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O sol ia a meio-caminho do zênite, quando o alvoroço começou:
um corre-corre de adultos e crianças em direção ao pequeno cais
enroscado nas pedras. Herrera, até então entretido com seu
canteiro, pôs-se bruscamente em pé, imaginando algum improvável
acidente.
- Olhe tio, barcos da rainha! gritou um rapazote que passava,
correndo para juntar-se aos demais.
"Barcos da rainha?" resmungou Herrera consigo mesmo,
"Quem será que está descontente conosco desta vez?"
Desceu calmamente a pequena escadaria de pedra que levava ao
cais, batendo as mãos uma na outra e na roupa para livrar-se da
poeira, afinal, estava prestes a ter uma audiência oficial. Os tres
barcos haviam sido vistos logo que contornaram o promontório do
lado direito da pequena baia, a uns duzentos metros. Embarcações
nativas eram vistas contantemente, passando para la e para cá só
que à distância. As únicas que tinham autorização para chegarem
alí eram as oficiais, e a intervalos mais ou menos regulares.
Portanto, uma visita inesperada de tres barcos com o estandarte de
Sua-Majestade era mesmo para gerar ansiedade.
- Será que é ela em pessoa? perguntou uma mulher de pele
morena a ninguem em particular.
- Não parece, respondeu um rapaz também moreno. – Os
barcos tem o sinal da rainha, mas estão sem escolta.
A observação era pertinente, pensou Herrera. Com certeza, a
rainha não estava naquela comitiva. E isto, só aumentava o mistério.
"Bem...", resignou-se Herrera, "em mais alguns
instantes saberemos com certeza".
Os trio de embarcações foi manobrando lentamente e
encostando no trapiche de maneira um tanto quanto inepta. Pareciam
estar carregando algo muito pesado. Tão logo os barcos
imobilizaram-se, vários nativos saltaram para terra e caminharam até
Herrera, abrindo caminho em meio a pequena multidão. Em momentos
como este, era algo desconfortável ser o líder da comunidade. Os
gestos que os nativos fizeram, disseram a Herrera algo que ele não
acreditou. A princípio pensou ter entendido errado. Comunicação
ainda era pratica difícil por ali.
Atendendo ao chamado, foi em direção aos barcos, mas foi
obrigado a parar, tamanho o espanto que se apossou dele e dos demais
pelo que viram: num movimento rápido e expontâneo um homem saiu da
primeira embarcação, no que foi seguido por outros quatro, saídos
das outras duas. Um grito, misto de surpresa e incredulidade subiu
de todos os humanos que se aglomeravam no pequeno espaço do cais,
seguido de um silêncio igualmente impressionante.
- Sou Eliodor Jansen, falou o homem saído do barco estendendo
a mão a Herrera. – segundo-capitão da Colombo, nave exploradora
do Serviço de Astrocartografia do Governo da Terra.
A costumeira loquacidade de Herrera se fora. Mal conseguia
crer no que via. Estava boquiaberto, paralisado, enquanto o oficial
continuava de mão estendida. Os outros companheiros do capitão
Jansen, numa atitude planejada, mas não menos elegante,
cumprimentavam a todos alegremente.
- Quem são vocês? falou Herrera aos solavancos, finalmente
voltando a si. – De onde vieram? Como ...
Um sorriso agradável surgiu no rosto do capitão.
- O senhor é...?
- Herrera.
Herrera Campins.
- Filho de Hector Campins?
- Sim eu sou. Mas... como sabe disto?
Ao responder, Jansen voltou-se para os demais, como a dizer
que a resposta era para todos.
- Sabemos tudo sobre vossos pais, ou quase tudo. A história
da Aventura tornou-se uma lenda na Terra. Nunca imaginei, um dia,
estar frente a frente com os descendentes de tão honrado grupo de
exploradores. Podem acreditar, é um momento especialíssimo para
todos nós.
Uma menina de uns quatro anos agarrou-se á calça de Herrera
e perguntou num tom de voz excitado:
- Papai, eles são de verdade? Eles são de verdade?
Um riso coletivo se fez ouvir e todos, intimimamente,
agradeceram a pequenina, pois foi isto que definitivamente dissipou
aquele ambiente de espanto: pouco a pouco os oficiais foram
recebendo a recíproca de sua gentileza e, em poucos minutos,
animadas conversas estavam em curso entre os recem-chegados e os
moradores.
- Mas me diga, o que significa tudo isso? Vocês realmente
vieram da Terra? A curiosidadde era nítida no rosto de Herrera.
- Sim senhor Campins. A Colombo partiu tão logo a missão foi
autorizada, há oito semanas.
A curiosidade tranformou-se em incredulidade.
- Oito semanas! Vocês gastaram apenas oito semanas da Terra
até aqui?
- Na realidade menos, pois realizamos uma escala técnica em
Vega para remanejar uma equipe de pesquisadores.
Era demais, mesmo para um homem dinâmico e arrojado tal como
Herrera se considerava. A expressão em seu rosto era
definitivamente infantil, como um menino que acaba de descobrir uma
nova maravilha da vida. Outros haviam se aproximado e participavam
do dialogo como ouvintes, pelo menos até aquele momento.
- Há quanto tempo vocês chegaram aqui? Já sabiam a nosso
respeito? perguntou o rapaz moreno.
- Estabelecemos órbita trinta dias terrestres atrás. Viemos
numa missão primariamente inventarial. Era sabido haver vida aqui
desde 2.132, quando uma sonda detectou sinais claros de vegetação.
Ninguem na época imaginou que pudesse se tratar de uma civilização
completa. Agora, quanto a vocês..., isto sim foi impensável.
Bruscamente foram interrompidos pelos nativos, que, com seus
ruídos caracteríticos reclamaram atenção. Eles eram pequenos e
roliços, com uma "pele" de tom verde-escuro. Trajavam
sempre uma espécie de túnica, tecida com um fio grosso, semelhante
ao cipó terrestre. As diferenças de cor definiam a classe social.
A comunicação só era possível mediante uma linguagem de sinais,
estabelecida ao longo de uma geração.
- Estamos com algum problema? Quis saber o capitão. Herrera não
deixou de perceber o "estamos".
- Eles geralmente são mau-humorados mesmo. Estão preocupados
com as consequências de nosso encontro. Temem algum tipo de operação
conjunta.
- Operação conjunta? Mas, por que esta idéia?
- O pequenino ali ( disse Herrera apontado para a criatura de
1 metro e pouco que, no momento, confenciava ruidosamente com seus
iguais ) – é um dos generais da rainha e sua função e
desconfiar de nós e nos impedir de entrar em contato com o outro clã.
- Outro clã? O que é isso?
Herrera não pode deixar de sentir uma certa satisfação: até
há alguns minutos estava em completa desvantagem, surpreendido que
fora por uma visita mais que inesperada. Mas agora, a ignorância de
Jansen acerca de uma realidade que ele, modéstia à parte,
conseguia controlar muito bem, o recolocara na sua posição de
honra. E fez questão usa-la.
- Bem capitão, esta é uma longa história. Lhe explico mais
tarde.
O mundo dos nativos era o terceiro satélite de um planeta
gigante gasoso, orbitando uma estrela classe G4. Sua civilização,
cujos registros históricos diziam ter aproximadamente quinze mil
anos terrestres, compunha-se de vários clãs, de tamanhos e niveis
semelhantes, e que viviam em constante atrito uns com os outros,
basicamente por motivos territoriais. Cada clã era iniciado por um
único casal fertil, que ao longo de sua vida gerava tres tipos de
indivíduos, de acordo com a fase de maturidade em que estivessem.
Na primeira maturidade, eram gerados os "construtores",
responsáveis pela manutençao física do território do clã;
depois, na segunda maturidade vinham os "protetores", que
cuidavam da administração e defesa, estando um nível acima dos
construtores; e por fim, na terceira maturidade, os
"filhos", geneticamente nivelados com o casal primário e
os únicos aptos a iniciar um novo clã ou suceder os fundadores.
Este processo sucessório raramente era tranquilo, havendo dispustas
ferozes entre os "filhos". Guerras dentro de um clã não
eram raras.
A sala era despojada mas muito agradavel, construída como
tudo o mais ali: restos da Aventura misturados à estranha madeira
local.
- Então vocês foram obrigados a descer aqui?
- Exatamente comandante. , respondeu a jovem Marieta Vergara,
pesquisadora auto-didata e autoridade máxima, na comunidade, sobre
a história da Aventura. - Um incêndio, que ninguem nunca soube
explicar a causa, destruiu toda a sala-de-máquinas. Foi um
verdadeiro milagre eles terem conseguido estabelecer orbita. A
evacuação foi feita em menos de quinze minutos ( Jansen não podia
deixar de notar o prazer daquela jovem em contar os minimos
detalhes. A vida dela tinha, repentinamente, ganhado um grande
sentido. Aquilo ao qual ela se dedicara com a paixão típica dos
adolescentes, encontrara uma finalidade prática ) - O módulo de
pouso estava a menos de 1 quilometro quando a Aventura explodiu.
- Hum-hum!, fez Adna Alonso, segunda-oficial de Ciências. -
Está explicada a grande quantidade de detritos metálicos em órbita.
Foi realmente muita sorte o módulo não ter sido atingido pelos
fragmentos.
- Mas houveram avarias sérias., retomou a jovem. – Tanto é
que no pouso perderam-se quatro de nós!
"Quatro de nós"!, pensou Jansen. A identificação
era marcante.
- Quatro pessoas da tripulação original morreram? É isso?
- Sim Capitão. Rafael de Castro e Mirtes Maria, ambos biólogos.
Também Ramon Leiria e Carlos Mendez, um engenheiro e o outro médico.
Estão enterrados do outro lado da ilha, onde temos um cemitério.
- Vocês foram socorridos pelos nativos? Como eles reagiram?
quis saber Harold Mills, médico e antropólogo, com o seu anacrônico
mas inseparável bloco de notas.
- Segundo meu pai..., disse Herrera, tomando a palavra não
com total anuência de Marieta, - eles cairam bem no meio de uma das
interminaveis guerras civis locais. A
chegada deles favoreceu um dos lados que acabou por vencer e
assumir o poder neste terrritório. Como "gratidão",
foi-lhes concedido ocupar esta ilha, onde estamos até hoje, como
vocês podem ver. Na realidade, somos prisioneiros do Clã e sob
constante risco de execução.
- Por que?
Marieta não resistiu.
- Por algo que conhecemos muito bem: medo e preconceito. Nossa
presença é ofensiva para os "protetores", que temem
nossa colaboração com os clãs dos territórios vizinhos. E por
sermos diferentes, somos uma fonte permanente de receio e medo do
estranho.
- Vocês não são objeto de pesquisa? Eles não tem nenhum
interesse científico nesta comunidade alienigena encravada bem no
meio do mundo deles?
O estilo de Mills era este mesmo: crú. Talves fosse próprio
dos antropólogos. De qualquer maneira, ele expressou a dúvida de vários.
- Não sabemos tudo sobre os nativos. Aliás, sabemos muito
pouco, considerando que estamos aqui já há uma geração. , expôs
Herrera. - Cientificamente, eles estão mais ou menos onde a
humanidade estava por volta dos séculos XV ou XVI , guardadas a
prorporções, é lógico. Apenas a classe dos
"protetores" e a dos "filhos" é que estão
aptas geneticamente para praticar ciência. Os "contrutores"
demonstram ter um baixo nível intelectual. E a prioridade por aqui
é manter o clã funcionando. Tudo o que eles planejam ou fazem é
exclusivamente visando o cotidiano. Não perecem ter grande
interesse em qualquer coisa mais abstrata.
- Entendo., arrematou Jansen, percebendo que poderiam estar
sendo indelicados e portanto mudando totalmente o 'andar da
carruagem'.
- Senhor Campins, o oficial Mills nem sempre é assim tão
direto ( risos discretos por parte de todos ), se bem que, esta é
uma característica muito útil na função dele. Ele também é médico
e tanto ele como eu, gostariamos que toda a comunidade passasse por
uma verificação médica. Alguma objeção?
- Nenhuma capitão. Infelizmente Carlos Mendez não teve tempo
de preparar ninguem para substitui-lo. Nestes últimos trinta anos o
vovô Diego e depois minha própria esposa Anita e que têem feito o
papel de "curandeiros da aldeia".
- Pois muito bem. Hoje vocês serão atendidos pelo
"homem-branco da cidade"
Tudo começou em fins da terceira década do século 21,
quando a tecnologia do hiperressonador foi finalmente dominada. Com
ela, quantidades inimagináveis de energia ficaram repentina e
facilmente disponíveis. E, como todo grande avanço, este gerou
todo tipo de mudança e reorganização sócio-econômica. Países
inteiros foram afetados: uns, que monopolizavam recursos energéticos,
repentinamente se viram obsoletos e empobrecidos; outros, que de tão
pobres viviam sem qualquer esperança real de desenvolvimento,
viram-se colocados diante de novas e inesperadas oportunidades.
Houve também, é claro, toda sorte de conlúio, pressão e
chantagem, envolvendo desde indivíduos, passando por grandes
corporações e chegando a governos soberanos. Até a sofrida raça
humana chegar a um novo ponto de equilíbrio, outros trinta anos se
passaram.
Por volta de 2.080, o hiperressonador havia sido adaptado com
sucesso ao vôo espacial. O que até então era um projeto caríssimo,
só suportável por países igualmente fortes, tornou-se acessível
a muitos outros grupos: indústrias, corporações, universidades, e
até seitas religiosas, todos se lançaram à exploração espacial,
sob o mais variados motivos e pretextos. Durante quase duas décadas,
este processo se desenrolou sem praticamente nenhum controle
oficial. A liberdade era total. Porém, quando uma alarmante
quantidade de destroços e corpos mumifidos pelo vácuo, começaram
a ser encontrados por todo o sistema solar, e até além, o recem
instituído Governo da Terra, houve por bem estabelecer regras para
a astronaútica. Seguiram-se anos de um refluxo no ímpeto
explorador do homem, com a vantagem de ter permitido uma ocupação
organizada do Sistema Solar e, após 2.127, dos sistemas próximos,
com o desenvolvimento do Hipersalto.
E foi por ocasião do "boom" dos anos 80 e 90, que
surgiu a Aventura, a primeira expedição exploratória planejada,
montada e executada por uma universidade. Sob a competente e carismática
liderança de Hector Campins, laureado físico e filósofo, à época
reitor da Unisula ( Universidade Sul-Americana, o maior campus do
hemisfério), um time de vinte e dois cientistas partiram em uma
viagem cujo objetivo era chegar o mais longe possível, "até
à exaustão, para termos um motivo para descansar" dizia o
lendário professor. A espaçonave Aventura deixou a órbita
terrestre em meados de 2.092, acelerando rumo a um ponto no céu
boreal, com sua tripulação em estado de semi-hibernação. O
computador de bordo identificou a nave para as escutas na Terra,
pela última vez, em janeiro de 2113, não havendo nenhum outro
contato depois disto. Desaparecia a espaçonave, nascia a lenda.
- Então? perguntou Jansen curioso quanto a resposta. – Como
eles estão medicamente?
- Depois do que eu ví..., começou o médico, torcendo os lábios
como se estivesse se preparando para dizer algo absurdo. – estou sériamente
inclinado a reavaliar minhas convicções acerca de Deus.
Jansen ficou ainda mais interessado.
- E por que razão? O que há de errado?
- Esta é a questão: deveria estar tudo errado, mas não está!
- Certo Harold: pare com esta enrolação e me diga de uma vez
o que está havendo.
- Não há como seres humanos viverem aqui. Pelo menos não
por muito tempo. Por uma geração inteira então é que não mesmo!
- Você se refere ao meio ambiente?
- É claro. Os mares são muito alcalinos, a vegetação é de
um tipo totalmente estranho de celulose, se é que podemos chamar
assim; o solo, pelos levantamentos que temos feito, é paupérrimo
em elementos organicos tal como os conhecemos. Isto sem falar no nível
de radiação ambiente que é alto, a ausência de um campo magnético
para brecar partículas de alta-energia e a duração do dia: como
este satélite tem a rotação presa, seu período dia-noite é
igual ao de rotação em torno do gigante gasoso, cerca de 8 dias.
Nenhum indivíduo nascido na Terra aguentaria isso muito tempo.
Jansen ficou a encarar seu oficial médico por alguns
instantes, assimilando e processando tudo o que ouvira. Na verdade,
ele também estava a pensar em algumas incongruências, percebidas
desde que contactaram os descendentes da Aventura.
- Mas eles mantêm um horta e eu ví um cercado para animais
do outro lado, falou Jansen sem muita convicção.
- Eu não acredito capitão, que uma horta comunitária e
algumas galinhas possam manter um grupo humano de quase cinquenta
pessoas por quarenta anos. Mesmo porque já é muito estranho que
qualquer coisa tenha vingado naqueles canteiros. Além do solo ser
pobre em nutrientes, nossos vegetais não estão adaptados para um
tal ambiente. Este planetinha é tão ruím para plantas quanto para
humanos.
A argumentação de Mills era simples mas indiscutível.
Realmente havia algo alí que carecia de um urgente esclarecimento.
- E o que me diz dos nossos anfitriões? Teve tempo de
analisa-los?
- Bem, tenho tentado seguir sua recomendação em ser
discreto, já que nossa missão acabou por se tornar um contato
diplomático. No entanto, tenho descoberto fatos interessantes.
- Por exemplo?
- Usando nossos critérios científicos, as "coisinhas
verdes" podem ser classificadas como pertencentes ao reino
vegetal mas com traços do reino animal.
- Vegetais? Estamos estabelecendo relações com uma civilização
de vegetais?
- Eles são, em grande medida, autotróficos: cada indivíduo
sintetiza parte de seu próprio alimento e, em comunidade, eles
conseguem alterar o meio ambiente o bastante para produzirem mais.
Minhas leituras mostram ainda que eles dependem da luz natural para
respirar com eficiência, algo como uma fotossíntese. Também não
possuem um centro nervoso, ou algo que possa ser comparado a um cérebro,
mas há neuro-nódulos espalhados por todo o corpo. E o mais
curioso: eles podem "se plantar" .
- Se plantar? Explique.
Mill virou-se a apontou em direção ao conjunto de casas
construídas pelos naúfragos da Aventura.
- Vê aquelas plantas espalhadas em redor? São indivíduos
adultos, só que plantados.
- Tem certeza disto?
- Absoluta!
- E tem alguma idéia do por que?
- Talvez Herrera e os seus saibam, já que convivem com essas
coisas diariamente. Uma coisa é certa: as plantas não estão
mortas.
A crueza característica do corpulento médico-antropólogo
fazia com que os fatos se tornassem ainda mais estranhos.
- Continue com o sensoreamento. E quanto a discrição, pode
deixa-la de lado.
Esta era a deixa pela qual Mills estivera esperando. Como
gratidão, deu uns tapinhas nas costas de seu superior : "-
Certo! Grande comandante!"
Jansen sabia que não tinham muito tempo e desejava,
sinceramente, ajudar aquela comunidade perdida num mundo que não
lhes era natural. Mas, ao mesmo tempo, seu treinamento lhe ensinara
a necessidade de conhecer, o mais profundamente possível, uma dada
circunstância antes de agir sobre ela.
Mas, a trinta quilometros dali, as circunstâncias estavam se
fechando e frustrando as tentativas de agir sobre ela.
O primeiro-capitão Aaron Khafir estava cansado e enjoado: o
cheiro acre e penetrante que emanava da câmara real estava se
tornando um impecilho até mesmo para seu raciocínio. Os
amostradores garantiram que tal emanação não era tóxica, no
entanto isto não tornava sua presença ali menos desconfortável.
E o lugar não era feio. Havia uma beleza exótica, diferente,
um certo padrão estético. A sala, quase circular, media uns quinze
metros de diâmetro. O trono ( ou seja lá como o chamem ) ficava no
centro, cercado por umas estruturas simétricas que subiam até o
teto, onde se fundiam com uma abóboda translúcida, feita de alguma
substância orgânica. Ao redor do trono haviam também dois grupos
de nativos: os serviçais, atentos às necessidades da soberana, e
os generais, fonte do cansaço que Khafir sentia.
A rainha, na verdade, era o casal primário. Por ocasião do
acasalamento, os corpos do macho e da fêmea se entrelaçavam e se
embutiam de tal forma que, para todos os efeitos práticos, podiam
ser tratados como um só indivíduo. Em uma dada geração o parte
masculina prevalecia, e então o clã tinha um rei. Em outra ( como
agora ), podia prevalecer a feminina, surgindo uma rainha. Com qual
dos dois o diálogo seria mais fácil, Khafir jamais saberia. O
certo era que, com a atual as coisas iam mal.
Jamais seria possível a um ser humano conversar diretamente
com um jadeano, exceto usando um código de gestos. A fonação
neles se dava por meio de um sulco tripartido, localizado no centro
de que poder-se-ia chamar de face. Cada um dos três lábios
formados pelo sulco, podiam vibrar só ou em conjunto com os outros,
formando uma infinita gama de assobios, chiados, roncos e sons que
mais pareciam ruídos intestinais. Durante as últimas duas semanas,
a equipe de contato trabalhara duro para estabelecer um vocabulário
mínimo, à partir do qual o tradutor poderia operar. E tinham feito
um bom serviço. Se a diplomacia falhasse, não seria por culpa
deles. No momento os generais, uns quatro ao todo, estavam
conversando agitadamente com a rainha, e Khafir não precisava do
tradutor para saber que estavam todos contra a presença dele e da
nave no planeta. "Estrela suja" foi o termo que o tradutor
usou para interpretar o sentimento que nutriam ante a visão da
Colombo cruzando o céu noturno de Jade ( nome ainda não
homologado, dado ao satélite devido à sua coloração esverdeada
). Quando a conferência familiar terminou, a rainha voltou sua atenção
para o comandante terrestre.
- Sua presença ... é inconveniente/incerta ... no
momento/agora. Somos/sou de opinião/decisão.... que devem/precisam
... partir ... e tirar/remover .... seu exército/equipe de ( ..?..
)/Jade ... imediatamente ... Remoção/retirada dos outros fora de
questão/conversação!
Khafir acompanhara a fala real pela tela do seu comunicador,
conectado que estava à maquina tradutora. Um sentimento de impotência
desceu sobre seu coração e teve que se reprimir para não
demonstrar sua enorme frustração. Ele acompanhara, também toda a
conversa dos generais ( mesmo sabendo ser uma indelicadeza ),
ficando confuso com certas expressões: "ganhar/comprar
tempo", "nosso projeto/plano quase
terminado/encerrado". Aparentemente a agenda dos nativos
continha algo que, a chegada da Colombo, prejudicara. O que poderia
ser?
- Capitão. , chamou Adna Alonso. – Poderia me acompanhar?
Quero que veja uma coisa.
Jansen educadamente se afastou do pequeno grupo de ilhéus,
com os quais confraternizara durante a última hora e seguiu sua
oficial de ciências. Subiram e depois desceram atravez de um
terreno ondulado, numa caminhada de cerca de quinze minutos. Após
contornarem um grande matacão, que obliterava parte do campo
visual, ela parou e apontou.
- É ali.
Jansen apoiou-se na maciça pedra, um tanto ofegante, apenas
por um momento. Tão logo seus olhos registraram a cena, a pura
curiosidade moveu novamente suas pernas.
Estava diante de uma plantação. Pelo menos parecia uma:
dezenas de espécimes, iguais aos que ficavam junto as casas da
ilha, colocados ordeiramente em filas, a intervalos regulares. Mas,
foi quando chegou mais perto, que teve o primeira experiência com o
terror em sua vida. Chegou a recuar vários passos, com uma sensação
gelada nas faces e com o coração a sair-lhe pela boca. Num esforço
supremo, extremo, parou e fechou seus olhos, respirando fundo e
fazendo sair de seus pulmões e de sua mente toda aquele sentimento.
Pouco a pouco, o terror foi cedendo lugar à vergonha. Teve que
buscar coragem muito longe antes de poder abrir o olhos novamente e
encarar Alonso. Que benção indizível estarem apenas eles dois
ali.
- Perdoe-me
oficial Alonso. Não estava preparado para isto. As
conversas das últimas horas me amoleceram.
- Não se preocupe capitão. Quando estive aqui pela primeira
vez eu vomitei, e precisei de vários minutos para me recuperar.
- Mas... afinal, que tipo de droga é esta?
Provando para si mesmo que era forte, Jansen olhou novamente
para a planta mais próxima. Havia achado que eram semelhantes as
que ficavam na aldeia, mas se enganara: o formato roliço e baixo
persistia, mas a pele não tinha mais o tom esverdeado, era
translucida, quase transparente. Por dentro, misturado a um complexo
de ligamentos, membranas, artérias e fluídos, havia mãos humanas,
pernas humanas, vísceras expostas e uma face, com uma expressão tão
sem vida que Jansen sentiu seu fascínio pela exploração cósmica,
esmaecer.
- Estive conversando com Harold. Desde que colocamos os pés
neste mundo, temos checado e cruzado nossos dados. Com o
levantamento médico que ele fez mais o que "cavei" neste
cemitério...
- Cémitério?! Interrompeu Jansen.
- Sim. Aqui é o cemitério da aldeia, onde está sepultada
toda a tripulação da Aventura e mais alguns da segunda geração.
- Você ia dizendo...
- Harold e eu tiramos algumas conclusões e formalizamos
algumas hipóteses. , arrematou a biofísica com uma convicção
profunda na voz. – Tudo nos faz crer que, de uma forma ainda
incompreensível, os jadeanos é que estão mantendo os descendentes
da Aventura vivos e relativamente saudáveis.
- Relativamente?
- Sim! Pelos padrões médicos da Terra, eles estão altamente
anemicos, subnutridos, com baixíssima imunidade e com indícios
infra-clinicos de estresse crônico. Nâo estão muito melhores dos
que jazem aqui.
- Mas estão ai. Construiram uma comunidade aparentemente bem
adaptada e ativa. , tentou Jansen.
Adna Alonso deu com os ombros.
- Contra fatos não há argumentos, dizem. Mas tanto eu como
Harold concordamos que nenhum deles deveria estar vivo.
- E onde este horror entra na história? disse Jansen
apontando para a planta próxima de si.
- Nossa hipótese é que, quando a tripulação foi sepultada,
os jadeanos, que são parcialmente vegetais, assimilaram atravez do
solo a biomorfologia dos corpos: estrutura genética, padrões metabólicos,
tipos de tecido e por ai em diante. Por favor não me pergunte como
isso é possível! Estamos apenas tentando organizar o caos. Mas é
evidente que eles mantem um forte elo comunicativo entre si, mesmo a
distância. Assim as informações vão sendo passadas de indivíduo
para indivíduo. Coletivamente, eles conseguem alterar a biosfera,
de maneira localizada e temporária.
Parece que esta ilha é um imenso laboratório.
- E com que propósito? Por que fariam isto?
- Lembra-se de nossa conversa na sala de Herrera, sobre o que
ele disse acerca do desinteresse dos nativos em ciência e pesquisa?
- Sim me lembro.
- Pois estou certa de que ele foi pesquisado a vida inteira e
nunca se deu pela coisa. Ele e todos os outros. Os nativos são tão
curiosos e interessados em descobertas quanto nós, apenas seus métodos
é que são muito diversos. As plantas junto as casas são sondas.
Tudo o que os humanos fazem é registrado de algum modo.
- Isto aqui então é uma pesquisa científica?
- Pelo menos parte dela. Dado o caráter militar desta
sociedade, eu não ficaria espantada se o objetivo final fosse o de
conquista.
Jansen entendera a colocação da cientista, mas ficou a
pensar se ela também percebia todas as implicações do que acabara
de dizer.
Tão logo Jansen recebera a ordem passou-a a todos os seus
comandados: retornar à base na cidadela real e deixar Jade. Tudo em
3 horas. Quanto aos oficiais nenhum problema, mas sentiu uma reação
diferente por parte dos ilhéus.
- Contamos com a compreensão de todos, falou o capitão sem
emoção na voz ao mesmo grupo que os recepcionara 1 dia antes. –
Temos que partir imediatamente, por ordem da soberana local. O
primeiro-capitão Aaron Khafir passou esta última semana na
cidadela, em conversações diplomáticas, cujo principal assunto
foi vocês. O governo da Terra tem todo interesse em que voltem para
o planeta-pátrio de vossos pais, mas infelizmente não depende só
de nós. Na verdade, não estávamos preparados para este encontro.
Foi uma grande surpresa quando a rainha nos revelou acerca de uma
comunidade de humanos aqui. No ntanto, estou autorizado pelo
comandante Khafir a garantir-lhes que dentro de alguns meses uma
nova expedição chegará e as negociações serão retomadas.
Desejamos paz e felicidade a todos.
Seguiram-se alguns minutos de emoções fortes. Jansen
aprendera a estimar e admirar Herrera, mesmo conhecendo a terrivel
verdade. Acaso tinha ele alguma culpa? Aquela circunstâcia anormal
o excluia da possibilidade de ser admirado? Certo que não. Alguém
que conseguira manter unida e funcional, uma pequena comunidade
perdida nos confins do espaço em um mundo insalubre, tinha algo de
especial dentro de si.
Os tres barcos iam voltando pelo mesmo caminho em que
chegaram. Acenos eram trocados com vontade e lágrimas por ambos os
lados. O pequeno cais estava cheio novamente tal como no dia
anterior. Mesmo Jansen não pode evitar um marejar nos olhos. Mas
aquele sentimento, um tanto contraditório, foi sufocado por um
especialista. Harold insistira em voltar no mesmo barco que ele, e
foi logo deixando claro o porque.
- Espero que o senhor não esteja triste pelo fato de os naúfragos
terem de ficar.
- Na sua opinião eu deveria estar alegre?
- Seria mais razoável, já que nenhum deles poderia viver
fora daqui.
- Explique-me porque.
- Vou fazer melhor, disse Mills sacando seu analisador portátil.
– Vou lhe mostrar.
Teclou alguns comandos no pequeno painel e a tela se iluminou,
mostrando uma série de imagens em movimento.
- Estes são os registros médicos que fiz na aldeia. Tive o
cuidado de escanear cada um deles, mesmo os que não me permitiram,
afinal o senhor mesmo me autorizou a deixar a discrição de lado...
- A discrição, não a educação.
- Será que isso vai me render uma corte marcial?
- Dificilmente. Prossiga.
- Veja as imagens. Há algo que possamos considerar anômalo?
- Você pode dizer melhor que qualquer outro, mas... ( Jansen
procurou se concentrar na avalanche de informações que corria pela
tela ) ... o escaneamento está mostrando que... o que?! Acúmulo de
nódulos exógenos ao longo da coluna vertebral!
- Exato. A prova de que precisávamos.
- Prova de que?
- De que nossos amigos só estão vivos unicamente porque os
jadeanos os mantêem vivos.
- E o que seriam estes nódulos?
- Na falta de um termo melhor "implantes". A
natureza exata deles eu não pude determinar. Mas são
biologicamente ativos e de alguma maneira integrados ao metabolismo
humano.
- Disse ainda há pouco que os descendentes da Aventura só
poderiam viver aqui. Os nódulos morreriam fora deste ambiente?
- Estou certo disto. É óbvio que tais corpos estranhos
deveriam estar provocando todo tipo de reação defensiva por parte
do organismo, mas não é o que acontece. De alguma maneira a
pesquisa jadeana descobriu uma maneira de bloquear tais reações.
Talves pela alimentação, talvez por alguma inoculação periódica,
ou mesmo....
Mills parou repentinamente, com uma expressão de dúvida no
rosto. Éra evidente que sua linha de raciocínio o levara a um
território desconhecido.
- Continue, solicitou Jansen.
- Há evidências de que a rainha exerce uma forte influência
'psíquica' sobre seus súditos, capacidade esta compartilhada pela
classe dos "filhos". Não sei se podemos chamar de
telepatia. Mas de qualquer maneira, é razoável imaginar que até
mesmo nossos semelhantes estejam sujeitos a tal influência. (
novamente a expressão de humilhação ante a dúvida ). Pode não
ser uma explicação plausível, mas é razoável.
Os barcos deslizavam a uma velocidade considerável sobre
aquelas estranhas águas amarelo-esverdeadas. O sol daquele dia
interminável estava agora a pino, iluminando tudo quase sem sombra.
Mas no coração de Eliodor Jansen, uma região escura se formara e,
ele temia isso, iria acompanha-lo pelo resto da vida. Apesar de não
saber naquele momento, o destino jamais o traria alí novamente.
Estava deixando para tras um capítulo inconcluso em sua própria
história. Todas aquelas vidas deixadas à própria sorte, as
circusntâncias tenebrosas em que viviam... Não haveria uma solução?
Repentinamente uma preciosa lenda, que havia enriquecido sua adolescência
com valores elevados, se transformara num conto de terror.
Infelizmente em seu ser, não haveria mais espaço para os Filhos da
Aventura.
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