Segredos

 Douglas Tavares de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0035]
[Autor:
Douglas Tavares de Araújo]
[Título: Segredos]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 1.020]


A noite estava fria. Um vento gelado soprava do oeste, trazendo consigo nuvens negras de chuva que encobriam a lua cheia. No quintal, grãos de areia e folhas mortas eram agitados de uma lado para o outro, em redemoinhos que pareciam ter vida própria.

Contudo, eu não sentia frio. O esforço físico de cavar a cova de minha própria esposa mantinha meu corpo aquecido.

Com esforço, finquei mais uma vez a pá na terra batida, ajudando a enfiá-la na terra com o pé. Meus braços já começavam a doer. Eu não estava acostumado a este tipo de coisa.

A cova já estava quase na profundidade ideal. Mais um pouco, e estaria tudo terminado.

À minha direita, do outro lado da macieira junto à qual eu estava cavando, jazia o corpo de minha mulher, envolto em um lençol branco. No local onde o lençol cobria sua cabeça, uma mancha vermelha de sangue se espalhava sobre o tecido branco. Enquanto eu olhava, uma rajada mais forte de vento fez com que uma ponta do lençol se soltasse, descobrindo seu pé direito. Ela estava usando o sapato branco que eu havia lhe dado em seu último aniversário.

Meu estômago se contorceu em protesto contra aquela visão. Sentindo o gosto de bile em minha garganta, desviei o olhar e continuei a cavar.

Eu sabia que tinha feito o que precisava ser feito. Não havia outra saída a não ser aquela. Eu havia feito o que tinha de ser feito.

Mesmo assim, um vazio parecia crescer dentro de mim, muito maior do que a cova que eu estava cavando.

Fechei os olhos por um instante, e finquei novamente a pá no solo de terra batida. Respirei fundo.

Estava quase acabado.

Eu tinha feito o que precisava ser feito. Se eu não o fizesse, nossa vida iria cair em desgraça.

Abri novamente os olhos.

Enquanto continuava a cavar, meus pensamentos voaram para longe, para quando tudo começara.

***

 

Martha e eu nos mudamos para esta cidade sete meses atrás. Essa mudança foi de certo modo totalmente inesperada para nós, pois aconteceu em função de uma transferência que eu recebi para vir trabalhar na filial da companhia naquela região. Eu digo que foi de certo modo inesperada por que não tivemos nenhum aviso prévio de que iria acontecer. Contudo, não foi em momento nenhum indesejada. Para falar a verdade, já fazia algum tempo que eu e Martha sonhávamos em deixar a cidade grande e nos mudarmos para algum lugar mais pacato, no interior.

E, de repente, nosso sonho se realizou.

A primeira coisa que fizemos foi comprar esta casa. Uma casa modesta, mas também não muito pequena, um lugar onde pudéssemos ter algumas crianças em um futuro não muito distante. Uma casa com um quintal grande, em que as futuras crianças pudessem brincar. E a macieira no meio do quintal deu um toque especial àquilo que já havíamos gostado.

Logo nos mudamos, e Martha estava animadíssima. Em dias, já tinha a casa toda arrumada, e nos sentíamos perfeitamente à vontade. Até parecia que sempre havíamos morado ali.

Menos de um mês depois, ela me contou a novidade: havia conseguido um emprego como professora de inglês em uma escola local. Eu achei aquilo ótimo. Assim, ela podia se distrair, e ainda ajudar um pouco no orçamento familiar.

Alguns dias depois, ela começou suas aulas. No escritório, tudo corria de vento em popa. Parecia que tudo estava como devia ser.

Na semana seguinte, Martha me contou a respeito de um grupo de estudos literários que havia na escola. O grupo se reunia sempre na noite da última quinta-feira do mês, para ler e trocar experiências literárias. Como Martha sempre gostara de escrever, se interessou de imediato. Eu, é claro, a incentivei a participar.

Fazia apenas dois meses que Martha estava participando do grupo quando a primeira jovem desapareceu.

Seu nome era Jennifer.

 

***

 

Um ruído me fez parar de cavar por um momento. Olhei em todas as direções, procurando localizar de onde viera o som. Meu coração disparou dentro do peito.

Um segundo ruído atraiu minha atenção para o canto mais escuro e mais distante do quintal. Forcei a vista, tentando enxergar alguma coisa, mas não consegui ver nada.

Então, como que por mágica, meus olhos se acostumaram à escuridão e eu o enxerguei.

Um gato. Totalmente negro.

O animal estava imóvel, me observando. Certamente deveria estar imaginando o que aquele homem estava fazendo ali, àquela hora da noite.

Ou talvez ele já soubesse.

Talvez tivesse sentido o cheiro do sangue.

Ficamos ali, olhando um para o outro, ambos imóveis, por alguns segundos. Então o gato levantou-se e começou a caminhar em direção ao muro. Com um salto gracioso, escalou a parede. De cima do muro, olhou novamente para trás, na minha direção, como que para ter certeza de que eu ainda estava ali.

Então pulou para o outro lado.

Eu continuei olhando para o ponto em que ele havia estado por um instante. Depois, continuei a cavar.

 

***

 

Jennifer era uma menina bonita, de cerca de dezesseis anos. Os jornais mostraram sua foto várias vezes. Era uma cidade pequena, e o desaparecimento de quem quer que fosse era uma notícia realmente extraordinária.

Mas, por mais que a polícia e o jornal se empenhasse, a garota não foi encontrada. Nem um sinal dela.

Martha me contou que conhecia a menina de vista. Ela estudava na mesma escola em que estava lecionando.

Por fim, uma colega de Jennifer acabou contando que ela havia lhe dito que tinha planos de fugir de casa. Isso acabou por esfriar um pouco os ânimos, e o assunto foi esquecido, apesar de ninguém ter encontrado uma única pista sequer do paradeiro dela. Nem um único telefonema havia sido dado para a família.

Mesmo assim, o interesse no caso diminuiu, até o ponto em que não se falava mais nisso.

Até o mês seguinte, quando a segunda jovem desapareceu.

Novamente na última quinta-feira do mês. A noite em que Martha estava no grupo literário.

E desta vez, a garota era aluna de Martha.

 

***

 

Meus braços agora estavam começando a ficar pesados e doloridos com o esforço.

 

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