Um Futuro a Defender

 Miguel Angel Pérez Corrêa

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0029]
[Autor:
Miguel Angel Pérez Corrêa]
[Título: Um Futuro a Defender]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 7.200]


Estavam há duas semanas no espaço. Era a primeira missão de exploração àquele setor da galáxia e a expectativa em torno do assunto era descomunal.

Havia rumores sobre a existência de vida inteligente naquela região. Particularmente, o comandante da missão não os levava a sério, pois não tinham o menor fundamento científico. A missão dirigia-se rumo as proximidades do centro galáctico, uma região hostil em demasia para proporcionar o ambiente necessário ao desenvolvimento de vida e possibilitar que esta atingisse o grau de complexidade necessária a inteligência.

Havia pessoas, como o engenheiro de máquinas Hassam Lotré, que não oficialmente, é claro, acreditavam que a missão seria muito mais desafiadora do que fora previsto. A pesar de todos os relatos serem confusos e das provas insatisfatórias, algo o levava a respeitar as histórias contadas pêlos poucos pioneiros que já haviam cruzado aquela caótica região da galáxia, em sua maioria com o intuito de tornar mais curta uma jornada comercial.

Naqueles dias como em muitas ocasiões no decorrer da história humana, não raro, os primeiros a alcançar os confins mais distantes dos nossos domínios, eram os mercadores, muitas vezes explorando novos horizontes para onde mandar colonos que com o tempo viriam a ser suas melhores fontes de renda.

O comandante Astorm Crauck's estava analisando pala enésima vez os planos de rota e reconferindo os cálculos para o próximo salto pelo tachyon-espaço quando o sinal da porta tocou.

- Entre! - Disse, sem perceber.

- Bom dia, senhor! - Cumprimentou o primeiro imediato formalmente.

- Bom dia. Como vão as coisas? - Perguntou o comandante, continuando a falar sem dar a Filmor a chance de responder: - Espero que tudo dentro das expectativas. Avise a tripulação que a contagem regressiva terá inicio as treze horas. - Falava da contagem regressiva para o próximo salto que rotineiramente era de três horas. Este salto seria o mais longo da missão e os levaria a uma distância de apenas quatro mil parsecs do centro da galáxia. Isso os colocaria na fronteira mais exterior do agrupamento globular que seria seu objeto de pesquisa.

- Senhor... a tripulação está apreensiva com o próximo salto. Acredito que seria bom para o moral de todos se o capitão fizesse um pronunciamento oficial.

Crauck's pensou por alguns instantes e então concordou.

- Daqui a trinta minutos. Realmente é uma situação bastante estranha a todos nós. Dentro em pouco estaremos no limiar de uma região, ainda não mapeada, onde ninguém virá em nosso socorro caso nos metamos em encrencas. Eles merecem algumas palavras!

Todos pararam para ouvi-lo quando começou a falar.

- Senhores... - fez uma pausa. - Hm! Hm! Estamos a cinco horas do inicio da primeira contagem (duas, três e até quatro contagens não são tão raras, devido as rígidas normas de segurança) e espero que a única, com a ajuda de todos. Ao término dessa contagem partiremos rumo ao desconhecido. Seremos a primeira missão oficial no setor.

- Mapearemos e rastrearemos uma região de vinte parsecs cúbicos. Sei que não será um trabalho fácil. Será duro e perigoso até. Mas lhes asseguro: Se formos bem sucedidos e tenho certeza que seremos, entraremos pára a história!" - Enfatizando muito as ultimas palavras.

- Trabalhem com afinco - continuou - pois o trabalho que realizaremos dentro em breve é fundamental para o progresso da Confederação Solar e a consolidação de nossas fronteiras.

"Vamos mostrar àquele pessoal das Pleyades que a CS é a força suprema da galáxia!!!"

* * *

O salto ocorreu sem maiores dificuldades no final da primeira contagem.

- Bem... aqui estamos - comentou o comandante. - Iniciar varredura!

O processo durou apenas alguns segundos. Então um homem gordo com aparência desleixada, dentro dos limites em que isso é possível sendo-se um militar, disse: - Senhor, a varredura indicou 209652 estrelas em nosso cubo de mapeam ento. Isso representa uma densidade estelar 97,569 mil vezes maior que a existente no setor do Sol ou, em média, uma estrela para cada 95,396 microparsecs cúbicos.

- Pois bem, vamos começar!

* * *

A viagem, a bordo do Omicron 4, já se estendia por cinco meses. As comunicações eram precárias e os ânimos começavam a ser afetados.

- Pare com as piadinhas cara! Você está passando dos limites da sorte, não acha?!

Um inocente jogo de cartas, que costumeiramente era usado pêlos tripulantes para passar o tempo nas horas de folga, começou a complicar-se.

- Você está insinuando o quê?! - Inquiriu o chefe da manutenção, Korsakoff. - Seja claro! - Com o punho serrado levantado diante do rosto do outro.

- Quer que eu seja claro, não é? Pois bem. Vou te dizer algumas verdades. Em primeiro lugar... - foi interrompido por um empurrão dado por Lauu D'cler que quando já estava por atirar seu corpo franzino sobre a gorda estrutura de Korsakoff parou repentinamente ao ver o comandante que se aproximava.

Meio desajeitado Lauu tentava colocar seu uniforme em ordem enquanto o gorducho homem da manutenção iniciava suas explicações.

- Senhor - começou fazendo continência - sabe como é. A gente bebe um pouco... o carteado esquenta e...

- Está bem! Está bem! - Interrompeu Crauck's.

Os dois brigões ficaram calados enquanto o comandante fazia um circulo andando em torno dos dois e os observava de forma reprovadora.

- Mas senhor...

- Cale-se! Não quero explicações.

Filmor, que estava chegando agora, percebendo o peso do ambiente, tentou intervir. - Comandante!

- Cale-se! Estou tentando resolver um problema aqui.

O imediato obedeceu.

Crauck's percebendo o que estava ocorrendo disse: -Dispensados! Mas que isto não torne a ocorrer ou será suspensão na certa. Entendido?

Os homens fizeram continência e retiraram-se rapidamente.

O velho comandante, um experiente homem do espaço, olhou pensativamente para Filmor. Sabia que a situação estava tornando-se difícil. "Cinco meses. Apenas quatro mil estrelas devidamente catalogadas e analisadas". Suspirou. O trabalho mal havia começado.

Nesse momento, repentinamente como num relâmpago, surgiram em sua mente as memórias da época em que perdera o comando de sua nave e ficara executando trabalhos burocráticos em uma daquelas bases da periferia da federação devido a uma acusação de negligência que partira de Filmor. O mesmo Filmor que agora encontrava-se ali, diante dele, seu subordinado direto. "Maldito! Se não fosse tão jovem provavelmente estaria em meu lugar. Eles o colocaram aqui para me derrubar. Desta vez será diferente! Eu não..."

- Senhor?! - Falou o imediato, tirando o comandante de seu passeio pelo passado.

- O que houve? Fale!

- Senhor, o problema é que a tripulação esta aflita com a falta de comunicações e a demora nos trabalhos. Eles acham que deveríamos fazer uma análise mais superficial e rápida.

- Sim? - Um tanto irônico. - E você, o que acha?

- Eu? - Engoliu em seco. Hesitou um pouco e prosseguiu. - Eu concordo com a maioria. Afinal não deixaríamos de cumprir nossa principal tarefa. Mapearíamos tudo que tínhamos por objetivo mapear. Só não levaríamos para casa informações tão minuciosas a respeito da todas essas estrelas, mas isso pode perfeitamente ser deixado para expedições futuras.

- Sei! - Observou Crauck's, fitando-o de soslaio.

O comandante era um Lobo do espaço. Já meio fora de forma e mesmo ele não ignorava seus quilos a mais e seus escassos cabelos brancos. Não tinha ilusões quanto a sua aparência, mas tinha esperanças, mesmo sem ter os atrativos físicos que tanto agradam as mulheres, de encontrar uma parceira quando regressasse para casa. Esta era sua última missão e sua chance de encerrar a carreira com honra, enterrando de uma vez por todas aquele passado de inglórias Ele vivia em Marte, sob uma das primeiras biosferas instaladas com sucesso pelo homem e tinha uma linda casa com um jardim do qual cuidava com esmero quando conseguia arranjar tempo. Sentia saudades da sensação de tirar os sapatos e pisar a grama molhada, mas a cada minuto que passava acreditava menos na hipótese de que isso voltasse a acontecer. Sua experiência e intuição diziam-lhe que as coisas iam piorar hora após hora, dia após dia, e que deveria tomar muito cuidado.

Após uns instantes perdido em seus próprios pensamentos Crauck's disse: - Nada posso fazer! Tenho minhas ordens, e pode apostar... as cumprirei, ao pé da letra!

O imediato fez continência e quando deu meia volta para retirar-se ouviu a grave voz de Crauck's.

- Diga-lhes que pensarei no assunto.

Não foi o que fez.

* * *

Passaram-se mais dois meses e a situação não mudara. A quinze dias não havia comunicação de espécie alguma com a confederação. Os trabalhos prosseguiam conforme o planejado e tudo era extremamente tedioso.

Crauck's estava em sua cabina descansando quando uma sineta o tirou de seu sono inquieto.

A voz de Filmor soava estridente pelo comunicador.

- Estabelecemos contato com a confederação, senhor!

O homem que até agora estava entediado tentando descansar um pouco corria pelo estreito corredor, em direção a ponte, abotoando a jaqueta do uniforme.

Ajeitou um pouco os cabelos brancos usando os dedos e alisou um pouco o uniforme com a mãos, então disse: - Contato visual, por favor.

O contato visual foi estabelecido. Então diante dele surgiu um homem gordo, espalhado em uma confortável cadeira que se encontrava atrás de uma grande escrivaninha. O homem parecia esforçar-se para equiparar-se a imagem que todos faziam dos burocratas do governo. Gordos, senis, petulantes... e uma longa lista de adjetivos tão ou mais elogiosos que estes.

O sujeito diante de Crauck's estava, ao que parecia, terminando um lanche, e o comandante aguardou pacientemente. O gorducho finalmente bebeu o ultimo gole da bebida que estava em um longo e fino cálice a sua esquerda, secou delicadamente os lábios com um guardanapo e então com um largo sorriso na face disse: - Hei! Onde diabos estavam metidos? Estamos tentando nos comunicar a semanas.

- Passamos cinco dias no interior de um campo de asteróides - começou dizendo, o velho homem do espaço. Tomado visivelmente pelo cansaço, tinha olheiras e estava com os ombros caídos. - O restante do tempo estávamos em posição bastante favorável para as comunicações.

- Bem! Tínhamos que nos comunicar com vocês, devido ao fato de um de nossos espiões nas Pleyades ter nos informado que uma pequena missão partiu a quatro meses rumo ao setor central.

"O objetivo da missão não nos foi informado, mas com certeza também estão interessados nas riquezas minerais que ai estão.

"Você sabe. Não queríamos que fossem pegos de surpresa. Aliás queremos que os encontrem e os expulsem em nome da CONFEDERAÇÃO DO SOL. Afinal, esse território já nos pertence!

O comandante nesse ponto viu-se obrigado a interromper seu interlocutor.

- Mas senhor - começou - não estamos preparados para um confronto. Não podemos nos arriscar a...

- Blefe, comandante! Blefe! - interrompeu o burocrata. Esperou uns instantes enquanto um camareiro retirava os restos de comida de cima da mesa e então continuou: - Afinal... eu e você sabemos disso, mas eles não.

Quando Crauck's já estava pronto para uma longa argumentação, a comunicação foi bruscamente interrompida.

- O que houve? - Perguntou, já sabendo qual seria a resposta.

* * *

Filmor estava na cabina de observação da nave. Uma sala na proa, com a parte dianteira toda em vidro de alta resistência que proporcionava uma vista magnífica. O número de constelações , a quantidade estonteante de estrelas e a confusão aparente dos arredores deixavam-no angustiado e ao mesmo tempo fascinado.

Sentia saudades. Estranhamente, não de seu planeta natal, mas sim do planeta que foi berço da humanidade. Um planeta que ele, como a maioria das pessoas de sua época, que viviam espalhadas pela galáxia, não conhecia. Mesmo assim aquele sentimento tomava-o.

Saudades da terra!

Já poucas pessoas viviam no planeta, mas as histórias sobre o mesmo eram conhecidas entre as estrelas. Até mesmo o povo do império Pleyadeano conhecia suas raízes no sistema solar. A pesar de o imperador Icmains IV não incentivar tais memórias.

O imediato fechou os olhos e relembrou as imagens, cheiros e tudo o mais que sentira quando participou, como observador, de um romance histórico que foi exibido pelo sistema confederado de realidade virtual tele-transmitida (SCRVTT). Era maravilhoso. Todo aquele verde, aquele calor, ele nunca, em mundo algum havia visto um lugar tão grandiosamente lindo. O romance passava-se na América do Sul, a uns quinze mil anos atrás talvez, e contava a história da colonização daquela região do planeta. Filmor não acreditava-se capas de imaginar o efeito que todo esse tempo teria provocado e nunca vira uma transmissão atual da terra. Na verdade não conhecia ninguém que já tivesse visto. Mas ele, depois desta missão poderia visitar a terra em pessoa e ver com seus próprios olhos tudo aquilo.

Foi trazido novamente a realidade, por uma súbita mudança no panorama a sua frente. Haviam dado um microsalto e diante dele encontravam-se milhares de novas estrelas para serem analisadas e catalogadas. "Ele não para!" pensou. "Faz quinze dias desde a última transmissão. Não captamos nem sinal da missão das Pleyades, e ele esta fazendo todos trabalharem cada vez mais. Ele mesmo está ultrapassando seus limites. Não vai resistir!

"Estamos rastreando todo o espaço a nossa volta, vinte e quatro horas por dia, catalogando quarenta, cinqüenta e as vezes até sessenta estrelas diariamente. Nesse ritmo, não sei até que ponto ele será capaz de manter o controle sobre a tripulação.

O sinal sonoro do comunicador chamou sua atenção.

- Filmor! - começou identificando-se. - O que houve?

-Localizamos, senhor! Localizamos! - dizia a voz febril e estridente emitida pelo comunicador.

* * *

Outro microsalto fora concluído, e eles estavam agora a 583,33 biliões de quilômetros da estrela em cujas proximidades foram localizados sinais tachyônicos que indicavam a existência de instrumentos e logicamente, inteligência. - Só podem ser eles - disse Filmor excitado. - Só podem ser os Pleyadeanos.

- Acalme-se, imediato! - aconselhou Crauck's com ar de superioridade.

Estavam na ponte, uma sala não muito grande que em nada, a não ser pela quantidade de homens que ali trabalhavam, se destacava das demais. Na parte dianteira localizava-se um painel metálico de uns dois metros e meio de largura por dois de altura, onde via-se a imagem da estrela para cujo sistema a espaçonave dirigia-se.

A estrela era ainda, um pequeno ponto no espaço. Não tinha diâmetro aparente devido a grande distância que a separava da nave. De brilho intenso, facilmente destacava-se das demais existentes no céu. Mesmo tão distante se observada diretamente por uma escotilha não polarizada provocaria, com sorte, apenas uma cegueira temporária. Com menos sorte até mesmo danos irreversíveis a retina. Isso devia-se ao fato de toda a intensa luz proveniente da estrela estar concentrada em um único ponto, podendo provocar queimaduras.

Todos os homens na ponte observavam aquele pequeno ponto no painel. O céu parecia uma fina renda de coloração vermelho enegrecida com um rubi dependurado em seu centro à servir-lhe de adorno.

- Iniciar análise senhor Miranda - disse o comandante, enquanto segurava as costas e inclinava-se para traz tentando fazer uma dor inoportuna ir embora.

- Já fiz o trabalho, senhor! - retrucou.

Esperou por alguns momentos até que o suspence se tornasse denso como os nevoeiros da antiga Londres do século XIX.

Ele nunca havia visto um e nem mesmo tinha certeza de haver entendido corretamente de que se tratava quando lera um velho romance do tipo ainda impresso em folhas de papel, mas era algo que sempre o impressionara.

- Então... - começou Filmor.

- A estrela é uma gigante azul. Sua classe espectral é do tipo B1, com uma temperatura superficial de 21800 graus Kelvin com uma variação de 0,01 por cento. Tem um diâmetro de 8,896 milhões de quilômetros e... - os dados sobre a estrela foram sendo despejados, em quantidades enormes mas rotineiras, sem despertar um interesse maior de nenhum dos ouvintes até que uma palavra despertou Filmor.

- Como é? Um sistema planetário? - indagou descrente.

- Sim senhor! Um sistema planetário. - confirmou Miranda com uma satisfação mal disfarçada. - E não um mero planeta solitário, mas um sistema inteiro. São quatro já confirmados pelo computador, mas todos os cálculos apontam para, pelo menos, mais um oculto pela estrela. Dois deles são gigantes oceânicos. Um dos planetas menores ao que tudo indica é muito rico em nitrogênio, alumínio, irídio e... berquélio! - disse a ultima palavra como que saboreando cada letra dando uma olhada de soslaio para o capitão.

Crauck's estava em silêncio. Pensou um pouco sobre o assunto e então disse: - Quem diria?! - estalou a língua entre os dentes nitidamente desapontado e continuou: - Nós analisamos milhares de estrelas, e quando encontramos o que procurávamos aqueles malditos do "Grande Império das Pleyades" - ironicamente - chegam antes que nós. - Estava calmo. Passou a mão pala calva e olhou para a palma úmida. Fez um lento movimento de abrir e fechar e sentiu suas articulações um tanto endurecidas e doloridas. Esta com certeza seria sua ultima missão.

- Não creio que o tratado possa sustentar-se por muito mais tempo, aqui. Esse pessoal é expancionista demais. O tratado nunca passou de um monte de documentos sem peso algum afinal e... Bem! Prossigamos com cautela. Qualquer alteração nas coisas estarei em minha cabina. Imediato, assuma o comando! - concluiu retirando-se da sala.

- Calcular trajetória de microsaltos até o ponto mais próximo possível do planeta mais externo! - ordenou o imediato acomodando-se na confortável cadeira do comandante. Um ar de satisfação tomou-lhe a face como costumeiramente ocorria nesses fugazes momentos.

* * *

Horas passaram-se até que os cálculos focem concluídos, mas finalmente estavam em órbita.

- Senhor La'Guer, - disse Jhon Filmor tranqüilamente enquanto olhava para o relógio - inicie a varredura superficial e faça uma verificação de rotina nas redondezas.

Nesse instante Crauck's voltou.

- Senhores... Relatório da situação!

- Tudo em ordem senhor. Foi confirmado o quinto planeta e estamos em órbita estável do gigante mais externo. A varredura já fio iniciada.

- Hm... Ótimo! E os resultados?

- Nada no espaço. Sistemas de rastreamento ao máximo e...- foi interrompido por um sinal sonoro.

O sinal vinha do painel do oficial La'Guer que começou rápida e precisamente a acionar e ajustar seus instrumentos.

Filmor empertigou-se e preparava-se para falar com o oficial de comunicações, mas Crauck's o fez desistir erguendo uma das mão e pedindo silêncio.

La'Guer parou repentinamente. Deu uma baforada e olhou para seu comandante.

- Lamento senhor! - com os olhos baixos. - Um sinal como o primeiro, mas não pude localizar.

- Fracassou?! - disse Filmor erguendo os braços. Quando ia repreender o rapaz Crauck's interveio novamente.

O capitão Astorm olhou aquele garoto e relembrou suas primeiras missões. Conhecia muito bem o que devia estar sentindo. Havia falhado na primeira crise de verdade e acreditava-se o ultimo dos homens.

- Qual é seu nome rapaz? - perguntou colocando sua mão sobre o ombro do jovem.

- Nestor La'Guer senhor.

- Esta é sua primeira missão?

- É... É sim, senhor - com voz abafada.

Crauck's podia ver, por sob a mascara de força que o rapaz ainda tentava sustentar, que uma enorme tristeza afligia aquele jovem e inexperiente coração.

- Acalme-se! Ainda temos muito trabalho pela frente.

- O que quer dizer senhor? Não serei afastado?

- Afastado? Não isso seria castigo fácil demais para você.

O garoto estava confuso.

- Vamos ver o que podemos fazer com as informações que você conseguiu! - disse Crauck's fazendo um movimento displicente com as mãos sobre os instrumentos do painel, indicando ao rapaz que iniciasse seu trabalho.

Filmor divertia-se ao ver aquele velho comandante em meio a uma crise perdendo tempo com os sentimentos de um... "fedelho idiota".

Timidamente La'Guer começou a manobrar os controles e os dados começaram a fluir lentamente pêlos monitores enquanto Crauck's observava com o olhar aguçado que só um homem com a sua experiência podia ter.

Cinco longos minutos passaram-se sem que ninguém disse-se uma palavra.

- É informação insuficiente senhor!

- Ora vamos! Sempre há algo a tirar-se de um computador que ele não percebeu. - Fez uma pausa e passando as costas da mão pela testa notou estar transpirando.

- Filmor, mande verificar o termoisolamento dos geradores novamente! E... garoto, transfira estes dados para minha cabina e fique atento.- deu-lhe dois tapinhas amistosos nas costas dele e antes de sair falou baixinho: - Não conte a ninguém, mas estamos numa banheira e você não poderia ter feito muito mais.

Astorm sabia que podia ter salvo um grande soldado de um fim prematuro.

O trabalho de telemetria prosseguia na ponte enquanto o capitão em sua cabina fazia a reanálize dos dados. Resolveu começar com uma triangulação, que não deu resultado. Partiu para métodos mais sofisticados e então...

- Consegui!

Imediatamente fez-se ouvir na ponte a voz do capitão.

- Ponte! É o comandante. Terminar a telemetria em processo e seguir imediatamente para o local cujas coordenadas estão registradas na memória do computador de minha cabina. Para evitar problemas seguiremos curso acima do plano da elíptica em trajetória parabolóide com foco no centro da estrela. Mandem Nestor La'Guer até aqui! - encerrou a comunicação.

Poucos instantes depois o jovem chegava aflito a sua cabina. - Aqui estou, senhor.

- Ola jovem!... sente-se. - começou dizendo Crauck's com um sorriso amigo no rosto.

O jovem, um tanto aflito, sentou-se e ficou olhando para o comandante que caminhava em direção ao terminal de computador. Quando este ativou um dispositivo que tinha na mão uma imagem surgiu no meio da sala. Era um mapa em três dimensões do sistema solar em que se encontravam.

- Sabe o que é isto rapaz? - indagou Astorm.

- Não senhor. Não sei.

- Isto é o que você conseguiu para nós.

Observando melhor o rapaz pode perceber que havia alem dos planetas vários traços, que para ele não tinham significado algum, mas que de uma forma ou de outra quando observados como um todo indicavam o terceiro planeta daquele sistema.

- De onde veio isto senhor? - quis saber o rapaz intrigado.

- Isto é uma representação tridimensional e recursiva de todos os sinais e ruídos captados no momento em que aquele estranho sinal chegou a nós.

Parou um pouco. Em dois longos cálices de cristal derramou uma bebida escura e bastante forte muito popular um século antes em seu planeta natal, e ficou a observar o jovem La'Guer.

- Claro! - declarou excitadamente o garoto que agóra estava de pé e já não parecia derrotado, mas sim entusiasmado.

- Sim?...

- Claro, todos esses ruídos e sinais aparentemente desorganizados são reflexões do sinal original nos asteróides nas nuvens de gás e tudo o mais. Não podemos localizar a origem exata de nenhum deles separadamente, pois o número de variáveis é muito superior as informações que podemos tirar do sinal, mas se temos consciência de que estão relacionados o número de variáveis permanece inalterado, já o número de informações que temos aumenta a cada novo sinala que consideramos. Isso nos leva, com um pouco de sorte, a um sistema solúvel de equações relacionadas.

O rapaz parou por um instante ofegante o então continuou.

- Senhor isso é bárbaro! Ninguém teria pensado nisso!

Quando o garoto olhou para o capitão, este estava com o braço esticado oferecendo-lhe a bebida que havia servido momentos antes.

- Você teria repas... Você teria!

O oficial de comunicações, agóra de espirito renovado pegou o cálice e ambos brindaram a um futuro grandioso para a confederação e a paz na galáxia.

* * *

Já estavam em órbita em torno do terceiro planeta a trinta e seis horas e nenhuma nova transmissão fora captada. A telemetria mostrava um planeta muito parecido nas regiões próximas ao equador, com o continente gelado da Terra conhecido como Antártida.

Em essência o planeta era uma copia do planeta Terra. Seu tamanho um tanto menor que o desta era contrabalançado pela densidade um tanto maior. Isso possibilitava que o planeta tivesse uma atração gravitacional tão próxima a da Terra, ou 1G que é padrão observado pelas naves da confederação, que um homem em sua superfície não seria capaz de notar a diferença.

Possuía água em grande quantidade em sua maior parte congelada. A água que não estava congelada concentrava-se em dois pequenos mares no hemisfério sul do planeta bem próximos a linha do equador, estes estavam ligados por um estreito canal.

A atmosfera do planeta possuía um teor de oxigênio acima das especificações de segurança e nenhum gás venenoso. Estavam diante do planeta, em estado natural, mais parecido com a Terra mãe que já fora encontrado em toda a história da humanidade.

Poderia, este planeta, ter desenvolvido a vida? Poderia esta vida ter chegado a inteligência? Praticamente impossível! Poderia sim é ser o lar de alguma civilização surgida em outro mundo e que posteriormente por motivos diversos tivesse migrado para este planeta. Poderia ser um posto avançado de vigília. Poderia ser... Esta discussão absorvera profundamente o comandante e seu mais recente amigo ocupando todo o tempo que tinham disponível, que não era muito. A resposta a estas perguntas não era fácil. Mesmo com toda a evolução técnico-científica havida, as mais importantes questões, as perguntas fundamentais não encontraram resposta. De onde viemos? Para onde vamos? Ninguém sabe, ou pelo menos ninguém consegue convencer a maioria que sua teoria é melhor que qualquer outra e freqüentemente a maioria não consegue convencer o autor da teoria de que ela é pior que qualquer outra. As várias teorias tem um consenso em torno de um único ponto: Todas os acontecimentos neste universo tem um porquê mas nenhuma delas concorda em qual seja esse porquê.

- Bom! Já concordamos em que a vida deve, se é que existe, ter migrado para cá, visto que o sistema é muito jovem para suportar o desenvolvimento da vida. A julgar pêlos dados colhidos a estrela não pode ter mais que uns milhares de anos e não permanecera na seqüência principal por mais que outros inexpressivos milhares.

Crauck's concordou com um movimento de cabeça. Ele tinha um pressentimento sobre o rapaz. Sentia que era alguém com quem poderia contar em qualquer situação.

- Comandante... - continuou o jovem excitado com os pensamentos - levando isso em consideração podemos esperar encontrar qualquer coisa lá embaixo, pois todas as possibilidades são plausíveis num lugar como este.

- Eu particularmente não creio que venhamos a encontrar estranhas formas de vida aqui. Talvez uma antiga colônia anterior aos tempos da Confederação e do Império, mas acho isso altamente improvável; afinal não a notícias de nenhuma viagem de colonos a esta região. Deve ser mesmo é um posto avançado imperial! - concluiu o velho comandante fazendo um gesto inconsciente de desapontamento entre fechando os olhos e levantando as sobrancelhas.

A discussão estendeu-se ainda por algumas horas sem levalos a nenhuma conclusão.

* * *

O sinal sonoro do intercomunicador tocou no quarto de Filmor e tirou-o de um estado de concentração depressiva tão intenso que parecia catatônico.

- Sim...? Imediato Filmor!

- Aqui é Crauck's. Venha até minha cabina! - ordenou desligando imediatamente.

Cinco minutos depois Filmor estava diante da porta do alojamento de Crauck's aguardando, um tanto impaciente, que aquela luz vermelha acima da porta desse lugar a verde que indicaria que ele podia entrar. Quando começava a acreditar que Crauck's o estava fazendo esperar propositalmente o sinal mudou.

O comandante não podia evitar que a cada vez que olhava-se aquele rosto as lembranças lhe viessem a mente. O testemunho daquele que estava diante de si o havia colocado a margem do progresso durante anos e... Sacudiu a cabeça para jogar para longe aquelas lembranças.

- Senhor Filmor. - iniciou muito formalmente. Estava sentado em sua cadeira, confortavelmente reclinado para trás com o braço direito esticado, a mão sobre a mesa tamborilando uma velha canção e os olhos no teto.

- Temos um grande problema aqui - continuou. - Estou quase certo que alguém, um daqueles gordos e fedorentos burocratas do comando, quer que esta missão seja um fracasso! - fitou o outro por alguns instantes. - O que acha?

- Não sei dizer senhor. O que o leva a pensar assim?

Ambos estavam encarando-se ferozmente, olhos nos olhos.

- Veja bem. Quem em sã consciência, desejando o sucesso desta missão, encheria esta banheira velha de novatos e... principalmente nos colocaria lado a lado no comando?

Um pesado silencio encheu o ambiente enquanto Filmor pensava no que avia ouvido.

- Observando por esse angulo parece ter razão, senhor.

- Mas ainda a mais! Acredito que tenham um olheiro aqui entre nós.

- E quem seria ele? - perguntou Filmor encarando Crauck's com um olhar devorador.

- Não faço idéia - deixando a cadeira coloca-lo na posição mais vertical. - É por isso que preciso de você. Você esta mais próximo da tripulação e pode chegar a um nome mais facilmente.

A quilo deixou Filmor surpreso e o restante da conversa prosseguiu em um tom mais amistoso depois que ele concordou que ambos deveriam esquecer as coisas do passado e trabalhar juntos pelo bem da nave, da tripulação e até mesmo da confederação.

- Então vamos em frente! - encerrou Crauck's jovialmente.

A porta fechou-se atrás de Filmor que caminhou pelo corredor em direção a sue alojamento com os olhos fixos no chão e os pensamentos em turbilhão, tentando descobrir onde Crauck's, aquele velho lobo, estava querendo chegar. Parou diante de uma das escotilhas e observando o espaço lá fora sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.

Crauck's andava de um lado para o outro em sua cabina como um animal enjaulado. Precisava entender o que estava acontecendo. Qual seria o objetivo dessa estranha trama? Haveria mesmo a tal trama? Não! sobre isso não tinha mais duvidas, mas quem seriam os envolvidos?

* * *

Já estavam orbitando o gélido planeta a quase duas semanas e nada havia de novo. Nenhuma nova transmissão para acalmar os ânimos da tripulação ou diminuir as desconfianças de Crauk's e a verificação feita nos equipamentos de comunicação mostrara que tudo estava dentro das especificações. Vários metais foram detectados sob a superfície, em generosas quantidades. Microorganismos foram observados nas águas dos mares, agora conhecidos como "MAR NEGRO" e "MAR CÁSPIO"; dada a semelhança destes com aqueles da velha terra. Alguns tipos mais complexos de vegetais também e a hipótese de espécies maiores não estava totalmente descartada nas regiões mais profundas, talvez sob roxa sólida em cavernas.

Crauk's foi acordado pelo sinal sonoro do despertador e uma luz suave encheu o aposento. Espreguiçou-se e lentamente foi acordando. Estava tranqüilo. Não mais falara de espionagem com Filmor, mas mantinha-se atento a tudo e a todos. Esticou os braços, entrelaçou os dedos, e virou a palma das mãos para cima. Com um leve movimento fez com que todos os seus dedos, sem exceção estalassem e então relaxou.

* * *

Filmor estava no comando da nave a maior parte do tempo e gostava muito disso, mas já era hora de ceder seu lugar a Crauck's e não se entristecia, afinal tinha coisas a fazer. Olhou o cronometro e notou estar atrasado. Passou o comando a Augur Miranda e saiu.

No caminho para a ponte de comando, Crauck's, encontrou-se com o jovem Nestor. "Ele anda as voltas com mais um de seus brinquedinhos." pensou Crauck's. Conhecia bem o entusiasmo do garoto por pequenas engenhocas e foi dar uma olhada na última.

- O que tem ai desta vez rapaz?

- Senhor! Desculpe-me não o tinha visto ai.

- Não se desculpe. Fora da ponte somos amigos. Lembra-se?

- Tenho aqui um aparelhinho capas de captar ondas de radio ultra-altas. É ótimo! Quer experimentar?

- Lamento mas já deveria estar na ponte a muito. Não é bom deixar Filmor acreditar que manda em tudo. Não é?

- Pode-se captar milhares de coisas com isto. Neste setor da galáxia há uma gama enorme de distúrbios que podemos captar. Experimente!

Crauck's, mesmo sendo uma amizade recente, conhecia bem a insistência do rapaz e decidiu que seria melhor ceder logo.

- Está bem. Como é que isto funciona. - já com o pequeno aparelho nas mãos.

- É bem simples. Aperte ali.

Nesse momento La'Guer ouviu algo que não esperava. Um som estridente rico em variações de freqüência numa faixa muito larga. Não podia ser natural.

- Senhor isso é um sinal em código!

- O que?!

- Um sinal em código senhor. Um sinal de rádio!

Crauck's como um relâmpago desligou o aparelho.

- Bem rapaz, terminou a brincadeira. Gostei de seu brinquedinho! Posso levalo?

- Mas senhor o sinal...

- Bobagem. - interrompeu Crauck's. - Você está enganado. Ninguém usa sinais de rádio a séculos.

O rapaz ficou de pé no meio do corredor, vendo o velho comandante afastar-se, sem entender nada.

Crauck's não foi mais para a ponte, retornou a seu quarto e ligou o computador.

- Freqüências ultra-altas disse ele. O que será que vem a ser isso, exatamente - pensava ele em voz alta. Deveria ter-lhe perguntado. Maldição! Ainda é cedo demais para que alguém fique sabendo. Poderia espantar a nossa presa.

O velho manuseava os controles de programação do computador com destreza. Vasculhava todas as faixas de freqüência de rádio que poderiam ser consideradas altas e nada. De repente um sinal foi captado e a freqüência de modulação identificada, mas desapareceu tão inesperadamente que Astorm não pode localizado.

Crauck's entrou na ponte com a tranqüilidade de sempre.

- Bom dia senhores! Acho que meu despertador teve piedade de mim! - brincou com o atraso.

- Bom dia senhor! - respondeu Miranda. - O comando é seu! A situação não mudou. Pensamos ter captado algo momentos atrás mas não passava de um pulsar. Esta região tem muito a nos ensinar. Ninguém está acostumado a trabalhar com coisas do tipo das que temos por aqui.

- Tudo bem. Pode descansar agóra. Sei que, não estão sendo fáceis para ninguém, estes últimos dias.

* * *

Crauck's estava sentado na cadeira de comando. Tranqüilo como já não havia estado a muito tempo.

Sabia que estava perto, bem perto, de desvendar aquela trama. Era apenas uma questão de dias, talvez horas. Tinha a situação praticamente nas mãos e aquilo fazia-lhe muito bem.

* * *

Infelizmente sua espera estendeu-se por vários dias e a situação parecia que não mais esperaria por ele. Estava em seu quarto verificando pela milésima vez o relatório feito pelo computador quando o sinal de chamado da ponte chegou.

- Senhor localizamos um destróier das Pleyades a três dias daqui!

- Algumas comunicação?

- Não senhor. Mandamos os sinais padrão do protocolo espacial e não obtivemos resposta.

Crauck's chegou rapidamente a ponte e ficou indignado com todas as violações ao tratado cometidas pelo destróier que se aproximava. Sem transmissões, fechados aos feixes de pesquisa, escudos levantados, rota de colisão com uma nave em órbita. Era ultrajante, e o momento não poderia ser pior. A situação a bordo, que havia melhorado muito quando aproximaram-se do planeta e surgiu a perspectiva de desembarque, tornou-se quase insustentável quando estes souberam que ninguém desembarcaria. A paz a bordo estava sendo sustentada pela disciplina rígida imposta pelo comandante e pelo respeito a ele dedicado por todos, mas isso não duraria muito mais tempo.

* * *

Mais um dia se passara e a situação não mudara em nada. A não ser pelo fato de Crauck's ter visto sua imagem junto a tripulação abalada devido ao fato de não ter tomado nenhuma atitude contra o destróier inimigo que se aproximava beligerante. O motim bateria a sua porta em poucos instantes.

"O Velho Lobo" teve um surpresa ao regressar a seus aposentos. Quando começava a derramar em seu cálice uma bebida transparente e borbulhante, da qual recriminava-se por estar tão dependente, o alerta do computador chamou sua atenção. Ligando o visor do equipamento, lá estava a mesma transmissão! Imediatamente Crauck's notou haverem três fontes; Uma na superfície do planeta gelado, outra de origem não identificável no curto espaço de tempo que teria e a terceira...

- Dentro da nave! Bem... isso já era esperado. Mas onde?!

Astorm parecia ter recuperado a juventude perdida a anos. Enquanto vasculhava delirantemente os dados em forma de gráficos quase ininteligíveis a procura do traidor seus olhos brilhavam com a fúria de uma fera selvagem das eras pré-espaciais.

- Aí está! - disse estas palavras já saindo do quarto correndo pelo corredor vazio.

Lá estava ele diante da porta dos aposentos do traidor. Ofegante com a chave mestra em mãos pronto a pegar o maldito cometendo o ato mais repugnante para um verdadeiro soldado, traição!

A porta abriu silenciosamente e Crauck's não encontrou nenhum desconhecido ali.

- Ora! Ora! Ora! Quem mais eu poderia esperar encontrar nesta reuniãozinha! - disse Crauck's com desprezo.

Diante de si, Crauck's tinha aquela simpática bola de gordura que fora o seu único e displicente contato com a confederação durante meses, o ilustre general Abger Cronás; o mais conhecido opositor a paz entre a confederação e o império dentre todos os Pleyadeanos, o delegado do imperador Arquiduque Kaitzir. Estes dois de forma virtual e finalmente o terceiro e mais repugnante, o único que realmente estava ali, seu leal soldado John Filmor.

A porta fechou com seu som costumeiro, quase imperceptível. O comandante ao ouvir aquele som sentiu um arrepio. Não tinha tomado nenhuma providência. Na ânsia de flagrar o traidor, tinha-se colocado em suas mãos.

- Ho! Vejam se não é o honorável Capitão Astorm Crauck's.- disse o gordo homem do outro lado.

- Sabia que cedo ou tarde os pegaria! Tenho um destacamento a caminho. - blefou.

- Nos pegaria? - disse o Arquiduque com ar sardônico. - Não! Acho que não capitão. Nós é que o pegamos. Agóra já é tarde demais.

- Tarde? Tarde para que?

- Para salvar o tratado! Hoje a paz entre nossos povos terá um fim!

- Então é isso! - dizia Crauck's tentando aproximar-se da porta e escapar da enrascada em que ele mesmo tinha se colocado.

- Isso mesmo. - começou a falar Cronás. - Cada um de nós, nesta sala, tem interesses relacionados com o reinicio das hostilidades. Eu tenho armas que em tempos de paz não tem valor, no entanto se a guerra recomeçar... Já nosso amigo comum, o Arquiduque Kaitzir, é como eu, um general e como sabemos um general em sua posição, vale em tempos de batalha, muitas vezes, mais que um imperador e... - nesse ponto foi interrompido por Filmor.

- Não creio que devamos perder tempo com explicações.

- Perder tempo? - indagou o general confederado. - Nós não precisamos mais nos preocupar com tempo!

- E você? - perguntou Crauck's com os olhos fixos em Filmor.

- Eu? - Um gosto amargo tomou sua boca e com um falso sorriso nos lábios, tentando não deixar transparecer a vergonha disse: - Dinheiro!

Nesse momento, Astorm tentando aproveitar-se do fato de Filmor ter desviado o olhar, pressionou o botão de abertura da porta e deu-lhe um empurrão.

Filmor bateu violentamente contra a parede mas não teve problemas em disparar o Neuro-Bloqueador, um pequeno dispositivo Pleyadeano que provoca uma desorganização nas informações gravadas no cérebro de tal grau que dificilmente um homem depois de sentir seus efeitos continua a ser realmente um homem. As seqüelas deixadas, na maioria das vezes, colocam a vitima em estado total de loucura ou vegetatividade. Era uma arma ainda desconhecida pela confederação e os efeitos pareceriam naturais, principalmente em um homem de idade relativamente avançada como Crauck's.

O velho comandante não teve tempo de sentir praticamente nada antes de perder os sentidos. Apenas uma sensação gélida como se estivesse mergulhando lentamente num liquido denso e frio e sua consciência perdendo-se na névoa. Seu corpo atingiu pesadamente o chão e Filmor parecia uma escultura de roxa sólida com os olhos frios a fitalo.

* * *

Crauck's fora vitimado por um colapso nervoso seguido de derrame cerebral com conseqüências irreversíveis. Esta foi a versão oficial da história que foi dada a conhecer à tripulação.

O comandante estava agora em uma unidade de sustentação de vida há trinta e duas horas e seu estado era imutável.

A tristeza era geral entre todos na tripulação, mas um tripulante em especial sentia-se desolado.

- Não! Isso não faz sentido - balbuciou La'Guer.

Estava com a mente em chamas, no entanto não encontrava explicação convincente alguma; Crauck's nunca parecera melhor, mais jovem... Seu rodamoinho de pensamentos desorganizados foi bruscamente interrompido pela lembrança daquele estranho sinal que ele ouvira no momento em que fora demonstrar o receptor de rádio a Astorm. Claro tinha que haver alguma relação, Crauck's agira estranhamente naquela ocasião e nos dias que se seguiram ao fato evitou o assunto de maneira dissimulada. O que haveria por trás disso? De alguma forma teria que descobrir!

* * *

Nestor estava em seu quarto trancado a horas. Havia pedido a um amigo que cobrisse seu horário de serviço inventando uma história sobre garotas e agora estava tentando localizar o sinal novamente; lembrava vagamente a freqüência em que havia captado o sinal pela primeira vez, mas nada havia ali agora. Se fosse um sinal proveniente de algo natural provavelmente deveria permanecer.

- Vamos! Vamos, pense! - Cochichou para si mesmo.

Saiu andando pêlos corredores sem rumo e sem perceber, pelo menos não contentemente, caminhou até estar diante da porta dos aposentos de Crauck's. Como era de costume a porta tinha sido lacrada e só seria aberta por um oficial de justiça da confederação. Pelo menos essa era a intenção. O jovem estava dentro do quarto do comandante da nave. Estava agindo quase que instintivamente. Não planejara fazer aquilo, porem sentia-se impelido a avançar!

* * *

Filmor, agora comandante da nave, estava na ponte de comando preparando-se para enfrentar seus inimigos, dissimular uma batalha sangrenta, sair secretamente da nave e entregar seus homens a morte. Tudo isso em troca de um titulo de conde no Império Pleyadeano e muitas riquezas. Evidentemente os registros da nave seriam deixados intatos evidenciando o heroísmo de todos os pobres soldados mortos no combate e a iniciativa bélica do império.

Do lado do império seria dada a conhecer uma versão diferente; na qual a confederação teria tomado a iniciativa, e a guerra recomeçaria sem culpados.

- Distância? - Perguntou laconicamente.

- Estão a novecentos e cinqüenta mil quilômetros e aproximando-se rapidamente. Logo serão visíveis na tela.

As coisas não poderiam ter saído melhores. Até mesmo a inesperada visita de Crauck's fora a seu favor. Ninguém desconfiou das circunstâncias da morte, já que todos estavam mesmo comentando que o comandante era velho demais para aquele tipo de coisa, desde que a nave imperial fora avistada e ele nada fizera. E agora com ele no comando direto da nave não havia mais o menor perigo de algo sair errado.

Não era o plano matar o comandante. Pelo menos não antes de tudo terminado, mas ele os obrigou a apressar as coisas, e Filmor sentia-se aliviado de não o ter mais por perto. Afinal de contas era uma pedra bastante incomoda em seu sapato, aquele velho. A presença dele naquela nave impunha um risco muito grande, mas Cronás tinha suas limitações e não conseguiu colocar Filmor como comandante de uma missão. 

Fale com o autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Webmaster: Marta Rolim

Hosted by www.Geocities.ws

1