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Há algum tempo ou tempo algum, num pequeno povoado chamado
<Num Sei Onde>, junto às vertentes do Kingmanjaro, existia um
povo amargo de outras eras, assolado por crises tempestuosas,
oscilando da ignorância suprema à sabedoria sublime.
Lá chegou, certa feita, um monte de farrapos ambulantes.
Atendia pelo nome de Shondas. Uma figura bizarra e pusilânime, em
nada semelhante aos vistosos, porém avaros comerciantes citadinos
vitimados por uma soberba impossível frente os visitantes. Todavia,
devido a um sem número de momices, no exercício de técnicas de ciências
ocultas voltadas ao pequeno público infantil (apesar do desprezo,
que embutiam medo, espanto e asco, tudo junto), tornou-se uma certa
atração circense para os demais. Mas por pouco tempo.
E Shondas, trocando rezas e ungüentos inofensivos por restos
de comida e simulacros de abrigo, foi ficando, ficando, até quase
desaparecer no limbo.
Até quase...
*
Shondas veio claudicando, os trapos puídos de sua precária e
inadequada indumentária arrastando juntamente com suas grosseiras e
imundas patas, pela contrastadamente imaculada Cidade-das-Nuvens.
Passou, ó blasfêmias das vis faces!, a dormitar em sua praça-museum,
onde de sua eterna fonte termal borbulhava uma pequena fração de
inferno, exalando um delicioso hálito seco e quente, um bálsamo
para ossos travados, quando foi abordado pelos Reis-Magos. Não
indagaram seu propósito ali naquele frígido outono, partindo para
um franco assédio verbo(marcial)nominal:
- Você, seu lixo, não foi chamado, sequer solicitou audiência,
então como ousa invadir assim nossos domínios? - disse um deles,
trazendo a esfinge de um peixe monogramado em seus finos trajes
sacerdotais.
- Uma vez que invadistes o-que-não-lhe-pertence deverá
sofrer calado e ouvir sua sentença com resignação!! – ratificou
o outro, o 2º Rei que, fiel à profecia, construíra seu palácio
de jade sobre alicerces de madeira-balsa, ciente do soçobrar que a
cada dia se repetia, deixando-o meio tonto quando em terra firme.
- ... ou sofrer as conseqüências dessa violação
ignominiosa!!! - golpeou o 3º Mestre, a quem chamavam, quando
embriagados e amortecidos por tonéis de álcool, de O Megalômano.
E o pobre conjunto de tecidos fétidos, adjetivo de tudo
quanto era ruim, acordado de seu primeiro sono em dias por aquele
coreto trompeteante, olhou tonto de um para outro e nada respondeu,
ao menos por um certa derivação de tempo e espaço.
Os Mensageiros do Kálice, quiçá a própria Santa Trindade
em escala terrena, chegara ao veredicto de que o vagabundo não
merecia mais que o seu desprezo e, dando dez 'irrisórias'
chicotadas cada um, vergastando o cadáver ambulante, eles acharam
que tudo já estava terminado e o velho nunca mais voltaria a
cometer tais afrontas aos 3 Mosqueteiros Reais. Pensaram que, tantas
cicatrizes, num corpo com seus próprios vergalhões infligidos pela
velhice, não poderia resistir por muito tempo mais.
Mas o vagabundo era persistente e teimoso como uma mula, além
de ter um intelecto aparentemente avariado por uma acefalia crônica,
pois, na manhã seguinte ao chicoteamento e achincalhe, passou a
pastar tranqüilamente nas latas-de-lixo da Cidade-das-Nuvens
chamada de Num Sei, situada para lá das montanhas Torquemada.
E, <cidade pequena, ouvidos grandes>, a Tríade
fatalmente ficou sabendo que suas lições tinham sido mal
aprendidas, talvez por terem sido ministradas com benesses em
demasia, atrapalhada por bondade infinda.
Desta feita, apesar de irados, não quiseram sujar suas mãos
bem manicuradas e soltaram os lobos reais naquele boçal
maltrapilho.
Enquanto os mastins deviam estar fazendo seu trabalho
dilacerador, cidade abaixo, a Tripla Verdade seguiu para o Palácio
da Reza e, dentro de pentagramas e anagramas e fluxogramas,
iniciou-se a ladainha dos 1000 Cânticos Louváticos de todo
entardecer, quando receberam a estranha e inoportuna mensagem que
sua alcatéia de lupus famintos estavam mais preocupados em lamber
as faces nojentas do vagabundo que colocar para dentro de suas
tripas cada pedacinho daquele corpo escroto.
Largaram mitras, largaram mantras, largaram o necronomicon,
autografado pelo próprio Belzebu Jr., enfim largaram tudo e, com a
população ao seu encalço, numa distância situada no limiar da
euforia e temeridade, marcharam para o riacho que cortava a cidade
em 2 foices e viram, basbaques, o que pensavam ser lobos assassinos
rolando pela grama como filhotes de cordeiro recém-nascidos!
A população de Num Sei Onde, Cidade-Satélite do paraíso,
cravada no seio da Maciço Central, tornou-se mais espectante ainda,
sentindo o afluxo de ira divina que exalava dos Mestres dos Mortos.
Quase se insurgindo, a turba sentiu um júbilo diferente do usual;
um êxtase surgido na sublevação, ainda que verificada em
terceiros...
Porém, antes que os Poderosos pudessem desembainhar suas
falo-espadas, o vagabundo ousou falar pela primeira vez, o que
deveria ser raro ou algum voto de silêncio rompido, pois aquela voz
saiu arranhando como um canto de sapo-boi pra lá de desafinado:
- Abençoados sejam vocês que herdarão o Reino das Nuvens...
E os 3 se cutucaram, tentando entender o significado daquele
oráculo dissonante.
- ... mas a abastança e a vingança tolhe seus desígnios,
Nobres Governantes, - continuou a 'coisa', acariciando um lobo que
ronronava como um gatinho – Pois chegará o dia que seus palácios
ruirão e sem a ajuda da população, do chão não mais sairão.
- Está nos ameaçando, herege? - indagou um deles, tentando
fazer-se mais lúcido que os outros Reis-Magos, aviltados em seu próprio
território.
- Longe de mim fazê-lo, senhor feudal - e falou como se
contasse algum segredo: - Tenho uma certa 'intimidade' com os
astros...
- Então, eis um bruxo! - espinafraram em coro, persignando-se
também, por via das dúvidas, sempre de forma uníssona.
- Sou qualquer coisa que suas mentes digam que sou.
- Queimar-te-emos até não restar nada além de pó de
cinzas!!! - jogaram seus feitiços e mandingas, contidos apenas pelo
rosnar dos cérberos que se voltaram contra eles.
E o vagabundo pareceu recitar como um druida embriagado, algo
que vinha do fundo de suas nádegas:
<- O que agride com a camada de ozônio é algo que virá
mais tarde interagir com suas própria vidas. Se jogas um boomerang
contra o vento é de se esperar que o mesmo retorne à sua
origem...>
E a população em coro, qual um batalhão de devotos
encontrando nova Meca:
"Palavras da Salvação!"(bis)
Shondas sorriu de cansaço muito mais que de indulgência. Sua
falta de dentes era tão visível quanto sua enorme paciência. Um
velho que já dobrara há muito o Cabo da Boa Esperança. Borjador,
então, nem lembrança mais havia do feito, da cabotagem denegrida
pelo inexorável correr do calendário, denotando na cor daquela
pele tão curtida e enrugada quanto o mais velho dos pergaminhos
bizantinos. Quando entrara naquela cidade fizera-o por pensar ser um
retiro de pensadores independentes e não arraigados repetidores de
ladainhas. Até ali, naquelas ermas terras, revelou-se um Clube
fechado que parecia ler - ainda não sabia até que ponto -, de uma
mesma bolorenta cartilha.
"Por que não vou embora?", pensou, largando seu
corpo numa pedra que acabou por revelar-se um tótem do Deus-Rei.
Ignorando os gritinhos desvairados, ou devido a uma surdez
pronunciada, Shondas cometeu a mais cafajeste das afrontas: sua
flatulência irradiou-se naquele pequeno tótem empedernido, aquele
velho altar de sacrifícios de virgens imoladas ao Deus-Rei.
- Você!
- Você!!
- Você!!!
Com a insistência duma metralhadora, porém sem resultado
algum, apontavam para a multidão o Pai, o Primogênito e o Espírito
de Porco; não houve exceção, o que por si só era fato notório:
ninguém atendeu ao chamamento da Tríade. Sentiu-se a tensão no
ar, como se o próprio miasma terrestre sofresse de uma grande TPM
de proporções planetárias, ameaçando um ciclo tão vermelho como
a própria morada de Aztharot, Hellas e Agamenon!
Intuindo seu destino, o vagabundo, também através da flatulência
sendo responsável por sua cota no rombo na camada de ozônio,
falou:
- <Pauperis ad funus uix currit clericus unus>..., ou
seja - traduziu ele, consultando seu livrinho de apontamentos que
trazia dentro de um bolso tão suado quanto seu conteúdo: - 'Ao
enterro do pobre vai apenas um só padre'. Não espero multidões em
meu sepulcro, mas são vocês que estão atraindo a platéia.
Vendo que tratavam com um louco varrido ou 'mensageiro da
oposição', os Reis-Magos tiveram uma breve alocução reservada
entre eles, permeada de gestos quiromânticos e invocações Kármicas
protetoras, nas quais não pouparam coreografia, e não ficaram de
fora nenhuma entidade menor do pantheon local.
No final, com falsa bondade, emoção reprimida, se dirigiram
ao ancião:
- Queremos ver a extensão de seu poder, ó aquele que vem de
reinos distantes.
- Poder? Se não tenho nem o que COMER e o que podem esperar
de um velho além de senilidade?
- A astúcia do Demônio é conhecida de todos nós!
- O que posso dar em troca de tão vasto conhecimento? -
ironizou, mas não perceberam por isso.
- A verdade – disseram, sem titubear.
- A verdade... - o vagabundo saboreou aquela palavra com vagar
e reflexão.
Sua meditação irritou os Reis-Magos mas, verdade seja dita,
agüentaram firmes até o final, dourando a pílula o máximo que
podiam. A espera não foi em vão.
- Se assim desejam, lá vai a 'verdade'... - disse o
vagabundo, indicando os vários montes de estrume que juncavam o
caminho reservado ao gado: - Peguem a quantidade que quiserem e
atirem em mim.
Ele duvidaram que tivessem ouvido 'exatamente' aquilo, mas a
repetição daquela mesmíssima frase pelo ancião fez crescer neles
um sorriso tubarônico que aliou palavra em ação, transformando
desejo em realidade.
E petardos e mais petardos de merda foram lançados pela tríade
e alguns outros 'bispos' contra o inerte invasor que ainda assim
permaneceu calado durante todo processo, talvez sabiamente evitando
de engolir aquilo que a experiência lhe ensinara a só expelir e não
a manusear.
Feito o embostamento, os risos amainados, ouviu-se uma voz miúda
saindo de algum lugar soterrado sob os escombros intestinais das
monumentais manadas reais:
- Muito bem, meus discípulos. Deixe-me chamá-los assim,
ainda que só para fins didáticos, pois vocês cumpriram à risca
meus desejos. Bem até demais! Agora um pequeno exercício calistênico:
"Tragam seus braços para junto de seus narizes e
cheirem, com especial atenção para suas mãos, as mesmas que
usaram para arremeter essa merda toda".
E assim fizeram, ainda que a contragosto, comprovando o olor
nauseabundo (ou será nauseante, corrijam os bons) que desprendia-se
dali.
- Regra básica, discípulos: Quem atira esse tipo de munição
nos outros não pode se considerar 100% limpo, não é verdade?
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O entardecer foi cedendo terreno à noite, como também
esvaiu-se muitas daquelas mazelas, que, embora não soubessem com
precisão em tal altura, azedavam a população local com dogmas que
se arrastavam desde séculos antes.
A experiência deflagrada pelo forasteiro rendera alguma
coisa, afinal, ou seria mera ilusão de momento? Todos ali,
imobilizados, sem exceção, não tiveram a mais tênue chance de
manifestar qualquer opinião. Perante todos, além de qualquer resquício
de libertação do estatuamento de seus corpos, viram, uníssonos, o
surgimento daquele ponto errático que gingava ebriamente no céu
turvo, zig-zagueando como um bólido fora de controle, antes de
assumir uma rota menos calamitosa, salvando a catástrofe por muito
pouco.
Com a chegada da noite, antes das estrelas que a eternidade
cedera à Terra enquanto ela existisse, aquele objeto esférico
refulgiu no céu, crescendo a medida de sua aproximação, agora
totalmente destituída de qualquer subterfúgio. Não era
particularmente enorme mas causava espanto pela profusão como vinha
iluminado em cores mutantes, também pela maneira como pousou com
suavidade no centro do Observatório dos Magos e, principalmente, de
imediato, pelas figuras que saíram trotando de dentro dele...
Os corpos imobilizados não resistiram a centenas de mandíbulas
deslocadas pelo pasmo, ossos e molares cedendo vários centímetros
de queixos caídos perante a aparição dos prodígios. Se não
tivessem como que pregados ao solo, com certeza muitos teriam ruído
pôr terra! Não era uma simples constatação, porém a pura
realidade.
Ali se viam algum tipo de roedores, ao menos da cabeça até
um nível imediatamente abaixo da cintura, após o que os seres que
desembarcaram do veículo definitivamente ganhavam contornos equinóides,
como ratos-centauros que traziam, para cúmulo do espalhafato, sobre
o sólido corpanzil, curtas camisetas de confecção e silk próprios,
todavia com dizeres perfeitamente decifráveis, ainda que
misteriosos. ARQUIVO CHEESE, lia-se em letras emborrachadas e
multicoloridas estampada na frente da 'vestimenta', tendo no verso,
na medida em que desfilavam em frente da população, uma espécie
de complemento sobressaindo do dorso peludo: <A Verdade Está na
Vaca!> O par de aliens traziam o 'braço' direito superior
erguido em saudação; colar e brincos feitos de restos de um
outrora disco anodizado pertencente à sonda Voyger compunham o cenário
de suas sumárias indumentárias. Mas quem pararia para reparar
tantos detalhes quando o terror batia à porta de seus rostos e
exclamava: <Entrei! HeHeHe, e vim pra ficar...>?
Nosso o ET, acompanhado de sua patroa (a presença de um único
peito, surgindo semi-tombado sobre sua bolsa marsupial, parecia
indicar uma certa diferença anatômica entre eles), atirou uma
cusparada ácida pro lado, deu uma 'puxada' e soltou um último
sinal de fumaça de seu baseado de palha aditivada 'du bom', ameaçando,
tal qual em Gomorra, atirar seu nódulo atômico no depósito
nuclear daquela cidade...
- Qui q'isso, Zé! - repreendeu ela, a etéia, ainda não
conseguindo desfazer o cacoete lingual que assimilara nos
tumultuados anos em que os 2 passaram em Varginha, interior de Minas
Gerais, chupando cabras como quem toma um copo triplo de refresco de
uva e ainda quer mais. - Num vai 'tirar isso pelas goelas deles não,
sô! Deixa disso, seu atomicida, num vê qui a verdade tá cá
dentro, hômi?
E bateu em cheio no 2º coração do Alien, fazendo-o curvar
com sua sabedoria e a força do impacto.
<É verdade>, pensou, massageando resignado seu músculo
cardíaco quase lesado pelo murro da patroa, <A verdade é uma
merda de dois gumes>!
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