Torquemada Vive!

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0046]
[Autor:
Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título:
Torquemada vive! ou Como era Grande Minha Pororoca]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 2.300]

 

1

Há algum tempo ou tempo algum, num pequeno povoado chamado <Num Sei Onde>, junto às vertentes do Kingmanjaro, existia um povo amargo de outras eras, assolado por crises tempestuosas, oscilando da ignorância suprema à sabedoria sublime.

Lá chegou, certa feita, um monte de farrapos ambulantes. Atendia pelo nome de Shondas. Uma figura bizarra e pusilânime, em nada semelhante aos vistosos, porém avaros comerciantes citadinos vitimados por uma soberba impossível frente os visitantes. Todavia, devido a um sem número de momices, no exercício de técnicas de ciências ocultas voltadas ao pequeno público infantil (apesar do desprezo, que embutiam medo, espanto e asco, tudo junto), tornou-se uma certa atração circense para os demais. Mas por pouco tempo.

E Shondas, trocando rezas e ungüentos inofensivos por restos de comida e simulacros de abrigo, foi ficando, ficando, até quase desaparecer no limbo.

Até quase...

*

Shondas veio claudicando, os trapos puídos de sua precária e inadequada indumentária arrastando juntamente com suas grosseiras e imundas patas, pela contrastadamente imaculada Cidade-das-Nuvens. Passou, ó blasfêmias das vis faces!, a dormitar em sua praça-museum, onde de sua eterna fonte termal borbulhava uma pequena fração de inferno, exalando um delicioso hálito seco e quente, um bálsamo para ossos travados, quando foi abordado pelos Reis-Magos. Não indagaram seu propósito ali naquele frígido outono, partindo para um franco assédio verbo(marcial)nominal:

- Você, seu lixo, não foi chamado, sequer solicitou audiência, então como ousa invadir assim nossos domínios? - disse um deles, trazendo a esfinge de um peixe monogramado em seus finos trajes sacerdotais.

- Uma vez que invadistes o-que-não-lhe-pertence deverá sofrer calado e ouvir sua sentença com resignação!! – ratificou o outro, o 2º Rei que, fiel à profecia, construíra seu palácio de jade sobre alicerces de madeira-balsa, ciente do soçobrar que a cada dia se repetia, deixando-o meio tonto quando em terra firme.

- ... ou sofrer as conseqüências dessa violação ignominiosa!!! - golpeou o 3º Mestre, a quem chamavam, quando embriagados e amortecidos por tonéis de álcool, de O Megalômano.

E o pobre conjunto de tecidos fétidos, adjetivo de tudo quanto era ruim, acordado de seu primeiro sono em dias por aquele coreto trompeteante, olhou tonto de um para outro e nada respondeu, ao menos por um certa derivação de tempo e espaço.

Os Mensageiros do Kálice, quiçá a própria Santa Trindade em escala terrena, chegara ao veredicto de que o vagabundo não merecia mais que o seu desprezo e, dando dez 'irrisórias' chicotadas cada um, vergastando o cadáver ambulante, eles acharam que tudo já estava terminado e o velho nunca mais voltaria a cometer tais afrontas aos 3 Mosqueteiros Reais. Pensaram que, tantas cicatrizes, num corpo com seus próprios vergalhões infligidos pela velhice, não poderia resistir por muito tempo mais.

Mas o vagabundo era persistente e teimoso como uma mula, além de ter um intelecto aparentemente avariado por uma acefalia crônica, pois, na manhã seguinte ao chicoteamento e achincalhe, passou a pastar tranqüilamente nas latas-de-lixo da Cidade-das-Nuvens chamada de Num Sei, situada para lá das montanhas Torquemada.

E, <cidade pequena, ouvidos grandes>, a Tríade fatalmente ficou sabendo que suas lições tinham sido mal aprendidas, talvez por terem sido ministradas com benesses em demasia, atrapalhada por bondade infinda.

Desta feita, apesar de irados, não quiseram sujar suas mãos bem manicuradas e soltaram os lobos reais naquele boçal maltrapilho.

Enquanto os mastins deviam estar fazendo seu trabalho dilacerador, cidade abaixo, a Tripla Verdade seguiu para o Palácio da Reza e, dentro de pentagramas e anagramas e fluxogramas, iniciou-se a ladainha dos 1000 Cânticos Louváticos de todo entardecer, quando receberam a estranha e inoportuna mensagem que sua alcatéia de lupus famintos estavam mais preocupados em lamber as faces nojentas do vagabundo que colocar para dentro de suas tripas cada pedacinho daquele corpo escroto.

Largaram mitras, largaram mantras, largaram o necronomicon, autografado pelo próprio Belzebu Jr., enfim largaram tudo e, com a população ao seu encalço, numa distância situada no limiar da euforia e temeridade, marcharam para o riacho que cortava a cidade em 2 foices e viram, basbaques, o que pensavam ser lobos assassinos rolando pela grama como filhotes de cordeiro recém-nascidos!

A população de Num Sei Onde, Cidade-Satélite do paraíso, cravada no seio da Maciço Central, tornou-se mais espectante ainda, sentindo o afluxo de ira divina que exalava dos Mestres dos Mortos. Quase se insurgindo, a turba sentiu um júbilo diferente do usual; um êxtase surgido na sublevação, ainda que verificada em terceiros...

Porém, antes que os Poderosos pudessem desembainhar suas falo-espadas, o vagabundo ousou falar pela primeira vez, o que deveria ser raro ou algum voto de silêncio rompido, pois aquela voz saiu arranhando como um canto de sapo-boi pra lá de desafinado:

- Abençoados sejam vocês que herdarão o Reino das Nuvens...

E os 3 se cutucaram, tentando entender o significado daquele oráculo dissonante.

- ... mas a abastança e a vingança tolhe seus desígnios, Nobres Governantes, - continuou a 'coisa', acariciando um lobo que ronronava como um gatinho – Pois chegará o dia que seus palácios ruirão e sem a ajuda da população, do chão não mais sairão.

- Está nos ameaçando, herege? - indagou um deles, tentando fazer-se mais lúcido que os outros Reis-Magos, aviltados em seu próprio território.

- Longe de mim fazê-lo, senhor feudal - e falou como se contasse algum segredo: - Tenho uma certa 'intimidade' com os astros...

- Então, eis um bruxo! - espinafraram em coro, persignando-se também, por via das dúvidas, sempre de forma uníssona.

- Sou qualquer coisa que suas mentes digam que sou.

- Queimar-te-emos até não restar nada além de pó de cinzas!!! - jogaram seus feitiços e mandingas, contidos apenas pelo rosnar dos cérberos que se voltaram contra eles.

E o vagabundo pareceu recitar como um druida embriagado, algo que vinha do fundo de suas nádegas:

<- O que agride com a camada de ozônio é algo que virá mais tarde interagir com suas própria vidas. Se jogas um boomerang contra o vento é de se esperar que o mesmo retorne à sua origem...>

E a população em coro, qual um batalhão de devotos encontrando nova Meca:

"Palavras da Salvação!"(bis)

Shondas sorriu de cansaço muito mais que de indulgência. Sua falta de dentes era tão visível quanto sua enorme paciência. Um velho que já dobrara há muito o Cabo da Boa Esperança. Borjador, então, nem lembrança mais havia do feito, da cabotagem denegrida pelo inexorável correr do calendário, denotando na cor daquela pele tão curtida e enrugada quanto o mais velho dos pergaminhos bizantinos. Quando entrara naquela cidade fizera-o por pensar ser um retiro de pensadores independentes e não arraigados repetidores de ladainhas. Até ali, naquelas ermas terras, revelou-se um Clube fechado que parecia ler - ainda não sabia até que ponto -, de uma mesma bolorenta cartilha.

"Por que não vou embora?", pensou, largando seu corpo numa pedra que acabou por revelar-se um tótem do Deus-Rei.

Ignorando os gritinhos desvairados, ou devido a uma surdez pronunciada, Shondas cometeu a mais cafajeste das afrontas: sua flatulência irradiou-se naquele pequeno tótem empedernido, aquele velho altar de sacrifícios de virgens imoladas ao Deus-Rei.

- Você!

- Você!!

- Você!!!

Com a insistência duma metralhadora, porém sem resultado algum, apontavam para a multidão o Pai, o Primogênito e o Espírito de Porco; não houve exceção, o que por si só era fato notório: ninguém atendeu ao chamamento da Tríade. Sentiu-se a tensão no ar, como se o próprio miasma terrestre sofresse de uma grande TPM de proporções planetárias, ameaçando um ciclo tão vermelho como a própria morada de Aztharot, Hellas e Agamenon!

Intuindo seu destino, o vagabundo, também através da flatulência sendo responsável por sua cota no rombo na camada de ozônio, falou:

- <Pauperis ad funus uix currit clericus unus>..., ou seja - traduziu ele, consultando seu livrinho de apontamentos que trazia dentro de um bolso tão suado quanto seu conteúdo: - 'Ao enterro do pobre vai apenas um só padre'. Não espero multidões em meu sepulcro, mas são vocês que estão atraindo a platéia.

Vendo que tratavam com um louco varrido ou 'mensageiro da oposição', os Reis-Magos tiveram uma breve alocução reservada entre eles, permeada de gestos quiromânticos e invocações Kármicas protetoras, nas quais não pouparam coreografia, e não ficaram de fora nenhuma entidade menor do pantheon local.

No final, com falsa bondade, emoção reprimida, se dirigiram ao ancião:

- Queremos ver a extensão de seu poder, ó aquele que vem de reinos distantes.

- Poder? Se não tenho nem o que COMER e o que podem esperar de um velho além de senilidade?

- A astúcia do Demônio é conhecida de todos nós!

- O que posso dar em troca de tão vasto conhecimento? - ironizou, mas não perceberam por isso.

- A verdade – disseram, sem titubear.

- A verdade... - o vagabundo saboreou aquela palavra com vagar e reflexão.

Sua meditação irritou os Reis-Magos mas, verdade seja dita, agüentaram firmes até o final, dourando a pílula o máximo que podiam. A espera não foi em vão.

- Se assim desejam, lá vai a 'verdade'... - disse o vagabundo, indicando os vários montes de estrume que juncavam o caminho reservado ao gado: - Peguem a quantidade que quiserem e atirem em mim.

Ele duvidaram que tivessem ouvido 'exatamente' aquilo, mas a repetição daquela mesmíssima frase pelo ancião fez crescer neles um sorriso tubarônico que aliou palavra em ação, transformando desejo em realidade.

E petardos e mais petardos de merda foram lançados pela tríade e alguns outros 'bispos' contra o inerte invasor que ainda assim permaneceu calado durante todo processo, talvez sabiamente evitando de engolir aquilo que a experiência lhe ensinara a só expelir e não a manusear.

Feito o embostamento, os risos amainados, ouviu-se uma voz miúda saindo de algum lugar soterrado sob os escombros intestinais das monumentais manadas reais:

- Muito bem, meus discípulos. Deixe-me chamá-los assim, ainda que só para fins didáticos, pois vocês cumpriram à risca meus desejos. Bem até demais! Agora um pequeno exercício calistênico:

"Tragam seus braços para junto de seus narizes e cheirem, com especial atenção para suas mãos, as mesmas que usaram para arremeter essa merda toda".

E assim fizeram, ainda que a contragosto, comprovando o olor nauseabundo (ou será nauseante, corrijam os bons) que desprendia-se dali.

- Regra básica, discípulos: Quem atira esse tipo de munição nos outros não pode se considerar 100% limpo, não é verdade?

2

O entardecer foi cedendo terreno à noite, como também esvaiu-se muitas daquelas mazelas, que, embora não soubessem com precisão em tal altura, azedavam a população local com dogmas que se arrastavam desde séculos antes.

A experiência deflagrada pelo forasteiro rendera alguma coisa, afinal, ou seria mera ilusão de momento? Todos ali, imobilizados, sem exceção, não tiveram a mais tênue chance de manifestar qualquer opinião. Perante todos, além de qualquer resquício de libertação do estatuamento de seus corpos, viram, uníssonos, o surgimento daquele ponto errático que gingava ebriamente no céu turvo, zig-zagueando como um bólido fora de controle, antes de assumir uma rota menos calamitosa, salvando a catástrofe por muito pouco.

Com a chegada da noite, antes das estrelas que a eternidade cedera à Terra enquanto ela existisse, aquele objeto esférico refulgiu no céu, crescendo a medida de sua aproximação, agora totalmente destituída de qualquer subterfúgio. Não era particularmente enorme mas causava espanto pela profusão como vinha iluminado em cores mutantes, também pela maneira como pousou com suavidade no centro do Observatório dos Magos e, principalmente, de imediato, pelas figuras que saíram trotando de dentro dele...

Os corpos imobilizados não resistiram a centenas de mandíbulas deslocadas pelo pasmo, ossos e molares cedendo vários centímetros de queixos caídos perante a aparição dos prodígios. Se não tivessem como que pregados ao solo, com certeza muitos teriam ruído pôr terra! Não era uma simples constatação, porém a pura realidade.

Ali se viam algum tipo de roedores, ao menos da cabeça até um nível imediatamente abaixo da cintura, após o que os seres que desembarcaram do veículo definitivamente ganhavam contornos equinóides, como ratos-centauros que traziam, para cúmulo do espalhafato, sobre o sólido corpanzil, curtas camisetas de confecção e silk próprios, todavia com dizeres perfeitamente decifráveis, ainda que misteriosos. ARQUIVO CHEESE, lia-se em letras emborrachadas e multicoloridas estampada na frente da 'vestimenta', tendo no verso, na medida em que desfilavam em frente da população, uma espécie de complemento sobressaindo do dorso peludo: <A Verdade Está na Vaca!> O par de aliens traziam o 'braço' direito superior erguido em saudação; colar e brincos feitos de restos de um outrora disco anodizado pertencente à sonda Voyger compunham o cenário de suas sumárias indumentárias. Mas quem pararia para reparar tantos detalhes quando o terror batia à porta de seus rostos e exclamava: <Entrei! HeHeHe, e vim pra ficar...>?

Nosso o ET, acompanhado de sua patroa (a presença de um único peito, surgindo semi-tombado sobre sua bolsa marsupial, parecia indicar uma certa diferença anatômica entre eles), atirou uma cusparada ácida pro lado, deu uma 'puxada' e soltou um último sinal de fumaça de seu baseado de palha aditivada 'du bom', ameaçando, tal qual em Gomorra, atirar seu nódulo atômico no depósito nuclear daquela cidade...

- Qui q'isso, Zé! - repreendeu ela, a etéia, ainda não conseguindo desfazer o cacoete lingual que assimilara nos tumultuados anos em que os 2 passaram em Varginha, interior de Minas Gerais, chupando cabras como quem toma um copo triplo de refresco de uva e ainda quer mais. - Num vai 'tirar isso pelas goelas deles não, sô! Deixa disso, seu atomicida, num vê qui a verdade tá cá dentro, hômi?

E bateu em cheio no 2º coração do Alien, fazendo-o curvar com sua sabedoria e a força do impacto.

<É verdade>, pensou, massageando resignado seu músculo cardíaco quase lesado pelo murro da patroa, <A verdade é uma merda de dois gumes>!

 

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