Quando ela olha pela janela,
vê cavalos e o sorveteiro;
até queria um de morango,
mas hoje não tem dinheiro.
Quando ela olha pela janela,
vê borboleta virar trovão.
Quase se assusta quando o baú
se torna carvão.
Quando ela olha pela janela,
vê a vizinha - baixinha, mulata-
corneando o pobre marido
com um astronauta.
Quando ela olha pela janela,
vê os cegos das cinco e meia
voltarem do tiro ao alvo
com uma sereia.
Quando ela olha pela janela,
vê ciganas com dentes de ouro,
gnomos que fumam cannabis,
asas em botas de couro.
Quando ela olha pela janela,
vê o molejo estranho de Anita,
pedindo esmolas esmolas a troco
da canção bonita.
Ela é jovem e esquizofrênica,
vê dinossauros e a Cinderela.
De real só o seu delírio:
no seu barraco nem tem janela.