O Baile

 Caroline Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0025]
[Autora: Caroline Santos]
[Título: O Baile]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 1.149]


Meu nome é Cassandra, vou contar a vocês sobre um fato que mudou a minha vida completamente.

Na época eu morava numa cidade do interior de Pernambuco, havia poucos habitantes, a vida social se resumia a ir ao clube para matinês. Minha idade era 17 anos. Bem como eu vou me descrever...tinha estatura média, cabelos longos na cor preta, olhos cor de mel, traços suaves. Podia ser considerada bonita, segundo me diziam os rapazes.

Nunca saí deste local, nem para viajar, mas eu queria mais da vida. Eu assistia aos filmes no cinema, e ficava me imaginando naquelas cidades grandes, sendo uma daquelas mulheres ricas e famosas. Meus pais me diziam que eu sonhava alto, eu deveria, segundo eles, me contentar com a vida que levava e casar com um rapaz bom e honesto.

Foi anunciado pela cidade que viria um artista famoso para a matinê daquele domingo. Não se falou em outra coisa a semana toda. Todas as moças do local queriam ir.

O dia da festa amanheceu claro, tudo estava calmo, calmo demais. Eu ainda estava impressionada pela brincadeira que eu e meus primos havíamos feito na noite anterior – quando estávamos todos reunidos resolvemos brincar com a tábua ouija, todos ficaram em volta da mesa com as pontas dos dedos no copo enquanto fazíamos perguntas. Eu perguntei a um espírito que estava presente com quem eu iria me casar, ele se recusou a responder e o copo quebrou. Mas nada me impediria de ir.

Eu e minhas primas, Alinne e Vanessa, fomos juntas à festa. Todos não se cansavam de elogiar, me dizendo o quanto eu estava bonita.

O Clube estava todo enfeitado, tudo parecia um sonho. Antes que o artista chegasse outras bandas tocariam. Demos uma volta pelo local e falamos com alguns conhecidos.

De repente a música que tocava parou, alguém disse que era um defeito no equipamento, e como se tivesse surgido do nada apareceu um rapaz no salão com um chapéu na cabeça, roupas esfarrapadas, não se conseguia ver seu rosto. Ele dirigiu sua atenção para onde meu grupo estava e veio caminhando. Pensei com raiva – o que esse cara quer com a gente?

Para meu transtorno ele parou à minha frente. Estendeu a mão – a música voltou a tocar. Ele disse:

– Vamos dançar, moça?

Olhei para as minhas primas. Vanessa fazia um movimento de estímulo para que eu dançasse com ele, ela tinha pena dos pobres coitados da vida. Já Alinne minha outra prima fazia expressão de nojo, e o movimento com as mãos de “dispensa esse cara logo”.

Virei minha cabeça de volta à mão estendida, tudo passava para mim como em câmara lenta, era como se não existisse mais música, nem pessoas ao redor. Só eu e ele.

– Quem você pensa que é, vestido desse jeito, com essa aparência de esmoleu, pedir a uma moça refinada como eu para dançar. Não sem como é que te deixaram entrar aqui. – disse eu, com um gesto de desdém.

Ele não disse mais nada, não pude ver sua expressão facial, pois o rosto era todo encoberto pelo chapéu. Recolheu a mão que havia estendido e se dirigiu para a saída.

Me aproximei das minhas primas e comentei:

– Vocês viram a audácia daquele cara. Me pedir para dançar.

– Mas Cassandra você podia ter sido menos grossa. Não se pode desprezar as pessoas assim, - disse Vanessa.

– Ora Vanessa, não me venha com essa sua piedade pelos menos afortunados. Tanto rapaz interessante aqui, você acha que eu iria querer ser vista dançando com aquele.

– Está muito certa. Eu mesma não teria nem me dado ao trabalho de responder. – argumentou Alinne.

Depois dessa breve discussão a tarde seguiu sem maiores acontecimentos. Filhos de fazendeiros me chamavam para dançar, alguns prometiam mundos e fundos, mas eu me fazia de difícil. Enquanto conversava com uma colega de escola que encontrei, percebi um pouco mais atrás encostado numa coluna do clube, um rapaz com um terno branco, na verdade ele estava todo vestido de branco. Minha amiga me distraiu um pouco e quando me virei, ele não estava mais lá.

Resolvi dar um volta pelo Clube, quando senti um puxão no braço, já ia reclamar quando reparei que era o rapaz de branco. Não puder ver seu rosto pois ele usava um chapéu muito bonito.

– Você quer dançar?

– Claro.

Dançamos duas músicas, ambos em silêncio, apenas acompanhando o ritmo da música lenta. Após algum tempo perguntei:

– Quem é você?

Ele parou de dançar e segurou no meu braço com força.

– Não está lembrada de mim?

– Eu nunca o vi antes.

– Eu sou aquele rapaz que você desprezou antes.

– Você?!

Ele não falou mais nada. Começou a tirar o chapéu. Era uma visão terrível. Seus olhos não eram humanos, suas mão mudaram de cor, sua pele se tornou avermelhada, onde estava o chapéu agora se podia visualizar seus chifres. Comecei a gritar o mais alto que pude. Os casais a nossa volta pararam de dançar e quando viram àquilo, começou o tumulto, todos corriam para a saída. Quem não havia visto fugia mesmo sem saber o porquê. Minhas primas olharam para mim em desespero e nada fizeram a não ser correr também.

A criatura olhava aquilo tudo e só fazia rir. Tentei me soltar, lutei para fugir, mas tudo era inútil. A única coisa que pude pensar foi: por que eu?

Nada mais foi dito da parte dele. Senti a vida se esvaindo de mim, me sentia frágil e impotente. No fim tudo se tornou escuridão.

Eu tinha, como já disse antes 17 anos.

Este trecho não faz parte da narrativa de Cassandra:

"NOTÍCIA DO JORNAL DIÁRIO DA CIDADE: Em um baile, na cidade de ------ ocorreu um tumulto na tarde de ontem. Algumas pessoas afirmam ter visto o diabo encarnado. Uma moça desapareceu, seu nome era Cassandra. O fato mais estranho foi a aparição de uma pintura nas colunas do clube, de uma mulher bastante bonita entrelaçada com uma imagem demoníaca. Familiares da moça desaparecida a identificam como sendo a mulher na tal pintura. O local foi fechado e não tem previsão de abertura."

*Conversa entre primas:

– Vanessa, a gente podia ter pego mais leve.

– Que nada, Alinne ela só fazia atrapalhar.

– Mas prende-la naquela parede por anos a fio...

– Não se convencia de sua beleza? deixe que agora seja vista por todos, e se torne imortal.

– O que é que ele vai querer em troca?

– Nada.

– Como nada?

– Ele queria ela. Agora ele a tem. Essa foi a barganha.

– Mas Ricardo, ainda procura por ela.

– Deixe que ele a procure até que se canse. Ele é o irmão dela, por isso se sente responsável. Coitado (com ironia).

– Já se passaram 8 anos. Com o tempo todos esquecem.

– É mas a pintura ainda está lá.

– Vamos parar com esse choramingo.

– Eu fiz o que foi melhor...Como eu odiava Cassandra.

– Eu também.*

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