A Ronda no Quarto

 Simone Saueressig

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0012]
[Autora: Simone Saueressig]
[Título: A Ronda no Quarto]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 1.230]

 

 - Pai! Papai!

A porta do quarto demorou um pouco para abrir. Caio olhou para o filho sentado na cama com os olhos arregalados, o cobertor puxado por cima da cabeça. Parece um esquimó, pensou o homem, contendo-se para não rir.

- Você chamou, Cuca?

Uma pergunta retórica, claro. Mesmo com a TV ligada era capaz de ouvir a voz do filho.

- Papai, posso tomar um pouco de água?

Caio assentiu. Buscou o copo verde para o menino. Só tomava água se fosse do copo verde. Como de costume, o garoto molhou os lábios e fez que tomava um gole. Só para disfarçar.

- Agora dorme, filho, -murmurou o homem, beijando a cabeça morena.

- Papai, posso ficar com a luz do abajur ligada?

Caio suspirou. Ultimamente, o garoto dera para ter medo do escuro.

- Não, meu filho.

- Então, posso ficar com a porta do quarto aberta?

O pai sorriu. Sempre um argumentador, sempre com uma idéia escondida na manga. Igual à mãe, cheia de artimanhas. Laura apareceu no umbral e sorriu.

- Deixe a porta aberta, Caio -sussurrou e entrou. Deu um beijo na testa do menino, que sorriu satisfeito.

- Obrigado, mamãe.

- Agora dorme, filho -ela murmurou e acariciou-lhe o rosto. Depois levantou-se e desapareceu com um sorriso de boa-noite. Caio ficou um momento junto a porta.

- Tudo bem?

Um titubeio.

- Mais ou menos.

- Quer fazer xixi?

- Não.

- Olha lá, hem, Cuca?

- Não, tudo bem. Não quero fazer xixi.

- Então, boa noite.

- Pai?

Caio voltou-se, um pouco cansado, um pouco irritado.

- Sim, meu filho.

- Deixa eu acender a luz? Por favor?

A ansiedade na voz do menino surpreendeu um pouco o homem.

- Cuca, você já é grandinho. Não tem uma galinha escondida na cortina. Nós já falamos sobre isso.

O garoto riu um pouco. Um riso cansado, de soldado que já viu de tudo. Caio sentiu um arrepio na coluna. Quando era pequeno, o menino fora bicado por uma choca que defendia os pintos, na casa de sua sogra. Dali em diante, entrava em pânico quando via uma galinha. Cismara com a cortina do quarto, com estampa de patos, e Laura a trocara por uma de foguetes e estrelas,mesmo contra a opinião de Caio. Ele era engenheiro civil e acreditava em lutar pelos próprios sonhos, vencer os inimigos, em enfrentar os próprios medos de frente. Entretanto, mesmo durante o episódio da galinha, nunca, jamais, ouvira semelhante amargura e ironia no riso do menino.

- Galinhas são bobocas -disse o garoto.

- Isso mesmo, bobocas. Só ficam interessantes quando estão cobertas de molho pardo.

- Fodam-se as galinhas.

Caio sentiu o sangue subir imediatamente. Maldita televisão, xingou por dentro. Não ensina nada de bom para as crianças. Avançou e se sentou na cama do garoto.

- Cuca, eu já disse que não quero ouvir você dizendo palavrões. Onde foi aprendeu isso?

O garoto piscou aturdido.

- Isso, o quê?

O homem suspirou profundamente.

- "Fodam-se". Que coisa mais feia, meu filho!

- Ah, é uma coisa que ouvi na escola.

Caio franziu o cenho.A mentira era tão evidente que lhe dava medo.

- Pois então, vamos ter de falar com a sua professora, - mentiu de volta.

Cuca deu de ombros. No lusco-fusco do quarto, Caio observou as olheiras do filho. Não tinha visto como andavam profundas ultimamente.

- Bem, então estamos combinados. Nada de galinhas. Nada de palavrões. Vamos dormir?

O menino estremeceu. Parecia aterrorizado.

- A porta pode ficar aberta? Por favor?

- O que é que está acontecendo, Davi?

Cuca repuxou o canto da boca, preocupado. Quando o pai o chamava pelo nome é porque o assunto era sério. Será que alguém havia escutado algo? Ele olhou disfarçadamente para o chão junto à cama, enquanto dizia "nada", mas então viu algo o gritou. Caio olhou para o tornozelo e imediatamente viu as pantufas de pé de monstro, verdes-bandeira. Claro, com coisas como aquelas, como podiam esperar que o menino dormisse bem? Pantufas de pé de monstro, um boneco de pelúcia que mais parecia um delírio tremens sentado na cadeirinha de vime... e mais a TV com seu costumeiro bombardeio de criaturas espaciais, mecânicas e mágicas. No meu tempo, as coisas eram mais simples, pensou ele, levantando as patas de pele sintética.

- Cuca, são só os seus pés de tiranossauro.

O garoto agarrou-as com energia e as atirou para o outro lado do quarto.

- Não quero mais saber delas! -gritou. Caio sorriu, orgulhoso.

- Bravo, meu filho! Amanhã de manhã vamos comprar umas pantufas do Inter, certo?

O garoto assentiu sem entusiasmo e Caio sentiu um ponta de vitória sobre a mulher, gremista doente.

- Bem, então vamos fazer a ronda no quarto, e depois você vai dormir, ok?

O menino assentiu lentamente, sem tirar os olhos do tapete junto à cama. Caio caminhou até a janela e sacudiu a cortina.

- Nada aqui.

Abriu o armário.

- Aqui tampouco.

Espiou na arca de brinquedos do filho e engoliu um susto quando uma máscara de extraterrestre o encarou, fosforescente, desde a escuridão.

- Nem aqui.

Na obscuridade do quarto, Cuca permanecia imóvel em sua cama. Parecia um náufrago em sua ilha, desesperado, fitando um tsunami que se aproximava inexoravelmente.

- Agora, embaixo da cama.

- Não, papai.

Determinação firme, fria como gelo. Caio encarou os olhos brilhantes da criança.

- É claro que vamos olhar debaixo da cama. Só para ter certeza.

O garoto saltou e parou entre o homem e o vão escuro debaixo do colchão, e só Deus soube o esforço e coragem que isso lhe custou, exibir seus tornozelos nus à escuridão de trinta centímetros de altura. Mas era seu pai que estava em jogo e o amava, e não estava disposto a voltar atrás.

- Por que não?

- Porque ele vai te matar.

Ah, então era isso. O velho "monstro-embaixo-da-cama" ataca novamente, pensou Caio com um sorriso, afastando de si a sensação de pavor que o invadiu subitamente. Também ele fora criança, um dia, lembrou, e o sorriso aumentou, sem perceber que Cuca não expressara nenhuma dúvida. Não dissera nada infantil como "ele pode te comer", por exemplo. Caio avançou, sem parar para pensar no ar de soldado com o último cartucho, que tomou conta do rosto do filho. Sem parar para perceber que ele se firmava no carpete para um combate físico. Sem se dar conta de que falava sério, muito sério. Hesitou um minuto ainda. Repetiu o que ouvira do pai, há muitos anos.

- Filho, não há monstros embaixo das camas dos meninos. Eles simplesmente não cabem ali.

- Não? Então o que é que há?

A ironia era tão adulta que lhe soou a monstruosidade.

- Não há nada lá, Davi, nada. Só, escuridão, poeira e talvez aquele gibi velho que você perdeu na semana passada.

O menino não se afastou.

- Não posso deixar que você olhe, papai.

- O que é que você está escondendo?

Davi titubeou. Foi o bastante para Caio o empurrar para o lado com pouca gentileza e por-se de joelhos. Ouviu o menino gritar e sentiu suas mãozinhas puxá-lo com força, mas para então já havia enfiado a cara debaixo da cama. Sentiu algo agarrá-lo com força pelos maxilares, e ouviu uma voz conhecida e há muito perdida nos pesadelos de sua infância.

- Olha, quem apareceu! -disse a voz rouca, o hálito pestilento o inundando, os olhos amarelos e doentios o fitando zombeteiros. -Cacá! Quanto tempo! Estava com saudades de você! Fodam-se os anos! Posso te dar um beijo?

Então, antes que tivesse tempo de gritar, dentes afiados se fecharam em sua garganta.

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