Para Delourdes de Jesus (vó)
O travesseiro que herdei da infância
- e até hoje descansa a minha cachimônia -
nada tem do tempo
em que éramos bebês.
Cheiroso nasceu em São Paulo, 1983.
De seu primeiro manto (fronha)
nenhuma especulação,
lenda ou fotografia ;
o retalho e a linha
substituídos no primeiro transplante,
aos onze anos de idade ;
engorda-lhe-ia algodão,
ao invés de espumas,
não fossem afiadíssimos
os dentes que, fatidicamente,
esvaziaram-no
na virada do milênio.
Moldado, pouco a pouco,
em cirurgias necessárias,
notei-lhe o novo apenas
ao achar, dia desses,
um olhar
de parente distante
na bagunça do chão.
Querido e criminoso tempo,
seu capanga - disfarçado, quase sempre
de rotina - levou a fronha
do Cheiroso, o retalho
do Cheiroso, a linha
e o algodão do Cheiroso.
Ele que não ouse,
jamais, levar
- fruto do sopro
de minha avó costureira -
a alma do Cheiroso :
tudo que lhe resta
do dia do presente.