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A noite estava fria. Um vento gelado soprava do oeste,
trazendo consigo nuvens negras de chuva que encobriam a lua cheia.
No quintal, grãos de areia e folhas mortas eram agitados de uma
lado para o outro, em redemoinhos que pareciam ter vida própria.
Contudo, eu não sentia frio. O esforço físico de cavar a
cova de minha própria esposa mantinha meu corpo aquecido.
Com esforço, finquei mais uma vez a pá na terra batida,
ajudando a enfiá-la na terra com o pé. Meus braços já começavam
a doer. Eu não estava acostumado a este tipo de coisa.
A cova já estava quase na profundidade ideal. Mais um pouco,
e estaria tudo terminado.
À minha direita, do outro lado da macieira junto à qual eu
estava cavando, jazia o corpo de minha mulher, envolto em um lençol
branco. No local onde o lençol cobria sua cabeça, uma mancha
vermelha de sangue se espalhava sobre o tecido branco. Enquanto eu
olhava, uma rajada mais forte de vento fez com que uma ponta do lençol
se soltasse, descobrindo seu pé direito. Ela estava usando o sapato
branco que eu havia lhe dado em seu último aniversário.
Meu estômago se contorceu em protesto contra aquela visão.
Sentindo o gosto de bile em minha garganta, desviei o olhar e
continuei a cavar.
Eu sabia que tinha feito o que precisava ser feito. Não havia
outra saída a não ser aquela. Eu havia feito o que tinha de ser
feito.
Mesmo assim, um vazio parecia crescer dentro de mim, muito
maior do que a cova que eu estava cavando.
Fechei os olhos por um instante, e finquei novamente a pá no
solo de terra batida. Respirei fundo.
Estava quase acabado.
Eu tinha feito o que precisava ser feito. Se eu não o
fizesse, nossa vida iria cair em desgraça.
Abri novamente os olhos.
Enquanto continuava a cavar, meus pensamentos voaram para
longe, para quando tudo começara.
***
Martha e eu nos mudamos para esta cidade sete meses atrás.
Essa mudança foi de certo modo totalmente inesperada para nós,
pois aconteceu em função de uma transferência que eu recebi para
vir trabalhar na filial da companhia naquela região. Eu digo que
foi de certo modo inesperada por que não tivemos nenhum aviso prévio
de que iria acontecer. Contudo, não foi em momento nenhum
indesejada. Para falar a verdade, já fazia algum tempo que eu e
Martha sonhávamos em deixar a cidade grande e nos mudarmos para
algum lugar mais pacato, no interior.
E, de repente, nosso sonho se realizou.
A primeira coisa que fizemos foi comprar esta casa. Uma casa
modesta, mas também não muito pequena, um lugar onde pudéssemos
ter algumas crianças em um futuro não muito distante. Uma casa com
um quintal grande, em que as futuras crianças pudessem brincar. E a
macieira no meio do quintal deu um toque especial àquilo que já
havíamos gostado.
Logo nos mudamos, e Martha estava animadíssima. Em dias, já
tinha a casa toda arrumada, e nos sentíamos perfeitamente à
vontade. Até parecia que sempre havíamos morado ali.
Menos de um mês depois, ela me contou a novidade: havia
conseguido um emprego como professora de inglês em uma escola
local. Eu achei aquilo ótimo. Assim, ela podia se distrair, e ainda
ajudar um pouco no orçamento familiar.
Alguns dias depois, ela começou suas aulas. No escritório,
tudo corria de vento em popa. Parecia que tudo estava como devia
ser.
Na semana seguinte, Martha me contou a respeito de um grupo de
estudos literários que havia na escola. O grupo se reunia sempre na
noite da última quinta-feira do mês, para ler e trocar experiências
literárias. Como Martha sempre gostara de escrever, se interessou
de imediato. Eu, é claro, a incentivei a participar.
Fazia apenas dois meses que Martha estava participando do
grupo quando a primeira jovem desapareceu.
Seu nome era Jennifer.
***
Um ruído me fez parar de cavar por um momento. Olhei em todas
as direções, procurando localizar de onde viera o som. Meu coração
disparou dentro do peito.
Um segundo ruído atraiu minha atenção para o canto mais
escuro e mais distante do quintal. Forcei a vista, tentando enxergar
alguma coisa, mas não consegui ver nada.
Então, como que por mágica, meus olhos se acostumaram à
escuridão e eu o enxerguei.
Um gato. Totalmente negro.
O animal estava imóvel, me observando. Certamente deveria
estar imaginando o que aquele homem estava fazendo ali, àquela hora
da noite.
Ou talvez ele já soubesse.
Talvez tivesse sentido o cheiro do sangue.
Ficamos ali, olhando um para o outro, ambos imóveis, por
alguns segundos. Então o gato levantou-se e começou a caminhar em
direção ao muro. Com um salto gracioso, escalou a parede. De cima
do muro, olhou novamente para trás, na minha direção, como que
para ter certeza de que eu ainda estava ali.
Então pulou para o outro lado.
Eu continuei olhando para o ponto em que ele havia estado por
um instante. Depois, continuei a cavar.
***
Jennifer era uma menina bonita, de cerca de dezesseis anos. Os
jornais mostraram sua foto várias vezes. Era uma cidade pequena, e
o desaparecimento de quem quer que fosse era uma notícia realmente
extraordinária.
Mas, por mais que a polícia e o jornal se empenhasse, a
garota não foi encontrada. Nem um sinal dela.
Martha me contou que conhecia a menina de vista. Ela estudava
na mesma escola em que estava lecionando.
Por fim, uma colega de Jennifer acabou contando que ela havia
lhe dito que tinha planos de fugir de casa. Isso acabou por esfriar
um pouco os ânimos, e o assunto foi esquecido, apesar de ninguém
ter encontrado uma única pista sequer do paradeiro dela. Nem um único
telefonema havia sido dado para a família.
Mesmo assim, o interesse no caso diminuiu, até o ponto em que
não se falava mais nisso.
Até o mês seguinte, quando a segunda jovem desapareceu.
Novamente na última quinta-feira do mês. A noite em que
Martha estava no grupo literário.
E desta vez, a garota era aluna de Martha.
***
Meus braços agora estavam começando a ficar pesados e
doloridos com o esforço.
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