A Casa Maldita

 Caroline Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0022]                                                     
[Autora: Caroline Santos]
[Título: A Casa Maldita]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 6.200]

 

12. 09.19.. – Quinta - feira

Era uma noite de lua cheia, Carlos, Jane e Roberto, brasileiros que estudavam numa faculdade dos Estados Unidos, estavam no interior deste país procurando um local para acampar quando se perderam no meio de uma floresta numa região desconhecida durante uma tempestade. Avistaram uma casa próxima, numa colina. A casa parecia desabitada, abandonada há muito tempo, mas iria protegê-los durante a noite enquanto descansavam para decidir o que fazer, pelo menos era assim que Carlos pensava.

Jane tomou a iniciativa de se dirigir para a casa, sendo seguida pelos dois rapazes.

I

Antes que entrem na casa, vamos esclarecer quem eles são e o que estão fazendo lá juntos. Roberto e Carlos são colegas de faculdade, ambos cursam Jornalismo, se tornaram amigos e saem para se divertir juntos. Carlos é o mais certinho, o que se esforça para tirar ótimas notas e ter uma grande carreira no futuro. Roberto é mais aventureiro, é muito inteligente, mas apenas freqüenta a universidade, não se esforçando muito pelo curso. Apesar das diferenças, os dois se completam em sua amizade. Jane conheceu os dois numa festa realizada pela fraternidade dela. Ela sempre foi a “garotinha do papai” sempre fazendo o que todos achavam que ela devia fazer. Mas quando chegou a época de ir para a faculdade chocou a todos escolhendo Artes Cênicas (pois para sua família, vida de artista, é uma vida mundana). Ela se identificou tanto com Roberto quanto com Carlos. Como as férias estavam chegando Roberto os chamou para uma cidadezinha que um amigo dele havia indicado como ótima para acampar. Carlos não queria ir, preferia passar as férias fazendo os cursos de verão. Mas Jane e Roberto o convenceram a ir. No entanto desde que eles chegaram à cidadezinha de Nashville nada foi fácil. O local parecia abandonado, as poucas pessoas que encontraram os advertiram a não ir para a floresta pois lá aconteciam coisas estranhas, mas os três eram cépticos a esses conselhos. Organizaram os equipamentos (barraca, comida, utensílios para sobrevivência) e percorreram por uma trilha na mata. No entanto, coisas estranhas começaram a acontecer. Eles foram atacados por um animal que não conseguiram identificar qual era, mas que destruiu tudo que eles carregavam e o que não pôde destruir, Jane, Carlos e Roberto já haviam corrido para bem longe para poder se preocupar com o que haviam perdido. É nesse ponto que se encontram esses três personagens: medo, frio, receio pela própria vida se misturam numa situação desesperadora.

II

Ao chegarem à porta da casa, Jane bate para confirmar se a casa está realmente desabitada. Não há nenhuma resposta, só o uivo do vento na noite fria. Ela testa a fechadura e destranca a porta. Roberto passa por Jane e entra primeiro na casa. Carlos fica para trás e quando olha para a janela de cima da casa que tem dois andares, vê a silhueta de um homem olhando para baixo. Quando entra para avisar aos amigos que tem alguém na parte de cima da casa, não os encontra.

III

Roberto não tem idéia de onde está, mas parece ser o porão da casa, ele não tem idéia de como chegou lá ou de onde estão seus amigos, só sabe que está preso e que tem que arrumar um jeito de sair dali e descobrir o que está acontecendo antes que algo de grave ocorra.

IV

Como tudo estava escuro dentro da casa, sendo iluminado apenas pelo luar, Jane achou que havia se perdido de Roberto, mas não se preocupa, prefere explorar o lugar e procurar um quarto que esteja em condições de utilização. Ela está chateada porque Carlos não queria vir e ela e Roberto insistiram, terminando por fazê-lo ter uma noite péssima. Mas ela o queria lá porque gosta dele e queria passar esses momentos que deveriam ser descontraídos ao lado dele.

V

“Onde estão aqueles dois?”, é o que Carlos pensa ao tentar achar Jane e Roberto na casa. Não há nem sinal de viva alma, quando ele avista um velhinho sentado numa cadeira na sala, na penumbra. Ele pode apenas visualizar a cadeira de balanço com o velhinho sentado em cima: “Vocês invadiram um lugar há muito não visitado!” – disse o velhinho. Carlos lhe pede desculpas pela invasão e explica que ele e os amigos precisam de ajuda. O velhinho parecendo não ter ouvido, continua falando: “Se quiser se salvar e às pessoas que estão com você, terá que lutar e ter muita fé no seu amor pela garota, e na sua amizade pelo rapaz”.

Após falar essas coisas, o velhinho desaparece. Carlos não acredita no que aconteceu, ele uma pessoa tão céptica ter presenciado um fenômeno como aquele. Termina por não dar importância ao que ouviu e segue andando pela casa, pois devido ao que ele presenciou, achou que não era uma boa idéia passar a noite na casa.

VI

Jane sobe até o segundo andar onde há uma luz acesa dentro de um quarto. Ao chegar à porta do quarto vê uma cena que a desespera, um homem está degolando uma mulher com um machado de cortar lenha e bebendo seu sangue, Jane dá um grito e sai correndo descendo as escadas.

VII

Carlos, que está na cozinha, ouve o grito de Jane e corre até as escadas. Quando chega lá, Jane se joga em seus braços chorando: “Calma Jane, foi só sua imaginação, não se preocupe, é essa casa que mexe com a nossa mente” – diz Carlos. Jane olha para ele e diz – “Oh Carlos, que bom que eu encontrei você, foi assustador, minha imaginação ou não, tem alguma coisa com essa casa e é melhor sairmos daqui. Vamos procurar Roberto”. “Eu também acho”, concorda Carlos.

VII

Enquanto isso, Roberto está procurando no porão, um modo de escapar de lá. Por fim, encontra um diário que data de 12.09.1875, começou a lê-lo para ver o que poderia haver com essa cidade e mais especificamente com a casa para terem sido tão advertidos pelos poucos moradores que lá habitavam.

O diário começa com: “Meu nome é Tim Ashwood, sou casado e um homem respeitado pela comunidade. No entanto meus vizinhos não sabem o que eu fiz para ter uma vida tão perfeita. Quando estava em dificuldades e teria que me mudar e vender a casa, apareceu um homem me prometendo a solução para os meus problemas, bastava que eu permitisse que a organização dele pudesse se reunir aqui no porão da minha casa e eles pagariam um bom dinheiro como aluguel. Imaginei que fosse algo ilícito, mas como estava com problemas aceitei. Veja bem, eu sou um homem religioso e se soubesse o que eles fariam aqui nunca teria permitido que este homem e seus seguidores entrassem.

Ele não me dizia seu nome, eu, minha mulher e meus dois filhos o chamávamos de Senhor D. No início, não desconfiei de nada, eles se reuniam aqui no porão, havia uns sons estranhos, mas nada que pudesse nos preocupar, ainda.

Com o passar dos dias começaram a desaparecer jovens e crianças na cidade, as sessões se tornaram cada vez mais longas e os sons mais altos, eu ouvia gritos agoniados. Quando questionei o Sr. D a respeito, ele disse que eram alguns seguidores que se excediam na bebida.

Quando ele me comunicou que viajaria por uns dias, eu e minha mulher resolvemos entrar no porão para descobrir o que é que ele fazia. Ele havia mudado a fechadura da porta, mas nos chamamos um chaveiro amigo nosso que a arrombou. O que nós vimos foi terrível, o local tinha um altar com uma cruz ao contrário disposta numa parede, velas vermelhas e pretas distribuídas pelo porão e imagens tenebrosas nas paredes, de sacrifícios de animais, e também de humanos, mas não encontramos corpos. Havia um livro em cima do altar, parecia ser de preces, nele estava escrito que o objetivo desta seita era alcançar a eternidade na terra para poder realizar o mal onde quer que quisesse ir, mas para isso eram necessários alguns sacrifícios. Mas onde estavam os corpos? Fechamos novamente a porta na firme intenção de enfrentar nosso locatário e expulsá-lo. No entanto passaram-se dias e ele não deu notícias, achamos que algum de seus seguidores deve tê-lo avisado de nossas intenções. A polícia revistou o local, mas não achou nada mais do que o que nós achamos. Então, esta noite, em que escrevo neste diário, ele apareceu, resolvi escrever porque o que quer que nos aconteça quero deixar bem claro que minha família não tem nada a ver com essas mortes e tudo que possamos vir a sofrer advirá desse ente do mal. Eu e minha família dormíamos quando escutei um barulho como se alguém fizesse uma prece. Desci as escadas com minha arma e senti um corrente de ar passar por mim, continuei explorando o andar de baixo, quando ouvi o grito agoniado da minha esposa. Corri escada acima e então eu o vi, ele estava cortando a cabeça dela fora, com um machado. Atirei nele várias vezes, para ela já era tarde, mas eu queria destruí-lo. Mas ele não morria! Começou a andar em minha direção empunhando o machado, então eu perguntei: por quê?

Sr. D deu um sorrisinho sarcástico e me disse: “você já deve saber que eu quero uma eternidade muito além do que a mente humana pode conceber, mas para isso eu precisava de vidas e de seguidores que também morreriam por mim. Sua casa foi um ótimo disfarce pois ninguém pensaria em desconfiar de uma família tão religiosa. Mas você traiu o nosso trato invadindo meu templo e por tê-lo violado você e sua família merecem morrer. Por causa de vocês terei que reiniciar minha seita para alcançar meu objetivo”. Enquanto falava isso os olhos dele faiscavam com reflexos avermelhados, sua boca estava retorcida com uma expressão demoníaca.

Corri para o quarto dos meus filhos, mas lá apenas a morte imperava. Os dois em suas caminhas haviam sido mortos enquanto dormiam. E nesse momento eu jurei vingança, eu errei em ter aceitado este homem em minha casa, mas não iria permitir que ele continuasse seu reinado de terror.

Fui até o porão com o Sr. D em meu encalço, chegando lá ele gritou: “prepare-se para ser mais um dos sacrificados”, ele atingiu meus braços duas vezes com o machado, mas consegui escapar por pouco. Larguei minha arma pois esta não servia, corri para a parede por trás do altar peguei a cruz ao contrário e enfiei no coração dele. De sua boca saiu um grito gutural e uma ameaça: “Tim Ashwood, por ter me matado, você e seus descendentes estão amaldiçoados, sua alma não terá liberdade, ficará presa a mim e a essa casa. Porque eu alcancei a eternidade aqui neste momento, mas apenas nesta construção”.

E eu acreditei no que ele me disse, ele está morto aos meus pés, mas sinto que é apenas seu existir físico, eu ainda sinto sua aura de maldade ao meu redor. Jurei que não mais falaria no caso e que este diário seria o único e último relato deste último ano, e deste meu fatídico erro, os que eu amo já se foram mas permanecerei vivo para impedir que esse espírito do mal impere, porque como ele disse após a minha morte, ele mandará em mim! E aí terminava o diário, Roberto procurou por mais alguma coisa escrita entre as páginas restantes, mas não achou nada. Será que é verdade, ou apenas um conto de uma casa antiga para nos assustar? E eu quero ficar aqui para descobrir? – pensava Roberto. Foi quando ouviu batidas na porta e deu um pulo de susto, mas se tranqüilizou ao ouvir a voz de Carlos gritar seu nome: “Roberto, Roberto, você está aí”. Estou trancado aqui no porão, ele gritou de volta.

Ficou feliz em ter sido encontrado, mas ao se virar para pegar o diário, viu um homem enorme com as mãos ensangüentadas, a boca retorcida e os olhos com reflexos vermelhos, tentou escapar mas este se apossou de seu corpo sem que ele pudesse evitar.

VIII

Jane e Carlos resolveram procurar Roberto no porão, mas a porta estava trancada. Carlos gritou por Roberto e obteve resposta. Ficaram aliviados e resolveram abrir a porta com um pedaço de tábua que acharam ali perto. Só que, de repente, a porta cedeu e Roberto subiu as escadas como se nada tivesse acontecido.

“Roberto, como é que você ficou preso aí?” – perguntou Carlos.

Roberto com uma voz gutural que não parecia ser sua respondeu: “não me lembro, mas isso não é o importante. Vamos procurar um quarto na casa para nos abrigar, pois a chuva está forte lá fora”.

Jane olhou para ele e falou: “Não, eu quero sair daqui, este lugar tem algo de ruim”. “Isso é só sua imaginação, verá que não tem nada a temer”, replicou Roberto. Jane não se sentiu muito convencida com as palavras dele.

IX

Donna havia fugido de casa, lá ela não se sentia parte da família, todos eram muitos puritanos e medrosos, tinham medo de tudo, devido àquela casa lá na montanha, parece que ela exerce influência sobre a cidade, e ela queria viver a vida em toda sua plenitude. Mas ela já sabia o que ia fazer, ela iria atrás dos jovens que havia visto, eles vieram de outro lugar e ela queria ir embora junto com eles.

Seguiu a trilha deles pela floresta, estava chovendo muito forte, ela caiu várias vezes subjugada pela força do vento, mas continuou. Ela não sentia medo da casa da família Ashwood como os outros moradores da cidade, e o único lugar que havia para se abrigar da chuva era lá.

Ela ouviu o uivo de uma criatura que não soube determinar qual era. Donna começou, então, a correr tão rápido quanto pôde. Chegou até uma clareira onde se escondeu numa “caverna” que havia próximo. Quando se sentiu mais segura continuou sua caminhada. Trovões ressoavam em seus ouvidos. Ela já estava suja, cansada e chorando quando chegou à porta da casa. Ouviu vozes provenientes da casa (ela sabia que os estrangeiros só podiam ter ido para lá se abrigar da chuva), e entrou para conhecê-los.

IX

Jane achou Roberto estranho, mas achou que era mais por influência da casa. Ela se acomodou num quarto no andar de cima, mas bem longe do quarto no qual ela havia tido aquela visão, ou seja lá o que fosse. Roberto havia insistindo que não havia nada a temer, que era tudo superstição. Carlos concordou com ele, mas ela notou que era mais para tranqüilizá-la do que por achar verdade. O quarto em que ela se encontrava estava bastante destruído, a cama se encontrava praticamente à altura do chão, cheia de poeira por cima, era aquela cama tipicamente antiga com uma cabeceira de madeira com desenhos estranhos, parecia ter sido, na época em que a casa foi construída, como um quarto de hóspedes.

Jane colocou sua mochila em um canto do quarto, trocou de roupa, observou o que tinha nos armários, o que era quase nada, e desceu para se encontrar com os rapazes antes de dormir. Levou um susto, havia uma mulher parada na soleira da porta, toda molhada com uma mochila nas costas. “Quem é você? – perguntou Jane”.

A estranha respondeu. “Oi, desculpe assustá- la. Meu nome é Donna, eu moro na cidade e como eu soube que vocês haviam saído para acampar por essas bandas imaginei que vocês tivessem se perdido na floresta devido à forte chuva. Desde que soube que vocês haviam chegado gostaria de conhecê-los”.

“Oh! Oi, meu nome é Jane.”

Jane simpatizou com a moça e já ia perguntar a ela algo sobre a casa e apresentá-la ao outros quando Roberto apareceu de repente.

XI

Essa Jane é legal, mas esse Cara que apareceu tem um jeito meio estranho – pensou Donna.

“Jane porque você não me apresenta essa simpática moça?”. Roberto aperta a mão de Donna e lhe lança um olhar fixo e prolongado. Donna se desvencilha dele e afirma que vai procurar um dos quartos para se alojar para depois poderem se conhecer melhor. Jane pergunta se pode acompanhá-la.

“Sabe, Roberto está estranho, por favor, não repare nele, acho que assumiu o papel de assustador para nos pregar uma peça” - disse Jane. Donna não ficou bem convencida, ela conhecia por demais a história da casa, e sentiu que bem no íntimo ela havia ido para lá realmente atrás de um objetivo e não em fuga da sua vida anterior.

“Jane, eu sei que há um outro rapaz com vocês, onde ele está?” – perguntou Donna. “Ah, o nome dele é Carlos, deve estar em um dos outros quartos, nós vamos encontrá- lo assim que você retirar essas roupas molhadas”.

“Não, vamos falar com ele agora!” – disse Donna saindo do quarto sendo seguida por uma Jane atarantada.

XII

Carlos estava terminando de trocar de roupa quando a porta do seu quarto foi aberta bruscamente por uma moça que ele nunca havia visto antes, acompanhada por Jane.

“Jane que invasão é essa?“, ele perguntou.

“Desculpe, Carlos, esta aqui é Donna, ela é uma das moradoras da cidade e veio para nos ajudar, ela não quis esperar para que nos encontrássemos todos lá embaixo, o por quê eu não sei”.

“Bem eu vou explicar porquê.” – disse Donna. “Eu tive uma irmã que, como todos os moradores de Nashville, conhecia a história da casa. Ela fazia faculdade e resolveu que um de seus projetos seria desvendar a história desta casa. Para isso ela foi a bibliotecas procurar por artigos da época, e tudo que se desenrolou com os moradores da casa desde a primeira notícia fatídica. O primeiro arquivo data de 1875, numa noite em que a família do Sr. Ashwood foi morta, acreditava-se que ele matou a família e depois se suicidou num surto de loucura. Mas o que minha irmã soube por outros moradores, foi que havia um homem que freqüentava a casa desse Sr. e trazia amigos para cá. Na semana anterior ao homicídio este homem havia desaparecido e a polícia havia ido até a casa. Minha irmã então foi mais fundo, ela tinha uma idéia de que alguns moradores da cidade, e de outras também eram seguidores de uma seita e o líder era chamado Sr. D., que era o mesmo homem que freqüentava a casa do Sr. Ashwood. Para encurtar a história, os herdeiros da casa”, uns primos distantes da família, resolveram morar aqui, mas não eram felizes, tudo que eles faziam, dava errado, eles tinham três filhos dos quais apenas um sobreviveu a uma doença que nenhum médico sabia determinar qual era. Os moradores diziam escutar vozes à noite na casa, então tentaram vender e se mudaram, mas minha irmã descobriu que a morte os perseguiu, restando apenas um que constitui família bem longe daqui. Mas um relato que marcou a pesquisa da minha irmã foi o de uma velha senhora que já trabalhou aqui como cozinheira, ela disse que viu nos olhos do dono da casa o mal reencarnado no dia em que os filhos dele adoeceram, disse que chamou por ele, mas ele apenas a tranqüilizou e numa voz que não parecia a sua disse que tudo estava bem. Vocês podem dizer que é tudo pura estória, mas eu vi essa expressão na face desse amigo de vocês, Roberto. Eu a reconheci porque foi esta expressão que eu vi no rosto da minha irmã antes dela se matar. Eu notei que, de algum modo, ele sabia e quis me relembrar isso.”- terminou Donna com os olhos rasos de lágrimas”.

“Donna, foi uma história surpreendente, essa que você contou, mas você acha que Roberto de algum modo pode nos fazer mal agindo por influência da casa?” – Perguntou Carlos. “Carlos”, disse Jane, “Muito dessa história pode ser fantasia, ou pelo que Donna disse, pode ser verdade. Mas eu desconfio que Ashwood, realmente deveria ser um louco e que matou sua família, afinal eu vi algo assim em um dos quartos, este acontecimento pode ter marcado a casa, mas daí a desconfiar que Roberto, logo ele, pudesse nos fazer algo de mal é ir muito longe!”.

“Jane, por favor, não se exalte, eu não quis dizer isso, mas ele estava estranho, como se já soubesse quem eu era antes de me conhecer. Vamos descer e conversar com ele, entendam que eu não quis assustá-los ainda mais com relação à casa, mas eu achei que vocês deviam saber, depois do que eu senti quando conheci o amigo de vocês.” – falou Donna.

XIII

Carlos e Roberto estavam na sala esperando pelas garotas. Roberto sentou-se na cadeira onde Carlos havia tido a visão do velho, ele olhava para o amigo sem dizer nada dando a impressão de estar meditando. De repente ele se mexe de um modo brusco, vira-se para Carlos e fala: “Não sairemos dessa casa nem amanhã, nem depois, viemos em busca de aventuras, não foi? Pois então esta casa tem tudo que nos desejávamos”.

Carlos replica: “Roberto, brincadeira tem hora e você já está indo longe demais, esta casa causa arrepios e nos predispõe a ficarmos em estado de constante horror, por isso você pode falar o que quiser, mas eu, Jane e Donna só passaremos esta noite aqui e pronto!”

O que está havendo? – pergunta Jane, ao chegar e ver Carlos tão exaltado e Roberto sentado placidamente numa cadeira. Por que você está precisando afirmar que nós vamos sair daqui amanhã? Isso já estava decidido. – continuou Jane.

“Roberto acha que toda diversão e aventura que ele procurava está nesta casa, mas não se preocupe, quando vocês chegaram eu estava dizendo que se ele quer ficar tudo bem, mas nós vamos embora, de preferência para outra cidade.”

“Bem vamos acabar com essa discussão e vamos organizar algo para comer, pelo que Jane me disse lá no quarto, vocês foram atacados por uma criatura estranha que roubou suas mochilas de mantimentos. Eu trouxe algo que dá para nos alimentar pelo menos por hoje.” – disse Donna.

Roberto não havia falado muito durante o jantar e permaneceu assim até a hora de deitar. Os demais preferiram passar mais um tempo na sala, jogando cartas e conversando. Por volta da meia-0noite resolveram ir se deitar.

XIV

No bar Snake, na cidade de Nashville, um grupo de jovens estava bebendo e brincando entre si, o líder do grupo se chamava Luke, o típico rebelde sem causa, havia quatro pessoas com ele, Ted, filho do prefeito, John, filho de pais puritanos, Lisa, namorada de Luke e Paul, amigo de infância de Luke que é apaixonado por Lisa.

No meio da conversa surgiu um desafio de Luke para os amigos “Quem tem coragem de vir comigo até a casa mal-assombrada, e ficar a noite toda lá?”. Lisa que é muito prudente falou “Querido, já aconteceram coisas estranhas lá, há pessoas dizem que há um animal, ou sei lá o quê que protege a casa, você sabe que há anos não entra ninguém lá, deve estar horrível, cheia de poeira e buracos no teto.”

“Lisa, se você não quer ir, tudo bem. E vocês, Ted, John e Paul, vão fraquejar e inventar desculpas para não ir?.” John se pronunciou: “Bem Luke isso tudo é uma besteira, eu mesmo não acredito nessas coisas de almas de outro mundo, fantasmas, ou coisas do tipo, portanto eu aceito seu desafio e Paul também irá conosco.”

“Bem se é assim, eu também vou.” – Lisa não queria ser a fraca do grupo, por isso havia mudado de idéia. Ela não amava Luke, nem ele morria de amores por ela, mas o que ela queria na época em que se conheceram era a sensação de ter alguém que a protegesse e a quem ela também pudesse dedicar sua afeição. Quando conheceu Luke, há dois anos, seu primeiro sentimento foi amizade. Com o tempo começaram a ficar juntos, fazer coisas juntos, e a amizade acabou evoluindo para um namoro.

Lisa adora os amigos dele, que a tratam como uma verdadeira amiga, coisa que para ela é novidade. Ela morava em outra cidade com seus pais, eles tinham um comportamento estranho que os fazia exóticos e extravagantes aos olhos da sociedade local. Os pais de Lisa alegavam poder conversar com os mortos, poder vê-los e realizar feitiços para descobrir a solução para os problemas das pessoas. No colégio todos evitavam ter amizade com ela, uns por preconceito e medo, outros porque deixariam de ter a amizade de outros colegas. O início de sua adolescência foi conturbado, não havia ninguém que a orientasse, pois não tinha amigas e sua mãe estava mais preocupada com a configuração dos astros do que com as dúvidas de sua filha quanto à vida.

Tudo mudou numa noite. Uma moradora da cidade alegou que seu bebê havia desaparecido e que só podiam ter sido os bruxos que haviam feito sacrifício com ele. A polícia tentou impedir, mas não conseguiu, que a multidão se acumulasse em frente à casa de Lisa. Estavam munidos de tochas e gasolina e colocaram fogo na casa com os pais dela dentro, só houve tempo para que ela saísse, pois seu quarto se localizava no andar de baixo. As pessoas não se preocuparam com ela, porque para eles, ela era tão vítima quanto o bebê que supostamente seus pais haviam roubado.

Foi nesse dia que Lisa teve sua primeira visão. Ela viu um quarto escuro com um homem e um bebê dentro como se estivessem escondidos, conseguiu perceber que se tratava de uma casa no fim da cidade que aparentava estar desabitada. Diante dos olhos estupefatos da multidão que há pouco se apresentava ensandecida, ela gritou chamando- os para acompanharem-na. Quando chegaram à casa, o homem havia sido pego de surpresa, pois havia imaginado que a multidão iria apenas passar pela e casa e não que estava indo atrás dele. A mãe da criança que se encontrava próxima à Lisa, gritou que este homem foi seu marido, e que agora ele era um fugitivo da polícia.

As pessoas ficaram aturdidas, não sabiam o que fazer, não compreenderam como podiam ter chegado ao ponto de matarem duas pessoas inocentes, até onde seus preconceitos os haviam levado?!

Foi aberta uma sindicância por parte da polícia para apurar os culpados da morte dos pais de Lisa, mas foi tudo arquivado pois não haviam testemunhas e as provas eram circunstanciais para poder se intimar quem quer que fosse.

Lisa foi convidada a morar com uma tia solteirona em Nashville, da qual nunca tinha ouvido falar antes, mas que a recebeu de braços abertos como a uma filha, isso tudo ocorreu há dois anos atrás e desde então Lisa passou a ter uma vida dentro do “normal”, se é que se pode dizer isso quando se mora numa cidade, onde os moradores deixam suas vidas se guiarem pela maldição de uma casa. Desde essa época ela continuou tendo visões, mas as reprimiu ao máximo, para não sofrer o que os pais sofreram. E esse era seu receio de ir até a tal casa na noite seguinte, o de ver alguma coisa e não poder controlar o fluxo dessa visão, ou pior, ser possuída pela atmosfera de tragédia que vigora na casa.

XV

Luke queria armar uma surpresa para a galera e resolveu se dirigir para a casa naquela mesma noite para preparar as coisas. Enquanto andava pela floresta, escutava uivos e gemidos, mas não se importava com nada disso, tudo aquilo para ele era besteira. Ele só pensava que ia ser muito engraçado ver a cara do pessoal quando eles vissem o que ia preparar.

A porta da casa estava aberta quando ele chegou, a chuva agora era apenas uma garoa fina. Luke entrou, estava tudo silencioso, mas ele viu copos sujos em cima de uma mesa na sala de estar e um jogo inacabado. “Não é possível”, ele pensou, tem gente aqui nesta casa, agora eu não vou poder fazer nada, pelo menos hoje”.

Ele resolveu descobrir se as pessoas que haviam utilizado aquelas coisas ainda se encontravam por lá. Ia começar a subir as escadas quando vislumbrou um vulto na cozinha. Resolveu se dirigir para lá, onde encontrou um rapaz parado na dentro dela. “Oi, eu sou Luke, quem é você?”

O rapaz apenas olhou para ele. Luke sentiu um início de pânico, não acreditava em assombrações, mas esse rapaz podia ser um criminoso. Quando ia dar as costas a ele, dizendo que precisava ir embora, a mão do rapaz se levantou empunhando uma faca de cozinha. Então ele viu uma mulher que se assustou com ele e deu um grito.

O rapaz baixou a faca e a escondeu nas roupas.

“Oh, meu Deus, quem é você? Que susto eu levei” – disse Jane – “E você Roberto ficou sem sono e resolveu ver se tinha algo de interessante na cozinha?”.

“Bem, eu sou Luke, tentei falar com seu amigo aqui, mas ele não falou nada, pensei que não fosse bem-vindo e estava indo embora quando você gritou”.

Roberto sem olhar para eles começou a subir as escadas e se dirigiu para seu quarto.

“Desculpe o Roberto, ele anda meio estranho desde que nós chegamos aqui. Meu nome é Jane. Pelo que posso notar você mora na cidade. Veio parar aqui para se abrigar da chuva também?”

“Não, eu vim aqui preparar a casa para uns amigos meus que virão amanhã à noite, mas como vocês dois estão aqui eu acho melhor desistir”. – afirmou Luke.

“Não há apenas nós dois, tem o Carlos e a Donna também. Pode arrumar a casa se quiser, amanhã de manhã porque nós vamos embora daqui, assim que o sol raiar.” – disse Jane.

“Ok, será que eu posso me arrumar para dormir no sofá da sala, é porque é uma boa caminhada daqui até a cidade, já que eu vou ter que voltar amanhã mesmo...”

“Claro, que pode, Luke, A casa é de quem habitá-la.” – disse Jane – “Então, boa noite.”

“Boa noite”. – replicou Luke.

“Que garota bonita é essa Jane!”, ele pensou enquanto se ajeitava para dormir no sofá, tão simpática e comunicativa. Eu gosto da Lisa, mas o nosso namoro já está desgastado, nós não nos comunicamos mais como antes. Eu notei o interesse de Lisa por Paul, ele é a pessoa certa para ela, no entanto não será fácil deixá-la livre, pois apesar dela achar que não, eu gosto muito dela.

XVI

Uma surpresa estava reservada para os novos habitantes da casa pela manhã.

Donna acordou sentindo o ar abafado, quente o cheiro de mofo intensificado, quando se levantou para abrir a janela, acabou por despertar de vez do sono espantada porque além de não querer abrir ela dava a impressão de estar lacrada por fora. Ela saiu correndo do quarto para falar com Carlos e Jane.

Carlos estava tendo um pesadelo, sonhava que estava preso num local pequeno e abafado, acordou de repente sem ar, quando abriu os olhos notou o mesmo que Donna havia notado, tudo estava fechado. A porta de seu quarto foi aberta de sopetão por Jane “Carlos, o que está havendo aqui? Por que todas as janelas estão fechadas e as portas da casa lacradas?” – perguntava Jane em desespero. Nesse momento Donna também entrou no quarto, Carlos olhou de uma para a outra e respondeu o que elas mais temiam, de que não tinha a mínima idéia, mas que eles estavam presos ali. “Vamos, terminar de nos ajeitar e tentar arrombar alguma porta ou janela. Alguém sabe se Roberto já se levantou?”

“Eu tentei entrar no quarto dele, mas a porta estava trancada.” – respondeu Donna.

Os três desceram a escada juntos, de comum acordo, sem perceberem resolveram não se incomodar com Roberto, pois as atitudes estranhas dele podiam ter algo a ver com o que estava acontecendo.

“Quem é esse cara no sofá?” – perguntou Carlos.

“Ah! É um rapaz que apareceu aqui ontem à noite, o nome dele é Luke. Ele disse que tinha algumas coisas para fazer por aqui, e como imaginei que deixaríamos a casa logo cedo eu disse que não tinha problema nenhum dele dormir aí.” – disse Jane.

Nesse momento Luke acordou e conheceu Carlos e cumprimentou Donna, pois ele já a conhecia de vista. Ele notou que Carlos, sem querer, demonstrava um certo interesse por Donna e que isso ressentia Jane que parece gostar dele. “É uma pena que a gente não consiga mandar no coração.” Jane era uma garota legal, mas até ele não conseguia esquecer Lisa, mesmo sabendo que ela já não o amava mais.

Ao constatar junto com os outros, exceto Roberto (estranhamente – pensou Luke), que todas as portas estavam fechadas por fora, eles resolveram tentar arrombá-las. Mas cada tentativa que faziam, era como bater numa rocha, não conseguiam quebrar nada. Carlos lembrou que tinha uma serra na sua mochila que serviria para tentar tirarem as fechaduras, Donna resolveu ir buscar.

Subindo as escadas Donna estava apreensiva, nada estava explicado, eles tentavam abrir as portas, mas não pararam para raciocinar quem as tinha fechado e o pior de tudo “o por quê”. A casa se encontrava pouco iluminada, o ar estava quente e abafado, tudo isso estava deixando a todos nervosos, quanto antes saírem dali melhor. Foi perdida nesses pensamentos que Donna chegou ao quarto de Carlos e lá encontrou muito mais do que a

Após essa breve troca de palavras Luke e Jane sentem um entorpecimento e uma vontade irresistível de dormir.

XVII

“Onde estamos?” – se perguntaram aquelas oito pessoas, presas no sótão?!

Carlos e Donna ficaram observando enquanto Jane e Luke despertavam e não entendiam o que aquelas outras pessoas estavam fazendo ali também acordando tendo nas faces a expressão de quem não sabia que estava acontecendo. Mas faltava alguém, conhecido deles, no porão.

“Bem, já vi que a minha platéia está finalmente acordada. Jane eu sei que é você quem faz artes cênicas mas deixe, que eu seja o astro desta vez. Alguns de vocês já me conhecem, outros não têm a mínima idéia de quem eu sou. Aposto que Luke e Jane tiveram um sonho bastante revelador sobre a minha identidade. Para quem não me conhece, meu nome é Roberto, quer dizer o meu verdadeiro nome é Robin Ashwood. Eu não sou brasileiro, mas fui morar lá com um casal a quem eu fui entregue para escapar à história da minha família.

Todas as pessoas estavam espantadas. Alguns ficaram perplexos, quem é esse cara, outros ainda se perguntavam como haviam chegado lá. Sabe Donna, sua irmã quase chegou até a verdade. O tal Sr. D era realmente o membro de uma organização criminosa, o tal de Tim Ashwood o aceitou porque estava realmente interessado no dinheiro. E o que estavam nos jornais era correto, ele matou os filhos e a esposa num acesso de loucura, que por sinal é um traço hereditário, e se aproveitou da ausência do tal Sr. D. para forjar ser uma vítima de assassinato.

Todas as imagens que vocês viram, como Carlos ao chegar que viu um homem no andar de cima, e um velho na sala. Foi tudo jogo de imagens cinematográficas e som. Ah! E o livro que você leu também, afinal eu conhecia a história de cada pessoa que está aqui presente. Não é mesmo Paul? Para quem não sabia, Paul é meu irmão. Portanto não pensem que vocês foram trazidos aqui por acaso. O destino de vocês ainda não será revelado, mas sim o motivo de estarem aqui. Peço que não façam nenhum movimento em falso, pois essa sala está equipada para disparar projetéis em quem tentar me atacar ou sair dela. Todos se entreolharam, com expressões que iam da raiva ao desespero.

Jane, eu me apaixonei por você, mas fui desprezado, por isso convenci Carlos a vir,porque eu sabia que você só viria se ele viesse. Vocês não mereciam ser felizes juntos, apesar de que pelo que pude ver, você foi desprezada por ele.

John e Ted, a sua família puritana John e o seu querido pai prefeito Ted, fizeram muito mal aos meus últimos descendentes no passado. Eles não saíram daqui porque quiseram, mas foram expulsos pelas pessoas influentes daqui desta cidade.

Luke e Lisa nos serviram apenas de joguete, para tornar a caçada mais interessante. Lisa quase que me revela no tempo errado, quando fez com que vocês (apontava para Jane e Luke) tivessem um sonho em que seria revelado quem era o verdadeiro criminoso. No entanto nem ela sabia que seu querido Paul fazia parte da história. Por isso resolvemos acorda-los do sono, no qual nós induzimos vocês e precipitar os fatos.

Paul, meu irmão queira, por favor contar a nossos convidados o que o destino os reserva. Nada mais foi dito pois, em menos de dois minutos não se sabe como, ocorreu uma explosão que destruiu a casa.

Nos noticiários locais havia apenas a referência a explosão misteriosa e aos pais inconsoláveis dos dois rapazes: Ted e Jonh. Segundo consta não havia mais ninguém no local da tragédia. FIM

Obs.: Este é o fim da história que enviei hoje, também. inicialmente tencionava escrever um livro, por isso não havia feito o fim antes. mas percebi que preciso ir galgando estágios para depois conseguir o meu sonho: escrever um livro.

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