Casa Vazia

 Rafael Antônio Chedid

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0036]
[Autor: Rafael Antônio Chedid]
[Título: Casa Vazia]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 2.950]

 

- Ethel! Ethel! Onde está você? - perguntou o velho, aflito, procurando falar tão alto quanto permitia sua voz. Abriu a porta do quarto, olhou de um lado para outro, dirigiu-se à sala, à cozinha. Tentava andar com rapidez, mas suas pernas já não eram velozes. Parecia quase mancar.

- Ethel, onde está, meu amor?

Quando passou em frente a porta de entrada, avistou-a. Estava sentada na soleira, parecia descansar e observar.

- Ethel, minha querida, venha, vamos embora. Temos que ir...

* * * * *

O Dr. Green mudou-se para a cidade tão logo concluiu a faculdade. Conhecera o lugar numa visita esporádica a um conhecido que já não morava ali, e desde então percebera que, com a ausência de médicos na cidade, o local era propício para iniciar na profissão e talvez até juntar algum dinheiro rapidamente.

Chegava agora à casa que escolhera, através de fotos, na imobiliária. Tratava-se de uma casa de dois pisos, muito bonita, com jardins floridos e árvores. Era afastada da cidade uns 20 quilômetros. Apesar da insistência do homem da imobiliária para que procurasse uma casa mais próxima, quisera-o assim, para ter um pouco mais de sossego. Pintura nova, bem cuidada. Aluguel acessível para quem começava na carreira. Depois de contemplar a fachada, resolveu entrar. Retirou as malas do bagageiro do carro, ajeitando-as como pôde debaixo dos braços. Segurou com dificuldade as chaves na mão direita. Dirigindo-se a porta de entrada, avistou um gato (ou seria gata?) de pelagem preta, muito brilhante. O felino tinha o olhar fixo no Dr. Green, como a observá-lo com atenção.

Ao vê-lo, o Dr. Green sorriu.

- Ora, ora, providenciaram até um amiguinho para mim! Olá, bichano!

O gato miou raivosamente e afastou-se num pulo, correndo em disparada.

- Que pena! Ele se acostuma comigo, se é que volta! - pensou o médico.

A casa estava em perfeito estado. A mobília estava incluída no aluguel. Tudo do agrado do Dr. Green. Tirou o resto do dia para se banhar, desfazer as malas e descansar. Dormiu profundamente, aquela noite.

Passaram-se os dias. Instalou seu consultório clínico na cidade, tornando-se em pouco tempo pessoa conhecida e querida. Sua primeira amizade formou-se com o farmacêutico, o Sr. Altmann, justamente quando tentavam se entender sobre remédios e drogas disponíveis na farmácia. Altmann era um homem de media estatura, muito espontâneo. Foi o primeiro, também, a convidar o Dr. Green a jantar em sua casa. Aceitou o convite, dizendo que combinariam uma data para o encontro.

Certo dia, ao levantar, reparou pela janela do quarto que a grama do jardim já estava alta e que as flores precisavam de cuidados. Resolveu que, indo para a cidade, se informaria a respeito de um bom jardineiro. Arrumou-se, tomou seu desjejum e apanhando sua maleta médica dirigiu-se para a porta. Abriu-a decididamente, como sempre fazia ao sair, mas parou de súbito: de pé, parado em frente ä porta, um rosto magro cadavérico, encontrou um homem que lhe olhava fixamente. Era baixo, usava um chapéu surrado. Lentamente, esboçou um sorriso, mostrando a boca quase desdentada.

- Dr. Green?

- Sim? - respondeu o doutor, tentando dominar o susto causado pela aparição súbita daquele homem de aparência estranha.

O homem tirou o chapéu e segurou-o de encontro ao peito.

- Desculpe incomodá-lo. Meu nome é Arthur, e tenho sido o jardineiro desta casa ao longo dos últimos anos. - A voz era ritmada, parecia que arranhava a garganta em função da idade. - Não pude deixar de ver que seu jardim precisa de cuidados...

O Dr. Green sorriu. Que bela coincidência. Nem precisaria procurar na cidade, como havia planejado. Trocou mais algumas palavras com Arthur, acertaram um salário e uma freqüência semanal para a manutenção do jardim e das flores. Arthur podaria as árvores, também..

Alguns dias depois, Green aceitou o convite do farmacêutico para um jantar. À noite, comeram com simplicidade mas com fartura. A Sra. Altmann, sempre muito atenciosa e falante, cativou o visitante. No final da noite, o Dr. Green não pôde deixar de convidar o Sr. Altmann para que fosse à sua casa, a fim de retribuir a visita.

O farmacêutico imediatamente transmudou seu semblante alegre para uma feição preocupada.

- Sim, sim, Dr. Green, quando possível...

- Edward! - gritou a Sra. Altmann, parada na porta da cozinha, de onde podia visualizar a ambos. - Você sabe que não iremos lá. Por que não conta ao Dr. Green? Todos na cidade já estão comentando...

Green, sem entender muito bem do que se tratava a conversa entre marido e mulher, franziu o senho. Olhou para o Sr. Altmann:

- O que há? De que fala a Sra. Altmann?

O farmacêutico explicou que não era nada disso e pediu que entrasse novamente. Explicou-lhe que a casa onde o médico morava era considerada mal assombrada pela população, que evitava passar por ela. Green ficou um instante em silêncio, meio aturdido. Ao menos, isto explicava em parte a insistência do homem da imobiliária para que Green alugasse uma casa mais próxima, e certamente explicava o fato de que ninguém até aquela data havia ido visitá-lo, apesar de já ter muitos amigos entre os seus pacientes.

Pediu mais detalhes ao farmacêutico, mas este disse que também era relativamente novo na cidade e não dava muita importância para estas histórias. Já a Sra. Altmann, que morara ali toda a vida, baixava a vista e evitava falar no assunto.

- Desculpe, Dr. Green, é melhor deixar quieto...

Voltou para casa intrigado. O que teria acontecido ali? Certamente indagaria outras pessoas no dia seguinte, mas foi dormir aquela noite com dúvidas e impressionado pela história do farmacêutico, ainda que nenhum detalhe sobre tal história fosse revelado.

Na outra manhã, no consultório, atendeu vários cliente. Uma mulher, conhecida na cidade por ser uma espécie de clarividente, estava com uma dor nas costas muito forte. Pareceu ao Dr. Green que seria a pessoa apropriada para perguntar sobre aquela história. Depois de atendê-la, pediu-lhe que esperasse um minuto mais. Contou-lhe sobre a história do farmacêutico e perguntou-lhe se sabia alguma coisa a respeito.

Ela empalideceu:

- Saia de lá, doutor. Saia antes que o tirem de lá. Não sabemos que força move aquela casa, mas, por Deus, saia de lá! - e, atrapalhadamente, retirou-se do consultório, deixando o Dr. Green boquiaberto. Pior: assustado e ainda sem saber maiores detalhes.

Lembrou-se de inquirir Arthur, o jardineiro, mas subitamente percebeu que, apesar de já morar ali há uns dois meses, nunca se encontravam. O jardim estava sempre limpo, as flores podadas, mas Arthur nunca aparecia. Nem para receber o salário semanal. Sem entender os motivos do velho homem, o Dr. Green deu de ombros e procurou esquecer aquela história, se pudesse. Afinal, nada de estranho vinha acontecendo lá.

Nada, até aquela manhã de quinta-feira.

Logo após levantar, o Dr. Green decidiu barbear-se. Ainda meio sonolento, passou o creme de barbear por todo o rosto. Coberto com a espuma branca, colocou a fina lâmina no aparelho de barbear, mergulhou-o na água quente e deslizou-o suavemente pela face. Gostava de barbear-se. Subitamente, o susto: o espelho do banheiro espatifou-se! Num só estalido dezenas ou centenas de caquinhos se formaram e caíram sobre a pia. Todos, menos um: formando uma espécie de triângulo, o caco de vidro projetou-se contra o rosto do Dr. Green e cortou-lhe a carne, ficando cravado em sua fronte, muito próximo ao olhos. Parecia ter-se projetado por vontade própria. Lentamente, um filete de sangue começou a escorrer. Sem poder enxergar e assustando com o acontecido, o médico levou a mão instintivamente ao local do ferimento. Percebeu que o pedaço de vidro não era pequeno. Correu até o quarto, onde lembrou ter outro espelho. Outra surpresa: o espelho do quarto havia-se também espatifado, de forma igual ao do banheiro. Não conseguia raciocinar com clareza, em função da dor e do susto. Aquele segundo espelho quebrado confundira-lhe ainda mais as idéias. Voltou ao banheiro com o coração batendo aceleradamente e, apanhando uma toalha, tratou de tirar o caco de vidro e, tão cuidadosamente quanto pôde, limpou o ferimento e providenciou um curativo. Somente no espelho do carro, já mais tarde, ao sair, pode examinar o local ferido. O curativo havia sido bem feito, afinal.

Passou o dia intrigado e assustado. Pouco concentrado, até. Fechou o consultório mais cedo e voltou para casa. Tinha que limpar os estilhaços de espelho do banheiro e do quarto. Girou a chave da porta principal e entrou. Subiu vagarosamente a escada que levava ao segundo piso. Quando percebeu, estava suando, apreensivo. Abriu a porta do quarto. Sua garganta secou e o coração disparou. O espelho estava inteirinho sobre a penteadeira. Virou-se rapidamente e dirigiu-se ao banheiro: o espelho também estava inteiro, como se nada houvesse acontecido pela manhã. Não conseguia entender. Parecia que alguém havia substituído os estilhaços por espelhos novinhos. Sob esta forte impressão passou o resto da noite. Não teve fome. Deitou-se já tarde, mas o sono não veio.

Deitando, procurou refletir sobre as estranhas histórias e sobre o acidente da manhã. Sim, ele havia acontecido, o curativo em seu rosto era a prova disso. No entanto, não achou explicação plausível para o acontecido. Recusava-se a acreditar na assombração de que lhe falavam. Era um homem da ciência. Após duas horas de hipóteses rodando sua mente, resolveu tomar um calmante. Aos poucos, dormiu. Não sabia quanto tempo se passara até que um cheiro forte, nauseante, foi-lhe acordando aos poucos. Estava deitado da mesma forma como adormecera: com os braços e pernas abertos em forma de X. Abriu os olhos e, primeiro baixinho, depois aumentando de intensidade, ouviu um barulho como de bolinhas de vidro se chocando. A intensidade do barulho, aumentando aos poucos, parecia uma trilha sonora de um filme de suspense. Aos poucos, notou que o barulho aumentava de intensidade. E por apenas poucos segundos conseguiu perceber de que se tratava do lustre, sobre a cama. Tremia e balançava, agora loucamente, como que em convulsão. Atirou-se ao chão no exato momento em que o lustre se desprendia do teto e caia sobre a cama. Aquela bela peça, toda enfeitada de bolinhas de vidro, possuía em seu centro uma ponta de ferro afiada, que caiu exatamente onde ele estava. A ponta de ferro cravou-se no colchão. Certamente, ele havia escapado bem a tempo. Estaria morto agora.

O coração ainda em disparada, procurava enxergar alguma coisa no escuro do quarto. Só uma luz tênue vinha do corredor. E aquele cheiro nojento de podridão. Era um médico. Agora, bem acordado, podia identificar o fedor que caracteriza os corpos em decomposição. Levantou-se, correu para o corredor a fim de ficar mais próximo da luz. O coração ainda em disparada, deu mais uma olhada para a cama, o lustre imenso espetado sobre ela. Correu até a escada e desceu até a cozinha. Tomou um copo d'água e tentou se acalmar. Com o passar do tempo, conseguiu controlar seu ritmo cardíaco e criou coragem para voltar ao quarto. Certamente, estava impressionado. Queria acreditar que se tratava apenas de um acidente. O lustre se desprendera e caíra, era só. E o cheiro fétido certamente vinha de algum animal morto próximo a casa.

Pisou no primeiro degrau da escada, quando sua espinha enregelou:

- SAIA!

Foi dito num grito horrível. Não conseguia identificar se a voz era masculina ou feminina, velha ou jovem. Não parecia uma voz fantasmagórica, daquelas que se arrastam num longo "Saaaaaiaaaaa.....". Não. Era uma voz raivosa. Nem a direção conseguia identificar. Pensou se não seria também sua imaginação. Uns cinco minutos se passaram até que resolveu continuar a subir a escada. Angustiado, esperou ouvir novamente o grito. Mas nada, desta vez. Foi até o quarto, disposto a limpar a bagunça. Ao entrar na porta, nova surpresa: o lustre estava no lugar! Só o colchão, perfurado exatamente aonde a ponta de ferro havia-se cravado, provava ser verdade o que havia acontecido.

Não quis mais passar aquela noite lá. Arrumou-se como pôde e acelerou seu carro até um hotel na cidade. Devia ser umas 3:00 horas da manhã. Assustado e afobado, pediu um quarto ao atendente. Meio sonolento, o balconista nem percebeu que se tratava do Dr. Green. Entrando no quarto, atirou-se na cama e dormiu o que pôde naquele resto de noite.

Acordou na manhã seguinte resolvido a desfazer o negócio do aluguel com a imobiliária.

- A quem pertence aquela casa? - perguntou ao agente.

- Aos descendentes da viúva Holland. Eles não moram aqui há anos. Deixaram a casa aos meus cuidados e mensalmente lhes repasso o aluguel. Quando tem inquilinos, é claro...

O Dr. Green engoliu em seco, passou a mão no curativo que trazia no rosto e perguntou:

- Dizem que há um... problema... com a casa.

O agente suspirou.

- Eu tentei avisá-lo, doutor. Sugeri-lhe que alugasse uma casa mais próxima...

- Mas do que se trata? - perguntou, ansioso.

O homem deu a volta no balcão e parou na porta da imobiliária, olhando para o movimento na rua.

- Há muitos anos, o casal Holland adquiriu a casa. Muito antes de toda esta gente que vive aqui ter nascido. Dizem os mais antigos, que ouviram esta história de seus pais, que eram um casal feliz. Até que o Sr. Holland adoeceu e, em seu leito de morte, pediu a esposa que jamais se desfizesse da casa, a qual haviam reformado e cuidado com muito esforço. Reparou como tem um lindo jardim lá, Dr. Green? - indagou o homem, voltando levemente a cabeça para trás.

- É verdade. Tem sido muito bem cuidado.

- Pois bem. A viúva Holland não tinha filhos e cuidou da casa sozinha. No fim da vida, acamada também pela doença, recebia algumas visitas. Contam que ela tinha alucinações, que enxergava o ex-marido e conversava com ele. A última pessoa que a viu com vida disse que, em certo momento de delírio, ela estendeu os braços em direção à porta do quarto e disse:

- Venha meu amor. Estou pronta. Tomei conta da nossa casinha. Ninguém morou nem há de morar aqui, para destruir o que fizemos.

O Dr. Green ouvia a história em absoluto silêncio. Estava como que hipnotizado.

- Depois que ela morreu - prosseguiu o agente - muito pouca gente tem ido lá, e como o Sr. mesmo comprovou não é fácil de alugar a casa... Não colocarei empecilhos em desfazer o negócio, Dr. Green.

O médico pagou os dias devidos ao agente e se despediu. Um instante antes de sair, porém, voltou-se e perguntou:

- Como ela morreu?

- Não sei bem qual foi a doença - respondeu o agente. - O mais curioso, já que tocou no assunto, foi que a velhota que a encontrou morta sempre contava que a achara de boca aberta sobre a cama. Já o resto deve ser invenção dela.

- Que resto? - indagou Green.

- Bem, ela contava que um gato preto, de pêlo muito brilhante, lambia-lhe a boca aberta. E, ao avistar a velha senhora, deu um miado de raiva, como que irritado com a interrupção, e pulou num salto a janela do quarto que estava aberta...

O Dr. Green ouviu este último comentário meio atordoado. De qualquer forma, já havia mesmo resolvido sair da casa. Entrou no carro e guiou mecanicamente. Entrou em casa e nada parecia demonstrar o que havia acontecido na noite anterior. Começou a fazer as malas, um tanto apressado. Ao retirar os lençóis da cama, aproximou-se do buraco que havia ficado bem no centro do colchão. Olhou ante para cima, a fim de certificar-se de que o lustre estava bem seguro. Ao pôr a mão sobre o buraco, percebeu que era fácil cavocar o mesmo. Sem saber exatamente porque, introduziu a mão na plumas que enchiam o colchão, revirando-as. Como que predestinado, sentiu nos dedos um objeto que parecia metálico. Ansiosamente, rasgou a abertura no colchão e removeu as penas que o preenchiam, até que encontrou uma espécie de gargantilha. Estava enferrujada. Parecia muito antiga. No entanto conseguiu ler a dedicatória.

"Para minha esposa Ethel, com carinho. A. Holland".

Saiu correndo, pegando apenas o que a pressa lhe permitiu. Ao abrir a porta para sair de casa, parou de novo, subitamente, exatamente como fizera dois meses antes.

- Arthur?!

- Dr. Green...

Não sabia porque o jardineiro aparecera ali justamente agora, que estava com pressa. Mas repentinamente, e em voz baixa, repetiu o nome do jardineiro: - Arthur...

- Soube que vai embora, Dr. Green. - parecia ter um ligeiro sorriso nos lábios.

Sem pedir permissão, entro na casa e dirigiu-se à escada.

- Arthur! - gritou Green.

O jardineiro parou e virou-se para o médico.

- Sim?

- Há quanto tempo cuida desta casa?

A boca do jardineiro abriu-se num sorriso, como se parecesse feliz.

- Há muito, muito tempo, Dr. Green. A propósito, não viu minha gata por aqui?

A pergunta surpreendeu o Dr. Green.

- Não, não vi... - respondeu o doutor, observando o velho subir a escada. Resolveu que não iria mais se deter. Havia deixado um envelope com o pagamento em cima de mesa, e o velho certamente o encontraria. Saiu da casa, entrou no carro e foi embora. Não pretendia volta ali. Nunca mais.

* * * * *

Dentro da casa, Arthur chegou ao segundo piso. Ofegante, chamou, em voz alta, mas sem gritar:

- Ethel, onde está você?

Não obteve resposta. Desceu novamente a escada e abriu a porta principal da casa.

Sentada na soleira da porta, a cauda envolvendo-lhe as pernas, a gata preta, de pêlo brilhante, olhou-o de forma suave. De um pulo, saltou-lhe no colo.

- Vamos, querida - disse Arthur Holland -, esta casa é nossa de novo.  

Fale com o autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Webmaster: Marta Rolim

Hosted by www.Geocities.ws

1