O Colecionador de Lágrimas

 Armando Diorio de Paula Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0038]
[Autor:
Armando Diorio de Paula Filho]
[Título:
O Colecionador de Lágrimas]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 475]

 

Pronto, estava quase sozinho. Acabara de enterrar a esposa, brutalmente assassinada numa praca.Do unico filho nemhum sinal. Agora teria pouco tempo e motivo para retomar um habito quase abandonado de colecionar lagrimas. 354 frascos de diferentes tamanhos e formas, todos etiquetados e colocados lado a lado na estante de madeira.

Foram 15 anos e 6 meses de intenso garimpo. Quando nao conseguia colher as lagrimas utilizando um minusculo funil de acrilico, comprava ou roubava os lencos ainda umidos e os torcia sobre o frasco.

As lagrimas de criancas ficavam nos frascos maiores. As de alegria nos frascos de cor azul.

A primeira lagrima capturada saiu dos olhos de uma pianista cega, durante um concerto infeliz.

Lalo contou com a ajuda do filho durante os 4 primeiros anos. Acomodavam os frascos numa maleta de couro e saiam de madrugada.

-Pai, aonde iremos hoje?

-Vamos colher as lagrimas da senhora Hilda.

-Por que ela vai chorar?

-Esta com cancer e abandonada.

-O senhor teve dificuldade com aquele filho que perdeu a mae?

-Muita, ele nao quis colaborar. Disse-me que chorou por dentro.

-Pai, mamae chorou?

-Voce quer tocar no assunto?

-Preciso.

-Quando cheguei havia muita gente ao redor e sua mae estava agonizando. Tambem havia muito sangue em seu rosto, dai as lagrimas dela terem aquela tonalidade.

-O senhor colheu as lagrimas com ela ainda viva?

-Foi, ela demorou para partir.

Os frascos so deixaram uma vez a casa de Lalo, para serem expostos numa feira de curiosidades.Incrivel quando uma visitante descobriu as proprias lagrimas.

_Sr. lalo, aquelas lagrimas sao minhas.

-A senhora e Beatriz?

-Em carne e osso.

-Por favor, nao deixe meu filho perceber.

-Voce nao mudou quase nada.

-Voce tambem.

-Nao me arrependo de ter chorado naquele dia.

-Bem, ate qualquer dia.

-Ate.

A tecnica de Lalo foi sendo aperfeicoada com a pratica. Lagrimas de odio eram as mais salgadas.As provocadas por dor fisica deixavam os frascos opacos. Lalo quase tentou misturar as lagrimas, mas desistiu da ideia temendo pelas consequencias.

-Pai, responda-me com sinceridade, quais lagrimas gostaria de ter colhido?

-Pergunta dificil, filho.

-Sera que Cristo chorou naquele cruz? E Kennedy, ao receber aquelas balas? Hitler, embaixo da terra, com Eva Braun, chorou? Pasolini naquela praia deve ter chorado bastante.

-Quem sabe?

-Jim Morrison deixou lagrimas naquela banheira? Janis Joplin, expulsa do Copacaba Palace por nadar nua, deve ter chorado na praia.

-Filho, quando poderei colher as suas lagrimas?

-O senhor sabera o momento.

_ E as do senhor?

-Eu as tinha num frasco que quebrou acidentalmente.

-Eram velhas?

-Um pouco. Nao me lembro por que as chorei.

-Pai, o senhor esta chorando.

-Eu?

-Sim, pai, ha lagrimas no seu rosto.

-Saudade, filho.

-Demorei muito para voltar a ve-lo?

-Muito, mas ainda teremos algum tempo.

-Nao entendi.

-Deixa pra la.

 

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