MANE NINGUÉM

Aconteceu há muito tempo, na época dos sentimentalistas de saudosa memória. Mane Ninguém era estupidamente feliz.
Nada possuía além da esplendorosa liberdade em que vivia.
Livre como os pássaros, o vento, os arroios cristalinos!
Não tinha mãe, nem pai, ninguém se importava com ele.
Caminhava descalço pela estrada, comia onde lhe davam trabalho, depois seguia seu caminho sorrindo para a vida, dormindo em qualquer parte, tendo por teto a amplidão do infinito enfeitado de estrelas que piscavam para ele gaiatamente.
Sem ambições e sem vaidades sorvia a longos haustos a delícia de viver.
UM dia, seus olhos cruzaram com lindos olhos negros e brilhantes, que o fitaram demoradamente... Mane Ninguém que desconhecia a inquietude, começou a ficar pensativo, apalermado e triste.  Não compreendia porque de repente tudo  mudara e como só agora percebera como era pobre e miserável...
Aquele olhar invadira seus nervos e ficara sem saber se o que sentia era prazer ou dor!  Começou a definhar. Sentia-se preso a um círculo invisível.
Já não tinha incentivo para o trabalho, esquecia-se de comer e ao deitar julgava a vida hostil.  Pensamentos confusos o assaltavam e em sua ingenuidade dizia: "Pode um sapo desejar uma estrela"?  O infeliz amara um impossível amor do qual jamais poderia chegar perto...  Mane Ninguém sofria e sua esplendorosa sensação de liberdade desaparecera no instante que aquele insidioso olhar o enfeitiçara.
Seu aspecto tornou-se cada vez mais miserável, mas em seus olhos brilhavam dois sóis.    Pobre Mane Ninguém...   Desesperado evadiu-se da vida...
Encontraram-no pendurado a uma velha árvore. Havia  encontrado um meio de retomar sua preciosa liberdade.
E é por isso que não se encontra mais Mane Ninguém cantando pelas estradas do mundo, livre como os pássaros, o vento e os arroios cristalinos...
Myriam
Novembro de 1951




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