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Estavam há duas semanas no espaço. Era a primeira missão de
exploração àquele setor da galáxia e a expectativa em torno do
assunto era descomunal.
Havia rumores sobre a
existência de vida inteligente naquela região. Particularmente, o
comandante da missão não os levava a sério, pois não tinham o
menor fundamento científico. A missão dirigia-se rumo as
proximidades do centro galáctico, uma região hostil em demasia
para proporcionar o ambiente necessário ao desenvolvimento de vida
e possibilitar que esta atingisse o grau de complexidade necessária
a inteligência.
Havia pessoas, como o
engenheiro de máquinas Hassam Lotré, que não oficialmente, é
claro, acreditavam que a missão seria muito mais desafiadora do que
fora previsto. A pesar de todos os relatos serem confusos e das
provas insatisfatórias, algo o levava a respeitar as histórias
contadas pêlos poucos pioneiros que já haviam cruzado aquela caótica
região da galáxia, em sua maioria com o intuito de tornar mais
curta uma jornada comercial.
Naqueles dias como em
muitas ocasiões no decorrer da história humana, não raro, os
primeiros a alcançar os confins mais distantes dos nossos domínios,
eram os mercadores, muitas vezes explorando novos horizontes para
onde mandar colonos que com o tempo viriam a ser suas melhores
fontes de renda.
O comandante Astorm
Crauck's estava analisando pala enésima vez os planos de rota e
reconferindo os cálculos para o próximo salto pelo tachyon-espaço
quando o sinal da porta tocou.
- Entre! - Disse, sem
perceber.
- Bom dia, senhor! -
Cumprimentou o primeiro imediato formalmente.
- Bom dia. Como vão
as coisas? - Perguntou o comandante, continuando a falar sem dar a
Filmor a chance de responder: - Espero que tudo dentro das
expectativas. Avise a tripulação que a contagem regressiva terá
inicio as treze horas. - Falava da contagem regressiva para o próximo
salto que rotineiramente era de três horas. Este salto seria o mais
longo da missão e os levaria a uma distância de apenas quatro mil
parsecs do centro da galáxia. Isso os colocaria na fronteira mais
exterior do agrupamento globular que seria seu objeto de pesquisa.
- Senhor... a tripulação
está apreensiva com o próximo salto. Acredito que seria bom para o
moral de todos se o capitão fizesse um pronunciamento oficial.
Crauck's pensou por
alguns instantes e então concordou.
- Daqui a trinta
minutos. Realmente é uma situação bastante estranha a todos nós.
Dentro em pouco estaremos no limiar de uma região, ainda não
mapeada, onde ninguém virá em nosso socorro caso nos metamos em
encrencas. Eles merecem algumas palavras!
Todos pararam para
ouvi-lo quando começou a falar.
- Senhores... - fez
uma pausa. - Hm! Hm! Estamos a cinco horas do inicio da primeira
contagem (duas, três e até quatro contagens não são tão raras,
devido as rígidas normas de segurança) e espero que a única, com
a ajuda de todos. Ao término dessa contagem partiremos rumo ao
desconhecido. Seremos a primeira missão oficial no setor.
- Mapearemos e
rastrearemos uma região de vinte parsecs cúbicos. Sei que não será
um trabalho fácil. Será duro e perigoso até. Mas lhes asseguro:
Se formos bem sucedidos e tenho certeza que seremos, entraremos pára
a história!" - Enfatizando muito as ultimas palavras.
- Trabalhem com
afinco - continuou - pois o trabalho que realizaremos dentro em
breve é fundamental para o progresso da Confederação Solar e a
consolidação de nossas fronteiras.
"Vamos mostrar
àquele pessoal das Pleyades que a CS é a força suprema da galáxia!!!"
* * *
O salto ocorreu sem
maiores dificuldades no final da primeira contagem.
- Bem... aqui estamos
- comentou o comandante. - Iniciar varredura!
O processo durou
apenas alguns segundos. Então um homem gordo com aparência
desleixada, dentro dos limites em que isso é possível sendo-se um
militar, disse: - Senhor, a varredura indicou 209652 estrelas em
nosso cubo de mapeam ento. Isso representa uma densidade estelar
97,569 mil vezes maior que a existente no setor do Sol ou, em média,
uma estrela para cada 95,396 microparsecs cúbicos.
- Pois bem, vamos
começar!
* * *
A viagem, a bordo do
Omicron 4, já se estendia por cinco meses. As comunicações eram
precárias e os ânimos começavam a ser afetados.
- Pare com as
piadinhas cara! Você está passando dos limites da sorte, não
acha?!
Um inocente jogo de
cartas, que costumeiramente era usado pêlos tripulantes para passar
o tempo nas horas de folga, começou a complicar-se.
- Você está
insinuando o quê?! - Inquiriu o chefe da manutenção, Korsakoff. -
Seja claro! - Com o punho serrado levantado diante do rosto do
outro.
- Quer que eu seja
claro, não é? Pois bem. Vou te dizer algumas verdades. Em primeiro
lugar... - foi interrompido por um empurrão dado por Lauu D'cler
que quando já estava por atirar seu corpo franzino sobre a gorda
estrutura de Korsakoff parou repentinamente ao ver o comandante que
se aproximava.
Meio desajeitado Lauu
tentava colocar seu uniforme em ordem enquanto o gorducho homem da
manutenção iniciava suas explicações.
- Senhor - começou
fazendo continência - sabe como é. A gente bebe um pouco... o
carteado esquenta e...
- Está bem! Está
bem! - Interrompeu Crauck's.
Os dois brigões
ficaram calados enquanto o comandante fazia um circulo andando em
torno dos dois e os observava de forma reprovadora.
- Mas senhor...
- Cale-se! Não quero
explicações.
Filmor, que estava
chegando agora, percebendo o peso do ambiente, tentou intervir. -
Comandante!
- Cale-se! Estou
tentando resolver um problema aqui.
O imediato obedeceu.
Crauck's percebendo o
que estava ocorrendo disse: -Dispensados! Mas que isto não torne a
ocorrer ou será suspensão na certa. Entendido?
Os homens fizeram
continência e retiraram-se rapidamente.
O velho comandante,
um experiente homem do espaço, olhou pensativamente para Filmor.
Sabia que a situação estava tornando-se difícil. "Cinco
meses. Apenas quatro mil estrelas devidamente catalogadas e
analisadas". Suspirou. O trabalho mal havia começado.
Nesse momento,
repentinamente como num relâmpago, surgiram em sua mente as memórias
da época em que perdera o comando de sua nave e ficara executando
trabalhos burocráticos em uma daquelas bases da periferia da federação
devido a uma acusação de negligência que partira de Filmor. O
mesmo Filmor que agora encontrava-se ali, diante dele, seu
subordinado direto. "Maldito! Se não fosse tão jovem
provavelmente estaria em meu lugar. Eles o colocaram aqui para me
derrubar. Desta vez será diferente! Eu não..."
- Senhor?! - Falou o
imediato, tirando o comandante de seu passeio pelo passado.
- O que houve? Fale!
- Senhor, o problema
é que a tripulação esta aflita com a falta de comunicações e a
demora nos trabalhos. Eles acham que deveríamos fazer uma análise
mais superficial e rápida.
- Sim? - Um tanto irônico.
- E você, o que acha?
- Eu? - Engoliu em
seco. Hesitou um pouco e prosseguiu. - Eu concordo com a maioria.
Afinal não deixaríamos de cumprir nossa principal tarefa. Mapearíamos
tudo que tínhamos por objetivo mapear. Só não levaríamos para
casa informações tão minuciosas a respeito da todas essas
estrelas, mas isso pode perfeitamente ser deixado para expedições
futuras.
- Sei! - Observou
Crauck's, fitando-o de soslaio.
O comandante era um
Lobo do espaço. Já meio fora de forma e mesmo ele não ignorava
seus quilos a mais e seus escassos cabelos brancos. Não tinha ilusões
quanto a sua aparência, mas tinha esperanças, mesmo sem ter os
atrativos físicos que tanto agradam as mulheres, de encontrar uma
parceira quando regressasse para casa. Esta era sua última missão
e sua chance de encerrar a carreira com honra, enterrando de uma vez
por todas aquele passado de inglórias Ele vivia em Marte, sob uma
das primeiras biosferas instaladas com sucesso pelo homem e tinha
uma linda casa com um jardim do qual cuidava com esmero quando
conseguia arranjar tempo. Sentia saudades da sensação de tirar os
sapatos e pisar a grama molhada, mas a cada minuto que passava
acreditava menos na hipótese de que isso voltasse a acontecer. Sua
experiência e intuição diziam-lhe que as coisas iam piorar hora
após hora, dia após dia, e que deveria tomar muito cuidado.
Após uns instantes
perdido em seus próprios pensamentos Crauck's disse: - Nada posso
fazer! Tenho minhas ordens, e pode apostar... as cumprirei, ao pé
da letra!
O imediato fez continência
e quando deu meia volta para retirar-se ouviu a grave voz de Crauck's.
- Diga-lhes que
pensarei no assunto.
Não foi o que fez.
* * *
Passaram-se mais dois
meses e a situação não mudara. A quinze dias não havia comunicação
de espécie alguma com a confederação. Os trabalhos prosseguiam
conforme o planejado e tudo era extremamente tedioso.
Crauck's estava em
sua cabina descansando quando uma sineta o tirou de seu sono
inquieto.
A voz de Filmor soava
estridente pelo comunicador.
- Estabelecemos
contato com a confederação, senhor!
O homem que até
agora estava entediado tentando descansar um pouco corria pelo
estreito corredor, em direção a ponte, abotoando a jaqueta do
uniforme.
Ajeitou um pouco os
cabelos brancos usando os dedos e alisou um pouco o uniforme com a mãos,
então disse: - Contato visual, por favor.
O contato visual foi
estabelecido. Então diante dele surgiu um homem gordo, espalhado em
uma confortável cadeira que se encontrava atrás de uma grande
escrivaninha. O homem parecia esforçar-se para equiparar-se a
imagem que todos faziam dos burocratas do governo. Gordos, senis,
petulantes... e uma longa lista de adjetivos tão ou mais elogiosos
que estes.
O sujeito diante de
Crauck's estava, ao que parecia, terminando um lanche, e o
comandante aguardou pacientemente. O gorducho finalmente bebeu o
ultimo gole da bebida que estava em um longo e fino cálice a sua
esquerda, secou delicadamente os lábios com um guardanapo e então
com um largo sorriso na face disse: - Hei! Onde diabos estavam
metidos? Estamos tentando nos comunicar a semanas.
- Passamos cinco dias
no interior de um campo de asteróides - começou dizendo, o velho
homem do espaço. Tomado visivelmente pelo cansaço, tinha olheiras
e estava com os ombros caídos. - O restante do tempo estávamos em
posição bastante favorável para as comunicações.
- Bem! Tínhamos que
nos comunicar com vocês, devido ao fato de um de nossos espiões
nas Pleyades ter nos informado que uma pequena missão partiu a
quatro meses rumo ao setor central.
"O objetivo da
missão não nos foi informado, mas com certeza também estão
interessados nas riquezas minerais que ai estão.
"Você sabe. Não
queríamos que fossem pegos de surpresa. Aliás queremos que os
encontrem e os expulsem em nome da CONFEDERAÇÃO DO SOL. Afinal,
esse território já nos pertence!
O comandante nesse
ponto viu-se obrigado a interromper seu interlocutor.
- Mas senhor - começou
- não estamos preparados para um confronto. Não podemos nos
arriscar a...
- Blefe, comandante!
Blefe! - interrompeu o burocrata. Esperou uns instantes enquanto um
camareiro retirava os restos de comida de cima da mesa e então
continuou: - Afinal... eu e você sabemos disso, mas eles não.
Quando Crauck's já
estava pronto para uma longa argumentação, a comunicação foi
bruscamente interrompida.
- O que houve? -
Perguntou, já sabendo qual seria a resposta.
* * *
Filmor estava na
cabina de observação da nave. Uma sala na proa, com a parte
dianteira toda em vidro de alta resistência que proporcionava uma
vista magnífica. O número de constelações , a quantidade
estonteante de estrelas e a confusão aparente dos arredores
deixavam-no angustiado e ao mesmo tempo fascinado.
Sentia saudades.
Estranhamente, não de seu planeta natal, mas sim do planeta que foi
berço da humanidade. Um planeta que ele, como a maioria das pessoas
de sua época, que viviam espalhadas pela galáxia, não conhecia.
Mesmo assim aquele sentimento tomava-o.
Saudades da terra!
Já poucas pessoas
viviam no planeta, mas as histórias sobre o mesmo eram conhecidas
entre as estrelas. Até mesmo o povo do império Pleyadeano conhecia
suas raízes no sistema solar. A pesar de o imperador Icmains IV não
incentivar tais memórias.
O imediato fechou os
olhos e relembrou as imagens, cheiros e tudo o mais que sentira
quando participou, como observador, de um romance histórico que foi
exibido pelo sistema confederado de realidade virtual
tele-transmitida (SCRVTT). Era maravilhoso. Todo aquele verde,
aquele calor, ele nunca, em mundo algum havia visto um lugar tão
grandiosamente lindo. O romance passava-se na América do Sul, a uns
quinze mil anos atrás talvez, e contava a história da colonização
daquela região do planeta. Filmor não acreditava-se capas de
imaginar o efeito que todo esse tempo teria provocado e nunca vira
uma transmissão atual da terra. Na verdade não conhecia ninguém
que já tivesse visto. Mas ele, depois desta missão poderia visitar
a terra em pessoa e ver com seus próprios olhos tudo aquilo.
Foi trazido novamente
a realidade, por uma súbita mudança no panorama a sua frente.
Haviam dado um microsalto e diante dele encontravam-se milhares de
novas estrelas para serem analisadas e catalogadas. "Ele não
para!" pensou. "Faz quinze dias desde a última transmissão.
Não captamos nem sinal da missão das Pleyades, e ele esta fazendo
todos trabalharem cada vez mais. Ele mesmo está ultrapassando seus
limites. Não vai resistir!
"Estamos
rastreando todo o espaço a nossa volta, vinte e quatro horas por
dia, catalogando quarenta, cinqüenta e as vezes até sessenta
estrelas diariamente. Nesse ritmo, não sei até que ponto ele será
capaz de manter o controle sobre a tripulação.
O sinal sonoro do
comunicador chamou sua atenção.
- Filmor! - começou
identificando-se. - O que houve?
-Localizamos, senhor!
Localizamos! - dizia a voz febril e estridente emitida pelo
comunicador.
* * *
Outro microsalto fora
concluído, e eles estavam agora a 583,33 biliões de quilômetros
da estrela em cujas proximidades foram localizados sinais tachyônicos
que indicavam a existência de instrumentos e logicamente, inteligência.
- Só podem ser eles - disse Filmor excitado. - Só podem ser os
Pleyadeanos.
- Acalme-se,
imediato! - aconselhou Crauck's com ar de superioridade.
Estavam na ponte, uma
sala não muito grande que em nada, a não ser pela quantidade de
homens que ali trabalhavam, se destacava das demais. Na parte
dianteira localizava-se um painel metálico de uns dois metros e
meio de largura por dois de altura, onde via-se a imagem da estrela
para cujo sistema a espaçonave dirigia-se.
A estrela era ainda,
um pequeno ponto no espaço. Não tinha diâmetro aparente devido a
grande distância que a separava da nave. De brilho intenso,
facilmente destacava-se das demais existentes no céu. Mesmo tão
distante se observada diretamente por uma escotilha não polarizada
provocaria, com sorte, apenas uma cegueira temporária. Com menos
sorte até mesmo danos irreversíveis a retina. Isso devia-se ao
fato de toda a intensa luz proveniente da estrela estar concentrada
em um único ponto, podendo provocar queimaduras.
Todos os homens na
ponte observavam aquele pequeno ponto no painel. O céu parecia uma
fina renda de coloração vermelho enegrecida com um rubi
dependurado em seu centro à servir-lhe de adorno.
- Iniciar análise
senhor Miranda - disse o comandante, enquanto segurava as costas e
inclinava-se para traz tentando fazer uma dor inoportuna ir embora.
- Já fiz o trabalho,
senhor! - retrucou.
Esperou por alguns
momentos até que o suspence se tornasse denso como os nevoeiros da
antiga Londres do século XIX.
Ele nunca havia visto
um e nem mesmo tinha certeza de haver entendido corretamente de que
se tratava quando lera um velho romance do tipo ainda impresso em
folhas de papel, mas era algo que sempre o impressionara.
- Então... - começou
Filmor.
- A estrela é uma
gigante azul. Sua classe espectral é do tipo B1, com uma
temperatura superficial de 21800 graus Kelvin com uma variação de
0,01 por cento. Tem um diâmetro de 8,896 milhões de quilômetros
e... - os dados sobre a estrela foram sendo despejados, em
quantidades enormes mas rotineiras, sem despertar um interesse maior
de nenhum dos ouvintes até que uma palavra despertou Filmor.
- Como é? Um sistema
planetário? - indagou descrente.
- Sim senhor! Um
sistema planetário. - confirmou Miranda com uma satisfação mal
disfarçada. - E não um mero planeta solitário, mas um sistema
inteiro. São quatro já confirmados pelo computador, mas todos os cálculos
apontam para, pelo menos, mais um oculto pela estrela. Dois deles são
gigantes oceânicos. Um dos planetas menores ao que tudo indica é
muito rico em nitrogênio, alumínio, irídio e... berquélio! -
disse a ultima palavra como que saboreando cada letra dando uma
olhada de soslaio para o capitão.
Crauck's estava em
silêncio. Pensou um pouco sobre o assunto e então disse: - Quem
diria?! - estalou a língua entre os dentes nitidamente desapontado
e continuou: - Nós analisamos milhares de estrelas, e quando
encontramos o que procurávamos aqueles malditos do "Grande Império
das Pleyades" - ironicamente - chegam antes que nós. - Estava
calmo. Passou a mão pala calva e olhou para a palma úmida. Fez um
lento movimento de abrir e fechar e sentiu suas articulações um
tanto endurecidas e doloridas. Esta com certeza seria sua ultima
missão.
- Não creio que o
tratado possa sustentar-se por muito mais tempo, aqui. Esse pessoal
é expancionista demais. O tratado nunca passou de um monte de
documentos sem peso algum afinal e... Bem! Prossigamos com cautela.
Qualquer alteração nas coisas estarei em minha cabina. Imediato,
assuma o comando! - concluiu retirando-se da sala.
- Calcular trajetória
de microsaltos até o ponto mais próximo possível do planeta mais
externo! - ordenou o imediato acomodando-se na confortável cadeira
do comandante. Um ar de satisfação tomou-lhe a face como
costumeiramente ocorria nesses fugazes momentos.
* * *
Horas passaram-se até
que os cálculos focem concluídos, mas finalmente estavam em órbita.
- Senhor La'Guer, -
disse Jhon Filmor tranqüilamente enquanto olhava para o relógio -
inicie a varredura superficial e faça uma verificação de rotina
nas redondezas.
Nesse instante Crauck's
voltou.
- Senhores... Relatório
da situação!
- Tudo em ordem
senhor. Foi confirmado o quinto planeta e estamos em órbita estável
do gigante mais externo. A varredura já fio iniciada.
- Hm... Ótimo! E os
resultados?
- Nada no espaço.
Sistemas de rastreamento ao máximo e...- foi interrompido por um
sinal sonoro.
O sinal vinha do
painel do oficial La'Guer que começou rápida e precisamente a
acionar e ajustar seus instrumentos.
Filmor empertigou-se
e preparava-se para falar com o oficial de comunicações, mas
Crauck's o fez desistir erguendo uma das mão e pedindo silêncio.
La'Guer parou
repentinamente. Deu uma baforada e olhou para seu comandante.
- Lamento senhor! -
com os olhos baixos. - Um sinal como o primeiro, mas não pude
localizar.
- Fracassou?! - disse
Filmor erguendo os braços. Quando ia repreender o rapaz Crauck's
interveio novamente.
O capitão Astorm
olhou aquele garoto e relembrou suas primeiras missões. Conhecia
muito bem o que devia estar sentindo. Havia falhado na primeira
crise de verdade e acreditava-se o ultimo dos homens.
- Qual é seu nome
rapaz? - perguntou colocando sua mão sobre o ombro do jovem.
- Nestor La'Guer
senhor.
- Esta é sua
primeira missão?
- É... É sim,
senhor - com voz abafada.
Crauck's podia ver,
por sob a mascara de força que o rapaz ainda tentava sustentar, que
uma enorme tristeza afligia aquele jovem e inexperiente coração.
- Acalme-se! Ainda
temos muito trabalho pela frente.
- O que quer dizer
senhor? Não serei afastado?
- Afastado? Não isso
seria castigo fácil demais para você.
O garoto estava
confuso.
- Vamos ver o que
podemos fazer com as informações que você conseguiu! - disse
Crauck's fazendo um movimento displicente com as mãos sobre os
instrumentos do painel, indicando ao rapaz que iniciasse seu
trabalho.
Filmor divertia-se ao
ver aquele velho comandante em meio a uma crise perdendo tempo com
os sentimentos de um... "fedelho idiota".
Timidamente La'Guer
começou a manobrar os controles e os dados começaram a fluir
lentamente pêlos monitores enquanto Crauck's observava com o olhar
aguçado que só um homem com a sua experiência podia ter.
Cinco longos minutos
passaram-se sem que ninguém disse-se uma palavra.
- É informação
insuficiente senhor!
- Ora vamos! Sempre há
algo a tirar-se de um computador que ele não percebeu. - Fez uma
pausa e passando as costas da mão pela testa notou estar
transpirando.
- Filmor, mande
verificar o termoisolamento dos geradores novamente! E... garoto,
transfira estes dados para minha cabina e fique atento.- deu-lhe
dois tapinhas amistosos nas costas dele e antes de sair falou
baixinho: - Não conte a ninguém, mas estamos numa banheira e você
não poderia ter feito muito mais.
Astorm sabia que
podia ter salvo um grande soldado de um fim prematuro.
O trabalho de
telemetria prosseguia na ponte enquanto o capitão em sua cabina
fazia a reanálize dos dados. Resolveu começar com uma triangulação,
que não deu resultado. Partiu para métodos mais sofisticados e então...
- Consegui!
Imediatamente fez-se
ouvir na ponte a voz do capitão.
- Ponte! É o
comandante. Terminar a telemetria em processo e seguir imediatamente
para o local cujas coordenadas estão registradas na memória do
computador de minha cabina. Para evitar problemas seguiremos curso
acima do plano da elíptica em trajetória parabolóide com foco no
centro da estrela. Mandem Nestor La'Guer até aqui! - encerrou a
comunicação.
Poucos instantes
depois o jovem chegava aflito a sua cabina. - Aqui estou, senhor.
- Ola jovem!...
sente-se. - começou dizendo Crauck's com um sorriso amigo no rosto.
O jovem, um tanto
aflito, sentou-se e ficou olhando para o comandante que caminhava em
direção ao terminal de computador. Quando este ativou um
dispositivo que tinha na mão uma imagem surgiu no meio da sala. Era
um mapa em três dimensões do sistema solar em que se encontravam.
- Sabe o que é isto
rapaz? - indagou Astorm.
- Não senhor. Não
sei.
- Isto é o que você
conseguiu para nós.
Observando melhor o
rapaz pode perceber que havia alem dos planetas vários traços, que
para ele não tinham significado algum, mas que de uma forma ou de
outra quando observados como um todo indicavam o terceiro planeta
daquele sistema.
- De onde veio isto
senhor? - quis saber o rapaz intrigado.
- Isto é uma
representação tridimensional e recursiva de todos os sinais e ruídos
captados no momento em que aquele estranho sinal chegou a nós.
Parou um pouco. Em
dois longos cálices de cristal derramou uma bebida escura e
bastante forte muito popular um século antes em seu planeta natal,
e ficou a observar o jovem La'Guer.
- Claro! - declarou
excitadamente o garoto que agóra estava de pé e já não parecia
derrotado, mas sim entusiasmado.
- Sim?...
- Claro, todos esses
ruídos e sinais aparentemente desorganizados são reflexões do
sinal original nos asteróides nas nuvens de gás e tudo o mais. Não
podemos localizar a origem exata de nenhum deles separadamente, pois
o número de variáveis é muito superior as informações que
podemos tirar do sinal, mas se temos consciência de que estão
relacionados o número de variáveis permanece inalterado, já o número
de informações que temos aumenta a cada novo sinala que
consideramos. Isso nos leva, com um pouco de sorte, a um sistema solúvel
de equações relacionadas.
O rapaz parou por um
instante ofegante o então continuou.
- Senhor isso é bárbaro!
Ninguém teria pensado nisso!
Quando o garoto olhou
para o capitão, este estava com o braço esticado oferecendo-lhe a
bebida que havia servido momentos antes.
- Você teria repas...
Você teria!
O oficial de comunicações,
agóra de espirito renovado pegou o cálice e ambos brindaram a um
futuro grandioso para a confederação e a paz na galáxia.
* * *
Já estavam em órbita
em torno do terceiro planeta a trinta e seis horas e nenhuma nova
transmissão fora captada. A telemetria mostrava um planeta muito
parecido nas regiões próximas ao equador, com o continente gelado
da Terra conhecido como Antártida.
Em essência o
planeta era uma copia do planeta Terra. Seu tamanho um tanto menor
que o desta era contrabalançado pela densidade um tanto maior. Isso
possibilitava que o planeta tivesse uma atração gravitacional tão
próxima a da Terra, ou 1G que é padrão observado pelas naves da
confederação, que um homem em sua superfície não seria capaz de
notar a diferença.
Possuía água em
grande quantidade em sua maior parte congelada. A água que não
estava congelada concentrava-se em dois pequenos mares no hemisfério
sul do planeta bem próximos a linha do equador, estes estavam
ligados por um estreito canal.
A atmosfera do
planeta possuía um teor de oxigênio acima das especificações de
segurança e nenhum gás venenoso. Estavam diante do planeta, em
estado natural, mais parecido com a Terra mãe que já fora
encontrado em toda a história da humanidade.
Poderia, este
planeta, ter desenvolvido a vida? Poderia esta vida ter chegado a
inteligência? Praticamente impossível! Poderia sim é ser o lar de
alguma civilização surgida em outro mundo e que posteriormente por
motivos diversos tivesse migrado para este planeta. Poderia ser um
posto avançado de vigília. Poderia ser... Esta discussão
absorvera profundamente o comandante e seu mais recente amigo
ocupando todo o tempo que tinham disponível, que não era muito. A
resposta a estas perguntas não era fácil. Mesmo com toda a evolução
técnico-científica havida, as mais importantes questões, as
perguntas fundamentais não encontraram resposta. De onde viemos?
Para onde vamos? Ninguém sabe, ou pelo menos ninguém consegue
convencer a maioria que sua teoria é melhor que qualquer outra e
freqüentemente a maioria não consegue convencer o autor da teoria
de que ela é pior que qualquer outra. As várias teorias tem um
consenso em torno de um único ponto: Todas os acontecimentos neste
universo tem um porquê mas nenhuma delas concorda em qual seja esse
porquê.
- Bom! Já
concordamos em que a vida deve, se é que existe, ter migrado para cá,
visto que o sistema é muito jovem para suportar o desenvolvimento
da vida. A julgar pêlos dados colhidos a estrela não pode ter mais
que uns milhares de anos e não permanecera na seqüência principal
por mais que outros inexpressivos milhares.
Crauck's concordou
com um movimento de cabeça. Ele tinha um pressentimento sobre o
rapaz. Sentia que era alguém com quem poderia contar em qualquer
situação.
- Comandante... -
continuou o jovem excitado com os pensamentos - levando isso em
consideração podemos esperar encontrar qualquer coisa lá embaixo,
pois todas as possibilidades são plausíveis num lugar como este.
- Eu particularmente
não creio que venhamos a encontrar estranhas formas de vida aqui.
Talvez uma antiga colônia anterior aos tempos da Confederação e
do Império, mas acho isso altamente improvável; afinal não a notícias
de nenhuma viagem de colonos a esta região. Deve ser mesmo é um
posto avançado imperial! - concluiu o velho comandante fazendo um
gesto inconsciente de desapontamento entre fechando os olhos e
levantando as sobrancelhas.
A discussão
estendeu-se ainda por algumas horas sem levalos a nenhuma conclusão.
* * *
O sinal sonoro do
intercomunicador tocou no quarto de Filmor e tirou-o de um estado de
concentração depressiva tão intenso que parecia catatônico.
- Sim...? Imediato
Filmor!
- Aqui é Crauck's.
Venha até minha cabina! - ordenou desligando imediatamente.
Cinco minutos depois
Filmor estava diante da porta do alojamento de Crauck's aguardando,
um tanto impaciente, que aquela luz vermelha acima da porta desse
lugar a verde que indicaria que ele podia entrar. Quando começava a
acreditar que Crauck's o estava fazendo esperar propositalmente o
sinal mudou.
O comandante não
podia evitar que a cada vez que olhava-se aquele rosto as lembranças
lhe viessem a mente. O testemunho daquele que estava diante de si o
havia colocado a margem do progresso durante anos e... Sacudiu a
cabeça para jogar para longe aquelas lembranças.
- Senhor Filmor. -
iniciou muito formalmente. Estava sentado em sua cadeira,
confortavelmente reclinado para trás com o braço direito esticado,
a mão sobre a mesa tamborilando uma velha canção e os olhos no
teto.
- Temos um grande
problema aqui - continuou. - Estou quase certo que alguém, um
daqueles gordos e fedorentos burocratas do comando, quer que esta
missão seja um fracasso! - fitou o outro por alguns instantes. - O
que acha?
- Não sei dizer
senhor. O que o leva a pensar assim?
Ambos estavam
encarando-se ferozmente, olhos nos olhos.
- Veja bem. Quem em sã
consciência, desejando o sucesso desta missão, encheria esta
banheira velha de novatos e... principalmente nos colocaria lado a
lado no comando?
Um pesado silencio
encheu o ambiente enquanto Filmor pensava no que avia ouvido.
- Observando por esse
angulo parece ter razão, senhor.
- Mas ainda a mais!
Acredito que tenham um olheiro aqui entre nós.
- E quem seria ele? -
perguntou Filmor encarando Crauck's com um olhar devorador.
- Não faço idéia -
deixando a cadeira coloca-lo na posição mais vertical. - É por
isso que preciso de você. Você esta mais próximo da tripulação
e pode chegar a um nome mais facilmente.
A quilo deixou Filmor
surpreso e o restante da conversa prosseguiu em um tom mais amistoso
depois que ele concordou que ambos deveriam esquecer as coisas do
passado e trabalhar juntos pelo bem da nave, da tripulação e até
mesmo da confederação.
- Então vamos em
frente! - encerrou Crauck's jovialmente.
A porta fechou-se atrás
de Filmor que caminhou pelo corredor em direção a sue alojamento
com os olhos fixos no chão e os pensamentos em turbilhão, tentando
descobrir onde Crauck's, aquele velho lobo, estava querendo chegar.
Parou diante de uma das escotilhas e observando o espaço lá fora
sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.
Crauck's andava de um
lado para o outro em sua cabina como um animal enjaulado. Precisava
entender o que estava acontecendo. Qual seria o objetivo dessa
estranha trama? Haveria mesmo a tal trama? Não! sobre isso não
tinha mais duvidas, mas quem seriam os envolvidos?
* * *
Já estavam orbitando
o gélido planeta a quase duas semanas e nada havia de novo. Nenhuma
nova transmissão para acalmar os ânimos da tripulação ou
diminuir as desconfianças de Crauk's e a verificação feita nos
equipamentos de comunicação mostrara que tudo estava dentro das
especificações. Vários metais foram detectados sob a superfície,
em generosas quantidades. Microorganismos foram observados nas águas
dos mares, agora conhecidos como "MAR NEGRO" e "MAR CÁSPIO";
dada a semelhança destes com aqueles da velha terra. Alguns tipos
mais complexos de vegetais também e a hipótese de espécies
maiores não estava totalmente descartada nas regiões mais
profundas, talvez sob roxa sólida em cavernas.
Crauk's foi acordado
pelo sinal sonoro do despertador e uma luz suave encheu o aposento.
Espreguiçou-se e lentamente foi acordando. Estava tranqüilo. Não
mais falara de espionagem com Filmor, mas mantinha-se atento a tudo
e a todos. Esticou os braços, entrelaçou os dedos, e virou a palma
das mãos para cima. Com um leve movimento fez com que todos os seus
dedos, sem exceção estalassem e então relaxou.
* * *
Filmor estava no
comando da nave a maior parte do tempo e gostava muito disso, mas já
era hora de ceder seu lugar a Crauck's e não se entristecia, afinal
tinha coisas a fazer. Olhou o cronometro e notou estar atrasado.
Passou o comando a Augur Miranda e saiu.
No caminho para a
ponte de comando, Crauck's, encontrou-se com o jovem Nestor.
"Ele anda as voltas com mais um de seus brinquedinhos."
pensou Crauck's. Conhecia bem o entusiasmo do garoto por pequenas
engenhocas e foi dar uma olhada na última.
- O que tem ai desta
vez rapaz?
- Senhor! Desculpe-me
não o tinha visto ai.
- Não se desculpe.
Fora da ponte somos amigos. Lembra-se?
- Tenho aqui um
aparelhinho capas de captar ondas de radio ultra-altas. É ótimo!
Quer experimentar?
- Lamento mas já
deveria estar na ponte a muito. Não é bom deixar Filmor acreditar
que manda em tudo. Não é?
- Pode-se captar
milhares de coisas com isto. Neste setor da galáxia há uma gama
enorme de distúrbios que podemos captar. Experimente!
Crauck's, mesmo sendo
uma amizade recente, conhecia bem a insistência do rapaz e decidiu
que seria melhor ceder logo.
- Está bem. Como é
que isto funciona. - já com o pequeno aparelho nas mãos.
- É bem simples.
Aperte ali.
Nesse momento La'Guer
ouviu algo que não esperava. Um som estridente rico em variações
de freqüência numa faixa muito larga. Não podia ser natural.
- Senhor isso é um
sinal em código!
- O que?!
- Um sinal em código
senhor. Um sinal de rádio!
Crauck's como um relâmpago
desligou o aparelho.
- Bem rapaz, terminou
a brincadeira. Gostei de seu brinquedinho! Posso levalo?
- Mas senhor o
sinal...
- Bobagem. -
interrompeu Crauck's. - Você está enganado. Ninguém usa sinais de
rádio a séculos.
O rapaz ficou de pé
no meio do corredor, vendo o velho comandante afastar-se, sem
entender nada.
Crauck's não foi
mais para a ponte, retornou a seu quarto e ligou o computador.
- Freqüências
ultra-altas disse ele. O que será que vem a ser isso, exatamente -
pensava ele em voz alta. Deveria ter-lhe perguntado. Maldição!
Ainda é cedo demais para que alguém fique sabendo. Poderia
espantar a nossa presa.
O velho manuseava os
controles de programação do computador com destreza. Vasculhava
todas as faixas de freqüência de rádio que poderiam ser
consideradas altas e nada. De repente um sinal foi captado e a freqüência
de modulação identificada, mas desapareceu tão inesperadamente
que Astorm não pode localizado.
Crauck's entrou na
ponte com a tranqüilidade de sempre.
- Bom dia senhores!
Acho que meu despertador teve piedade de mim! - brincou com o
atraso.
- Bom dia senhor! -
respondeu Miranda. - O comando é seu! A situação não mudou.
Pensamos ter captado algo momentos atrás mas não passava de um
pulsar. Esta região tem muito a nos ensinar. Ninguém está
acostumado a trabalhar com coisas do tipo das que temos por aqui.
- Tudo bem. Pode
descansar agóra. Sei que, não estão sendo fáceis para ninguém,
estes últimos dias.
* * *
Crauck's estava
sentado na cadeira de comando. Tranqüilo como já não havia estado
a muito tempo.
Sabia que estava
perto, bem perto, de desvendar aquela trama. Era apenas uma questão
de dias, talvez horas. Tinha a situação praticamente nas mãos e
aquilo fazia-lhe muito bem.
* * *
Infelizmente sua
espera estendeu-se por vários dias e a situação parecia que não
mais esperaria por ele. Estava em seu quarto verificando pela milésima
vez o relatório feito pelo computador quando o sinal de chamado da
ponte chegou.
- Senhor localizamos
um destróier das Pleyades a três dias daqui!
- Algumas comunicação?
- Não senhor.
Mandamos os sinais padrão do protocolo espacial e não obtivemos
resposta.
Crauck's chegou
rapidamente a ponte e ficou indignado com todas as violações ao
tratado cometidas pelo destróier que se aproximava. Sem transmissões,
fechados aos feixes de pesquisa, escudos levantados, rota de colisão
com uma nave em órbita. Era ultrajante, e o momento não poderia
ser pior. A situação a bordo, que havia melhorado muito quando
aproximaram-se do planeta e surgiu a perspectiva de desembarque,
tornou-se quase insustentável quando estes souberam que ninguém
desembarcaria. A paz a bordo estava sendo sustentada pela disciplina
rígida imposta pelo comandante e pelo respeito a ele dedicado por
todos, mas isso não duraria muito mais tempo.
* * *
Mais um dia se
passara e a situação não mudara em nada. A não ser pelo fato de
Crauck's ter visto sua imagem junto a tripulação abalada devido ao
fato de não ter tomado nenhuma atitude contra o destróier inimigo
que se aproximava beligerante. O motim bateria a sua porta em poucos
instantes.
"O Velho
Lobo" teve um surpresa ao regressar a seus aposentos. Quando
começava a derramar em seu cálice uma bebida transparente e
borbulhante, da qual recriminava-se por estar tão dependente, o
alerta do computador chamou sua atenção. Ligando o visor do
equipamento, lá estava a mesma transmissão! Imediatamente Crauck's
notou haverem três fontes; Uma na superfície do planeta gelado,
outra de origem não identificável no curto espaço de tempo que
teria e a terceira...
- Dentro da nave!
Bem... isso já era esperado. Mas onde?!
Astorm parecia ter
recuperado a juventude perdida a anos. Enquanto vasculhava
delirantemente os dados em forma de gráficos quase ininteligíveis
a procura do traidor seus olhos brilhavam com a fúria de uma fera
selvagem das eras pré-espaciais.
- Aí está! - disse
estas palavras já saindo do quarto correndo pelo corredor vazio.
Lá estava ele diante
da porta dos aposentos do traidor. Ofegante com a chave mestra em mãos
pronto a pegar o maldito cometendo o ato mais repugnante para um
verdadeiro soldado, traição!
A porta abriu
silenciosamente e Crauck's não encontrou nenhum desconhecido ali.
- Ora! Ora! Ora! Quem
mais eu poderia esperar encontrar nesta reuniãozinha! - disse
Crauck's com desprezo.
Diante de si,
Crauck's tinha aquela simpática bola de gordura que fora o seu único
e displicente contato com a confederação durante meses, o ilustre
general Abger Cronás; o mais conhecido opositor a paz entre a
confederação e o império dentre todos os Pleyadeanos, o delegado
do imperador Arquiduque Kaitzir. Estes dois de forma virtual e
finalmente o terceiro e mais repugnante, o único que realmente
estava ali, seu leal soldado John Filmor.
A porta fechou com
seu som costumeiro, quase imperceptível. O comandante ao ouvir
aquele som sentiu um arrepio. Não tinha tomado nenhuma providência.
Na ânsia de flagrar o traidor, tinha-se colocado em suas mãos.
- Ho! Vejam se não
é o honorável Capitão Astorm Crauck's.- disse o gordo homem do
outro lado.
- Sabia que cedo ou
tarde os pegaria! Tenho um destacamento a caminho. - blefou.
- Nos pegaria? -
disse o Arquiduque com ar sardônico. - Não! Acho que não capitão.
Nós é que o pegamos. Agóra já é tarde demais.
- Tarde? Tarde para
que?
- Para salvar o
tratado! Hoje a paz entre nossos povos terá um fim!
- Então é isso! -
dizia Crauck's tentando aproximar-se da porta e escapar da enrascada
em que ele mesmo tinha se colocado.
- Isso mesmo. - começou
a falar Cronás. - Cada um de nós, nesta sala, tem interesses
relacionados com o reinicio das hostilidades. Eu tenho armas que em
tempos de paz não tem valor, no entanto se a guerra recomeçar... Já
nosso amigo comum, o Arquiduque Kaitzir, é como eu, um general e
como sabemos um general em sua posição, vale em tempos de batalha,
muitas vezes, mais que um imperador e... - nesse ponto foi
interrompido por Filmor.
- Não creio que
devamos perder tempo com explicações.
- Perder tempo? -
indagou o general confederado. - Nós não precisamos mais nos
preocupar com tempo!
- E você? -
perguntou Crauck's com os olhos fixos em Filmor.
- Eu? - Um gosto
amargo tomou sua boca e com um falso sorriso nos lábios, tentando não
deixar transparecer a vergonha disse: - Dinheiro!
Nesse momento, Astorm
tentando aproveitar-se do fato de Filmor ter desviado o olhar,
pressionou o botão de abertura da porta e deu-lhe um empurrão.
Filmor bateu
violentamente contra a parede mas não teve problemas em disparar o
Neuro-Bloqueador, um pequeno dispositivo Pleyadeano que provoca uma
desorganização nas informações gravadas no cérebro de tal grau
que dificilmente um homem depois de sentir seus efeitos continua a
ser realmente um homem. As seqüelas deixadas, na maioria das vezes,
colocam a vitima em estado total de loucura ou vegetatividade. Era
uma arma ainda desconhecida pela confederação e os efeitos
pareceriam naturais, principalmente em um homem de idade
relativamente avançada como Crauck's.
O velho comandante não
teve tempo de sentir praticamente nada antes de perder os sentidos.
Apenas uma sensação gélida como se estivesse mergulhando
lentamente num liquido denso e frio e sua consciência perdendo-se
na névoa. Seu corpo atingiu pesadamente o chão e Filmor parecia
uma escultura de roxa sólida com os olhos frios a fitalo.
* * *
Crauck's fora
vitimado por um colapso nervoso seguido de derrame cerebral com
conseqüências irreversíveis. Esta foi a versão oficial da história
que foi dada a conhecer à tripulação.
O comandante estava
agora em uma unidade de sustentação de vida há trinta e duas
horas e seu estado era imutável.
A tristeza era geral
entre todos na tripulação, mas um tripulante em especial sentia-se
desolado.
- Não! Isso não faz
sentido - balbuciou La'Guer.
Estava com a mente em
chamas, no entanto não encontrava explicação convincente alguma;
Crauck's nunca parecera melhor, mais jovem... Seu rodamoinho de
pensamentos desorganizados foi bruscamente interrompido pela lembrança
daquele estranho sinal que ele ouvira no momento em que fora
demonstrar o receptor de rádio a Astorm. Claro tinha que haver
alguma relação, Crauck's agira estranhamente naquela ocasião e
nos dias que se seguiram ao fato evitou o assunto de maneira
dissimulada. O que haveria por trás disso? De alguma forma teria
que descobrir!
* * *
Nestor estava em seu
quarto trancado a horas. Havia pedido a um amigo que cobrisse seu
horário de serviço inventando uma história sobre garotas e agora
estava tentando localizar o sinal novamente; lembrava vagamente a
freqüência em que havia captado o sinal pela primeira vez, mas
nada havia ali agora. Se fosse um sinal proveniente de algo natural
provavelmente deveria permanecer.
- Vamos! Vamos,
pense! - Cochichou para si mesmo.
Saiu andando pêlos
corredores sem rumo e sem perceber, pelo menos não contentemente,
caminhou até estar diante da porta dos aposentos de Crauck's. Como
era de costume a porta tinha sido lacrada e só seria aberta por um
oficial de justiça da confederação. Pelo menos essa era a intenção.
O jovem estava dentro do quarto do comandante da nave. Estava agindo
quase que instintivamente. Não planejara fazer aquilo, porem
sentia-se impelido a avançar!
* * *
Filmor, agora
comandante da nave, estava na ponte de comando preparando-se para
enfrentar seus inimigos, dissimular uma batalha sangrenta, sair
secretamente da nave e entregar seus homens a morte. Tudo isso em
troca de um titulo de conde no Império Pleyadeano e muitas
riquezas. Evidentemente os registros da nave seriam deixados intatos
evidenciando o heroísmo de todos os pobres soldados mortos no
combate e a iniciativa bélica do império.
Do lado do império
seria dada a conhecer uma versão diferente; na qual a confederação
teria tomado a iniciativa, e a guerra recomeçaria sem culpados.
- Distância? -
Perguntou laconicamente.
- Estão a novecentos
e cinqüenta mil quilômetros e aproximando-se rapidamente. Logo serão
visíveis na tela.
As coisas não
poderiam ter saído melhores. Até mesmo a inesperada visita de
Crauck's fora a seu favor. Ninguém desconfiou das circunstâncias
da morte, já que todos estavam mesmo comentando que o comandante
era velho demais para aquele tipo de coisa, desde que a nave
imperial fora avistada e ele nada fizera. E agora com ele no comando
direto da nave não havia mais o menor perigo de algo sair errado.
Não era o plano
matar o comandante. Pelo menos não antes de tudo terminado, mas ele
os obrigou a apressar as coisas, e Filmor sentia-se aliviado de não
o ter mais por perto. Afinal de contas era uma pedra bastante
incomoda em seu sapato, aquele velho. A presença dele naquela nave
impunha um risco muito grande, mas Cronás tinha suas limitações e
não conseguiu colocar Filmor como comandante de uma missão.
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