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Luís Vaz de Camões

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O poeta do império


Pouco se sabe sobre a vida que levou o maior poeta português. Muitos tentam arrancar de seus versos a verdade sobre passagens obscuras, amantes misteriosas e relações íntimas com personagens importantes de seu tempo. Sabe-se que Luís Vaz de Camões nasceu por volta de 1524 em Lisboa, em família fidalga, mas sem posses. Pela sua vasta cultura humanística, por suas cartas e por outros pequenos indícios encontrados por pesquisadores, presume-se que passou por Coimbra, embora jamais tenha estudado regularmente na Universidade local. É certo que foi um homem do mundo: com letras e armas, aventurou-se por três continentes.


Armas e letras


Ainda jovem esteve como soldado em Ceuta, onde perdeu um olho e ganhou assim sua imagem definitiva para a posteridade. De sua volta a Lisboa sabemos por suas cartas enviadas a amigos, nas quais fala sem pudores de seus amores, das tascas e das badernas em que participava. Nesta época, ganhou a boemia e um apelido revelador, "Trinca-fortes", plenamente justificado em fato conhecido de sua biografia: foi preso por ferir em briga um funcionário do Paço durante uma festa de Corpus Christi. Após um ano encarcerado, obtém o perdão real e parte para o Oriente, onde permaneceria dezesseis anos. Morou em Macau e, saindo desta cidade a caminho de Goa, naufragou perto da costa, salvando-se a nado. Teria salvo os originais d'Os Lusíadas, mas perdido sua amante chinesa, possivelmente a Dinamene de alguns sonetos e canções. Esteve ainda em Moçambique, onde viveu dos favores de amigos. Ainda pobre, voltou a Lisboa, onde viveu miseravelmente até 1580.


A vida em versos


Camões sintetizou em sua obra todos os elementos formais e temáticos do Classicismo que se encontravam esparsos na cultura literária portuguesa. Com Os Lusíadas, levou o épico à sua forma mais perfeita, integrando as letras portuguesas à tendência renascentista européia. Em sua Lírica, publicada postumamente como Rimas, em 1895, se aproveitou de todas as formas e métricas clássicas, reelaborando com apuro odes, elegias, oitavas, redondilhas, canções, éclogas e sonetos. aprimorou o soneto, cultivado desde Sá de Miranda. Mais importante: Camões sempre imprimiu a marca da experiência pessoal tanto em seus versos que tratam do mundo como nos poemas amorosos. E sua experiência de vida não era a de qualquer um - Camões reuniu um espírito culto e letrado à vivência de um homem de ação. Conheceu seu tempo, conviveu com os homens sob os sóis do Ocidente e do Oriente, por muitas vezes viu a morte de perto. Mais do que ninguém, conheceu e viveu a aurora do Império português.


O lírico


Alguns de seus poemas líricos foram publicados ainda em vida, entretanto, no interior de outras obras. Só seriam coligidos em 1595, quinze anos após sua morte, na edição Rimas. Os versos são fortemente individuais, marca rara num tempo em que muitas vezes eles consistiam em exercícios de habilidade poética. Camões amplia o sentido e o alcance dos cantos de amor: todos os poetas de então glosavam Petrarca e sua concepção do sentimento amoroso. Para Camões, como para Petrarca, o objeto amado é inatingível e idealizado. Mas essa é a sua natureza: o poeta português também integra em seu universo poético o amor carnal, ampliando as contradições existentes entre o real e o ideal, entre o que se concebe e o que se deseja. A idéia de destino (Fortuna) cruel também perpassa o lirismo do autor, e muitas vezes revela sua visão do mundo como um lugar mesquinho e triste.

O épico - Os Lusíadas foi publicado em 1572, e rendeu ao poeta a fama imediata e uma pensão vitalícia que, no entanto, poucas vezes chegava às suas mãos. Camões tomou por modelo Virgílio e a sua Eneida: são dez cantos com 1102 estrofes, as rimas em disposição ab-ab-ab-cc em decassílabos heróicos e sáficos. Seguindo ainda a tradição italiana, dividiu seu épico em cinco partes:

Proposição (estrofes 1 a 3 do canto I), em que apresenta o tema e termina com os famosos versos Cesse tudo que antiga musa canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta.;
Invocação (estrofes 4 e 5 do canto I), endereçada às ninfas do Tejo;
Dedicatória ao jovem D. Sebastião (estrofes 5 a 18 do canto I);
Narração propriamente dita, cantando os episódios mais significativos da vida nacional e, principalmente, a viagem de Vasco da Gama (estrofe 19 do canto I a estrofe 144 do canto X);
Epílogo, que exorta D. Sebastião a prosseguir com as conquistas ultramarinas (estrofes 145 a 156 do canto X).

As contradições d'Os Lusíadas, que tantos debates suscitam, são originadas na cultura humanista e no momento nacional português: a aliança natural entre a mitologia clássica e a religião católica; os sentimentos antagônicos a respeito da guerra, do império e das conquistas; o amor à pátria e o desejo de aventurar-se por outras terras. Ao final, Camões alcançou o seu maior desejo - imortalizar as glórias do Império Português. Sua morte também marca o fim de um ciclo: em 1580, a Coroa de Portugal passa para as mãos de Felipe II, subjugando-se ao domínio espanhol.

 

POEMAS LÍRICOS


Lírica,soneto 5


"Amor é um fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
e servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?"


Lírica,soneto 30


"Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se não a tivesse merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: __ Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.


Lírica,soneto 41


"Aquela fera humana que enriquece
sua presuntuosa tirania
destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando cresce;

se nela o Céu mostrou (como parece)
quanto mostrar ao mundo pretendia,
porque de minha vida se injuria?
Porque de minha morte se enobrece?

Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer-me e cativar-me:
fazei disso no mundo larga história.

Que, por mais que vos veja maltratar-me,
já me fico logrando desta glória
de ver que tendes tanta de matar-me."


Lírica,Ode II


"(...)
Bem cuidei de exaltar em verso ou prosa
aquilo que a alma viu
ante a dureza e mansidão,
primores de beleza desusada;
mas, quando quis voar ao Céu, cantando,
entendimento e engenho me cegou
luz de tão alto preço.

Naquela alta pureza deleitosa
que ao mundo se encobriu
e nos olhos angélicos que são
senhores desta vida destinada,
e naqueles cabelos, que, soltando
ao manso vento, a vida me enredou,
me alegro e me entristeço".


Os Lusíadas,Canto I


"As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta."


Os Lusíadas,Canto VII


"Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que, à custa de vossas várias mortes,
A lei da vida eterna dilatais:
Assi do Céu deitadas são as sortes
Que vós, por muito poucos que sejais,
Muito façais na santa Cristandade.
Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

Vede'los Alemães, soberbo gado,
Que por tão largos campos se apacenta;
Do sucessor de Pedro rebelado,
Novo pastor e nova seita inventa;
Vede'lo em feias guerras ocupado,
Que inda co cego error se não contenta,
Não contra o superbíssimo Otomano,
Mas por sair do jugo soberano.

Vede'lo duro Inglês, que se nomeia
Rei da velha e santíssima Cidade,
Que o torpe Ismaelita senhoreia
(Quem viu honra tão longe da verdade?),
Entre as Boreais neves se recreia,
Nova maneira faz de Cristandade:
Pera os de Cristo tem a espada nua,
Não por tomar a terra que era sua."

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