Jornada de Besteiras

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0032]
[Autor: Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título: Jornada de Besteiras - O Conto]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 5.550]

PARTE I

— Comodoro-Almirantiiii!!!...

Kirk olha meio atravessado seu novo e um tanto afaunado Ajudante-de-Ordens,
metido em seu uniforme ultra-apertado que um dia pertencera à Janici (jaz
aposentada e canonizada); logo agora que retirara literalmente toda teia do
diário de bordo, pretendendo, inclusive, após uma seção de gargarejos e
pigarros, arriscar um gemido-teste pra gravação na fita K-7, reaproveitada de
karaoquês passados.

— Droga, que é dessa vez, filho? - exasperou-se.

— Filha - contra-argumentou o suboficial.

— Heim!?

— Sou do planeta Fresk, senhor – o outro desmunhecou descaradamente e sem
culpa, iniciando uma elucidação sem que lhe solicitassem:— Há muitos éons,
colonos foragidos da Terra, fugindo de uma crise virótica qualquer, e
objetivando o paraíso que não fosse Éden, descobriram Fresk, na época habitado
por gigantes cabeludos <in bruti>...

Kirk revirou os olhos por baixo das lentes rachadas dos óculos de grau
elevado, enquanto Spock tossia fracamente para chamar a atenção do 'rapaz-moça' que pisava fortemente em seu pé reumático, sem contudo obter êxito nessa tarefa, a não ser na expectoração resultante.

— ...como já tinham know-how da coisa na Terra,- continuou didático,
inoportuno e apaixonado(a),— não lhes foi difícil manter uma amizade estreita e
calorosa (grande e pungente!) com os nativos, convivendo assim, simbiótica e
pacificamente, desde longa data, naquela zona estelar; nesse novo mundo, com
carência de 'fêmeas de fibra', minha opção sexual foi simples carência
evolutiva...

Kirk sentiu um aperto no coração-plástico de primeira geração. Se ele ou
ela não fosse sobrinho(a) ou o-que-quer-que-fosse do seu superior hierárquico,
talvez já o houvesse atirado porta à fora com um pé na bunda rebolante e
ocupado o lugar de Checov no controle dos faisers, praticando ele mesmo
tiro-ao-alvo, desmantelando átomo por átomo, genes por genes, galho por galho,
do baitola blablablante!!

Foi tomado de nostalgia: Áureos tempos àqueles em que não hesitava!

— Comandante Spock deseja-lhe falar, senhor!- finalizou.

— Já sei disso a um episódio! Se você tiver a gentileza de dar um passo
para o lado e tomar "chá-de-sumiço", talvez ele tenha chance de recuperar a
circulação de seu sangue verde e talvez, repito, talvez nem o mate... - olhou
de soslaio, preocupado, para o Oficial de Ciências que respirava
estertorantemente utilizando ioga vulcano de 10º Dan, tentando eliminar o tom
roxiforme de sua pele auxiliado por um creme umectante biologicamente adaptado para ele, porém tão cheiroso quanto as flatulências de um bode alimentado exclusivamente de repolho e salada de vermes marcianos: — Sente-se melhor, talvez queira um sonrisal??

Kirk acendeu um fósforo e murmurou em acréscimo, o som nasalizado devido ao
nariz comprimido pelo polegar e o indicador:

— Por mim, me satisfaria com uma máscara de gás...

— Uff! - fez o vulcano, — Não, Kirk amigo, a dor é necessária para o bom
funcionamento de sua máquina orgânica. Nunca funcionei tão bem...

Ouviu-se uma risada plena em sarcasmo mordaz.

— Sei, orelhudo. <Ajuda a lubrificar suas engrenagens>. - McCoy largou
ostensivamente um bonzo no console de Kirk, que mais rápido que as vistas
alcançassem a dobra máxima, engoliu-o juntamente com um copinho de água
mineral para facilitar sua difícil digestão: — Calma, Kirk! Não esqueça de
mastigar..., bom rapaz!! Você sabe que na Zona Neutra as 'rações' são
limitadas.

— Magro, eu mais que ninguém, durante todos esses rolos de filme
teoricamente aproveitados, sei que você adora satirizar os outros. Mas, por um
minuto apenas, já reparou no novo soalho da Ponte?

Spock, como concessão única ao seu expressionismo caricatural largamente
difundido pelos pasquins humanos, piscou uma das vistas (quiçá tivessem
despencado por conta própria), gaguejando à sua maneira, almejando, ainda sem
sucesso, interferir na conversa.

— Que soalho?!

— Justamente, 'M-a-g-r-o'!! Quando muito só vê o papel de parede escroto ou
os rabos-de-saia que passam por você, desfilando no seu horizonte rotundo, de
resto ficou tudo eclipsado por uma gravidez permanente.

— Ride palhaço, ride seu velho decrépito! Sabe muito bem que minha
momentânea anomalia é em função de um mal contraído em Bífidus - alisou seu
farto ventre com beligerância, — Para seu governo, seu aspecto não é menos
jocoso...  — Ao menos continuo no comando dessa joça, porra!!!

Para confirmar suas palavras, no que dizia respeito a "joça" (a porra ficou
para outro capítulo), toda nave gemeu em seus alicerces e rebites, como um
moribundo soltando gases na cova; adesivos se desprendiam em toda parte e
pregos voavam pelo ar como petardos doidos atirados por uma xipoca de
repetição, soltando os pontos meticulosamente catados e cerzidos em todos os
quintos dos universos, com arames enferrujados se desfazendo aqui e acolá,
idem.

Era o caos.

— Por Spielberg! Que foi isso...

Kirk se agarrava na poltrona que se desprendera do solo amarrada como fora
com barbante de padeiro de má qualidade, ambos (ele e o 'troninho')
revoluteando num dueto bizarro entre as outras sucatas que era sinônimo de tudo a bordo. Diversos Alferes tiravam as botas e as luvas de serviço para correrem ao longo das paredes, tentando tampar os orifícios por onde saia o ar viciado da Ponte de Comando, dramaticamente transformada num queijo suíço ralado. Tal gesto de bravura insana era incentivada por dúzias de pistolas portadas pelos membros da Segurança, que quando atiravam (e isso era freqüente), aumentavam ainda mais os buracos em número e diâmetro.

— Eu tentei avisá-los, mas vossos desacordos ilógicos impediram meu arbítrio
nessa peleja... - Spock tinha acabado de ler "futebol sem mestre" e indexara em
seu vocabulário invejável, muitas vezes ininteligível, alguns termos novos,
aproveitando a oportunidade para mostrar seus conhecimentos nos rudimentos do esporte dos antigos bretões.

— Diabos te carreguem, Spock!! Esqueça suas ruminiscências para outra hora
e me ajude aqui...!

McCoy estava entalado num verdadeiro rombo no casco, esbravejando com o
chefe da Segurança capo, que ajudado pelos Alferes aliviados, puseram-no
oclusado nele tal qual rolha onde nem todos os dedos disponíveis fariam
qualquer efeito.

Spock abençoou os deuses vulcanos do Templo de Golp, inexplicavelmente
caindo de joelhos voltados para a Meca de Vulcan, numa prece ligeira, mas
fervorosa, entremeada por uma mixórdia de tiques, salamaleques e gestos
satânicos. Levantou-se tão rapidamente que pareceu ter recobrado a juventude
perdida num anterior episódio, em Gênesis:

— ARRIBA!!!...

— Nãooooo..........

* * *

McCoy se debatia inutilmente no buraco, espadanando com as pernas do lado de
fora, tentando manter afastado um tubarão metido num escafandro espacial e
igualmente metido a engraçadinho, enquanto via Spock crescer a sua frente,
transfigurado, correndo em sua direção no intuito de, como diriam os psicólogos
e zoo-biólogos da Frota sobre o ocorrido "...no acumular dos anos, de
empurrá-lo de vez para o abismo estelar" e, nesse exclusivíssimo caso, para as
mandíbulas pressurizadas do tu-tubarão (com direito a trilha sonora e tudo).

— Lembra-se das vezes que lhe salvei, livrei-o daquelas megeras piranhentas
do planeta Seduza; tirei-o obstinadamente das garras da mulher-pantera de
Krishnamürti quando você perdeu totalmente a razão e a assexualidade?!...

— Sim... - Spock gargalhou como nunca antes alguém o ouvira gargalhar,
enquanto insanamente bradava:— SIM, EU ME LEMBRO. SIM, ME LEMBRO!!!!!

Se possível seus esforços para vencer o atrito do corpo do agora
paquidérmico Médico de bordo redobraram, entupido como elo único entre o ar e o
vácuo. Uma vigia opaca constituída de gordura de amendoim impenetrável.

— Kirk...Irk-irk... - ofegou, num frenesi salvador de socorro:— Faça alguma
coisa! Esse velho senil caducou de vez...

O comandante, num rasgo de audácia e hombridade ímpar, reuniu um verdadeiro
exército atrás de si. Vendo o vulcano, amigo de tantos <thrillers>, espumando
baba ácida qual cão raivoso de Régulus-Appolinari, automaticamente preferiu
engrossar à retaguarda do grupo, tornando-a mais inexpugnável que nunca!

Corpos voavam para todo canto afastados pelo "Toque de Vulcano" ; onde
caíam, ficavam. Os que milagrosamente se levantavam corriam qual condenados
para o elevador que, desnecessário dizer, não funcionava, pulando no buraco
vazio sem hesitação...

Kirk, vindo de trás, na covardia mesmo, aproveitando do massacre
generalizado e indiscriminado, conseguiu segurar firmemente a cabeça do vulcano utilizando da mesma técnica que este outrora lhe ensinara, porém com sutis "toques de modernidade", nocauteando-o com um pesado trilho de aço.

Imediatamente começou a agir:

— Minha mente, sua mente. Meus pensamentos, seus pensamentos. Meus
desejos, meus... hummm... dese... desejos... Sim, claro!!! Até que a idéia
não é má!?>

Horrorizado, McCoy, já mal sentindo as pernas que, na teoria e na prática,
não deveriam existir conjuntamente com todo o resto, viu Kirk seduzido pelo
lado negro e míope da Força; a insanidade do vulcano, mesmo desacordado e
ensangüentado, atingira-o em toda sua loucura cinética!

— Ó, dor, ó vida! Que mal eu fiz... - lamuriava-se o médico, aguardando em
prantos seu destino fatídico, o Golpe Final.

Spock, nesse meio-tempo, recobrara a razão e aparentemente esquecera que
sabia usar o domínio do "Toque" . Averiguando a extensão de seu próprio
hematoma, aplicou o rotacional da porrada, fazendo Kirk, pelo torque, ocupar o
lugar no chão antes ocupado por ele mesmo.

Com grande argúcia e lógica, a exopersonificação da calma, deu ao médico um
sinal de despreocupação que este interpretou de maneira erroneamente dúbia, ao sentir uma lambida áspera em sua bunda que lamentavelmente cessara a emissão de 'gases nobres' - não mais fazendo a Enterprise mudar de curso - tentando passar a impressão de um corpo apodrecido e não viçoso, o que devia repelir acabou atraindo.

Spock correu ao orelhão da esquina com a mesma fleuma de sempre e fez
ligação direta com a Carpintaria de Bordo, outrora chamada de Engenharia.

— Senhor Scott?- zurrou Spock.

— Alô, alô!

— Deixe de sonoplastia na linha, Sr. Scott, a coisa é séria...

— Aqui também, Sr. Meu bem! - interrompeu o outro:— Temos princípio de
incêndio nas cinco caldeiras principais, sendo que duas delas estão cheias de
feijão mexicano até o topo, "cortesia" superfaturada por nosso querido
comandante num entreposto de Nova Caledônia; essa desgraçada de válvula vai
acabar me pondo louco! O vapor aqui é tanto que aproveitamos para fazer banho
turco antes da feijoada queimada...

— Partilho de sua desgraça. Feijão de qualquer procedência me dá azia e pum
na certa, mas ouça: é partindo da Sala de Comando que essa joça, ou outro
sinônimo que queira dar, terá alguma salvação. Mande-me algumas toras para
segurar o teto que está prestes à ruir e algumas tábuas e pregos (tachinhas
estão fora de cogitação) para vedarmos os buracos que são vários, como também necessito de alguma massa de pedreiro. Não me importo como vai se "virar" pra conseguir.

"A propósito, existe por aí alguma rolha de champagne <made in> Itu?"

— Não, minhas garrafinhas de wiskie só usam rolha-pepsi. É muito
mais prático na hora de "entornar".

— Paciência! Acho que o bom doutor terá que habituar-se ao resfriado...

PARTE II

— Diário de Estibordo, calendário desta zorra 20/10/86: <Meu querido diário,
estamos numa merda de dar dó, vagando sem rumo na Zona Neutra contra nossa
vontadezinha (...), impiedosamente atacados por três Ufos...> – a quebra súbita
da ponta de grafite de seu cotoco, otimisticamente chamado de lápis,
interrompeu uma linha de raciocínio que prometia se transformar numa eterna
curva, voltando sempre ao começo, ao fim, ao começo...

— Confilmado, sil. São naves Klingon de polte-médio, classe pilanha –
intellompeu, isto é, interrompeu Sulu, tentando esconder inutilmente um
hematoma que fazia seu já estreito olho ficar mais fechado do que o natural.

O navegador com complexo de Cebolinha abaixou a régua náutica sobreposta à
tela de profundidade que nada mais se revelou do que a ocular de seu binóculo
caolho:

— Colleção, os instlumentos acusam medição supelior: a classe na veldade é
King-Kong!!

— Ó, desgraça! – gemeu MacCoy num canto, convertido (com muita boa vontade, é claro) num farrapo humano, tentando se ajeitar como podia debaixo dum encerado Locomotiva.

Kirk olhou pensativamente, com grande margem de desconfiança para o suporte
de sua poltrona afixada com cimento feito as pressas, na inexistência de água
corrente, tendo como liga cuspe e ácido úrico, no que a tripulação ficou feliz
em aliviar suas bexigas e ele muito mais em contar novamente com seu
'troninho'.

— Japa-China Troca-Letra? – deu um teco com elástico em Sulo para chamar-lhe
a atenção dividida com seu ábaco-game-4-Indus.

— A China fica do outlo lado do Univelso, como quel que vá pala lá, sil?

— Só invoquei sua nacionalidade dupla...

— Que dupla nacionalidade? Sou Mongol!!! – seu orgulho estava lesado, ainda
que seus pais o tivessem abandonado sem Certidão alguma na porta dum puteiro
licenciado da Frota às margens do deserto de Gobi e não pudesse provar muita
coisa à partir de seus traços genéticos. Como exames de DNA custavam uma
fábula...

— Mongolóide? – a expressão canastrona de Kirk reprisou em seus lábios o que
ia em seu íntimo.

— Mongólia, Kublai-Khan, O Glande Conquistadol!

— Ele também era? Interessante, isso explica muita coisa, principalmente
com uma alcunha como essa tal de 'Glande'... – resolvera mudar de assunto ao
ver que a educação oriental tinha limites: - Estimativas, Sulu?

— Só zelos à esquelda, sil! – desesperou-se.

— Ótimo, ainda temos uma chance danada de boa.

Spock parecia que estava com úlcera gástrica supurada naquele momento
crítico, quando girava os polegares junto ao cenho enrugado, traindo sua
velhice, além duma pronunciada calvíce, atraindo até mesmo a atenção do pobre
MacCoy, que condoído pela crescente expressão de cão-sem-dono, atirava-lhe a
meia distância um bonzo certeiro em seu olho esquerdo.

— Coitados. Vamos ter de usar nossa arma-secreta derradeira... – o
comandante lamentou-se.

— ÀQUELA!!!? – veio um coro de vozes bem treinadas, em dissonância, entoado
pelo mesmo grupo soul que cantava jingles na campanha "doe seu cérebro para a
Ciência, pois nós já doamos o nosso (em vida)...", ainda que não exatamente
para o "bem da humanidade".

— Lamentável, não? Mas eles pediram, chegaram mesmo a implorar por isso!!

Kirk ajeitou melhor seu para-quedas que fazia pressão no 'duck', seu botinho
inflável de borracha, que pressionava por sua vez seu facão de selva e os
demais apetrechos de sobrevivência ao set de filmagem (...) e entrou em
contato com a Catapultaria, outrora, com muito boa vontade, tida como
Artilharia:

— Ativar arma-secreta 1-2-3, já! – gritou, botando a cabeça do lado de fora
da porta.

Após cerca de oitocentos metros de corredores e salas sombrias de ida, sua
voz retransmitida por 'ecos humanos' estrategicamente colocados em cada
esquina, mais oitocentos metros de corredores e assombradas salas e bocas
derruídas de volta, ele, ligando ao máximo seu aparelho de surdez, conseguiu
ouvir alguma resposta:

— Sim, direto no curso une-dune-tê, senhor!

— Ótimo! – como se felicitara per si, logicamente não houve comoção por
parte dos mensageiros.

Sulu tirou o binóculo de Checkov sem se preocupar que o pescoço deste viesse
à reboque, forçando uma crescente e mortal asfixia, transformando a palidez do
russo num "saudável" bronzeado mediterrâneo.

— Senhol, A-3, C-9 e L-7!... – começou a pular alternando as pernas.

— Deixe de enigmas, Japa. Desembuche logo!

— Pensei que tivesse compleendido, sil: Alvo, alvo e alvo!

Como Spock continuasse etéreo, ainda nas proximidades, e MacCoy por seu
turno não mudasse a face ranhenta do disco 'estéreo', toneladas de bonzo
atingiam infalivelmente o vulcano, agora soterrado sob a massa
pseudoalimentícia, que consistia na ração de bordo sabor fígado levianamente
desperdiçada.

— Hurrura, ligue-me imediatamente com o Comandante Klingon!

— Senhor, vai demorar algum tempo, senhor... – disse, entre apreensiva e
desejosa que Kirk revogasse a ordem.

— Não têm mosquito. Eu espero. O tempo é meu aliado.

"E nosso carrasco...", completou ela em pensamento, já que sua boca estava
sendo usava para praguejar um palavrão muito comum no Bronxs nos anos 90 do
século XX.

Hurrura suspirou e deu-se por vencida, abrindo violentamente, como que
revoltada, a porta que levava ao porão onde estava estacionada a nave auxiliar,
isso não sem uma pequena luta contra a maçaneta emperrada combinada com uma corrente com segredo que perdera aparentemente em um de seus bolsos, correndo para vasculhar em sua bagg atulhadíssima de cosméticos e sua coleção de walkmans.

Ela, depois de ter subido no Teco-Teco, apelido afetuoso e lisonjeiro do
Helijato movido à gás de cozinha, posto que o galhardo <Copérnico>, o mais
inteiro bote da <Enter&pise>, fora cedido como sucata aos Ferros-Velhos Unidos
da Colônia Fedor, lá vinha Hurrura de volta, puxando os três fios que ligara
'clandestinamente' na parabólica inimiga, ligeiramente grogue pelas descargas
voltaicas pouco acima do limite que se acostumara a bordo, os cabelos de seu
lindo escalpo artificial espetados no ar, onde várias moscas espaciais jaziam
crestadas em atitude suspeita.

— Seu Chacal, - introduziu Kirk – Filho-de-um-cão-que-se-usa-em-sanduiche!!
Está pronto para capitular? – foram suas exatas e imortais palavras ao copinho
preso ao barbante ensebado e distendido ao máximo, argüindo o porta-voz de seus inimigos.

— Heim?! Heimm!? Heimmm?? – ecoaram a tríade Klingon, tentando ver o que
um hot-dog tinha de semelhante com eles.

Spock ainda tinha a esperança tênue que esta fosse a 'arma-secreta
derradeira' do seu comandante: talvez conseguisse fazê-los morrer de tanto rir
ou enlouquece-los tal como fizera consigo! Mas o orelhudo não visitava a Terra
e seus arredores eleitorais com freqüência, portanto, não poderia saber que a
perfídia era muito mais vasta e patológica que poderia presumir...

— Dou-lhes um minuto inteiro para darem o pinote, isto é, após um breve
empurrãozinho à ré: Desculpe o transtorno, mas nosso motor está um pouco
afogado, - tentou ser magnânimo.

Os Klingons entreolharam-se e a um dar de ombros generalizado prosseguiram
na confabulação, esquecendo-se aparentemente do comandante da astronave
humana. Kirk, obviamente irado, interpretou aquilo como descaso e, sem exitar,
revidou na mesma moeda:

— Detornar arma-secreta, já! – gritou novamente da porta, ou seja, do
batente, poia esta já ruíra há tempos.

Três pavios acesos cortaram a tela principal colada com durex na velocidade
da luz-pólvora, incrementando uma mudança drástica na velha e ultrapassada
concepção de tempo/espaço, vácuo/éter, abrindo-se uma "curvatura de escape", enquanto em uma purrinha se decidia quem por ventura reacenderia qualquer dos 3 fachos que eventualmente, por falta da auto-combustão, falhasse, e detornarima a arma-secreta bizarra, presa ao casco das naves inimigas.

— Hurrura, amiga velha, volte a chamá-los daqui a um minuto-cúbico cravado
na ampulheta-relógio! – indicou a estrutura combinada, duvidosa, que oferecia o
minuto como a maior precisão possível de qualquer intervalo de tempo
infinitesimal.

A Oficial de Comunicações fazia horrores com seus trifásicos desencapados
mas não fazia inimigos; findo o prazo estipulado, saltou na cadeira elétrica
com mais este choque; seu belo e retocado corpo servindo de condutor para não
tão belas e retocadas palavras...

— Isso é humilhante, humano!!! Está (censurado) violando com sua Convenção
de Conduta em Combate (censurado). (censuradocensuradocensuradocensurado) e irá à Corte Marcial de sua Federação por isso, seu filho-da-puta, merda,...,
(felizmente escapou à censura prévia)!

— É o que você pensa, se pensar é atributo comum e a melhor tradução para o
ato de defecagem mental de vocês! O mundo mudou e nós com ele. Na língua dos Poeta e Profetas Mortos: <Ces't la vie, mon chacal, la guerre tut vale>. Vai
procurar sua turma!

E após aquela verborréia, arrebatou à plenos pulmões, ou 1/3 daquilo que lhe
sobrara devido o fumo constante de tabaco falsificado:

— Capitula ou não? – sempre fora um ejaculador precoce, o cheiro da vitória
deixava-o sempre arvorado, sem chances de qualquer prazer a dois.

— Vamos negociar...

— Pode esquecer, Klingon – e diplomaticamente emendou: — A propósito, deixei
minhas miçangas e espelhinhos em casa e um batonzinho que ficaria uma gracinha em vocês. Tenho uma proposta melhor a fazer...

— Par você fica, ímpar eu não vou?

— Tadinho!

"Deve ser psicólogo", pensou com seus zíperes enferrujados, "faz guerra de
nervos para ganhar tempo. Está tramando alguma cachorrada..."

Enquanto tentava convencer o Grão-Klingon a capitular nos seus termos,
rabiscava sem olhar uns garranchos – que mesmo normalmente tinham certa
dificuldade de serem lidos – no verso do guardanapo do Bob's in Orbit, fazendo
uma bolinha e atirando no submerso Spock.

Após traduzir o hieróglifo cromático kechupiano mostardiforme e nasal, que
lhe subverteu o espírito e levou-o às raias da náusea, o vulcano cometeu o
milagre de praticamente decifrá-lo:

<"AVISE AOS FRANCO-ATIRA(BORRÃO) QUE O IN(MELECA) MANDOU SAIR SEU H(MAIS MOSTARDA) PARA DESTRAVAREM A ARMA(KETCHUP)TA DO CASCO...">

O resto do escarro não deixava espaço para qualquer tradução, que o vômito
de Spock só prejudicou o processo.

Como que prevendo os pensamentos vagos do vulcano, limpando-se com as costas da mão, vinha o anexo, na forma dum lenço assoado:

<"ARMA-SECRETA (...) – uma ogiva ligada a um mecanismo temporal termoirradiante que emite feixes duros de ondas hertz conjugada em rádiodifusão televisiva via subéter...">

O desfecho mais uma vez se perdeu num produto escatológico ímpar, no caso
par (não se esqueçam do guardanapo).

— Ele é doido de pedra! – gritou Spock ao perceber o que era a tal arma: —
Quer invadir a privacidade das naves klingons com Programa Eleitoral Gratuito,
sem intervalos comerciais, com direito a reprise dos piores momentos, ou seja:
Reprise Total!!!

— Pssssssssssssssssttt! – fez Kirk com o canto do lábio esquerdo, enquanto o
direito era usado na difícil e ambidestra 'arte' de colar uma Carta Ulmimatum
que a infeliz Hurrura, Oscar de melhor atriz coadjuvante e canonizada pela
Light, teria de entregar em mãos, ou patas, ou o que fosse mais assemelhado,
com seu veloz Teco-Teco rebaixado e envenenado.

Spock decidiu para sua saúde mental e adjacências, eclipsado por MacCoy, que
abrira 2 buracos à la poncho no toldo tipo Locomotiva (espaço esse servindo de
mangas no 'uniforme' auto-confeccionado), escafeder-se por um dos muitos dutos artificiais ainda existentes, ouvindo seus gritos ecoando dentro dos orifícios de ventilação há muito inoperantes.

De fato o inimigo ferrenho tinha em mente uma falcatrua da grossa. Aquela
terrível e fulminante e mortalmente insana e desleal arma tinha que ser
removida dos cascos urgentemente, custe o que custasse em termos de vidas e
equipamentos. Não tinham opção mais viável: Das duas uma, ou morreriam de
fome, pois ouvindo aquela merda ininterruptamente, lutar era impossível,
ficando indefinidamente sitiados e fragilizados, ou sucumbiriam de sono, que
caso acontecesse, seriam abordados pelos ultra-leves da Federação...

— Deixe-os tentar, deixe ao menos pensar que podem – murmurou Kirk,
antevendo o contra-golpe previsto por seu pai-de-santo favorito, que
aconselhara-o num terreiro de Candomblé quando visitara o cafofo no planeta
Brasil-Axé — Tenho uma pequena surpresa esperando...

Promessa feita, aconteceu o inevitável. Ao primeiro movimento para soltarem
a cola que servia para unir o dispositivo ao casco, um outro dispositivo em
cascata, bem mais sensível que o anterior, fora acionado! O berro da equipe
alienígena chegou até eles vencendo, inclusive, a própria ausência de ar no
vácuo.

Sorridente, o comandante voltou a contemplar o derrotado inimigo que gania e
salivava miseravelmente:

— Você ganhou!! Deixe a mim a aos meus tripulantes em paz...

— Só se jurar que vai dar na pata em suas carroças e desaparecer daqui para
nunca mais ter de ver seu feio focinho outra vez!

— Juro pela Dívida Externa Galáctica de sua Federação! Não é isso que
queria ouvir? – uivou derrotado. — Adeus, humano. Seus métodos de luta estão
envelhecendo juntamente com todo o resto!

Kirk, ainda encucado com aquilo, voltou a realidade quando sentiu as
bofetadas de MacCoy, que aparentemente descontava tudo pelo que tinha sofrido, sem esquecer os juros e uma certa comissão de vinte por cento.

— Você estava delirando... – explicou com a face da mão inchada de tanto
bater e um sorriso de satisfação escrito em seus lábios, enquanto ensaiava
outro soco.

— Estava não! – protestou com veemência o interpelado, segurando o colarinho
estilizado do 'uniforme' do médico.

— 'Tava sim! – bateu-lhe na testa com o gravador do Diário para livrar-se do
enforcamento: - Tenho provas. Quer ouvir?

— Não há necessidade disso. Ninguém acreditará num gravador sem pilhas!! –
mas acabou sendo emoção demais para ele, que parecia não sentir mais saraivadas de golpes do médico, prejudicando um pouco a performance sadomasoquista.

— Não desmaie ainda! – gritou Spock, vindo trotando em direção ao saco de
pancadas — Não antes de explicar como pretende neutralizar os klingons sem a
necessidade dos franco-atiradores...

Isso funcionou como uma injeção de ânimo para o combalido comandante e
aprendiz de sparring, afastando o médico com um soco amistoso em seu baço,
resvalando pelo fígado, e concluindo por quebrar-lhe duas costelas.

— Elementar, amigo orelhudo. Não ia dizer, mas já que insiste tanto...

"Na verdade tais bombas nunca existiram. A real arma-secreta estava
aguardando a aproximação dos klingons, vindo desarmar uma alegoria; milhares
de adestradas pulgas-pulsares, pulex irritans pulsantis, pularam do
artefato-bomba para eles, vibrando na razão de 9x104 v/seg, atingindo um
comprimento de onda pensante e atravessando os trajes de vácuo facilmente,
assim como faser quente em carne viva.

"Sabidas como poucas, treinadas por mim para decorarem a Campanha Política
de alguns falastrões do passado, deram seu recado! Já imaginou ter um bando de
insólitos ápteros buzinando aquilo num sussurro constante ao pé de seu ouvido
médio?? Já pensou nas picadas na proporção de duzentas por centímetro
quadrado?"

— Isso é o Armagedoom...

— Pois pensou correto, como sempre! Engenharia genética incrementada aos
dossiês secretos dos campos de concentração do Congresso Americano dá nisso,
muito desconforto aliado a muita dor! É como dizia meu avô: Os fins
ridicularizam os meios!!

***

Porém a situação estava longe de ser ideal e de encontrar-se de todo
controlada. Na debandada Klingon, ainda permaneciam atolados no vácuo, no Nada maior que era a Zona Neutra, que em 1o lugar não deveriam ter adentrado, não fosse Sulu emborcar de um gole vários saquês-cola destilado secretamente por ele em alambiques clandestinos e passado em porções 'homeopáticas' de 300ml à toda tripulação, do Timoneiro ao 3o Grumete; ou seja, todos que pudessem dispor duns míseros trocados ou duma Promissória pronta para ser executada na 1a oportunidade, tornando a Enterprise a primeira nave a ser tripulada exclusivamente por bebuns do Universo.

— Todos em seus postos, cambada – gritou Kirk, tomado dum repentino
entusiasmo — VAMOS ZARPAR!

Spock ficou novamente em estado cataléptico, como se aquela crose nele fosse
algo assim paranormal.

E o comandante, para seu desespero, completou:

— Não esqueçam que supervisionei a restauração dessa joça, digo, nave, nos
estaleiros, digo, museu, e adaptei algumas engenhocas justamente para tais
emergências.

E procurando ler seu script às escondidas, continuou:

— Scott!!! – gritou já nessa altura habituado, fazendo com que sua dentadura
acertasse o desavisado MacCoy: - Diabos o levem! Onde está esse Carpinteiro
duma figa?

— Aqui - disse o som vindo do intercomunicador extraordinariamente em
condições de funcionamento, conquanto fossem tolerantes com os estalos e
chiados que se ouvia ao fundo. — A gente faz maravilhas com algum barbante
novo, não é verdade?

— Chega de fazer o comercial. Seus homens estão à postos? – cortou, — Estão
instruídos no novo aparelho que acoplei ao Cristal?

— Instruídos sim, senhor. Satisfeitos, não...

— Não pedi sua opinião, seu biriteiro. Agüente um pouco aí, - apontou o
dedo encurvado em forma de garra para Sulu, levando este a saltar como se
tivesse sido surpreendida sua 'Conexão Saquê' com Scott: — Quem não deve não teme...

— Sim, comandante. Glande veldade milenal, mesmo polquê devo e não há como
não temel os cobladoles que estalão na base plontos pala folmalizalem a tomada
de meus imóveis em Blasília... – chorou — É dulo ser especulador assim tão
longe de casa, - lançou um olhar enfastiado na direção de Checkov que se
mostrou inocente, fazendo que não era com ele.

— Deixe dessa conversa para hora do chá! Agora vamos testar "A Geringonça",
certo? – deu a grandiloqüência que o momento exigia, esperando ter convencido o público de seu talento neo-dramático: — Preparado?

— Há segunda opção, sil?? –esperançoso e radiante, indagou o navegador.

— Só a Corte Marcial. Serve? – Com satisfação observou Sulu murchar, para
quedar-se novamente abatido sobre o leme de profundidade, aproveitando para
ordenar: — AGORA!!!

A roda do leme girava feito louca e Sulu com ela, como um trapo aprisionado
num furacão.

— Soltar amarras! Içar vela principal! Recolher roupas do coral!!! –
despejava ordens com a competência dada pela teoria, nunca pela prática.

— Sim... s-s-senhor... – bufou Checkov, seu rosto rubro pelo esforço
despendido na emperrada manivela: — Vela i-i-içada...

— Ligar ventiladores de força ao máximo. Quero potência nesses pedais,
ouviram? – gritou para o resto da tripulação mais azarada do cosmo. — Scott, os
remos já estão OK?

— Afirmativo, comandante; os buracos no casco idem. Vieram com o resto da
'decoração' de combate.

— Ótimo! – felicitou: — Tripulação de primeira, heim?!

— Não há melhor, senhor – veio a voz que estalava forte pelo
intercomunicador que milagrosamente continuava a funcionar. — Pena que tiveram de servir justamente na Enterprise...

— Piada velha! Esta belezinha não é uma nave de 3a classe, e você devia
saber disso.

— Respeitosamente, não pensei <tão alto assim>, senhor.

— Alguém já lhe disse que sua língua grande corre sérios riscos de vida? –
pigarreou, nem se dando ao trabalho de simular exasperação. A verdade era mais
do que óbvia. — Faça como eu, esqueça todas mazelas. Ordene que seus homens remem e tudo estará bem.

— Eles não o farão... – contrariou, sabendo que pisava num terreno argiloso,
mas sem poder ocultar sua real disposição atávica. Era agora ou jamais teria
outra chance: Nunca se perdoaria por não tentar: — É ridículo!

Por mais estranho que pudesse parecer, Kirk não babou como de costume,
mantendo até uma certa fleuma e postura de comando. Mas Scott, macaco velho, sabia que aí residia o perigo...

— Compreendo seu nervosismo e perdôo pela última vez sua indisciplina mas o
assunto é vital; ridículo ou não terão de fazê-lo pelo bem do universo. A
idiotice é tamanha que talvez até resulte!, pode ser que peguemos Deus com as
calças arriadas, quem sabe? - e sussurrou, — Além do mais, está aqui no script,
vê!, página 10, 10o parágrafo...

Houve um intervalo embaraçoso, ao fim do qual Scott voltava a grasnar pelo
abençoado comunicador, tentando mudar um pouco de assunto a fim de ganhar
tempo:

— Que barulho é esse, senhor? Ratos nos canos?? – especulou.

— Hã, esse batuque de gringo?... É só Spock.

O citado jogara-se há muito no chão, socando o soalho com seus punhos
ensangüentados, eliminando todo e qualquer vestígio do piso remanescente.

— Com efeito! Sabia que era rato!!! – riu entredentes Scott, porém ficando
novamente sério ao dar a má notícia. Ainda bem que não estava lá pessoalmente! — Voltando ao assunto agora, comandante: Meus homens fizeram abaixo-assinado e motim, não necessariamente nesta ordem, e dizem que é finito, alegam a seção 'B' de burro, e não há jeito de fazê-los cooperar com... hummm, suas técnicas revolucionárias de Navegação Espacial, senhor.

— Esperava por isso, mas os Roteiristas garantem que dará certo e eu
acredito no Ibope! Que tal dobrar seus soldos, heim? Uma permuta, alguns
dobrões estrategicamente colocados tendem a operar maravilhas com gente
renitente... – Kirk acumulava a função de Tesoureiro da Frota e,
extra-oficialmente, defendia 'um por fora' como Agiota.

— Verdade? – troçou, insubordinando-se descaradamente — Os descontos na
Folha de Pagamento são maiores que a receita líquida. Estão cansados de serem
enganados com isso já vão muito mais de cinco anos...

— De 'líquido' você entende, não é mesmo Scott, seu velho pinguço? Vejo que
também é o Líder Sindical deles! – Kirk fez uma coisa que poucos esperavam
dele: <pensou> por um momento.

São situações difíceis assim que delimitam o joio do trigo, o mau do mal
Comandante, e a situação atual pedia, exigia!, medidas desesperadoras, mas com um certo toque de genialidade somente encontrado em raros privilegiados.

— Vamos resolver essa meleca de uma vez sem apelar para a Justiça
Trabalhista! Essa proposta, tenho certeza, você não irá me negar: Faça o
seguinte, ligue-me ao auto-falante...

— Só se fizer um cone com jornal, senhor... – disse o estarrecido
Carpinteiro.

— Que seja, - respondeu em tom que traía uma estranha melancolia, por estar
sendo obrigado a revelar seus trunfos mais ocultos.

Kirk aguardou que o mago artífice - e Judas nas horas vagas -, improvisasse
outra de suas esquisitices, limpando até mesmo o persistente filete de baba que
escorria farto do canto de sua boca, encharcando o babador. Quando recebeu
finalmente o OK da Carpintaria jogou sua última cartada:

— A todos do remo: Dou ordem expressa de evacuação geral, repito, e não
falo em diarréia generalizada, mas EVACUAÇÃO GERAL!, assim que cruzarmos o
primeiro planeta conhecido nas coordenadas Alfa-Beta!!

E completou em pensamento, arqueando as sobrancelhas de forma maldosa que
"...nesse quadrante, por coincidência, situa-se uma Colônia Penal Grau 3, onde
poderão evacuar a vontade! O papel-higiênico lá é mero produto de expressão
popular..."

Um estremecimento finalizou seu ensaio maquiavélico, enquanto vários pares
de olhos se fitavam boquiabertos...

— Dobla Espacial 9, sil!!!!!!!!!! – engasgou-se Sulu-Cebolinha, contemplando
o painel onde os poucos mostradores que ainda funcionavam tornaram-se
pretéritos também, explodindo ao partirem do zero absoluto a mais infinito.

Com hematoma e tudo seus olhos apertados estavam bem amendoados nessa
altura, quando concluiu:

— Estamos velejando a velocidade supelmalch!! Inclível, o walpstandald
ficou pala tlás... Dilia que ultlapassamos o Espaço e atingimos a efêmela Dobla
do pensamento e continuamos
acelelandoooooooooooooooooooo.....................................................aí!!!!!!!!!!!!!!........

— Magro, socorra Sulu, ele mergulhou de cabeça no painel!

Como sua ordem não fora cumprida, Kirk levantou-se da cadeira e encontrou o
também desacordado McCoy entalado junto a uma escotilha de fuga, e constatou:

— Magro, seu serra-ossos duma figa! É assim que me recompensa após ter
desviado fundos da reforma da Enterprise para seu novo Asilo Lunar, diga-se de
passagem, no qual tenho um percentual tão irrisório por cada gagá que lhe
mando?...

Mas, deixando de lado aquele paquiderme, exultou com um último pensamento:

— Talvez consigamos voltar no tempo novamente!

No que o restante da tripulação soltou uma sonora gargalhada.

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E lá foram eles, audaciosamente (r)indo onde nenhum homem jamais esteve,
pesquisando mundos e civilizações onde só a nossa boa-vontade esteve antes,
pois essa era a missão infinita da astronave(?) Enterprise e seus pilotos(?)
maravilhosos...

Uma homenagem, ainda que pareça jocosa, ao seriado que marcou uma geração e vêm aderindo outras a medida que chegam ao mundo e se identificam com a estória e suas variantes. À momentos felizes que a sátira tenta eternizar, por mais tacanho que tenha sido seu autor em transparecer isso. Obrigado! Nos
encontramos no hiperespaço.

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