O Eclipse

 Douglas Tavares de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0020]
[Autor: Douglas Tavares de Araújo]
[Título: O Eclipse]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 1.194]

 
Eu me lembro perfeitamente do dia do eclipse.

Era um dia bonito, com o céu limpo, nenhuma nuvem à vista. Fazia calor, mas uma ligeira brisa soprava, carregando o cheiro das flores. Eu tinha doze anos, e estava passando minhas férias na fazenda de meus avós.

Naquele dia acordei cedo, ansioso por ver o espetáculo que a natureza iria me proporcionar. Era esperado que aquele fosse um dos eclipses mais bonitos do século. Assim que acordei, peguei a velha radiografia do pulmão que meu avô havia me dado na noite anterior, dei um beijo em minha avó e corri até o morro que ficava após o curral, onde começava o bosque.

Me lembro que fiquei no alto do morro, sentado na grama, olhando o sol através da radiografia de meu avô, por um bom tempo. Eu havia chegado muito cedo, devido à minha ansiedade, e agora nada me restava a não ser esperar. Deitei de costas na grama e, com sono por haver acordado cedo, acabei adormecendo.

Não sei quanto tempo dormi, mas julgo que foram várias horas, pois o sol já havia percorrido uma boa parte de seu caminho em direção ao horizonte. Peguei a radiografia e observei melhor. Uma pequena faixa escura começara a se formar na borda esquerda.

Meu coração saltou dentro do peito.

O eclipse começara.

Enquanto eu admirava o eclipse minha atenção foi atraída por algo junto às árvores que margeavam o bosque além do morro onde eu me encontrava. Desviei um pouco o olhar do sol para ver melhor de que se tratava.

A princípio pensei que fosse um cavalo. Ele estava virado de costas para mim, com a cabeça baixa, comendo. Um grande e lindo cavalo totalmente branco. Um instante depois, ele levantou a cabeça e se virou.

A radiografia caiu de minha mão.

Não era um cavalo. Eu já havia visto desenhos daquele animal antes, mas sempre achara que fosse uma lenda. Mas ali estava ele, maravilhoso, ao alcance de meus olhos.

Um unicórnio.

Seu chifre dourado brilhava à luz do sol, agora já ligeiramente mais fraca devido ao eclipse. Sua crina branca e comprida esvoaçava com a brisa.

Enquanto eu o olhava, boquiaberto, o unicórnio levantou a cabeça, como que pressentindo minha presença, e olhou diretamente para mim. Ficamos por um instante parados, olhando um para o outro, imóveis. Então ele virou-se e entrou no bosque, sumindo de vista entre as árvores.

Comecei a correr naquela direção, o eclipse totalmente esquecido. Em instantes, eu também estava entrando no bosque.

Não sei por quanto tempo andei entre as árvores. Por vezes, eu conseguia avistá-lo entre as árvores mais ao longe, mas quando corria naquela direção ele não estava mais lá. A maior parte do tempo, tudo que eu via eram suas pegadas e rastros. Enquanto eu corria entre as árvores, o bosque escurecia. Em certo momento consegui avistar o sol por entre as copas das árvores. Apenas metade do disco dourado estava visível.

Ouvi um relinchar ao longe, e recomecei a correr.

Pouco depois comecei a ouvir o som de água corrente. Achei aquilo estranho, pois já havia andado naquele bosque várias vezes com meu avô, e nunca havia visto nenhum rio ou riacho por ali. Pela primeira vez, tive medo de estar perdido.

Caminhei em direção ao som e tive a mais bela visão de minha vida.

Cerca de cinqüenta metros à minha frente, havia uma cachoeira. Uma água límpida, cristalina, caía dela em uma cascata que parecia um véu. Os poucos raios de luz que ainda estavam visíveis formavam um arco-íris à sua volta.

Junto à cachoeira, uma manada de unicórnios bebia água.

Havia mais de dez animais ali. Alguns eram grandes, com a crina branca comprida, como o que eu havia visto na beira do bosque. Outros eram menores, porém não menos graciosos. Dois filhotes brincavam, relinchando e sacudindo as cabeças. Os mais velhos os rodeavam, como que a protegê-los.

Fiquei observando aquela cena, maravilhado. Uma sensação de paz e harmonia invadiu todo meu ser.

Em instantes, a noite caiu sobre o bosque.

Eu olhei para cima, procurando o sol, mas não consegui mais vê-lo. Alguns grilos começaram a cantar, enganados pelo súbito desaparecimento do sol.

Olhando de novo para os unicórnios, notei pequenos pontos de luz que voavam ao redor deles, ziguezagueando. De início imaginei que fossem vagalumes, mas logo percebi que eram muito grandes para isto. Então percebi de que se tratava. Fadas.

Eu não podia acreditar no que estava vendo. Elas eram pequenas, mas eu podia ver claramente que tinham formato humano. Pequenas asas transparentes, como as dos insetos, permitiam que voassem. A maioria estava vestida com folhas e brilhavam no escuro.

Fiquei observando, escondido. Lentamente, a claridade do sol começou a voltar. Os grilos pararam de cantar.

Então resolvi que era hora de voltar para casa. Eu precisa chamar meu avô, contar-lhe o que havia descoberto, mostrar-lhe a cachoeira e o riacho. Deixando os unicórnios e as fadas, voltei pelo bosque.

Quando finalmente consegui encontrar meu caminho de volta, o eclipse já havia acabado e o sol brilhava novamente com todo seu esplendor. O mundo havia voltado ao normal.

Contudo, não era o meu mundo.

Quando saí do bosque, não estava mais lá o morro onde eu havia adormecido aquela manhã. Também não estavam a fazenda, nem meus avós, nem nada mais que me fosse familiar. Eu me senti desorientado, achei que estava perdido. Mas com o tempo percebi o que havia acontecido.

Eu estava em um outro mundo. Outro planeta, talvez, ou outra dimensão. Até agora não entendo bem como isso aconteceu. Tudo que posso fazer é imaginar. Talvez, durante o eclipse, um portal tenha se aberto entre o meu mundo e este em que agora estou. De algum modo, o unicórnio atravessou esse portal. Quando o segui pelo bosque, fiz o caminho contrário.

Isso tudo aconteceu há dez anos.

Neste tempo me tornei um nômade. Andei por todos os cantos, buscando entender o que aconteceu, buscando um caminho para voltar para casa. Nesta caminhada, vi muitas coisas.

Você algum dia já se perguntou de onde os gregos antigos teriam tirado a idéia de minotauros, centauros, serpentes marinhas, e outros seres? Você já se admirou da imaginação fértil daqueles homens?

Eu também, até descobrir que eles não imaginaram nada daquilo. Nestes dez anos tive a oportunidade de ver muitos daqueles seres com meus próprios olhos.

Encontrei também pessoas neste mundo. Aprendi sua língua, e elas me contaram estórias. Lendas de homens que apareceram vindo do nada, e que depois voltaram a sumir. Lendas de feitos heróicos. Muitas delas me pareceram versões modificadas de nossa própria mitologia.

É isso que me dá esperanças. Talvez as estórias e mitos não sejam simplesmente estórias e mitos, afinal. Talvez tenham acontecido de verdade. Talvez tenha havido um Hércules, um Perseu, um Teseu. Talvez tenham visitado este mundo e voltado para o nosso, para contar seus feitos.

É nisto que tenho que acreditar. Pois, se isto realmente aconteceu, se houveram contatos entre este mundo e o meu em quantidade suficiente para que as lendas fossem criadas, então talvez eu tenha alguma chance de, algum dia, voltar para casa...

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