Incidente na Fronteira

 Douglas Tavares de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0050]
[Autor:
Douglas Tavares de Araújo]
[Título:
Incidente na Fronteira]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 10.640]

 

"Capitã, estou recebendo uma mensagem de emergência na frequência sub-espacial."

Anne Wolf levantou-se de sua cadeira e atravessou a passos largos os poucos metros da ponte de comando que a separavam do jovem sargento que era seu oficial de comunicações. Ela sabia que era a primeira vez que aquele oficial estava em uma missão no espaço e, conseqüentemente, estava dispensando uma atenção especial a ele. Anne era metódica e tinha muita facilidade no trato com pessoas, e haviam sido estas características que tinham feito com que ela conseguisse o comando da nave de pesquisas Cruzeiro do Sul com apenas trinta e cinco anos, a mais jovem capitã da frota espacial da Confederação dos Planetas Humanos.

Mas nesse caso, não havia sido só a atenção pelo jovem sargento que havia feito com que ela se aproximasse do rapaz. Ela havia ficado também curiosa e apreensiva, pois a frequência sub-espacial era uma frequência reservada para comunicações de prioridade máxima. Até mesmo os trikonianos respeitavam isso.

O jovem sargento estava com os olhos fechados e apertava os fones de ouvido com as mãos, como se tentasse ouvir melhor. Anne reparou que pequenas gotículas de suor estavam brilhavam em sua testa. O rapaz estava obviamente nervoso, e era a própria imagem da concentração.

A Capitã não disse nada. Apenas ficou ali de pé ao lado do sargento, observando-o. Podia sentir os olhares dos outros oficiais da ponte de comando fixos em suas costas, esperando o que iria acontecer a seguir.

O sargento abriu os olhos, mas continuou pressionando os fones contra os ouvidos.

"É um pedido de socorro, Capitã. O sinal está fraco, mas é possível perceber que é uma mensagem padrão, emitida automaticamente por um computador. Pela força do sinal eu diria que a nave está quase sem energia."

"Qual é o teor da mensagem?

"Apenas o código padrão de nave em perigo e as coordenadas espaciais da nave. Nenhuma identificação nem nenhuma pista sobre o que possa ter acontecido."

"A nave é humana ou trikoniana?"

O rapaz levantou o rosto e encarou a Capitã diretamente nos olhos. Anne pôde ver naquele momento que ele já havia considerado esta possibilidade também, e estava assustado.

"Impossível dizer, senhora. A mensagem padrão de socorro que usamos é a mesma que os trikonianos usam. Isso ficou estabelecido no Tratado de 3154, para facilitar as comunicações. Sem nenhuma identificação da nave, é impossível determinar a diferença."

"Muito bem, Felipe." A Capitã deu um tapinha de apoio no ombro do jovem sargento a seu lado. "Bom trabalho. Transfira as coordenadas espaciais da nave para o computador. Se houver qualquer novidade, me avise."

O sargento sorriu fracamente, e voltou a concentrar-se no console à sua frente.

"Tenente Martinelli, compare as coordenadas recebidas com as coordenadas das demais naves da Confederação nesse setor. Vamos ver o que podemos descobrir." A Capitã voltou à sua cadeira e sentou-se.

"Sim, senhora." Respondeu o Oficial de Navegação, enquanto apertava alguns botões no console à sua frente. O Tenente Jean Martinelli era um oficial experiente, com vários anos de serviço na Confederação, e Anne sabia que podia confiar plenamente nele. Além disso, era um dos melhores oficiais de navegação que ela conhecia. Por isso, quando recebera o comando da Cruzeiro do Sul, havia insistido para que fosse transferido para ali.

Em instantes, uma imagem se formou no centro da ponte de comando, em uma área livre destinada para este fim, que era chamada pelos projetistas de "holocampo". Anne sabia que a imagem era projetada por inúmeras microcâmeras instaladas em pontos estratégicos da sala, e a reconheceu imediatamente como sendo uma representação tridimensional do setor da galáxia em que se encontravam naquele momento. Assim que a imagem se formou, Martinelli começou a falar:

"Esta é a representação holográfica do setor da galáxia onde nos encontramos, projetada em um raio de dez parsecs usando como centro as coordenadas fornecidas pela nave em perigo. Aquela estrela maior que pode ser vista à esquerda é Beta-3." Enquanto falava, Martinelli apertou um botão e um ponto vermelho apareceu bem no centro do holograma, piscando, próximo à estrela que ele havia citado. Um ponto azul apareceu na metade à direita do vermelho, ligeiramente abaixo do centro do holograma. "O ponto vermelho representa a nave. O azul representa nossa posição atual. Estamos agora aproximadamente 5,3 parsecs das coordenadas da nave em perigo. Quanto às demais naves da Confederação..."

Martinelli apertou outro botão, e cinco pontos alaranjados espalharam-se pela imagem, todos na metade inferior da mesma.

"Temos cinco naves da Confederação neste setor da galáxia, além da Cruzeiro do Sul. Todas estão distante das coordenadas fornecidas, de acordo com a última posição e rota conhecidas dessas naves. Eu diria com grande grau de certeza que a nave com problemas não pertence à Confederação. Especialmente se levarmos em consideração o que vou mostrar agora."

Um quadriculado verde apareceu no holograma, dividindo-o em duas partes, em um sentido diagonal. A nave em perigo, juntamente com a estrela Beta-3, estavam ao lado esquerdo do quadriculado. Todas as naves da Confederação estavam do lado direito.

Anne percebeu imediatamente do que se tratava.

"Esta é a fronteira do território trikoniano?"

"Exatamente, Capitã. A nave em perigo está 0,3 parsecs dentro do território trikoniano. Com certeza, nenhuma nave da Confederação teria entrado no território trikoniano sem emitir um aviso para as demais naves."

A Capitã permaneceu fitando a imagem à sua frente por mais um instante. Concordava com Martinelli. Desde que os atritos com os trikonianos haviam começado, todas as naves da Confederação tinham ordens expressas para comunicar de imediato quaisquer alterações de rota que precisassem fazer. Além disso, todas evitavam ao máximo se aproximar da fronteira. Se alguma das outras naves tivesse alterado sua rota para aquele ponto, com certeza eles saberiam.

"Pelo que estou vendo, nós somos a nave mais próxima daquelas coordenadas." Disse. "Correto, Tenente?"

"Sim, senhora. Podemos atingir aquelas coordenadas em cerca de vinte minutos, viajando em velocidade de hiper-espaço. A segunda nave mais próxima é a Galípoli-IV, que levaria cerca de três horas para chegar na mesma velocidade."

A Capitã recostou-se em sua cadeira, fechou os olhos por um instante e passou a mão na testa. Não lhe agradava a idéia de entrar no território trikoniano. Primeiro, porque a Cruzeiro do Sul era uma nave de pesquisa, e possuía apenas o arsenal básico de defesa: um escudo energético de baixa intensidade e meia dúzia de mísseis iônicos. E esse arsenal básico sem dúvida não era o que ela desejaria ter para entrar no território trikoniano com um mínimo de segurança. Se aparecesse alguma encrenca, esse armamento não seria suficiente para manter a nave a salvo.

Mas o que mais a preocupava era o que a Cruzeiro do Sul estava carregando naquele momento. O equipamento que constituía o motivo pelo qual estavam no espaço naquele instante.

Desde que o Tratado de 3154 havia sido firmado, dividindo a galáxia em duas metades e segregando as duas únicas raças inteligentes conhecidas - humanos e trikonianos – cada uma de um lado de um muro imaginário, uma espécie de paranóia se instalara entre as duas espécies. Uma temia a outra, e a sombra da invasão pairava sempre sobre ambas. Como resultado, a corrida armamentista começara. A indústria bélica passara a se desenvolver como nunca, e cada descoberta tecnológica era vista como uma possível vantagem competitiva do ponto de vista militar.

Contudo, a balança sempre se mantivera equilibrada. Há quem diga que os trikonianos sempre foram ligeiramente superiores do ponto de vista de sua frota militar, mas os humanos estavam logo atrás. Em nenhum momento, uma raça superou a outra de maneira sensível, de tal modo que realmente ameaçasse estabilidade entre as duas.

Até que os humanos descobriram o teleporte.

Anne não sabia os detalhes sobre a pesquisa, pois eram super-secretos, com acesso somente aos mais altos escalões militares. Mas o fato era que alguns cientistas, enquanto estavam pesquisando a iteração tachyon-neutrino tentando provar a teoria de Heiner da dobradura espaço-temporal, haviam descoberto acidentalmente a possibilidade de se transportar instantaneamente a matéria de um ponto a outro do espaço. Alguns anos se passaram até que um protótipo prático de teleporte pudesse ser desenvolvido. Ainda estavam em fase de testes, mas funcionavam maravilhosamente.

Disso ela tinha certeza, pois tinha visto um deles funcionar. A Cruzeiro do Sul tinha sido uma das três naves de pesquisa escolhidas para ter instalado um teleportador, e realizar testes no espaço durante um período de três meses. Já faziam dois meses e meio que estavam no espaço, e todos os testes haviam funcionado como o esperado. Anne não tinha dúvidas de que o equipamento funcionava.

Dizia-se entre os militares que esta era a primeira vez que os humanos realmente davam um salto tecnológico à frente dos trikonianos. Sabia-se também que eles estavam conduzindo pesquisas no sentido de desenvolver seu próprio equipamento, mas os rumores afirmavam que não estavam sendo bem sucedidos.

Por isso Anne hesitava se deveria atender ao pedido de socorro. Entrar no território trikoniano com pouco armamento era uma coisa. Mas entrar com pouco armamento e levando consigo a única vantagem tecnológica que os humanos possuíam no momento era outra bem diferente. E se a nave em apuros fosse uma cilada?

Mas poderia ser real, e ela não poderia suportar saber que poderia ter salvo aquela nave mas não fizera nada.

"Tenente Martinelli," disse ela, tomando uma decisão. "trace uma rota para as coordenadas daquela nave. Velocidade de hiper-espaço. Quero entrar e sair o mais rápido possível."

"Ah, Meu Deus..."

O sussurro quase inaudível veio da sua direita. Virando-se como um raio, Anne fitou o jovem sargento com olhos duros.

"Algum comentário sobre minhas ordens, Sargento Sanchez?"

O rapaz empertigou-se na cadeira, hesitando. Fitou os olhos da Capitã, que continuava a encará-lo severamente. Ela pôde ver pela expressão em sua face que ele estava com medo. Ele sustentou seu olhar por um momento e então baixou os olhos. A Capitã teve certeza de que ele iria se calar. No entanto, para sua surpresa, ele disse:

"É meu dever lembrá-la, Capitã, que o Tratado de 3154 proíbe que uma nave humana atravesse a fronteira trikoniana sem autorização daquela raça."

"Na minha opinião um pedido de socorro de uma nave trikoniana é autorização suficiente, Sargento. Além disso, o Tratado também diz que as duas raças deverão se ajudar mutuamente em caso de necessidade."

"Sim, mas eu não acho..."

A Capitã interrompeu-o com firmeza:

"Deixe-me lembrá-lo, Sargento Sanchez, que eu sou a Capitã desta nave e, portanto, a decisão é minha. Não estamos em uma democracia aqui. Esta é uma nave militar."

O rapaz ficou em silêncio por um segundo. Então respondeu, a raiva podendo ser sentida nas breves palavras que pronunciou:

"Sim, senhora."

A Capitã então desviou o olhar. Advertiu a si mesma, dizendo de si para si que tinha sido muito severa e lembrando-se que o rapaz era inexperiente. Era natural que se sentisse temeroso com a situação. Ela própria também se senta assim. No entanto, não podia deixar que questionassem sua autoridade.

"O curso já está traçado, capitã. O tempo estimado de chegada é de dezenove minutos e trinta e seis segundos, viajando a velocidade de hiper-espaço. Estamos autorizados a prosseguir."

"Sim, Tenente. Autorizado. Sargento Sanchez, transmita uma mensagem às demais naves da Confederação com nossa rota e velocidade atuais. Informe a eles nossas intenções. Quero ter certeza de que a Confederação sabe aonde estamos indo e porquê."

"Sim, senhora." Respondeu, lacônico, o jovem oficial.

A Capitã recostou novamente a cabeça e fechou os olhos, enquanto sentia a nave acelerar até a velocidade de hiper-espaço. Mas não prestava atenção a este detalhe. Sua mente estava totalmente ocupada com os trikonianos.

Embora já tivesse pensado nisso diversas vezes, Anne nunca conseguira entender como os humanos e os trikonianos haviam conseguido chegar na situação em que se encontravam. Ela lera sobre a época em que os primeiros contatos aconteceram, cerca de um século antes, logo após os humanos terem desenvolvido os motores de propulsão positrônica, que permitiram viajar à velocidade de hiper-espaço. Na época, a descoberta de uma outra raça inteligente havia maravilhado os cientistas de ambas as raças, e as promessas de crescimento conjunto haviam florescido de ambos os lados.

Porém, pouco a pouco, as coisas começaram a se desestabilizar, e era justamente isso o que Anne não conseguia entender. Trikon é o quinto planeta de uma estrela ligeiramente maior que o nosso sol, e pode-se dizer que é um planeta gêmeo da Terra. Suas condições de gravidade, clima e densidade são praticamente idênticas às do nosso planeta-mãe. Sendo assim, a vida também se desenvolveu de maneira semelhante, de modo que os trikonianos eram extremamente semelhantes aos humanos no aspecto físico. Mas mesmo assim, as desavenças cresceram.

Mas talvez o motivo fosse exatamente esta semelhança. Os trikonianos possuíam o mesmo espírito expansionista que os humanos. Não demorou que alguns conflitos se iniciassem, em planetas em que a posse de uma ou de outra raça era duvidosa. Tudo isso acabara culminando com a segregação total das duas raças, estabelecida através do Tratado de 3154.

Pela enésima vez, Anne refletiu o quanto a intolerância do governo teocrático dos trikonianos teria contribuído para essa situação. Mas sabia também que toda a culpa não podia ser atribuída somente a eles. Com certeza os humanos também não haviam sido de todo inocentes.

A Capitã foi tirada das suas reflexões pela voz do Tenente Martinelli:

"Capitã, estamos agora atravessando a fronteira do território trikoniano."

"Muito bem. Sargento Sanchez, soe o alerta amarelo nível 1."

Imediatamente, um alarme começou a soar por toda a nave, indicando que o alerta havia sido acionado. Anne ficou mais tranqüila. Desse modo, toda a tripulação estaria de prontidão caso algo inesperado acontecesse.

"Visual, por favor."

No instante seguinte, a parede frontal da ponte de comando se transformou, exibindo a imagem que era captada pelas câmeras no costado exterior da Cruzeiro do Sul. Anne ficava deslumbrada cada vez que esse equipamento era acionado. A sensação era como se toda a parede frontal da ponte não existisse, e estivessem vendo exatamente o que estava à frente. Ela imaginava que isso era o mais próximo que se podia chegar de voar livremente pelo espaço.

Na imagem que se formou, várias estrelas distantes podiam ser vistas. Contudo, uma chamava a atenção, pois aparecia no canto inferior direito da tela muito maior que as outras, devido à proximidade. Pelo que haviam discutido antes, Anne imaginou que aquela deveria ser Beta-3. Na distância em que se encontravam, ela aparentava o tamanho de uma bola de tênis, mas crescia visivelmente à medida que se aproximavam à velocidade de hiper-espaço.

"Já é possível ter o visual da nave em perigo?"

"Ainda não, capitã." Respondeu Martinelli. "Estamos fora do alcance dos sensores."

"Alguma mudança nas comunicações, Sargento Sanchez?"

O rapaz demorou a responder. Quando falou, sua voz saiu esganiçada, tremida:

"Não, senhora. Continuo recebendo a mensagem padrão de socorro, ainda fraca. Não obtive resposta para nenhuma das mensagens que enviei, nem para a nave nem para a Confederação."

Anne olhou de soslaio para o jovem sargento. Ele parecia nervoso, e sua testa brilhava com o suor. Ela ficou um pouco preocupada, mas agora não tinha tempo para cuidar disso. Precisa se concentrar na missão. Queria sair dali o quanto antes.

"Capitã, estou captando algumas anomalias energéticas em Beta-3."

"O que isso quer dizer, McGregor?" Anne voltou sua total atenção para seu oficial de ciências, que permanecera calado até o momento. Ele era um homem carrancudo mal humorado, mas extremamente competente. Se ele tinha algo a dizer, Anne sabia que deveria prestar atenção.

"Pelo que posso deduzir dos dados que estou coletando agora, parece que Beta-3 está passando por um ciclo bastante forte de manchas solares e explosões de superfície." Fez uma pausa, como se estivesse pensando, e então continuou. "Isso está projetando uma carga de radiação gama bastante elevada a partir de sua superfície, que está bombardeando toda esta região."

"Existe perigo imediato?"

O homem franziu a testa, parecendo ponderar por um momento sobre como responder a esta questão.

"No momento, não. Os índices ainda estão bem abaixo dos níveis que poderiam ser considerados perigosos. No entanto, se a atividade da estrela aumentar, poderá ser necessário ativar o escudo energético para nos protegermos da radiação."

"Está bem. Se não há perigo imediato, não vamos nos preocupar com isto agora. Um problema de cada vez. Mantenha a monitoração dos níveis de radiação, e me informe se houver qualquer alteração."

"Sim, senhora."

A capitã voltou novamente sua atenção para a imagem projetada à sua frente. Beta-3 agora já estava do tamanho de uma bola de futebol.

"Já podemos ter um visual da nave em perigo, Capitã." Anunciou o Tenente Martinelli.

"Muito bem. Ponha no visual."

Imediatamente, a imagem na parede frontal da ponte de comando mudou. Beta-3 não estava mais visível. Agora, bem no centro da tela, era possível enxergar um pequeno objeto metálico, de formato ovalado. Ainda não era possível discernir nenhum detalhe da nave.

"Tenente McGregor, quero um rastreamento completo dessa nave. Vamos ver o que podemos descobrir."

McGregor ficou ainda mas carrancudo, se é que isso era possível, tenso de concentração. Suas mãos se moviam rapidamente sobre o console à sua frente. Depois de alguns segundos, ele disse:

"A nave é sem dúvida trikoniana. O computador a identificou como uma nave de transporte da classe G-V. Essa classe é destinada basicamente ao transporte de passageiros e cargas por curtas distâncias. Sua autonomia é pequena, pois seu motor de propulsão de neutrinos não é projetado para viagens de longa duração. Não possui armamentos, somente um escudo energético de baixa intensidade. Sua capacidade máxima é de quinze passageiros. A varredura energética que estou fazendo não está indicando nenhum tipo de atividade na nave. Aparentemente, todos os sistemas estão desligados, incluindo o escudo. A leitura infravermelha indica que existem três pessoas no interior da nave. Ainda não possível ter detalhes devido à distância, mas parecem ser dois adultos e uma criança. Todos estão localizados na parte frontal da nave, no que o computador indica ser a cabine de comando. Estão totalmente imóveis."

"Mortos?"

"Impossível dizer ainda, mas meu palpite é que não. O espectro de temperatura de seus corpos está normal. Na minha opinião, estão apenas desacordados, mas ainda vivos."

"Alguma idéia de onde eles podem ter vindo?"

"Era justamente nisso que eu estava pensando, Capitã. Não existe nenhum planeta colonizado pelos trikonianos nas redondezas. O mais próximos fica no sistema Gama, a doze horas de viagem daqui, em linha reta e a velocidade de hiper-espaço, o que aquela nave não consegue atingir. Se tiverem vindo de lá, esses nossos amigos devem estar viajando a mais de 30 horas."

Anne ficou calada por um instante, absorvendo estas informações. De certo modo, ela havia ficado mais tranqüila, pois a hipótese de uma cilada estava praticamente descartada. Por outro lado, a situação era muito estranha. O que dois adultos e uma criança estariam fazendo no meio do nada, com uma nave de baixa autonomia?

"Qual a sua opinião, Tenente?" Anne sempre gostava de ouvir as opiniões de seus oficiais, especialmente dos mais experientes, como McGregor.

"Eu acho que eles devem ter viajado até esgotar toda a energia que tinham. Isso explicaria por que a nave não apresenta nenhuma leitura energética, e explicaria também por que o pedido de socorro está tão fraco. Eles devem ter acionado o pedido automaticamente, com a energia de emergência, como um último recurso. Se levarmos tudo isso em consideração, eu diria que são fugitivos."

"Eu concordo com McGregor, Capitã." Falou o Tenente Martinelli. "Se tentarmos reproduzir a rota seguida por esta nave, traçando uma linha reta da base mais próxima dos trikonianos no sistema Gama até este ponto, podemos perceber claramente que a nave estava se dirigindo à fronteira, aparentemente com o intuito de entrar no território humano. A energia deve ter acabado antes que pudessem chegar até lá."

Anne ponderou sobre estas informações por alguns instantes. Ela já ouvira falar de trikonianos que haviam "desertado" e buscado abrigo no território humano. Dizia-se até que o governo da Confederação mantinha uma base em um de seus planeta somente para abrigar estes desgarrados. Dizia-se também que muitos deles haviam fugido devido ao opressivo sistema do governo teocrático dos trikonianos. Alguns simplesmente não podiam aceitar que seu monarca fosse considerado um deus, nem podiam agüentar o desprezo que suas mulheres e filhas sofriam nessa sociedade. Então, simplesmente fugiam.

É claro que esse tipo de coisa era extremamente interessante para o governo da Confederação, especialmente quando os "desertores" eram pessoas com determinadas posições na sociedade trikoniana, tais como engenheiros e projetistas. Dizia-se que muitos dos avanços feitos pelos humanos na corrida armamentista eram devidos a informações recebidas desses renegados sobre os sistemas de guerra trikonianos.

Por outro lado, Anne podia imaginar que o governo trikoniano não devia tolerar esse tipo de coisa. Como um monarca que se diz deus poderia explicar a seu povo que deixou alguns cidadãos simplesmente "mudarem de lado"? Não, impossível. Isso enfraqueceria o governo e poderia levar a situações muito perigosas internamente.

Anne ficou imaginando as três pessoas naquela pequena nave de transporte seriam realmente fugitivos. E se fossem, quem seriam eles?

"Tenente Martinelli, coloque a Cruzeiro do Sul em uma posição estacionária em relação à nave de transporte, dentro de uma distância segura para realizarmos o resgate."

"Sim, senhora."

Quase imediatamente, Anne pôde sentir a nave desacelerando para sair da velocidade de hiper-espaço. A imagem da pequena nave agora já estava totalmente visível no centro da tela, todos os detalhes à mostra. Anne ficou imaginando o que poderia ter levado aquelas pessoas a arriscar sua própria vida tentando fugir.

"Estamos em posição estacionária a quinhentos e cinqüenta quilômetros da nave, capitã."

"Muito bem. Tenente McGregor, coordene o envio da equipe de resgate. Quero sair daqui o quanto antes."

"Sim, senhora."

McGregor se levantou e começou a se dirigir à saída da ponte. Foi então que o Sargente Sanchez falou:

"Capitã, estou captando uma nave se aproximando." Ficou em silêncio um segundo. Depois, baixou a cabeça entre as mãos, e disse em um suspiro: "Meu Deus, estamos perdidos..."

Anne já estava ficando irritada com a atitude do sargento. Começava a achar que havia feito uma péssima escolha para seu oficial de comunicações. Não esperava este tipo de comportamento dele.

"O que foi, Sargento?"

O jovem oficial levantou o rosto das mãos. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

"É um destróier trikoniano, capitã. O computador reconheceu a leitura dos motores. Estamos mortos. Assim que nos virem aqui, vão nos destroçar."

"Sargento, recomponha-se. Não preciso deste tipo de comentários aqui. McGregor, volte aqui. Não vou enviar a nave de resgate lá fora sem antes saber a intenção deste destróier. Martinelli, acione o alerta amarelo nível um."

"Sim, senhora." Responderam os dois em uníssono. O alarme indicando o alerta amarelo começou a soar por toda a nave.

"Sargento, envie a mensagem de saudação padrão para o destróier trikoniano."

Nenhuma resposta. O sargento estava olhando o console à sua frente, como se estivesse perdido em pensamentos. Sua testa brilhava com suor, e ele passava as mãos continuamente pelos cabelos, que estavam totalmente desalinhados.

"Sargento! Está me ouvindo?"

O jovem pareceu sair de um transe. Olhou em volta, de um rosto para o outro. Seu olhar estava cheio de medo. Mas, no momento seguinte, ele pareceu se controlar.

"Sim, senhora. Mensagem padrão de saudação sendo enviada."

"Tenente Martinelli, deixe o escudo energético em estado de prontidão, mas não o ative ainda. Isso poderia ser encarado pelo destróier como um ato hostil, e eu não quero me arriscar. Mas tenha certeza de que poderemos acioná-lo de imediato, se necessário."

"Sim, senhora. Escudo preparado."

"Alguma resposta à nossa mensagem, Sargento?"

Novamente o mesmo olhar perdido.

"Sargento?"

"Não, senhora." O rapaz respondeu sem nem ao menos levantar os olhos.
"Nenhuma resposta."

"Continue insistindo. Tenente McGregor, alguma coisa na varredura?"

"É um destróier da Classe K, senhora. Um dos mais modernos, equipado com mísseis iônicos, canhões de laser e motor de propulsão tachyon-protônico. A varredura térmica indica uma tripulação de quinhentos e três trikonianos. Estão com os sistemas de armas ativados e os escudo energético levantado."

Essas eram boas e más notícias, pensou Anne. A má notícia era que as armas ativadas indicavam que eles estavam prontos para lutar. A boa notícia era que o escudo levantado indicava que não pretendiam atirar de imediato. Era impossível utilizar as armas com o escudo levantado.

"O destróier estabeleceu uma posição estacionária a mil e trezentos metros da nave transportadora, capitã." Anunciou Martinelli.

"Vamos aguardar para ver o que acontece. Sargento, continue enviando as mensagens de saudação."

"Capitã." Era a voz grave de McGregor. "Os sensores indicam que as atividades energéticas em Beta-3 estão aumentando. Os níveis de radiação gama que estão atingindo a nave estão crescendo consideravelmente. Ainda não existe necessidade de nos protegermos com o escudo energético, mas se a atividade da estrela continuar crescendo, logo teremos que tomar esta medida."

"Está bem, McGregor. Deve ser por isso que o destróier está com o escudo levantado." Ela disse, tentando deixar a equipe mais tranqüila. Mas nem mesmo ela estava acreditando nisso. "Continue monitorando."

Anne passou a mãos pelos cabelos curtos, tentando imaginar o que deveria fazer a seguir. Não queria tomar nenhuma atitude que pudesse levar o destróier a encará-la como hostil. Por outro lado, não poderia ficar esperando ali para sempre. Se os níveis de radiação continuassem a subir, ela teria que levantar o escudo para proteger a si e a sua tripulação. Além disso, a nave lá fora estava sem energia e não teria como acionar o escudo para se proteger. Era necessário fazer o resgate o quanto antes.

Mas o que poderia fazer? As três naves estavam imóveis umas em relação às outras, e o destróier não respondia à sua mensagem de saudação...

Foi então que a voz assustada do Sargento Sanchez preencheu o silêncio da ponte de comando:

"O destróier trikoniano está enviando uma mensagem visual, capitã."

"Na tela." Disse Anne, aliviada. Eles haviam feito o primeiro movimento, afinal.

De imediato, a imagem na parede frontal da ponte de comando mudou, mostrando o que poderia ser facilmente identificado como o interior de uma ponte de comando de uma nave espacial. No centro da tela, podia-se ver o que Anne imaginou que fosse a poltrona do capitão. Curiosamente, ela observou que a disposição dos objetos, bem como a poltrona em si, eram muito semelhantes à da sua própria nave. Contudo, o que realmente chamou sua atenção foi o trikoniano que ocupava a poltrona.

É claro que Anne já havia visto diversos trikonianos em sua vida, embora nunca tivesse se dirigido pessoalmente a nenhum deles. Por isso, ela percebeu de imediato que o trikoniano que ocupava o posto de capitão naquele destróier era diferente dos demais. Mais alto, forte, com uma cabeleira loira que caía até os ombros. Seus olhos azuis impunham respeito. Ela avaliou que ele deveria ter aproximadamente sua idade, e imaginou que ele deveria ser muito bom no que fazia, para ter o comando de um destróier Classe K com aquela idade.

Tudo isso passou por sua mente em uma fração de segundo. E, nessa fração de segundo, Anne sentiu medo.

A voz do trikoniano ecoou na ponte da Cruzeiro do Sul, a voz de um homem que estava acostumado a mandar. Quando ele falou, dirigiu-se diretamente a Anne:

"Eu exijo falar com o Capitão desta nave. Agora!"

"Está falando com ele."

A expressão do trikoniano mudou, e ele pareceu confuso por um instante. Então, a confusão transformou-se em raiva:

"Uma fêmea? Eu não tenho tempo para brincadeiras. Exijo falar com seu Capitão agora, ou serei obrigado a tomar providências mais drásticas!"

Anne sentiu o sangue subindo a seu rosto. Ela sabia, de seus estudos sobre a raça trikoniana, que naquela sociedade a mulher era desprezada e considerada um ser inferior. Mas até aquele momento ela nunca soubera o que aquilo queria realmente dizer.

"Pois eu sou a Capitã desta nave!" Ela gritou de volta. "E exijo respeito, ou eu serei obrigada a tomar providências drásticas!"

Os olhos de todos na ponte de comando voltaram-se para ela, e Anne arrependeu-se imediatamente do que havia dito. Sabia que estava em uma situação de inferioridade, e que não tinha condições de enfrentar o destróier de frente. Mas agora era tarde. Não tinha como voltar atrás no que dissera.

Estranhamente, contudo, sua explosão de raiva parecia ter causado uma boa impressão no capitão trikoniano. Ele sorriu, e disse:

"Muito bem, então. Vejo que, apesar de ser uma fêmea, você possui algumas qualidades. No momento, vou aceitar conversar com você." Fez uma pausa. Sua expressão ficou dura novamente. "Vocês estão violando o território trikoniano, definido de acordo com o Tratado de 3154. Exijo que saiam imediatamente."

"Estamos aqui em missão de resgate. Recebemos um pedido de socorro daquela nave de transporte, e viemos ajudar, conforme exige o Tratado."

"Não são bem vindos aqui. Retirem-se."

"Gostaríamos de oferecer nossa ajuda e cooperação no resgate dos passageiros da nave de transporte."

"Não precisamos de sua ajuda." O trikoniano sorriu novamente, desta vez uma expressão de desprezo claramente reconhecível em sua face. "Ajuda de humanos! Que piada!"

Anne sentiu novamente o sangue subir ao seu rosto. Desta vez, porém, controlou-se. O trikoniano continuou:

"Retirem-se imediatamente. A situação está sob controle. Vocês não são bem vindos aqui. Se insistirem, seremos obrigados a destruí-los."

O sinal foi cortado de repente, e a imagem se desfez.

O silêncio na ponte de comando era completo. Anne olhou em volta, encarando um a um de seus oficiais, lendo as expressões em seus rostos. McGregor estava com o rosto vermelho, os punhos cerrados. Martinelli olhava fixo para a tela apagada, o olhar faiscando de raiva. Sanchez estava lívido, o olhar parado, o rosto branco. Sua boca estava entreaberta, e o rosto suado. Suas mãos tremiam ligeiramente sobre o console.

Anne se sentiu naquele momento humilhada como nunca havia sido em sua vida. Sempre ouvira falar que os trikonianos eram arrogantes e prepotentes, que isso era um traço cultural devido à sua sociedade teocrática e machista. Mas nunca entendera, até aquele momento, o real significado disso. Naquele instante, sua raiva explodiu em uma única palavra:

"Droga!" E deu um pequeno murro no braço da poltrona.

"O que vamos fazer, capitã?" Era Martinelli, um tom de preocupação em sua voz. Anne olhou para ele novamente, e percebeu o medo nos olhos que a fitavam. Mas percebeu, além do medo, outra coisa: confiança em seu comando. E decidiu, naquele momento, que não iria desapontá-lo.

"Eu não sei, Tenente. Eu não sei."

Um segundo se passou sem que nada acontecesse. Então a voz de McGregor ecoou pela ponte de comando, a mensagem que ela trazia atingindo a todos como se fosse uma bomba:

"Capitã, o destróier acaba de baixar o escudo energético! O nível de energia deles... Torpedo iônico lançado!"

Naquele momento, algo dentro de Anne pareceu se quebrar. Ela quase que pôde ouvir o estalo, embora isso fosse somente em sua mente. Naquele momento, todos os anos de treinamento e aprendizagem assumiram o comando. Subitamente, as ordens começaram a sair de sua boca, sem que ela nem ao menos pensasse:

"Erguer escudo energético em carga total! Alerta vermelho! Ativar sistema de armas!"

Seus oficiais responderam aos seus comandos freneticamente, homens treinados como eram.

"O míssel não está se dirigindo para nós." Disse Martinelli. "Ele foi disparado contra a nave de transporte, e o tempo para o impacto é de seis segundos."

Essa informação a atingiu como se fosse um soco no estômago. Em uma fração de

segundo, ela percebeu que havia alguma coisa muito errada naquilo tudo. Por que um destróier trikoniano de última geração estaria sendo enviado para destruir uma nave com três fugitivos?

Anne hesitou, sem saber o que fazer por um instante. Mas isso não durou. Ela precisava descobrir o que estava acontecendo, e só havia uma maneira de fazer isso, por mais arriscada que fosse.

"Martinelli, rota de interceptação. Vamos usar a Cruzeiro do Sul como escudo para proteger a nave. Agora!"

O tenente não a decepcionou. Em menos de um segundo, Anne sentiu a aceleração súbita da Cruzeiro do Sul quando ela se deslocou para proteger a outra nave.

"Segurem-se todos!" Ela avisou.

A Cruzeiro do Sul recebeu em cheio o impacto do míssel iônico, e foi violentamente sacudida. Anne segurou-se com tanta força aos braços de sua poltrona que as juntas de seus dedos ficaram brancas. Ela pôde ouvir o som de vozes gritando ao longe, assustadas. Então, tudo ficou quieto novamente.

"Relatório de avarias, Tenente McGregor."

"Todos os sistemas funcionando perfeitamente, Capitã." Respondeu o homem, sua voz agora não mais tão tranqüila como antes. "O escudo agüentou bem o impacto."

"Tenente Martinelli, mantenha a Cruzeiro do Sul em uma posição estacionária entre a nave de transporte e o destróier."

"Sim, senhora."

"Estamos recebendo outra mensagem do destróier trikoniano, Capitã." Anunciou o Sargento Sanchez.

"Visual."

A imagem do capitão trikoniano se formou novamente à sua frente, e Anne percebeu de imediato que ele estava realmente furioso. Seu rosto estava vermelho, seu corpo estava inclinado para frente na cadeira, e seus olhos pareciam querer saltar das órbitas. Quando falou, suas palavras estavam cheias de ódio:

"Sua fêmea idiota! Eu não vou admitir que interfira na minha missão!"

Desta vez, porém, Anne estava preparada e não se deixou abalar.

"Que missão? Destruir uma nave indefesa? Eu é que não vou admitir isso!"

O trikoniano a olhou como se quisesse matá-la com as próprias mãos. Então disse, como se falasse mais para si mesmo do que para ela:

"O que eu poderia esperar de uma fêmea? Ainda mais uma fêmea humana? Eu não deveria nem estar perdendo meu tempo falando com você. Mas, em consideração ao Tratado, estou lhe dando a chance de salvar a si e a seus tripulantes. Você tem sessenta segundos para sair de sua posição atual. Se após esse prazo você ainda estiver onde está, sua nave será destruída juntamente com os traidores."

A imagem desapareceu.

Anne olhou mais uma vez para seus oficiais. McGregor e Martinelli pareciam abalados, mas estavam agüentando firme. Ambos olhavam para a frente, para o local onde a imagem do trikoniano estava apenas um segundo antes, e pareciam perdidos em pensamentos. Sanchez, porém, olhava para ela. Anne o encarou por um instante, mas desta vez ele não baixou o olhar. Havia um brilho estranho em seus olhos, e ela subitamente compreendeu que ele estava pensando que ela havia enlouquecido.

E naquele breve instante ela se questionou se ele não estaria certo.

Levantando-se de sua cadeira por um instante, ela avaliou novamente a situação, tentando achar uma saída. Até o momento ela agira seguindo seus instintos, pois eles lhe diziam que havia alguma coisa muito errada acontecendo ali. E isso parecia ter se confirmado nas palavras do capitão trikoniano. Ele falara em uma missão, e falara também em traidores. Por que os trikonianos enviariam um destróier para destruir três fugitivos em uma nave de transporte indefesa? Alguma coisa não estava se encaixando.

Mas, por outro lado, ela sabia que não tinha condições de enfrentar o destróier com a Cruzeiro do Sul. Não tinha armamentos para tanto, principalmente considerando que não podia se mover se quisesse proteger a nave de transporte. Seu escudo havia resistido bem ao primeiro míssel, mas Anne sabia que ele não havia sido projetado para agüentar disparos diretos e repetitivos. Ela sabia que, se eles começassem a atirar repetidamente, o escudo iria acabar cedendo.

E com certeza o Capitão trikoniano sabia disso também.

O tempo estava passando, e ela precisava tomar uma decisão. Na verdade, não tinha muita escolha: era uma questão de simples matemática. Ficar e lutar seria arriscar a vida de seus cento e cinco tripulantes em uma batalha que já era praticamente perdida. Se saísse agora, apenas três trikonianos morreriam.

Ela sabia qual era a decisão mais lógica, e sabia qual era seu dever como capitã: proteger a integridade de seus tripulantes a todo custo. Mas, mesmo assim, não queria abandonar aquela nave.

"Dez segundos já se passaram, Capitã." Anunciou Martinelli.

A Capitã Anne Wolf abriu a boca para ordenar a retirada, mesmo a contragosto. Porém, antes que pudesse falar, a voz do Sargento Sanchez se fez ouvir:

"Capitã, estou recebendo uma mensagem pela freqüência sub-espacial. É uma gravação em código do governo da Confederação, prioridade máxima."

"Na tela, Sargento."

A imagem que se formou à frente de Anne desta vez mostrou um homem alto e moreno, sentado atrás de uma grande escrivaninha. Atrás dele, uma bandeira da Confederação estava visível. O homem estava vestido com uniforme militar, e ela pôde ver pelas insígnias que se tratava de um general. O rosto lhe era familiar, mas não o reconheceu de imediato.

"Meu nome é General Miguel Silva. Sou o encarregado do Setor de Contra-espionagem da Confederação dos Planetas Humanos, e está mensagem se destina à Capitã Anne Wolf, da nave de pesquisa Cruzeiro do Sul." Fez uma pausa. "Recebemos sua mensagem, indicando que a Cruzeiro do Sul se dirigiu ao território trikoniano para atender a um pedido de socorro na região de Beta-3. Bem, em face dos recentes acontecimentos, resolvi colocá-la a par de algumas informações, de modo que você e sua tripulação possam compreender melhor as instruções que vou lhes dar."

Agora que o homem dissera seu nome, Anne se lembrou. Aquele era um dos mais temidos generais da Confederação. Diziam que nada acontecia sem que ele soubesse, e que dirigia o setor de Contra-espionagem com mão de ferro.

"Já há algum tempo que o Setor de Contra-espionagem tem procurado desenvolver contatos entre os trikonianos. Algumas vezes temos conseguido simpatizantes, trikonianos insatisfeitos com o governo teocrático e injusto a que estão submetidos. Estes trikonianos têm nos fornecido informações importantes sobre o desenvolvimento de sua tecnologia, em troca da garantia de abrigo no território humano. Esse tipo de informação tem permitido que os humanos permaneçam em pé de igualdade em relação ao desenvolvimento bélico daquela raça."

"Recentemente, porém, conseguimos recrutar um trikoniano diferente dos demais. Ele pertence a um alto posto no escalão militar, o equivalente ao que seria um general para nós. Vamos chamá-lo de general X por enquanto. Ele estava muito insatisfeito com o governo, e passou a nos fornecer informações a uma base regular. Não preciso dizer que essas informações são de vital importância. No entanto, há cerca de três semanas, o general X desapareceu. Não mandou as informações no horário combinado, e não entrou mais em contato. Nenhum de nossos outros contatos soube dizer o que havia acontecido, embora alguns houvessem afirmado que alguma coisa séria estava acontecendo nos altos escalões. É claro que imaginamos que ele havia sido descoberto e morto."

O General fez outra pausa, como se pensasse como deveria prosseguir. Então, continuou:

"Uma semana atrás, no entanto, recebemos um fragmento de uma mensagem. Era do general X, e ele falava em uma fuga para o território humano. Dizia que havia conseguido informações importantes sobre um plano de ataque dos trikonianos ao nosso território, e que por isso fora obrigado a desaparecer de imediato. Contudo, como a mensagem chegara truncada, não conseguimos captar quando e onde a fuga iria acontecer. Temos estado em alerta, esperando qualquer sinal, mas nada apareceu. Até agora."

Inclinando-se para frente por sobre a escrivaninha, o general pareceu olhar diretamente nos olhos de Anne quando disse:

"Por isso, Capitã, temos razões para acreditar que o pedido de socorro que a Cruzeiro do Sul captou veio do general X. Como expliquei, este trikoniano está de posse de informações vitais para a segurança da Confederação. Se pudermos saber sobre o plano de invasão que os trikonianos estão preparando, poderemos salvar milhares, talvez milhões de vidas. É de suma importância que o general X chegue até nós são e salvo."

O General fez mais uma pausa. Endireitando-se na cadeira, prosseguiu:

"Já temos diversas naves da Confederação se dirigindo para a sua posição neste instante. A mais próxima é a Galípoli-IV, que deverá chegar em cerca de uma hora. Mas, enquanto isso, cabe à Cruzeiro do Sul manter a posição. Suas ordens são claras: vocês devem resgatar e trazer ao território humano quem quer que esteja naquela nave. Mesmo que para isso seja necessário utilizar artilharia. Defendam aquela nave com suas próprias vidas. Boa sorte."

A imagem se apagou. O silêncio na ponte de comando era total, a tensão era quase palpável.

Agora estava tudo explicado. Por isso os trikonianos haviam enviado um destróier. Eles não podiam deixar que o general X entregasse aquelas informações para os humanos.

Anne ponderou sobre o que fazer. Eles precisavam defender a nave, mas como? Tudo o que poderiam fazer no momento era manter sua posição e torcer para que os escudos agüentassem até que a Galípoli-IV chegasse. Mas isso era muito pouco. Seu escudo nunca agüentaria a artilharia pesada do destróier durante uma hora inteira.

"Quarenta segundos já se passaram, Capitã." Anunciou Martinelli.

Foi então que a voz aguda do Sargento Sanchez se fez ouvir. Ele levantou de sua cadeira, gritando e balançando os braços. Estava histérico.

"Vocês estão todos loucos? Aquilo é um destróier lá fora! Ele vai nos fazer em pedaços!"

"Já chega, Sargento!"

"Vamos cair fora daqui! Quem liga se três trikonianos morrerem? Quem se importa?"

"JÁ CHEGA, SARGENTO!"

A voz de Anne havia sido tão forte e cheia de comando que o Sargento olhou para ela, assustado.

"Não vou tolerar mais seus ataques histéricos! Volte ao seu posto AGORA!"

O Sargento continuou de pé, encarando Anne de frente. Ela sustentou o olhar, firme como nunca. Sabia que iria precisar tomar uma decisão séria sobre o Sargento Sanchez, mas não agora. Mais tarde, quando estivesse bem longe dali, poderia pensar no que fazer sobre isso.

Sanchez, vagarosamente, voltou novamente ao seu lugar, balançando a cabeça como se estivesse inconformado.

"Cinqüenta segundos, Capitã."

"Senhores, estejam preparados. Estamos entrando em uma batalha. McGregor, escudos no máximo. Vamos manter nossa posição até a chegada da Galípoli-IV."

"Sim, senhora."

Os próximos segundos se passaram em silêncio absoluto. Finalmente, Martinelli anunciou:

"Sessenta segundos, Capitã."

Imediatamente, McGregor falou:

"O destróier baixou o escudo. Míssel iônico disparado. Levantaram o escudo novamente."

"Míssil vindo em nossa direção. Seis segundos para o impacto."

Todos ficaram em silêncio novamente, esperando. Anne percebeu quando Martinelli apertou com força os braços de sua cadeira.

Então veio o impacto, que desta vez pareceu mais forte do que antes. Mas durou apenas um segundo, e tudo voltou ao normal.

"Situação do escudo, Tenente."

"Normal e a plena carga, Capitã." Foi a resposta de McGregor. "O escudo parece estar agüentando bem. Mas o destróier acaba de lançar outro míssil."

Anne sentiu uma ponta de esperança. Talvez eles fossem conseguir agüentar até a chegada da Galípoli-IV, afinal.

"Tenho outra má notícia, Capitã." Continuou McGregor. "A atividade em Beta-3 aumentou. Os níveis de radiação agora estão acima dos limites seguros."

"E o que isso quer dizer em termos práticos?"

"Quer dizer que qualquer coisa viva que ficar exposta a esta radiação por mais de cinco minutos sem um escudo protetor não sobreviverá. Ou seja, só temos cinco minutos para trazer aqueles três trikonianos para a Cruzeiro do Sul, ou eles estarão mortos de qualquer maneira, com destróier ou não."

Anne fechou os olhos no exato momento em que o terceiro míssil atingia a Cruzeiro do Sul. Desta vez, o som foi como se algo estivesse se rompendo dentro da nave. Ela levantou a cabeça, assustada, olhando para McGregor com um olhar inquisidor.

"O escudo está começando a fraquejar, Capitã. Ele não foi projetado para agüentar estes ataques frontais. Estamos agora com somente 90% da potência total."

Anne levantou-se e disse, em tom firme:

"Muito bem, senhores. A situação é a seguinte: se sairmos de nossa posição, a nave que temos ordens de defender será destruída. Se nos mantermos aqui, não poderemos agüentar muito mais tempo, sob pena de sermos destruídos também. Se não trouxermos aqueles três para a Cruzeiro do Sul em menos de cinco minutos, os três estarão mortos da mesma maneira. Alguma sugestão?"

"Outro míssil foi lançado, capitã."

"Alguma sugestão?" Repetiu Anne, ignorando a última afirmação.

"Vamos revidar o fogo." Sugeriu Martinelli. "Também temos mísseis iônicos."

"Isso não iria adiantar." Replicou McGregor. "O escudo do destróier é muito mais forte que o nosso, e eles o estão levantando após cada tiro. Eles não iriam nem sentir o impacto."

"Nós precisamos é ir embora daqui. É nossa única chance!" Disse o Sargento Sanchez, com uma voz chorosa.

McGregor e Martinelli o olharam com um olhar reprovador. O quarto míssil atingiu a nave, fazendo com que Anne quase caísse, se segurando no console no último instante.

"Escudo em 80% da carga. Quatro minutos e trinta segundos para a nave de transporte atingir a dose fatal de radiação." Anunciou McGregor, como se fosse um arauto da destruição.

"Sanchez está certo." Admitiu a Capitã. "Nossa única chance é sair daqui, mas para isso precisamos trazer aqueles três para a Cruzeiro do Sul. E no momento não podemos enviar uma nave de resgate, pois não podemos ficar com o escudo abaixado o tempo suficiente para que ela seja lançada. Os mísseis só levam seis segundos para nos atingir."

"Vamos usar o teleporte." Sugeriu Martinelli.

"Impossível." Respondeu McGregor. "O teleportador somente tem capacidade para transportar uma pessoa por vez, o que quer dizer que teríamos que usá-lo três vezes. Além disso, o teleporte não pode ser usado com o escudo levantado."

"Mas o tempo para o teleporte é infinitesimal." Retrucou Martinelli. "Poderíamos abaixar o escudo, fazer o teleporte e levantá-lo novamente em seguida. Poderíamos sincronizar os três teleportes, para fazer com que acontecessem entre os disparos dos mísseis."

Outro impacto se fez sentir, desta vez mais violento. Desta vez, McGregor não disse para quanto a blindagem havia baixado, mas Anne sabia que o escudo não iria agüentar muito mais.

"Poderia funcionar, se o escudo e o teleporte tivessem fontes de energia diferentes, mas ambos se alimentam do mesmo reator. Como o consumo de energia é enorme para cada teleporte, levaria cerca de quinze segundos para que pudéssemos recarregar a energia e levantar novamente o escudo. Até lá, já estaríamos mortos."

O silêncio caiu sobre a sala novamente.

"Outro míssil foi disparado. Nossos escudos estão em cinqüenta por cento. Faltam apenas três minutos para a nave atingir a dose fatal de radiação."

"Não adianta ficarmos todos aqui e morrermos, Capitã." Argumentou o Sargento Sanchez. "Vamos sair enquanto podemos."

Anne olhou para o sargento, e pôde ver que ele estava desesperado. Anne não o culpava. Ela também já estava chegando ao seu limite.

Outro míssil atingiu a nave. Desta vez, impacto foi muito mais forte que os anteriores. Anne ouviu vários gritos e ruído de coisas caindo e quebrando. Se ao menos pudesse fazer com que os trikonianos parassem de atirar para que ela pudesse usar o teleporte...

Foi então que ela teve uma idéia. Era arriscado, mas poderia funcionar. Se não funcionasse estariam todos mortos, mas era a única chance que ela via no momento.

"Tenente McGregor, prepare-se para abaixar o escudo e desviar a energia para o teleporte ao meu comando. Tenho uma idéia."

McGregor olhou para sua capitã com um olhar desconfiado de quem não estava entendendo. Com um aceno de cabeça, disse:

"Sim, senhora."

"Não! Vocês todos estão loucos!"

Anne se virou e, para sua surpresa, percebeu que o Sargento Sanchez estava com uma pistola laser em sua mão direita, apontando diretamente para ela. De onde ele havia tirado aquela pistola?

"Ela quer matar todos nós! Vocês não percebem isso?" Ele gritava para os outros oficiais. "Eu não vou morrer por causa de três trikonianos! Não vou!"

"Sargento Sanchez, acalme-se." Falou Anne, com a voz mais tranqüila que pôde arranjar nas circunstâncias. "Abaixe essa arma. Ninguém aqui vai morrer."

"Fique quieta! Eu não vou cair nessa. Martinelli, nos tire daqui."

Martinelli não moveu um músculo.

Sanchez aproximou-se dele e encostou a pistola em sua têmpora.

"Agora!"

Anne observou quando as mãos de Martinelli, que estavam apoiadas nos braços de sua cadeira, se fecharam com força, enquanto seus músculos se retezavam. Naquele momento, ela antecipou o que seu oficial iria fazer, e rezou para que ele conseguisse.

Então um novo míssil trikoniano os atingiu com toda a força. A nave sacudiu como nunca havia feito, tanto que Anne chegou a temer que ela se quebrasse ao meio. No mesmo instante, Martinelli se atirou sobre Sanchez, aproveitando o desequilíbrio momentâneo do jovem. Com um golpe bem colocado, Martinelli pôs o Sargento a nocaute. Em seguida, deu um grito de dor enquanto balançava sua mão direita no ar.

McGregor anunciou, sem se abalar por um instante sequer:

"Esse último míssil abaixou nosso escudo para somente 30% de carga. Falta apenas três minutos e trinta segundos para a dose fatal de radiação. Se tem alguma idéia, Capitã, sugiro que utilize agora."

Anne acenou com a cabeça, e acrescentou.

"Assim que o destróier abaixar o escudo para atirar novamente, abaixe também o nosso e ative o teleporte. Vamos trazer o capitão trikoniano para a nossa nave. Trave as coordenadas do teleporte nele, e transporte-o para um quarto isolado. Avise a segurança para vigiá-lo."

McGregor levantou uma sobrancelha, admirado, mas não disse nada. Ao invés disso, começou a mexer em vários controles. Sabia que não tinha muito tempo antes do próximo disparo dos trikonianos.

"Tenente Martinelli, bom trabalho." Falou Anne. "Por favor, acumule as funções de comunicação até isto terminar, sim?"

"Sim, senhora." Ele estava terminando de prender o Sargento Sanchez a uma coluna utilizando o próprio cinto do rapaz.

"O destróier abaixou o escudo. Ativando teleporte." Anunciou McGregor, e em seguida acrescentou: "O Capitão trikoniano já está na Cruzeiro do Sul, senhora. Mas o destróier disparou um míssel iônico. Seis segundos para o impacto. Estamos sem escudo. Quinze segundos para restabelecer a carga." Anne percebeu que sua voz estava tensa, carregada de medo.

"Martinelli, mensagem urgente para o destróier trikoniano: 'Estamos com seu capitão a bordo de nossa nave. Destruam o míssil, ou ele irá morrer junto conosco.'"

"Mensagem enviada."

Anne deixou-se cair em sua cadeira, exausta. Era sua última cartada. Se isso falhasse, estavam mortos. Estava apostando no conceito de hierarquia altamente desenvolvido que existia na sociedade trikoniana. Estava apostando que os trikonianos não iriam matar seu superior.

"Quatro segundos para o impacto. Três... Dois..."

Então toda a Cruzeiro do Sul foi sacudida quando o míssel foi destruído em sua trajetória. Como estavam sem escudos, esta explosão foi muito mais intensa do que as anteriores. Anne foi literalmente atirada longe de sua cadeira, caindo no chão brilhante da ponte de comando. Antes mesmo de se levantar do chão, gritou:

"Relatório de danos!"

"Sistemas de navegação, armas e suporte de vida totalmente operacionais. Sofremos uma pequena avaria no casco externo da nave, mas nada grave." Respondeu McGregor. "Ainda faltam sete segundos para termos energia nos escudos. Três minutos e quinze segundos para a nave lá fora atingir a dose fatal de radiação."

"Assim que a energia for restabelecida, não levante os escudos. Ao invés disso, comece o teleporte dos três trikonianos da nave de transporte. Transporte-os diretamente para a ala médica."

"Vamos precisar de no mínimo quarenta e cinco segundos para completar os três ciclos de teleporte e recarga, Capitã."

"Eu vou ganhar algum tempo para nós. Agora tenho um trunfo nas mãos. Continue com o trabalho."

"Sim, senhora."

"Martinelli, estabeleça uma comunicação visual com o destróier trikoniano, por favor."

"Sim, senhora."

Anne agora se sentia mas confiante. Tinha sido uma manobra arriscada, mas fora bem sucedida. Apostara no arraigado senso de hierarquia da sociedade trikoniana, e dera certo, pelo menos no primeiro momento. Mas precisava tomar cuidado. Se os trikonianos achassem que matar aqueles três era mais importante do que a vida de seu Capitão, eles os destruiriam sem pensar duas vezes. Ela agora precisava distraí-los e ganhar tempo.

A imagem da ponte de comando do destróier trikoniano se formou novamente à frente de Anne. Agora, porém, era outra pessoal que estava sentada na poltrona do capitão. Este trikoniano parecia ser bem mais velho e experiente, mas não tinha nem de longe a postura arrogante e altiva do capitão. Assim que a imagem se formou, ele começou a falar, nervoso:

"Onde está meu capitão? O que fizeram com ele? Eu exijo seu retorno imediato!"

A Capitã Anne sorriu para o trikoniano. Agora era a sua vez de ser irônica e arrogante.

"Você não está em posição de exigir nada no momento. Seu Capitão está confortavelmente alojado em um dos cômodos de minha nave, são e salvo."

"Isto é um ato de guerra!" Bradou o outro.

Anne adorou que ele tivesse seguido essa linha de raciocínio. Quanto mais ele discutisse, mais eles ganhariam tempo.

"Vocês começaram com os atos de guerra quando atiraram em uma nave da Confederação."

"Vocês invadiram o território trikoniano."

"Para ajudar uma nave em perigo, que vocês estão tentando destruir."

"Nós lhe avisamos para sair. Seus escudos já caíram. Se atirarmos novamente, vocês serão destruídos."

Anne sorriu consigo mesma. Se eles acham que nossos escudos já caíram, então não perceberam que desviamos a energia para o sistema de teleporte. Isso era bom.

"Se atirarem novamente, vocês estarão matando seu próprio Capitão."

O trikoniano hesitou visivelmente. Anne aproveitou o momento:

"Agora quem dita as regras aqui sou eu. Vocês nos deram sessenta segundos para sairmos antes de sermos destruídos. Nós faremos a mesma coisa. Vocês têm sessenta segundos para saírem daqui, e lhes devolveremos seu Capitão são e salvo. Se não, ele será executado."

Anne interrompeu a comunicação. Virou-se para McGregor:

"Como estamos?"

"Acabamos de realizar o primeiro teleporte, e estamos carregando novamente o reator. Os médicos informam que o trikoniano transportado é uma criança, de aproximadamente dez anos. Está inconsciente, mas vai ficar bem."

"Ótimo. Vamos continuar. Não sei qual vai ser a reação dos trikonianos, mas não vamos conseguir segurá-los por muito tempo. Eles devem agora mesmo estar consultando seu comando."

"Dois minutos e quarenta para completar a dose fatal de radiação na nave. Dez segundos para o próximo transporte."

"O que diz a varredura do destróier?"

"O escudo ainda está levantado. Armas prontas, sem nenhuma alteração."

Os segundos pareciam se escoar lentamente para Anne. A ponte estava silenciosa, todos atentos ao passar do tempo. Finalmente, McGregor anunciou:

"Reator recarregado. Iniciando o segundo teleporte."

Anne recostou a cabeça na cadeira e fechou os olhos.

"Os médicos estão informando que o segundo trikoniano é uma fêmea. Também está inconsciente."

"E a varredura do destróier?" Ela perguntou, ainda de olhos fechados.

"Sem alteração. Carregando o reator novamente. Quinze segundos para o terceiro teleporte."

Silêncio novamente. Anne imaginou o que estaria se passando no destróier trikoniano. Será que matar aqueles três seria tão importante para eles a ponto de assassinarem o próprio capitão?

Anne estava contando a passagem do tempo em sua própria cabeça, como se com isso pudesse acelerá-lo. Seis segundos... Dez... Doze... Quinze...

"McGregor?" Perguntou, ansiosa. Abriu os olhos, apenas para ver a expressão confusa no rosto de seu oficial de ciências. "O que foi?"

"Estamos tendo alguns problemas na recarga, capitã. A atividade em Beta-3 aumentou subitamente, e o bombardeio de energia está afetando o reator."

"Quanto tempo mais?"

"Não sei. Dez, talvez quinze segundos para podermos fazer o último teleporte."

"O destróier trikoniano está enviando uma mensagem visual, Capitã."

Anne se ajeitou na cadeira e olhou no relógio. Quarenta e cinco segundos haviam se passado:

"Visual."

O mesmo oficial trikoniano apareceu na imagem à sua frente. Seu cabelo estava desalinhado, e ele parecia estar muito nervoso.

"Exigimos falar com nosso Capitão."

"Eu já disse que quem faz as exigências agora sou eu."

"Mas como podemos saber se ele ainda está vivo?"

"Vocês terão que confiar em minha palavra para isso."

O trikoniano riu com desdém.

"A palavra de uma fêmea? Isso não vale nada para mim."

Anne sentiu o sangue lhe subir à cabeça e interrompeu a mensagem de súbito. A imagem desapareceu.

"McGregor?" Insistiu ela. Sabia que não tinham mais muito tempo.

"Estamos quase lá, Capitã. Mais alguns segundos.

"Quero uma varredura do destróier. Alguma alteração energética?"

McGregor pareceu hesitar.

"Estou notando alguma coisa no setor de armamentos. Eu diria que estão direcionando mais energia para aquele setor. Mas o escudo continua levantado."

Aquilo não era uma boa notícia. Os trikonianos estavam pensando em atacar, mesmo com seu Capitão à bordo.

"Pronto." Disse McGregor, aliviado. "Realizando o terceiro teleporte. Concluído. Iniciando a recarga do reator."

Cerca de dois segundos se passaram antes que ele falasse novamente:

"Os médicos informam que este trikoniano é um homem de meia idade. Também está desacordado, mas os sinais vitais estão estáveis. Conseguimos tirar os três de lá antes que a dose de radiação fosse fatal."

Anne ficou contente e aliviada, mas sabia que os problemas ainda continuavam. Precisavam sair dali o quanto antes. O problema era que, se simplesmente fugissem, muito provavelmente o destróier iria perseguí-los, e eles não iriam agüentar mais um ataque. Precisavam de um chamariz, algo para distraí-los enquanto eles fugiam. Outra idéia começou a se formar em sua mente.

"Tenho uma nova mensagem visual do destróier trikoniano, Capitã."

"Não complete ainda, Martinelli. McGregor, eu preciso do teleporte mais uma vez."

McGregor olhou para ela, sem entender. Mas limitou-se a responder:

"Preciso de mais quinze segundos, Capitã. A recarga ainda está lenta."

"Eu vou lhe conseguir este tempo. Assim que estiver com tudo pronto, teleporte o Capitão trikoniano para a nave de transporte lá fora."

"Sim, senhora."

"Tenente, pode completar a chamada."

A imagem do oficial trikoniano apareceu novamente na tela. Ele estava vermelho de raiva. Assim que a imagem se formou, ele disse:

"Os sessentas segundos se passaram, e ainda estamos aqui. Onde está meu Capitão? Vocês o mataram?"

"Ainda não. Eu desejo fazer um trato com você."

A expressão nos olhos do trikoniano mudaram de raiva para incredulidade, e depois para desconfiança. Anne percebeu isto claramente.

"Que tipo de trato?"

"Eu pretendo devolver seu Capitão são e salvo, desde que você me dê sua palavra de que a minha nave poderá partir sem ser atacada. Não me importa mais o que vai acontecer com a outra nave. Eu pretendo salvar minha tripulação."

O trikoniano ficou em silêncio por um instante, avaliando as palavras de Anne. Ela teve medo de que ele percebesse que estava mentindo. Talvez ele já soubesse que eles estavam com os três trikonianos a bordo. Ou talvez não.

Depois de alguns segundos, o trikoniano respondeu:

"Está bem, temos um trato. Onde está meu Capitão?"

"Calma, amigo. Vamos fazer o seguinte: eu vou tirar a minha nave daqui. Assim que estiver a uma distância segura, eu lhe envio uma mensagem dizendo onde seu Capitão está."

"Não. Agora quem dita as regras sou eu. Eu quero saber onde meu Capitão está neste exato momento. Caso contrário, irá constar em meu relatório que o Capitão foi considerado como morto, e sua nave será destruída imediatamente."

Anne virou um pouco o rosto, e olhou para McGregor. O oficial lhe fez um sinal de positivo com o dedo, indicando que o Capitão trikoniano já havia sido teleportado para a nave de transporte.

Anne olhou novamente para o trikoniano, e suspirou, como se estivesse contrariada:

"Está bem. Seu Capitão acaba de ser teleportado para a nave de transporte. Sugiro que vocês vão buscá-lo imediatamente, pois com a carga de radiação gama que está emanando de Beta-3, ele não irá sobreviver mais do que cinco minutos sem um escudo energético para protegê-lo."

O rosto do trikoniano ficou novamente vermelho de raiva. Com um sorriso irônico nos lábios, ele disse:

"Muito obrigado pela informação, fêmea estúpida. Acaba de assinar sua sentença de morte."

E a imagem foi interrompida.

Anne então caiu em si. Como podia ter confiado na palavra daquele trikoniano? Finalmente havia cometido um erro, e aquilo podia custar a vida de todos em sua nave.

Imediatamente, ela reassumiu o controle:

"Tenente Martinelli, tire-nos daqui o mais rápido possível. Toda força a frente!"

"Sim, senhora."

"McGregor, como está o escudo?"

"Ainda mais quinze segundos para podermos ativá-lo, Capitã."

"Droga!"

Imediatamente, ela sentiu a aceleração quando a nave começou a se mover.

"O destróier baixou os escudos. Míssil iônico lançado. Seis segundos para o impacto."

"Nossa única chance é a velocidade." Disse ela, para ninguém em especial. "Não vamos conseguir fugir do míssil, mas se conseguirmos acelerar o suficiente, podemos adiar o impacto o bastante para sermos capazes de recarregar o gerador e levantar o escudo."

Martinelli não respondeu, mas Anne percebeu na expressão do rapaz que ele havia compreendido a mensagem. A vida de todos na Cruzeiro do Sul estavam em suas mãos. O oficial mordeu o lábio inferior, como ela nunca o tinha visto fazer, e começou a apertar os botões em seu console. Anne sentiu a pressão da aceleração a empurrando contra o estofado da cadeira.

"Dez segundos para completar a recarga do reator. Quatro segundos para o impacto."

Anne percebeu quando um filete de sangue escorreu do lábio inferior de Martinelli, embora o rapaz não tivesse nem notado, tamanha era sua concentração.

"Sete segundos para levantar o escudo. Estamos ganhando algum terreno, mas o míssil ainda está se aproximando. Três segundos para o impacto. Oh, Meu Deus, não vamos conseguir."

Anne sentiu uma profunda tristeza invadí-la. Não haviam conseguido, afinal. Então ouviu a voz de Martinelli gritar:

"Segurem-se!"

Mas não ouve tempo para isso. Anne sentiu seu corpo ser arremessado para o lado e um grito de dor escapou de seus lábios quando suas costelas se chocaram com toda a força contra o braço da cadeira. A dor foi tamanha que ela teve certeza naquele momento que havia quebrado uma costela.

"Desculpem." Disse Martinelli. "Tudo em que pude pensar foi fazer uma manobra lateral a toda a velocidade. Parece que acabo de destruir um de nossos sistemas direcionais."

Controlando a dor, Anne perguntou:

"Situação, McGregor?"

McGregor estava naquele momento voltando ao seu lugar, um filete de sangue escorrendo de sua testa.

"A manobra deu certo, Capitã. O míssil passou por nós, mas já está retornando. O tempo estimado para o impacto é de três segundos. Já temos energia para o escudo."

"Acionar escudo."

McGregor apertou um botão e anunciou:

"Escudo levantado. Blindagem em 30%."

Anne imaginou se 30% seria suficiente. Mas não precisou esperar muito para descobrir. A explosão que se seguiu foi a pior de todas. Anne não conseguiu conter um grito de dor quando bateu novamente contra a lateral da cadeira. Um foco de incêndio começou em um painel à sua esquerda, mas foi prontamente combatido por Martinelli.

"Relatório de Danos, Tenente."

"O escudo foi totalmente destruído, Capitã. O sistema de teleporte também está avariado. Temos vários danos no costado externo, inclusive uma perda de contenção na ala C-2. Esta ala já está sendo evacuada e lacrada. Um dos sistemas direcionais está inoperante. Os sistemas de comunicação, armas e o restante do sistema de navegação estão em perfeito estado."

"Alguém ferido?"

"O setor médico reporta apenas ferimentos leves e algumas fraturas, Capitã. Os escudos agüentaram bem."

"Onde está o destróier trikoniano?"

"Ainda parado junto à nave de transporte. No momento, parecem estar realizando o resgate do Capitão. Graças a Deus eles ainda não têm um teleporte operacional, ou já estariam no nosso encalço a esta altura."

"Bem, não vamos esperar por eles. Tenente Martinelli, tire-nos daqui o mais rápido possível. E envie uma mensagem à Confederação e à Galípoli-IV, informando nossa atuação posição, rota e status da missão. E, por favor, não faça mais estas manobras radicais a menos que seja absolutamente necessário." Anne passou a mão sobre a região que havia machucado. "Acho que quebrei uma costela."

"Sim, senhora." O Tenente Martinelli sorriu consigo mesmo.

Cerca de uma hora mais tarde, a Cruzeiro do Sul estava sendo escoltada pela Galípoli-IV rumo a uma base da Confederação. Essa foi a primeira vitória entre muitas que se seguiriam na guerra que ainda estava por vir.

Mas essa é uma outra história.

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