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Eu
me lembro perfeitamente do dia do eclipse.
Era um dia
bonito, com o céu limpo, nenhuma nuvem à vista. Fazia calor, mas
uma ligeira brisa soprava, carregando o cheiro das flores. Eu tinha
doze anos, e estava passando minhas férias na fazenda de meus avós.
Naquele dia
acordei cedo, ansioso por ver o espetáculo que a natureza iria me
proporcionar. Era esperado que aquele fosse um dos eclipses mais
bonitos do século. Assim que acordei, peguei a velha radiografia do
pulmão que meu avô havia me dado na noite anterior, dei um beijo
em minha avó e corri até o morro que ficava após o curral, onde
começava o bosque.
Me lembro que
fiquei no alto do morro, sentado na grama, olhando o sol através da
radiografia de meu avô, por um bom tempo. Eu havia chegado muito
cedo, devido à minha ansiedade, e agora nada me restava a não ser
esperar. Deitei de costas na grama e, com sono por haver acordado
cedo, acabei adormecendo.
Não sei quanto
tempo dormi, mas julgo que foram várias horas, pois o sol já havia
percorrido uma boa parte de seu caminho em direção ao horizonte.
Peguei a radiografia e observei melhor. Uma pequena faixa escura
começara a se formar na borda esquerda.
Meu coração
saltou dentro do peito.
O eclipse começara.
Enquanto eu
admirava o eclipse minha atenção foi atraída por algo junto às
árvores que margeavam o bosque além do morro onde eu me
encontrava. Desviei um pouco o olhar do sol para ver melhor de que
se tratava.
A princípio
pensei que fosse um cavalo. Ele estava virado de costas para mim,
com a cabeça baixa, comendo. Um grande e lindo cavalo totalmente
branco. Um instante depois, ele levantou a cabeça e se virou.
A radiografia
caiu de minha mão.
Não era um
cavalo. Eu já havia visto desenhos daquele animal antes, mas sempre
achara que fosse uma lenda. Mas ali estava ele, maravilhoso, ao
alcance de meus olhos.
Um unicórnio.
Seu chifre
dourado brilhava à luz do sol, agora já ligeiramente mais fraca
devido ao eclipse. Sua crina branca e comprida esvoaçava com a
brisa.
Enquanto eu o
olhava, boquiaberto, o unicórnio levantou a cabeça, como que
pressentindo minha presença, e olhou diretamente para mim. Ficamos
por um instante parados, olhando um para o outro, imóveis. Então
ele virou-se e entrou no bosque, sumindo de vista entre as árvores.
Comecei a
correr naquela direção, o eclipse totalmente esquecido. Em
instantes, eu também estava entrando no bosque.
Não sei por
quanto tempo andei entre as árvores. Por vezes, eu conseguia avistá-lo
entre as árvores mais ao longe, mas quando corria naquela direção
ele não estava mais lá. A maior parte do tempo, tudo que eu via
eram suas pegadas e rastros. Enquanto eu corria entre as árvores, o
bosque escurecia. Em certo momento consegui avistar o sol por entre
as copas das árvores. Apenas metade do disco dourado estava visível.
Ouvi um
relinchar ao longe, e recomecei a correr.
Pouco depois
comecei a ouvir o som de água corrente. Achei aquilo estranho, pois
já havia andado naquele bosque várias vezes com meu avô, e nunca
havia visto nenhum rio ou riacho por ali. Pela primeira vez, tive
medo de estar perdido.
Caminhei em
direção ao som e tive a mais bela visão de minha vida.
Cerca de cinqüenta
metros à minha frente, havia uma cachoeira. Uma água límpida,
cristalina, caía dela em uma cascata que parecia um véu. Os poucos
raios de luz que ainda estavam visíveis formavam um arco-íris à
sua volta.
Junto à
cachoeira, uma manada de unicórnios bebia água.
Havia mais de
dez animais ali. Alguns eram grandes, com a crina branca comprida,
como o que eu havia visto na beira do bosque. Outros eram menores,
porém não menos graciosos. Dois filhotes brincavam, relinchando e
sacudindo as cabeças. Os mais velhos os rodeavam, como que a protegê-los.
Fiquei
observando aquela cena, maravilhado. Uma sensação de paz e
harmonia invadiu todo meu ser.
Em instantes, a
noite caiu sobre o bosque.
Eu olhei para
cima, procurando o sol, mas não consegui mais vê-lo. Alguns grilos
começaram a cantar, enganados pelo súbito desaparecimento do sol.
Olhando de novo
para os unicórnios, notei pequenos pontos de luz que voavam ao
redor deles, ziguezagueando. De início imaginei que fossem
vagalumes, mas logo percebi que eram muito grandes para isto. Então
percebi de que se tratava. Fadas.
Eu não podia
acreditar no que estava vendo. Elas eram pequenas, mas eu podia ver
claramente que tinham formato humano. Pequenas asas transparentes,
como as dos insetos, permitiam que voassem. A maioria estava vestida
com folhas e brilhavam no escuro.
Fiquei
observando, escondido. Lentamente, a claridade do sol começou a
voltar. Os grilos pararam de cantar.
Então resolvi
que era hora de voltar para casa. Eu precisa chamar meu avô,
contar-lhe o que havia descoberto, mostrar-lhe a cachoeira e o
riacho. Deixando os unicórnios e as fadas, voltei pelo bosque.
Quando
finalmente consegui encontrar meu caminho de volta, o eclipse já
havia acabado e o sol brilhava novamente com todo seu esplendor. O
mundo havia voltado ao normal.
Contudo, não
era o meu mundo.
Quando saí do
bosque, não estava mais lá o morro onde eu havia adormecido aquela
manhã. Também não estavam a fazenda, nem meus avós, nem nada
mais que me fosse familiar. Eu me senti desorientado, achei que
estava perdido. Mas com o tempo percebi o que havia acontecido.
Eu estava em um
outro mundo. Outro planeta, talvez, ou outra dimensão. Até agora não
entendo bem como isso aconteceu. Tudo que posso fazer é imaginar.
Talvez, durante o eclipse, um portal tenha se aberto entre o meu
mundo e este em que agora estou. De algum modo, o unicórnio
atravessou esse portal. Quando o segui pelo bosque, fiz o caminho
contrário.
Isso tudo
aconteceu há dez anos.
Neste tempo me
tornei um nômade. Andei por todos os cantos, buscando entender o
que aconteceu, buscando um caminho para voltar para casa. Nesta
caminhada, vi muitas coisas.
Você algum dia
já se perguntou de onde os gregos antigos teriam tirado a idéia de
minotauros, centauros, serpentes marinhas, e outros seres? Você já
se admirou da imaginação fértil daqueles homens?
Eu também, até
descobrir que eles não imaginaram nada daquilo. Nestes dez anos
tive a oportunidade de ver muitos daqueles seres com meus próprios
olhos.
Encontrei também
pessoas neste mundo. Aprendi sua língua, e elas me contaram estórias.
Lendas de homens que apareceram vindo do nada, e que depois voltaram
a sumir. Lendas de feitos heróicos. Muitas delas me pareceram versões
modificadas de nossa própria mitologia.
É isso que me
dá esperanças. Talvez as estórias e mitos não sejam simplesmente
estórias e mitos, afinal. Talvez tenham acontecido de verdade.
Talvez tenha havido um Hércules, um Perseu, um Teseu. Talvez tenham
visitado este mundo e voltado para o nosso, para contar seus feitos.
É nisto
que tenho que acreditar. Pois, se isto realmente aconteceu, se
houveram contatos entre este mundo e o meu em quantidade suficiente
para que as lendas fossem criadas, então talvez eu tenha alguma
chance de, algum dia, voltar para casa...
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