A Ronda

 Douglas Tavares de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Sem Análises 

[Conto para análise #0005]
[Autor: Douglas Tavares de Araújo]
[Título: A Ronda]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 2.586]

 

George parou em frente à grande porta de carvalho do prédio, buscando a chave correta no molho de chaves pendurado em seu cinto. O luar iluminava seu rosto, deixando-o com uma tonalidade pálida. Grilos cantavam no gramado à sua volta. O vento soprava frio vindo do oeste.

Embora não soubesse, naquele momento lhe restavam apenas quarenta e três minutos de vida.

George achou a chave correta. Em um instante, a pesada porta se abriu com um clique. Ele entrou no prédio e fechou-a atrás de si. O cantar dos grilos ficou para trás, agora apenas um zumbido, quase inaudível. Embora já tivesse feito isso incontáveis vezes nos nove anos em que trabalhava como guarda noturno da universidade, ele sempre sentia um calafrio quando fechava aquela porta atrás de si. Não sabia bem por quê, mas o prédio da faculdade de medicina não lhe agradava.

Principalmente quando ele entrava ali à noite.

E sozinho.

Ele imaginou que talvez fossem aquelas enormes estátuas de bronze, no formato de centauros. Elas estavam em uma posição no saguão em que pareciam olhar diretamente para quem quer que entrasse por aquela porta. E à noite,no escuro, elas pareciam muito mais ameaçadoras.

Ou talvez fosse simplesmente o ambiente daquele prédio. A faculdade de medicina era uma das mais antigas daquela universidade, e o prédio em que ele acabara de entrar fora construído no início do século, conforme lhe disseram. George achava que ele tinha um estilo opressivo. Era um prédio escuro, cheio de cantos. Janelas enormes cobriam as paredes de alto a baixo, semelhante a vitrais de uma catedral. Quando a lua estava cheia, como naquela noite, o luar se infiltrava por estas janelas e parecia brincar com as sombras lá dentro.

George naquele momento chegou à conclusão de que não gostava daquele prédio. E, principalmente, não gostava de entrar ali à noite e sozinho.

Mas era o seu trabalho. Ele precisava fazer a ronda. Ligou a lanterna que trazia na mão esquerda e começou a caminhar para o interior do prédio.

Restavam a ele agora apenas quarenta e um minutos de vida.

Enquanto andava, George movia o facho de luz de um lado para outro, cortando a escuridão que o luar que se filtrava pelas janelas não era capaz de dissipar. Enquanto andava, suas botas produziam som no assoalho de madeira. Esse som ecoava pelo prédio, parecendo aumentar de intensidade. Enquanto andava, George não conseguia mais ouvir o canto dos grilos no gramado lá fora. As únicas coisas que conseguia ouvir eram seus passos e o zumbido do vento passando ao redor do prédio.

Além de seu próprio coração, que batia forte.

Ao se aproximar do final do saguão, George direcionou o facho de luz da lanterna para o rosto de um dos centauros de bronze. Da posição em que estava agora, a estátua não parecia mais estar olhando diretamente para ele. Mesmo assim, se sentiu desconfortável, sem saber por quê, e desviou a lanterna. Logo após os centauros, havia um estreito e comprido corredor, que levava à biblioteca. Nesse corredor também ficavam de cada lado, as salas dos professores. George se encaminhou naquela direção.

Enquanto caminhava pelo corredor, a escuridão aumentava mais e mais. Naquela parte do prédio não havia janelas, e a luz da lua não conseguia penetrar. George sentia como se estivesse sendo envolvido pelas trevas.

O vento continuava soprando contra o prédio. Ainda podia ouvir o zumbido.

A única coisa que ele podia enxergar era o círculo iluminado pela lanterna. Por um momento, passou pela sua cabeça o que ele iriam fazer se a lanterna de repente se apagasse. Um calafrio percorreu sua espinha de alto a baixo com este pensamento, e ele o afastou rapidamente.

Ao final do corredor estava a biblioteca. Uma outra porta pesada de madeira a isolava do restante do prédio. George segurou a maçaneta e empurrou a porta com força.

A porta abriu com um gemido de protesto que ecoou por todo o prédio.

O vento pareceu parar de soprar por um instante lá fora. George estacou por um momento, tentando ouvir o zumbido, mas não conseguiu.

Tudo que ouviu foi seu coração.

Ele entrou na biblioteca. Desta vez deixou a porta atrás de si aberta.

A biblioteca estava mais iluminada, pois também possuía janelas, iguais às do saguão. Através de uma delas, George pôde ver a lua cheia, alta no céu. Algumas nuvens estavam tentando encobri-la.

O vento recomeçou a soprar, agora parecendo ainda mais intenso. Ele podia ouvir o vidro das janelas tremendo.

George começou a verificar a biblioteca, seguindo por um corredor estreito entre as estantes. O cheiro de mofo e papel velho o cobriu como um manto. Teve vontade de espirrar, mas conseguiu se controlar.

Enquanto caminhava, movia o facho de luz de um lado para o outro, iluminando pilhas e pilhas de livros. As estantes eram enormes, e era preciso uma escada para atingir as partes mais altas.

George se sentia encurralado ali dentro.

Finalmente, chegou à parede posterior, onde as estantes acabavam. Com um suspiro de alívio, começou a retornar em direção à porta da biblioteca.

Agora lhe restavam apenas trinta minutos de vida.

George fechou a porta da biblioteca. Ao fechar, ela produziu um baque surdo que ecoou por todo o prédio. Ele estava de volta à escuridão do corredor.

George iluminou seu relógio de pulso. Eram exatamente onze e meia. Ele subitamente teve uma vontade irresistível de sair daquele prédio e voltar para o posto de vigilância, onde poderia tomar um café e conversar um pouco com os outros guardas.

Mas ele sabia que não podia fazer aquilo ainda. Ele tinha serviço a fazer. Tinha que fazer a ronda no andar superior. Onde ficavam as salas de aula. E os laboratórios.

Ao sair do corredor escuro para o saguão pontilhado de sombras, George mais uma vez direcionou o facho de sua lanterna para o rosto do centauro de bronze. Ele estava na mesma posição, imóvel, olhando para a porta principal, parecendo disposto a expulsar qualquer intruso que ousasse invadir seus domínios.

Desta vez, porém, George reparou em um detalhe que nunca havia visto antes.

O centauro estava sorrindo.

Ele achou estranho nunca haver reparado naquele detalhe antes. Em todas as noites em que havia olhada para aquela estátua, nunca havia percebido que ela tinha esta expressão.

Curioso, iluminou o outro centauro.

Ele estava sério, uma expressão de raiva no olhar. Era assim que George se lembrava.

Voltou o facho de luz para o primeiro centauro. A expressão de riso continuava lá, imóvel.

George pensou que era engraçado nunca ter reparado antes que um dos centauros tinha uma expressão séria, enquanto o outro parecia sorrir. Tomou nota mentalmente para comentar isto com os outros guardas quando fosse tomar café, dali a alguns minutos.

Então, dirigiu-se à direita, para o local onde ficava a escada que o levaria ao andar superior.

A escada também era do tipo antigo. Larga, com degraus de madeira, e fazendo uma curva no topo. O corrimão também era largo, imponente.

Quando começou a subir, George olhou para cima. No topo da escada havia uma outra estátua de bronze, esta em tamanho menor. Ele não sabia que criatura era aquela, mas devia ser da mitologia grega também, da mesma maneira que os centauros. Era uma criatura assustadora, metade homem, metade pássaro. E olhava diretamente para baixo, para quem estivesse subindo a escada.

Sua expressão parecia carregar um aviso. Um aviso de que alguma coisa ruim iria acontecer a quem se atrevesse a subir aquela escada.

George fitava a estátua enquanto continuava a subir, pé ante pé. A cada passo, a madeira sob seus pés rangia fortemente, e esse som se misturava ao zumbido do vento lá fora e às batidas de seu coração. Ele segurava o corrimão com força.

O luar que se filtrava pelas janelas altas incidia na estátua do homem-pássaro.

George percebeu que também não gostava dela.

Quando ia chegando ao topo da escada, uma nuvem encobriu a lua, jogando todo o prédio na escuridão. George parou onde estava. Apesar da lanterna em sua mão esquerda ainda estar ligada, o facho de luz apontando para o chão, ele não se moveu.

Ele não queria ir lá em cima no escuro.

Alguns segundos depois, o luar voltou a brilhar. A estátua do homem-pássaro ficou visível novamente. George subiu os últimos degraus e passou pela estátua. Chegando ao andar superior.

Tinha agora apenas mais vinte minutos de vida.

Um longo corredor se estendia para os dois lados da escada. Este era um corredor maior do que o outro, mas igualmente mal iluminado. George sabia que seguir o lado da direita ia levá-lo às salas de aula. O lado esquerdo o levaria aos laboratórios.

Ele seguiu para a esquerda.

Mesmo no corredor escuro, George podia ainda ouvir o vento lá fora, batendo contra o prédio e zumbindo com fúria. O vento parecia estar ficando pior. Talvez mais tarde fosse chover.

Enquanto andava, George ia testando as portas dos laboratórios, para se certificar de que estavam trancadas. Havia recebido ordem para fazer isso muitos anos antes, quando começara naquele emprego. Segundo haviam lhe dito, era importante que os laboratórios permanecessem trancados, pois continham objetos valiosos. Qualquer coisa anormal deveria ser verificada.

O facho da lanterna ia iluminando as placas de identificação nas portas dos laboratórios conforme George verificava as maçanetas.

Histologia. Bioquímica. Fisiologia....

Todos trancados. Sem nenhum problema.

George sentiu que seu coração começava a acalmar. Passou a mão pela testa para remover o suor. Ele iluminou a última porta do corredor. Enquanto testava a maçaneta, leu claramente a placa de identificação.

Anatomia.

A maçaneta virou em sua mão e a porta se abriu com um clique.

O coração de George deu um pulo no peito.

Ele empurrou a porta, que abriu com um rangido. Aquele som pareceu se espalhar por todo o prédio, engolfá-lo. Um instante depois, um cheiro também o engolfou, fazendo arder suas narinas e seus olhos. George o reconheceu de imediato.

Formol.

George teve medo. Não queria entrar lá.

Mas tinha que entrar. Era seu trabalho.

Além disso, por que estava com medo? Provavelmente algum professor descuidado havia esquecido a porta destrancada. Só isso.

Deu um passo para dentro do laboratório, colocando inconscientemente a mão direita sobre o revólver 22 que estava no coldre em seu cinto. Deixou a porta aberta atrás de si.

George nunca havia entrado naquele laboratório antes, nesses nove anos em que trabalhava ali. Moveu a lanterna em volta, reconhecendo o terreno.

O laboratório era uma sala quadrada, com cerca de cinco metros de lado. Em uma das paredes, havia uma janela, que estava fechada. Bancadas se estendiam ao longo das paredes, e sobre elas ele pode ver uma série de frascos. Alguns estavam cheios de líquido, com coisas imersas nele. George imaginou o que deveria ser, mas afastou esse pensamento de sua mente.

Uma coisa chamou sua atenção, e ele manteve o facho de luz naquela direção. Bem no meio do laboratório, havia um espaço vazio, ocupado por uma única mesa. Sobre a mesa, um lençol.

George entendeu de imediato o que era aquilo. Apesar do escuro, a luz da lanterna lhe permitiu enxergar as formas do que estava escondido sob o lençol.

Um corpo.

George sentiu seu corpo estremecer.

O vento pareceu zumbir com mais força. A janela do laboratório, mesmo fachada, estremeceu. George pulou de susto.

Com o facho da lanterna fixo no corpo deitado sob o lençol, George começou a se aproximar, pé ante pé. O cheiro do formol parecia mais forte agora, e tornava o ar difícil de respirar. Ele começou a se sentir sufocado. Mesmo assim, tinha um trabalho a fazer.

George se aproximou do corpo. Eram seus últimos quinze minutos de vida.

Ao se aproximar do centro do laboratório, ele notou que ao lado do corpo, à sua direita, havia uma pequena mesa metálica, com rodas. Desviou o facho de luz para lá por um momento: sobre ela, uma bandeja metálica apresentava diversos tipos de instrumentos cirúrgicos.

George voltou a apontar a lanterna para o corpo sob o lençol.

O vento parecia uivar do lado de fora do prédio, furioso. A janela do laboratório estremeceu novamente.

Ele chegou junto ao corpo. Ficou um instante imóvel, olhando para o lençol, indeciso.

Mas na verdade ele sabia o que precisava ser feito.

Segurando a lanterna com a mão esquerda, ele lentamente levou a mão direita até o lençol. Com um gesto rápido, puxou o lençol e descobriu o corpo.

O que viu fez com que ele recuasse um passo, enojado. A lanterna caiu de sua mão, fazendo com que luz e sombras dançassem pela sala como loucos. Ao recuar, ele bateu em uma bancada próxima, fazendo tilintar vários dos potes que estavam sobre ela.

Sobre a mesa jazia o corpo de uma mulher. A pele estava cinzenta, enrugada, devido ao efeito do formol. Mas o pior era seu rosto. Somente metade dele ainda estava intacta. A outra metade estava cortada em tiras, aberto em diversas camadas. O osso da face estava visível em um determinado ponto. Um dos seios também não existia mais. O rosto estava voltado para ele, como se o estivesse olhando com seu único olho. Ele recolocou o lençol rapidamente, sem olhar para o corpo. Pegou a lanterna do chão, debaixo da bancada para onde ela havia escorregado, e saiu rapidamente do laboratório. Fechou a porta atrás de si e encostou-se na parede do corredor, tentando recuperar o controle. Seu corpo tremia, e calafrios percorriam sua espinha de alto a baixo.

Aos poucos, porém, foi recuperando o controle. Respirava fundo, e seu coração parecia querer saltar do peito.

Quando conseguiu se controlar, George percebeu que o zumbido do vento havia parado. Tudo era silêncio. A única coisa que conseguia ouvir era seu próprio coração.

Nesse momento, ainda lhe restavam cinco minutos de vida.

Foi então que ele ouviu o barulho. Claro, nítido, ecoando no silêncio do prédio vazio. Ele soube imediatamente do que se tratava. O reconhecimento explodiu em seu cérebro como uma bomba. A bandeja com os instrumentos cirúrgicos havia caído no chão. George ouviu o som metálico dos bisturis e tesouras se espalhando pelo chão de ladrilhos.

Ele ficou ali, estarrecido, olhando para a porta à sua frente. Seus olhos pareciam querer saltar das órbitas. Sem perceber, havia prendido a respiração.

Não conseguia sair do lugar. Era como se seu corpo não respondesse mais a seu cérebro.

Então ele ouviu os passos.

Passos suaves, arrastando-se no chão de ladrilhos. Alguém com pés descalços. Caminhando para a porta do laboratório.

Largando a lanterna, George correu, desesperado. Fugiu pelo corredor às escuras, sem olhar para trás. Fugiu em direção à escada.

Quando chegou ao final do corredor, porém, foi obrigado a parar, sem poder acreditar no que estava vendo. A estátua do homem-pássaro estava bloqueando a passagem para a escada. Estava olhando diretamente para ele, seus olhos de bronze brilhando à luz do luar que se filtrava pelas janelas do saguão.

Mais além, George pôde ver que os dois centauros também olhavam diretamente para ele. Ambos estavam sorrindo agora.

Então George ouviu os passos atrás de si. Virando-se, pôde ver, apesar da escuridão, a mulher que até instantes atrás estava deitava em uma mesa no laboratório de anatomia. Ela caminhava devagar, arrastando os pés. Estava vindo atrás dele. Em sua mão, George percebeu um bisturi.

Desesperado, George sacou sua arma. Nesse momento, ainda lhe restava um minuto de vida.

O som de cinco tiros ecoou pelo prédio escuro.

Depois começaram os gritos.          

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