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Meu
nome é Cassandra, vou contar a vocês sobre um fato que mudou a
minha vida completamente.
Na época eu morava numa
cidade do interior de Pernambuco, havia poucos habitantes, a vida
social se resumia a ir ao clube para matinês. Minha idade era 17
anos. Bem como eu vou me descrever...tinha estatura média, cabelos
longos na cor preta, olhos cor de mel, traços suaves. Podia ser
considerada bonita, segundo me diziam os rapazes.
Nunca saí deste local, nem
para viajar, mas eu queria mais da vida. Eu assistia aos filmes no
cinema, e ficava me imaginando naquelas cidades grandes, sendo uma
daquelas mulheres ricas e famosas. Meus pais me diziam que eu
sonhava alto, eu deveria, segundo eles, me contentar com a vida que
levava e casar com um rapaz bom e honesto.
Foi anunciado pela cidade que
viria um artista famoso para a matinê daquele domingo. Não se
falou em outra coisa a semana toda. Todas as moças do local queriam
ir.
O dia da festa amanheceu
claro, tudo estava calmo, calmo demais. Eu ainda estava
impressionada pela brincadeira que eu e meus primos havíamos feito
na noite anterior – quando estávamos todos reunidos resolvemos
brincar com a tábua ouija, todos ficaram em volta da mesa com as
pontas dos dedos no copo enquanto fazíamos perguntas. Eu perguntei
a um espírito que estava presente com quem eu iria me casar, ele se
recusou a responder e o copo quebrou. Mas nada me impediria de ir.
Eu e minhas primas, Alinne e
Vanessa, fomos juntas à festa. Todos não se cansavam de elogiar,
me dizendo o quanto eu estava bonita.
O Clube estava todo enfeitado,
tudo parecia um sonho. Antes que o artista chegasse outras bandas
tocariam. Demos uma volta pelo local e falamos com alguns
conhecidos.
De repente a música que
tocava parou, alguém disse que era um defeito no equipamento, e
como se tivesse surgido do nada apareceu um rapaz no salão com um
chapéu na cabeça, roupas esfarrapadas, não se conseguia ver seu
rosto. Ele dirigiu sua atenção para onde meu grupo estava e veio
caminhando. Pensei com raiva – o que esse cara quer com a gente?
Para meu transtorno ele parou
à minha frente. Estendeu a mão – a música voltou a tocar. Ele
disse:
– Vamos dançar, moça?
Olhei para as minhas primas.
Vanessa fazia um movimento de estímulo para que eu dançasse com
ele, ela tinha pena dos pobres coitados da vida. Já Alinne minha
outra prima fazia expressão de nojo, e o movimento com as mãos de
“dispensa esse cara logo”.
Virei minha cabeça de volta
à mão estendida, tudo passava para mim como em câmara lenta, era
como se não existisse mais música, nem pessoas ao redor. Só eu e
ele.
– Quem você pensa que é,
vestido desse jeito, com essa aparência de esmoleu, pedir a uma moça
refinada como eu para dançar. Não sem como é que te deixaram
entrar aqui. – disse eu, com um gesto de desdém.
Ele não disse mais nada, não
pude ver sua expressão facial, pois o rosto era todo encoberto pelo
chapéu. Recolheu a mão que havia estendido e se dirigiu para a saída.
Me aproximei das minhas primas
e comentei:
– Vocês viram a audácia
daquele cara. Me pedir para dançar.
– Mas Cassandra você podia
ter sido menos grossa. Não se pode desprezar as pessoas assim, -
disse Vanessa.
– Ora Vanessa, não me venha
com essa sua piedade pelos menos afortunados. Tanto rapaz
interessante aqui, você acha que eu iria querer ser vista dançando
com aquele.
– Está muito certa. Eu
mesma não teria nem me dado ao trabalho de responder. –
argumentou Alinne.
Depois dessa breve discussão
a tarde seguiu sem maiores acontecimentos. Filhos de fazendeiros me
chamavam para dançar, alguns prometiam mundos e fundos, mas eu me
fazia de difícil. Enquanto conversava com uma colega de escola que
encontrei, percebi um pouco mais atrás encostado numa coluna do
clube, um rapaz com um terno branco, na verdade ele estava todo
vestido de branco. Minha amiga me distraiu um pouco e quando me
virei, ele não estava mais lá.
Resolvi dar um volta pelo
Clube, quando senti um puxão no braço, já ia reclamar quando
reparei que era o rapaz de branco. Não puder ver seu rosto pois ele
usava um chapéu muito bonito.
– Você quer dançar?
– Claro.
Dançamos duas músicas, ambos
em silêncio, apenas acompanhando o ritmo da música lenta. Após
algum tempo perguntei:
– Quem é você?
Ele parou de dançar e segurou
no meu braço com força.
– Não está lembrada de
mim?
– Eu nunca o vi antes.
– Eu sou aquele rapaz que
você desprezou antes.
– Você?!
Ele não falou mais nada. Começou
a tirar o chapéu. Era uma visão terrível. Seus olhos não eram
humanos, suas mão mudaram de cor, sua pele se tornou avermelhada,
onde estava o chapéu agora se podia visualizar seus chifres.
Comecei a gritar o mais alto que pude. Os casais a nossa volta
pararam de dançar e quando viram àquilo, começou o tumulto, todos
corriam para a saída. Quem não havia visto fugia mesmo sem saber o
porquê. Minhas primas olharam para mim em desespero e nada fizeram
a não ser correr também.
A criatura olhava aquilo tudo
e só fazia rir. Tentei me soltar, lutei para fugir, mas tudo era inútil.
A única coisa que pude pensar foi: por que eu?
Nada mais foi dito da parte
dele. Senti a vida se esvaindo de mim, me sentia frágil e
impotente. No fim tudo se tornou escuridão.
Eu tinha, como já disse antes
17 anos.
Este trecho não faz parte da
narrativa de Cassandra:
"NOTÍCIA DO JORNAL DIÁRIO
DA CIDADE: Em um baile, na cidade de ------ ocorreu um tumulto na
tarde de ontem. Algumas pessoas afirmam ter visto o diabo encarnado.
Uma moça desapareceu, seu nome era Cassandra. O fato mais estranho
foi a aparição de uma pintura nas colunas do clube, de uma mulher
bastante bonita entrelaçada com uma imagem demoníaca. Familiares
da moça desaparecida a identificam como sendo a mulher na tal
pintura. O local foi fechado e não tem previsão de abertura."
*Conversa entre primas:
– Vanessa, a gente podia ter
pego mais leve.
– Que nada, Alinne ela só
fazia atrapalhar.
– Mas prende-la naquela
parede por anos a fio...
– Não se convencia de sua
beleza? deixe que agora seja vista por todos, e se torne imortal.
– O que é que ele vai
querer em troca?
– Nada.
– Como nada?
– Ele queria ela. Agora ele
a tem. Essa foi a barganha.
– Mas Ricardo, ainda procura
por ela.
– Deixe que ele a procure até
que se canse. Ele é o irmão dela, por isso se sente responsável.
Coitado (com ironia).
– Já se passaram 8 anos.
Com o tempo todos esquecem.
– É mas a pintura ainda está
lá.
– Vamos parar com esse
choramingo.
– Eu fiz o que foi
melhor...Como eu odiava Cassandra.
– Eu também.*
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