O Ladrão de Sepulturas

 Douglas Tavares de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0001] 
[Autor: Douglas Tavares de Araújo]
[Título: O Ladrão de Sepulturas]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 2.060]

Um vento gelado soprava do oeste, apesar da noite estar quente e úmida. Enquanto ele andava pela alameda, o vento parecia sussurrar por entre as árvores que se inclinavam sobre o caminho.

Ele andava devagar, procurando não fazer barulho. A cada poucos passos, ele olhava em volta, receoso de que alguém o visse. O risco de que isso acontecesse era pequeno, ele sabia. Já era madrugada, e todos estavam dormindo.

Uma folha seca roçou seu rosto, carregada pelo vento. Seu corpo todo estremeceu ao seu toque. Ele parou por um instante, passando a mão áspera sobre o local onde a folha tinha batido, tentando afastar a sensação.

Recomeçou a caminhar, trocando a pá que carregava de um ombro para o outro.

Apesar da lua estar encoberta, era fácil seguir o caminho. Ele o conhecia muito bem. Fazia anos que trabalhava ali no cemitério, e podia segui-lo até de olhos fechados, se quisesse.

Enquanto pensava na lua, ele olhou para cima por um instante. O céu estava todo encoberto, nem uma só estrela era visível. Em um determinado ponto do firmamento, um halo de luz se filtrava através das nuvens negras, marcando o lugar onde a lua cheia se encontrava. As nuvens se moviam rápido, impulsionadas por uma força invisível.

Ao longo do caminho, seus passos ecoavam nas lápides de pedra.

Depois de alguns minutos caminhando, entrou em uma bifurcação à direita, em direção ao túmulo que procurava. Estava próximo agora.

Enquanto seguia por este caminho, a lua surgiu por um instante através de uma abertura na cobertura de nuvens. Estava linda, resplandecente. Imediatamente o cemitério se iluminou sob sua luz prateada, e as lápides lançaram longas sombras pelo caminho que ele seguia, como que querendo impedi-lo de continuar.

Mas isso não ia impedi-lo, pois ele não tinha medo da noite, nem do cemitério. Já trabalhava há muitos anos como ajudante no cemitério para ter medo. Ele sabia por experiência própria que não existiam coisas como lobisomens, vampiros ou fantasmas. Isso tudo não passava de invenções.

O que lhe causava medo era outra cosa, muito mais real: a fome. Não ter dinheiro suficiente para sustentar sua família, ter que ver seus filhos olhando as vitrines das lojas de brinquedos sem poder lhes dar sequer um presente. Isso sim lhe causava terror.

E é por isso que ele estava indo para aquele túmulo.

A lua voltou a se esconder atrás de uma nuvem negra, e o cemitério voltou a ficar às escuras.

Ele achou melhor assim. Preferia a escuridão para fazer o que ia fazer.

O vento continuava a sussurrar por entre as árvores, e agora um outro som também invadia a noite: o canto incessante de um grilo. Aquele som trouxe ao homem boas recordações, de um tempo em que ele não passava de um menino, e trabalhava na roça, ajudando seu pai. Ele adorava dormir ao som dos grilos.

O homem sorriu, sozinho, enquanto caminhava pela alameda escura do cemitério.

Pouco depois, ele parou em frente a um túmulo. A lápide não era nova, mas havia sido cuidada recentemente, embora fosse impossível notar qualquer diferença com a pouca luminosidade que se filtrava através das nuvens. Contudo, o homem sabia disto, por que ele havia ajudado a limpá-la naquela manhã.

Antes do enterro.

Cuidadosamente, ele retirou um ramalhete de flores que havia sido colocado sobre a terra, encostado à lápide, e a colocou a alguns metros, apoiado em outro túmulo. Não queria destruir o ramalhete, pois pretendia recolocá-lo no lugar em que estava após terminar o serviço. Sua intenção era deixar tudo exatamente como estava, para que ninguém notasse o que ele iria fazer.

Depois de apoiar o ramalhete no outro túmulo, ele voltou e se ajoelhou junto à primeira lápide, colocando a pá a seu lado. Abaixando-se, pegou um punhado de terra na mão. A terra ainda estava fofa, não tinha havido tempo para que ela assentasse completamente. Isso era bom. Iria facilitar seu trabalho.

Enquanto ele estava ali ajoelhado, um relâmpago cortou o céu no horizonte. Alguns segundos depois, um trovão se fez ouvir ao longe. Ele ficou imaginando se aquele vento frio iria trazer chuva.

Era melhor se apressar, antes que a chuva chegasse.

Havia dois motivos pelos quais ele havia escolhido desenterrar o corpo na mesma noite em que ele havia sido enterrado: primeiro, devido à terra. Se alguns dias se passassem, a terra iria se compactar, e seria facilmente notado se alguém escavasse. Logo após o enterro, porém, a terra ainda estava fofa e, além de facilitar o trabalho de cavar, não levantaria suspeitas no dia seguinte.

O segundo motivo era muito mais simples: depois de alguns dias, o corpo já estaria em decomposição, e ele não agüentaria abrir o caixão naquelas condições.

Afastando esses pensamento, ele pegou a pá e ficou de pé sobre a terra fofa.

E começou a cavar.

Outro relâmpago cortou o céu. Desta vez, o trovão pareceu mais próximo.

A chuva estava vindo. Ele precisava se apressar.

O grilo continuava seu canto incessante, enquanto ele retirava a terra fofa com a pá. Logo, um monte de terra começou a se formar à sua direita.

Apesar de ser um homem forte e acostumado ao trabalho duro, ele logo começou a suar profusamente. O suor escorria por sua testa, fazendo seus olhos arderem. O vento gelado continuava a castigar sua pele, jogando pequenos grãos de areia contra seu rosto.

Agora, além do som do vento nas folhas das árvores e do canto incessante do grilo, o barulho da pá na terra fofa também se fazia ouvir na noite.

A lua voltou a aparecer por um instante, agora mais alta no céu. Ele olhou em volta, temeroso que alguém pudesse vê-lo naquela súbita claridade, mas não havia ninguém ali. A lua logo voltou a se esconder.

Ele recomeçou a cavar.

Não sabia há quanto temo estava cavando, mas a cova já estava à altura de sua cintura. Mais um pouco, e ele iria atingir o caixão.

De repente seu coração gelou, quando ele ouviu um ruído às suas costas. Ele virou-se rapidamente, deixando a pá cair de suas mãos. Tentou enxergar, mas a pouca luminosidade não lhe permitia ver quase nada.

Ele ficou ali, parado, esperando alguém aparecer.

Nada.

Então o som se repetiu, e ele conseguiu localizar sua fonte: uma velha coruja estava empoleirada em uma galho de uma árvore, a poucos metros de onde ele estava. O animal estava ali, imóvel, seus grandes olhos arregalados olhando diretamente para ele, como que a se perguntar o que aquele homem estava fazendo ali, no meio da noite.

Ele passou o dorso da mão na testa para retirar o suor, sujando-a de terra. Não conseguiu deixar de pensar que avistar uma coruja era tido como um sinal de mau agouro. Mas afastou esse pensamento enquanto se abaixava para pegar a pá. Não acreditava nessas bobagens. Em vez de pensar essas besteiras, era melhor pensar no crucifixo.

O crucifixo. Era este o motivo pelo qual ele estava ali.

Desde o primeiro momento em que o vira, não conseguira tirar os olhos dele. Era lindo, enorme, todo de prata. Devia ter cerca de vinte centímetros de comprimento.

Ele viu quando os parentes da morta o colocaram entre suas mãos entrelaçadas, no início do velório. Ele não entendeu por que eles haviam feito isso. Um crucifixo como aquele devia valer uma fortuna.

Se ele tivesse um crucifixo como aquele, nunca mais passaria fome. E poderia comprar muitos presentes para seus filhos.

Mas, ao invés disso, o crucifixo estava sendo enterrado com uma velha gorda, que estava morta e não poderia fazer nada com ele.

Gente rica tinha suas esquisitices.

Durante todo o velório, ele não tinha conseguido tirar o crucifixo da cabeça. Ficou imaginando uma maneira de pegá-lo, mas sabia que se fizesse isso antes do caixão ser fechado, alguém iria notar, e a polícia ia ser chamada. Ele não queria isso. Então teve a idéia de voltar àquela noite. Ele podia desenterrar o caixão, pegar o crucifixo e recolocar tudo no lugar, sem que ninguém notasse.

Ninguém nunca ia saber.

Um outro relâmpago brilhou no céu, e desta vez o trovão o seguiu de imediato. Ele se encolheu com o susto, e um bater de asas sobre sua cabeça denunciou que a coruja estava indo procurar abrigo em outro lugar.

Ele tinha que se apressar. Logo ia começar a chover.

O vento agora parecia estar soprando mais forte, e mais gelado. Grãos de areia e folhas secas eram atiradas em seu rosto. Era difícil manter os olhos abertos.

Mas ele precisava continuar. Estava quase atingindo o caixão.

As primeiras gotas de chuva começaram a cair. Eram gotas grandes, que atingiam a terra com força. Doía no lugar onde elas atingiam seu corpo. Logo, o céu parecia estar desabando.

Não se ouvia mais nada além da chuva e do vento. O grilo parou de cantar.

Relâmpagos cortavam o céu de lado a lado, iluminando a noite. O vento parecia furioso, empurrando-o e fazendo a chuva atingi-lo ora de um lado, ora de outro.

Mas ele não parou de cavar.

Pouco depois, quando as forças já começavam a lhe faltar e ele já pensava e desistir, a pá bateu em uma superfície dura, em meio à lama que já se formava na cova.

O caixão.

O homem caiu de joelhos, e começou a retirar o resto de terra que ainda havia sobre a tampa do caixão com as mãos.

Relâmpagos ecoavam sobre sua cabeça.

Ele então se levantou, e usou a pá como alavanca para tentar abrir a tampa do caixão.

Tentou uma, duas vezes. A tampa parecia não querer soltar.

Uma rajada de vento mais forte quase o derrubou sobre a lama no interior da cova. Ele agarrou o cabo da pá com mais força ainda e colocou o peso do corpo sobre ela.

A tampa do caixão se abriu com um som de madeira rachando.

Nesse mesmo instante, a chuva parou por completo. Parecia até que alguém havia fechado uma torneira, de tão repentino. O homem esqueceu por um instante do que estava fazendo, e olhou para o céu, aliviado.

Enquanto ele olhava, a lua surgiu por trás das nuvens, iluminando a noite com sua luz prateada.

O homem olhou em volta. Até o vento havia cessado. As árvores, tão castigadas até um momento antes, estavam imóveis. Não se ouvia mais nada. Nem mesmo um grilo. A única coisa que ele ouvia era o som de sua própria respiração, ofegante.

Ele então olhou para baixo, para o caixão aberto.

A mulher estava ali, deitada a seus pés.

Ele não havia reparado direito nela antes, pois somente tivera olhos para o crucifixo. Agora ele estava vendo que na verdade não era uma velha gorda, como havia pensado, mas sim uma mulher jovem e bonita. Ela estava usando um longo vestido negro, e sua face parecia pálida à luz do luar.

Ele ficou imaginando por um instante de que ela haveria morrido.

Mas esse pensamento logo sumiu de sua mente quando ele avistou o crucifixo entre suas mãos, entrelaçadas à altura do peito. Ele, sim, era como ele havia visto: grande, de prata. Devia ter até mais de vinte centímetros, e parecia ter algumas pedras preciosas encravadas.

Ele se ajoelhou na terra molhada ao lado do caixão, e segurou o crucifixo, mas não conseguiu retirá-lo imediatamente. Não conseguia soltá-lo das mãos da morta. Segurou-o com as duas mãos e deu um puxão para poder liberá-lo. Não queria tocar no corpo.

O crucifixo soltou de uma vez, e ele quase caiu de costas. Mas conseguiu manter o equilíbrio.

Ele ficou ali por um instante, ajoelhado junto à morta, admirando o tesouro em suas mãos. Era um tesouro, sem dúvida. Iria resolver todos seus problemas.

Foi então que ele ouviu a voz. Era uma voz como ele nunca havia ouvido antes. Feminina, sem dúvida, mas ainda assim não era humana. Parecia mais um rosnado, um rugido. Contudo, as palavras foram completamente inteligíveis:

“Isso é MEU!”

O sangue do homem gelou quando ele olhou novamente para o caixão. A mulher morta não estava mais imóvel, mas olhava diretamente para ele, com uma expressão de fúria nos olhos. Sua boca estava aberta num esgar, e sua pele pálida parecia pulsar à luz do luar.

Antes que o homem pudesse gritar ou fazer qualquer coisa, dedos gelados envolveram sua garganta...    

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