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Pai! Papai!
A porta do
quarto demorou um pouco para abrir. Caio olhou para o filho sentado
na cama com os olhos arregalados, o cobertor puxado por cima da cabeça.
Parece um esquimó, pensou o homem, contendo-se para não rir.
- Você chamou,
Cuca?
Uma pergunta
retórica, claro. Mesmo com a TV ligada era capaz de ouvir a voz do
filho.
- Papai, posso
tomar um pouco de água?
Caio assentiu.
Buscou o copo verde para o menino. Só tomava água se fosse do copo
verde. Como de costume, o garoto molhou os lábios e fez que tomava
um gole. Só para disfarçar.
- Agora dorme,
filho, -murmurou o homem, beijando a cabeça morena.
- Papai, posso
ficar com a luz do abajur ligada?
Caio suspirou.
Ultimamente, o garoto dera para ter medo do escuro.
- Não, meu
filho.
- Então, posso
ficar com a porta do quarto aberta?
O pai sorriu.
Sempre um argumentador, sempre com uma idéia escondida na manga.
Igual à mãe, cheia de artimanhas. Laura apareceu no umbral e
sorriu.
- Deixe a porta
aberta, Caio -sussurrou e entrou. Deu um beijo na testa do menino,
que sorriu satisfeito.
- Obrigado, mamãe.
- Agora dorme,
filho -ela murmurou e acariciou-lhe o rosto. Depois levantou-se e
desapareceu com um sorriso de boa-noite. Caio ficou um momento junto
a porta.
- Tudo bem?
Um titubeio.
- Mais ou
menos.
- Quer fazer
xixi?
- Não.
- Olha lá, hem,
Cuca?
- Não, tudo
bem. Não quero fazer xixi.
- Então, boa
noite.
- Pai?
Caio voltou-se,
um pouco cansado, um pouco irritado.
- Sim, meu
filho.
- Deixa eu
acender a luz? Por favor?
A ansiedade na
voz do menino surpreendeu um pouco o homem.
- Cuca, você já
é grandinho. Não tem uma galinha escondida na cortina. Nós já
falamos sobre isso.
O garoto riu um
pouco. Um riso cansado, de soldado que já viu de tudo. Caio sentiu
um arrepio na coluna. Quando era pequeno, o menino fora bicado por
uma choca que defendia os pintos, na casa de sua sogra. Dali em
diante, entrava em pânico quando via uma galinha. Cismara com a
cortina do quarto, com estampa de patos, e Laura a trocara por uma
de foguetes e estrelas,mesmo contra a opinião de Caio. Ele era
engenheiro civil e acreditava em lutar pelos próprios sonhos,
vencer os inimigos, em enfrentar os próprios medos de frente.
Entretanto, mesmo durante o episódio da galinha, nunca, jamais,
ouvira semelhante amargura e ironia no riso do menino.
- Galinhas são
bobocas -disse o garoto.
- Isso mesmo,
bobocas. Só ficam interessantes quando estão cobertas de molho
pardo.
- Fodam-se as
galinhas.
Caio sentiu o
sangue subir imediatamente. Maldita televisão, xingou por dentro. Não
ensina nada de bom para as crianças. Avançou e se sentou na cama
do garoto.
- Cuca, eu já
disse que não quero ouvir você dizendo palavrões. Onde foi
aprendeu isso?
O garoto piscou
aturdido.
- Isso, o quê?
O homem
suspirou profundamente.
- "Fodam-se".
Que coisa mais feia, meu filho!
- Ah, é uma
coisa que ouvi na escola.
Caio franziu o
cenho.A mentira era tão evidente que lhe dava medo.
- Pois então,
vamos ter de falar com a sua professora, - mentiu de volta.
Cuca deu de
ombros. No lusco-fusco do quarto, Caio observou as olheiras do
filho. Não tinha visto como andavam profundas ultimamente.
- Bem, então
estamos combinados. Nada de galinhas. Nada de palavrões. Vamos
dormir?
O menino
estremeceu. Parecia aterrorizado.
- A porta pode
ficar aberta? Por favor?
- O que é que
está acontecendo, Davi?
Cuca repuxou o
canto da boca, preocupado. Quando o pai o chamava pelo nome é
porque o assunto era sério. Será que alguém havia escutado algo?
Ele olhou disfarçadamente para o chão junto à cama, enquanto
dizia "nada", mas então viu algo o gritou. Caio olhou
para o tornozelo e imediatamente viu as pantufas de pé de monstro,
verdes-bandeira. Claro, com coisas como aquelas, como podiam esperar
que o menino dormisse bem? Pantufas de pé de monstro, um boneco de
pelúcia que mais parecia um delírio tremens sentado na cadeirinha
de vime... e mais a TV com seu costumeiro bombardeio de criaturas
espaciais, mecânicas e mágicas. No meu tempo, as coisas eram mais
simples, pensou ele, levantando as patas de pele sintética.
- Cuca, são só
os seus pés de tiranossauro.
O garoto
agarrou-as com energia e as atirou para o outro lado do quarto.
- Não quero
mais saber delas! -gritou. Caio sorriu, orgulhoso.
- Bravo, meu
filho! Amanhã de manhã vamos comprar umas pantufas do Inter,
certo?
O garoto
assentiu sem entusiasmo e Caio sentiu um ponta de vitória sobre a
mulher, gremista doente.
- Bem, então
vamos fazer a ronda no quarto, e depois você vai dormir, ok?
O menino
assentiu lentamente, sem tirar os olhos do tapete junto à cama.
Caio caminhou até a janela e sacudiu a cortina.
- Nada aqui.
Abriu o armário.
- Aqui
tampouco.
Espiou na arca
de brinquedos do filho e engoliu um susto quando uma máscara de
extraterrestre o encarou, fosforescente, desde a escuridão.
- Nem aqui.
Na obscuridade
do quarto, Cuca permanecia imóvel em sua cama. Parecia um náufrago
em sua ilha, desesperado, fitando um tsunami que se aproximava
inexoravelmente.
- Agora,
embaixo da cama.
- Não, papai.
Determinação
firme, fria como gelo. Caio encarou os olhos brilhantes da criança.
- É claro que
vamos olhar debaixo da cama. Só para ter certeza.
O garoto saltou
e parou entre o homem e o vão escuro debaixo do colchão, e só
Deus soube o esforço e coragem que isso lhe custou, exibir seus
tornozelos nus à escuridão de trinta centímetros de altura. Mas
era seu pai que estava em jogo e o amava, e não estava disposto a
voltar atrás.
- Por que não?
- Porque ele
vai te matar.
Ah, então era
isso. O velho "monstro-embaixo-da-cama" ataca novamente,
pensou Caio com um sorriso, afastando de si a sensação de pavor
que o invadiu subitamente. Também ele fora criança, um dia,
lembrou, e o sorriso aumentou, sem perceber que Cuca não expressara
nenhuma dúvida. Não dissera nada infantil como "ele pode te
comer", por exemplo. Caio avançou, sem parar para pensar no ar
de soldado com o último cartucho, que tomou conta do rosto do
filho. Sem parar para perceber que ele se firmava no carpete para um
combate físico. Sem se dar conta de que falava sério, muito sério.
Hesitou um minuto ainda. Repetiu o que ouvira do pai, há muitos
anos.
- Filho, não há
monstros embaixo das camas dos meninos. Eles simplesmente não cabem
ali.
- Não? Então
o que é que há?
A ironia era tão
adulta que lhe soou a monstruosidade.
- Não há nada
lá, Davi, nada. Só, escuridão, poeira e talvez aquele gibi velho
que você perdeu na semana passada.
O menino não
se afastou.
- Não posso
deixar que você olhe, papai.
- O que é que
você está escondendo?
Davi titubeou.
Foi o bastante para Caio o empurrar para o lado com pouca gentileza
e por-se de joelhos. Ouviu o menino gritar e sentiu suas mãozinhas
puxá-lo com força, mas para então já havia enfiado a cara
debaixo da cama. Sentiu algo agarrá-lo com força pelos maxilares,
e ouviu uma voz conhecida e há muito perdida nos pesadelos de sua
infância.
- Olha, quem
apareceu! -disse a voz rouca, o hálito pestilento o inundando, os
olhos amarelos e doentios o fitando zombeteiros. -Cacá! Quanto
tempo! Estava com saudades de você! Fodam-se os anos! Posso te dar
um beijo?
Então, antes
que tivesse tempo de gritar, dentes afiados se fecharam em sua
garganta.
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