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- Puta merda, quem será? - rosnou Alonso, indignado por
terem-no interrompido.
Era uma e trinta da tarde e ele ainda não havia aberto o bar.
Vestiu as calças rapidamente e fechou o cinto. Seu Alonso
Bodegueiro, como era chamado, era um homem de maus bofes. Conhecido
por seu jeito turrão, raramente era visto sorrindo ou tratando bem
a outras pessoas, inclusive os seus fregueses. Não se importava de
perder um deles, até porque bebum era o que não faltava por ali.
Uns chegavam de manhã cedo e só saiam, às vezes aos pontapés,
quando o Alonso fechava o bar para almoçar. Mesmo assim, voltavam
à tarde. O movimento era grande - ele vendia também queijos,
salames e algumas outras guloseimas e compotas. Tirando a farmácia
do seu Eugênio, ele tinha o maior negócio do lugarejo.
Mas não vivia só do boteco. Na verdade, esse não era o seu
maior negócio. O viajante, que lhe trazia o que vender, trazia também
indiazinhas aliciadas nas reservas próximas da região. Tratavam-se
de jovens vítimas dos próprios membros da tribo, que as estupravam
- normalmente com a conivência do cacique -, a maioria das vezes
por motivos de vingança. Essas jovens não arrumavam mais casamento
dentro da própria reserva e quase sempre o último recurso era a
prostituição. O viajante, que tinha acesso à reserva, as
convencia a tentar a vida noutro lugar. Mas uma ou outra passava
antes pela bodega do Alonso, que dava a ele uma boa gorjeta. Depois,
devolvia-as ao viajante, as encaminhava para prostíbulos
localizados em centros maiores.
O Alonso, no entanto, não se desfazia delas sem antes
aproveitar-se o quanto podia. Forte como era, subjugava-as com
facilidade. Na verdade, não opunham muita resistência, como que
conscientes que seu destino estava selado. Tinham ali comida e teto.
De qualquer forma, já se julgavam perdidas na vida. Não podiam
mais retornar às suas famílias.
Pois o Alonso, que não tinha hora para querer trepar, estava
justamente nestas lides, com a mestiça que por ora lhe servia,
quando bateram três vezes na porta de madeira do bar.
- Anda,
levanta, vai lá prá dentro! - disse ele, ofegante, à menina que
estava apoiada sobre a mesa, a saia erguida, as pernas bem abertas,
os pés sujos em chinelos de dedo. Levantou sem dizer palavra,
ajeitou a saia, cobrindo os joelhos avermelhados e dirigiu-se ao
interior da bodega, fechando atrás de si a porta que servia de
divisa entre as peças internas e o salão de atendimento.
O Alonso, zangado pela intromissão, os olhos injetados de
raiva, dirigiu-se até à porta.
- Quero matar o filha da puta! Não viu que a maldita porta
ainda está fechada?
Sem se importar muito com a aparência - quem ousaria reparar
nele? - puxou o zíper da calça e soltou desleixadamente a camisa.
Era alto, de presença imponente, aspecto viril. Um imenso bigode
preto lhe cobria os lábios. As grossas costeletas completavam-lhe a
imagem de homem rude, com quem era melhor não se meter.
A propósito, era famoso na cidade o caso em que, num dia de
chuva, tirara a bofetadas um rapaz, que, vindo do interior para
fazer compras, cometera o pecado de encostar a bicicleta de pneus
embarrados no lado de dentro do bar. Não que o Alonso se
importasse, mas era uma boa chance para mostrar aos bêbados do bar
quem mandava por ali, quem era o bom. De trás do balcão, olhou
para o rapazinho e disse:
- Tira essa tralha lá prá fora agora, senão te quebro a
pau! Não vê que essa joça tá emporcalhando o assoalho?
- Mas seu Alonso, é só um minutinho... - respondeu o jovem,
olhando sem jeito para o tiquinho de barro que escorria pelo pneu da
bicicleta.
Um retruque era tudo o que o Alonso queria. Num movimento rápido
e já planejado, contornou o balcão e rapidamente alcançou o
rapazinho que estava ainda junto a porta. Apanhou-o pelo braço e
desferiu-lhe dois bofetões, com mais força do que precisava. Ele
tentou se livrar do braço forte do homem, mas não conseguiu. Num
gesto raivoso, aumentado pela consciência da superioridade física
e do espetáculo que estava dando para a sua platéia, o Alonso
atirou o pobre porta a fora. O coitado tropeçou nos degraus de
madeira que davam acesso ao bar e estatelou-se numa poça d'água
enlameada. Em seguida, o brutamontes apanhou a bicicleta com as duas
mão e atirou-a em cima do jovem, tentando atingi-lo. Esse conseguiu
esquivar-se e, levantando-se rapidamente, apanhou a bicicleta e
correu em disparada.
O Alonso, para terminar, gritou alto o suficiente para que ele
- e todos os que estavam no interior do bar - pudessem ouvir:
- E não me responde de novo que da próxima vez tu pode não
sair vivo daqui!
Pois estava agora em tal estado de ânimo. Quem diabos ousava
bater àquelas horas, quando a porta do bar ainda estava fechada? E
logo agora que tava comendo a indiazinha? Ah, o infeliz ia pagar por
isso.
Quase bufando, abriu a porta principal do estabelecimento.
Esperava encontrar um daqueles bêbados desesperados que em plena
crise de abstinência fazem tudo por um gole de cachaça.
Enganou-se. Para sua surpresa, o que encontrou foi uma mulher,
sentada na escadinha de três degraus.
Uma cigana.
* * * * *
Durou um instante só a hesitação de Alonso. Num relance,
percebeu as características da mulher. Não era bonita. Um pouco
mais gorda do que provavelmente ela própria desejava, trajava um
vestido rodado, de babados, num amarelo sujo. Na cabeça, um lenço
enfeitado com lantejoulas e penduricalhos, prendia-lhe os cabelos. O
semblante cansado acusava o peso dos anos. Definitivamente, não era
alguém por quem Alonso fosse ter algum tipo de consideração.
Recuperado da surpresa, perguntou:
- O que você quer? Não vê que está fechado?
- Água... – pediu ela, num sussurro, a garganta seca
arranhando. Ao seu lado, no chão, cestos de palha e balaios que
vendia perambulando pela cidade.
Alonso pôde perceber alguns dentes de ouro enfiados numa boca
onde esses eram uma raridade. A boca entreaberta, sedenta, da
mulher, enfeiava-lhe ainda mais o conjunto.
- O quê? - perguntou Alonso, numa carranca. Não havia
entendido o que a cigana dissera.
- Um pouco d'água. Por favor...
A mulher olhava para ele. Ainda sentada na escada, parecia
cansada, fruto talvez de uma longa caminhada com aqueles balaios e
paradas para leituras de mão. A verdade é que a maioria da população
era avessa aos ciganos que volta e meia apareciam por ali, tinham
medo até. Histórias de criancinhas seqüestradas e levadas para
longe, pragas rogadas e os aspecto desleixado - às vezes sujo -
contribuíam para que a estadia destes nômades fosse bastante
desagradável.
- Água?! - bradou Alonso, ainda mais irritado pelo motivo fútil
da interrupção. Que fosse pedir água na puta que o pariu! A
vantagem física diante da fragilidade demonstrada pela cigana
multiplicaram as forças de Alonso, oriunda da raiva descabida que
lhe fazia o sangue subir à cabeça. - Saia daqui, velha, antes que
eu arranque os dentes que você ainda tem nesta boca fedorenta!
Fora! Fora!
A violência nas palavras assustaram a mulher. Estava sedenta,
suando. Levantou-se lentamente, equilibrando nas tamancas o peso que
agora ficava mais evidente. Tentou ainda mais uma vez, a despeito da
agressividade do homem:
- Só um pouco d'água...
Foi o suficiente para Alonso, homem de pavio curto. Quem
aquela mulher pensava que era para enfrentá-lo? Então ele já não
a tinha mandado ir embora? Desceu rapidamente os três degraus da
escada e, diante da mulher estupefata desferiu-lhe um tapa na cara
com muito mais força do que realmente queria. A cabeça dela virou
de um lado para outro, enquanto um grito de dor e susto saíam de
sua boca. Ao virar-se novamente, a mão cobrindo a face atingida,
Alonso percebeu que sua boca estava ensangüentada. Provavelmente,
mesmo sem querer, ele cumprira a promessa feita anteriormente:
quebrara-lhe um ou mais dentes.
Ele, bufando de raiva, contemplou com prazer aquela cena.
- Viu? Quem mandou meter comigo? Teve o que merecia, bruxa
velha! Agora vai, some daqui!
A mulher, ao contrário, ficou ali, estaqueada. Os olhos
esverdeados - agora Alonso percebia que seu olhos eram verdes –
fitavam-no com uma segurança inesperada. Passando as costas da mão
na boca ensangüentada, falou pausadamente:
- Gadjé...
Olhou para ela, surpreendido pela persistência da mulher.
- Eu te pedi um copo d'água, ganhei teu desprezo. Pois escuta
o que vou te falar, porque vais conviver com isto até o fim dos
teus dias.
Alonso ficou ali, parado, olhando aquela mulher. Apesar de
transtornado pela raiva, ouvia com atenção – sem saber por que
– o que dizia a cigana.
- Eu vou embora, como me pedes. Mas a sede que me queima o
bucho e o gosto de sangue que está na minha boca...
Alonso, subitamente, percebeu que não conseguia fitar-lhe os
olhos. Pareciam turvos, ocultos, revirados.
- ... , esse mesmo gosto e essa mesma sede tu vais sentir na
hora da tua morte!
Ela cuspiu uma bola de sangue. Abaixou-se, começando a juntar
seus cestos. Alonso ali, parado, meio aturdido, não disse palavra.
Passou-lhe pela cabeça a idéia de mandá-la ir novamente embora,
aos gritos. Como se ela adivinhasse seus pensamentos, olhou-o
novamente. Um olhar fixo, que não durou mais que dois segundos.
Para ele, o tempo ficou suspenso. Não conseguia decifrar o
olhar daquela mulher. Pela primeira vez na vida, Alonso sentiu o
coração aflito. E uma sensação que há muito não tinha
invadiu-lhe o corpo, como uma onda incontrolável: medo! Alonso
sentiu medo!
Ficou ali, parado, até que a mulher terminou de juntar seus
pertences e se virou, afastando-se pela rua poeirenta. Nenhuma vez
olhou para trás.
Alonso nunca mais a viu.
* * * * *
Era uma quente manhã de verão. A cidade, plena de poeira das
ruas, se movimentava preguiçosamente. Uns dois ou três pinguços já
tinha passado no bar do Alonso para "firmar o pulso".
Agora, o boteco estava vazio. Só ele lá dentro, matutando. Tinha
mandado a mestiça ir comprar alguma coisa no mercado. "Já tá
na hora de trocar essa fulaninha. Quando é que me volta aqui aquele
viajante?" - pensou ele. A cada dois meses, mais ou menos, ele
se reabastecia de mercadorias e negociava com o viajante uma nova
"empregadinha". A antiga, agora preterida, seguia viagem
na mesma carreta.
Estava debruçado sobre o balcão do bar quando ouviu o
barulho de rodas de carroça passando na rua. Achou que devia ver
quem era. Muitos dos colonos que vivam no interior vinham fazer suas
compras na cidade. Podia ser que fosse um ou outro que estivesse lhe
devendo. E se fosse, ele já parava a carroça ali mesmo e acertava
as contas com o infeliz.
Foi a passos largos até a porta do bar. Não era nenhum dos
seus fregueses da colônia. Era a caravana de ciganos que se ia
embora. Alonso, vendo aqueles carroções e os homens, mulheres e
crianças nelas sentados, pensou se estaria por ali aquela mulher
que há alguns dias batera a sua porta. Maluca! Onde já se viu
rogar-lhe uma praga? Sorte dela, tinha escapado com um tapa só.
Também, que importava, aquela cigana imunda?
A verdade é que, nos dias que se seguiram àquele encontro,
ele ficou meio incomodado com as palavras daquela mulher. "A
sede que me queima e o gosto de sangue que está em minha boca, essa
mesma sede e esse mesmo gosto tu vais sentir na hora da tua
morte!".
- Bobagem! - dizia ele, em voz alta como para convencer a si
mesmo.
Alonso desceu a escada e alcançou a calçada. Resolveu dar
uma caminhada em volta do bar. Segurou as mão atrás das costas e
andou a passo lento, o ar cheirando a poeira enchendo-lhe os pulmões.
Era impressionante ver aquele homenzarrão caminhando como se fosse
um cão de guarda. Lá longe, a uns 150 metros, divisou a mestiça
conversando com um jovem que ele não conhecia. Era homem de boa visão.
Certamente, não conhecia aquele rapaz, malvestido, pés descalços.
Um mendigo, provavelmente.
"- Então é prá ficar de tro-lo-ló que eu pago ela?
Vai se ver comigo quando chegar aqui". - pensou, no fundo já não
se importando muito.
Lá longe, a jovem - uns 16 anos, talvez? - percebeu que o
patrão a notara. Despediu-se rapidamente do seu interlocutor e
correu, com as encomendas nos braços, o avental de tecido leve
batendo-lhe nas pernas, a ansiedade prevendo que ia levar uns belos
tapas ou sofrer novamente os suplícios sexuais que o homem lhe
impunha. Pensou em passar rapidamente por ele e entrar no bar.
- Espera! - disse o Alonso. Ali, na calçada, cruzou os braços
e largou o peso do corpo sobre as pernas, um pouco afastadas uma da
outra. - Com quem tu tava falando?
- Meermão... - disse ela, baixando a vista.
Ele a olhou com desprezo. Já não tinha interesse nela. Não
sabendo se por pena ou fastio, decidiu que não valia a pena mais
uma exibição pública de sua força. Até porque tinha muito pouca
gente por perto.
- Irmão, é? Tu não tem é mais ninguém nesse mundo! Eu
acho é que tu já tá gostando do negócio e arrumando trepada por
aí. Entra! Vai preparar o almoço!
Sem esperar uma segunda ordem, ela entrou no bar e se refugiou
na cozinha. Largou as compras em cima do balcão e respirou fundo.
Tinha escapado de boa, ela sabia.
* * * * *
Às duas da tarde, o sol estava escaldante. O bar,
surpreendentemente vazio. Sempre tinha alguém àquelas horas por
ali. Aquele mormaço, a poeira e o tédio estavam deixando Alonso
enjoado.
- Cadê todo mundo? - resmungou ele.
Lá nos fundos, a mestiça lavava a louça que sobrara do almoço.
O Alonso nunca deixava ela comer com ele - que pretensão! Assim,
ele escolhia uma das mesas do bar, que fechava ao meio-dia - os
bebuns sumiam mesmo nesse horário, ele preferia ficar sozinho, almoçar
e eventualmente cavalgar a menina, sossegado -, enquanto ela comia lá
nos fundos, naquela minúscula cozinha, composta de um fogão, um
pequeno balcão, pia, uma mesa e um banquinho de madeira.
Alonso ficava desolado ao ver o bar vazio. Gostava mesmo era
da confusão. Puxou uma das cadeiras e sentou-se. Sentia-se meio
enjoado. Que merda! As vezes, uma dor fininha na barriga vinha e
voltava. Lembrou-se que na noite anterior tinha secado uma garrafa
da cachaça vagabunda que vendia ali. Mas cachaça dá dor de cabeça,
e não dor de barriga.
Pronto! Foi só lembrar na dor de cabeça que a sua fronte
começou a latejar. Não faltava mais nada. Era o fígado. Enjôo e
dor de cabeça, não tinha errada. Devia ter uns chás lá dentro
que resolveriam o problema.
Levantou-se, pretendendo ir até a cozinha. Uma ligeira
tontura tirou-lhe o equilíbrio, forçando-o a apoiar-se com ambas
as mãos na mesa. Percebeu que estava com as mão úmidas. Não
lembrava da última vez que isso tinha lhe acontecido. Era robusto e
resistente à bebida.
"- Isso não tá certo"- pensou.
Subitamente, alguma coisa embolou em seu estômago. A sensação
era como se uma pedra tivesse sido soltada lá dentro.
Instintivamente, levou as duas mas à barriga se acocorou, num
gemido. Sua testa começou a suar. Pensou em chamar a índia, mas não
conseguia reunir ar nos pulmões para gritar.
De onde estava, o estômago endurecido - esta era sensação -
olhou para a porta aberta do bar. Esperava que ninguém entrasse ali
e o vissse naquela situação constrangedora. Uma lufada de vento
trouxe uma onda de poeira para dentro do estabelecimento. O cheiro
do pó invadiu-lhe as narinas, intensificando náuseas. De fato, a
coisa se complicara. O que estava acontecendo? Pensou em gritar de
novo - por que a índia maldita não aparecia agora, quando
precisava dela? - e mais uma vez não conseguiu soltar a voz.
A dor crescia em intensidade. Novas vertigens, agora em ondas
mais intensas, estavam lhe impedindo de raciocinar. Estava perdendo
o controle da situação. Deixou o corpanzil desabar no chão, já não
podendo se manter agachado. Respaldou as costas na parede. O melhor
era esperar que passasse - não sabia há quanto tempo estava assim.
Sua cabeça estava dando voltas - de enjôo e de pânico - e ele não
tinha uma noção real do ambiente em que estava. As contrações no
estômago aumentaram. Achou que não suportaria. Encolheu-se,
puxando as pernas, e deitou-se no chão de tábuas. Suava agora
copiosamente. Aos poucos, uma sensação de febre subiu-lhe pela
espinha, num tremor.
Totalmente incapaz de lidar com a situação, estava
desistindo de raciocinar. Uma nova contração estomacal tirou-lhe lágrimas
dos olhos. Nem percebeu que estava chorando de dor. Com o rosto
colado no chão, suando por todos os poros, vislumbrou pela porta
aberta do bar o vulto de uma mulher que passava lá fora. Pensou em
pedir ajuda, mas mesmo com dificuldade percebeu que ela usava um
vestido de tons amarelos, com babados. Estremeceu, o coração já
descompassado pela dor e pelo medo, agora acelerou-se de maneira
quase incontrolável.
"- Cigana! Maldita cigana!"
Então era isso? Seria aquela maldição cigana que estava lhe
castigando? Tentou sorrir e desfazer-se da idéia, mas tudo o que
seus lábios conseguiram foi uma nova contração de dor, mais
intensa que as anteriores. Não pode controlar as náuseas e o vômito
veio em sucessivas ondas. Golfadas de sangue saíram-lhe da boca,
sujando o chão e quase fazendo-o se afogar.
Era culpa daquela cigana, não tinha dúvida. A sua profecia
se cumpria. Ele sentia o gosto do sangue que vomitava, como ela
dissera. Nesse momento, Alonso perdeu o medo. Não conseguia
controlar as convulsões estomacais, mas perdera o medo. E no fundo
de sua alma, sabia que não conseguiria escapar daquela maldição
cigana. Estava ali, no chão, se contorcendo em dores e espamos.
Logo ele, o Alonso, o homem mais temido do local, estava
impossibilidade de se mexer e de dar uma palavra.
A sensação de febre aumentava. Com quanto estaria? Quarenta
e um, quarenta e dois graus? Não sabia. Tentou se arrastar, um centímetros
que fosse, mas não conseguiu. Melhor era esperar passar a dor e
ficar ali quietinho. Fechou os olhos. Até a morte era agora uma idéia
aceitável. O vômito não aplacava a dor e a febre era altíssima.
Ficou assim, de olhos fechados e em desvairio por um tempo que não
pôde precisar.
Quando, por alguns instantes, recobrou a consciência, Alonso
percebeu o vulto da mestiça agachado diante de si, a observá-lo,
num misto de curiosidade e espanto. Ele sentiu novamente o gosto de
sangue na boca ressequida pela febre. Seu corpo todo parecia arder.
- Água... - sussurrou ele, tentando fixar o olhar na
indiazinha.
Mal terminou de pronunciar estas palavras, seus olhos se
arregalaram. Percebeu que a maldição da cigana se cumpria: tinha
implarado por água! O coração pareceu trancar na garganta.
A indizainha olhou para ele como se não tivesse entendido.
Deu um leve sorriso, levantou-se e saiu pela porta do bar.
Dois minutos depois, com os olhos esbugalhados e o corpo caído
naquela mistura de sangue e vômito, Alonso morreu.
* * * * *
Na manhã daquele mesmo dia, a índia Iná saíra para ir ao
mercado, a mando de Alonso, para comprar o necessário para o almoço.
Quando estava retornando das compras, encontrou no caminho o seu irmão,
que há algum tempo andava pela cidade a pedir esmolas. Levava para
a reserva o fruto do dia de trabalho, e aproveitava para ver a irmã,
cujo paradeiro descobrira há mais ou menos um mês.
Ela havia lhe contado sobre sua sina e os tormentos que
passava nas mãos do Alonso. Joaquim - este era o nome dele -,
compadecido da irmã, convencera-a que sua única chance de escapar
daquela vida era fugir com os ciganos que estavam na cidade por
aqueles dias. Ela argumentou que era difícil escapar do patrão e
que não conhecia aquela gente estranha.
- Conheço eles - disse o irmão. - Já falei sobre tu.
Disseram que se quiser, pode ir com eles.
E ela se deixou convencer. Só tinha uma coisa: como fugir do
Alonso no momento exato da partida dos ciganos? Se ela fugisse
antes, ele ia atrás. Aí ia ser pior.
Foi então que decidiram, irmão e irmã, que o Alonso ficava
melhor morto. Ela não teria remorsos em fazê-lo. Mas não poderia
ser num combate corporal - um punhal, uma faca, um revólver, estas
armas que ela não sabia manipular, o Alonso as tomaria dela
facilmente.
- Envenena ele, Iná. Tu ainda vai ver aquele bicho se
retorcendo no chão.
Foi assim que, naquele breve encontro no meio da manhã, o
Joaquim entregou a irmã as ervas de cultura indígena apropriadas
para o caso. Insípidas, seriam misturadas à comida e o desgraçado
só iria notar quando já não tivesse mais volta.
Ela pegou as ervas e colocou no bolso do avental. Percebeu,
mesmo a distância, que o Alonso a observava. Despediu-se do irmão
e correu em disparada em direção ao bar.
Queria entrar rápido, para evitar os olhos do patrão.
- Espera! - disse o Alonso. - Com quem tu tava falando?
- Meermão... - disse ela, baixando a vista. Não lhe ocorreu
nenhuma mentira naquela hora de apuro.
- Irmão, é? Tu não tem é mais ninguém nesse mundo! Eu
acho é que tu já tá gostando do negócio e arrumando trepada por
aí. Entra! Vai preparar o almoço!
Ela entrou no bar e se refugiou na cozinha. Largou as compras
em cima do balcão e respirou fundo. Sem o menor remorso, preparou a
comida, misturando nela as ervas venenosas encomendadas ao irmão.
Poucas horas depois, pôde comprovar o efeito do veneno. E não
teve maior alegria na vida que ver aquele brutamontes ali, no chão
de tábuas, implorando por um pouco d'água. Deu um sorriso de
satisfação. Ignorando o pedido do moribundo, deu meia volta e saiu
do bar.
Lá fora, no fim da rua, o último carroção dos ciganos a
esperava.
A presença daquela gente estranha era, realmente, uma benção.
Uma benção cigana.
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