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Ela estava
completamente só, agora. Tudo que lhe restava era o vento. O vento
e aquela barriga! Já estava com uns oito meses, ela achava. Não
tinha certeza, porem. Não podia ter!
Com a cor da
tarde vieram-lhe as lembranças. Como sempre!
Tudo estava
colorido agora, limpo. O ar era úmido e suave, a temperatura agradável.
Pessoas dançavam alegremente e se divertiam, bebiam e jogavam. Sem
culpas. A musica que tocava era antiga, mas todos a conheciam. Ela
dançava com um e com outro sem fazer distinção. Satisfazia todos
os seus desejos e dos demais. Não havia por que se preocupar...
Nesse instante o uivo de uma rajada mais forte de vento a trouxe de
volta.
O ar era seco e
trazia dor. O calor beirava o insuportável e do colorido só
restava uma cor... O vermelho! O sol, já quase desaparecia nas
montanhas a sua frente. Vermelho, quente, implacável. Já destruíra
tudo que antes ali houvera. Plantas, animais... tudo... Só restavam
aquela casa grande em ruínas, uns poucos pedaços ainda visíveis
da redoma destruída com a explosão e outros três edifícios
desertos a distância. O resto era pó... pó... somente pó. A cada
rajada mais forte do vento tanto pó era arremessado ao ar que nada
mais podia ser visto como em uma intensa neblina.
Quando a ultima
rajada esmoreceu e a poeira baixou um pouco o sol já se havia ido.
Um calafrio sacudiu seu corpo mesmo com o calor ainda restante, pois
a lembrança do frio que a noite traria era desanimadora.
Ela levantou de
sua cadeira com dificuldade e caminhou, não com menos trabalho, ate
uma espécie de lareira para atear fogo aqueles pedaços de pau seco
que deixara ali na madrugada anterior. O frio virai rápido!
Quando
caminhava em direção a porta podia observar a poeira que seus
passos levantavam. Uma poeira fina que era arremessada para a frente
formando uma pequena nuvem que aos poucos se dissolvia e retornava
ao chão de onde saíra, com uma lentidão assombrosa. Sentia um
leve repuxo na barriga de pele azulada, e pensou que talvez foce
esta noite. Seu sofrimento estava chegando ao fim!
Cinco horas após
o cair da noite, com os ventos lá fora duas vezes mais fortes e o
frio característico pior do que jamais fora, veio a dor derradeira.
A criatura escamosa contorceu-se no chão, onde já havia-se
deitado, e sem emitir nem um único gemido viu seu ventre rasgando
ao meio, seus fluidos corpóreos escorrendo pelo chão empoeirado e
finalmente pode ver sua cria, perfeita, saudável e forte, pronta a
sobreviver naquele mundo que para ela era tão duro e inóspito.
Havia triunfado! Havia suportado tempo suficiente toda aquela dor
para dar à luz àquela nova criatura, adaptada, capaz de ver e
sentir a beleza daquele estranho mundo. Agora era hora de alimentar
sua criança.
A pequena
criatura rastejou para fora do ventre aberto de sua mãe até chagar
a garganta onde parou e com uma única mordida dilacerou a traquéia.
A mão em poucos instantes estava glorificada, morta por asfixia. A
refeição durou umas seis ou sete horas e agora o pequeno novo ser
hibernaria por um ou dois meses. Ate lá já teria desenvolvido sou
corpo o suficiente para ir buscar comida lá fora.
O sol já
tornava a nascer!
Fim?
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