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Um vento gelado
soprava do oeste, apesar da noite estar quente e úmida. Enquanto
ele andava pela alameda, o vento parecia sussurrar por entre as árvores
que se inclinavam sobre o caminho.
Ele andava
devagar, procurando não fazer barulho. A cada poucos passos, ele
olhava em volta, receoso de que alguém o visse. O risco de que isso
acontecesse era pequeno, ele sabia. Já era madrugada, e todos
estavam dormindo.
Uma folha seca
roçou seu rosto, carregada pelo vento. Seu corpo todo estremeceu ao
seu toque. Ele parou por um instante, passando a mão áspera sobre
o local onde a folha tinha batido, tentando afastar a sensação.
Recomeçou a
caminhar, trocando a pá que carregava de um ombro para o outro.
Apesar da lua
estar encoberta, era fácil seguir o caminho. Ele o conhecia muito
bem. Fazia anos que trabalhava ali no cemitério, e podia segui-lo
até de olhos fechados, se quisesse.
Enquanto
pensava na lua, ele olhou para cima por um instante. O céu estava
todo encoberto, nem uma só estrela era visível. Em um determinado
ponto do firmamento, um halo de luz se filtrava através das nuvens
negras, marcando o lugar onde a lua cheia se encontrava. As nuvens
se moviam rápido, impulsionadas por uma força invisível.
Ao longo do
caminho, seus passos ecoavam nas lápides de pedra.
Depois de
alguns minutos caminhando, entrou em uma bifurcação à direita, em
direção ao túmulo que procurava. Estava próximo agora.
Enquanto seguia
por este caminho, a lua surgiu por um instante através de uma
abertura na cobertura de nuvens. Estava linda, resplandecente.
Imediatamente o cemitério se iluminou sob sua luz prateada, e as lápides
lançaram longas sombras pelo caminho que ele seguia, como que
querendo impedi-lo de continuar.
Mas isso não
ia impedi-lo, pois ele não tinha medo da noite, nem do cemitério.
Já trabalhava há muitos anos como ajudante no cemitério para ter
medo. Ele sabia por experiência própria que não existiam coisas
como lobisomens, vampiros ou fantasmas. Isso tudo não passava de
invenções.
O que lhe
causava medo era outra cosa, muito mais real: a fome. Não ter
dinheiro suficiente para sustentar sua família, ter que ver seus
filhos olhando as vitrines das lojas de brinquedos sem poder lhes
dar sequer um presente. Isso sim lhe causava terror.
E é por isso
que ele estava indo para aquele túmulo.
A lua voltou a
se esconder atrás de uma nuvem negra, e o cemitério voltou a ficar
às escuras.
Ele achou
melhor assim. Preferia a escuridão para fazer o que ia fazer.
O vento
continuava a sussurrar por entre as árvores, e agora um outro som
também invadia a noite: o canto incessante de um grilo. Aquele som
trouxe ao homem boas recordações, de um tempo em que ele não
passava de um menino, e trabalhava na roça, ajudando seu pai. Ele
adorava dormir ao som dos grilos.
O homem sorriu,
sozinho, enquanto caminhava pela alameda escura do cemitério.
Pouco depois,
ele parou em frente a um túmulo. A lápide não era nova, mas havia
sido cuidada recentemente, embora fosse impossível notar qualquer
diferença com a pouca luminosidade que se filtrava através das
nuvens. Contudo, o homem sabia disto, por que ele havia ajudado a
limpá-la naquela manhã.
Antes do
enterro.
Cuidadosamente,
ele retirou um ramalhete de flores que havia sido colocado sobre a
terra, encostado à lápide, e a colocou a alguns metros, apoiado em
outro túmulo. Não queria destruir o ramalhete, pois pretendia
recolocá-lo no lugar em que estava após terminar o serviço. Sua
intenção era deixar tudo exatamente como estava, para que ninguém
notasse o que ele iria fazer.
Depois de
apoiar o ramalhete no outro túmulo, ele voltou e se ajoelhou junto
à primeira lápide, colocando a pá a seu lado. Abaixando-se, pegou
um punhado de terra na mão. A terra ainda estava fofa, não tinha
havido tempo para que ela assentasse completamente. Isso era bom.
Iria facilitar seu trabalho.
Enquanto ele
estava ali ajoelhado, um relâmpago cortou o céu no horizonte.
Alguns segundos depois, um trovão se fez ouvir ao longe. Ele ficou
imaginando se aquele vento frio iria trazer chuva.
Era melhor se
apressar, antes que a chuva chegasse.
Havia dois
motivos pelos quais ele havia escolhido desenterrar o corpo na mesma
noite em que ele havia sido enterrado: primeiro, devido à terra. Se
alguns dias se passassem, a terra iria se compactar, e seria
facilmente notado se alguém escavasse. Logo após o enterro, porém,
a terra ainda estava fofa e, além de facilitar o trabalho de cavar,
não levantaria suspeitas no dia seguinte.
O segundo
motivo era muito mais simples: depois de alguns dias, o corpo já
estaria em decomposição, e ele não agüentaria abrir o caixão
naquelas condições.
Afastando esses
pensamento, ele pegou a pá e ficou de pé sobre a terra fofa.
E começou a
cavar.
Outro relâmpago
cortou o céu. Desta vez, o trovão pareceu mais próximo.
A chuva estava
vindo. Ele precisava se apressar.
O grilo
continuava seu canto incessante, enquanto ele retirava a terra fofa
com a pá. Logo, um monte de terra começou a se formar à sua
direita.
Apesar de ser
um homem forte e acostumado ao trabalho duro, ele logo começou a
suar profusamente. O suor escorria por sua testa, fazendo seus olhos
arderem. O vento gelado continuava a castigar sua pele, jogando
pequenos grãos de areia contra seu rosto.
Agora, além do
som do vento nas folhas das árvores e do canto incessante do grilo,
o barulho da pá na terra fofa também se fazia ouvir na noite.
A lua voltou a
aparecer por um instante, agora mais alta no céu. Ele olhou em
volta, temeroso que alguém pudesse vê-lo naquela súbita
claridade, mas não havia ninguém ali. A lua logo voltou a se
esconder.
Ele recomeçou
a cavar.
Não sabia há
quanto temo estava cavando, mas a cova já estava à altura de sua
cintura. Mais um pouco, e ele iria atingir o caixão.
De repente seu
coração gelou, quando ele ouviu um ruído às suas costas. Ele
virou-se rapidamente, deixando a pá cair de suas mãos. Tentou
enxergar, mas a pouca luminosidade não lhe permitia ver quase nada.
Ele ficou ali,
parado, esperando alguém aparecer.
Nada.
Então o som se
repetiu, e ele conseguiu localizar sua fonte: uma velha coruja
estava empoleirada em uma galho de uma árvore, a poucos metros de
onde ele estava. O animal estava ali, imóvel, seus grandes olhos
arregalados olhando diretamente para ele, como que a se perguntar o
que aquele homem estava fazendo ali, no meio da noite.
Ele passou o
dorso da mão na testa para retirar o suor, sujando-a de terra. Não
conseguiu deixar de pensar que avistar uma coruja era tido como um
sinal de mau agouro. Mas afastou esse pensamento enquanto se
abaixava para pegar a pá. Não acreditava nessas bobagens. Em vez
de pensar essas besteiras, era melhor pensar no crucifixo.
O crucifixo.
Era este o motivo pelo qual ele estava ali.
Desde o
primeiro momento em que o vira, não conseguira tirar os olhos dele.
Era lindo, enorme, todo de prata. Devia ter cerca de vinte centímetros
de comprimento.
Ele viu quando
os parentes da morta o colocaram entre suas mãos entrelaçadas, no
início do velório. Ele não entendeu por que eles haviam feito
isso. Um crucifixo como aquele devia valer uma fortuna.
Se ele tivesse
um crucifixo como aquele, nunca mais passaria fome. E poderia
comprar muitos presentes para seus filhos.
Mas, ao invés
disso, o crucifixo estava sendo enterrado com uma velha gorda, que
estava morta e não poderia fazer nada com ele.
Gente rica
tinha suas esquisitices.
Durante todo o
velório, ele não tinha conseguido tirar o crucifixo da cabeça.
Ficou imaginando uma maneira de pegá-lo, mas sabia que se fizesse
isso antes do caixão ser fechado, alguém iria notar, e a polícia
ia ser chamada. Ele não queria isso. Então teve a idéia de voltar
àquela noite. Ele podia desenterrar o caixão, pegar o crucifixo e
recolocar tudo no lugar, sem que ninguém notasse.
Ninguém nunca
ia saber.
Um outro relâmpago
brilhou no céu, e desta vez o trovão o seguiu de imediato. Ele se
encolheu com o susto, e um bater de asas sobre sua cabeça denunciou
que a coruja estava indo procurar abrigo em outro lugar.
Ele tinha que
se apressar. Logo ia começar a chover.
O vento agora
parecia estar soprando mais forte, e mais gelado. Grãos de areia e
folhas secas eram atiradas em seu rosto. Era difícil manter os
olhos abertos.
Mas ele
precisava continuar. Estava quase atingindo o caixão.
As primeiras
gotas de chuva começaram a cair. Eram gotas grandes, que atingiam a
terra com força. Doía no lugar onde elas atingiam seu corpo. Logo,
o céu parecia estar desabando.
Não se ouvia
mais nada além da chuva e do vento. O grilo parou de cantar.
Relâmpagos
cortavam o céu de lado a lado, iluminando a noite. O vento parecia
furioso, empurrando-o e fazendo a chuva atingi-lo ora de um lado,
ora de outro.
Mas ele não
parou de cavar.
Pouco depois,
quando as forças já começavam a lhe faltar e ele já pensava e
desistir, a pá bateu em uma superfície dura, em meio à lama que já
se formava na cova.
O caixão.
O homem caiu de
joelhos, e começou a retirar o resto de terra que ainda havia sobre
a tampa do caixão com as mãos.
Relâmpagos
ecoavam sobre sua cabeça.
Ele então se
levantou, e usou a pá como alavanca para tentar abrir a tampa do
caixão.
Tentou uma,
duas vezes. A tampa parecia não querer soltar.
Uma rajada de
vento mais forte quase o derrubou sobre a lama no interior da cova.
Ele agarrou o cabo da pá com mais força ainda e colocou o peso do
corpo sobre ela.
A tampa do caixão
se abriu com um som de madeira rachando.
Nesse mesmo
instante, a chuva parou por completo. Parecia até que alguém havia
fechado uma torneira, de tão repentino. O homem esqueceu por um
instante do que estava fazendo, e olhou para o céu, aliviado.
Enquanto ele
olhava, a lua surgiu por trás das nuvens, iluminando a noite com
sua luz prateada.
O homem olhou
em volta. Até o vento havia cessado. As árvores, tão castigadas
até um momento antes, estavam imóveis. Não se ouvia mais nada.
Nem mesmo um grilo. A única coisa que ele ouvia era o som de sua própria
respiração, ofegante.
Ele então
olhou para baixo, para o caixão aberto.
A mulher estava
ali, deitada a seus pés.
Ele não havia
reparado direito nela antes, pois somente tivera olhos para o
crucifixo. Agora ele estava vendo que na verdade não era uma velha
gorda, como havia pensado, mas sim uma mulher jovem e bonita. Ela
estava usando um longo vestido negro, e sua face parecia pálida à
luz do luar.
Ele ficou
imaginando por um instante de que ela haveria morrido.
Mas esse
pensamento logo sumiu de sua mente quando ele avistou o crucifixo
entre suas mãos, entrelaçadas à altura do peito. Ele, sim, era
como ele havia visto: grande, de prata. Devia ter até mais de vinte
centímetros, e parecia ter algumas pedras preciosas encravadas.
Ele se ajoelhou
na terra molhada ao lado do caixão, e segurou o crucifixo, mas não
conseguiu retirá-lo imediatamente. Não conseguia soltá-lo das mãos
da morta. Segurou-o com as duas mãos e deu um puxão para poder
liberá-lo. Não queria tocar no corpo.
O crucifixo
soltou de uma vez, e ele quase caiu de costas. Mas conseguiu manter
o equilíbrio.
Ele ficou ali
por um instante, ajoelhado junto à morta, admirando o tesouro em
suas mãos. Era um tesouro, sem dúvida. Iria resolver todos seus
problemas.
Foi então que
ele ouviu a voz. Era uma voz como ele nunca havia ouvido antes.
Feminina, sem dúvida, mas ainda assim não era humana. Parecia mais
um rosnado, um rugido. Contudo, as palavras foram completamente
inteligíveis:
“Isso é
MEU!”
O sangue do
homem gelou quando ele olhou novamente para o caixão. A mulher
morta não estava mais imóvel, mas olhava diretamente para ele, com
uma expressão de fúria nos olhos. Sua boca estava aberta num
esgar, e sua pele pálida parecia pulsar à luz do luar.
Antes que o
homem pudesse gritar ou fazer qualquer coisa, dedos gelados
envolveram sua garganta...
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