NANUM

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0023]
[Autor: Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título: Nanum]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 1.790]

 

Que veio de baixo, do escalão tido como mais acéfalo e desqualificado da sociedade, era um fato.

Outro, que estava ali no topo, próximo a atingir um novo Sistema Solar, na posição de comando. Porém, não se sentia, como diziam, Todo-Poderoso assim.

Claro estava que, perto dos demais (cópias imperfeitas) se destacava. Opinião dele, evidentemente; algo como um clone de deus, embora a verdade passasse longe desse arquétipo divino; tudo fora mais sutil e mortal que isso. Árduo trabalho, frieza e competência. Não necessariamente nessa ordem. Nem essencialmente verdadeiro.

A verdade, se é que isso importava e mudava o enfoque de sua vida, estava na perda do referencial, uns diziam 'a âncora mortal', de praticamente toda família e colegas dizimados nas minas de rutônio e o miserável carvão; podia ser um fardo para uma pessoa 'normal', entretanto tornou-se um bálsamo, isto é, a eliminação de potenciais pontos fracos, ceifando-os antes de causar qualquer problema; daí, só podia agradecer pelo sepultamento deles nos recônditos de sua memória, além das fronteiras do tempo/espaço, absolutamente fora do alcance. Na barganha sem solicitação na qual acabara envolvido, coisa tão fortuita quanto predestinada, acabou desfalcado de tudo, em troca do estágio duvidoso de cobaia bem-sucedida. Mas só descobriu isso depois, praticamente no final. Se esperavam que morresse, sobrevivera; se contavam que caísse em desgraça, os desapontara.

E tudo se iniciara 32.8 anos-luz distante de sua atual posição...

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— Quando é que seres nanoscópicos atingem 90kg de carcaça humana? - disparou o homem por dentro da mortalha quitinada da casta dos Engenheiros Celulares.

Indiferente aos ouvintes que zumbiam como uma massa murmurante de residentes (em sua maior parte), e pessoal autorizado (uma ínfima parcela daquela platéia), continuou:

— Se tornam humanificados, bombasticamente letais, ao se unirem numa cultura 10e12 de nanoseres, proliferando num corpo humano, usando-o menos que um hospedeiro, muito mais como um marionete.

“Novamente pergunto, quando é que se pode interromper o processo e como?”

‘Nunca’ era uma palavra obsoleta demais, mas um dos últimos ouvintes estava fadado a usá-la naquele caso. Porém a mulher ao seu lado refreou-lhe o ímpeto sublimado, praticamente na iminência de se tornar público, para tanto se valendo duma cotovelada no fígado dele. Ao mesmo tempo em que o grito não-nascido se desfazia em sua garganta, a raiva e frustração se alojavam...

— Ei - conteve o ímpeto da represália. Inimigo errado.

Virou-se para a autora da agressão, murmurando numa falsa e estudada entonação de ingenuidade:

— Não fiz nada!

— Mas ia fazer! Devia saber que trazer você não daria em coisa melhor, mano... mano?!!...

E o rapaz mordeu o lábio inferior com força, provocando um sangramento que imediatamente desapareceu, deixando somente um rastro acre em sua boca. As máquinas em ação, pois era um nanum foragido, estigmatizado como , assim diziam os noticiários. O que não diziam, o de sempre, era a versão da vítima. Estava infestado de nanobits, o corpo renascido da quase decomposição, jogado no valão além da cidade, outra vítima da Cólera dos Carvoeiros; a pior simetria possível, todo podre por dentro e disforme por fora. Algo que ninguém, salvo sua irmã (e mesmo assim talvez, pois a lembrança da cotovelada persistia), acaso convocada pelo legista da Comarca para o reconhecimento dos restos mortais, lançaria menos que um olhar de desprezo em sua direção. Uma irmã que, se tornando um fardo pesado demais de se transportar, podia muito bem ser aliviado em qualquer esquina. Sem pestanejar.

O tecido degenerado de antes e o viço atual se situavam cada qual num extremo da balança, lutando no ontem e no amanhã para levá-lo pra vida ou, em contrário, entregando-o de bandeja para os vermes. Em todo caso, o julgamento estava somente em suas mãos.

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Empurrando a assustada irmã-gêmea e esgueirando-se para o corredor, adiantou alguns passos furtivos, porém decididos, entre o verde e o magenta-turqueza dos uniformes dos Engenheiros-residentes, indo o mais próximo possível da bancada, onde o jubilado exibia inúmeras figuras de linguagem, retóricas sem fim, para chegar na cerne de seu discurso: A Imortalidade Conquistada.

, um dos muitos rostos sem nome que trabalhavam no submundo para dar conforto à classe minoritária dos Ar-Livres, não hesitou nem modificou o rumo de sua ação. Um acaso salvara sua vida, pois estivera caído, largado pra morrer junto a outros tantos desgraçados, quando o destino, na forma dum imenso cão farejador, uma abelha quadrúpede, fora de corpo em corpo, dentando-os para prová-los mortos de todo. Na vez dele, quinze anos de detritos acumulados na forma de unhas partidas, dentes enegrecidos, arruinados, olhos encovados, invadidos quase totalmente pelo glaucoma, tinha tudo para se repetir o ritual. Mas o rapaz, num laivo e prenúncio de dor perante o nariz gelado e o hálito peçonhento, antes de ter seu pescoço dilacerado pela grande mandíbula serrilhada e dupla do mastim esculpido na engenharia genética, fez o impensável: mordeu o animal, engolindo seu sangue e carne, fazendo-o ganir em fuga!

Não imaginava porque fizera aquilo. O impulso viera do nada e entregara-se a ele em total abandono. Nada mais importava.

Mas o cão, como ser da superfície, treinado, alimentado, protegido por seus donos, tinha também seu quinhão de nanobits de manutenção em stand-by. O jovem mutante, junto à dentada salvadora, fizera mais que somente morder, engolindo uma fração dessas colônias nanoscópicas. Isso foi antes do alvorecer daquele sol rajado, timidamente relampejando no horizonte de prédios tubulares de , trazendo um pouco de palidez ao majestoso Saturno, amontanhado no céu sem nuvens; pouco antes dos abutres humanos e seus veículos darem seus rasantes e incinerarem os corpos daquela leva seminal do inferno, quando o rapaz levantou-se em gestos vacilantes, os seres dentro dele se multiplicando livre e desenfreadamente, dando início a enormes processos de reparo biológico, revertendo as mutações negativas, adequando-o à vida ao ar-livre, tão bem subsidiando um processo que a cargo da própria natureza, por hipótese, não se completaria nem em cem mil anos...

Quem esgueirou-se para fora daquela vala-crematório, no limite de , foi a gênese conhecida por , o primeiro mutante totalmente degenerado, algo nunca testado, a ser infestado por nanobits; uma malha de neuroracers numa corrida louca contra a morte.

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— - ensinou o Engenheiro-mor, como se dentro de um poço de tédio, mudando de cor a medida que as holos se sucediam no projetor, matizando-o. — Cinqüenta anos de história aqui em Novo Brasil, ou como querem os colonos iniciais, . Lugar onde tudo nasceu, onde samsumgs e nanuns foram despejados, às pencas, durante a Terraformação.

"Seres de um nicho totalmente artificial, acondicionados em blasiferas biológicas, fazendo adaptações genéticas, pontes mnemônicas, em alguns casos até desenvolvendo braquiguelras, em outros mudando até o próprio esqueleto em prol dessas deformações. Enfim, 'aperfeiçoando' os inoculados que, como sabemos, não existem mais como nanuns, todos mortos para o bem da ciência, pois, aberrações, passaram a ameaçar o progresso da humanidade."

O rapaz já tinha atingido sua aproximação máxima da bancada. “É mentira! Sim, senhores, havia um ainda respirando...”, gostaria de gritar, mas não fez nada daquilo. Contentou-se em observar e esperar, no intervalo aproveitando para aumentar a produção de suas glândulas salivares.

— ... vencemos todas as barreiras e chegamos nessa lua após deixarmos a Terra... - à menção daquela palavra-tabu fez com que quase todos residentes mais velhos se cobrissem de ‘passes’ supersticiosos (resquício das religiões extintas), — E, senhores, a raça humana consagrou-se, conseguindo se superar!! Se estamos prestes a conquistar o universo, a imortalidade a um passo de nós, devemos ao PhD de nanotecnologia do século XXI, o Venerável Mark Ayres dos Reys...”

Perante o holograma do vetusto aludido, os aplausos soaram como cascatas escoando de cada par de mãos, deixando o anfiteatro tomado momentaneamente pela euforia. Neste instante, quando o jubilado curvou-se para bebericar de seu coquetel isento de radicais-livres, sentiu algo úmido e pegajoso de encontro à face. Algo que identificou, horrorizado, como fluido corporal expectorado...

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Daquela forma nada altruísta e limpa, revelou-se à audiência, contaminando o jubilado com o assalto de seus nanobits programados para uma ação devastadora naquele corpo cujas as defesas não previam um combate de ‘iguais ’. Todos puderam acompanhar os derradeiros movimentos pelos telões; por todos os ângulos possíveis o engenheiro-master se liqüefazia no palco, tornando-se uma poça de pus, onde resquícios de pernas e braços, excrescências poucas e fadadas à degradação total, contorciam-se debilmente num formato inumano, clamando um mudo socorro. Implorando por algo que não veio.

Tomando os guardas de sobressalto, o enviara aquele comando suicida de à colônia do novo hospedeiro temporário, infestando o plasma do engenheiro por seus poros faciais e vias-respiratórias superioras; desencadeou-se a autofagocitose, fazendo-o transformar numa breve e gritante pira tumular, que os eficientes e insensíveis servo-mecanismos do anfiteatro, espalhando narcóticos e borrifando jatos de sprays florais, logo trataram de limpar, trazendo silêncio e assepsia ao recinto.

— Vocês ouviram o pretenso criador falar, enchendo-os com dados forjados no vácuo - sem qualquer impostação na voz, o atacante prosseguiu, falando à audiência do finado engenheiro, mantendo afastados os guardas pelo simples expediente da ameaça de novas cusparadas mortais: — Agora, mais sucintamente, ouvirão a ‘criatura’: Muitos dos que aqui estão são gente como eu; pessoas, entidades paridas em laboratórios, contratados para o cumprimento de uma específica tarefa, seja mundana, seja ela um pouco mais sofisticada. Não importa a missão, pois, lá no fundo, fazemos parte da mesma laia. Os demais, por natureza em melhores aptidões genéticas, alçavam altos cargos; outra parcela, não representados aqui, exceto por mim, acabam descartados no submundo. Mas, como o único sobrevivente desse nicho que conseguiu fazer o caminho de volta, longe de trazer desespero, confere uma importante dádiva, pois acabei possuindo a chave da verdadeira imortalidade! Antes de me indagarem como dividir isso, diferentemente do que foi falado por aquele que jaz ali no lixo – embora de alguma forma semelhante -, proponho que fechem seus olhos, dêem cambalhotas, rolem no chão e ladrem bem alto...

E assim foi feito, exatamente conforme aquela e outras instruções mais complexas, exceto pela participação da irmã, que há muito jazia desacordada.

— Eu comando-os em tudo! Digo, eu, O Nanobit. Quem controla os mecanismos e os programas, controla a máquina como um todo. Para encurtar o discurso,

.

“Doravante estaremos irmanados como uma Nova Raça!”

Assim sendo, todos aplaudiram sem ‘querer’ aplaudir, olhos arregalados sem poderem controlar, mãos furiosamente se batendo, gritos ovacionais vocalizados por cordas vocais sublevadas. Máquinas prontas para uma nova programação.

Marionetes vencidos pelo poder da verdadeira criação.

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“”.

Vibrou a grande esfera translúcida aos pequenos, opacos e frenéticos esferóides, completando em reservado um pensamento que irradiou-lhe o ego:

“ “

E o nanum, ou qualquer coisa que agora se tornara, inchou de presciência.

ainda era uma boa e usável terminologia humana!

(*) Nota: entenda-se 10e12 como 10 elevado à potência 12.

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