Onze primaveras (Karma) ou Alma de artista (O suicídio do homem do saco
Resolveu - após onze longas
e depressivas primaveras -
sair de casa
(a única que possuía
fogão e geladeira
naquele vilarejo rústico).
Quis bater dama com os outros velhos.
O céu, lindo, sorria.
Inventou o xadrez enquanto esperava.
Taxado insano, retirou-se cabisbaixo.
Ancorou no bar - recinto em que
faz-se amigos pelo
tempo de
um porre e
por vezes
o tempo
de um cigarro - aonde
por descuido derramou
seu xarope de glicose
no conhaque de alcatrão
inventando assim
a Coca-Cola.
Acharam-lhe
- ele: o homem que inventou
o sabão em pó -
nojento.
Expulso a pontapés
pelos outro bêbados
parou só quando viu
um aglomerado de jovens.
Reinventou o futebol
em cinco passes mas
o segundo drible mágico
rendeu-lhe um cartão
vermelho.
Entre a primeira promessa (não inventar
nada, jamais)
e a segunda (tornar-se
um homem médio)
percebeu que ventava
muito e
o simpático sexagenário decidiu
- não antes de confessar-lhes
ter ninguém nesse mundo -
empinar pipa com as crianças.
Queria apenas meninar mas
os inventos não cessavam :
O pára-raio ao trovejar,
o avião quando a raia
desprendeu-se e
o suicídio após
os guris abandonarem a quem
a mãe ruiva do mais branco deles
denominou
``homem do saco``.
Seria enterrado como indigente se,
vinte minutos após sua morte,
não tivesse inventado a ressurreição.