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Pequeno Manual de Tradução da Língua Inglesa

 

O que é tradução?

             Segundo os dicionários, tradução é o ato de traduzir; obra traduzida; obra passada de uma língua para outra...

 O que é traduzir?

             Ainda segundo os dicionários, traduzir é transpor de uma para outra língua; interpretar; verter... Mas será que é somente isso? Assim tão simples?

 Veja o que diz Geir Campos em seu livro Como Fazer Tradução, publicado pela Editora Vozes:

 A tradução é uma senhora que sempre andou “na boca do povo”, como se diz: parece que ela sempre esteve na berlinda, e as coisas que se têm dito dela nem sempre têm sido as mais elogiosas, nem sequer as mais compreensivas – como se houvessem, contra ela, uma espécie de preconceito ou prevenção. Existem, é claro, os adeptos fanáticos, que a louvam com todas as cordas do coração; assim como existem, de outro lado, e aparentemente em maior número, pessoas que falam mal dela com todo o veneno de que são capazes.

Os italianos chegaram a cunhar um malicioso joguinho de palavras – traduttore, traditore – que em outras línguas neolatinas tentam substituir-se por expressões correspondentes (traducteur, traître, em francês; tradutor, traidor, em português), mas sem a combinação de sons que perfaz o encanto do trocadilho italiano. Nas línguas que não descendem do latim, a dificuldade em repetir esse jogo de palavras é ainda maior – embora não falte quem o tente, sempre com o propósito de denegrir a arte ou técnica de traduzir...’

 

A tradução é, portanto, uma arte!

 

Veja também as definições da tradução e do tradutor apresentadas por Paulo Rónai em seu livro A Tradução Vivida, publicado pela Editora Nova Fronteira:

 

‘A tradução de que este livro trata é a interlingual, isto é, a reformulação de uma mensagem num idioma diferente daquele em que foi concebida. Quer dizer que dele está excluída qualquer outra operação intelectual a que o termo tradução se possa aplicar em sentido figurado.

Ao vazarmos em palavras um conteúdo que em nosso pensamento existia apenas em estado de nebulosa, fenômeno constante em todos os momentos conscientes da vida, estamos também traduzindo, mas praticamos a tradução intralingual, operação esta que tem as suas próprias dificuldades e cujo resultado muitas vezes nos deixa insatisfeitos.

Além disto, estamos traduzindo também  quando, através das fórmulas usadas por nosso interlocutor em obediência a convenções sociais,  tentamos descobrir o seu pensamento verdadeiro. Valendo-nos de nossa experiência de todos os dias, praticamos a tradução sociolingüística ao interpretar por “não” a frase tão brasileira “Está difícil”, quando recebemos numa repartição qualquer em resposta a uma pretensão nossa.

Pode-se falar, enfim, de tradução intersemiótica, aquela a que nos entregamos ao procurarmos interpretar o significado de uma expressão fisionômica, um gesto, um ato simbólico, mesmo desacompanhados de palavras. É em virtude dessa tradução que uma pessoa se ofende quando a outra não lhe aperta a mão estendida ou se sente à vontade quando lhe indicam uma cadeira ou lhe oferecem um cafezinho.

Excluídas estas três últimas formas de tradução, voltamos à propriamente dita, a que chamamos de interlingual. É ainda um campo vasto demais para ser examinado em sua totalidade; assim estas considerações visam, sobretudo, à tradução literária, acenando apenas acessoriamente às variantes científica, técnica, comercial, cinematográfica, etc.

             A maioria das pessoas, quando pensa em tradução, faz idéia de uma atividade puramente mecânica em que um indivíduo conhecedor de duas línguas vai substituindo, uma por uma, as palavras de uma frase na língua A por seus equivalentes na língua B.

            Na realidade as coisas se passam de maneira diferente. As palavras não possuem sentido isoladamente, mas dentro de um contexto, e por estarem dentro desse contexto. É freqüente ver citado em obras de lingüística casos de ambigüidade curiosos como estas três orações: a) She made Harry a good wife; b) She made Harry a good husband; c) She made Harry a good cake (“Ela... a) foi uma boa mulher para H., b) fez de H. um bom marido, c) fez um bom bolo para H.”). Na verdade, quase todos os vocábulos estão sujeitos a ambigüidades semelhantes. Ao ouvirmos apenas a cadeia sonora formada pelos sons que compõem a nossa palavra “ponto”, - de que Mestre Aurélio consigna, em seu Novo Dicionário, nada menos de quarenta e quatro acepções principais –, não sabemos se se trata do pedaço de linha que fica entre dois furos de agulha de coser; ou da interseção de duas linhas; ou de parte da matéria ensinada; ou de sinal de pontuação; ou de uma parada de ônibus; ou de livro de presença; ou de empregado de teatro que sopra aos atores, etc.

            Ela só adquire sentido graças às demais palavras que lhe são associadas em enunciados com “costurar um rasgão com alguns pontos”; “traçar uma linha entre dois pontos”; “estudar um ponto”; “esperar o ônibus no ponto”; “assinar o ponto”; “precisar de ponto para recitar um papel”. Só pela sua experiência do português, em particular dos contextos em que a palavra ponto pode figurar, o tradutor conseguirá decifrar qualquer desses enunciados, para depois, em virtude do seu conhecimento de outra língua, formular enunciados equivalentes nesta última.

 

Continua...

 

Atenção: este é apenas um pequeno manual de orientação e não se propõe a ser um curso para tradutores.

 

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