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Que
veio de baixo, do escalão tido como mais acéfalo e desqualificado
da sociedade, era um fato.
Outro, que
estava ali no topo, próximo a atingir um novo Sistema Solar, na
posição de comando. Porém, não se sentia, como diziam,
Todo-Poderoso assim.
Claro estava
que, perto dos demais (cópias imperfeitas) se destacava. Opinião
dele, evidentemente; algo como um clone de deus, embora a verdade
passasse longe desse arquétipo divino; tudo fora mais sutil e
mortal que isso. Árduo trabalho, frieza e competência. Não
necessariamente nessa ordem. Nem essencialmente verdadeiro.
A verdade, se
é que isso importava e mudava o enfoque de sua vida, estava na
perda do referencial, uns diziam 'a âncora mortal', de praticamente
toda família e colegas dizimados nas minas de rutônio e o miserável
carvão; podia ser um fardo para uma pessoa 'normal', entretanto
tornou-se um bálsamo, isto é, a eliminação de potenciais pontos
fracos, ceifando-os antes de causar qualquer problema; daí, só
podia agradecer pelo sepultamento deles nos recônditos de sua memória,
além das fronteiras do tempo/espaço, absolutamente fora do
alcance. Na barganha sem solicitação na qual acabara envolvido,
coisa tão fortuita quanto predestinada, acabou desfalcado de tudo,
em troca do estágio duvidoso de cobaia bem-sucedida. Mas só
descobriu isso depois, praticamente no final. Se esperavam que
morresse, sobrevivera; se contavam que caísse em desgraça, os
desapontara.
E tudo se
iniciara 32.8 anos-luz distante de sua atual posição...
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— Quando é
que seres nanoscópicos atingem 90kg de carcaça humana? - disparou
o homem por dentro da mortalha quitinada da casta dos Engenheiros
Celulares.
Indiferente aos
ouvintes que zumbiam como uma massa murmurante de residentes (em sua
maior parte), e pessoal autorizado (uma ínfima parcela daquela platéia),
continuou:
— Se tornam
humanificados, bombasticamente letais, ao se unirem numa cultura
10e12 de nanoseres, proliferando num corpo humano, usando-o menos
que um hospedeiro, muito mais como um marionete.
“Novamente
pergunto, quando é que se pode interromper o processo e como?”
‘Nunca’ era
uma palavra obsoleta demais, mas um dos últimos ouvintes estava
fadado a usá-la naquele caso. Porém a mulher ao seu lado
refreou-lhe o ímpeto sublimado, praticamente na iminência de se
tornar público, para tanto se valendo duma cotovelada no fígado
dele. Ao mesmo tempo em que o grito não-nascido se desfazia em sua
garganta, a raiva e frustração se alojavam...
— Ei -
conteve o ímpeto da represália. Inimigo errado.
Virou-se para a
autora da agressão, murmurando numa falsa e estudada entonação de
ingenuidade:
— Não fiz
nada!
— Mas ia
fazer! Devia saber que trazer você não daria em coisa melhor,
mano... mano?!!...
E o rapaz
mordeu o lábio inferior com força, provocando um sangramento que
imediatamente desapareceu, deixando somente um rastro acre em sua
boca. As máquinas em ação, pois era um nanum foragido,
estigmatizado como , assim diziam os noticiários. O que não
diziam, o de sempre, era a versão da vítima. Estava infestado de
nanobits, o corpo renascido da quase decomposição, jogado no valão
além da cidade, outra vítima da Cólera dos Carvoeiros; a pior
simetria possível, todo podre por dentro e disforme por fora. Algo
que ninguém, salvo sua irmã (e mesmo assim talvez, pois a lembrança
da cotovelada persistia), acaso convocada pelo legista da Comarca
para o reconhecimento dos restos mortais, lançaria menos que um
olhar de desprezo em sua direção. Uma irmã que, se tornando um
fardo pesado demais de se transportar, podia muito bem ser aliviado
em qualquer esquina. Sem pestanejar.
O tecido
degenerado de antes e o viço atual se situavam cada qual num
extremo da balança, lutando no ontem e no amanhã para levá-lo pra
vida ou, em contrário, entregando-o de bandeja para os vermes. Em
todo caso, o julgamento estava somente em suas mãos.
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Empurrando a
assustada irmã-gêmea e esgueirando-se para o corredor, adiantou
alguns passos furtivos, porém decididos, entre o verde e o
magenta-turqueza dos uniformes dos Engenheiros-residentes, indo o
mais próximo possível da bancada, onde o jubilado exibia inúmeras
figuras de linguagem, retóricas sem fim, para chegar na cerne de
seu discurso: A Imortalidade Conquistada.
, um dos muitos
rostos sem nome que trabalhavam no submundo para dar conforto à
classe minoritária dos Ar-Livres, não hesitou nem modificou o rumo
de sua ação. Um acaso salvara sua vida, pois estivera caído,
largado pra morrer junto a outros tantos desgraçados, quando o
destino, na forma dum imenso cão farejador, uma abelha quadrúpede,
fora de corpo em corpo, dentando-os para prová-los mortos de todo.
Na vez dele, quinze anos de detritos acumulados na forma de unhas
partidas, dentes enegrecidos, arruinados, olhos encovados, invadidos
quase totalmente pelo glaucoma, tinha tudo para se repetir o ritual.
Mas o rapaz, num laivo e prenúncio de dor perante o nariz gelado e
o hálito peçonhento, antes de ter seu pescoço dilacerado pela
grande mandíbula serrilhada e dupla do mastim esculpido na
engenharia genética, fez o impensável: mordeu o animal, engolindo
seu sangue e carne, fazendo-o ganir em fuga!
Não imaginava
porque fizera aquilo. O impulso viera do nada e entregara-se a ele
em total abandono. Nada mais importava.
Mas o cão,
como ser da superfície, treinado, alimentado, protegido por seus
donos, tinha também seu quinhão de nanobits de manutenção em
stand-by. O jovem mutante, junto à dentada salvadora, fizera mais
que somente morder, engolindo uma fração dessas colônias nanoscópicas.
Isso foi antes do alvorecer daquele sol rajado, timidamente
relampejando no horizonte de prédios tubulares de , trazendo um
pouco de palidez ao majestoso Saturno, amontanhado no céu sem
nuvens; pouco antes dos abutres humanos e seus veículos darem seus
rasantes e incinerarem os corpos daquela leva seminal do inferno,
quando o rapaz levantou-se em gestos vacilantes, os seres dentro
dele se multiplicando livre e desenfreadamente, dando início a
enormes processos de reparo biológico, revertendo as mutações
negativas, adequando-o à vida ao ar-livre, tão bem subsidiando um
processo que a cargo da própria natureza, por hipótese, não se
completaria nem em cem mil anos...
Quem
esgueirou-se para fora daquela vala-crematório, no limite de , foi
a gênese conhecida por , o primeiro mutante totalmente degenerado,
algo nunca testado, a ser infestado por nanobits; uma malha de
neuroracers numa corrida louca contra a morte.
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— - ensinou o
Engenheiro-mor, como se dentro de um poço de tédio, mudando de cor
a medida que as holos se sucediam no projetor, matizando-o. — Cinqüenta
anos de história aqui em Novo Brasil, ou como querem os colonos
iniciais, . Lugar onde tudo nasceu, onde samsumgs e nanuns foram
despejados, às pencas, durante a Terraformação.
"Seres de
um nicho totalmente artificial, acondicionados em blasiferas biológicas,
fazendo adaptações genéticas, pontes mnemônicas, em alguns casos
até desenvolvendo braquiguelras, em outros mudando até o próprio
esqueleto em prol dessas deformações. Enfim, 'aperfeiçoando' os
inoculados que, como sabemos, não existem mais como nanuns, todos
mortos para o bem da ciência, pois, aberrações, passaram a ameaçar
o progresso da humanidade."
O rapaz já
tinha atingido sua aproximação máxima da bancada. “É mentira!
Sim, senhores, havia um ainda respirando...”, gostaria de gritar,
mas não fez nada daquilo. Contentou-se em observar e esperar, no
intervalo aproveitando para aumentar a produção de suas glândulas
salivares.
— ...
vencemos todas as barreiras e chegamos nessa lua após deixarmos a
Terra... - à menção daquela palavra-tabu fez com que quase todos
residentes mais velhos se cobrissem de ‘passes’ supersticiosos
(resquício das religiões extintas), — E, senhores, a raça
humana consagrou-se, conseguindo se superar!! Se estamos prestes a
conquistar o universo, a imortalidade a um passo de nós, devemos ao
PhD de nanotecnologia do século XXI, o Venerável Mark Ayres dos
Reys...”
Perante o
holograma do vetusto aludido, os aplausos soaram como cascatas
escoando de cada par de mãos, deixando o anfiteatro tomado
momentaneamente pela euforia. Neste instante, quando o jubilado
curvou-se para bebericar de seu coquetel isento de radicais-livres,
sentiu algo úmido e pegajoso de encontro à face. Algo que
identificou, horrorizado, como fluido corporal expectorado...
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Daquela forma
nada altruísta e limpa, revelou-se à audiência, contaminando o
jubilado com o assalto de seus nanobits programados para uma ação
devastadora naquele corpo cujas as defesas não previam um combate
de ‘iguais ’. Todos puderam acompanhar os derradeiros movimentos
pelos telões; por todos os ângulos possíveis o engenheiro-master
se liqüefazia no palco, tornando-se uma poça de pus, onde resquícios
de pernas e braços, excrescências poucas e fadadas à degradação
total, contorciam-se debilmente num formato inumano, clamando um
mudo socorro. Implorando por algo que não veio.
Tomando os
guardas de sobressalto, o enviara aquele comando suicida de à colônia
do novo hospedeiro temporário, infestando o plasma do engenheiro
por seus poros faciais e vias-respiratórias superioras;
desencadeou-se a autofagocitose, fazendo-o transformar numa breve e
gritante pira tumular, que os eficientes e insensíveis
servo-mecanismos do anfiteatro, espalhando narcóticos e borrifando
jatos de sprays florais, logo trataram de limpar, trazendo silêncio
e assepsia ao recinto.
— Vocês
ouviram o pretenso criador falar, enchendo-os com dados forjados no
vácuo - sem qualquer impostação na voz, o atacante prosseguiu,
falando à audiência do finado engenheiro, mantendo afastados os
guardas pelo simples expediente da ameaça de novas cusparadas
mortais: — Agora, mais sucintamente, ouvirão a ‘criatura’:
Muitos dos que aqui estão são gente como eu; pessoas, entidades
paridas em laboratórios, contratados para o cumprimento de uma
específica tarefa, seja mundana, seja ela um pouco mais
sofisticada. Não importa a missão, pois, lá no fundo, fazemos
parte da mesma laia. Os demais, por natureza em melhores aptidões
genéticas, alçavam altos cargos; outra parcela, não representados
aqui, exceto por mim, acabam descartados no submundo. Mas, como o único
sobrevivente desse nicho que conseguiu fazer o caminho de volta,
longe de trazer desespero, confere uma importante dádiva, pois
acabei possuindo a chave da verdadeira imortalidade! Antes de me
indagarem como dividir isso, diferentemente do que foi falado por
aquele que jaz ali no lixo – embora de alguma forma semelhante -,
proponho que fechem seus olhos, dêem cambalhotas, rolem no chão e
ladrem bem alto...
E assim foi
feito, exatamente conforme aquela e outras instruções mais
complexas, exceto pela participação da irmã, que há muito jazia
desacordada.
— Eu
comando-os em tudo! Digo, eu, O Nanobit. Quem controla os mecanismos
e os programas, controla a máquina como um todo. Para encurtar o
discurso,
.
“Doravante
estaremos irmanados como uma Nova Raça!”
Assim sendo,
todos aplaudiram sem ‘querer’ aplaudir, olhos arregalados sem
poderem controlar, mãos furiosamente se batendo, gritos ovacionais
vocalizados por cordas vocais sublevadas. Máquinas prontas para uma
nova programação.
Marionetes
vencidos pelo poder da verdadeira criação.
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“”.
Vibrou a grande
esfera translúcida aos pequenos, opacos e frenéticos esferóides,
completando em reservado um pensamento que irradiou-lhe o ego:
“ “
E o nanum, ou
qualquer coisa que agora se tornara, inchou de presciência.
ainda era uma
boa e usável terminologia humana!
(*) Nota:
entenda-se 10e12 como 10 elevado à potência 12.
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