Um Dia Quente e uma Noite Fria

 Miguel Angel Pérez Corrêa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0008]
[Autor: Miguel Angel Pérez Corrêa]
[Título: Um Dia Quente e uma Noite Fria]
[Gênero: Suspense]
[Número de Palavras: 560]

 

Ela estava completamente só, agora. Tudo que lhe restava era o vento. O vento e aquela barriga! Já estava com uns oito meses, ela achava. Não tinha certeza, porem. Não podia ter!

Com a cor da tarde vieram-lhe as lembranças. Como sempre!

Tudo estava colorido agora, limpo. O ar era úmido e suave, a temperatura agradável. Pessoas dançavam alegremente e se divertiam, bebiam e jogavam. Sem culpas. A musica que tocava era antiga, mas todos a conheciam. Ela dançava com um e com outro sem fazer distinção. Satisfazia todos os seus desejos e dos demais. Não havia por que se preocupar... Nesse instante o uivo de uma rajada mais forte de vento a trouxe de volta.

O ar era seco e trazia dor. O calor beirava o insuportável e do colorido só restava uma cor... O vermelho! O sol, já quase desaparecia nas montanhas a sua frente. Vermelho, quente, implacável. Já destruíra tudo que antes ali houvera. Plantas, animais... tudo... Só restavam aquela casa grande em ruínas, uns poucos pedaços ainda visíveis da redoma destruída com a explosão e outros três edifícios desertos a distância. O resto era pó... pó... somente pó. A cada rajada mais forte do vento tanto pó era arremessado ao ar que nada mais podia ser visto como em uma intensa neblina.

Quando a ultima rajada esmoreceu e a poeira baixou um pouco o sol já se havia ido. Um calafrio sacudiu seu corpo mesmo com o calor ainda restante, pois a lembrança do frio que a noite traria era desanimadora.

Ela levantou de sua cadeira com dificuldade e caminhou, não com menos trabalho, ate uma espécie de lareira para atear fogo aqueles pedaços de pau seco que deixara ali na madrugada anterior. O frio virai rápido!

Quando caminhava em direção a porta podia observar a poeira que seus passos levantavam. Uma poeira fina que era arremessada para a frente formando uma pequena nuvem que aos poucos se dissolvia e retornava ao chão de onde saíra, com uma lentidão assombrosa. Sentia um leve repuxo na barriga de pele azulada, e pensou que talvez foce esta noite. Seu sofrimento estava chegando ao fim!

Cinco horas após o cair da noite, com os ventos lá fora duas vezes mais fortes e o frio característico pior do que jamais fora, veio a dor derradeira. A criatura escamosa contorceu-se no chão, onde já havia-se deitado, e sem emitir nem um único gemido viu seu ventre rasgando ao meio, seus fluidos corpóreos escorrendo pelo chão empoeirado e finalmente pode ver sua cria, perfeita, saudável e forte, pronta a sobreviver naquele mundo que para ela era tão duro e inóspito. Havia triunfado! Havia suportado tempo suficiente toda aquela dor para dar à luz àquela nova criatura, adaptada, capaz de ver e sentir a beleza daquele estranho mundo. Agora era hora de alimentar sua criança.

A pequena criatura rastejou para fora do ventre aberto de sua mãe até chagar a garganta onde parou e com uma única mordida dilacerou a traquéia. A mão em poucos instantes estava glorificada, morta por asfixia. A refeição durou umas seis ou sete horas e agora o pequeno novo ser hibernaria por um ou dois meses. Ate lá já teria desenvolvido sou corpo o suficiente para ir buscar comida lá fora.

O sol já tornava a nascer!

Fim?

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