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George parou em
frente à grande porta de carvalho do prédio, buscando a chave
correta no molho de chaves pendurado em seu cinto. O luar iluminava
seu rosto, deixando-o com uma tonalidade pálida. Grilos cantavam no
gramado à sua volta. O vento soprava frio vindo do oeste.
Embora não
soubesse, naquele momento lhe restavam apenas quarenta e três
minutos de vida.
George achou a
chave correta. Em um instante, a pesada porta se abriu com um
clique. Ele entrou no prédio e fechou-a atrás de si. O cantar dos
grilos ficou para trás, agora apenas um zumbido, quase inaudível.
Embora já tivesse feito isso incontáveis vezes nos nove anos em
que trabalhava como guarda noturno da universidade, ele sempre
sentia um calafrio quando fechava aquela porta atrás de si. Não
sabia bem por quê, mas o prédio da faculdade de medicina não lhe
agradava.
Principalmente
quando ele entrava ali à noite.
E sozinho.
Ele imaginou
que talvez fossem aquelas enormes estátuas de bronze, no formato de
centauros. Elas estavam em uma posição no saguão em que pareciam
olhar diretamente para quem quer que entrasse por aquela porta. E à
noite,no escuro, elas pareciam muito mais ameaçadoras.
Ou talvez fosse
simplesmente o ambiente daquele prédio. A faculdade de medicina era
uma das mais antigas daquela universidade, e o prédio em que ele
acabara de entrar fora construído no início do século, conforme
lhe disseram. George achava que ele tinha um estilo opressivo. Era
um prédio escuro, cheio de cantos. Janelas enormes cobriam as
paredes de alto a baixo, semelhante a vitrais de uma catedral.
Quando a lua estava cheia, como naquela noite, o luar se infiltrava
por estas janelas e parecia brincar com as sombras lá dentro.
George naquele
momento chegou à conclusão de que não gostava daquele prédio. E,
principalmente, não gostava de entrar ali à noite e sozinho.
Mas era o seu
trabalho. Ele precisava fazer a ronda. Ligou a lanterna que trazia
na mão esquerda e começou a caminhar para o interior do prédio.
Restavam a ele
agora apenas quarenta e um minutos de vida.
Enquanto
andava, George movia o facho de luz de um lado para outro, cortando
a escuridão que o luar que se filtrava pelas janelas não era capaz
de dissipar. Enquanto andava, suas botas produziam som no assoalho
de madeira. Esse som ecoava pelo prédio, parecendo aumentar de
intensidade. Enquanto andava, George não conseguia mais ouvir o
canto dos grilos no gramado lá fora. As únicas coisas que
conseguia ouvir eram seus passos e o zumbido do vento passando ao
redor do prédio.
Além de seu próprio
coração, que batia forte.
Ao se aproximar
do final do saguão, George direcionou o facho de luz da lanterna
para o rosto de um dos centauros de bronze. Da posição em que
estava agora, a estátua não parecia mais estar olhando diretamente
para ele. Mesmo assim, se sentiu desconfortável, sem saber por quê,
e desviou a lanterna. Logo após os centauros, havia um estreito e
comprido corredor, que levava à biblioteca. Nesse corredor também
ficavam de cada lado, as salas dos professores. George se encaminhou
naquela direção.
Enquanto
caminhava pelo corredor, a escuridão aumentava mais e mais. Naquela
parte do prédio não havia janelas, e a luz da lua não conseguia
penetrar. George sentia como se estivesse sendo envolvido pelas
trevas.
O vento
continuava soprando contra o prédio. Ainda podia ouvir o zumbido.
A única coisa
que ele podia enxergar era o círculo iluminado pela lanterna. Por
um momento, passou pela sua cabeça o que ele iriam fazer se a
lanterna de repente se apagasse. Um calafrio percorreu sua espinha
de alto a baixo com este pensamento, e ele o afastou rapidamente.
Ao final do
corredor estava a biblioteca. Uma outra porta pesada de madeira a
isolava do restante do prédio. George segurou a maçaneta e
empurrou a porta com força.
A porta abriu
com um gemido de protesto que ecoou por todo o prédio.
O vento pareceu
parar de soprar por um instante lá fora. George estacou por um
momento, tentando ouvir o zumbido, mas não conseguiu.
Tudo que ouviu
foi seu coração.
Ele entrou na
biblioteca. Desta vez deixou a porta atrás de si aberta.
A biblioteca
estava mais iluminada, pois também possuía janelas, iguais às do
saguão. Através de uma delas, George pôde ver a lua cheia, alta
no céu. Algumas nuvens estavam tentando encobri-la.
O vento recomeçou
a soprar, agora parecendo ainda mais intenso. Ele podia ouvir o
vidro das janelas tremendo.
George começou
a verificar a biblioteca, seguindo por um corredor estreito entre as
estantes. O cheiro de mofo e papel velho o cobriu como um manto.
Teve vontade de espirrar, mas conseguiu se controlar.
Enquanto
caminhava, movia o facho de luz de um lado para o outro, iluminando
pilhas e pilhas de livros. As estantes eram enormes, e era preciso
uma escada para atingir as partes mais altas.
George se
sentia encurralado ali dentro.
Finalmente,
chegou à parede posterior, onde as estantes acabavam. Com um
suspiro de alívio, começou a retornar em direção à porta da
biblioteca.
Agora lhe
restavam apenas trinta minutos de vida.
George fechou a
porta da biblioteca. Ao fechar, ela produziu um baque surdo que
ecoou por todo o prédio. Ele estava de volta à escuridão do
corredor.
George iluminou
seu relógio de pulso. Eram exatamente onze e meia. Ele subitamente
teve uma vontade irresistível de sair daquele prédio e voltar para
o posto de vigilância, onde poderia tomar um café e conversar um
pouco com os outros guardas.
Mas ele sabia
que não podia fazer aquilo ainda. Ele tinha serviço a fazer. Tinha
que fazer a ronda no andar superior. Onde ficavam as salas de aula.
E os laboratórios.
Ao sair do
corredor escuro para o saguão pontilhado de sombras, George mais
uma vez direcionou o facho de sua lanterna para o rosto do centauro
de bronze. Ele estava na mesma posição, imóvel, olhando para a
porta principal, parecendo disposto a expulsar qualquer intruso que
ousasse invadir seus domínios.
Desta vez, porém,
George reparou em um detalhe que nunca havia visto antes.
O centauro
estava sorrindo.
Ele achou
estranho nunca haver reparado naquele detalhe antes. Em todas as
noites em que havia olhada para aquela estátua, nunca havia
percebido que ela tinha esta expressão.
Curioso,
iluminou o outro centauro.
Ele estava sério,
uma expressão de raiva no olhar. Era assim que George se lembrava.
Voltou o facho
de luz para o primeiro centauro. A expressão de riso continuava lá,
imóvel.
George pensou
que era engraçado nunca ter reparado antes que um dos centauros
tinha uma expressão séria, enquanto o outro parecia sorrir. Tomou
nota mentalmente para comentar isto com os outros guardas quando
fosse tomar café, dali a alguns minutos.
Então,
dirigiu-se à direita, para o local onde ficava a escada que o
levaria ao andar superior.
A escada também
era do tipo antigo. Larga, com degraus de madeira, e fazendo uma
curva no topo. O corrimão também era largo, imponente.
Quando começou
a subir, George olhou para cima. No topo da escada havia uma outra
estátua de bronze, esta em tamanho menor. Ele não sabia que
criatura era aquela, mas devia ser da mitologia grega também, da
mesma maneira que os centauros. Era uma criatura assustadora, metade
homem, metade pássaro. E olhava diretamente para baixo, para quem
estivesse subindo a escada.
Sua expressão
parecia carregar um aviso. Um aviso de que alguma coisa ruim iria
acontecer a quem se atrevesse a subir aquela escada.
George fitava a
estátua enquanto continuava a subir, pé ante pé. A cada passo, a
madeira sob seus pés rangia fortemente, e esse som se misturava ao
zumbido do vento lá fora e às batidas de seu coração. Ele
segurava o corrimão com força.
O luar que se
filtrava pelas janelas altas incidia na estátua do homem-pássaro.
George percebeu
que também não gostava dela.
Quando ia
chegando ao topo da escada, uma nuvem encobriu a lua, jogando todo o
prédio na escuridão. George parou onde estava. Apesar da lanterna
em sua mão esquerda ainda estar ligada, o facho de luz apontando
para o chão, ele não se moveu.
Ele não queria
ir lá em cima no escuro.
Alguns segundos
depois, o luar voltou a brilhar. A estátua do homem-pássaro ficou
visível novamente. George subiu os últimos degraus e passou pela
estátua. Chegando ao andar superior.
Tinha agora
apenas mais vinte minutos de vida.
Um longo
corredor se estendia para os dois lados da escada. Este era um
corredor maior do que o outro, mas igualmente mal iluminado. George
sabia que seguir o lado da direita ia levá-lo às salas de aula. O
lado esquerdo o levaria aos laboratórios.
Ele seguiu para
a esquerda.
Mesmo no
corredor escuro, George podia ainda ouvir o vento lá fora, batendo
contra o prédio e zumbindo com fúria. O vento parecia estar
ficando pior. Talvez mais tarde fosse chover.
Enquanto
andava, George ia testando as portas dos laboratórios, para se
certificar de que estavam trancadas. Havia recebido ordem para fazer
isso muitos anos antes, quando começara naquele emprego. Segundo
haviam lhe dito, era importante que os laboratórios permanecessem
trancados, pois continham objetos valiosos. Qualquer coisa anormal
deveria ser verificada.
O facho da
lanterna ia iluminando as placas de identificação nas portas dos
laboratórios conforme George verificava as maçanetas.
Histologia.
Bioquímica. Fisiologia....
Todos
trancados. Sem nenhum problema.
George sentiu
que seu coração começava a acalmar. Passou a mão pela testa para
remover o suor. Ele iluminou a última porta do corredor. Enquanto
testava a maçaneta, leu claramente a placa de identificação.
Anatomia.
A maçaneta
virou em sua mão e a porta se abriu com um clique.
O coração de
George deu um pulo no peito.
Ele empurrou a
porta, que abriu com um rangido. Aquele som pareceu se espalhar por
todo o prédio, engolfá-lo. Um instante depois, um cheiro também o
engolfou, fazendo arder suas narinas e seus olhos. George o
reconheceu de imediato.
Formol.
George teve
medo. Não queria entrar lá.
Mas tinha que
entrar. Era seu trabalho.
Além disso,
por que estava com medo? Provavelmente algum professor descuidado
havia esquecido a porta destrancada. Só isso.
Deu um passo
para dentro do laboratório, colocando inconscientemente a mão
direita sobre o revólver 22 que estava no coldre em seu cinto.
Deixou a porta aberta atrás de si.
George nunca
havia entrado naquele laboratório antes, nesses nove anos em que
trabalhava ali. Moveu a lanterna em volta, reconhecendo o terreno.
O laboratório
era uma sala quadrada, com cerca de cinco metros de lado. Em uma das
paredes, havia uma janela, que estava fechada. Bancadas se estendiam
ao longo das paredes, e sobre elas ele pode ver uma série de
frascos. Alguns estavam cheios de líquido, com coisas imersas nele.
George imaginou o que deveria ser, mas afastou esse pensamento de
sua mente.
Uma coisa
chamou sua atenção, e ele manteve o facho de luz naquela direção.
Bem no meio do laboratório, havia um espaço vazio, ocupado por uma
única mesa. Sobre a mesa, um lençol.
George entendeu
de imediato o que era aquilo. Apesar do escuro, a luz da lanterna
lhe permitiu enxergar as formas do que estava escondido sob o lençol.
Um corpo.
George sentiu
seu corpo estremecer.
O vento pareceu
zumbir com mais força. A janela do laboratório, mesmo fachada,
estremeceu. George pulou de susto.
Com o facho da
lanterna fixo no corpo deitado sob o lençol, George começou a se
aproximar, pé ante pé. O cheiro do formol parecia mais forte
agora, e tornava o ar difícil de respirar. Ele começou a se sentir
sufocado. Mesmo assim, tinha um trabalho a fazer.
George se
aproximou do corpo. Eram seus últimos quinze minutos de vida.
Ao se aproximar
do centro do laboratório, ele notou que ao lado do corpo, à sua
direita, havia uma pequena mesa metálica, com rodas. Desviou o
facho de luz para lá por um momento: sobre ela, uma bandeja metálica
apresentava diversos tipos de instrumentos cirúrgicos.
George voltou a
apontar a lanterna para o corpo sob o lençol.
O vento parecia
uivar do lado de fora do prédio, furioso. A janela do laboratório
estremeceu novamente.
Ele chegou
junto ao corpo. Ficou um instante imóvel, olhando para o lençol,
indeciso.
Mas na verdade
ele sabia o que precisava ser feito.
Segurando a
lanterna com a mão esquerda, ele lentamente levou a mão direita até
o lençol. Com um gesto rápido, puxou o lençol e descobriu o
corpo.
O que viu fez
com que ele recuasse um passo, enojado. A lanterna caiu de sua mão,
fazendo com que luz e sombras dançassem pela sala como loucos. Ao
recuar, ele bateu em uma bancada próxima, fazendo tilintar vários
dos potes que estavam sobre ela.
Sobre a mesa
jazia o corpo de uma mulher. A pele estava cinzenta, enrugada,
devido ao efeito do formol. Mas o pior era seu rosto. Somente metade
dele ainda estava intacta. A outra metade estava cortada em tiras,
aberto em diversas camadas. O osso da face estava visível em um
determinado ponto. Um dos seios também não existia mais. O rosto
estava voltado para ele, como se o estivesse olhando com seu único
olho. Ele recolocou o lençol rapidamente, sem olhar para o corpo.
Pegou a lanterna do chão, debaixo da bancada para onde ela havia
escorregado, e saiu rapidamente do laboratório. Fechou a porta atrás
de si e encostou-se na parede do corredor, tentando recuperar o
controle. Seu corpo tremia, e calafrios percorriam sua espinha de
alto a baixo.
Aos poucos, porém,
foi recuperando o controle. Respirava fundo, e seu coração parecia
querer saltar do peito.
Quando
conseguiu se controlar, George percebeu que o zumbido do vento havia
parado. Tudo era silêncio. A única coisa que conseguia ouvir era
seu próprio coração.
Nesse momento,
ainda lhe restavam cinco minutos de vida.
Foi então que
ele ouviu o barulho. Claro, nítido, ecoando no silêncio do prédio
vazio. Ele soube imediatamente do que se tratava. O reconhecimento
explodiu em seu cérebro como uma bomba. A bandeja com os
instrumentos cirúrgicos havia caído no chão. George ouviu o som
metálico dos bisturis e tesouras se espalhando pelo chão de
ladrilhos.
Ele ficou ali,
estarrecido, olhando para a porta à sua frente. Seus olhos pareciam
querer saltar das órbitas. Sem perceber, havia prendido a respiração.
Não conseguia
sair do lugar. Era como se seu corpo não respondesse mais a seu cérebro.
Então ele
ouviu os passos.
Passos suaves,
arrastando-se no chão de ladrilhos. Alguém com pés descalços.
Caminhando para a porta do laboratório.
Largando a
lanterna, George correu, desesperado. Fugiu pelo corredor às
escuras, sem olhar para trás. Fugiu em direção à escada.
Quando chegou
ao final do corredor, porém, foi obrigado a parar, sem poder
acreditar no que estava vendo. A estátua do homem-pássaro estava
bloqueando a passagem para a escada. Estava olhando diretamente para
ele, seus olhos de bronze brilhando à luz do luar que se filtrava
pelas janelas do saguão.
Mais além,
George pôde ver que os dois centauros também olhavam diretamente
para ele. Ambos estavam sorrindo agora.
Então George
ouviu os passos atrás de si. Virando-se, pôde ver, apesar da
escuridão, a mulher que até instantes atrás estava deitava em uma
mesa no laboratório de anatomia. Ela caminhava devagar, arrastando
os pés. Estava vindo atrás dele. Em sua mão, George percebeu um
bisturi.
Desesperado,
George sacou sua arma. Nesse momento, ainda lhe restava um minuto de
vida.
O som de cinco
tiros ecoou pelo prédio escuro.
Depois começaram
os gritos.
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