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[23/abril/2002
- 20:00] (Abre) Perder as coisas não é uma novidade para mim. Quando criança, eu e meus pais vivíamos indo para Assis, no interior de SP, visitar meu irmão Kita. Certa vez, quando voltávamos, paramos num posto de gasolina pois o carro estava "quebrando". Uma hora depois, quando já continuávamos a viagem, senti falta do tênis que minha mãe tinha me dado uma semana antes. Tarde demais; ficou pro filho do dono do posto de gasolina. (Fecha) Então, quem encontrar a
minha chave me passa um e-mail. É
uma única chave, dessas de cadeado, com um chaveiro meio redondinho
preto. Valeu.
Essa porra de caneta não acaba logo. BIC – bosta (i)scrota do caralho. [31/março/2002]
- 13:10 [29/março/2002]
- 15:45 Vizinho, Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará ao 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas - e prometo silêncio. ... Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela". E que o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa das árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz. [29/março/2002] - 13:30
Estive as últimas semanas procurando pela internet um poema de Arnaldo
Antunes que aparece no filme "Bicho de Sete Cabeças". Acabei
achando ontem também. Segue abaixo: O Buraco do
Espelho pro lado de cá não tem acesso a janela some na parede já tentei dormir a noite inteira o buraco do espelho está fechado
[28/março/2002]
Confesso também o meu medo das críticas, que virão a partir do momento
que esse site estiver no ar. Nunca expus (é assim que se escreve?!)
minhas opiniões e textos dessa forma, a não ser por um conto
meu que o Andre Takeda publicou na TXT Magazine. Mas, continuando, prefiro
correr esse risco de ser criticado do que manter meus textos engavetados.
Que seja assim.
Para terminar, vou dar uma dica de um site que visitei hoje pela manhã.
É do jovem e bom escritor Daniel Galera, que escreveu Dentes Guardados. Lá,
há um conto que achei maravilhoso chamado "razão para ir a um
funeral". Vale muito a pena. Para ilustrar a estréia do site, aí vai um micro-conto meu: Culpado
emocional
Choveu muito ontem mas, mesmo assim, eu sentei ali no banco daquela mesma
praça, você lembra? As pessoas voavam calmas e os pássaros andavam
apressados. Eu parei para pensar em tudo que eu havia feito. Onde será
que você estaria agora? O que eu poderia fazer para que você aparecesse?
Eu sou culpado?
Tudo bem, eu assumo, fui eu quem matou John Lennon. Sério, fui eu mesmo.
Fui eu também quem disparou contra o papa e contra John Kennedy. Enquanto
você dormia no seu quarto, trancada com suas alucinações, eu limpava o
mundo para que quando você saísse, nós fossemos soberanos. Você
percebeu isso? O lugar lindo que nós viveremos eu já havia imaginado
desde da minha infância.
E, mesmo assim, o que você fez? Ou melhor, o que você não fez? Não sei
em que lugar do mundo o seu quarto está escondido; mas, saiba, que o
jardim está lindo; tem uma roseira bem no meio e uma tartaruga. A sua
comida preferida também já está na mesa e o disco da Cássia está
pausado na 11º música. Agora só falta você. |