foi quando lembrei novamente de Sofia, já que trazê-la tão próximo, num lugar infecto assim – embora já tivesse bem mais acostumado, e não achasse tão ruim o cheiro - , seria como expor um delicado botão de rosa a uma horda de gafanhotos de Beluzzi (que mastigam até aço).

Mas era necessário que ela viesse me acudir (e estou chorando, enquanto falo isso), pois a morte física, que é certa e próxima, pra mim não oferece escapismo espiritual.

Sofia...

Uma parte de mim, até hoje, tenta entendê-la e descobrir a origem desse amor.  Outra parte, a maior porção, já mandou pras picas há muito esse tipo de preocupação.  Se sou um homem dividido, não é importante.  O primordial é que por esse amor, ou outro sentimento que queiram os estudiosos ousar macular, sendo sadio ou não, cometerei essa última loucura, já que só louco pra me relacionar assim com Leopold...

Escorando-me em tudo quanto podia, uma sombra daquilo que sempre foi uma sombra só que não sabia, estou indo até onde o robô, no limite de sua audição privilegiada, dava os últimos retoques em sua obra-prima, transformando a parte interna da cúpula numa espécie de afresco, com desenhos, mesmo que tacanhos esboços de meus desejos, que eu tinha delirado que gostaria de rever.

O engraçado disso é que não tinha dado qualquer ordem específica nesse sentido.  Apenas divagara, como tantas e tantas vezes venho fazendo, e Leo, pegando daí, deduziu o resto, incluindo o local, que mesmo sendo o mais lógico, devido a visibilidade, era o mais difícil de trabalhar.  Se for somado à isso que se ‘alimentava’ de dados de nosso modesto acervo cultural sobre alguns Mestres da Pintura de Todos os Tempos (inclusive Michelângelo), e se detinha, a cada dia, a aperfeiçoar alguma parte de si próprio, como um mago artífice no ‘conserta-te a ti mesmo’, abastecido com todo vasto conhecimento tecnológico e empírico que o escaler possuía, chegamos onde meu estarrecimento não conseguiu ultrapassar: Leopold se tornara uma versão melhorada por seus próprios méritos;  mais recursos, mais modificações em em seus artelhos e rolamentos, mais imprevisibilidade, mais veloz, mais inteligente, muito mais intuidor, só que, sei, não tinha mudado tanto assim sua aparência externa, e isso somente porque ele não queria, pois já demonstrara poder para tal coisa.

“Leo, preciso”.

Meu sussurro soou como uma ordem, nos misteriosos circuitos dele.  Não era necessário muito mais instruções para o autômato descer pelo seu grampo gravitacional, abandonando suas paletas, trazendo-me um copo de água (que o próprio Leopold encontrara uma forma de melhor filtrar e enriquecer com sais minerais), um assento confortável e l00% de sua atenção.

“Ouça o que vou dizer...”

A frase, supérflua, pois é uma redundância tremenda, está vindo junto com uma série de comandos.

E, enquanto faço esse relato, na iminência de ocorrer um sinal pré-combinado (quando vier ele interromperá o registro, voltando a registrar após um novo sinal, e assim por diante), dou ordem pra Leo não permitir a devassa em seu HD, visando arrancar dele esses momentos.  Antes à destruição à ceder esse material.  Por isso, caros ouvintes, como é um caso particular, ainda assim deixando um pouco para o seu discernimento, não quero o bedelho de ninguém nisso.

E, arrrr...., estou cumprindo com, ahieh....., essa função que, aaaaaaaaa......., já pode suspeitar, deixando pra Sofia.... aaaaaaaaahhhaaaaaaaaaaaaa... mmmmuumm...a...  

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Reiterando minha última mensagem após o APAGAR real.

Tempo desacordado.

Ato completo.  Apenas... sem lembrar... se foi... sucesso.

Sem fôlego, agora... para tão bem... concluir...

Só posso... desejar... sentimento... através de... Leo... meu portador... amigo... esperanç.....  

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Acabou.  Sei.  Isso.
Leo-cave-cova-outro-lugar-afastado-fundo-enterrar-Zander-e.........................................

2
 

A nave surgiu no Sistema como um efeito estroboscópio se revelaria a um eventual observador.  Primeiro, o ‘tecido’ estelar tornou-se translúcido, inchou como uma espécie de bexiga riscada por inúmeras nervuras, dilatando-se até o corpo em seu interior revelar seus contornos, brilhando sem precisar doutra fonte de luz.

Depois, uma cascata de cores, o cintilar do espaço corrente sob a tensão daquele outro meio que era o Zimmerespaço.  Até o bolsão unir suas pontas, a bolha seccionada tornar-se opaca, enfim, desaparecer num estrondo mudo no vácuo, passou-se um tempo muito ínfimo.  Materialização concluída com sucesso.

Ressalvo por sua presença, tudo voltou a ser como dantes: a imensa nave seguiu seu curso;  somente como um detalhe revelaria um segundo objeto, bem menor, acarrapatado em seu dorso.

Era a Skylark e sua presa, a imensa Sofia, operando em conjunto, se bem que a tração fosse toda da maior, indo ao encontro do seu destino...

- Planeta T23 a frente – cantou Gerusa Monteiro, mantendo-se feliz da vida em seu novo posto na astrodesk da Sofia, cujo tamanho excedia às dimensões de quatro mesas de bilhar unidas pela lateral, aos pares, relíquias dum passado que o ‘saudosismo’ abastecia de exemplos por todo lado.  De costas para ela, no centro da mesa, numa cadeira que também deslizava na mesma fenda circular, estava sua suplente, de plantão, unindo esforços para coroar de êxito aquele momento tão aguardado. – Ei, Chefe, com essa belezinha aqui, pode me mandar catar qualquer agulha em qualquer celeiro do universo!

O interpelado, fazendo um sinal de assentimento, ainda assim continuou pensativo, tentando demonstrar, mesmo em tal momento, se fora acertado tudo aquilo.  Oito dias seguidos indo numa direção, deixando uma ‘carga indesejável’, deslizando pelo Alterespaço duma forma aleatória, até que decidiram seguir na direção da coordenada indicada por Zander, e não encontraram nada significativo nos três sistemas anteriores.  Quem diria que naquela anã verde, um protótipo qualquer de quasar, um T23 existia...

O comandante não questionava o fato de literalmente ter largado os pústulas cinzentas – e seu contrabando – num planeta colonizado por patrulheiros aposentados.  É claro que logo seriam presos e dariam com a língua nos dentes.  Mas isso fazia parte do esquema: dizer que tinham vindo com a Skylark;  que todos estavam cientes do contrabando;  só servindo pra reforçar o ‘álibi’ de seus tripulantes que, revoltados, não querendo pactuar com o vício, expulsaram a carga e seus contratantes num lugar onde fossem presos com enorme facilidade.

O restante do esquema também era bom: A Skylark seguir para uma missão de salvamento que podia significar a vida dum dos maiores ícones humanos...

Só que tudo aquilo não passava de pretexto, e Gabriel já perdera o referencial de vista.  A inércia tangia seus movimentos, assim como os da nave, fazendo-o prosseguir apenas porque sabia que já estavam sendo perseguidos, e somente encontrando Zander redimiria qualquer pena, com os donos do iate, pelo que não era difícil de imaginar, já deviam tê-los acionado por roubo, pirataria ou coisa pior, sendo o megaempresário vital para a sobrevivência deles;  daria o salvo-conduto adequado para enfrentar a maioria de seus perseguidores, isto é, se fossem rápidos e espertos o suficiente para nunca se exporem sem que houvessem bastante e diversificadas testemunhas, de preferência se o plano desembocasse no próprio Sistema Solar Terrestre.

“Agora é tarde demais pra se lamentar, meu velho”, pensou, chocalhando o próprio cérebro pra ver se pegava no tranco, “ou esse filho da puta resolve aparecer nesse fim de mundo, ou...”

O alarma soou.  Era modulado, mas, já acostumados com o ruidoso e único sistema da Skylark, ninguém tivera a brilhante idéia de checar o gabarito do alarme.

Desespero.  Entretanto, pensando bem, a última vez que aquilo acontecera, tinham tirado a sorte grande.  Por que haveria de ser diferente?  Por um bom motivo: a probabilidade disso ocorrer novamente era menos que mínima;  era nenhuma.  Desespero, uma boa palavra pra isso.

Todos nervosos, olhando uns para os outros.  Tudo estava sendo tão bem calculado;  o que o comandante prometera estava cumprindo;  será que alguém mais ardiloso estava pra passar a perna neles?

Enfim, dando indicacões que a matemática de costume nem sempre era fria e calculista, quando o alarma desligou-se sozinho, ocorreu o inesperado: a voz barítona do servidor da nave deu sinal de haver rastreado um objeto de configuração semelhante ao escaler perdido!  O alívio foi tão grande que muitos se pegaram dando risinhos idiotas, acometidos de sudorese abundante, apesar do climatizador ali ser o mais perfeito que o dinheiro podia comprar.  Demorou alguns segundos para gritos de júbilo treparem pelas gargantas deles, mas quando vieram, quem disse que alguém poderia conter...  

*

- Fase Dois do plano...

Deu um tapa tão forte nas costas do imediato que este, ainda sofrendo os efeitos da porrada, teve de retificar a mensagem pelo comunicador:

- Fase Dois da missão de salvamento sendo implantada.  Equipar a Skylark para o pouso em...

Gabriel fez gesto de pouco caso.  Pra quê nomes?  “Que os medos fossem à merda!!”.   Mal sabia que quase acertara o nome do planeta, errando apenas por uma questão técnica: tinha falado o produto e não o produtor (ou pelo menos um ótimo intermediário).

Sentado, Jess prosseguiu, ouvindo o cochicho do comandante plantado atrás de sua poltrona, sem tempo sequer pra massagear a área duramente atingida pela manopla do superior, esperando que o registro nas caixas-pretas da nave não considerasse sua indiscrição como fator de risco para o plano que previa ganhos financeiros para todos eles.  E melhor de tudo: duma forma lícita, ainda que matreira.

- Os seguintes tripulantes devem se apresentar na Ponte para receber instruções...

Quando acabou a lista dos 12 ‘felizardos’, reparando que o comandante já não estava perto dele, aproveitou para também notar que Gaba tinha remoçado muito ultimamente, parecendo ter, se tanto, 50 anos;  parecia ágil, um verdadeiro azougue, em todo lugar e lugar nenhum.  Jess, assim como os demais, fora colhido no vendaval.  Em nenhum momento, nem ele nem ninguém, duvidara da propriedade com que o mesmo tocava a missão.  A visão do conjunto lhe pertencia.  Um ‘maestro’ que devia estar regendo uma Filarmônica e não naquela pequena banda de fundo de quintal.  Porém, o imediato se perguntava se haveria de fato alguma coisa além disso.  Vendo o incansável superior reunindo os doze tripulantes citados e apressando-os porta afora, fazendo sua preleção enquanto andava, só confirmava que este iria querer, mais uma vez, investigar aquilo pessoalmente.

Refestelou-se na larga poltrona anatômica;  estalou várias juntas e aproveitou para pedir o seu café a base de cereais rigelianos (que a dispensa da nave estava abarrotada!!).  Não podia se dar ao luxo de ficar para trás, principalmente enquanto Gaba desperdiçava tanta energia.  Conhecendo-o, sabia qual seria sua próxima tarefa...

Enquanto o robô-atendente não trazia seu pedido, enviou várias sondas para que nada do que se passasse ficasse sem o devido controle.  E, deixando no automático, esquecido de quando fora a última vez que dormira, o grande painel em ferradura brilhando com uma antiga Árvore de Natal, a poltrona vibrando ligeiramente, e seu corpo, sábio em si mesmo, não teve dúvidas: acionou o stand-by e até mais ver, consciência.  

*

Não soube exatamente o que fizera-o acordar, já que estava assustado, olhando para os cereais na tigela térmica, o robô parado naquela expectativa, esperando cumprir sua programação, ouvindo se estava satisfatório ou não o prato pedido.

Ficou mais assustado ainda  quando verificou o cronômetro.  Não é que tinha ‘apagado’ por quase 5 horas!!!!!!!

Procurou se recompor, mandando o autômato de volta com o cereal que não mais caberia em sua garganta apertada, fazendo notar para si mesmo que a sala de comando daquela nave era tão grande que nenhum dos oito tripulantes de plantão nela não deviam ter reparado em sua ausência.

Resolveu correr atrás do tempo perdido e, consultando o arquivo de imagens, alterando toques digitais com comandos vocais, montou tudo numa seqüência acelerada, construindo um tipo de filme que mostrava a Skylark pousando num planeta de incontestável feiúra.  Como não tinha áudio (a missão se incumbiria desse aspecto, quando então se fizesse a montagem definitiva), teria de contar com seus outros fartos recursos: deu zoom, enquadrou, reparando que nove tripulantes saíam, seis montando guarda num largo perímetro, três seguindo até o local de pouso do escaler, entre eles, reconheceu com facilidade, estava Gaba.

Microcâmaras progrediam com a expedição, encontrando uma cratera transformada em habitáculo.  Seguiu-se a isso a entrada por uma escotilha, descendo com segurança e até algum conforto por degraus escavados na própria rocha vitrificada.  Não havia sinal de Zander.  Só o local, muito limpo e como que recém-desinfectado (a certeza só viria quando a unidade olfativa fosse acoplada, colhida junto com o áudio), revelando uma estrutura que, depois de tantos sinais promissores, acenavam que Zander estava vivo.  Ou outra coisa estava...

A última imagem que teve, antes de acelerar novamente a gravação, esperando que o intercomunicador não cobrasse dele aquilo que já deveria ser do seu conhecimento, foi a visão do grupo de busca retornando pelo mesmo caminho, apontando para a cúpula de proteção, retratando no teto algo que ninguém imaginaria encontrar num lugar ermo assim.  

*

As buscas já praticamente encerradas, Jess, com a vantagem de ‘acelerar o passado’, avançou até o limite máximo, antes que a imagem perdesse todo sentido para ele;  quando viu o speed motion de seis bonequinhos na tela de alta resolução (a chegada dos outros três tripulantes acontecera menos de cinco segundo após sua ‘aceleração’), todos convergiram para uma espécie de lago congelado;  só que no lugar duma lâmina lisa de água, estava uma lama negra absolutamente corrugada, embaixo da qual, sendo ‘visível’ pela leitura telemétrica dos instrumentos, reconheceu a ressonância de um vulto de contorno humanóide, o sensor térmico indicando uma sutil atividade!

O processo de desempedimento da crosta de lama congelada transcorreu na tela com uma velocidade 100x maior que os reais vinte minutos gastos pelo resgate tentando atingir a profundidade de 2km, recolhendo o corpo que mais parecia com uma pequena retroescavadeira bípede ou um exoesqueleto de estiva;  não havia vestígio de nenhum corpo humano, ou dentro do ‘exosqueleto’, ou em qualquer parte, sendo porém verificado, após análises feitas no local, traços de ossos triturados e uma coleção de térmites nativas que, apesar do frio de trinta graus negativos que fazia, apresentavam-se bastante ativas junto à amostra do tecido onde resíduos ósseos predominavam.

Amostras colhidas, Jess estranhamente reparou que 5 homens se destacaram para levar a ‘escavadeira’ para uma padiola antigravitacional, e de lá, indo diretamente pra Skylark, que nesse ínterim tinha se deslocado para um ponto mais próximo, obtendo como última visão os vários ângulos da decolagem daquele planeta ainda sem nome.  

*

Os olhos dilatados pelo esforço despendido no acompanhamento das cenas, felizmente sentiu que fora bem sucedido;  pois foi o tempo exato de receber a mensagem que a nave de resgate encontrava-se acoplando junto à Sofia, no momento exato providenciando a sua substituição e correndo para se inteirar das novidades.

Se posicionou junto à comporta de descompressão, consultando o relógio a todo momento, dando tratos à bola porque o comandante, depois do resgate da escavadeira, demorara para retornar;  mas não podia se queixar tanto assim.  Afinal, somente devido àquilo que conseguira se atualizar e, não poderia se esquecer, aproveitara para tirar um grato cochilo também!

Procurou esquecer todo problema quando a luz verde do painel espelhado reproduziu a palavra libre, em interlíngua ou esperanto galáctico.

Nem bem adiantou um passo, recuou cinco, pois o vulto bizarro que saia da névoa frígida do desinfectador nada tinha com o espadaúdo Gaba, a não ser que se adiantava a um metro do comandante.

Antes, ou ao mesmo tempo em que se recuperava do choque perante a visão do robô que mais parecia um pesadelo materializado, feio mesmo, porém exibindo uma estranha ‘dignidade’ nas impassíveis feições, Gabriel, deixando de lado seu divertimento, esclareceu:

- Apresento-lhe Leopold, autômato-servidor artesanal de Zander, que, aparentemente, ao que tudo indica – e nosso amigo aqui, apesar de não conter um órgão fonador, usando duma mímica invejável, confirmou – está morto mesmo.

Jess podia notar, visivelmente, que esse tal de Leopold realmente parecia bastante artesanal, inclusive, sendo um estudioso de robótica aplicada, percebera que a blindagem dele tivera origem em diversos outros aparelhos, acabando por se constituir num puzzle que, apesar de nenhum acabamento, mostrava uma criatura ímpar e funcionando bem além do normal.

Leopold não sofrera qualquer lapidação externa, isso era visível, mas não revelava nada em termos restritivos.

Com movimentos decididos, sem estereotipação maquinal alguma, apresentando uma mobilidade excepcional, entregou à Jess uma pequena urna blindada, tendo em cima desta um bloc – uma unidade zip retirada dalgum drive oculto no corpo da criatura.

Vendo o cenho enrugado de seu imediato, Gabriel novamente veio em seu socorro:

- Os ‘restos mortais’, se podemos chamar assim essa lama orgânica misturada com vestígios de tecido ósseo, que já foi Zander Zimmerman, e um tape RT, cortesia de Leopold, com, segundo ele, todas informações que precisamos.

“Como você deve ter acompanhado todos os momentos de nossa longa exploração...” (nesse ponto o rosto azul pálido tingiu-se de grená, e Jess não pôde conter um pigarro nervoso, mais tranqüilo ao verificar que Gaba não se predispunha à interrogá-lo, prosseguindo com ele, e o robô, até o hall dos imensos elevadores de carga, continuando seu relato donde tinha parado), “não vou perder tempo relatando, nem adiantaria minha impressão subjetiva daquele fim de mundo que, por conta do traje espacial, fui certamente protegido da enorme carga sensorial às quais Zander não deve ter sido tão feliz em contar.

“Uma coisa engraçada me ocorreu.  Empatia automática.  Me afeiçoei bastante a nosso amigo de lata aqui...”

Jess percebeu um som vindo do robô, que nem boca possuía, demorando alguns segundos para perceber os dedos de Leopold se movendo com incrível rapidez, fazendo a onomatopéia duma gargalhada.  É claro que aquilo foi somente sua impressão.  Uma coincidência.  Não poderia haver tal coisa.  Aquele tipo de comportamento não podia existir.

Os três entraram num dos elevadores que fazia todo circuito, ponta-a-ponta, do eixo central da nave, passando pelos dekes principais, acima e abaixo da primeira coberta.  Não havia nenhuma sensação de movimento, somente um led se deslocando num diagrama da nave, atestando o percurso.  Aproveitando que o comandante parecia se colocar à vontade, soltando algumas travas superiores do traje intraveicular, o imediato checou se suas idéias podiam sobreviver à uma análise fria: 

·        O impassível Leopold e a ‘escavadeira’ eram uma coisa só;

 

·         De alguma forma ele se livrara de alguns acessórios, em sua configuração anterior de ‘escavadeira’.

De acordo com o que acabara de cogitar, o que fazia um robô e seu criador no fundo de um estreito fosso de lama congelada?

Foi exatamente sobre isso, embora só mencionasse dentro em pouco, que Gabriel tocou em seu ombro, arrancando-o de seus devaneios.

- Está um pouco dispersivo hoje, menino.  Alguma coisa errada?

O comandante tinha esse hábito (muito justificável, por sinal, em se tratando de sua idade provecta) de, fora do protocolo, tratar cada membro da tripulação como menino ou menina.  E Jess, piscando os olhos, seu cacoete mais comum, traindo o nervosismo, realmente não devia demonstrar algo diferente daquele modo infantil de tratamento.

- Nada, não, chefe.  Só.  Estou estranhando qual o motivo dele – apontou um dedo para o fundo do elevador, que imperceptivelmente desacelerava, acelerava, entravam em desvios, indo até um destino que o próprio imediato desconhecia, por ter sido Gabriel à programá-lo – Do robô estar aqui...

- Além de ser muito valioso para que nossa requisição seja aceita, provará que fizemos de tudo pelo resgate de Zimmerman.  Uma evidência física é melhor que qualquer outra somente testemunhal.  Embora também não nos falte dados desse tipo.  Entenderá melhor quando ler isso, que recebi de Leopold assim que, literalmente, o tirei da lama.

Se não faltava a memória do imediato, aquilo que revolvia em suas mãos, uma delicada lâmina siliconada, era parte duma bobina de diagramação para jogos de 2D, usadas em algumas unidades de recreação bem sortidas;  na superfície de fino acabamento estavam impressos, somente visível ao toque, em se tratando duma escrita térmica, o seguinte texto:

Eu, unidade lógica à qual o nome Leopold foi atribuído, número de série, versão e chassis inexistentes, executei as instruções do meu criador, Zander Zimmerman Kosak, cessado de existir por falha generealizada de todos os órgãos, conforme o laudo de autópsia disponível em meus medoarquivos.  Procurei um local devidamente apropriado, na face norte da superfície planetária, nas coordenadas Z342L38, onde delimitei uma área de escavação com largura suficiente para sepultar um corpo com a configuração de meu criador, drenando a superfície com desintegrador kardinal, escoando o material liquefeito por dutos helicoidais do mesmo dreno.

Por todo intervalo de 18:43:.02m que levei para atingir uma profundidade que poderia ser considerada apropriada, conforme os desejos expressos pelo criador, empregando lógica de contenção, carreguei-o atrelado à meu corpo.  Em 18:58:.52m ocorreu uma não computada precipitação, e o dreno, cristalizado por declínio de temperatura na ordem de 82,532OC, ficou inoperante.  Meu mecanismo, alertado da ocorrência, sem nenhuma possibilidade de recuo, reduziu sua função, enquanto a cavidade era preenchida pelos elementos externos.

Em 56:12:.01m, seguindo sinais visíveis na faixa micrométrica, constatei que o criador estava sendo desintegrado por agentes oriundos daquele trecho de terreno.  Sem nada poder fazer, acompanhei o processo dissolutivo que terminou em 56:48m, sem vestígio macroscópico do criador.  Irradiando chamado de busca a cada intervalo de 0:05m, somente obtive resposta na contagem final de 216080:22:.13m.  Fim do relatório.  Unidade disponível para procedimentos alternativos.  Grau de prioridade: máximo.

Depois do cálculo em seu bracelete conversor, Jess assobiou.

- Gaba, viu o que esse robô passou?  Agüentar temperaturas limites e durante mais de cinco meses!  Levando em consideração que é uma unidade artezanal, e mesmo aplicando parâmetros infobóticos de alta capacidade, isso foi quase um...

- Milagre? – sugeriu o comandante, dando uma alfinetada em seu rubicundo imediato.- Fique tranqüilo.  Não vou espalhar que isso passou por sua cabeça, menino.

- Você realmente gosta de me tirar do sério! – Jess encarou o robô, como se o visse pela primeira vez, mostrando todo respeito, e desconfiança, que sentia: - Reparou na última linha do relatório...

- Aquela coisa de prioridade?

- Sim.  Isso é até mais estranho que o resto.  Uma unidade lógica não encerraria um relatório assim.  É fim de relatório e, como diz o senhor, fim de papo.

- Você contesta a lógica dele?

- Não falta propriamente isso, Cap.  Falta objetivo.  Está largado.  Não têm sentido.

- Releve.  O ferro-velho não poderia passar incólume por tudo aquilo.  Deve estar com alguma placa de tetracircuito frouxa.

- Pode ser – mas sem que Gabriel ouvisse, resmungou: - Mas eu duvido...

Quando o comandante se preparou para sair do elevador, descendo no luxuoso deke dos alojamentos vip, Jess interrompeu sua nova divagação para indagar:

- Ei, Cap, o que faço com ele?

O robô permanecia imóvel no fundo do compartimento.  Inclusive, parecia saber mais que o próprio imediato.

Já livrando-se de parte do uniforme, Gabriel, sem se virar, abriu os braços e comentou, após um longo bocejo:

- Se quiser, Jessy, leve-o pra Ponte.  Quem sabe pode ser útil por lá.  Boa noite.

Apesar de ser dia (praticado o chamado ‘fuso galáctico’, baseado na capital humana na Terra), aquele comentário traduzia que o comandante ficaria quase um período inteiro fora do ar, e Jess teria de dividir com o 2o Oficial a duração de um longo plantão.

Paciência.

Mas, ao premir um destino no elevador, inconscientemente Jess já sabia o que fazer, seguindo pra outro lugar diferente da Sala de Comando.

3

O alarme novamente era por aproximação de nave desconhecida;  mas não era um veículo à deriva, muito pelo contrário.

O curso intensivo que o comandante determinara instruíra-os das diversas modulações.  Jess, que durante os dois últimos dias vinha obsessivamente estudando Leopold - sem chegar a lugar nenhum -, alojado em seu próprio dormitório para poupar tempo, foi forçado a abandonar tudo, atendendo ao chamado do alarme.

Praticamente voando para cumprir a convocação em tempo recorde, assim como todo mundo, nem assim parou de se preocupar com o robô;  descobrira enormes ‘furos’ no arquivo cedido por ele, como se houvesse ali uma montagem deliberada e nem tão perfeita assim, no sentido de não se preocupar em ocultar a supressão de algumas situações;  faltavam, pelos seus cálculos, mais de 5000 horas de relatório e, por mais que tal coisa pudesse parecer estranha, não existia vestígio disso no HD de Leopold, que devia ser a coisa mais indevassável do organismo artificial.  Onde estaria isso?

Haveria algum cérebro suplementar ambulante arquitetando subterfúgios na obscuridade, arquivos periféricos insuspeitos esgueirando-se dentro do corpo do robô, fugindo ao rastreamento??  Isso não era comum mas estava dentro do que se poderia chamar de aceitável.

Chegou na Ponte.  Por enquanto o assunto de antes teria de ser mantido na ‘geladeira’.  Por enquanto.

Quando aconteceu o alarme, e descobriram que eram três naves que tinham conseguido, apesar de todo vai-e-vem, rastrear a Sofia, teve de aguardar um dos momentos de maior tensão no plano de Gaba, antes de cogitar voltar para o alojamento e, mesmo sem determinação nesse sentido, desmontar Leopold.

Se fosse só a Skylark já poderiam ter encomendado a urna fúnebre, tamanho econômico.  Talvez nem isso, pois subpartículas têm o péssimo hábito de se dispersarem e não havia urna no universo que desse jeito.  Entretanto a Sofia era no mínimo seis vezes maior que qualquer daquelas três naves.  Poderia não apresentar uma tripulação adequada para se arvorar como vaso de guerra em sua plenitude, sem que o revezamento na lide de combate ficasse assim garantido, mas continuava a impor respeito.  Ademais, tinham uma contra-arma que valia dez ogivas de antimatéria: um campo defensivo multi-polarizado.

E foi isso que constataram.  O caráter belicoso na aproximação era nenhum.

As naves, trabalhando em conjunto, nem pertenciam a um consórcio único;  oportunistas, todos eles;  representavam uma fração do contingente que estavam atrás deles pela galáxia afora como sabujos afoitos por um pedaço suculento de bife.  É claro que traiam uma utilidade um pouco mais letal, uma vez que dificilmente, por processos matemáticos na quadratura dimensional, perderiam a presa de vista em caso de desmaterialização do espaço contínuo;  uma prova irrefutável que poderiam acabar encontrando ‘piratas’, enxame deles, em suas próximas transições, pois o conjunto de cálculo já teria sido irradiado;  pela forma que o destino prefixado não podia ser mudado, era somente uma questão de reflexo e competência, para alguém que recebesse tal conjunto de coordenadas entrasse em ação imediatamente...

Como o processo de vôo dimensional já estava em andamento, Jess confirmou que o comandante se mantinha relaxado, tendo a situação sob controle, como sempre;  só uma coisa mudara nele: aquela ‘juventude’ toda, demonstrada antes do resgate do robô, estava se escoando muito rapidamente;  continuava motivado mas o prazer maior, assim parecia, esse nada tinha de excepcional.

Quando a nave submergiu no Zimmerespaço, o imediato, sentindo-se supérfluo, visto Gaba recusar-se a abandonar o posto, achou que durante esse intervalo de hora e meia no qual estariam noutro conjunto espaço-dimensional, deslocando vários anos-luz por minuto, poderia aproveitar dessa ‘tranqüilidade’ para analisar os circuitos lógicos de Leopold e, se sobrasse tempo, procurar a Enfermaria para injetar um sono programado revigorador.

Porém isso tudo ficou apenas em seus desejos, pois não encontrou a máquina onde a deixara, passando 75 minutos vasculhando por toda nave, antes de arriscar-se a levar o assunto ao conhecimento do comandante, que, unicamente, sem bronca, destempero ou estresse, ouviu seu primeiro-oficial e comentou:

- Menino, esqueça o Leo.  Ele já demonstrou o seu valor... - deu as últimas ordens para o processo de rematerialização, antes de concluir: -  Refleti sobre o assunto e cheguei a conclusão que todos os tapes que temos, se não servirem, dificilmente darão a qualquer tribunal uma apreciação melhor que por intermédio de outro mecanismo de gravação.  Portanto, torça pra tudo dar certo e... bem-vindo ao clube da fé!

Sem que soubessem, Leopold estava acompanhando tudo aquilo de muito perto.  Sabia que agora poderia executar sua tarefa sem dividir programação, o que conferia microsegundos a mais no final do processamento.  Diferentemente daquilo que o homem barbudo dissera, o valor dele como prova poderia ter se esgotado, mas a missão não.  Na verdade estava apenas no começo...

4

Após a terceira rematerialização de longo curso, obedecendo o tempo de resfriamento dos Impulsores, que no total consumiram mais dois dias, foi que todos resolveram cair em cima da presa.  Meio ano-luz depois dali aquilo já não seria possível;  mesmo sendo a Soberania Terrestre praticante da pax universal, tinha experiência com ‘arruaceiros’.

Todavia, por serem muitos, talvez, se unidos, constituíssem a maior armada humana da era espacial, acontecendo aquilo que Gabriel contava: confusão.

Consultando seu cronógrafo, depois de haver irradiado uma mensagem menos de 50’ atrás, só podia contar que seu chamado fosse bem interpretado.  E não só isso.  Devia ser prontamente respondido.  Se não acontecera através de palavras, contava que os atos dessem seu recado.

Para  matar o tempo, já que ninguém se predispunha a atirar em ninguém, porém faziam de tudo para se pavonear - daí a confusão - , aproveitou para fazer um pequeno censo, nucapacete em punho, iniciou a varredura:

Na linha de frente, questão de 0,25 segundo-luz além da periferia do campo defensivo, estavam alguns cruzadores que, sob a égide duma caravela estilizada, acompanhavam a supercanhoneira Parrila del Mercato, deslocada de Noriega II, demonstrando, ao menos tentando demonstrar, o poderio naval do consórcio hispano-brasileiro;  uma forma de, assim esperavam, exibir que toda debilidade organizacional era não só ilusória, porém totalmente pífia.  Presentes ao evento também algumas naves de todas as demais corporações, mas estranhamente nenhuma do gigaconsórcio do qual a Sofia fizera parte; aquilo apontava para que, por debaixo dos panos, através de instrumentos legais e plenamente satisfatórios, e principalmente por ser civilizado, alguma coisa deveria estar sendo feita para tomar posse da propriedade perdida.  Advogados atuando em surdina, na certa!

O entrecruzar de mensagens, indo e vindo, todos interpelando, nenhuma obtendo resposta da presa comum.

Todos sabiam que a situação dificilmente poderia mudar, porém ninguém arredava o pé ou expressão equivalente que poderia se aplicar ao momento, quando, por fim, aconteceu o que esperavam.

Nem mais fantasioso quanto uma batalha espacial, nem menos concreto que uma medida cautelar para resolver o impasse, um enorme abalo estrutural foi sentido nas imediações.  

*

Com um respeito que não só o seu tamanho despertava nas pessoas, o transportador Waporanga materializou-se a cinco segundos-luz ao largo do conglomerado de naves das mais diversas procedências.  Com o transportador, além da colossal estrutura de atracação, já que não dispunha de qualquer armamento efetivo, vinham oito contra-torpedeiros, provando exatamente o oposto: indefesa mas nada ordinária.

A Soberania Terrestre, próximo ao seu quintal, não tolerava qualquer assanhamento.

Definitivamente ocorreu aquilo que todos esperavam, porque os tripulantes da Sofia receberam o aviso para estarem prontos para a abordagem.  Isso queria dizer que a nave deveria se manter inerte, e inerte significava desligar todo equipamento, exceto o circuito de manutenção de vida e acoplagem remota.

A medida que o campo energético globular, feito em camadas, com potenciais diferentes, eram desligados, o transportador, ignorando o que tivesse pelo caminho, se acercava da belonave.  Mas o termo pecava pela imprecisão: A Waporanga não só se aproximava da Sofia, como também da Skylark, já que a última gozava de idêntico ‘privilégio’, sendo objeto de controvérsias, ficando apreendida até a regularização da situação.  

*

Gabriel, que aceitou a rendição sem qualquer estardalhaço, começou, aos poucos, a relaxar.  A tensão na última hora e meia fora algo tátil;  podia aparentar tranqüilidade, porém por dentro sua estrutura estava de tal forma balançada que candidatava-o a ser o mais geleiforme dos mortais.

Já tinha providenciado o transbordo do vovô*, concomitantemente à surpresa de descobrir que ele era ela, logo, pois tetas todos eles possuíam, que vovô era vovó, uma fêmea Murrax, tendo se relacionado com os cinco machos da Sofia, no maior curral que jamais estivera na vida.  Agora estava ‘grávida’, com uma série de pólipos brotando no tecido esponjoso do qual caiam tufos de pêlos até o chão, garantindo aos donos do iate, se todos brotassem, uma das maiores manadas privadas de Murraxs que se tinha conhecimento.  Uma notícia como aquela, decerto amenizaria, em muito, a investida dos donos da Skylark contra seus funcionários rebelados.

Com ‘vovó’ já embarcada, feito praticamente todos procedimentos para receber a Waporanga e seu especialista em atracação compartimentar, deu ordens para todos se apresentarem no convés de transferência, fazendo vista grossa à quantidade enorme de souvenirs que cada membro de sua tripulação ‘requisitara’ das extraordinárias reservas da nave.  Se mais tarde os terrestres quisessem criar caso, passando pente fino, poderia dizer, tranqüilamente, que àquilo era um tributo, uma forma de perpetuar a memória dos antigos tripulantes da Sofia...

Coube à Gabriel desligar a última camada do cinturão energético rotativo.  Estavam, naquele momento, totalmente à mercê daquilo que o universo pudesse tacar neles, desde partículas elementares até tiros de canhões de antimatéria.

As luzes dos painéis continuavam a pipocar, mas muito mais mortiças que dantes.  Dando um último olhar para aquele lugar onde tudo era superlativo, já sentindo uma certa saudade, porém nenhum remorso, pegou seu pequeno fardo, colocou-o nas costas, equilibrando o boné, antes de seguir para o atracadouro.  Enquanto caminhava, os sons de seus passos chegando à ele vindos de toda parte, reparou que traziam junto alguns fantasmas, ‘ouvindo’ vozes que realmente não estavam ali, por ecoarem dentro de sua cabeça.  Procurou não lembrar daquilo que forçara-o a abandonar a Terra quase um século antes.  Tudo em vão.

Somente os tais fantasmas para trazerem outros...

(*) apelido do Murrax da Skylark.  

*

Nunca quis glória ou dinheiro, mas precisava de ambos para custear alguns de seus vícios.  Não era exatamente arrogante, todavia a enormidade de suas habilidades natas entrava em conflito com a opinião de certas pessoas que sentiam-se depreciadas quando Gabriel entrava em ação, fazendo uma atividade complexa parecer uma simples brincadeira.

Com o tempo passou a se isolar, pegando o dinheiro e a fama para adquirir privilégios, conseguindo, com isso, recuperar velhas relíquias, como aviões do início da era nuclear, galeões naufragados, colocando-os novamente para singrar ou voar, e inúmeros outros artefatos,, alguns até letais, se devidamente guarnecidos.

Como hobby, aquilo tinha subido à cabeça do jovem engenheiro de naves de 28 anos, que já tinha estagiado em todos os planetas principais do Conglomerado, antes de assumir o controle máximo da linha de produção terrestre.  Como hobby, também despertou a cobiça e a raiva de algumas daquelas pessoas que as aptidões de Gabriel sempre fadava-os à segundo plano.

Com o passar do tempo, muito tempo, algumas décadas depois, caminhando num lugar semidesértico que já fora uma das maiores florestas equatoriais da Terra - e progressivamente tentava voltar a sê-lo -, finalmente cometeu seu primeiro e único erro: aceitara o conselho de um ‘amigo’ e trocou de plantão com este, por uma semana inteira.  Férias fora de época!!

Quando, em seu furgão-planador, voltando feliz de um dia inteiro tentando reparar as velhas engrenagens de um Vapor movido por uma roda de água e um motor medieval, Gabriel, fiel aos velhos métodos para reproduzir suas velharias, o rosto sujo de graxa, um enorme rolo de estopa pulando duma mão pra outra, deixou a felicidade de lado, ficando paralisado.

Na tela do furgão, que cobria uma parede inteira, não havia o habitual e repousante retrato de uma paisagem animada;  no lugar, enviada por um anônimo, perito em sistemas, pois burlara seu isolamento, o documentário duma tragédia.  Àquela que mandara pelos ares uma das principais linhas de montagem onde trabalhara, causando a morte de duzentos e treze operários, 28 técnicos de propulsão e incontáveis outros colegas, entre os quais àquele fulano que assumira o seu posto e, por sua incompetência ou desleixo, o que dera no mesmo, provocara a destruição daquilo tudo.

Por sua causa, por dar mais valor a um hobby que a vida de pessoas, entregara a um borra-botas uma arma que o mesmo usou-a sem pestanejar, dando ordens para que um reator de Hudson-Hadji defeituoso fosse seriado ao ciclotron do Impulsor da nave em teste 018XT, sem submeter o circuito à bateria de testes costumeiros, inclusive, o que fora pior,  neutralizando o apoio dos robôs, para provar, segundo alguns depoimentos, que era o tal em todos os sentidos.

E o tal da morte levou Gabriel a assumir uma culpa que todos sabiam não ser dele, e não importava nem um pouco, pois todo estrago já tinha sido feito, todos corpos retalhados já devidamente rotulados e encaminhados ao crematório, aguardando o cerimonial devido.

Sem nada formal pesando sobre ele, ainda assim o mestre engenheiro largou seu hobby;  deixou para trás sua equipe e, como diziam naqueles filmes de outrora, ‘picou sua mula’ na direção das estrelas.  Talvez um dia voltasse, porém não seria o mesmo que partira.  Isso era uma promessa.

5

Os procedimentos foram rotineiros: transferência dos ‘prisioneiros’ para uma nave do circuito interno dos planetas, uma parada na Lua para pegar o Elevador Transorbital - o meio de translado de carga/pessoas com o mínimo de agressão ambiental possível -, e a chegada à Terra. *

O planeta finalmente recebera a classificação T1, ou seja, na escala que ia até T25, na chamada ‘faixa respirável’, que englobava vários fatores matemáticos de equilíbrio, a Terra se mantinha idealíssima ao gênero homo sapiens sapiens.  Somente outros dois mundos, até aquele momento, se lhe comparavam em percentual de pureza, porém nenhum em biodiversidade.

Algumas expedições acenavam que um mítico T0 tinha sido encontrado, mas como nenhuma dessas expedições retornou, ficava difícil provar isso, fora as mensagens irradiadas, sem vestígio de qualquer coisa no local de origem.

Quando Gabriel viu seu mundo, diferentemente do que achava que faria, não chorou.  Ficou apenas junto ao Solarium, vendo o planador-robô no qual ele e seus 42 companheiros transitavam até o destino, uma das malhas de subestações do metrô planetário.

Ainda que os olhos estivessem secos como um mar no deserto, não se podia dizer o mesmo da agitação que crescia dentro dele.  O mundo mudara muito desde que o virá pela última vez.  Mudanças além do sentido somente quantitativo.  Tinham feito um excelente trabalho de reflorestamento, extinguindo até 80% das antigas cidades de superfície;  mesmo naquelas que restavam, praticamente tudo tinha sido modificado, a maior cidade sendo a capital Pangea, situada no que fora, antigamente, o centro político e geográfico de um país sul-americano.  Mesmo sendo a maior ‘aldeia’ do planeta, que já não contava com fronteira alguma, Pangea, apesar de quase cinco vezes maior que sua antecessora, Brasília, não contava com mais de 1.3 milhão de habitantes, sendo que a população mundial de residentes fixos na Terra mantinha a constante secular na média de 0.58 bilhão.  O excedente da população da tribo terrestre estava espalhada pelos planetas da égide local, que abarcava apenas dois sistemas solares, além do Sol, reduzindo bastante espaço, no mundo pátrio, para que bucólicos povoados surgissem em meio à luxuriante paisagem, com as habitações bem distanciadas entre si, perfeitamente enquadradas no meio ambiente;  não encontrava-se nenhuma daquelas características de amontoamento que até meados do século XXII se mantivera.

Mesmo em Pangea não existia tráfego terrestre de veículos individualizados;  só transportes coletivos, havendo também opcionais ecológicos, controlados constantemente, como aqueles de tração humana ou animal, tendo novo boom de monociclos, bicicletas e charretes.  O modo ‘índio de ser’ estava em alta.

A Terra provava que aquelas coligações artificiais, chamadas de Consórcios, com os nomes baseados na pátria extinta de todo aquele povo emigrado, era uma fobia arraigada de manter 'o passado presente'.  

*

Não houve nem solavanco quando o elevador tocou o píer na estação Atlântica, no balneário do Rio de Janeiro.  Através dos vitrais, enquanto se fazia a ordeira transferência dos passageiros para um comboio vicinal que seguiria pela enorme malha intraterrestre, todos que puderam descortinaram as areias de Copacabana rebrilhando ao luar e sob alguns microsóis artificiais alugados, cuja irradiação, benéfica em alguns espectros, de uso limitado, provou-se não afetar nenhum ecossistema daquela reserva ambiental muito cobiçada.  Vários turistas, muitos deles nus, alguns até claramente alienígenas ou modificados geneticamente como rezava a moda, celebravam um tipo de lual.  Dos arranha-céus e construções que encampavam pela orla, ao longo de toda costa, como Gabriel os conhecera, muitos desapropriados, já em processo de zoneamento, novas edificações os substituíram;  sobreviveram, na maioria bangalôs e resorts, parques aquáticos, tudo mantido com afastamento mínimo de 5km um do outro, para sublimar aquilo que já era belo por si só.

Novamente foi o último a embarcar.  Mania de comandante.  ‘Mania’ de quem queria colher o máximo de impressões para nutrir sua enorme sede de informações.  

*

Pangea.

Não havia muito mais a se dizer.  O destino deles seria decidido ali, no único edifício em todo planeta que, acima da superfície, dispunha de mais de cinco andares.

Havia uma guarda a volta deles, mas em nenhum momento a coisa pareceu ostensiva, nem foram tratados com deferência menor que a de qualquer outro visitante.

Antes de entrarem em contato direto com a superfície, atravessando praças, quiosques, estábulos, lagos, pistas de velocidade e recreação, catedrais, feiras e casas de banho/espetáculo, já tinham passado por minuciosa ‘quarentena móvel’;  aquilo traduzia-se num sistema menos agressivo de desinfeção, dando ao visitante a ilusão cosmopolita de que seus vírus seriam bem-vindos em qualquer parte.  Sem que soubessem - ou até mesmo com ciência total do fato -, nanopats, a primeira leva, eram borrifados no ar, nos veículos de transferência que partiam da Lua, aderindo aos organismos que pleiteavam ingresso no planeta;  a missão dos minúsculos antígenos, como unidade, era praticamente nula, mas em conjunto funcionavam bem, mandando todas as informações sobre o hospedeiro temporário, desde o mapeamento de seus genes até possíveis focos de invasão viral.  Todo ‘processo infeccioso’, absolutamente indolor, acontecia em questões de fentossegundos, até o primeiro resultado ser compilado, 30 segundos depois, o que não era de forma alguma um intervalo ideal, pois em trinta segundos muitas coisas podiam acontecer.

Se fosse detectado problemas de fácil controle, o organismo, submetido às juntas médicas virtuais em plantão permanente, era tornado compatível instantes após;  problemas mais sérios, de caráter cirúrgico ou que envolviam questões de segurança planetária, não recebiam selos de controle de qualidade, logo, não eram aceitos na Terra, interrompendo-se a descida do elevador só o tempo suficiente para se fazer o devido isolamento.  Somente pr’aqueles casos a quarentena se tornava desagradável.

Por mais que o assunto fosse complexo, e simples ao mesmo tempo, Gabriel, ao entrar no hall ogival do Prédio da Justiça, deixou um lembrete gravado em seu microprocessadorcard para consulta posterior.

O fato de serem encaminhados imediatamente para uma audiência com o Conselho Supremo, provava aquilo que já desconfiava, que tudo podia ser resolvido sem qualquer burocracia.  Dependendo do que fosse interpretado pelos juizes, ou sairiam dali livres ou nem era bom cogitar os desdobramentos disso...

- Por favor, em fileira, cavalheiros, madames, para identificação de sua série biológica - disse o autômato, cruzando dados com as outras análises preexistentes, comprovando se alguma coisa estava fora do lugar.

Não estava.

- Sigam pelo corredor assinalado, e chegarão ao anfiteatro leste.  Se acomodem nas poltronas e aguardem a chegada do tribunal.  Obrigado pela atenção e desculpem qualquer transtorno - finalizou, liberando o acesso à sala indicada.  

*

- Gaba...

O imediato mordia o lábio inferior, olhava para o teto alto, por onde a luz do dia entrava.  Todos eles deviam estar relaxados, pois junto com a carga de nanopats, tinham recebido sprays tranquilizadores e agentes anti-fadiga.  Apesar desse aparato todo, o comandante notara que Jess não contavam com a melhor das aparências.

- O que foi, menino?

- Estou com medo.

Sem saber o que dizer, o comandante preferiu prolongar um pouco mais o silêncio, porém fazendo alguns movimentos que deixaram o imediato intrigado, dividindo um pouco sua tensão.

Vasculhando no uniforme que tinha sofrido um processo semelhante de descontaminação, sendo entregue à eles antes do embarque no comboio intraterrestre, Gabriel tirou uma espécie de colar crivado de centenas de pontos de solda multicoloridos.

- Tome.

Fazendo a coisa por impulso, nunca pensara em se desfazer do 'rosário', tendo sido importante pra ele nos primeiros momentos em que antecederam sua decisão de abandonar a Terra, quando nada mais parecia ter significado algum.  Gabriel também não podia se considerar um religioso;  mesmo não sendo exatamente como Jess, um ateu convicto, pouco ficara distante disso, todavia tivera seu consolo, ao encontrar aquele colar num ferro-velho, quando vagara sem destino, lutando entre a culpa e o descaso, reconhecendo que o rosário fora a solução ideal para os seus problemas.

Jess sabia do valor pessoal que o superior atribuía ao estranho objeto.  Por um momento esqueceu de onde estava, e começou a observar melhor àquilo que Gaba insistia pra que pegasse, ouvindo-o falar:

- Não houve guru, ou manual de instruções.  Apenas encontrei essa coisa abandonada, largada em meio aos outros objetos que despertavam minha ânsia de colocá-los pra funcionar.

"Mas esse colar não mostrava utilidade alguma;  estava no compartimento interno do chassi retorcido dum automóvel, que era um daqueles veículos que usavam matéria fóssil para se mover;  também estava todo engordurado, coberto de imundices, literalmente submetido ao tempo, como atestavam a ferrugem e todo resto, e, a  despeito disso, uma luz incidia sobre ele, chamando minha atenção.  Durante o tempo que levei para galvanizá-lo, mexendo em cada um desses pontos brutos de solta, relembrando meus problemas, foi que notei que tornara as coisas maiores do que eram.  Percebe alguma similaridade, menino?"

Vendo que o imediato fazia os mesmo movimentos que ele, tocando o rosário, o comandante sorriu intimamente.  Enquanto os juizes não chegavam, continuou:

- Cada uma dessas soldas difere das demais, no entanto estão dispostas uma ao lado da outra.  Até os intervalos entre elas - coisa que também medi detalhadamente, antes de perceber que isso tudo era desnecessário - não se repete.

- Afinal, qual a vantagem de algo assim, Gaba? - bem que tentou devolver o objeto, porém a voz do comandante e o movimento que ele próprio fazia, passando pelas soldas e intervalos, começava a surtir efeito calmante.  Seu medo não desapareceu, contudo estava intrigado, tornando a coisa mais suportável.

- Como algo inanimado, a vantagem disso é nenhuma.  Por mais brilho que lhe tenha dado ao galvanizar e manter constantemente limpo, aparentemente continua sendo uma coisa disforme.  Mas é nessa 'deformidade', nessa aparência enganosa, que reside a força dele!  Há ordem em cada pormenor, e nisso habita também a beleza, principalmente quando, com o passar do tempo, você aprende a sentir aquilo que está tocando, e acaba dando nomes que pode ser qualquer um, porém minha parcela ateu foi fundamental para, por ironia, agregar ‘santos’ à personagens de minha fruição, daí essas Santas Filipetas, Sãos Buracos Negros e todos os outros 417 companheiros, cada microsolda com poder suficiente para mover o universo, uma fórmula para cada momento pelos quais passei, sem nunca falhar no principal: dá sentido à vida.

Quando a fila de cinco juizes togados, encabeçados pelo meirinho-robô, entraram na arena, cada qual assumindo seus postos na corte central, Gabriel estimou os poucos segundos que lhe restavam - já que todo depoimento já tinha sido colhido em trânsito, e somente caberia à eles ouvirem o pronunciamento da sentença - para concluir:

- Jess, se está com medo, use esse sentimento de forma produtiva.  Ouça quem é escolado nesse assunto.  Se quer continuar a me olhar dessa forma, tudo bem.  Mas, acredite, tive medo em inúmeros momentos, e toda vez em que precisei, esse rosário ajudou.  Independentemente do que seja decidido aqui, gostaria que aceitasse-o.

Na iminência do sinal sonoro que indicava o término do ‘recesso’, Gabriel falou:

- Não fique constrangido, menino.  PEGUE-O.  Ultimamente criei minha própria versão do rosário - e tocou em sua cabeça. - Facilmente poderei continuar vivendo o resto de meus dias com o rosário mental.

Não houve anuência por parte do Imediato, mas seu gesto, enrodilhando o longo fio microsoldado em uma das mãos, movendo os dedos ao longo do rosário, os lábios, ainda indecisos, murmurando coisas que não chegaram ao ouvido do comandante, apontaram claramente para à aceitação do presente.

"É, meu velho, você acabou de perder a bengala...", pensou Gabriel, finalmente ouvindo o toque da campainha, vendo o movimento do meirinho-robô para o centro do palco, "mas com certeza não perdeu o amigo".

6

Código Delta 3, Escritório da Suprema Corte Plenipotenciária, setor de litígio e desapropriações, 325B2C4000T-8ZP (barrete eletrônico e chave cifrada).

Nota da Comissão de Inquérito, Sub-birô de investigação da Comarca Terra, Zona Livre comercial e geopolítica das quinze superencorporações coligadas que compõe cada um dos conselheiros principais e todos os demais independentes: extrato do meirinho em exercício ZED900, compilado em 18 de Agosto de 2338 CUT*, atendendo parecer de Sua Excelência, Cacique-Desembargador Klaus Wagner Soares Ortigão Bueno, relator juramentado e coordenador da Comissão de Inquérito.

Citando (abre aspas) Todas provas cedidas foram analisadas.  Constatado insuficiência de dados em alguns casos e irrelevância em outros, estando a única matriz de dados, o robô sem série ou registro – segundo consta de fabrico artesanal, de responsabilidade de Zander Kosak -, que atende pelo nome de Leopold X, desaparecido misteriosamente, deixa-nos apenas o conteúdo de duas caixas pretas do encouraçado Sofia e o depoimento da tripulação do linner Skylark e seu comandante, o capitão Gabriel Barleduc Capadossos, terrano de nascimento, também pleiteando ratificação de sua cidadania.  Como os informes dessas fontes disponibilizadas são inconclusivos, e/ou subjetivos até, oferecendo várias abordagens, e a retirada da ação movida pelos proprietários do linner, que poderia prolongar o presente inquérito, é parecer desta Comissão, apesar das enormes implicações que aqui se sugere - mas não se prova -, dar o caso como arquivado, à espera de algum testemunho fidedigno e vital que o conclua.  Em vista do disposto, acatamos, por 18 votos contra 3 e 2 abstenções, in totum, todas reinvindicações de resgate de apólice.  Posto não haver contestação lídima, o assunto está encerrado, ficando o meirinho responsabilizado por enunciar os incisos, conforme nosso julgamento (fecha aspas).

INCISO UM – assim, julgamos 325b2C4000T-8ZP sem provas que consubstanciem o envolvimento de alienígenas do setor Tellus com a Corporação Lambda (ou vice-versa);

INCISO DOIS – o comandante da Skylark, e sua tripulação, estão liberados de seu direito de ir-e-vir, sob termo de acordo coletivo mantido de prestarem novos testemunhos se e quando forem convocados sine die, nos termos da Lei;

INCISO TRÊS – concede à Gabriel Barleduc Capadossos e todos os abaixo assinalados (ver relação) dos tripulantes da Skylark - nas cotas tais, tais e tais (consultar relação), descontado o percentual destinado à ressarcir o dano dos proprietários do iate acima citado, orçado por este Tribunal em $82.000 Soleres -, a totalidade da Apólice de Sinistro, sem agravante significativo, em conformidade com o Direito Espacial vigente, sendo que a importância  (ver relação) – valor venal + acervo vivo + carga -, sofrerá acréscimo de bônus por cada um dos 422 tripulantes resgatados do objeto da apólice, ficando majorada da seguinte forma (ver relação).  Com tal importância, em razão de trâmite de arquivo e desmembramento de valor, fica creditado e retido no cofre da União Terrestre, pelas próximas 82 horas do fuso local, sendo que, por todo tempo que tal capital ficar legalmente retido pelo Tesouro, toda despesa do resgatante, devidamente qualificados, aguardando conversão monetária e dados para crédito pessoal na forma que melhor cada um dos resgatantes assim determinarem, serão custeadas por esse Tribunal, com fatura a ser convertida para a embaixada devida, dentro dos requisitos básicos de alimentação e moradia;

INCISO ÚLTIMO – fica Gabriel Barleduc Capadossos aceito como residente fixo da Terra, cidadão livre número 128214113DV26, no gozo de todos direitos e deveres que tal cidadania obriga e concede.  Deverá prestar juramento imediato e seguir protocolo genealógico correspondente, para formalizar o aceite.

Fim do parecer.

(*) Calendário Unificado Terrestre
  TERCEIRA PARTE

Os mortos vivem...

1

O Caixão Voador, como a mídia apelidara, pousou no horário preciso.  Não houve fanfarra, nem sinais externos de comoção pública, pois era desejo dos familiares velarem por seus mortos em cerimônias isoladas, ficando sob proteção irrestrita da Soberania Terrestre, enquanto o translado não era providenciado, os corpos transportados para suas respectivas famílias.

Como, uma vez hangarado, o ‘Caixão’ ainda aguardava a equipagem do corpo legista e tutores legalizados da Vara de Família, a fim de conferir apresentabilidade aos mesmos, ninguém reparou quando um vulto humanóide desprendeu-se da nave que trazia todos os cadáveres dos tripulantes da Sofia.  Haviam 422, isto é, 423 corpos menos um...

Não só deixaram de reparar que o mesmo saltava os cinco metros do alto da comporta até o chão, como sua imediata ‘camuflagem’;  com seu rosto devidamente trabalhado com o material que encontrara, tendo pego um imenso blusão de manutenção, facilmente misturou-se com os engenheiros e técnicos, ficando desapercebido, tomando rumo ignorado.

Assim, Leopold conseguira desaparecer e estava indo cumprir sua estranha programação.

2

5 meses depois...

Sofia Florrance Chedeak, a viúva mais rica que se tinha notícia, depois dum tempo enorme de manutenção das aparências e um período exaustivo de entrevistas, manifestações públicas de pesar, revolta, a mise-en-scène costumeira, deu-se ao luxo de tirar umas longas e merecidas férias.

Afinal, o assunto da morte-não-morte de seu marido terminara.  Ainda que o corpo não tivesse sido encontrado, as provas eram contundentes demais, e o mesmo foi oficialmente declarado morto, tendo ela feito ‘supremo esforço’, atos de contrição e se decidido por não comentar mais sobre o assunto, já que estava abalada, e uma série de desculpas que a qualquer pessoa poderia parecer muito sinceras.

Mas não convencia a alguns poucos que a conheciam de fato.  Por exemplo, não convencia a ela própria, uma vez que a fraude, e era isso que se tratava, se prolongara além do esperado.  O plano fora bom, porém pecara exatamente por essa eficiência excessiva, prevendo a fuga de Zander, criando uma cortina-de-fumaça para que Sofia concluísse alguns negócios inacabados.  Só que Zander não morrera imediatamente depois, nem nos dias seguinte à sua fuga.  Agüentara por mais de quinze meses e gravara algumas mensagens bem peculiares, inclusive farejando onde devia estar o motivo de sua traição, apenas errando, e muito, quem era realmente o mentor de seu assassinato encomendado.  E por quê duvidar, se Sofia mantivera intacta sua fachada como uma rainha-herdeira manteria a realeza?  Impossível.

Estava bronzeando seu corpo ainda esguio, recém-chegado à casa dos 35, com toda ‘cosmética’ cotidiana deixando-a com a aparência duma adolescente, esparramada junto à piscina de águas perfumadas, cascatas, ninfas d’água, naquele idílico planeta da estrela Denèb.  Já perdera a conta de quantas vezes se flagrara rindo sozinha, e menos ainda quantas outras vezes seus dedos resolviam passear junto à vulva, constantemente úmida, como se o gozo tivesse relação direta com o cumprimento de seus objetivos.  Encharcada = bem-sucedida.

Quando o mordomo, um proto-centauróide de Vega, trotou na direção da piscina, não pode deixar de reparar no membro viril que se avolumava entre as patas robustas.  Aquilo era normal para o alienígena, uma reação biológica, ao que parecia, ao almíscar da mulher, apenas que Sofia não tinha a mesma destituição de maldade em seus pensamentos.  Ela, já fazia bem um par de anos, elucubrava, conspirava, tramava meios de um dia se aproximar do centauróide, ou outro de sua espécie, sem que caísse no ridículo (e no desastre) da mídia tornar pública essa relação, comprometendo sua casta fachada.  Com dinheiro, questão histórica, podia fazer o que quisesse, mas o plano não previa exceção dessa natureza.  “Ainda bem”, pensava ela, “que não tenho de me preocupar mais com isso...”, e nova onda de gozo levou um suspiro a seus lábios (os dois).

Destarte toda sua ânsia de sexo com o serviçal, que nem mesmo tronco humanóide tinha, já que parecia uma vagem amoluscada, Sofia não pode deixar de reparar que o quadrúpede trazia um abraçado de flores exóticas num dos tentáculos direitos, tendo em outro um estojo de aspecto aparentemente caro, dando uma pista do que poderia ser.  Outro cortesão.  Ou seria outra?

- Ah, esses meus machos!! -, tornou a suspirar, languidamente se espreguiçando, colocando o roupão tão sutil quanto um sopro de brisa, indo até o deque superior onde o mordomo estacionara, trocando de patas sem sair do lugar.  Perfeitamente treinado por sua patroa.

Enquanto não chegava lá, não deixou por um momento de tramar, já que aquela era sua primeira e única natureza: Aquele acerto com a Corporação Lambda e o ‘Conchavo Alienígena’ fora todo arranjado.  Claro que tal coisa não existia fora de certas mentes mais infantilizadas, como a de Zander, seu querido, crédulo e metido marido;  correção: ex-querido, ex-crédulo, ex-metido EX-marido.  Tudo não passara duma trama bem urdida nascida bem ao lado dele, em sua própria casa, sem que em nenhum momento suspeitasse que a mulher, aquela que sempre fizera suas vontades, até as mais inconfessáveis, não poupava esforços para eliminá-lo.

“Pior pra ele, melhor pra mim.  Morreu sem saber”.

Sem pressa, parou para ‘acariciar’ o cão-leopardo.  Ele era dócil, somente isso pra explicar por não atacá-la ao praticamente arrancar seus bigodes.  A decrepitude do ser também ajudava um bocado nisso.

Aquele animal pertencera à Zander.  E acabava sendo uma espécie de saco de pancadas em suas mãos.  Não maltratou-o mais para provar seu bom-humor.  Ainda bem que agora tudo estava sob controle.  Os alienígenas do tal ‘conchavo’ tinham saído logo pela manhã, vindo pegar, no gênero sonante de dinheiro pleiadeano, na forma de especiarias e drogas, a larga soma prometida pelo embuste.  Óbvio que Sofia não deixaria ficar barato.  Nunca fora como Zander, que colecionava inimigos, porém era justo com quem fazia por onde.  Ela preferia colecionar amigos e, depois, absurdamente, tratar de eliminá-los.  Por conta disso, uma hora antes acionara seu ‘esquadrão de limpeza’, seres concebidos sob medida para suas necessidades;  engenharia genética ao serviço de Sofia, que usava-os para eliminar obstáculos e remover as ameaças que mesmo um bom plano sempre deixava em aberto, como o caso daquela comitiva alienígena.  Já podia contar que, ou na manhã seguinte, ou na próxima, um determinado veículo espacial, independentemente de quantos tripulantes houvessem, a meio caminho de um sol geminado da formação pleiadeana, conhecido como Champolion, deixaria de existir.

Realmente dera tudo ao homem.  Tudo.  Mas fizera suas exigências também.  Não fora a toa que se formara na técnica do amor, escolada no mais amplo sentido do termo, mais ainda que as próprias gueixas.  Conhecia coisas do metiê amoroso que revolveria o estômago de muitas pessoas, e usava essas armas todas as vezes que podia.  Ao casar-se com Zander, que oferecera planetas à ela antes de sucumbir àquela instituição tão fora de moda, quando o homem já era um baluarte no mundo dos negócios, sua primeira missão foi tirar da jogada o bando de parentes que o orbitavam.  Pelos quase quinze anos que viveram juntos, com larga margem entre as mortes, começara a eliminar uma descendência indesejável.  Por mais que os meios de segurança abundassem, acidentes sempre aconteceriam.  Uns um pouco mais terríveis, outros coletivos, outros ainda no meio da madrugada, dormindo bem e ‘acordando’ num forno crematório.  Sofia podia usar o ‘toque de Midas’ do sexo, mas era sempre outro o seu objetivo.  Por isso não tivera filhos.  Nem aceitava adoções.  Como clones humanos não herdavam, segundo a Lei vigente na maioria dos planetas, nem era uma prática civilizada, Sofia herdou, sozinha, tudo aquilo que sempre quis: poder.

Por isso, quando observou o apoteótico ramalhete, o estojo luxuosamente adornado, não proferiu nenhum Oooh!, nem seus olhos se iluminaram, nem fez qualquer movimento ávido na direção dos novos pertences.  Seu estoicismo salvou-a, pois reparou que as flores eram, todas elas, carnívoras, o centauróide já com um dos tentáculos muito lesado, embora insensível pela ação dormente das dopaminas injetadas pelos esporos-espinhos;  intuindo por algo não tão desejável, foi que se conscientizou que estava sendo vítima dalgum gracejo, pois a tampa do estojo também coleava, fazendo-se notar uma mortal serpente gdion’k’sher em seu interior!

Num gesto reflexo, que custou-lhe o emprego, e a vida também, o mordomo arremessou o estojo que ciciava, fazendo a serpente venenosa, que aparentemente parecia um belo colar multifacetado, mergulhar na piscina cuja a água, cada ínfima gota, tinha sido filtrada e tratada segundo os exigentes padrões de Sofia.

- Seu asno! – berrou ela, com cinco de seus guarda-costas tratando de incinerar as flores, e, por aproximação, o próprio mordomo.

Sem ter com quem gritar, voltou sua ira para os guardas armados até os dentes:

- Como deixaram que isso acontecesse?!

O mais robusto deles, com sua couraça orgânica lembrando o exoesqueleto de algum crustáceo do período Devoniano, moveu a calda escorpiônica em sinal de desespero.  Por mais frio e competente que o Esquadrão fosse, sendo chefe da guarda palaciana, sabia que a responsabilidade de tudo aquilo recaía nele.

E tentando ser frio e competente, como sempre, falou em interlíngua:

- Senhora, o portador desses presentes não tinha a mínima noção de quem o contratara.  Recebeu os artigos por um motorobôboy junto à uma boa soma em dinheiro, e entregou-os na portaria, um quarto de hora atrás.  Claro que checamos todos presentes, que não revelou nada, nenhuma dessas características miméticas nem carnívoras, por isso permitimos a entrega que, malgrado nosso, transformou-se num atentado...

Sofia levou ao extremo a ‘frieza e competência’ do guarda do Esquadrão de Limpeza.  Só havia uma forma de lidar com gente de gabarito duvidoso, nada escorreito.

- Brie – sussurrou para um dos guardas que não estivera de serviço na portaria da Fortaleza nas montanhas e sabia não ser responsável por aquela afronta à sua inteligência, - você é o novo chefe por aqui.  Aja como um.

Virou as costas e nem precisou confirmar a seqüência de zapts do desmolecularizador agindo contra o antecessor de Brie e dois de seus companheiros. *

Já tivera a desgraçada emoção um pouco antes, sem saber realmente se tinha sido vítima dum atentado ou uma pilhéria.

Refestelada em seu caríssimo e ecologicamente condenável estofado semicircular de pêlo de foca marciana, Sofia pensava no assunto quando, casualmente olhando para a grande parede envidraçada que separava o salão do Jardim de Inverno, gritou.  Fora um grito abjeto, do tipo que nunca pensara emitir, pois parecera nascido em suas tripas.

A comoção ainda não terminara.  Acabara de ver um rosto conhecido contra o vidro blindado e o pouco que reparara nele, antes de pular para um refúgio detrás do estofado, com os guardas atropelando porta adentro, foram as feições de um morto!!

Mesmo com os seguranças atestando o aposento limpo, as imagens do circuito interno fazendo o mesmo, livrando-os da morte, sabia que era Zander atrás daquele vidro!!!  E o sorriso que vira naquele rosto nada tinha de amistoso...

3

A vantagem de se ter dinheiro, muito dinheiro, estava na presteza com que acorriam para deixá-la feliz.  Sua felicidade, no momento, traduzia-se em estar longe de Denéb.  De preferência colocando meia galáxia de distância entre ela e seu pesadelo.

Assim foi feito e provou estar dando certo!

Três semanas após o incidente com a ‘aparição’ e Sofia começava a achar que aquilo fora o imundo fruto de sua imaginação, trabalhando em cima do episódio da serpente e tudo mais.

Passeava em Akkta, por praias idílicas, quedas de água quilométricas, safáris fabulosos.  De repente tudo começou a mudar...

Continuava a fazer seu turismo, sexual, inclusive, mas em toda parte, mesmo em meio à alguma savana, caçando gatons, surgia aquele rosto que comprou vaga cativa em seu apavorado íntimo.

Lá estava Zander nas compras, Zander na água, surgindo de lagos e cachoeiras, Zander no fogo, escalando a cratera dum vulcão borbulhante.  Zander em toda parte.

E ninguém, só ela, conseguia vê-lo!!!

Já acolhera conselhos para uma sonda psíquica, mas o risco de revelar alguns de seus segredos não compensava o transtorno da psicossonda.  Tinha de achar um meio alternativo.  Um meio que fosse um fim, que calasse pra sempre aquele recorrente pesadelo, que já por sessenta e seis planetas seguidos, mesmo em curso, em iates fretados, o morto teimava em aparecer.

Reforçou sua guarda e em praticamente nenhum momento andava desacompanhada.  Quando Zander resolveu aparecer em banheiros e até em meio à algumas fodas, o que já era raro, ficou pior.  Nem só dentro de si, em sua mente exacerbada, nem só por toda parte.  As facetas de Zander eram infinitas, se multiplicavam, em número e intensidade.

Quando já se firmava que aquilo tudo era conspiração dum subconsciente exorcizando alguma redenção, finalmente pronta a se submeter aos caprichos duma junta médica devidamente ameaçada, as mortes começaram a ocorrer...

Um a um seu ‘esquadrão de limpeza’ foi sendo varrido do mapa, abatidos sem qualquer clemência ou dificuldade.  Os guerreiros mais letais do universo, que nunca conheceram a derrota e mestres naquilo que faziam de melhor: matar em segredo, sumir com pistas, dar novas interpretações, coisas assim, começaram a cair vítimas da própria aptidão.

Sua vida acabou se tornando um Inferno.

A mais poderosa era também uma pilha de nervos;  o poder que conseguira, insuficiente para debelar de vez com aquela assombração!

Gastou quantias fabulosas e nenhum lugar era seguro o bastante para a carranca de Zander deixasse de importuná-la.  Ainda que, movida mais pelo desespero, tentasse articular com o morto, o mesmo mantinha o silêncio sepulcral e a guerra de nervos continuava.  E ela ‘quebrou’, chorou copiosamente.  Um choro de raiva.  Um choro de incompreensão.

Algumas drogas depois, uma suruba homérica encomendada, perdeu a noção de quantos Zanderes passaram por seu corpo.  Com os sentidos embotados, nem procurou cogitar se todos eles eram um só, muitas vezes visitando-a, ou subproduto de beberagens alienígenas e alucinógenas, como coquetéis de eletrópium, com uma amálgama de outros tipos, de injetáveis até inaláveis.

A Imprensa acabou tomando conhecimento das excentricidades de Sofia, e no geral, para o agrado dela – que no dia seguinte não se lembrava de nada, mas sabia de tudo -, limitaram a veicular informações.  Porém, fora do cômputo geral, um colunista filho da puta resolveu se aprofundar no vespeiro e encerrou sua matéria quase que totalmente inócua com a seguinte frase, que acabou se tornando um bordão: Qual a verdadeira face de Sofia?

Quem poderia responder isso, no ato, não o fez.

Estava ocupada vomitando.

4

Aproveitando duma ótima maré na qual Zander resolvera desaparecer de sua vida, mesmo contrariando sua própria determinação de não andar desacompanhada e nem se expor ao ridículo, procurou descontrair – e festejar! – nas boates de Procyon-Aurigae IIIb, onde todos os dias eram noites, pois o planeta – tecnicamente um satélite – não girava em torno de seu eixo, em sua configuração sui generis, por estar espremido entre dois mundos no mínimo cinco vezes maiores do que Júpiter, porém com muito menos massa.

Mesmo sendo um sistema binário de grandeza ímpar, PAIIIb – que os notívagos e freqüentadores chamavam de Breu – fazia parte dum sistema dentro de outro, com toda luz que poderia receber eclipsada pelos supergigantes gasosos, vivendo naquele equilíbrio que os Cosmólogos diziam ser impossível e alguns até aventavam a hipótese extrema de ser um conjunto artificialmente concebido.

Sempre quisera ir a um lugar como Breu;  agora tinha motivo e oportunidade para gozar da privacidade oferecida daqueles que apregoavam ser ‘A Meca do Sexo’.

Já estava com seu opcional devidamente encaixado no lugar, com o transformador retal irradiando bons presságios.  Sofia fora criada precipuamente para aquela função, pois pertencera à Ordem das Irmãs do Sexo do Milênio, cuja principal Tora baseava-se em “amai-vos uns aos outros, conquanto os outros pagem para isso”.

Sentada num linguição, um veículo que se ‘contorcia’ por debaixo do passageiro, ela deixou a zona espaçoportuária e foi guiada por uma avenida feéricamente iluminada, com chafarizes de luzes brotando em toda parte, se decidindo por qual modalidade de sexo estava a fim de experimentar em primeiro lugar.

Passando por baixo dum arco voltaico, como num amplo rio-mar, desaguou numa rua um pouco mais sombria, porém igualmente repleta de Casas de Espetáculo, somente que naquele lugar, como nas outras ruas que brotavam ao longo da avenida, tudo era temático, naquele caso, com ênfase para o voyeur, paraíso dos robopatas e pesadelo declarado dos robofóbicos.

Seu veículo, programado por não sabia qual entidade subornada para ‘pescar’ turistas, deixou-a no pátio duma construção piramidal.  Somente quando estava em seu interior, luxuoso e cálido, reparou que era uma roboate, onde, fora a clientela habitual, dos barmans as/os stripes, tudo era feito por robôs antropomórficos, a maioria, enquanto humanóides na aparência, apresentando estereótipos nitidamente caricaturais, como se fosse uma versão da Gaiola das Loucas espacial.

O serviço era bom, a música surpreendente (ao ‘vivo’) e alguns freqüentadores muito interessantes, para o gosto polivalente de Sofia, que estava decidida a ficar por ali um pouco mais.

No terceiro show, quando o robodrag Miosótis entrou, foi que Sofia experimentou seu primeiro e inesperado orgasmo em Breu. *

Podia-se dizer que os humanos sustentavam Breu, que era uma iniciativa de acionistas que exploravam o turismo sexual, possibilitando o assentamento de alguns empresários e troupes do ramo de espetáculos.  Por isso, a maior parte da clientela da roboate se constituía de gente como Sofia, mas haviam também outros;  povos que, ou nutriam idêntica predileção pelos prazeres da carne ou curiosos, até estudiosos, que, a despeito de toda privacidade em PAIIIb, vinham ao lugar para averbar obras que estarreceriam em seus planetas originais.

Enquanto assistia Miosótis fazer sua performance no palco móvel, irradiando hologramas na direção de várias mesas, onde os voyeures mantinham-se atentos, por baixo das mesas, seres – que ninguém gostaria de checar a procedência, se humana ou não – praticavam felatio, ou algo assim, nos clientes predispostos a isso (bastaria usar o teclado, no centro da mesa, para determinarem a forma de pagamento ou se queriam maior intensidade ou nenhum serviço do gênero), tornando a platéia do show também participativa.

Miosótis, como robodrag, nada tinha de excepcional: a mesma maquiagem carregada das dragqueens do passado, indumentárias extravagantes, sortimentos de apetrechos sado-maso e um vocabulário escrachado, contando piadas ‘sujas’, e atiçando o prazer visual ao irradiar hologramas que interagiam com a não muito numerosa clientela.

O imprevisto orgasmo de Sofia nasceu não na manutenção do velho arquétipo da robodrag;  como expert no assunto, ela via muito mais do que aquilo que estava a sua frente.  Havia uma delicadeza e familiaridade no deboche falsificado, no qual seu gozo procurou abastecer-se, antes de se encaminhar aos camarins, indo confirmar se Miosótis era tudo aquilo que prometia...

- Entre – disse a voz do outro lado da porta, antes mesmo dela assinalar sua presença.

Sofia confirmou aquilo que suspeitava, pois Miosótis, sem quase maquiagem, revelava uma beleza andrógina estupefaciente.

- Terei conseguido minha primeira fã? – o removedor tirando o último vestígio de maquiagem néon, o nêgligê farfalhando enquanto consultava um terminal, o robodrag confirmou que seu nonagésimo terceiro show tivera um índice medíocre em termo de público&crítica, sabendo que deveria reescrevê-lo.

- Do jeito que atua, está desperdiçando seu talento nessa espelunca.

- Bondade sua, mas ambos sabemos que não posso questionar nada.  É minha segunda temporada, desde que fui adquirido por meus atuais donos;  ainda não encontrei a fórmula certa para cativar o público, madame.

Movida por impulso, foi a vez da mulher usar o terminal para uma conexão de dois minutos.

- Feito.

Miosótis notou um aviso piscando na tela holográfica.  Naquele breve intervalo de tempo, tinha mudado de propriedade.

Mesmo sendo dona do robodrag, Sofia continuou com sua invulgar deferência:

- Estou um pouquinho indisposta.  Se incomodaria em levar-me ao Makssud Palace? – vendo que o robô ‘pescara o clima’ e guardava alguns consolos em uma pequena maleta, arrematou:- Prometo que não se arrependerá.  Sou uma fonte inesgotável de conhecimento.  

*

Cinergia assim não pode ser suprimida.

O flerte com o robô, a foda eventual, virou algo mais sério, pegando Sofia, depois dos muitos meses assombrada pelos Zanderes, com a guarda completamente desguarnecida.

Em todo caso, entrou de cabeça na relação.  Miosótis – sem nunca querer chamá-lo doutra forma – não conseguiu enfastiá-la, sendo um amante ativo/passivo sem jamais precisar exigir dele a devida reconfiguração.  Era como se o robô se adequasse a todo momento, transformando a relação homem-máquina em algo novo, unívoco, sempre no topo, mesmo que de extremos, duma montanha-russa de sensações.

Sofia começara, já no sexto mês, a ficar negligente.  O prazo de sua esterilização compulsória se esgotava rapidamente, e como o robô, podia-se dizer assim, era sexualmente seguro, principalmente porque não transava com outros parceiros, não via tanta pressa em inibir suas gônadas.

Inclusive passou a nem se importar com os comentários que a imprensa veiculava, dizendo que ela estava em lua-de-mel com um consolo de pernas, indo e vindo pra toda parte, ausentando-se em intervalos maiores;  nem queria saber de negócios, deixando outros tocando o megaimpério, gozando cada segundo da nova e única companhia.

Sem saber, ou tão embaraçada com seus sentimentos, não percebera a troca de papéis, tornando-se ela tão dependente de Miosótis quanto um dia Zander fora em relação à ela...  

*

Foi no nono mês que a imprensa resolveu deixá-la em paz.

Ficava difícil azucrinar alguém que não revidava qualquer comentário, sem perpetuar a polêmica.  Havia também a questão do preconceito, que os advogados da herdeira podiam muito bem usar.  Era uma posição muito frágil e, uma vez na balança dos negócios, não se sustentava, daí ter sido esquecida.

Nessa época, com algumas transações comerciais naufragando, outras mantendo-se pela inércia financeira, já em pleno período de ovulação, Sofia notificou sua junta de Diretores que faria um cruzeiro pelos mundos periféricos, sem data definida para o retorno.

E com uma nave versátil, multiaparelhada, tripulada e comandada pelo versátil amante positrônico, deixou a sede do Consórcio, em Sírius B Majoris, para uma jornada que ninguém poderia imaginar.

5

Quando retornou de sua viagem, estava grávida.

E louca.

Falava sem parar que estivera encarcerada no planeta mais fedorento do universo, num lugar cujo o teto fora pintado com imagens dela, com Sofia segurando uma galáxia espiral nas costas, sorrindo como uma Gioconda renascentista, ou agachada, parindo, assim como Deus, toda criação...

Estava louca porque dizia – e já tentara – querer matar aquele feto que já abaulava seu ventre, com cerca de 15 semanas de vida, provando ser um menino.  Porque afirmava que um tal de Miosótis, um robô, se transformara no seu ex-marido, que mantivera um coito com ela durante dias seguidos, trocando esperma em doses homeopáticas, analisando todas as amostras de óvulos fertilizados, descartando todas com exceção de uma, que repusera no ventre dela, e que deveria ser exterminada, pois só poderia ser uma abominação!!

Claro que ninguém lhe deu ouvidos.  Não os ouvidos que precisava.  Só escutaram o necessário para depreender seu estágio avançado de loucura.  E, senão loucura, algo que a perturbava e podia ser letal para a parturiente e seu bebê.

Queriam mantê-la sedada, enquanto a nave que a trazia de volta não aportasse em Sírius IV, quando então se decidiriam de que destino dar à patroa de todos eles.

Mas o grito que ouviram, na madrugada da nave de resgate, fez com que mudassem os planos.  Aquele berro não parecia ter nascido numa garganta humana.  Porém nascera.

Encontraram a mulher, que de alguma forma se libertara das correias energéticas, curvada sobre o chão.  Da boca de Sofia descia uma espuma rala, formando uma poça embaixo dela.  Como não haviam vestígios de sangue, mantiveram o procedimento, muito mais até quando a varredura tansepitelial escaneou os ótimos sinais vitais do feto e da gestante.

A mulher tossia quando recolocaram-na sobre a cama.

Quem aplicou o tranqüilizante – que agiria sobre o hipotálamo dela e nunca sobre o feto -, teve de se munir de muita paciência;  enquanto o efeito do tranqüilizante, brando mas contínuo, não se fazia presente, ouviu Sofia urrar que Zander tinha posto alguma coisa em sua garganta, que estava se alojando em algum ponto de seu estômago, que queimava, e queimava, e queimava, e queimava, e quei...

Ficou inconsciente antes de dar maiores informações, com o enfermeiro reportando ao médico-de-bordo algo que somatizava, no sentido de agravar, seu quadro clínico, já em muito depauperado, no que tangia às faculdades mentais da paciente, que doravante receberia alimentação gasosa, mantendo-se hidratada constantemente.  

*

Depois da nave ter aportado, passaram-se três dias até o efeito do sedativo sumir.

Um dos braços dela estava solto, fazendo exercícios ergométricos com o tensor do robô terapeuta, quando tentou mover a garra mecânica na direção de seu abdômen.

Depois da tentar o suicídio por mais cinco vezes, ao longo de apenas 72 horas, e não havendo mais como sedá-la sem riscos para a criança, os especialistas, consultando instâncias superiores, resolveram interromper a gravidez intra-uterina, antes mesmo da décima oitava semana fetal se concluir.

Dos partos que ocorriam àquela época, a maioria acontecia no sexto mês de gravidez, ficando o feto submetido a uma bateria de testes por 80 dias, que visavam também, quando solicitado e aprovado, inferir em alguns parâmetros biológicos.  Isso geralmente acontecia na presença dos pais, a fim de manter o elo familiar tão vivo quanto possível.

Quando Sofia Florrance Chedeak foi à Sala de Parto, o feto, mesmo contando com pouco mais de quatro meses de vida, estava bastante desenvolvido, e o processo não seria tão traumático assim, à exemplo do que ocorria até o primeiro século daquele milênio, na pátria de seus ancestrais.  A incisão seria padrão, ou seja, diagonal, abaixo da oitava vértebra, e antes que o dia terminasse, a paciente não teria nenhum vestígio de cicatriz nem seqüela alguma, afora a mental, que devia ser acompanhada de perto, para pronto tratamento com aminoácidos ou um leque imenso de possibilidades de reparo e/ou modificação de personalidade.

Só que a rotina não foi tão completa assim.

- Doutor, temos um probleminha aqui...

Que problema não poderia ser resolvido com a fantástica tecnologia e farmacopéia que dispunham?

Xeng Aníbal Ho olhou a enfermeira, os três assistentes robôs, a incubadora antigravitacional – na qual o feto ficaria por mais poucas semanas -, e voltou o olhar para a enfermeira, tudo numa questão de segundos.  Não via nada de errado;  as leituras da paciente eram as mais perfeitas possíveis, e o feto, já na incubadora, boiava com uma desenvoltura pouco comum em sua tenra idade, sendo isso mais entusiasmador que verdadeiramente problemático.

- A cola biológica não sedimentou?  O líquido amniótico não foi devidamente drenado e transferido, junto com o umbilical? – estranhou, pilheriando, se preparando para, prova de sua confiança em sua intervenção, desativar a máscara coletora de gérmens, dando por encerrado o parto que demorara longos 12.6 minutos.

Quando viu o aceno grave da robusta auxiliar, os lábio inferior sendo mastigado, foi que atentou para uma transferência de dados em seu console cirúrgico.

Havia um terceiro sinal vital...

Exames rotineiros como a laparoscopia e checagem radioimunológicas não detectaram a gonadotrofina coriônica humana, então como poderia ter acontecido a ascensão de um óvulo rumo à luz tubária, possibilitando a prenhez ectópica?  Pura ficção-científica!  Nos anais médicos, uma varredura de links cognatos depois, nada estava relatado com tal coisa assintomática.

Ho sabia, estando tudo devidamente documentado, que acabaria por escrever um novo capítulo que usaria em seu próximo seminário.  Isso que era sorte no azar!

- Enfermeira – e checou sua máscara e instrumental: - vamos cortar a nível esofágico.  Deixe o Banco de Órgãos alertado para uma possibilidade de reposição bulboestomacal.  Tempo de maturação máximo.

Pela primeira vez, depois de quarenta anos de prática, estava inseguro com aquilo que traria ao mundo...  

*

Roy Chedeak Zimmerman teve seu nome ratificado pelo birô neonatal de Sírius IV.  Toda sua linhagem foi compilada antes de deixar o berçário, sendo seu tecido celular esmiuçado, investigado de todas as formas, repetidas vezes, confirmando sua origem 100% natural, apresentando sempre a estranha constatação de que era filho legítimo de Zander com Sofia, que, a despeito de todos recursos, mantinha-se numa catatonia pós-parto.  Como ela não pôde se pronunciar, todos presumiram ter tido acesso a algum banco de espermas desconhecido, quiçá até doméstico, do gênero portátil, daí, não havia o que contestar, Roy era herdeiro do legado dos Zimmermans.

Mas não era único herdeiro...

O terceiro sinal vital, que chocara a todos, pois não tinha sido rastreado em nenhum momento, traduzira-se numa menina, que em respeito à mãe, que parecia ter tentado explicitar sua existência, recebeu o homônimo de Sofia.

Nomes poderiam ser trocados mais tarde, haveria tempo pra isso, mas ninguém poderia trocar as circunstâncias especiais de seu nascimento, pois o bebê Sofia, uma sobrevivente em todos sentidos, fora gerada no estômago, mantendo conexão com o útero da mãe através do intestino, sendo o caso raríssimo nos alfarrábios da medicina.

6

Os gêmeos passavam bem.  Já estavam com dois anos, e tudo apontava pra cima, nunca pra baixo.

Só que o mesmo não podia ser dito da mãe, que apesar de haver vencido a catatonia, parecia ter perdido a memória, renegando a própria cria, até, um dia, desaparecer sem deixar rastros.

Através de tutores as crianças foram criadas, destinadas a assumirem a posição social que mereciam.  O gigaconsórcio eurosinoafricano, como num feudo, voltou à coesão, vendo no pequeno Roy os sinais inequívocos de que, dentro em breve, seria tal qual seu pai.

A menina era um mistério pra todos...  

EPÍLOGO

“Sum quod eris, fui quod es”

(“Sou o que serás, fui o que és”)

– Inscrição Tumular

A louca estava morta.

Sofia estava morta.

O corpo foi encontrado, sem vida, numa viela escura, mal freqüentada, num cortiço infecto de um mundo apenas em sua segunda fase de colonização.  Os legistas ficaram surpresos com a identificação do cadáver em franca decomposição.

As pesquisas revelaram dados que apareceram no Diário Estelar por semanas após semanas.  Falava-se que a ‘herdeira louca’ tinha regredido ao ponto de esmolar seu corpo por comida, e como àquilo que exibia a época era um conjunto de unhas partidas, cabelos descolorados e todo um patético conjunto de características deprimentes, nem os menos sucedidos colonos queriam arriscar uma fração de sua ração por algum momento de ‘prazer’ com aquela bruxa.

E Sofia, de deusa em ascensão, em pouco mais de cinco anos depois da primeira aparição de Zander, tornou-se um esqueleto ambulante, sobrevivendo de restos de comida e todos os seres não devidamente estudados que conseguia pegar em suas armadilhas.

Ela teve uma morte tão deprimente quanto sua aparência em seus últimos dias.  A garganta aberta dum lado ao outro, os sinais que apanhara até a morte na luta por uma lata de lixo.  

*

Os bebês já não mais tecnicamente podiam ser classificados assim.

O pequeno Ray Zimmerman, de 4 anos, estava bastante desenvolvido para a idade.  Mostrava uma impetuosidade, determinação e inteligência bem acima da média.  A mistura dos três itens fazia com que se destacasse em sua classe, atraindo a atenção por suas aptidões naturais.

Já sua gêmea, a mirrada Sofia, mantinha-se atarracada e silenciosa, também garantindo uma posição de destaque por conta do estranho medo que despertava em outras crianças, abrindo espaço para Ray ascender em seu competitivo grupo escolar.  Ela se contentava, desde o início, em ser uma sombra, sempre gravitando em torno do irmão, sempre cochichando coisas que ninguém conseguia ouvir.

E Ray obedecia-a irrestritamente.  Era a única pessoa que parecia fazê-lo se comportar com o devido respeito, inclusive sorrido pra ela, coisa que ninguém nunca o vira fazer com qualquer outro.

Mas sobreveio à catástrofe.

A nave que ia levar as crianças para uma excursão à Dédalus, ao planeta Toytoy, apresentou uma avaria em seu ciclo de massa antimatéria e teve de ser evacuada as pressas.

Todos se safaram a tempo, antes da explosão.  Ray, apesar de sua idade, comandara um grupo de meninos mais velhos e, graças à diligência deles, a desgraça não ceifara vidas humanas.

Todos se safaram, mas não todos realmente.  Faltava um dos alunos.

Faltava Sofia.

Quando a nave explodiu, não faltava mais nada.  Sofia desaparecera junto com ela.  

*

Depois de recolherem todos os escaleres, gravarem os testemunhos dos alunos, professores e tripulantes, imaginaram que o herdeiro do imenso império Zimmerman ficaria abalado com a perda da inseparável e agora única parente.  Já estavam até prontos para acionarem um batalhão de terapeutas comportamentais, prevendo um surto que não veio.

Roy se comportou com estoicismo invulgar.  Não negou a perda da irmã, apenas, enquanto os outros, mesmo perto dele, se lamentavam dizendo que fim levou Sofia..., dando um adeus simbólico aos destroços que não mais existiam, Roy só conseguia falar uma coisa:

Até logo.

Quando alguém resolvia interpelá-lo sobre o assunto, o menino apenas apontava por sobre o ombro, na direção na vigia panorâmica mais indicada, dedando algum ponto na velha constelação do Leão.  Era sempre a mesma constelação.

Ninguém mais ousou questionar que fim levou Sofia.

Ninguém mais quis saber porque o menino nunca verteu uma lágrima por sua única parente no universo.  Por um bom motivo: para ele, Sofia ainda estava viva...  

NOTA FINAL

Diário Estelar de Notícias:  

“Morre Gabriel B. Capadossos, aos 192 anos, numa pequena província ao sul das Apalaches, no planeta Terra.  

“Gabriel comandou, alguns anos atrás, o resgate da belonave Sofia, causando comoção na esfera humana sobre o que levou a nave ao sinistro.  

“Outra coisa notável sobre o falecimento dele estava na distribuição de seus órgãos.  Na verdade não na distribuição, porém na originalidade do conjunto.  Ficou demonstrado que, apesar de sua elevada idade, muito superior à expectativa de vida de nosso povo, não sofreu nenhuma intervenção ortomolecular, permanecendo com tecido jovem e divisão celular por méritos biológicos inalterados.  Em outras palavras: O corpo dele, por exigência do ramo, só foi modificado com a adaptação do plug craniano, sem nunca trocar algum de seus constituintes em toda existência.  

“Os médicos afirmaram não terem encontrado nenhum órgão lesado, ainda indecisos do que foi a causa mortis.  

“Mas para quem observou seu último sorriso, estampado em sua máscara funerária, não existe mistério algum: Gabriel morreu quando quis morrer...”  

 

 

 

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