Os ventos


        Ventos que viram a página
        do velho testamento
        são abacates; laranjas aqueles que
        rebolam árvores choronas
        após a chuva;
        os da revolta dos que não  
        suportam o frio,
        abóboras; limões
        dos cataventos, limões
        dos leques, limões
        dos ventiladores.
   
        Uns, derrubam casas e chapéus;
        outros, apagam velas e
        até conduzem-nas:
        esses, cinzas; aqueles, dourados.
   
        Gosto quando os vermelhos,
        em forma de mãos,
        levantam saias no centro
       (saias que, outras mais compridas,
        munidas de crucifixos,
        sonham esticar);
        os azuis,
        tratores pequenos de pilha
        com seus letárgicos motoristas,
        carregam latas de refrigerante;
        os rosas,
        gaivotas retardatárias, 
        cabra-cegam balões
       (balões de São João,
        balões dos diabos,
        balões de foguetório). 
   
        Valendo-se da sobra das tintas
       (e suas misturas
        possíveis e impossíveis)
        com que Rimbaud  
        - o mestre da pintura -
        tingiu as vogais,
        os ventos coloriram-se, 
        após secarem
        cada uma das cinco
        letras.
   
  

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